Autor: Robertson B. Mayrink

  • 2046 – Os segredos do amor

    A narrativa começa com exuberantes imagens futuristas de um trem em alta velocidade. Narração indica que o expresso leva a 2046, de onde ninguém nunca regressou, apenas um jovem que demonstra imenso sofrimento dentro de um dos vagões, sem saber há quanto tempo está ali. 

    Corta para a década de 60, o espectador descobre que 2046 é um livro escrito por Chow Mo-Wan (Tony Leung), o mesmo personagem de Amor à flor da pele. É a sua forma de tentar resgatar suas memórias de amor, principalmente de Li-Zhen. O filme retrata uma sucessão de casos amorosos, a maioria tristes e sem perspectivas, envolvendo Chow, que se entrega às mulheres quase por compulsão. Ele mora em um hotel, é fascinado pelo quarto 2046 e as mulheres que passam pelos seus dias entram em suas histórias. 

    2046 – Os segredos do amor faz parte da trilogia de dramas românticos, ou melodramas, de Wong Kar Wai. Completam a série Dias selvagens (1990) e Amor à flor da pele (2000). 

    2046 – Os segredos do amor (2046, China, 2004), de Wong Kar Wai. Com Tony Leung Chiu-Wai, Gong Li, Takuya Kimura.

  • Quinta série

    O vento frio de junho achava seu caminho entre os prédios do campus. Motivado pela estranha nostalgia que manhãs de outono provocam, resolvi caminhar pelos bonitos jardins da universidade. Passei pelo complexo da unidade de saúde. Onde agora é a escola de odontologia, havia campo de terra, quadra de futebol de salão e piscina.

    O centro esportivo era aberto à comunidade nos finais de semana e nas manhãs de sábado eu acompanhava o pai para assistir aos jogos do time do bairro. Meu pai era o treinador, mas sempre tive a impressão que ele apenas distribuía as camisas. Ele andava de um lado para o outro na lateral do campo durante o jogo, gritando com os jogadores e com o juiz. Nada que se parecesse com instruções ou táticas de jogo. Pensando bem, parecido com os técnicos profissionais de hoje.

    Na quinta série, entrei para o colégio da rede católica que naquela época funcionava dentro da universidade. As aulas começavam a uma da tarde. Antes e depois, os meninos jogavam futebol. Às 12h30 em ponto, nos reuníamos na quadra e dividíamos apressados os times. Era apenas meia hora de pelada. Cerca de quarenta minutos depois, ofegantes e suados, entrávamos na sala. As meninas olhavam com repulsa, os professores repetiam sermões sobre bom comportamento, blábláblá sobre a necessidade de aprender a separar as coisas, hora da escola e hora do futebol. Apenas o professor de português nos olhava complacente.

    Depois da aula, era a vez do campo de terra. Onze meninos para cada lado, sem disciplina ou posições definidas, todo mundo indo e voltando como futebol polivalente, correndo atrás da bola até escurecer.

    Quando eu chegava em casa, encontrava o olhar desolado da mãe no meu uniforme sujo de poeira e terra. Esperava por um sermão, um puxão de orelha, algo assim. Ela apenas pedia que eu tirasse logo a roupa e corria para o tanque. No outro dia, na hora da escola, havia sempre uma bermuda e camiseta limpas passadas em cima da cama. Ela me mandava para a aula com um beijo quente no rosto e mil recomendações para não sujar o uniforme.

    Termino meu passeio pela infância nessa manhã de outono no atual prédio da Faculdade de Direito. Aqui ficavam as salas de aula do velho colégio. Foi bem na porta daquela sala, no começo da minha adolescência, que o professor de português me viu sentado na pequena murada branca que separa as salas do pátio, pouco antes da aula começar, o uniforme limpo e bem passado. No terceiro dia em que me viu na mesma posição perguntou:

    – Você parou de jogar futebol?

    – Não estou com vontade.

    Ele olhou furtivamente para o outro lado do pátio e entrou na sala. Eu fiquei ainda alguns minutos. Os olhos fixos na sala em frente, onde as meninas da sexta série conversavam animadamente. Mariana, encostada na parede, de vez em quando olhava para mim, os lábios ensaiando um sorriso.

  • Raios e trovões

    A história aconteceu em uma pequena cidade da Zona da Mata, interior de Minas. Minha mãe brincava no chão da cozinha, perto do fogão à lenha, com irmãos. O irmão mais velho, de 20 anos, estava deitado na mesa da cozinha, um pequeno rádio elétrico em seu peito, escutando notícias do Botafogo, time do coração.

    Era noite de tempestade, relâmpagos e trovões – desses que despertam todos os medos. De repente, o mais ensurdecedor de todos. Todos na cozinha se levantaram em um salto. Menos o irmão que escutava rádio. Ele estava morto. Um raio atingira as imediações e, por uma dessas fatalidades inacreditáveis, o rádio pousado no peito conduziu a descarga, matando-o. Não me questionem das possibilidades científicas ou probabilidades estatísticas,  aconteceu.

    A mãe nunca se recuperou do trauma. Em dias de tempestade, acende uma, dependendo da quantidade de raios e trovões, várias velas para Nossa Senhora. Na infância, me acostumei a vê-la andando pela casa escutando a chuva, mãos segurando o coração a cada trepidar de janelas. Chuva forte, ela apertava os filhos no colo dizendo palavras carinhosas e protetoras  – para ela mesma. Rádio ou qualquer coisa ligada na tomada, nem pensar.

    Quando a chuva diminuía, eu dava um jeito de escapulir para a rua, correr para as brincadeiras de chuva. Tico-tico fuzilado, o perdedor ia para o paredão, braços abertos, rosto voltado para o muro, uma bola de meia molhada deixava uma sádica marca nas costas do pobre condenado; ou simplesmente fazer barricada de pedras e paus na correnteza, pular em poças d’água. Quando voltava para casa, a mãe já tinha esgotado as velas.

