Minha noite com ela

A série Contos Morais, de Eric Rohmer, começou com dois curta-metragens: A Padaria de Monceau (La Boulangère de Monceau, 1962) e A Carreira de Suzanne (La Carrière de Suzanne, 1963). Depois vieram os longas A colecionadora (La Collectionneuse, 1967), Minha Noite com ela (Ma Nuit chez Maud, 1969), O joelho de Claire (Le Genou de Claire, 1970) e Amor à tarde (L’Amour l’après-midi, 1972). O tema comum aos filmes é o desejo e a frustração que ele acarreta. 

“Os seis filmes que constituem o ciclo ‘Contos Morais’ de Eric Rohmer se preocupam com as formas pelas quais o desejo pode perturbar o equilíbrio moral. Impiedosamente sofisticados, perversamente eróticos e de escala modesta, eles consistem em variações sutis de um conceito praticamente idêntico, que Rohmer assumiu como sendo inspirado por Aurora (EUA, 1927), de F. W. Murnau: rapaz está com garota, rapaz conhece outra garota, rapaz pensa em partir com a segunda garota, rapaz termina voltando para a primeira, mas com reservas. Esse esquema permitia que Rohmer investigasse as complicações do meio – tempo, lugar, ambiente – e as formas com que ele subverte, convida e impede o romance.”

Minha noite com ela é o maior sucesso de crítica da série. Durante a celebração de uma missa católica, Jean-Louis fica fascinado com Françoise. Quando ela sai da igreja, ele tenta segui-la pelas ruas da cidade, mas a perde de vista. Pouco depois, ele reencontra seu amigo Vidal e os dois vão à casa de Maud, médica divorciada que vive de forma livre e despretensiosa com seus relacionamentos. 

A trama se aproxima de um possível triângulo amoroso, traz a marca do diretor: longos diálogos em ambientes fechados. Françoise e Maud passam a noite conversando sobre religião, filosofia, entre flertes e tentativas frustradas de um relacionamento amoroso. Quando, finalmente, o protagonista encontra seu objeto de desejo, a jovem e bela Françoise, outros triângulos amorosos se inserem de forma sutil na trama, revelando que as ruas, apartamentos, praias, enfim, a cidade, provoca acasos fascinantes e misteriosos. 

“Não há outro diretor em cuja obra o lugar e a estação sejam mais importantes. Em Minha noite com ela, a neve caindo aumenta o frio na longa cena do apartamento de Maud, fornecendo um pretexto para que o herói passe a noite lá, e mais tarde também permite que encontre a estudante e passe a noite com ela. A complexidade do filme e sua angústia se devem tanto à fotografia em preto-e-branco de Néstor Almendros, com sua ampla variedade de tons sutis, quanto ao diálogo vigoroso e brilhante. Uma atmosfera de détente constrangedora prevalece, emotivamente vinculada à agradável alienação do herói.”

Elenco: Jean-Louis Trintignant (Jean-Louis), Marie-Christine Barrault (Françoise), Françoise Fabian (Maud), Françoise, Antoine Vitez (Vidal). 

Referências: 

1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (org.). Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

Tudo sobre cinema. Philip Kemp (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2011

Comentários

Deixe um comentário