Autor: Robertson B. Mayrink

  • Os jogadores de xadrez

    Dois nobres indianos passam todo o tempo jogando xadrez. Enquanto uma crise assola o país, a Índia foi anexada ao Império Britânico e os golpistas exigem a abdicação do rei, a única preocupação deles é com o interminável jogo. 

    Os jogadores de xadrez foi realizado em uma época na qual a censura imperava na Índia. A alegoria de nobres absolutamente desinteressados e passivos diante dos conflitos sociais e políticos foi a forma do aclamado diretor Satyajit Ray tecer sua crítica mordaz. A narrativa se passa em 1856, mas pode ser visto, ainda hoje, como um retrato satírico da colonização que assolou países do mundo inteiro, sob o olhar complacente da política e das elites locais. 

    Os jogadores de xadrez (Shatranj ke khilari, Índia, 1977), de Satyajit Ray. Com Sanjeev Kumar (Mirza), Saeed Jaffrey (Mir Roshan), Shabana Azmi (Khurshid), Farida (Nafisa). 

  • O amigo da minha amiga

    O filme é uma espécie de ciranda amorosa. Dois casais de amigos moram e trabalham nos arredores de Paris. Lea e Fabien são namorados ocasionais, não se decidem pelo relacionamento. Alexandre é um jovem sedutor, desejado por diversas mulheres. Blanche está solteira e em conflito com sua dificuldade em manter namoros. Blanche se apaixona por Alexandre, que nutre desejos por Lea. À medida que conhece melhor Blanche, Fabien se encanta mais e mais pela garota. 

    O amigo de minha amiga é o último filme da série Comédias e Provérbios, de Éric Rohmer: “Os amigos dos meus amigos são meus amigos.” A narrativa segue os passos dos quatros jovens, com destaque para Blanche, e seus encontros e desencontros amorosos. Tudo com descontração e bom humor, refletindo as incertezas da juventude diante de seus relacionamentos. O final do filme é divertido e deixa no ar este gosto de quero mais do cinema de Eric Rohmer. 

    O amigo da minha amiga (L’Ami de mon amie, França, 1987), de Éric Rohmer. Com Emmanuelle Chaulet (Blanche), Sophie Renoir (Lea), Eric Viellard (Fabien), François-Eric Gendron (Alexandre). 

  • Noites de lua cheia

    O filme faz parte da série Comédias e Provérbios, de Éric Rohmer, começando, como sempre, com uma citação (neste caso, o provérbio foi inventado pelo próprio diretor): “Quem tem duas mulheres perde a alma, quem tem duas casas perde a cabeça.”

    A jovem Louise mora nos arredores de Paris com seu namorado, o tenista Remi. Trabalha em Paris, onde tem um apartamento que está alugado. Quando o inquilino deixa o imóvel, Louise decide decorá-lo e fazer dali sua segunda morada, onde decide passar alguns dias da semana sozinha.

    Louise representa a mulher que busca sua emancipação, desejosa de ter liberdade em seus relacionamentos. Ela ama Remi mas quer aproveitar suas noites em baladas, longe do namorado. Seu companheiro destes momentos é Octave, casado, mas que nutre uma paixão por Louise – que em diversos momentos se transforma em puro assédio. 

    Através de suas comédias e provérbios, Éric Rohmer traça um retrato descompromissado e descontraído da juventude. Em Noites de lua cheia, os personagens estão envoltos nos conflitos provocados pelos relacionamentos amorosos, por desejos de liberdade, de novas experiências. A infidelidade de Louise, de Remi, de Octave, despeja no espectador o frescor da juventude.

    Noites de lua cheia (Les nuits de la pleine lune, França, 1984), de Éric Rohmer. Com Pascale Ogier (Louise), Tchéky Karyo (Remi), Fabrice Luchini (Octave), Virginie Thévenet (Camille).

  • Mur murs

    A câmera de Agnés Varda, neste documentário em curta-metragem, percorre as ruas da grande Los Angeles, mostrando murais pintados por artistas anônimos. Os diversos temas traçam um retrato da cidade dos sonhos dos anos 80: violência de gangues, movimentos culturais das ruas, seitas religiosas, marginalizados… 

    Como é comum em seus documentários, a cineasta tece comentários sobre as imagens, provocando a reflexão sobre a arte desses artistas anônimos, muitos deles também marginalizados que encontram nas paredes e muros das grandes cidades a possibilidade de se expressar. Muros e murmúrios ecoa como um grito pela beleza e vivacidade das obras. 

    Mur murs (França, 1981), de Agnès Varda. 

  • Mouchette – A virgem possuída

    A adolescente Mouchette vive no campo. Seu dia é dividido entre cuidar da mãe, que tem uma doença terminal, e frequentar a escola, onde pratica atos delinquentes, como jogar torrões de terra nas colegas, escondida abaixo da estrada. Um dia, ao sair da escola, resolve ir para casa pelo bosque e é surpreendida por uma tempestade. Ela se abriga na cabana do caçador Arsène, que acabara de ter um confronto com o guarda florestal Mathieu que pode ter terminado em morte.