    Adolescente, no tempo das águas, eu e amigos descíamos a pé do Estadual Central – do Santo Antônio ao Centro da Cidade – sem guarda-chuva. Eu deixava a chuva entrar pelas roupas, encharcar corpo e alma, sensação de jovens em bando despreocupados da vida. Chegava em casa, a mãe dizia “menino, tira essa roupa e toma um banho quente”. Eu tomava, esquecido de tudo.

    E beijar namorada debaixo da chuva… Hoje, tenho certo receio da chuva, um resfriado, coisa mais séria, sei lá. Prefiro sentar na varanda para ver a chuva, raios e trovões. A cada barulho penso na mãe acendendo velas, as mãos no peito, o coração na infância.

  • Noite e neblina

    O filme, de apenas trinta minutos de duração, é um dos mais poderosos alertas sobre os horrores praticados pelos nazistas nos campos de concentração. No começo, câmera enquadra em campo geral um verdejante campo, desce em panorâmica até uma cerca de arame farpado. O pujante texto de Jean Cayrol alerta: “Mesmo uma paisagem tranquila, mesmo uma pradaria com corvos a voar, colheitas e queimadas, mesmo uma estrada por onde passam carros, camponeses, casais, mesmo uma aldeia pacata com feirinhas e campanários, tudo pode nos conduzir a um campo de concentração.” 

    A introdução anuncia a principal tônica do documentário: o extermínio praticado pelos nazistas nos campos de concentração aconteceu perto da vida comum nestas cidades que abrigaram os campos, mesmo assim, ninguém viu, ninguém sabia, ninguém foi responsável. A parte documental da película é aterradora. Alain Resnais usou imagens de arquivo de institutos ligados à memória da guerra da Polônia, Holanda, Bélgica e dos museus dos campos de Auschwitz e de Maidanek. 

    “A negação é a mola propulsora de Noite e Neblina. Resnais inclui imagens de arquivo dos mortos sendo jogados aos montes em covas coletivas, cadáveres pendurados em cercas de arame farpado, rostos emagrecidos congelados de medo, corpos nus esqueléticos sendo enfileirados para sofrerem humilhações e trens e caminhões transportando sabe-se lá o quê para sabe-se lá onde. Ele documenta as câmaras de gás e crematórios, assim como as tentativas grotescas dos nazistas de encontrar utilidade para os objetos pessoais descartados, ossos, pele e corpos de suas vítimas.”

    NN – Nacht und nebel (Noite e neblina) eram duas letras usadas para marcar os uniformes azuis listrados dos judeus nos campos de concentração. Quando tiravam as roupas, eram encaminhados para as câmaras de gás. Como denuncia o quase impossível de assistir documentário de Resnais, um elaborado e complexo sistema de extermínio em massa foi construído e posto em prática aos olhos do mundo, que nada viram. 

    Noite e neblina (Nuit et brouillard, França, 1956), de Alain Resnais.

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008

  • O sádico selvagem

    Prepare-se para uma das sequências mais aterrorizantes do gênero noir. Depois de enganar mãe e filha em um parque aquático, Dancer (Eli Wallach) e seu comparsa as acompanham até em casa. Os dois estão incumbidos por um cartel de traficantes de drogas de resgatar um pacote de cocaína que foi plantado em uma boneca, transportada inadvertidamente pela criança para São Francisco. Dancer brinca com a criança, com um ar amável, enternecedor, no entanto, o espectador já sabe que ele é um frio assassino. Quando descobre que a criança usou a cocaína como maquiagem para a boneca, Dancer começa a pôr calmamente o silenciador no revólver, sinal de que vai matar a criança e a mãe. 

    O filme, dirigido por Don Siegel, tem uma espetacular sequência de perseguição de carro nesta cidade que parece ter sido construída especialmente para diretores e técnicos do cinema desfilaram seu talento em sequências de ações envolvendo automóveis pela ladeiras – veja Bullit (1968) e O corpo que cai (1958). A narrativa acompanha os dois bandidos durante um dia, buscando pacotes de cocaína implantados em bagagens de moradores da cidade. 

    Eli Wallach domina o filme com uma interpretação que revela todas as nuances de uma mente doentia que habita um psicopata assassino. Ele está conversando amigavelmente com suas vítimas, um segundo depois… bem, a mais pura essência do terror. 

    O sádico selvagem (The lineup, EUA, 1958), de Don Siegel. Com Eli Wallach, Robert Keith, Richard Jaeckel.

  • Réquiem para Sra. J

    O filme abre com Jelena (Mirjana Karanovic) preparando cuidadosamente a arma que pertenceu ao seu marido. É segunda-feira, com esse gesto anuncia-se a decisão da Sra. J: na sexta-feira, aniversário da morte do marido, ela se matará. 

    A narrativa é dividida em espécies de capítulos, seguindo os dias da semana. Jelena está desempregada, sua família desestruturada, o peso do sustento econômico recai sobre a filha mais velha que não suporta mais tal obrigação. O diretor Bojan Vuletic é mais um cineasta europeu a se debruçar com sensibilidade sobre a crise trabalhista na Europa e suas consequências na vida das pessoas e na família. Dessa leva recente, vale citar Dois dias uma noite (2014), O valor de um homem (2015), Eu, Daniel Blake (2016), Colo (2017), Você não estava aqui (2018).

    A narrativa alterna momentos de bom humor, destaque para o conselho oferecido a Jelena por um vendedor de armas e as propostas do agente funerário, com momentos depressivos e tensos. resultados da desintegração familiar, das burocracias do estado em relação à assistência de seus cidadãos, da tragédia anunciada ao espectador pela protagonista. Jelena acompanha e assiste a esses momentos com a serenidade silenciosa de quem já tomou sua decisão. Os longos planos em sua caminhada pela cidade, os planos estáticos em sua resignação dentro de casa, ajudam a entender o tratamento sensível tanto em termos de narrativa quanto em propostas audiovisuais deste filme terno. 

    Réquiem para Sra. J (Rekviem Za Gospodja J., Sérvia, 2017), de Bojan Vuletic, com Mirjana Karanovic, Jovana Gabrilovich, Danica Nedeljkovic.

