Autor: Robertson B. Mayrink

  • Perfil de uma mulher

    A narrativa é uma jornada temporal entre dois momentos na vida de Ichiko. Ela trabalha como cuidadora de idosos, cuidando da avó de duas jovens, Motoko e Yoko. Um dia, Yoko é sequestrada a caminho da escola e o principal suspeito é o sobrinho da cuidadora. A partir daí, a vida de Ichiko entra em uma espiral de intrigas, suspeitas e vingança.

    O diretor Koji Fukada mistura  presente e futuro à medida que a investigação do sequestro se desenrola, levando o espectador a um intrincado exercício de entendimento da trama. A obsessão da jovem Motoko por Ichiko funciona como uma espécie de propulsão para os acontecimentos nestes dois tempos. 

    Um ponto que merece destaque na trama é o repulsivo tratamento da mídia na cobertura do sequestro, julgando e condenando, como sempre, os envolvidos diante das câmeras, Destaque também para a interpretação de Mariko Tsutsui. Sua personagem transita pelos dois tempos de forma contida, às vezes resignada, outras vezes decidida a se vingar, mas sempre de forma compassiva, participando, mas, também, observando de forma cuidadosa o desenrolar dos acontecimentos. 

    Perfil de uma mulher (Yokogao I, Japão, 2019), de Koji Fukada. Com Mariko Tsutsui (Ichiko), Mikako Ichikawa (Motoko), Sosuke Ikematsu (Kazumichi), Nahoko Kawasumi (Yoko), Ren Sudo (Tatsuo).

  • Bagdad Café

    A canção I’m calling you já vale o filme. Ela entra no espectador e fica, apenas fica. No entanto, o filme tem muito mais. É uma emocionante história de perda e renascimento pessoal, movida pela relações pessoais entre duas mulheres que começam com estranheza, beiram a agressividade, passam pela compreensão até se transformarem na mais sincera amizade. 

    A alemã Marianne está de férias com seu marido nos EUA. Eles se desentendem e ele a abandona em uma estrada deserta e árida. Ela caminha por um longo tempo até encontrar o Bagdad Café, restaurante e pousada de beira de estrada. É recebida pela proprietária Brenda, se hospeda e vai ficando por ali. 

    Os tipos que moram e trabalham no Bagdad Café compõem um painel de personagens excêntricos, exóticos, que passam os dias entre desentendimentos e reconciliações. A transformação de Marianne começa quando ela decide organizar o local, ajudando Brenda primeiro na limpeza, depois no atendimento aos clientes, oferecendo divertidas apresentações de mágica. O que fica, no final, além da música, é essa simplicidade da vida que pode e deve ser sentida dia-a-dia através das ternas relações entre as pessoas. 

    Bagdad Café (Out of Rosenheim, Alemanha, 1987), de Percy Adlon. Com Marianne Sagebrecht (Jasmin), CCH Pounder (Brenda), Jack Palance (Rudi Cox), Christine Kaufmann (Debby), Monica Calhoun (Phyllis), Darron Flagg (Salomo), George Aguilar (Cahuenga), G. Smokey Campbell (Sal). 

  • A lei da fronteira

    O novo cinema dos anos 60 se espalhou mundo afora renovando até mesmo cinematografias pouco difundidas. Na Turquia, o diretor Lutfi Omer Akad revisitou o gênero western, criando uma narrativa que mescla os clichês do gênero com o estilo neorrealista rico em conflitos sociais.  

    Hidir é o líder de uma aldeia próxima à fronteira com a Síria. Ele atua como contrabandista, cruzando a fronteira, trazendo mercadorias e ovelhas para os poderosos chefes da cidade. É uma jornada arriscada, pois a divisa entre a Turquia e a Síria é recheada de minas terrestres. O comandante da policia tenta convencer Hidir a abandonar o contrabando, liderando a aldeia para aceitar a construção de uma escola para as crianças e no trabalho agrário. No entanto, os chefes locais forçam violentamente Hidir a continuar no contrabando. 