    A trágica narrativa de Robert Bresson evoca sentimentos inerentes à natureza humana das personagens: desejos ardentes, entrega aos vícios, provocações mútuas que levam a agressões. Mouchette participa e se entrega a estas experiências com ousadia e agressividade, quase ciente de seu destino trágico. A obra-prima de Robert Bresson é instigante e perturbadora.

    Mouchette, a virgem possuída (Mouchette, França, 1967), de Robert Bresson. Com Nadine Nortier (Mouchette), Jean-Claude Gilbert (Arsène), Jean Vimenet (Mathieu), Marie Cardinal |(Mãe de Mouchette). 

  • Meu tio da América

    O filme começa com narração em off do professor Henri Laborit (personagem real), sobreposta a imagens estáticas de plantas, rios, árvores, detalhes de objetos em ambientes diversos. O professor discorre sobre o motivo da existência humana, apresentando suas teorias sobre o evolucionismo. A seguir, voz feminina apresenta, também sobre imagens estáticas, os personagens. Jean Le Gall, político e professor de história. Janine Garnier, aspirante a atriz  que se torna uma importante estilista. René Ragueneau, funcionário de carreira de uma indústria têxtil. Henri Laborit, médico, professor e pesquisador com importantes descobertas nas áreas anestésica e de reanimação. 

    O fio condutor da narrativa são as teorias do professor, entremeadas com as histórias dos outros três personagens que servem como espécie de cobaias e comprovações das teses apresentadas. Eles passam por conflitos que os colocam em posições desafiadoras no trabalho, no casamento, levando a escolhas entre a tranquila vida cotidiana e rupturas. A princípio isoladas, as histórias se cruzam. 

    O título se refere a uma metáfora, há um possível tio na América dos personagens que serve como exemplo de ressurgimento de sucesso no país onde todos os sonhos são possíveis. Com esta trama complexa, misto de documentário e ficção, Alain Resnais faz uma crítica cruel e, ao mesmo tempo, bem humorada da sociedade formada por pessoas que precisam manter suas posições seguras enquanto desejam com ardência outros caminhos. 

    Meu tio da América (Mon oncle D’Amérique, França, 1980), de Alain Resnais. Com Gérard Depardieu (René), Nicole Garcia (Janine), Roger Pierre (Jean), Nelly Borgeaud (Arlette).

  • O vagabundo

    Raghunath é um prestigiado juiz, casado com Leela. Certa noite, sua esposa é sequestrada pelo bandido Jagga que tem contas a acertar com o juiz. Raghunath o condenou à prisão sem provas, alegando que “filho de bandido será sempre bandido.” Quando descobre que Leela está grávida, o bandido a liberta após cinco dias de cativeiro. Ao saber da gravidez de sua esposa, a dúvida sobre a paternidade se instaura de forma destruidora na mente do juiz. 

    A trama expõe questões inerentes ao cruel sistema paternalista não só da Índia, mas da humanidade. O juiz nega a paternidade e seu filho se transforma no Vagabundo do título, cumprindo o destino determinado pelo próprio pai (a vingança de Jagga). Esteticamente, o filme traz a marca do cinema de qualidade desenvolvido em Bollywood, com cenários perfeitos, o melodrama e o musical pontuando a narrativa – gêneros preciosos ao cinema indiano, sequências glamourosas e extravagantes (os sonhos de Raj). 

    O vagabundo (Awaara, Índia, 1951), de Raj Kapoor. Com Raj Kapoor (Raj), Nargis (Rita), Prithviraj Kapoor (Juiz Raghunath), K. N. Singh (Jagga), Leela Chitnis (Leela)

  • Masculino-Feminino

    O filme abre com plano fechado em Paul lendo pausadamente um texto. Ele pega um cigarro e o joga na boca, gesto que se torna característico durante o filme. Abre o plano, na mesa ao lado, em um café, está Madeleine, folheando uma revista de moda. Paul trabalha em um instituto de pesquisa, mas tem interesse em ser jornalista, Madeleine aspira a carreira de cantora. A narrativa (ou não-narrativa) se desenvolve em 15 sequências nas quais os personagens dialogam, ou tecem monólogos, sobre questões que marcam a carreira do diretor: os conflitos bélicos – Vietnã e Argélia, filosofia, sociologia, consumismo, sexo…

    A inspiração de Jean-Luc Godard para a trama vem de dois contos de Guy de Maupassant, um deles sobre a depressão que assola o personagem quando descobre que sua mulher tem um caso com outra mulher. Como ponto de vista, Godard escolhe Paul, que despeja durante o filme frases e atos sexistas ou reflexões rasas sobre questões políticas, O filme levantou polêmicas e foi alvo de críticas ácidas de cineastas como Bergman e Truffaut. 

