Autor: Robertson B. Mayrink

  • Lírio partido

    O pai adotivo de Lucy (Lilian Gish) pede a ela um sorriso. Lucy é incapaz de sorrir devido aos sofrimentos constantes por que passa, uma vida miserável, implacável, sentida nas frequentes surras que leva do pai, lutador de boxe que descarrega sua raiva e frustrações com chicotadas na filha. Temendo desapontar o pai e ganhar nova surra, Lucy coloca os dedos indicador e médio nos cantos dos lábios, como se fizesse o V, e estica a boca, simulando um sorriso que permanece alguns segundos em seu rosto.

    Este gesto acabou se tornando a marca de Lírio partido (Broken blossoms, EUA, 1919) de D. W. Griffith. Lucy usa os dedos em V em outras cenas para abrir seu sorriso melancólico. A menina fora abandonada recém-nascida e adotada pelo Lutador. Violento, bêbado e descontrolado, ele usa a filha como saco de pancadas ao menor sinal de contrariedade. Lucy se arrasta pelas ruas de Londres até que conhece o Chinês, jovem que abandonou o oriente para difundir as ideias do Buda, mas rapidamente conheceu o mundo miserável e se entregou ao vício de narcóticos, enquanto busca sentido para a vida. Os dois se apaixonam e vivem um trágico romance.

    Lírio partido é dos primeiros e mais contundentes melodramas do cinema. Lilian Gish conta que o famoso gesto dos lábios aconteceu por acaso. A atriz contraíra a gripe espanhola e ficara alguns dias sem filmar. Chegou ao set abatida. Griffith pediu a ela um sorriso. Sem motivos para isso, ela intuitivamente levou os dedos aos lábios, esticando-os. O diretor gostou e esse gesto se transformou no aspecto simbólico do sofrimento da jovem Lucy. Reflete também a sensibilidade de Griffith, seu domínio pioneiro da narrativa cinematográfica. A importância de Griffith consiste na capacidade de articular os planos e movimentos de câmera a favor da narrativa, criando suspense, motivando o espectador a antecipar e sofrer com a sequência das ações.

    Em O nascimento de uma nação (1915), seu primeiro clássico, Griffith cria espetacular sequência final de suspense e angústia para o espectador ao contrapor planos da cabana sendo atacada com cavaleiros correndo para salvar os refugiados. À medida que os atacantes vencem a resistência dos sitiados, entrando na cabana, tentando derrubar a porta do quarto, entrando pelas janelas, o diretor corta estas cenas, alternando para o galope desenfreado dos salvadores, tornando os planos cada vez mais ágeis. A alternância das cenas retarda o tempo de tomada da cabana, criando a cada corte angústia e suspense no espectador.

    Impossível desconsiderar nesta sequência, e neste filme, que os atacantes são um grupo de negros e os heróis são a ku klux Khan. Griffith despejou em O nascimento de uma nação sua verve racista. Você assiste ao filme com sentimentos contrastantes: admiração pelas inovações linguísticas e revolta pela abordagem abertamente racista.

    Lírio partido tem outra sequência exemplar para entender a importância do cinema de Griffith: a luta de boxe entre o Lutador e o Tigre, perto do clímax do filme. Lucy, depois de sofrer mais uma surra do pai, foge pelas ruas de Londres e é resgatada pelo oriental que a coloca no andar de cima de sua loja. Aos poucos, Lucy se recupera, surge entre os dois um clima de romance. Um dos amigos do Lutador descobre e conta a ele que a menina está refugiada na casa do oriental. Revoltado, o pai diz que vai acertar as contas com os dois, mas antes tem que derrotar o Tigre em uma revanche de boxe.

    É outro aspecto importante das inovações introduzidas por Griffith: através do fluxo narrativo da história, ele prepara o espectador para o clímax. A violência do confronto entre o Lutador e o Tigre, no ringue, se alterna com o idílio romântico entre Lucy e o Oriental. Troca de socos e agressões se contrapõem à troca de olhares, de gestos carinhosos. A alternância e o ritmo das cenas paralelas sugerem de forma dramática ao espectador o que está por vir: assim que a luta terminar, vai explodir a verdadeira violência. O espectador imagina que o resultado do confronto pode influenciar tragicamente no destino dos dois amantes, afinal, o Lutador já demonstrara do que é capaz em momentos de frustração, ódio e vingança.