  • Sempre aos domingos

    Há silêncio dentro do carro. O irmão cochila, rosto encostado no vidro lateral. Nem o fascínio que sente por carros e estradas consegue vencer o cansaço. A irmã dorme desde que o pai engatou a primeira marcha, deitada no banco, a cabeça em meu colo. No banco da frente, a caçula da família se esconde nos seios da mãe, participando inocente da apatia que toma conta de todos naquele final de tarde de verão. A volta para casa transcorre assim, silenciosa.

    Naquela manhã, a mãe se levantou antes de todos. Sentada à mesa da sala de jantar, sacola de pães em frente, uma bisnaga de mortadela, ela prepara a comida do dia. A faca parte cada pedaço bem fino, todos da mesma espessura, como uma máquina de padaria. Ela conta os pães, separando três para cada filho. “Os meninos são pequenos, não dão conta de comer isso tudo. E ainda tem o almoço”, diz o pai, saindo do quarto. “Nadar dá fome e pão com salame é gostoso e barato.”, justifica a mãe, enquanto ajeita tudo em uma cesta: panela de arroz, outra com pedaços de frango assado por cima da farofa com linguiça. No isopor, o pai coloca os recipientes de plástico com k-suco, duas garrafas de cerveja, dois litros de água, cobrindo tudo com barras de gelo.

    A estrada para Sete Lagoas é movimentada, uma pista para cada lado transforma meros quilômetros em uma jornada longa, retardada por fila de caminhões que exercitam a paciência do pai ao volante. Ele vira à direita, logo após a placa indicativa para Pedro Leopoldo. São aproximadamente cinco quilômetros de estrada de terra, poeira cobrindo as laterais do carro.

    O pai passava a semana planejando pequenas viagens de um dia. Chegava em casa e logo após o jantar discutia com a mãe o destino. “Fiquei sabendo de uma cachoeira perto de Vespasiano. É dentro de uma fazenda, o pessoal chama de Bem-te-vi.” “É longe?” “Não.” Na outra semana: “O Milton me falou de um lugar muito bom, Jujulândia, estrada de Pedro Leopoldo, perto, tem três cachoeiras.”

    Em uma das entradas de Jujulândia, o carro passa dentro do riacho, as rodas afundam, águas quase cobrindo os pneus. Depois, a estrada estreita, cortando um bosque, árvores dos dois lados, galhos atravessando pelo alto, formando uma alameda coberta. Os carros ficam na sombra das árvores, pouco distantes do rio.

    A mãe estende uma grande toalha ao lado do carro, ajeita com carinho os utensílios, tomando cuidado de fechar bem as panelas, protegendo a comida contra as formigas com um pano de prato amarrado em cada uma. Coloca um pequeno colchão ao lado. Ela vai passar grande parte do dia à sombra, tomando conta do bebê, enquanto o pai desbrava com os três outros filhos.

    “Cada um pega um tronco destes.”, ordena o pai, com dois juncos nos braços. Gastamos cerca de uma hora procurando mais pedaços pelos arredores, entrando em trilhas, passando dentro d’água com os pequenos troncos acima da cabeça. Ele vai até o carro, volta com alguns pedaços de corda: “Uma jangada, vamos fazer uma jangada.”

    O pai não embarca na jangada, deixa a aventura para os filhos. Descemos rio abaixo, a jangada batendo em uma pedra ou outra, aos poucos as cordas afrouxam, sensação de que todos os troncos vão se soltar. Quase no final da corredeira, pulamos e deixamos o que restou da jangada seguir seu curso. Olho para o alto, o pai gesticula alegre.

    Agora ele também está silencioso. Olhar fixo na estrada, seguindo lento a fila de carros que se forma na volta para casa. A mãe, solidária no cansaço, vigia com o canto dos olhos, atenta ao marido, pronta para um cutucão caso note um cochilo. O sol, já fraco, rastro amarelado no céu, decreta o final do dia.

    Eu tento manter os olhos abertos, mas sinto aos poucos o rosto tombar sobre o peito. Antes de adormecer, penso na semana, o pai e a mãe discutindo um novo destino para o domingo. Sempre aos domingos.

  • Bailes de carnaval

    Zé de Pio  passou o pequeno pano branco perto do nariz, cheiro de amaciante, ainda o calor do ferro de passar. O amaciante, artigo de luxo na casa beirando a miséria, era reservado para ocasiões marcadas a caneta no calendário: dia do aniversário de um dos seis filhos, quando Donana tirava do armário a roupinha do ano anterior e a levava ao tanque e ao ferro de passar com o carinho de mãe, e nas vésperas dos bailes de carnaval.

    Por volta das nove horas da noite, Zé de Pio  começava a perambular pela sala como presidiário em dia da libertação. A cada volta, espreitava Donana a passar as peças brancas: calça e camisa sociais e dois pequenos pedaços de pano.  As roupas vestia solene na frente do espelho, olhar atento para não estragar as dobras do tecido.

    Depois, o ritual que repetiria durante quatro noites. Sentado na pequena e corroída mesa de comer, deslizava o primeiro pano branco em cada curva do trompete. Começava pela campana, a mão em gestos circulares até não restar a menor dúvida de partículas de poeira. Seguia por toda a extensão do tubo num vai e vem ritmado, sem sobressaltos. Cada um dos três pistos recebia tratamento igualitário, como se naquele momento Zé de Pio  não quisesse notas diferenciadas, apenas o brilho uniforme.

    Por fim, jogava o pano usado de lado e cuidadosamente desdobrava o segundo pano branco. A mão direita em formato de cone recebia o tecido e num gesto ansioso encobria o bocal do trompete, esfregando o pequeno cilindro, às vezes com fúria, às vezes com suavidade, misturando movimentos como em um sopro descontrolado.