    A progressão da trama levanta um aspecto decisivo para a renovação do cinema de gênero nos anos 60: o poder corrupto e opressor, representado por Ali Cello, dono das terras, não permite que os “pistoleiros” abandonem seu passado violento – representado por Hidir e seus comparsas. A única alternativa é o confronto mortal entre os dois lados. A polícia assiste a tudo com impotência, enquanto a esperança reside na jovem professora da escola e em Yusuf, filho de Hidir, que acompanha a trágica luta de seu herói. 

    A lei da fronteira (Hudutlarin kanunu, Turquia, 1966), de Lutfi Omer Akad.Com Yilmaz Guney (Hidir), Ayse Ogretmen (Pervin Par), Erol Tas (Ali Cello), Tuncer Necmioglu (Aziz), Muharrem Gurses (Duran Aga), Aydemir Akbas (Abuzer). 

  • 007 – Sem tempo para morrer

    A despedida de Daniel Craig do agente secreto é emocionante. O final deixa no ar a certeza de que nossos heróis são assim, como nós. Essa foi, inclusive, a base da renovação da franquia 007 desde Casino Royale (2006): Bond sofre de diversos males físicos e sentimentais, um herói mais próximo, afeito aos conflitos internos e externos (lembrem-se das cenas de tortuna)  que acometem as pessoas comuns. 

    No time to die começa com uma impactante sequência em uma casa de campo no inverno gélido, quando são apresentados Madeleine, ainda criança, e Safin, o vilão. Corta anos depois para cenas idílicas de Bond curtindo suas férias em Materna, sul da Itália,  junto com Madeleine, sua namorada. São cenas idílicas, sensuais, nas belas praias, nas vielas históricas, nos quartos de hotéis, assim como em todo filme de 007. Um atentado contra a vida de James Bond dá fim ao romance, instaurando a dúvida entre o casal. 

    São dois prólogos recheados de cenas de romance, sexo, ação, perseguições de carros, mortes assustadoras. Cinco anos depois, Bond está aposentado, seu codinome 007 é usado agora por uma agente secreta. No entanto, Lyutsifer Safin, o vilão da primeira sequência, ressurge e se apodera de uma poderosa arma química que pode dar fim à humanidade. 

    É a senha para a volta de Bond à ação, em uma narrativa repleta de reviravoltas, sequências mirabolantes de suspense e ação, um amor do passado que volta com surpresas, coadjuvantes que se destacam em momentos decisivos da trama, mulheres empoderadas em ações espetaculares quando resolvem sozinhas os problemas (diante de um Bond atônito); enfim, o velho e o novo 007 oferecem ao espectador tudo que ele tem direito quando se senta diante de um Bond, James Bond. O final apoteótico deixa uma dúvida que se dissipa rapidamente: James Bond will return!?.

    007 – Sem tempo para morrer (No time to die, EUA, 2021), de Cary Joji Fukunaga. Com Daniel Craig (James Bond), Ana de Armas (Paloma), Rami Malek (Lyutsifer Safin), Léa Seydoux (Madeleine). Lashana Lynch (Nomi), Ralph Fiennes (M), Ben Whishaw (Q), Naomie Harris (Moneypenny).  

  • A pista

    O filme começa com uma imagem fotográfica do aeroporto de Paris, aviões estacionados na pista. Créditos anunciam “un photo-roman de Chris Marker”.Narração em off determina os rumos da narrativa: “Esta é a história de um homem marcado por uma imagem da infância. A cena que o afligiu por sua violência e cujo sentido ele só compreenderia muito mais tarde teve lugar na grande plataforma de Orly alguns anos antes do começo da Terceira Guerra Mundial.”