    Masculino-Feminino (Masculin Féminin: 15 faits precis, França, 1966), de Jean-Luc Godard. Com Jean-Pierre Léaud (Paul), Chantal Goya (Madeleine). 

  • Lola Montès

    O ator James Mason escreveu um poema alegórico para Max Ophuls que reflete muito do estilo do diretor alemão: “Acho que sei porque os produtores tendem a fazê-lo chorar. Inevitavelmente, eles exigem um arranjo parado e uma forma que não exija trilhos. Isso é uma agonia para o pobre Max, que separado de seu carrinho envolve-se na mais profunda melancolia. Uma vez, quando levaram sua grua embora, pensei que ele nunca mais sorriria.” 

    Max Ophuls se consagrou pela elegância não só dos movimentos de câmera, mas também dos enquadramentos, pela sensibilidade inigualável de fotografar seus atores em momentos sutilmente glamourosos. Lola Montès é o último e único filme colorido do diretor. A escolha da cinebiografia livre da famosa cortesã que seduziu importantes figuras da aristocracia europeia, como o compositor Franz Liszt e o rei da Bavária, se mostrou perfeita para um verdadeiro espetáculo em cores. A narrativa mistura a extravagância circense, quando Lola se vê desprovida de recursos e passa a trabalhar como atração de circo, com a elegância das cortes europeias, quando ela encantava e seduzia integrantes da aristocracia. 

    “O filme de Ophuls não é uma cinebiografia convencional. Em vez disso, ele elabora uma luxuosa extravagância barroca, parte circo, parte cortejo, repleto de flashbacks, e faz sua câmera notoriamente móvel passar pelas complexas decorações. No papel-título, Martine Carol oferece uma interpretação taciturna e emocionalmente chapada. No entanto, apesar de todas as suas limitações, Carol se encaixa no conceito de Ophuls. Como sempre, seu interesse está no abismo entre o ideal do amor e sua realidade falha e desencantada. Sua Lola é apenas uma tábula rasa passiva em que os homens projetam suas fantasias. Seu destino final como uma atração de circo que vende beijos por um dólar reduz sua profissão à sua lógica mais brutal. Lola Montès, um film maudit clássico, foi retalhado pelos seus distribuidores e, durante muito tempo, esteve disponível apenas em uma versão truncada, porém um cópia recém-restaurada nos permite apreciar o canto de cisne de Ophuls em todo o seu pungente esplendor.”

    Sobre seu notório fascínio pela câmera móvel, Max Ophuls declarou: “Muitas vezes me criticam por movimentar demais a câmera. Eu faço isso simplesmente para acompanhar o ritmo da cena. Não planejo nada. Espero para ver como a cena vai se desenrolar e mantenho o foco nos atores. Em inglês, filme é chamado de movie, que vem de movimento. Sou impulsionado pelo movimento do filme e capturo as emoções. Digamos que estou filmando uma cena que considero triste. Se eu fosse um maestro conduziria a música a um passo lento, triste. Da mesma forma, deixo o movimento de câmera lento e triste.”

    Lola Montès (França, 1955), de Max Ophuls. Com Martine Carol, Peter Ustinov, Anton Walbrook, Oscar Werner.

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Lola – A flor proibida

    O filme é dedicado a Max Ophuls, autor do clássico Lola Montés, claramente a inspiração para o primeiro filme do francês Jacques Demy. Roland Cassard é um jovem desencantado com seus dias, frustrado com o trabalho. Quando chega atrasado para um dia de trabalho é repreendido pelo chefe e declara, citando a frase de um romance que está lendo: “Não há dignidade possível, não existe vida real para um homem que trabalha doze horas por dia sem saber por que ele trabalha.” É despedido e, em suas andanças pela cidade, reencontra Cecile, paixão de infância, que agora trabalha como dançarina com o nome de Lola. 

    A narrativa é feita destes encontros, paixões do passado se contrapondo a outras que aflora – uma mulher de meia-idade, mãe de uma garota também chamada Cécile, se apaixona por Roland, enquanto Cecile se apaixona por um jovem marinheiro americano que por sua vez é amante de Lola. Tudo enquadrado pela câmera sensível, bela, que explora em cada frame a deliciosa vida cotidiana quando entregue aos flertes, aos amores possíveis ou não. 

    Lola – A flor proibida (Lola, França, 1961), de Jacques Demy. Com Anouk Aimée (Lola), Marc Michel (Roland Cassard), Jacques Harden (Michel), Alan Scott (Frankie), Elina Labourdette (Madame Desnoyers). 

  • Artesão pickpocket

    No final do filme, uma frase revela: “Todo este filme foi interpretado por atores não profissionais.” A influência neorrealista é expressa não só nesta declaração, mas em toda a narrativa. Xiao Wu ganha a vida batendo carteiras nas ruas da cidade. Se considera quase um artista em sua profissão e reluta em abandonar a atividade, a exemplo de alguns de seus antigos companheiros. Xiao fica sabendo que um destes amigos, com quem compartilhara grandes momentos, está de casamento marcado. O batedor de carteira não é convidado para o casamento e passa por um grande conflito. Ele começa a frequentar um bordel e se apaixona por uma prostituta, mas tem dificuldades em se entregar ao relacionamento. 