    Após terminar a operação, colocava o instrumento com cuidado na caixa, se olhava uma última vez no espelho, limpava as gotas de suor que escorriam debaixo dos cabelos pintados de preto, e saía pela porta da casa sem nem mesmo se despedir da mulher. No caminho de apenas quatro quarteirões até o clube, respondia sem olhar as saudações de amigos a erguer copos de cachaça nas portas dos bares. A sensação da bebida estalava no céu da boca, mas Zé de Pio resistia, durante os quatro dias de carnaval resistia e vencia aquelas garrafas que o perseguiam por todos os outros dias de sua vida.

    Sempre que saía do bar, pernas em desalinho, batendo o ombro nas paredes das casas, o bêbado ouvia murmúrios de uma ou outra janela “lá vai Zé de Pio, este não tem jeito…”. Mas não em noites de carnaval. Peito esticado, ombros alinhados, pernas firmes, em noites de carnaval ele é José Sandoval Angelini, filho de Pio Angelini.  José Sandoval Angelini, trompetista da Banda da Praça Navona.

    Durante quatro noites, ele subiria no modesto palco do clube, trompete nos lábios, olhos fechados, nota a nota destilando as marchinhas de carnaval, o cheiro de suor tomando o lugar da colônia barata, as roupas brancas se encharcando. Até o início das manhãs, José Sandoval Angelini ditava o ritmo do carnaval, recebendo rolos de confete e chuvas de serpentina, partículas de papel que grudavam em seu corpo molhado.

    Os jovens pulando no salão pouco se importavam com quem tocava, mal distinguiam o trompetista do tocador de tuba e também pouco se importavam em ouvir, noite após noite, as repetidas e gastas marchinhas de carnaval. Mas nos cantos do salão, sentados à mesa, velhos casais da cidade, embalados pela nostalgia, comentavam quando os olhos paravam no trompetista.

    – Nem parece o Zé de Pio.

  • Horário de verão

    Débora.  Entre um copo de cerveja e outro fica mais atrevida. Despista, diz que precisa entrar na piscina, “a cerveja está subindo”. Na minha frente, deixa o short deslizar pelas pernas, devagar, até largá-lo ao acaso no chão. Um gesto decorado com a malícia do improviso. Dá voltas na água, mergulha, descansa, o rosto apoiado na beirada da piscina. Os olhos parados em mim.

    Sai da piscina, deixa o cabelo escorrer, o corpo dobrado para frente. Outro gesto medido: passa perto, o bastante para deixar sentir o cheiro do seu corpo molhado, e vai para a churrasqueira. Pega uma cerveja, encosta na amurada. Conversa com os amigos.

    Crianças correm, adultos conversam, ninguém parece prestar atenção no meu olhar. Depois, bem mais tarde, cadeiras desarrumadas, uma toalha jogada de lado, o chinelo que deixaram de pegar, a carne esfriando na churrasqueira. A piscina vazia, refletindo as luzes do quintal. O calor da noite, Débora deitada em meu colo. Solitária naquela casa desejada.

    – Todo mundo já foi. Preciso ir embora também. – disse pela terceira ou quarta vez.

    – Você prometeu ficar até a meia-noite.

    – Já é meia-noite. – Débora tirou o relógio de meu braço e por um instante pensei que ia jogá-lo na piscina. Mas ela apenas mexeu nos ponteiros.

    – Então ainda temos uma hora. Hoje acaba o horário de verão. – Débora colocou novamente o relógio em meu pulso. Marcava onze horas.

    Muitos e muitos anos depois, ao sentar na varanda para ver a noite, caminhar pelo calçadão da praia nas férias de julho, ler um livro desinteressante em tardes de calor, visitar sites, blogs, lavar o carro em manhãs de domingo, folhear revistas no horário de trabalho, zapear a TV procurando uma partida de futebol; muitos e muitos anos depois, ao me deparar sozinho com esses singelos momentos, algumas horas da vida voltam.

  • A infância de Ivan

    O filme começa na interseção que marca a narrativa: sonhos e/ou memórias. Ivan está feliz, em um ambiente campestre repleto de lirismo. Ele olha fascinado para uma teia de aranha, ouve o som de um cuco, sua mãe está ao seu lado, feliz com esse momento. A sensação de idílio é tão perfeita que Ivan começa a voar pelo campo, como em uma metaformose que transcende corpo e alma. É um sonho, sabemos logo a seguir. 

    A ruptura é brutal. Ivan é um adolescente que luta na Segunda Guerra Mundial. Ele atua em missões de espionagem e se infiltra no front de batalha em arriscadas missões. Seu desejo de vingança está estampado em seu rosto e em suas atividades destemidas: sua mãe foi assassinada pelos nazistas. 

    O recém formado cineasta Tarkovski foi chamado pela Mosfilm, órgão de cinema estatal soviético, para assumir o posto de diretor no filme quando as filmagens já haviam iniciado. Tarkovski fez diversas alterações no roteiro, baseado em um conto de guerra de Vladimir Bogomolov. 

    “Bogomolov descreve os cenários com a invejável precisão de uma testemunha ocular dos acontecimentos que constituem a base da história. O princípio pelo qual o autor se deixou conduzir foi o da minuciosa reconstituição de todos os lugares, como se ele os houvesse visto com os próprios olhos. O resultado pareceu-me fragmentado. (…) Todos esses lugares são descritos com grande precisão, mas não apenas foram incapazes de provocar em mim qualquer emoção estética, como, de resto, eram também um tanto quanto destoantes. Esta ambientação não tinha condições de despertar as emoções apropriadas às circunstâncias de toda a história de Ivan, da forma como a concebi. Senti, o tempo todo, que para o filme ser bem-sucedido a textura do cenário e das paisagens devia ser capaz de provocar em mim recordações precisas e associações poéticas.” – Tarkovski. 

    As mudanças não significaram apenas questões estéticas envolvidas entre a transposição da literatura para o cinema. Em busca da poesia, o diretor estruturou o filme a partir de quatro sonhos de Ivan. As cenas de guerra e as incursões de Ivan no front inimigo permaneceram, mas sempre como um contraponto agressivo, desumano, aos momentos de idílio da infância de Ivan. As imagens da guerra soam como um choque abusivo, cruel, desumano, frente às memórias da infância que Ivan carrega. 

