Tag: Seis contos morais

  • A carreira de Suzane

    O segundo filme da série Contos Morais, de Eric Rohmer, é um média-metragem, de cerca de 55 minutos de duração. A narrativa acompanha três jovens parisienses: Bertrand, o narrador da história, seu amigo Guillaume e Suzanne. Os três se conhecem em um café, Guillaume e Suzanne se tornam namorados, vivendo uma relação de conflitos, enquanto Bertrand assiste à relação com um misto de admiração e inveja. 

    Rohmer filmou A carreira de Suzane com uma câmera 16mm e elenco de atores amadores. As lentes acompanham as andanças dos três jovens e, eventualmente, outros amigos, pelos pequenos apartamentos, e pelas ruas de Paris. O olhar de Rohmer se volta sem escrúpulos para a vida boêmia da juventude, em relações movidas por entregas e abusos, um retrato desta conturbada década em questões sociais e culturais.

    A carreira de Suzane (La carrière de Suzanne, França, 1963), de Eric Rohmer. Com Catherine Sée (Suzane), Philippe Beuzen (Bertrand), Christian Charrière (Guillaume), Diane Wilkinson (Sophie). 

  • A padeira do bairro

    Este curta-metragem abre a série Contos Morais de Eric Rohmer. Um jovem estudante de direito se sente fascinado por Sylvie, uma mulher que cruza com ele em dias seguidos nas ruas do bairro. Quando Sylvie desaparece, ele passa a frequentar uma padaria, desenvolvendo uma atração pela atendente do estabelecimento. 

    Érick Rohmer apresenta neste curta as características que vão demarcar seus filmes seguintes, separados por séries temáticas: jovens se encontram nas ruas das cidades, nos bares e cafés, no campo, nas belas praias francesas e desenvolvem relações que oscilam entre a amizade e o romance. Debates, reflexões em primeira pessoa, diálogos, enquanto se movem incessantemente, os personagens de Rohmer conversam, divagam, seguem movidos por questionamentos e relações ao acaso. 

    A padeira do bairro (La boulangère de Monceau, França, 1963), de Eric Rohmer. Barbet Schroeder, Claudine Soubrier (Jacqueline), Michèle Girardon (Sylvie). 

  • O joelho de Claire

    O joelho de Claire (Le genou de Claire, França, 1970) é, talvez, o filme mais polêmico da antológica série Seis Contos Morais, de Eric Rohmer. Jerôme e Aurora, dois amigos de meia-idade, perto dos 40 anos, se reencontram às margens do belo Lago de Annecy. A adolescente Laura se apaixona por Jerôme e Aurora tenta convencer o amigo a se entregar à experiência (ela é escritora e assim teria inspiração para uma história). No entanto, Jerôme começa um jogo de sedução em torno da também adolescente Claire, após ficar completamente fascinado pela visão de seu joelho.  

    Os debates a respeito de sedução e infidelidade entre Jerôme e Aurora ditam os rumos da narrativa. “Por que me prenderia a uma mulher se outras ainda me enteressassem?”. Diz Jérôme, revelando seu estilo de vida, mesmo estando prestes a se casar com a filha de um embaixador. No entanto, é a sedutora presença de Claire quem domina a película. O fetiche de Jérôme em torno de seus joelhos é simbólico, apresenta um desejo arrebatador e proibido.

    “Muito além de se concentrar exclusivamente nas angústias de Jérôme e em seus métodos divertidamente arrogantes para se justificar, Rohmer constrói uma história complexa e ambígua comparando a expressividade floreada da linguagem à realidade do sentimento interior. Quando Jérôme consegue por a mão no joelho de Claire, há uma imensa liberação da tensão sexual reprimida, embora a plateia possa escolher se aceita ou não sua desventura docemente perversa.

    Elenco: Jan Claude Brialy (Jérôme), Aurora Cornu (Aurora), Béatrice Romand (Laura), Laurence de Monaghan (Claire). Michèle Montel (Madame Walter). 

    Tudo sobre cinema. Philip Kemp (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2011

  • A colecionadora

    Três prólogos apresentam os protagonistas. Haydée, uma jovem que vive seus amores de forma liberta, sem amarras, dormindo com os homens que a interessam, a colecionadora do título. Daniel, um pintor centrado em seu próprio mundo arrivista. Adrien, um comerciante de artes pretensioso, arrogante, espécie de bon vivant sem recursos que passa seus dias entre o ócio e a necessidade de ganhar dinheiro. 

    Os três se encontram durante as férias de verão em uma casa na Riviera francesa e passam seus dias entre conflitos e entregas amorosas. O primeiro filme a cores de Éric Rohmer (da série Contos Morais) é um retrato da vida dos jovens de St. Tropez, que vivem entre o sexo e o glamour, como se nada importasse a não ser debates banais e noites na cama.