    Esta sequência exemplifica  uma das características fundamentais do jogo narrativo cinematográfico, praticamente definido por Griffith: o espectador se sente impotente, preso à cadeira de cinema, angustiado, tenso, capaz de se projetar em um final trágico ou feliz, com sentimentos suscetíveis, abertos às maravilhosas surpresas que grandes filmes proporcionam.

  • Alice e a Bruxa do Oeste

    Alice deitou a cabeça em meu ombro e me apertou com força. A Bruxa do Oeste fazia malabarismos com sua vassoura, deixando no céu, em um rastro de fumaça, uma frase de alerta a Dorothy. A reação de Alice às aparições da Bruxa era se aproximar cada vez mais. Primeiro, olhar amedrontado, depois, leves arrepios sentidos no toque dos braços, finalmente, a cabeça apoiada no ombro, as mãos enlaçadas em meu antebraço.

    Pouco depois, o filme ganhou aquele ar soturno, as cores berrantes do Technicolor deram lugar a nuances desbotadas. Dorothy e seus amigos penetravam na floresta mal assombrada em direção ao castelo da Bruxa. Alice tremeu levemente e, pela primeira vez, passei o braço por cima de seu ombro, apertando-a, roçando meus lábios em seus cabelos… Um estrondo ecoou no cinema. Imediatamente as luzes e a projeção se apagaram, a sala ficou às escuras. Gritos temerosos, tumulto, o rosto de Alice em meu peito.

    Pequenos pontos luminosos surgiram nas laterais. Os lanterninhas gritavam “calma, calma”, “não se assustem”, “sem correria”. Em vão, meninos já corriam pelos corredores. Um lanterninha subiu no palco e gritou: “é apenas uma queda de luz, fiquem sentados, fiquem sentados, daqui a pouco a luz volta…”

    Os meninos sossegaram aos poucos, ouvi uma frase solta: “um ônibus bateu no poste aí em frente.” Afaguei os cabelos de Alice. “Vou ver o que aconteceu”. Ela me olhou desolada, talvez pensando na Bruxa do Oeste, se ligando a esses acasos que transformam a simples queda de luz em presságios sombrios. “Não saia daqui”. Ela assentiu com a cabeça e, naquele breve instante de olhos recíprocos, a vontade de buscar o que meus sentidos pediam desde que Dorothy cantou “Over the rainbow”: 

    “Não demoro”. Segui pelo corredor até o banheiro nos fundos do cinema. A janela dava para a Av. Amazonas. Do outro lado da avenida, pequena confusão se formava em frente ao ônibus em cima do passeio. A visão do alto deixava claro o acontecido: o ônibus batera no poste, a frente do veículo estava achatada, como a enlaçar o poste.

    Era fim de tarde de domingo, aquela parte do bairro estava sem luz, escuridão total começava a tomar conta do cinema. Voltei para perto de Alice. Ela estava mais calma, conversava com as amigas. Todos já sabiam do acidente. Alguns minutos depois, o lanterninha subiu novamente no palco e avisou que não poderíamos esperar mais. Pediu que saíssemos do cinema com calma, em fila. Na porta, cada um receberia um ingresso válido para a próxima semana.

    No domingo seguinte, voltei ao cinema sem Alice. Dorothy também não estava comigo. Era outro filme, O Mágico de Oz saíra de cartaz.

    Cerca de quinze anos depois, tarde da noite, apaguei as luzes da sala e coloquei a fita no videocassete. Quando Dorothy começou a cantar “Over the rainbow”, eu já estava nas lembranças daquela tarde. Os personagens entraram na floresta mal assombrada. Assisti finalmente ao resto do filme neste estado insensato a que sou levado por filmes do passado. Dorothy acordou em sua casa no Kansas repetindo “não há lugar melhor do que o nosso lar”. Fiquei ainda um tempo na escuridão da sala, como naquela tarde no cinema da minha adolescência. Tentei, inutilmente, relembrar o gosto dos lábios de Alice.