    A câmera segue o protagonista pelas ruas da cidade como uma testemunha das ações e das pequenas transformações dos personagens. Em determinado momento, Xiao, depois de inúmeras recusas, decide cantar com a prostituta em um jogo de karaokê. Entrega-se à canção com emoção reveladora. São as nuances deste cinema realista e ao mesmo tempo intimista que marca as obras de Jia Zhangke. A conjunção destas duas características é de uma tristeza perturbadora na sequência final, quando Xiao é humilhado diante de dezenas de pessoas na rua.  

    Artesão pickpocket (I Xiao Wu, China, 1997), de Jia Zhangke. Com Wang Hong Wei, Hao Hong Jian, Zuo Bai Tao, Ma Jin Rei. 

  • Ankur

    Surya é um jovem rico e idealista que se diverte com os amigos nas ruas da cidade. Ele quer estudar artes, mas é confrontado pelo pai, que não admite esta escolha e o envia para tomar conta das propriedades rurais da família no interior da Índia. Surya, seguindo as tradições indianas, já está casado com uma jovem de sua casta, mas, durante a estada na fazenda, seduz e possui a jovem Laxmi, empregada da casa. 

    A transformação de Surya é aterradora, passo a passo se revela um jovem intransigente e cruel com os empregados e com a própria família. A sequência final, entre açoites, desespero e olhares passivos, demonstra como tradições seculares foram criadas para preservar o domínio de uma classe abastada, cruel, às vezes sanguinária. 

    Ankur (Índia, 1974), de Shyam Benegal. Com Shabana Azmi (Laxmi), Anant Nag (Surya), Mirza Qadirali Bai (Pai de Surya). 

  • Amor à tarde

    É o último filme da série “Seis Contos Morais”. Fréderic vive um casamento feliz com Hélène, que está grávida do segundo filho. Moram na periferia de Paris, mas narração em off do protagonista revela sua predileção pelo centro da cidade, onde trabalha em meio à confusão de pessoas e trânsito. Um dia, Chloe, antiga amizade de Fréderic, entra em seu escritório. Começa, entre os dois, um jogo de flertes, encontros, insinuações sedutoras e erotismo declarado. 

    O filme aborda o cotidiano de pessoas da classe média parisiense que vivem entre os afazeres domésticos, o trabalho, os estudos (segundo Chloe, Fréderic é um burguês que finge amar a mulher enquanto seduz outras mulheres em suas andanças pela cidade). Preste atenção na divertida sequência na qual Fréderic, imaginando estar enfeitiçado por um medalhão, aborda diretamente várias mulheres na rua. Mas o destaque de Amor à tarde é a sedutora presença de Zouzou (Chloe) que provoca o espectador sem pudor cada vez que aparece em cena. 

    Amor à tarde (L’Amour, L’Après, França, 1972), de Éric Rohmer. Com Zouzou (Chloe), Bernard Verley (Fréderic), Françoise Verley (Hélène), Daniel Ceccaldi (Gérard).

  • Coisas modernas

    Quando escrevo, evito palavras desgastadas. Modernidade. Detesto a palavra, pode ser birra, mas reconheço, não consigo imaginar mais a vida sem essas coisas modernas. Tenho uma amiga que jura, “nunca vou ter celular”. Mas ela é viciada em mensagens eletrônicas. Um dia, ela me enviou o trecho final do conto Os Mortos, de James Joyce, o que me lembrou de tempos bons da literatura e do cinema.

    Quando assisti a Os vivos e os mortos (The dead, 1987, EUA), de John Huston (1906-1987), adaptado do conto de James Joyce, saí do cinema com aquele sentimento incompreensível que nasce diante da verdadeira obra de arte. O trecho final do conto, interpretado pelo ator irlandês Donal McCann, “enquanto ele ouvia a neve cair suave através do universo, cair brandamente – como se lhes descesse a hora final – sobre todos os vivos e todos os mortos”, é o que se chama poesia no cinema. Harmonia perfeita de cinema e literatura. Passei a garimpar os filmes de John Huston. Coisa de cinéfilo, a gente faz uma relação de filmes e não sossega enquanto não assistir a todos.

    John Huston foi boxeador, criador de cavalos, pintor, escritor. Para sorte nossa, se decidiu pelo cinema. Excêntrico, exigiu que as filmagens de Uma aventura na África (The African Queen, EUA, 1952) fossem realizadas em locações no continente africano. Queria caçar um elefante. Chegava a parar as filmagens por dias e saía à caça de seu elefante. Clint Eastwood contou esta história no filme Coração de caçador (White hunter, Black heart, EUA, 1990). John Huston levou uma vida apaixonada, entre bebidas, mulheres, viagens, filmes. No final da vida, doente e debilitado, dirigiu Os vivos e os mortos na cadeira de rodas e mostrou ao mundo o cinema que já não existia.