    Estamos diante de um dos filmes de ficção científica mais surpreendentes e ousados do cinema. Toda a história é contada a partir de fotografias em preto e branco que se sucedem, espécie de experimentação foto novelística de Chris Marker. Muito tempo após a Terceira Guerra Mundial, os humanos vivem em porões e outros ambientes subterrâneos, pois o ar exterior está contaminado pela radioatividade. Um homem é convencido a viajar no tempo, primeiro ao passado, depois ao futuro, em uma tentativa de resgate das memórias da humanidade. Ele foi escolhido por ter fortes imagens mentais, memórias afetivas, que preservariam sua identidade nestas viagens no tempo. O escolhido é a criança que frequentava o aeroporto de Orly aos domingos com os pais e que seria marcado por uma imagem desta infância, a de uma bela mulher na plataforma, seguida da morte de um homem. 

    A pista influenciou uma série de filmes modernos sobre viagem no tempo com a intenção de reconstruir a história, destacando-se o Exterminador do futuro (1984). O final elíptico e surpreendente também antecede diversos finais de narrativas semelhantes. Para muitos, A pista é o melhor curta-metragem da história do cinema. A beleza etérea das fotografias que se sucedem justifica essa escolha, associada a uma narração poética, reflexiva, sobre o tempo, sobre as memórias, sobre o amor: “Em Orly, aos domingos, os pais levam seus filhos para verem os aviões prestes a partir. Deste domingo, a criança cuja história contamos, reveria por muito tempo o sol fixo, o cenário armado na extremidade da plataforma, e um rosto de mulher. Nada distingue as memórias de outros momentos. Só mais tarde é que se fazem reconhecer, por cicatrizes.” 

    A pista (La jetée, França, 1962), de Chris Marker. Com Étienne Becker, Jean Négroni, Hélène Chatelain, Davos Hanich, Jacques Ledoux. 

  • Dirigido por Andrei Tarkovski

    O documentário foi realizado durante as filmagens de O sacrifício (1986), na Suécia. É um retrato fascinante do processo de criação e realização de um dos diretores mais autorais, intimistas, do cinema. As cenas mostram Tarkovski envolvido em todas as etapas da produção: discutindo aspectos da direção de arte, do cenário, conversando com os atores, às vezes, simulando ele mesmo cenas para expressar seu desejo na interpretação. 

    As sequências das filmagens são intercaladas com depoimentos de Larissa Tarkovskaja, esposa do diretor, que lê trechos do diário do marido, de conversas do diretor em palestras que proferiu, de suas reflexões sobre o cinema e a vida, deixando claro que nos filmes do cineasta russo não existe separação entre a arte e sua vida.

    “Você pergunta que relacionamento ele tinha com a casa dele. A casa era muito importante para ele. E, como  pôde ver, ele colocou nossa casa em cada um de seus filmes. O interior, a sensação, a alma de nossa casa. Não exatamente como uma fotografia. Afinal de contas, isto é arte. Ele usou outras formas e outros personagens além de nós. Mesmo assim, sua vida e sua casa estão presentes em cada filme. Sentimos muita falta de nossa casa durante os cinco anos que ficamos no ocidente. Esta foi nossa primeira casa e ele a adorava e trabalhava muito bem lá. Ele costumava desenhar sempre a casa. Ele escreveu. Estou descansando aqui há três dias, mas sinto que recuperei um ano inteiro. Agora, posso trabalhar. Mas onde há trabalho a ser feito? Em ‘O sacrifício’ ele contou a história de como encontramos a casa. Foi exatamente como o homem contou ao seu filho que, na verdade, é nosso filho mais novo, Andryushka.” – Larissa Tarkovskaja

    Um dos grandes destaques do documentário é o conflito que aconteceu após as filmagens da sequência final, o incêndio da casa do protagonista. Preparativos meticulosos foram necessários, pois a casa/cenário foi realmente incendiada para ser gravada em um longo plano-sequência. No entanto, a câmera travou por alguns segundos durante a filmagem. Tarkovski não admitiu editar a sequência, ameaçando, inclusive, que o filme não seria lançado caso não fosse possível repetir a filmagem. A equipe conseguiu financiamento para reconstruir a casa e o diretor de fotografia Sven Nykvist resolveu usar duas câmeras, em dois trilhos, um mais elevado do que outro, como segurança. Tudo deu certo, as imagens mostram a equipe exultante e um Tarkovski pleno de emoções indefiníveis após a palavra “corta”.  