    “Apesar de tudo o que vemos durante o filme, apesar, enfim, do ‘enforcamento’ da infância, da paz, enfim, do humanismo, ao happy beginning corresponderá o happy ending, pois, não obstante a guerra, a morte e a miséria, a única coisa que Ivan – como todos nós – consegue manter inalterada, intocada, indestrutível, é isso: a memória, as imagens de felicidade e das pessoas amadas que conserva consigo para a eternidade. Eis o que nenhuma metralhadora ou bomba apaga: o reduto da memória, esse resistente dínamo que, como o projetor de cinema, recupera imagens do passado, de uma realidade que já não é atual, mas que nos ajuda a compreender e a viver um pouco melhor no mundo.” – Francisco Noronha

    Ingmar Bergman expressou sua profunda admiração pelo cineasta soviético: “Tarkovski é o maior de todos, pois se move, sem dúvida, no espaço do sonho; não explica, o que explicaria afinal de contas? Ele é um sonhador que conseguiu pôr em cena suas visões, no mais pesado mas também mais dúctil de todos os meios.”

    Em A infância de Ivan enxergamos, ou melhor, sentimos, com plenitude, esse cineasta sonhador, poeta, mago das imagens, capaz de provocar no espectador aquilo que ele mesmo tanto buscou: recordações e associações poéticas. 

    A infância de Ivan (Ivanovo detstvo, Rússia, 1963), de Andrei Tarkovski. Com Nikolai Burlyayev, Valentin Zubkov, Nikolai Grinko. 

    Referências: 

    Esculpir o tempo. Andrei Tarkovski. São Paulo: Martins Fontes, 1998. Tarkovski. Eterno retorno. Phillipe Ratton (organização). Belo Horizonte: Fundação Clóvis Salgado, 2017

  • Torre. Um dia brilhante

    O filme abre com uma referência a um clássico do gênero terror: O iluminado (1980), de Stanley Kubrick. Visão aérea mostra um carro trafegando por uma bela estrada campestre. No carro estão um casal e Kaja, no banco de trás. 

    Eles chegam a uma casa no interior para uma reunião familiar. Mula, a proprietária, é irmã de Kaja e do motorista. A mãe deles sofre de alzheimer e está sob os cuidados de Mula. O centro da trama é a criança Nina, filha de Kaja, mas que foi entregue aos cuidados de Mula seis anos atrás. 

    Mistérios do passado rondam a reunião familiar, marcada por situações surpreendentes, como a cura repentina da mãe. A trama trabalha com insinuações ao gênero sobrenatural, que não se concretizam, são muito mais imagens encobertas por mistério, sombras que se dissipam deixando a sensação de paranóia e medo que ronda os segredos da família. O filme de estreia da diretora polonesa Jagoda Szelc é completamente aberto aos caminhos que o passado remete, como na lenta caminhada coletiva no final do filme. 

    Torre. Um dia brilhante (Wieża. Jasny Dzień, Polônia, 2017), de Jagoda Szelc. Com Anna Krotoska (Mula), Małgorzata Szczerbowska (Kaja), Anna Zubrzycki (Ada), Dorota Łukasiewicz-Kwietniewska (Anna), Rafał Kwietniewski (Andrzej), Michał Rafal Cieluch (Michał), Laila Hennessy (Nina).

  • O castelo Cagliostro

    É a primeira animação do lendário Miyazaki, realizada antes da fundação do também lendário Studio Ghibli. A trama é baseada no mangá Lupin III, de Monkey Punch, que Miyazaki já havia adaptado como série de TV. O assaltante Arsene Lupin III rouba notas falsificadas em um cassino em Monte Carlo. Junto com seu fiel aliado Jigen, Lupin parte para o Castelo Cagliostro, pequeno reino onde as notas falsificadas são produzidas. A narrativa envolve desejo de vingança, mas muda de rumo quando Lupin conhece Clarisse, jovem destinada a se casar com o malévolo Conde do castelo. 

    O castelo Cagliostro é uma divertida história com tons medievais das belas princesas que habitam castelos, transitando pelas narrativas de máfias e gangsteres do século XX, ou seja, uma mistura de tons narrativos bem ao estilo de Miyasaki. A animação é repleta de ação, entremeadas por tiroteios, duelos de samurais e lutas corporais. Logo em seu primeiro longa-metragem, Miyazaki provocou furor no universo da animação, anunciando o que viria na sequência: uma sucessão de clássicos criados e dirigidos pelo mestre dos mestres da animação. 

    O castelo Cagliostro (Japão, 1979), de Hayao Miyazaki. 

  • Tarde nublada

    As nuvens encobrem a serra. Daqui a pouco, restará um dia negro, anoitecer provocado nesse final de tarde. Minha vista do décimo andar é invejável, segundo comentários dos visitantes. Confesso, na maioria dos dias desejo outras imagens: o mar, montanhas se perdendo do olhar, nuvens feito algodão do lado de fora da janela do avião, o corpo nu da mulher desejada.

    A montanha desapareceu por completo. Gosto do dia entre o claro e o escuro. A vista confusa, carros se amontoando nas ruas lá embaixo, acendendo faróis, tomando rumos sabe-se lá. Para a solidão, o décimo andar do  apartamento é refúgio seguro, inviolável. A chuva anunciada começa, trazendo raios, trovões, certo pesar nos sentimentos. A luneta de vasculhar janelas e pessoas está encostada no canto, sem razão nessa tarde melancólica. Guarda imagens, lembranças misturadas com o tempo, pedaços que aparecem como quem remexe em papéis amontoados em gavetas ano após ano.

    Maria Emília, sentada na cama, encolhe os joelhos até o queixo, abraça as pernas e se deixa. Alguém pode estar olhando-a nesta pose bonita e sensual.

    O velho Euclides abre a gaveta da cômoda em busca da antiga blusa de lã que usava debaixo do terno preto bem passado nas tardes chuvosas à porta do Cine Brasil.

    Carlos e Amanda acabam de fazer amor. Ele puxa a coberta para encobrir-lhe os seios, temendo-lhe o frio. Olham-se dentro do outro.