    A colecionadora (La collectionneuse, França, 1967), de Eric Rohmer. Com Haydée Politoff (Haydée), Patrick Bauchau (Adrien), Daniel Pommereulle (Daniel), Seymour Hertzberg (Sam). 

  • Amor à tarde

    É o último filme da série “Seis Contos Morais”. Fréderic vive um casamento feliz com Hélène, que está grávida do segundo filho. Moram na periferia de Paris, mas narração em off do protagonista revela sua predileção pelo centro da cidade, onde trabalha em meio à confusão de pessoas e trânsito. Um dia, Chloe, antiga amizade de Fréderic, entra em seu escritório. Começa, entre os dois, um jogo de flertes, encontros, insinuações sedutoras e erotismo declarado. 

    O filme aborda o cotidiano de pessoas da classe média parisiense que vivem entre os afazeres domésticos, o trabalho, os estudos (segundo Chloe, Fréderic é um burguês que finge amar a mulher enquanto seduz outras mulheres em suas andanças pela cidade). Preste atenção na divertida sequência na qual Fréderic, imaginando estar enfeitiçado por um medalhão, aborda diretamente várias mulheres na rua. Mas o destaque de Amor à tarde é a sedutora presença de Zouzou (Chloe) que provoca o espectador sem pudor cada vez que aparece em cena. 

    Amor à tarde (L’Amour, L’Après, França, 1972), de Eric Rohmer. Com Zouzou (Chloe), Bernard Verley (Fréderic), Françoise Verley (Hélène), Daniel Ceccaldi (Gérard).

  • Minha noite com ela

    A série Contos Morais, de Eric Rohmer, começou com dois curta-metragens: A Padaria de Monceau (La Boulangère de Monceau, 1962) e A Carreira de Suzanne (La Carrière de Suzanne, 1963). Depois vieram os longas A colecionadora (La Collectionneuse, 1967), Minha Noite com ela (Ma Nuit chez Maud, 1969), O joelho de Claire (Le Genou de Claire, 1970) e Amor à tarde (L’Amour l’après-midi, 1972). O tema comum aos filmes é o desejo e a frustração que ele acarreta. 

    “Os seis filmes que constituem o ciclo ‘Contos Morais’ de Eric Rohmer se preocupam com as formas pelas quais o desejo pode perturbar o equilíbrio moral. Impiedosamente sofisticados, perversamente eróticos e de escala modesta, eles consistem em variações sutis de um conceito praticamente idêntico, que Rohmer assumiu como sendo inspirado por Aurora (EUA, 1927), de F. W. Murnau: rapaz está com garota, rapaz conhece outra garota, rapaz pensa em partir com a segunda garota, rapaz termina voltando para a primeira, mas com reservas. Esse esquema permitia que Rohmer investigasse as complicações do meio – tempo, lugar, ambiente – e as formas com que ele subverte, convida e impede o romance.”

    Minha noite com ela é o maior sucesso de crítica da série. Durante a celebração de uma missa católica, Jean-Louis fica fascinado com Françoise. Quando ela sai da igreja, ele tenta segui-la pelas ruas da cidade, mas a perde de vista. Pouco depois, ele reencontra seu amigo Vidal e os dois vão à casa de Maud, médica divorciada que vive de forma livre e despretensiosa com seus relacionamentos. 

    A trama se aproxima de um possível triângulo amoroso, traz a marca do diretor: longos diálogos em ambientes fechados. Françoise e Maud passam a noite conversando sobre religião, filosofia, entre flertes e tentativas frustradas de um relacionamento amoroso. Quando, finalmente, o protagonista encontra seu objeto de desejo, a jovem e bela Françoise, outros triângulos amorosos se inserem de forma sutil na trama, revelando que as ruas, apartamentos, praias, enfim, a cidade, provoca acasos fascinantes e misteriosos. 

    “Não há outro diretor em cuja obra o lugar e a estação sejam mais importantes. Em Minha noite com ela, a neve caindo aumenta o frio na longa cena do apartamento de Maud, fornecendo um pretexto para que o herói passe a noite lá, e mais tarde também permite que encontre a estudante e passe a noite com ela. A complexidade do filme e sua angústia se devem tanto à fotografia em preto-e-branco de Néstor Almendros, com sua ampla variedade de tons sutis, quanto ao diálogo vigoroso e brilhante. Uma atmosfera de détente constrangedora prevalece, emotivamente vinculada à agradável alienação do herói.”

    Elenco: Jean-Louis Trintignant (Jean-Louis), Marie-Christine Barrault (Françoise), Françoise Fabian (Maud), Françoise, Antoine Vitez (Vidal). 

    Referências: 

    1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (org.). Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

    Tudo sobre cinema. Philip Kemp (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2011