    O final, emocionante, mostra Tarkovski durante o processo de tratamento do câncer que o mataria, poucos meses após as conclusões de O sacrifício, já acamado, discutindo com a equipe aspectos de pós-produção do filme, como o tratamento de cor. Com certeza, Dirigido por Tarkovski é um dos melhores documentários sobre o cinema já realizados. 

    Dirigido por Andrei Tarkovski (Regi: Andrei Tarkovski, Suécia, 1988), de Michal Leszczylowski.

  • Azor

    O banqueiro suíço Yvan de Viel chega na Argentina, em 1980. Os argentinos ainda comemoram a conquista da copa do mundo de futebol de 1978. Mas Yvan vai transitar, durante a narrativa, por lugares mais discretos, onde não se vislumbram ecos das ruas das cidades: campos de golfes, hipódromos, mansões, os redutos dos milionários que fazem transações escusas com banqueiros suíços. 

    Azor é o filme de estreia do cineasta Andreas Fontana. Sua câmera retrata esse mundo glamouroso e fascinante da elite corrupta e corruptora, distante da sociedade reprimida pelo regime militar, pelas atrocidades praticadas nos porões da ditadura, pela luta diária de pessoas em busca da liberdade. O protagonista transita por esses redutos tentando provar a si mesmo que é capaz de penetrar e também se aproveitar, afinal, o mundo das altas finanças é dominado pelas raposas. 

    Azor (Suíça, 2021), de Andreas Fontana. Com Fabrizio Rongione (Yvan de Viel), Stéphanie Cléau (Inés de Wiel), Carmen Iriondo (Viuda Lacrosteguy), Juan Trench (Augusto), Juan Pablo Geretto (Dekerman). 

  • So long, my son

    O filme começa com o afogamento de Xingxing, uma criança, em um reservatório, nos anos 80. Ele não sabia nadar, mas foi incentivado pelo seu amigo Hao a entrar na água. Essa tragédia demarca a história de duas famílias, os pais das crianças, ao longo de três décadas. 

    A narrativa traz fortes conotações políticas, acompanhando a evolução da China na visão dessas duas famílias e seu pequeno grupo de amigos. A política do filho único é o tema central, mas o desenrolar da trama aponta ainda a abertura econômica, que provocou desemprego principalmente entre os operários (os pais de Xingxing), a modernização das cidades e o consequente enriquecimento de uma camada da população (os pais de Hao). 

    A montagem invertida é um dos grandes destaques de So long, my son. Presente e passado se intercalam, sem respeitar a cronologia dos acontecimentos. Os cortes secos, sem demarcação das passagens de tempo, exigem do espectador atenção especial para entender a história. Jingchun Wang e Mei Yong, os pais da criança afogada, conquistaram os prêmios de melhor ator e atriz no Festival de Berlim.  

    So long, my son (Di Jiu Tianchang, China, 2019), de Wang Xiaoshuai . Com Jingchun Wang (Yaojun), Mei Yong (Liun), Qi Xi (Moli), Jiang Du (Hao), Liya Ali (Haiyan). 

  • Nadja em Paris

    Neste curta documental, Éric Rohmer acompanha as andanças de Nadja, jovem estudante de ascendência iugoslava, pelas ruas de Paris. Ela está na cidade para desenvolver sua tese sobre Marcel Proust e suas caminhadas são pontuadas por narração em primeira pessoa, quando ela reflete sobre a cidade, as pessoas. 

    É claro, Paris é a grande personagem do curta. A câmera passeia ao lado de Nadja por lugares icônicos: a Sorbonne, Quartier Latin, Montparnasse, Belleville, os cafés e parques, além de redutos famosos da cinefilia. É a câmera de Éric Rohmer como um flâneur pela cidade que esteve presente em diversos filmes ao longo de sua carreira, sempre refletida com o charme, a beleza e a sensibilidade próprias do olhar do cineasta. 