    O pai, na varanda do sítio, olha o tempo. Os cachorros se deitam na vida contemplativa, ao lado do dono que só lhes cobra a companhia.

    A mãe pensa, “a novela das seis pode ficar para amanhã”. Se essa chuva deixar de angustiar, de trazer desejos de terra molhada, de flores respingando, do lugar onde ela daria tudo para estar agora, contra a vontade do médico, contra os remédios que aos poucos derrubam a esperança.

    O pequeno Guto volta da escola pisando em poças d’águas. Vai devagar, deixa a chuva entrar por baixo da roupa até a camisa de malha grudar nas costas, o tênis ficar pesado, arrastado. Vai devagar, pensa na mãe correndo para buscar a toalha, no banho quente e demorado que vai ganhar ao chegar em casa.

    Átila tem um sonho, beijar a namorada debaixo da chuva, os cabelos escorrendo, os seios molhados. Se uma das senhoras debaixo da marquise do outro lado da rua aceitasse ser sua namorada.

    Cláudia mora quase ao pé da montanha. Acabou de tomar um chocolate quente. Talvez prepare outro. Tem o coração apertado e pode-se ouvir um ou outro suspiro. Quando se cansa da chuva e da tristeza, volta para a solidão do livro. Mas a cada barulho na vidraça, levanta os olhos e sonha com beijo do namorado que nunca chega.

    Tem um pouco de chuva nesta tarde de cada um. É uma tarde de chuva cada vez mais pesada.

  • Moulin Rouge

    Paris, 1890. O Cabaré Moulin Rouge agita as noites da cidade luz, repleto de homens e mulheres fascinados pelos espetáculos de danças eróticas, principalmente o can-can. O pintor Henri Toulouse-Lautrec é habitual frequentador, assiste a tudo sentado, enquanto esboça desenhos das dançarinas e dançarinos, bem como de frequentadores. 

    Certa noite, quando sai do Cabaré, Toulouse ajuda a prostituto Marie-Charlet a se livrar da polícia e a abriga em sua casa. Ele se apaixona pela jovem, os dois desenvolvem um relacionamento marcado por conflitos e desilusões. 

    A filmografia do célebre pintor tem por base a deformidade que o atingiu nas pernas, depois de uma queda na infância. A trama de John Huston acompanha seus primeiros experimentos como pintor da vida boêmia de Paris, retratando basicamente pessoas que frequentavam a noite. Abre espaço também para a revolução que propagou na divulgação publicitária, através dos famosos cartazes promocionais que pintou para o Moulin Rouge. Usando a técnica da litogravura, os cartazes eram espalhados por Paris.

    De saúde frágil desde a infância, acometido por uma doença rara, ele cresceu apenas das pernas para cima (tinha cerca de 1,50), a narrativa passa pela tristeza que acometia o artista, incapaz de se relacionar amorosamente com as mulheres. A busca incessante pela arte, a entrega à boemia e ao álcool de forma quase suicida, marcam a trama. Uma bela e sensível homenagem ao artista. 

    Moulin Rouge (Inglaterra, 1952), de John Huston. Com José Ferrer (Toulouse-Lautrec/Conde de Toulouse-Lautrec), Zsa Zsa Gabor (Jane Avril), Suzanne Flon (Myriamme Hyam), Colette Marchand (Marie Charlet), Christopher Lee (Georges Seurat), Georges Lannes (Sargento Patou).

  • Minha noite com ela

    Durante a celebração de uma missa católica, Jean-Louis fica fascinado com Françoise. Quando ela sai da igreja, ele tenta segui-la pelas ruas da cidade, mas a perde de vista. Pouco depois, ele reencontra seu amigo Vidal e os dois vão à casa de Maud, médica divorciada que vive de forma livre e despretensiosa com seus relacionamentos. 

    A trama de Éric Rohmer, que se aproxima de um possível triângulo amoroso, traz a marca do diretor: longos diálogos em ambientes fechados. Françoise e Maud passam a noite conversando sobre religião, filosofia, entre flertes e tentativas frustradas de um relacionamento amoroso. Quando, finalmente, o protagonista encontra seu objeto de desejo, a jovem e bela Françoise, outros triângulos amorosos se inserem de forma sutil na trama, revelando que as ruas, apartamentos, praias, enfim, a cidade, provoca acasos fascinantes e misteriosos. 

    Minha noite com ela (Ma nuit chez Maud, França, 1969), de Éric Rohmer. Com Jean-Louis Trintignant (Jean-Louis), Marie-Christine Barrault (Françoise), Françoise Fabian (Maud), Françoise, Antoine Vitez (Vidal). 

  • Máfia em Paris

    A trama se passa em um hotel de luxo. O inspetor Neveu está no quarto de seu tio, junto com a jovem Arielle.  Anos atrás, um assassinato ocorreu nesse mesmo hotel. O Tio era segurança e não conseguiu desvendar o caso, por isso mora ali, em busca de respostas para o crime. Paralela a essa história, uma anunciada luta de boxe esconde as engrenagens subterrâneas desse mundo dominado pela máfia. 

    O título original, Détective, anuncia de forma enganosa a pretensão de Godard em mais uma trama repleta de seus experimentos linguísticos. Na verdade, pouco se investiga no filme, é mais uma catarse do diretor, despejando durante a narrativa fragmentos de imagens: cenas feitas em vídeo, citações a filmes e livros, colagens de diversas mídias… 

    “Se Godard ameaça fazer um filme de detetive, é importante que saibamos desde o início: será um filme de Godard, antes de qualquer outra coisa. Ou seja: mais um enigma. Um enigma que nasce das duas camadas com que Godard costuma trabalhar em seus filmes, digamos, convencionais: o fiapo da história e as ligações externas. E se o espectador viciado em entendimentos procurar explicações para tudo, sua experiência ficará prejudicada.” – Sérgio Alpendre. 