    Tenho ido pouco ao cinema – meio por falta de tempo, meio por preguiça, muito por não ter o que ver. O cinema contemporâneo mostra a falta que fazem John Huston, Billy Wilder, Alfred Hitchcock, John Ford, Luchino Visconti, François Truffaut. Eles estão hoje naquelas prateleiras esquecidas que levam a etiqueta Clássicos. Imagino a sensação que meu pai, meu tio que era porteiro do Cine Jacques, sentiram vendo filmes como Rocco e seus irmãos (Rocco i suoi fratelli, Itália, 1960), de Luchino Visconti, naquela tela grande e mágica do cinema. Não tinham nada além do cinema naquela época. Creio que bastava.

    Nós temos e-mail, watsapp, blog, twitter, instagram, facebook para trocar impressões com pessoas inteligentes e queridas. Temos TV HD, home-theater, DVD, blu ray, streaming, para simular uma sessão de cinema bem à moda antiga: penumbra, mãos dadas com a mulher amada e um filme qualquer daquela prateleira de Clássicos. Gosto desta modernidade.

  • Feliz ano novo

    A mãe fez o sinal da cruz assim que o carro passou pela ponte sobre o rio das Velhas. Voltou o rosto com olhar carinhoso para os filhos no banco de trás da perua Dodge, roçou de leve a mão do pai no volante. Era seu jeito de encarar com otimismo os sessenta quilômetros de estrada de terra que nos separavam do sopé da Serra do Cipó.

    Cerca de três horas antes, o pai cumpriu seu ritual de arrumar cuidadosamente as bagagens no carro. No porta-malas traseiro, mochilas das crianças, a pesada mala da mãe, panelas, pratos e talheres, mesa de acampamento, banquinhos dobráveis, fogareiro de três bocas, dois pequenos botijões de gás – um para o fogo da comida, outro para o lampião. No bagageiro acoplado em cima do carro, a barraca de dois quartos, colchões, travesseiros e roupas de cama.

    – Não esqueceu nada? – perguntou à mãe enquanto dava voltas com a corda de nylon, apertando a lona de plástico sobre as bagagens. Um dos meus desejos ainda é aprender a dar aquele nó de marinheiro no final, a corda rigidamente esticada, prensando a lona.

    À medida que o Dodge vencia as lombadas da estrada, o barulho de panelas e talheres batendo se misturava às músicas de Nat King Cole, Elvis Presley e Frank Sinatra saídas da fita cassete gravada pelo pai. O sol forte da manhã castigava o interior do carro, os vidros abertos, a poeira começava a impregnar em cada um de nós.

    – Mãe, meu estômago tá embrulhando.

    – Falta pouco meu filho, já estamos chegando.

    – Um humm… – insinuou o irmão mais velho, sorriso nos lábios, olhos presos no intenso movimento de final de ano da estrada. Carros abarrotados de bagagens no teto, pneus arriados pelo peso, passageiros se espremendo nos bancos. O pai cortou um fusquinha, a mãe reclamou da imprudência naquela estrada perigosa.

    – Perigo nada, olha a reta. – disse o pai, voltando a se concentrar no volante, nas lombadas sem fim que faziam meu estômago dar voltas sobre ele mesmo.

    – Não tome o pozinho que fica no fundo do copo. – alertou a mãe enquanto misturava o bicarbonato com limão. Fechei os olhos e tomei o líquido de um gole só. Ela entrou na barraca para acabar de arrumar os colchões, as mãos passando sobre os lençóis estendidos para tirar as dobras e deixar aquele suave toque de mãe na cama dos filhos.

    A barraca tinha dois quartos separados que se prendiam na armação de tubos de alumínio. Uma lona cobria toda a extensão dos quartos, deixando um vão em frente a eles que servia como uma espécie de sala. Após o fecho que encerrava o interior, uma extensão retangular servia de varanda. O pai estava agachado do lado de fora, martelo na mão, batendo ainda mais nos piquetes, esticando as cordas que prendiam o teto de lona no chão.

    – Tá vendo a cachoeira? Nesta época do ano costuma cair um toró no alto da serra, chuva forte, a enchente desce de repente, não dá nem tempo de correr. Por isso nunca podemos armar acampamento perto do rio. Aqui é seguro e não há vento que levante isto. – o pai tocou com os dedos a corda esticada.

    Naquela noite, sentados na grama do lado de fora da barraca, o pai abriu uma garrafa de vinho, a mãe distribuiu refrigerante para os filhos. Uma garoa começou a incomodar, esfriar a noite quente de verão. As camisinhas presas nos bocais dos liquinhos iluminavam o acampamento. Perto das luzes, famílias e amigos reunidos, alguns rindo alto, outros silenciosos observavam o tempo, casais abraçados, crianças deitadas em pequenos colchões, um cachorro pequinês irritava com latidos agudos.