    Nadja em Paris (Nadja à Paris, França, 1964), de Éric Rohmer.

  • O signo do leão

    O primeiro longa-metragem dirigido por Eric Rohmer apresenta uma das marcas de seu estilo: personagens que se movem incessantemente pelas ruas das cidades, principalmente Paris. 

    Pierre acorda, atende o telefone e descobre que herdou um bom dinheiro da sua tia, que acabara de falecer. Liga para os amigos, pede dinheiro emprestado e dá uma grande festa em seu apartamento. Dias depois, descobre que a tia, na verdade o deserdara. Sem emprego, endividado, abandonado pelos amigos a quem sempre recorreu, Pierre vaga de hotel em hotel, sem bagagem, pois precisa abandonar os quartos sempre que cobrado. Quando não consegue mais hospedagem, empreende uma caminhada durante dias pelas ruas de Paris até cair na completa mendicância. 

    A narrativa é marcada pela bela fotografia em preto e branco; pelos longos silêncios de Pierre enquanto caminha; pela futilidade da boemia das noites parisienses; pela frustração de artistas como o próprio Pierre, um músico, e por outro sem-teto (Jean Le Poulain), um ator que encena trechos caricatos pelas ruas em troca de moedas. 

    O final, quase milagroso, aponta a redenção de Pierre, mas deixa no ar o grande vazio destes personagens que vivem à margem em cidades como Paris, aparentemente bela e glamourosa. 

    O signo do leão (Le signe du lion, França, 1959), de Éric Rohmer. Com Jess Hahn (Pierre Wesselrin), Van Doude (Jean-François Santeuil), Michèle Girardon (Dominique),  

  • El Topo

    David Lyn classifica El Topo como um de seus filmes favoritos. Nada a estranhar, pois o surrealismo e a escatologia são presenças marcantes nas obras de Lyn e Jodorowsky. 

    A narrativa é dividida em duas partes. Na primeira, o pistoleiro El Topo, que cavalga sempre em companhia de um menino nu, busca os assassinos responsáveis por um massacre em um povoado. É o típico western que irrompeu os anos 70 com cenas violentas e sanguinárias. O encontro do pistoleiro com os assassinos, liderados por um coronel, é um banho de sangue. 

    Na segunda parte, El Topo deixa o menino para trás e cavalga em companhia de Mara, amante do Coronel. Completamente apaixonado, atende a um pedido de Mara: matar os quatro mestres do deserto, guerreiros invencíveis. É a virada da narrativa para o misticismo, para o simbolismo religioso, para inserções metafóricas sobre o sentido da vida e da morte. O sangue continua a jorrar, agora pontuado por cenas caricatas e diálogos nonsenses. 

    El Topo foi praticamente banido dos cinemas mexicanos e dividiu críticas mundo afora. Alejandro Jodorowsky sempre buscou recursos para filmar a continuação da saga do mítico pistoleiro, mas parece que, aos olhos do mundo, um El Topo é suficientemente repulsivo. 

    El Topo (México, 1979), de Alejandro Jodorowsky. Com Alejandro Jodorowsky (El Topo), Mara Lorenzio (Mara), Brontis Jodorowsky (O menino), Pablo Leder (Monge 1), Giuliano Girini Sasseroli (Monje 2), Christian Merkel (Monje 3), Aldo Grumelli (Monje 4).

  • Solaris

    Muito se diz sobre as semelhanças entre Solaris e 2001 – Uma odisseia no espaço (1969), de Stanley Kubrick. Os dois filmes exigem a entrega contemplativa do espectador; trabalham com intrincadas reflexões psicológicas, envolvendo a busca por entender o mistério da vida; têm passagens abertamente surrealistas, como longas viagens metafísicas; os finais são abertos, incompreensíveis, porém plenos de significados. Enfim, são dois clássicos da ficção científica, do cinema.