    Máfia em Paris (Détective, França, 1985), de Jean-Luc Godard. Com Laurent Terzieff (William Prospero), Aurelle Doazan (Arielle), Jean-Pierre Léaud (Inspetor Neveu), Claude Brasseur (Emile Chenal), Johnny Hallyday (Jim Fox), Alain Cuny (Mafioso).

     Referência: Godard inteiro ou o mundo em pedaços. Eugênio Puppo e Mateus Araújo (organização). Catálogo produzido pela Fundação Clóvis Salgado para a retrospectiva Jean-Luc Godard, exibida na Sala Humberto Mauro.

  • Tempestade

    Chovia. Quando entrei no ônibus, o barulho na lataria insinuava chuva forte, típica pancada de verão. Da minha casa até o local de encontro com Cristiane, o ônibus gastaria cerca de 10 minutos. Domingo à tarde, o calor afugentava das ruas, o trânsito estava calmo, o ônibus vazio. A água escorrendo no vidro provocou imaginações de cinema: namorados correndo de mãos dadas na chuva, se escondendo em marquises, beijos molhados…

    Acordei com um estrondo. As nuvens negras aumentavam na velocidade que só me lembro de ver naqueles efeitos visuais que aceleram as imagens. O dia escureceu, as luzes dos postes acenderam em plena três horas da tarde. A poucos metros do ponto em que eu deveria descer, pesada, assombrosa tempestade desabou.

    Desci do ônibus, pesadas gotas de chuva batendo como pedras em meu rosto, em minhas costas. O vento mudava de sentido rapidamente. Consegui chegar até o abrigo de ônibus na avenida. Cristiane me esperaria no ponto de ônibus do outro lado.

    A chuva dificultava a visão. A cortina de água cortava o ar quase na horizontal. Em alguns intervalos das rajadas, enxerguei um pequeno grupo de pessoas se escondendo das águas no abrigo do outro lado da avenida. Cris era inconfundível, mesmo à distância. Cabelos castanhos que chegavam quase até a cintura, faces brancas, olhos também castanhos, mas o que a distinguia mesmo naquela distância era a altura incomum em uma jovem daquela geração, cerca de 1,75.

    O destino fazia das suas. A enxurrada formou um rio na avenida, impedindo qualquer tentativa de atravessá-la. Alguns carros pararam no meio, motores apagados, a água batendo na altura da porta. Meus pés já estavam submersos, mulheres gritavam no abrigo, uma criança de cerca de dois anos, no colo do pai, assistia a tudo deslumbrada.

    Eu não podia ficar ali. Estudei a situação. Poucos metros acima havia um declive na avenida que terminava onde estávamos, lugar em que a água se juntava, formando uma lagoa, favorecida pelos bueiros insuficientes para o escoamento. No declive, o volume de água era grande, mas a enxurrada corria veloz. Talvez eu pudesse atravessar. Andei cerca de 100 metros e me aventurei. Atravessei com a água batendo nos joelho, ameaçado pela correnteza forte que poderia em um momento ou outro me jogar no meio das águas.

    Cheguei do outro lado. Desci até o abrigo, as roupas pesadas, coladas ao meu corpo, os pés imersos na água.  Cris me recebeu com um grito de alívio, um abraço, seu rosto em meu peito encharcado.

    – Seu maluco.

    – Não podemos ficar aqui.

    – O que vamos fazer? Essa chuva.

    – Minha casa é perto daqui. Talvez a gente consiga pegar um táxi. A chuva está diminuindo.

    Por sorte, o táxi parou ao primeiro sinal que fiz. A altura da água diminuíra um pouco, mesmo assim entramos com dificuldade. O carro andou cerca de trinta metros, patinando na chuva, até que ouvimos barulho de motor engasgando. As luzes do painel se apagaram. O motorista tentou virar a chave na ignição, ouvimos o arranque rateando, rateando…

    – Não tem jeito.

    – E se eu empurrar. Tem uma descida logo ali.

    – Nessa chuva?

    – Eu já estou molhado mesmo. – Cris fez menção de ajudar, mas fechei a porta rapidamente ao descer do carro, fazendo gesto pelo vidro de “fica aí”. A chuva voltou a bater forte nas minhas costas enquanto eu empurrava o carro lentamente, meus pés escorregando no asfalto molhado até que o carro chegou no início da descida. Um pequeno embalo e pude ver a fumaça saindo do cano de descarga, sinal que o motor funcionara.

    Entrei no carro. Em ponto morto, o motorista pisava fundo no acelerador, o barulho do motor agredindo nossos ouvidos. O motorista engatou primeira, soltou a embreagem, o carro deu dois ou três solavancos e voltou a morrer. Cris me olhou com aqueles olhos de “e agora?”. Desci novamente do carro, empurrei com todas as forças para que ele pegasse embalo na descida. Assim que o motor voltou a funcionar, o motorista andou por mais alguns metros, tentando manter o ritmo do motor. Tive que correr atrás do táxi e assim que entrei o motorista arrancou ferozmente, as rodas deslizando, espalhando água para os lados.

    O motorista parou na porta da minha casa. Ele acenou para mim, gesto de negativa ao me ver tirando a carteira do bolso.

    – A corrida é por conta. Não posso cobrar, depois desse empurra-empurra. 

    Senti um frio intenso ao sair do carro. Chovia fino agora, nuvens negras ainda provocavam a escuridão que confundia tarde com noite. Vi nos olhos de Cris a incerteza de quem se depara pela primeira vez com o risco inesperado da vida. Entramos em casa. Meus pais estavam fora.

    – Preciso tomar um banho quente. – ela disse assim que pusemos os pés na sala.

    – Vou pegar uma toalha para você.

    Tirei as roupas molhadas no quarto, enxuguei meu corpo, vesti roupas secas. Um estranho silêncio tomava conta da casa. Ouvia-se apenas o barulho de goteira lá fora, tamborilar intermitente em cima de alguma lata no terreiro, ou talvez no teto de zinco da casinha de ferramentas de meu pai. Eu ouvia claramente outro barulho: o chuveiro ligado, imagem da água quente escorrendo pelo corpo de Cris.