    A garoa deu lugar a pesadas gotas de chuva. Recolhemos às pressas os banquinhos, o isopor com as bebidas, a garrafa de vinho. Um raio caiu no alto da serra seguido de um estrondo ensurdecedor. A chuva mudava de lado de uma hora para outra, o vento forte começou a balançar os tetos das barracas. A mãe olhava assustada para o alto da serra, estremecendo com os raios, se benzendo a cada trovão.

    Entramos em um dos quartos da barraca. O vento balançava o teto, fortes rajadas de chuva batiam em cima, nos lados. A irmã caçula estava sentada no canto, os braços segurando as pernas dobradas, a cabeça pousada nos joelhos. A mãe puxou-a para junto de si.

    Ouvi gritos do lado de fora, passos de gente correndo, mais gritos. Saí do quarto e abri o fecho da porta, o irmão também espiava. Solto, o teto da barraca em frente balançava ao vento. Três homens seguravam as cordas que ainda restavam presas no chão. Quando o vento diminuía, a lona descia sobre a barraca e logo a seguir uma forte rajada a levantava de novo. As mulheres no interior gritavam, uma delas não resistiu ao desespero, saiu correndo e entrou no carro, parado pouco à frente.

    Ao lado, a lona de outra barraca rasgou-se ao meio. A água invadiu o interior, o casal tirava roupas de cama e mochilas, indo e voltando correndo do carro. De repente, todos os ventos se reuniram no alto da serra e desceram juntos pelo acampamento, foi assim que a mãe contou a história às amigas depois. O vento varreu quase tudo que encontrou pelo caminho. Tetos de barraca voaram, alguns bateram na copa das árvores e ficaram estendidos sobre os galhos, outros caíram no rio. Roupas de cama espalharam-se pela grama, panelas rolaram. Um estrondo alastrou-se pelo céu, ecoando em cada montanha que achou à sua frente.

    A mãe gritou pelos filhos. Entramos assustados no quarto da barraca. Ela abriu os braços, nos aconchegando em seu peito, sua cabeça acima das nossas, olhos atentos a cada movimento, ouvidos presos nos trovões.

    – Onde está seu pai? Onde está seu pai? – seus braços apertaram mais ainda os filhos.

    Poucos segundos depois, o pai entrou. Seu rosto respingando água, roupas encharcadas. Ele correu os olhos por toda a barraca, passando as mãos pelo teto, às vezes ajoelhava-se em um canto mais difícil. Por fim, sentou-se do lado de fora dos quartos, pegou seu copo de vinho que permanecia intacto em cima da mesinha de acampamento.

    – Dei uma olhada nos piquetes lá fora, estão todos bem presos, as cordas no lugar, olha só, a barraca nem se mexe. – disse olhando para o teto. Em seguida, levantou o copo de vinho no gesto característico, a mãe ainda agarrada aos filhos.

    – Feliz ano novo.

  • Ulisses

    Em 1954, Agnès Varda produziu e fotografou a famosa cena em uma praia coberta de pedregulhos no Sul da França. Ulisses é o nome do menino sentado, olhando a cabra morta. 

    No curta, realizado na década de 80, a cineasta volta ao local da foto, conversa com os protagonistas, buscando as memórias daquele tempo, daquele registro. Através de imagens passadas e presentes, o curta é uma reflexão sobre a natureza de fotografar, sobre memórias perdidas, resgatadas, sobre pessoas simples que são, em determinados momentos, apenas um flash um suas vidas, eternizadas pela arte.  

    Ulisses (Ulysse, França, 1983), de Agnès Varda. 

  • 24 City

    O filme é um misto de documentário e ficção. A narrativa acompanha personagens de três gerações, interpretados por atores profissionais, que trabalharam em uma fábrica de construção de peças para a aeronáutica. A fábrica, desativada e em ruínas, serve como elemento de transição entre os depoimentos que são prestados direto para a câmera, assim como nos documentários mais tradicionais. As histórias pessoais traduzem também as importantes transformações políticas e econômicas que acompanham a China. Em determinado momento, é apresentado a maquete de um empreendimento residencial de luxo que ocupará o espaço da antiga fábrica. 

    Realidade e encenação se encontram em momentos emocionantes, a exemplo do encontro entre um funcionário e seu antigo mestre na fábrica, agora um ancião entregue às lembranças de seu trabalho. Outro ponto de destaque é a trilha sonora, recheada de canções pops a embalar a narrativa.

    24 City (Er shi si cheng ji I, China, 2008), de Jia Zhangke. Com Joan Chen, Lu Liping, Zhao Tao, Chen Jianbin. 

  • Gotas de óleo

    Um dia jogo óleo nos cabos desse elevador.

    – Pensando na vida Seu Joaquim? – perguntou Dona Marta, depois de observar por alguns segundos o vizinho olhando para o teto do elevador.