    Solares é baseado em um romance de Stanislaw Lem, escritor polonês, publicado em 1961. Tarkovski adaptou livremente a obra, incluindo sequências inexistentes no romance, como no início. Em uma bela casa de campo, o psicólogo Kris Kelvin tem uma longa conversa com o piloto Berton, sobre a estação espacial soviética do planeta Solaris. Mortes misteriosas acontecem a bordo, a missão de Kris é ajudar a tripulação. 

    Corta para Solaris, Kris encontra mais um membro da tripulação morto e os dois restantes com sérias perturbações psicológicas. Para surpresa do psicólogo, ele encontra também sua  falecida esposa Hari, que passa a mover Kris rumo ao seu passado, suas memórias e desejos mais ocultos. 

    “Entretanto, essa convidada não é apenas manifestação física. Possui inteligência, ego, memória e ausência de lembranças. Não sabe que a Hari original se suicidou. Questiona Kelvin, quer saber mais a respeito de si mesma, acaba deprimida ao perceber que não pode ser quem parece. Até certo ponto seu ser é limitado ao que Kelvin sabe a seu respeito, uma vez que Solaris não pode saber mais do que Kelvin; este tema fica mais claro na refilmagem de 2002, de Steven Soderbergh e George Clooney.” – Roger Ebert.  

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  • Perseguidos pelo destino

    A narrativa se baseia em uma premissa tradicional no cinema que ficou eternizada em clássicos como Pacto de sangue e Bonnie e Clyde: casal formado por personagens sedutores e glamourosos que habitam o universo do crime. 

    Em Perseguidos pelo destino, o jovem assaltante de bancos Gigi se apaixona por Bibi, uma extravagante e glamourosa piloto de competição automobilística. A jornada dos dois é uma entrega veloz e frenética à paixão, ao sexo, às emoções, ao perigo incessante. Gigi promete a Bibi um último golpe, pois tem uma dívida com os outros membros da gangue, seus amigos da adolescência delinquente. Tudo dá errado e acontece uma fascinante inversão de valores, com direito a decisões surpreendentes. O casal de protagonistas é a grande atração da película, desfilam charme e erotismo pela tela, enquanto caminham por estradas perigosas, movidos pela velocidade. 

    Perseguido pelo destino (Le fidèle, Bélgica, 2017), de Michael R. Roskam. Com Matthias Schoenaerts (Gigi), Adèle Exarchopoulos (Bibi), Eric De Staercke (Freddy), Jean-Benoit Ugeux (Serge).

  • La sonate à Kreutzer

    A narração em primeira pessoa encaminha essa história de possível adultério, ciúme, obsessão e crime. A jovem esposa do arquiteto Poznyecev passa seus dias ensaiando a Sonata a Kreutzer, acompanhada de um também jovem violinista. A desconfiança se instaura na mente do arquiteto que passo a passo fica cada vez mais dominado pelo ciúme. Ele finge uma viagem a trabalho e volta repentinamente para casa, flagrando o casal de músicos deitados no sofá. 

    Jean-Luc Godard, que atua como coadjuvante, é o produtor do curta. Claude Chabrol e François Truffaut também aparecem em pontas. O projeto colaborativo dos jovens críticos de cinema tem uma atração à parte: Poznyecev vai encontrar seu amigo crítico (Godard) no trabalho, cujo cenário é nada mais nada menos que a própria Cahiers Du Cinema.  

    La sonate à Kreutzer (França, 1956), de Éric Rohmer. Com Éric Rohmer (Poznyecev), Françoise Martinelli (a esposa). Jean-Claude Brialy (Trukhacevskij).

  • Fando e Lis

    O primeiro filme de Jodorowsky já deixa a impressão que marca sua carreira: provocar o espectador em diversos sentidos, estéticos, sensoriais, narrativos… Lis é uma bela e sedutora jovem paraplégica que precisa da ajuda de Fando para se locomover (não em uma cadeira de rodas, mas em um carrinho). Fando tem um ar ingênuo, infantil, durante a trama vai ser provocado por vários personagens, inclusive eroticamente. 