  • O tempo ruge
    clareia
    incenso de almas
    fecha-te tempo
    enegrece, troveja
    enraidece
    mata aos poucos
    esse desejo enfado
    de desfalecer em gotas
    de tempestade d’alma. 

  • Recebi um telegrama
    de mulher desconhecida
    dizia em uma palavra
    o que ouvimos
    dos inimigos mais sutis
    ou dos amigos indiferentes
    – felizaniversário. 

    Dói conhecer agora
    essa outra mulher
    a que ainda em mim vive
    se revelava num silêncio
    quase obsceno.

  • Fui sócio de um sonho
    mas o vendi
    para poder sonhar de novo.

    Tentei fazer da ilusão
    uma porta entreaberta
    mas me perdi de medo
    em um cofre de sete mil trancas.

    Quis apenas sonhar
    mas é daí?
    nada pode contra a realidade
    há não ser encontrar
    uma das sete mil chaves
    e sonhar outra vez. 

  • Cartaz de filme

    Eram os primeiros anos da década perdida. Eu saía do emprego na Rua Rio de Janeiro e caminhava pelo centro da cidade até o ponto de ônibus. O centro ainda não tinha todo esse emaranhado de pernas e carros, mas as pessoas já iam para casa com ansiedade. Na Avenida Paraná, trabalhadores, donas de casa, adolescentes se amontovam no final da tarde debaixo das placas azuis: 1505 – 1504 – 1503. Números marcando o destino.

    Quando o ônibus parava, pouco importava sexo ou fragilidade, a pequena multidão disputava a porta do ônibus. O coletivo demorava a arrancar, o motorista insistia em fechar a porta travada pelos passageiros, a vontade de chegar em casa se sobrepondo ao instinto de sobrevivência. Quando a porta fechava, sobrava nos rostos das pessoas a sensação de vitória e desalento. Vitória pelo embarque; desalento pelos cerca de 30, 40 minutos que passariam espremidos, com a sensação de sardinha em lata, expressão comum na época para designar coletivos em horário de pico.

    Várias vezes eu deixava passar um, dois, três ônibus, esperando inutilmente o desafogo da multidão. Passei a adiar minha chegada ao ponto, dando volta pelos cinemas da cidade. Primeiro no Palladium; descia a Goytacazes até o Metrópole; dali pela Afonso Pena, parava no Acaiaca; subia a Tupis com destino ao Jacques; passava em frente ao Tamoios; gastando tempo no fascinante hábito de olhar cartazes de filmes.

    Eu ficava alguns momentos parado no saguão de entrada de cada cinema, olhando as fotos dos cartazes, nomes de atores, atrizes, diretor. Às vezes, anotava a data de estreia à lápis num pequeno bloco. Outras vezes, apenas antecipava na mente o filme, especulando, a partir do gênero, personagens, tramas, desfechos. Bons tempos. Ainda não existia a Internet com trailers, resenhas, críticas e tudo que infesta a rede nessa poderosa estratégia de marketing, acabando com o glamour e a surpresa do cartaz do filme.

    Em um início dessas noites, a cidade se mostrou mais confusa, as pessoas mais ansiosas, o coração me pesou, o futuro pareceu incerto. Parei na porta do Cine Palladium. Em cartaz: Blade Runner – O Caçador de Andróides, de Ridley Scott.

    Comprei ingresso e entrei, sessão quase vazia. Cerca de duas horas depois, quando os créditos começaram a subir pela tela, continuei sentado. As poucas pessoas apressadas tomaram seu rumo. Esperei os nomes sumirem na tela, a música cessar.

    Não me levantei. Aos poucos, foi entrando gente para a próxima sessão. O filme começou novamente. Pensei, posso ficar, mais à noite os ônibus passam vazios. Pensei, posso ficar dentro do cinema um pouco mais.

  • Eu tenho um castelo encantado
    e uma princesa
    eu tenho um sol para brilhar meu castelo
    e uma lua para encantar
    as noites de meu castelo encantado
    eu tenho um corpo
    que nada no lago que eu tenho
    eu tenho o azul e o verde
    tenho uma árvore, um passarinho que canta
    tenho um grilo de canções entristecidas
    não tenho relógio e nem dinheiro
    e meu castelo é em nuvens de algodão
    onde mora minha querida Shirley
    cristalina, encantada
    como todos que morrem cedo
    ela me chamava de poeta
    porque naquele tempo
    já lia com olhos de anjo. 