    Há quase quarenta anos morando naquele prédio, Joaquim tinha a impressão que cabos, roldanas, máquinas e portas daquele elevador nunca tinham visto lubrificação. Depois de acabar com a pequena fortuna que o avô lhe deixara, ele fora ganhar a vida consertando pequenas máquinas. Joaquim tinha prazer em esguichar óleo Singer nas junções, fazer a engrenagem funcionar lentamente até deixar de ouvir completamente o ruído de máquina contra máquina. Ele voltou os olhos para Dona Marta. Lembrou-se sem saudade de uma noite lá pelos anos cinqüenta. O marido viajando, os dois no mesmo elevador. A porta se abriu no andar onde ela morava. Marta ficou olhando para Joaquim, a porta voltou a se fechar e ela subiu para o apartamento dele.

    – É a única coisa que a gente faz agora Dona Marta, pensar na vida  – respondeu Joaquim. O elevador parou no andar de Dona Marta. Ela saiu lentamente, sem mesmo se despedir.

    Joaquim entrou no apartamento pensando na vergonhosa derrota daquela noite. Eu nunca deveria ter deixado o rei sem proteção. Rainhas foram feitas para isso, proteger os reis. Pensou em outros jogos, em noites no Cassino da Urca rodeado de fichas e dançarinas. Talvez fosse a sua sina, perder, perder e sair com uma garota pendurada em seu pescoço, cheirando a bebida, para uma noite qualquer em quarto de hotel.

    Preciso me concentrar. Amanhã pego de jeito aquele velhaco do Valdir. Abriu a janela da sala. Ouviu irritado o ranger de janela velha. Armou o tabuleiro de xadrez na mesa para pensar. Amanhã pego o Valdir de jeito.

    O silêncio do apartamento. Não consigo me concentrar. Música, música. Preciso de música. A voz de Frank Sinatra invadiu seus ouvidos. Há muitos e muitos anos, em que ano Joaquim? não me lembro mais, final de década de 30, sim, é isso, estava em Nova Iorque. Fui com amigos a um bar, final de noite, uma orquestra desconhecida cantando sabe-se Deus para quem. A plateia mais preocupada com o último uísque, homens e mulheres cheirando a álcool, fumo, extasiados da noite. No palco, um rapaz de uma magreza tímida e feia cantava. Alguém disse: É o Frank Sinatra. Esse menino vai longe.

    Virou a capa do disco. “Para Joaquim, amor da minha vida. Da sua Eleonora”. A voz de Frank Sinatra tomou conta “And now, the end is near, and so I face, the final curtain / my friend, I’ll say it clear / I’ll state may case, of wich I’m certain / I’ve lived, a life that’s full / I’ve traveled each every highway / And more, much more than this / I did it my way.”

    Quem é Eleonora? Não consigo me lembrar. Eleonora. É a Nora? Não. Nora tinha cabelos vermelhos, um jeito inesquecível de descer pelo meu corpo. Preciso me concentrar, pegar o Valdir de jeito amanhã. Vou dormir. Fechou a janela. Esse barulho.

    Joaquim foi até a dispensa, pegou sua caixa de ferramentas. O velho tubo de óleo Singer. Derramou algumas gotas na janela, começou o lento movimento de vai e vem. Mais algumas gotas, vai e vem, o ruído sumindo aos poucos. Mais algumas gotas, mais, a janela agora desliza suave, sem barulho. Joaquim podia ouvir até mesmo a brisa solitária da noite.

  • Confeitaria Colombo

    “Oi. Chegou há muito tempo?”

    “Não. Acabei de chegar.”

    Pedro olhou para o copo com resto de água turva, mistura de gelo derretido e coca, em cima da mesa.

    “Desculpe. Fiquei perdido, faz tempo que não venho ao Rio, acabei me confundindo ….”

    “Não precisa explicar, eu, eu…. cheguei cedo, eu sempre chego cedo, você me conhece, eu ….”

    Pedro apertou a mão de Ângela levemente. Ela desviou o rosto, escondendo os olhos molhados, escondendo o rosto levemente vermelho de ansiedade, escondendo de si mesma a vontade de olhar fundo nos olhos dele. “Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada / E triste, e triste e fatigada eu vinha.”

    “Olavo Bilac freqüentava esse lugar. Todos os dias no final da tarde. Ficava na calçada conversando até não poder mais. Conversava com os amigos, até com estranhos que lhe pediam autógrafos. Ele adorava a fama. Você consegue imaginar a beleza de tudo isso? poetas, escritores, você consegue imaginar as conversas, as ideias, os amores que nasciam nas calçadas. Naquela época as pessoas conversavam, Pedro.”

    O garçom chegou com o bloquinho nas mãos.

    “Um conhaque, por favor.”

    “Ângela! Você não bebe.”

    Ela olhou distraída para a porta de entrada. “Tinhas a alma de sonhos povoada, e a alma de sonhos povoada eu tinha….”

    “É verdade.” Ângela fez um gesto para o garçom.