    Meu ouvido captava cada som dentro do banheiro. O barulho da saboneteira batendo no azulejo, o recipiente de shampoo sendo tirado e colocado no suporte, a pesada água dos cabelos caindo no chão, a torneira girando, cotovelos encostando nas paredes do boxe apertado, barulho de toalha secando o corpo, o trinco da porta sendo desfeito.

    Cris apareceu no umbral da porta da sala, a toalha enrolada acima dos seios. Os cabelos molhados, a pele branca de seu rosto com sensação de alívio. Ela sorriu meio sem graça, deixando o frescor de sua pele úmida se espalhar pelo ambiente.

    Restava apenas uma garoa da chuva. Enquanto Cris se vestia no quarto de minha irmã, cheguei até a janela do meu quarto. Dos telhados das casas vizinhas subia uma névoa, um tom londrino marcado pelas luzes do início da noite. A cena não lembrava em nada a assustadora tempestade.  Essa tarde enevoada de dezembro deixou em mim a imagem inelutável de Cris saindo do banho.

  • Drive my car

    Raras vezes o cigarro (esse vício que dizima vidas há tempos imemoriais) se mostra tão poético como na cena em que Yusuke Kafuku e Misaki estendem os braços, com cigarros nos dedos, para fora do teto solar do carro. A cena sela a cumplicidade dos dois, que se conheceram de forma silenciosa, durante os longos trajetos de carro. A jovem Misaki dirigindo, o dramaturgo Kafuku no banco de trás, escutando áudios da peça que está ensaiando.  

    Drive my car arrebatou diversos prêmios, incluindo o Oscar e o Globo de Ouro de filme estrangeiro. Kafuku é casado com a roteirista de TV Fukaku Oto. Oto tem um fascinante processo criativo: durante o sexo, conta histórias ao marido que se transformam em tramas de seus roteiros. Ao chegar em casa, certa noite, o dramaturgo encontra a esposa morta, após um AVC. Dois anos depois, Kafuku é convidado para encenar Tio Vanya, de Tchecov, em Hiroshima. Como regra do festival do qual vai participar, o diretor não pode dirigir seu próprio carro. É assim que conhece Misaki, jovem designada para ser sua motorista. 

    O filme é um longo ensaio sobre a arte, sobre processos criativos que se confundem com a vida de quem cria. Oto vive uma espécie de catarse mediúnica quando faz sexo, criando fascinantes histórias; Fukaku dirige também em uma espécie de transe, ouvindo os longos diálogos de Tio Vanya, ensaiando suas falas e inspirando seus dias; o jovem Takatsuki, protagonista da peça, abandonou uma carreira de sucesso na TV em busca de sua descoberta como artista. Mas são os longos silêncios entre Fukaku e Misaki que movem a trama rumo às descobertas, ao conhecimento revelador do passado. Assim como o silêncio revelador da arte, expresso na atriz surda-muda que interpreta cenas comoventes por meio da linguagem de sinais. 

    Drive my car (Japão, 2021), de Ryusuke Hamaguchi. Com Hidetoshi Nishijima (Fukaku Yusuke), Toko Miura (Watari Misaki), Masaki Okada (Takatsuki Koshi), Park Yoo Rim (Lee Yoon Ah), Reika Kirishima (Fukaku Oto).  

  • Antologia da cidade fantasma

    Na primeira cena do filme, um carro passa pela câmera em alta velocidade, sai da estrada e bate em um contêiner. Simon, o jovem motorista, morre no acidente. Ele era morador de uma pequena comunidade na área rural de Quebec, formada por apenas cerca de 200 moradores. 

    A princípio, a trama desenvolve o processo de luto da família e da comunidade, pois todos se conhecem. O clima de inverno rigoroso, expresso em silenciosas paisagens tomadas pelo gelo e pela neve, intensifica o sentimento de tristeza, principalmente em Jimmy, irmão de Simon. Ele busca e clama, a todo instante, por um sinal de seu irmão, como numa tentativa de entender a morte trágica. 

    Antologia da cidade fantasma transita pele gênero terror, no entanto é um filme de espectros, dos fantasmas que habitam o interior dos personagens e podem se personificar em imagens ao longe, tão silenciosos quanto nossos maiores medos. A triste solidão invernal dos moradores dessa pequena comunidade é a mesma dos espectros que os assombram.  

    Antologia da cidade fantasma (Répertoire des villes disparues, Canadá, 2019), de Denis Côté. Com Robert Naylor (Jimmy Dubé), Josée Deschênes (Giséle Dubé), Jean-Michel Anctil (Romuald Dubé), Larissa Correveau (Adéle), Diane Lavallée (Simone Smallwood), Jocelyne Zucco (Louise), Normand Carriére (Richard), Rémi Goulet (André), Hubert Proulx (Pierre), Rachel Graton (Camille). 

  • Colo

    A adolescente Marta vive os conflitos típicos da idade, agravados por um fato: o pai da jovem está desempregado, a mãe busca o sustento da família trabalhando em dois empregos. Outra adolescente, Júlia, está grávida e vai passar um tempo na casa de Marta. 

    A película de Teresa Villaverde compõe o sensível painel do atual cinema europeu que aborda as questões do desemprego, do subemprego, das burocracias do estado que não sabe lidar com seus cidadãos em busca de auxílio depois que perdem as condições de sustento. A gradativa desestruturação da família de Marta reflete a realidade cruel provocada pelo sistema econômico e político. O pai passa pela crise às vezes de forma violenta, outras entregue à resignação de sua condição. A mãe testa seus limites até à explosão, incapaz de continuar lidando com a obrigatoriedade de se entregar a jornadas exaustivas de trabalho. Marta se descobre em meio ao caos, sua caminhada no final do filme é o retrato da solidão que atinge de forma avassaladora os jovens nessa sociedade cada vez mais desestruturada. 

    Colo (Portugal, 2017), de Teresa Villaverde. Com João Pedro Vaz (Pai), Alice Albergaria Borges (Marta), Beatriz Batarda (Mãe), Clara Jost (Júlia).