  • Basta
    estou cansado de ser responsável
    defendendo um salário miserável
    vocês sabem o que é frustração?
    então sentem-se atrás de uma mesa de escritório
    e batam máquina o dia inteiro
    enquanto martelam em sua cabeça
    que no sistema capitalista só existem duas opções
    explorar ou ser explorado.

    Chega
    cortem-me a carne
    mas levem também os meus deuses
    não estou mais a fim
    de ser respeitado apenas
    pelo relógio de ponto.

    Acabou
    já sem braços
    feito corpo a sangrar
    vou sair por aquela porta
    e quando eu atravessar a rua
    dirão com certeza
    “lá se vai um homem comum
    perdido, como todo mundo foi um dia”.

  • É apenas uma mensagem
    uma voz eletrônica, longe
    dos lábios que ardiam
    em tempos de loucura.

    Creio que o tempo
    vai aos poucos apagando
    a maravilhosa sensação
    do reencontro.

  • Onde andas?
    Ah, porque me deixaste
    triste assim
    já não suporto mais
    caminhar por ruas
    plenas de recordações
    contemplar a lua
    com olhos de saudade
    é como morrer aos poucos
    sonhando em te encontrar
    vezes sem conta.

  • Qualquer dia a gente se vê por aí
    em algum canto de rua
    sob a chuva de março
    quem sabe
    na manhã de frio repentino
    qualquer dia
    talvez na tarde sufocante
    não importa
    que seja um dia apenas
    pra gente se lembrar
    e se amar pela segunda vez.

  • Nós que nos amávamos tanto
    fomos vencidos pelo
    pronome definido
    que começa e termina toda frase
    forma inalterável de dizer
    Eu.

  • Cuidado com o que fazes
    pois em cada esquina, vigilante
    te espreita um impostor
    soturno, registra seus atos.

    Silêncio, resguarda seus sonhos
    alimenta-os apenas na dormência
    pois podem roubá-los
    ou simplesmente matá-los.

  • Seu perfume ficou em mim
    como uma marca, a lembrança
    do momento em que seu cheiro
    confundiu-se com o suor da tarde
    é o que resta
    buscar seu perfume
    em tardes indistintas da memória. 

  • Dê-nos uma longa e bela madrugada e seremos felizes
    dê-nos uma calça desbotada e uma camisa surrada
    para que possamos sentir nossos corpos
    dê-nos um solo e nós plantaremos
    dê-nos uma árvore e nós colheremos
    não nos dê amigos, deixe-nos conquistá-los
    dê-nos um coração mas não com sentimentos
    deixe que eles nasçam com os dias
    dê-nos um sonho e nós faremos dele outro sonho
    dê-nos asas mas não nos dê liberdade
    deixe-nos lutar por ela
    dê-nos um corpo mas não nos mostre o caminho
    deixe que nossos olhos o apontem
    dê-nos um sol nascendo e faremos dele uma esperança
    deixe-nos ter esperança para brilharmos como o sol
    dê-nos a noite e as estrelas seremos todos
    deixe-nos viver e amaremos como um só. 

  • Paixão
    se tivesse forma
    seria mar
    inquieta
    inconstante
    ruidosa.

    Se tivesse nome
    paixão rimaria
    com tarde insana
    de praias
    febril, excitante
    até se resignar serena
    saudosa.

    Assim a paixão engana
    um jogo de formas e nomes
    desordenada, envolvente
    perigosa
    mistura de desejos
    traidora
    nos joga na aventura
    sem hora
    do corpo e da alma. 

  • Cine Amazonas

    Foi meu primeiro gesto de liberdade. Andei cerca de cem metros da minha casa até o ponto. Peguei o ônibus, paguei o trocador com o dinheiro contado, sentei-me quieto na janela, diminuto no banco, os olhos na altura do começo do vidro. Esticava vez por outra o pescoço para ver o caminho, certeza de não me perder. Desci na Avenida Amazonas, andei menos de um quarteirão, as mãos nos bolsos da bermuda (um hábito que ficou, mãos nos bolsos) tocando o dinheiro, certeza de não perdê-lo, e entrei no Cine Amazonas. Comprei o ingresso, escolhi uma cadeira mais ao fundo, esperei o início do filme.