    A jornada da dupla se destina a encontrar a cidade mística de Tar, percorrendo uma região desértica, cujos caminhos intrincados são marcados por imensas rochas e pedregulhos. O filme é baseado na peça teatral de Fernando Arrabal, que assina o roteiro junto com Jodorowsky. Misticismo, surrealismo, erotismo, agressividade repulsiva (atenção para a cena em que Lis é espancada por Fando), escatologia, o espectador se depara com tudo que fez de Jodorowsky um dos mais rebeldes e provocativos cineastas da história. 

    Fando e Lis (México, 1968), de Alejandro Jodorowsky. Com Sergio Kleiner (Fando), Diana Mariscal (Lis). 

  • Pauline na praia

    Marion está em processo de separação. Ela viaja de férias para uma praia na Normandia, junto com a sobrinha Pauline, de 15 anos. A estada das duas é marcada por relacionamentos amorosos que se confundem: o surfista Pierre tem uma antiga paixão por Marion; Marion se envolve com Henri, um notório sedutor; Pauline começa um relacionamento com o jovem Sylvain, mas é assediada por Henri; Henri se envolve com a vendedora Rosette, que acaba complicando o namoro de Sylvain…

    Da série Comédias e provérbios (Quem muito fala, prejudica a si mesmo) essa espécie de ciranda de relacionamentos tem a marca de Éric Rohmer. As levezas dos belos corpos ao sol e dos romances nas camas são tratados de forma natural, mesmo quando entram em terrenos perigosos, como o fascínio que Pauline exerce sobre os homens mais velhos. O portão da casa de praia que se abre no início e se fecha no final demarca a natureza desses encontros, desses embates amorosos: coisas do verão. 

    Pauline na praia (Pauline à la plage, França, 1983), de Éric Rohmer. Com Amanda Langlet (Pauline), Arielle Dombasle (Marion), Pascal Greggory (Pierre), Féodor Atkine (Henri), Simon de La Brosse (Sylvain), Rosette (Louisette). 

  • Véronique et son cancre

    O curta de Éric Rohmer, com dois personagens em cena, filmado inteiramente dentro de um apartamento (residência de Claude Chabrol), mistura humor, ironia e crítica social. Véronique, uma jovem tutora, tenta ensinar matemática e francês a uma criança. No entanto, o estudante refuta com análises lógicas, mesmo que baseadas em seu raciocínio infantil, as questões apresentadas pela tutora. 

    O destaque da trama são as investidas da criança contra a tutora e, naturalmente, contro os procedimentos de ensino. Tudo que a criança quer é despachar a professora e voltar para suas brincadeiras no chão da sala. Ficar livre daquilo é também a sensação expressa pela professora que, vez por outra, tira os sapatos e esfrega com impaciência (e talvez com leve erotismo) os pés. .

    Véronique et son cancre (França, 1958), de Éric Rohmer. Com Nicole Berger (Véronique) e Alain Delrieu (estudante). 

  • Conto de inverno

    O filme tem um prólogo que remete a romances de férias de verão. Charlotte e Charles estão em uma praia deserta onde podem tomar sol e nadar nus. À noite, praticam sexo de forma quase selvagem (uma dos raros filmes de Rohmer que mostra cenas de sexo beirando o explícito). No final das férias, os amantes se despedem na estação de trem e Charlotte passa seu endereço para Charles.

    Corta para Paris, cinco anos depois. É inverno, próximo ao natal. Charlotte trabalha como cabeleireira, é amante do dono do salão e tem outro namorado, Loic. Seu amor de verão ficou no passado (inadvertidamente ela passou o endereço errado e eles nunca mais se encontraram). Mas das tórridas férias de verão, nasceu Elise, agora com cinco anos. 

    Conto de inverno é o mais aclamado título da série Contos das quatro estações. Após o prólogo, a narrativa se desenvolve em poucos dias, centrada nas indecisões de Charllote quanto aos seus dois namorados, pois ela espera dia após dia a volta quase milagrosa de Charles, seu grande amor. 