    “Um capuccino. Sem conhaque.”

    “Dois, por favor.”

    Um casal de idosos entrou, sentaram-se à mesa perto da porta da confeitaria. Um breve ressentimento tomou conta de Ângela. “Era ali que o poeta ficava, sentado nos finais de tarde”. Seus olhos encontraram de passagem os da velha senhora que percorriam o ambiente, como se fosse a primeira vez. Ângela passou a olhar para a decoração que tanto conhecia, envolvida pelo longo silêncio que se interpôs entre ela e Pedro. Ela ficava sempre fascinada com as bancadas de mármore, os lustres, aquela mobília de época, uma belle époque de poesias, de romance. “E paramos de súbito na estrada / Da vida: longos anos, presa à minha / A tua mão, a vista deslumbrada / Tive da luz que teu olhar continha”.

    “Quanto tempo você fica fora dessa vez?”

    Pedro demorou alguns segundos a responder, buscando tempo na colher mexendo o café.

    “Dois anos. Talvez mais. É um grande projeto, a fábrica aprovou a ideia, esse carro, não sei, esse carro é o projeto da minha vida.”

    “Eles não conversam.”

    “O que?”

    “O casal de idosos sentado na mesa de Bilac. Ela fica olhando a decoração, presta atenção nas pessoas que entram. Ele lê uma revista. Existe esse tempo? Basta apenas estar perto um do outro, assim, perto, respirando juntos. Ou é um tempo em que nem a beleza diz mais nada. Sua mulher vai com você?”

    “Vai.” Pedro respondeu rapidamente, largando a colher de súbito dentro da xícara  ”Nós vamos procurar uma casa em Turim. É uma fase nova na minha vida, eu preci….”

    “Nel mezzo del camin….”

    “Como?”

    Ângela tomou um pequeno gole do cappuccino, sentiu o gosto quente e doce tocando sua língua, deixou o líquido deitar na sua boca antes de deixá-lo descer pela garganta. “Na partida / Nem o pranto os teus olhos umedece”.

    “Seu café está esfriando.”

  • Primas

    Por sorte a chuva parou. Deixou o ar da primeira noite de janeiro menos quente, mais gostoso para encontros amorosos. A maioria das barracas está fechada, às escuras, um ou outro lampião com a luz baixa faz imaginar alguém ainda por aí, olhando estrelas ou bebendo, o que costuma dar no mesmo.

    Não sei se Flávia consegue sair a essa hora. “Vou ver”, ela prometera. Para meu coração adolescente. para meus olhos, boca, mãos, braços e tudo que você imaginar, era uma promessa. No pequeno caminho de pedregulhos entre as barracas vem andando uma mulher. Quase, uma menina. Flávia. Longos cabelos morenos encaracolados, olhos entre castanho e amêndoa (ainda não enxergo daqui, mas conheço de cor esses olhos), lábios com gosto de morango em meus sonhos – como Tess do Roman Polanski, o andar como quem pisa na ponta dos pés.

    “Oi, peraí, você não é…”

    “A Flávia pediu para avisar que não vem. O pai, você sabe.”

    “Que pena.”

    “Pois é. Sou a Josi.”

    Eu sei. A prima da Flávia. Cabelos louros, lisos, rosto claro, faces brancas com manchas cor-de-rosa nas bochechas, olhos – está escuro não consigo ver a cor dos olhos. O rosto… tem sua graça.

    “Oi Josi.”

    “Eu preciso ir. Vim só dar o recado.”

    “Não, fica. Vamos conversar um pouquinho. Tenho reparado em você.”

    “Eu também. Também reparo em você.”

    No canto, separada da turma, ela ficava me olhando, lembro agora. Meninos e meninas se reuniam todas as noites perto da quadra de vôlei, conversando, flertando. Josi, retraída, ficava em silêncio, abaixava a cabeça quando se falava uma ou outra bobagem. A gente bebia vinho Chapinha escondido dos pais e ela com aquele olhar assim, recriminando. Alguém acendia um cigarro e ela logo dava um jeito de ir embora. Voltava o rosto uma ou duas vezes e desaparecia no meio das barracas.

    Agora, encolhida no canto do banco, os olhos baixos, os pés brincando com as pedras no chão, as mãos sem saber direito onde ficar… Passaram-se alguns minutos, apenas o barulho da cachoeira, das águas convidativas de janeiro.

    “Tenho que ir embora.”

    “Não. Espera.” Levantei-me e a puxei pelo braço. Josi encostou a cabeça em meu peito. Senti o cheiro de seus cabelos morenos, minha mão abriu caminho entre os fios encaracolados até o seu pescoço. Ela olhou para cima, seus olhos castanho-amêndoas parados nos meus. Um sorriso moldou suas faces morenas. Nossos lábios e línguas se juntaram. Ela tem gosto de morango.

    Naquela noite, eu era apenas um adolescente beijando uma menina pensando em outra. Apenas um adolescente.