    Passou a ser meu programa de domingo, abençoado pela mãe “vai com Deus!, meu filho”. Ir ao Cine Amazonas, sozinho ou em turma de meninos, sessões vespertinas, filmes de censura livre que saíam de cartaz direto para as sessões da tarde da Rede Globo. Era só um programa de menino que descobria as desamarras da vida.

    Com o tempo descobri outros caminhos, outros cinemas. O Alvorada, Guarani, aprendi a andar pelo centro da cidade decorando as ruas do Metrópole, Acaiaca, Brasil, Royal, Jacques, Palladium.  Quando eu chegava em casa, minha mãe perguntava simplesmente “gostou do filme?”. Sabia que eu não tinha me desviado porque sabia que para mim era impossível não ir ao cinema.

    Em cada um desses cinemas, guardo lembranças de filmes. Os Dez mandamentos no Cine Guarani, Nasce uma estrela no Acaiaca, 2001 Uma odisséia no espaço no Pathé, King Kong (ou melhor, Jessica Lange), no Brasil, Guerra nas estrelas no Palladium.

    Do Cine Amazonas, ficaram dois filmes, duas músicas. O primeiro, do fim da infância. Judy Garland cantando Over the rainbow, sonhando em sair da pobreza para uma terra encantada, andando por uma estrada de tijolos amarelos ao lado de amigos, o espantalho sem cérebro, o homem de lata sem coração e o leão sem coragem. Destino, a fantasia do Mágico de Oz. Na verdade, um encontro com eles mesmos, na difícil encruzilhada do medo e desejo de cada um.

    O outro filme, do início da adolescência. Katie está num bar e vê Hubbell, um soldado da marinha americana, dormindo na cadeira, bêbado. As lembranças de Katie tomam conta da tela, junto com os créditos do filme e a música The way we were. Hubbell corre pelo campus da universidade e Katie distribui panfletos políticos. Dois jovens, ela uma ativista ambiental e política, radical, não se rende a uma discussão. Ele, despretensioso e sedutor, se deixa levar pelas festas e garotas enquanto cresce o sonho de ser escritor.

    Anos mais tarde, depois da guerra, no bar, seus caminhos voltam a se cruzar. Vão se amar, se casam, têm uma filha. É um filme de quem sonha e luta pela liberdade individual. No final, eles estão separados por uma rua: Hubbell, saindo de um restaurante que o seu sucesso pode pagar; Katie do outro lado distribuindo panfletos políticos. The way we were, minha adolescente lembrança do Cine Amazonas, filme com um dos títulos mais bonitos em português: Nosso amor de ontem.

  • Amanhã estarei só
    num dia sóbrio
    sem amantes
    sem estrelas
    sem  o absinto
    de Oscar Wilde.

    Estarei só
    eu só queria amar
    mas os sonhos
    sempre morrem
    ao entorpecer

  • Duas irmãs tomam sol na praia
    uma tem o olhar longe
    para o namorado distante
    a outra procura pela praia
    vê jovens tem sede.

    Guarde por um momento
    esses olhos adolescentes
    num piscar serão lembranças
    do tempo que desejavam.

    Voltemos anos depois
    lá estão as duas irmãs
    aquela com seu marido ao lado
    na sombra cuida dos filhos
    e tem o mesmo olhar distante.

    A outra toma sol 
    o marido se levanta
    e os olhos da mulher
    olhos com sede adormecida
    se voltam para a quietude 
    do mar sem ondas. 

  • Os olhos de um poeta
    são olhos
    vida
    admiração
    beleza e orgulho
    rebeldia contida
    e constante amor incontido.

    Os olhos de um poeta
    são olhos
    choram
    temem
    adoram e cantam
    a lua
    o sol
    o mar e as estrelas.

    Seus olhos amam
    uma criança ou um cão
    um pobre e um velho
    que sofrem por viver.

    Os olhos de um poeta
    brilham
    de noite sob a lua
    no céu de mil estrelas.

    Os olhos de um poeta
    que olhos
    ardem
    cantam
    choram
    sofrem
    amam demais.