    “Com este engenhoso, porém sombrio, estudo de uma fé desesperada e de um amor perdido, lembrando Minha noite com ela, e a quase irritantemente indecisa e egocêntrica heroína que lembra O raio verde, este é o território arquetípico de Rohmer, chegando por um reconhecimento perfeitamente calculado ao teatro de Shakespeare e, consequentemente, a um final miraculoso porém extremamente satisfatório. Como sempre, também, os desempenhos naturalistas são inteiramente plausíveis, o uso de locais evocativos – Paris e Borgonha – e as caracterizações (incluindo um bibliotecário intelectual e o chefe mais pragmático da garota como seus admiradores) precisamente representativos das escolhas com que a protagonista se defronta.”

    O final da narrativa apresenta talvez o ápice do principal elemento narrativo que marca tantos filmes de Éric Rohmer: o acaso. O encontro entre Charlotte e Charles dentro de um ônibus em Paris, o olhar terno com que a menina (que já o conhece por fotos) reconhece o pai. Desses momentos encantadores do cinema. 

    Conto de inverno (Conte D’Hiver, França, 1992), de Éric Rohmer. Com Charlotte Véry (Félicie), Frédéric van den Driessche (Charles), Michel Voletti (Maxence), Hervé Furic (Loic), Chistiane Desbois (Mãe de Félicie), Ava Loraschi (Elise). 

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Conto de verão

    Gaspard está de férias no litoral. Ele espera a chegada de sua namorada Léna e conhece Margot, com quem começa um relacionamento que oscila entre a amizade sincera e a atração. Entra em cena Solène, jovem com quem Gaspard tem um rápido namoro de verão. O triângulo entre Gaspard, Margot e Solène se complica quando Lèna finalmente chega. 

    A narrativa é movida, basicamente, pelos diálogos entre Gaspard e Margot, enquanto se movem incessantemente pelas belas paisagens da cidade litorânea. Os flertes e beijos entre Gaspard e as três jovens são entrecortados com reflexões sobre os relacionamentos, sobre as surpresas agradáveis, conflitos e frustrações inerentes entre pessoas que passam a se conhecer. A música que Gaspard compõe (ele é músico e ensaia composições leves ao violão), cantada pela bela voz de Solène, embala esses romances indecisos e fortuitos de verão. 

    Conto de verão (Conte D’Été, França, 1996), de Éric Rohmer. Com Melvil Poupaud (Gaspard), Amanda Langlet (Margot), Gwenaelle Simon (Solène), Aurelia Nolin (Léna). 

  • Estranho acidente

    A história começa com Stephen sozinho em sua casa de campo, à noite. Ele ouve o som de um acidente, corre até a estrada e se depara com um carro capotado. Anna é retirada com vida, mas o jovem William está morto. Narrativa em flashback reconstitui os dias anteriores ao acidente. A bela e sedutora Anna é aluna de Stephen, namora William e tem um caso com Charley, escritor e amigo do professor. 

    O diretor Joseph Losey buscou abrigo na Inglaterra na década de 60 para fazer seus filmes – ele entrou para a deprimente lista negra de Hollywood durante o macarthismo. Estranho acidente traz a sua marca, refletida em personagens marcados por desejos, obsessões, a necessidade íntima de almejar vidas diferentes. Stephen, casado, sua mulher está grávida, deseja sua bela aluna, enquanto nutre inveja do sucesso de seu amigo Charley, tanto profissional como no campo das seduções. 

    A trama é baseada no romance de Harold Pinter, com roteiro do dramaturgo Harold Pinter, outro autor perseguido por suas convicções políticas. O filme conquistou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes.   

    Estranho acidente (Accident, Inglaterra, 1967), de Joseph Losey. Com Dirk Bogarde (Stephen), Stanley Baker (Charley), Jacqueline Sassard (Anna), Michael York (William), Vivien Merchant (Rosalind).