• Nuestros cuerpos son sus campos de batalla

    A diretora francesa Isabelle Solas centra sua câmera na trajetória política, combativa, de Claudia e Violeta, duas mulheres trans. Elas reúnem e lideram grupos de ativistas que buscam conscientizar a conservadora sociedade argentina dos direitos transfeministas. 

    A narrativa traz depoimentos de Claudia, Violeta e outras mulheres, momentos de reivindicações nas ruas, cenas cotidianas de casa e trabalho, além da cobertura do julgamento de um homem acusado do assassinato de Diana Sacayán, uma mulher trans. 

    Isabelle Solas planejou o documentário a partir do encontro com mulheres do Colectivo Otrans. “Queria dissecar como o desejo pode ser político, esta fonte individual e coletiva que torna possível pensar o mundo de forma diferente. Estes corpos que se movem neste território conturbado e violento que é hoje a Argentina; e que são em si mesmos um ato de resistência.” – declara a diretora.

    O título do documentário foi inspirado no cartaz da artista Bárbara Kruger, criado em apoio à luta pelo aborto: Your body is battleground.

    Nuestros cuerpos son sus campos de batalla (Argentina, 2021), de Isabelle Solas. 

  • A noite do terror

    Johnny, um marinheiro em descanso no final de semana, chega a uma bela cidade litorânea. Em um bar, à noite, conhece e se encanta por Mora, uma jovem que ganha a vida posando vestida de sereia em um parque de atrações. Os dois se apaixonam e começam um relacionamento marcado por mistérios, pois Mora guarda segredos de seu passado em uma ilha. O mistério se intensifica quando uma mulher, que se diz, integrante de um grupo místico, começa a perseguir Mora. 

    A estreia de Curtis Harrington na direção se tornou um cult dos filmes B dos anos 60. O título original é bem mais intrigante e adequado à narrativa, pois Mora se sente fascinada e ao mesmo tempo ameaçada pelo mar, pelas marés noturnas que assombram seus dias e, principalmente, noites de lua cheia. O jovem Dennis Hopper, ainda longe dos papéis distópicos que marcaram sua carreira, é um atrativo a mais nesta história de sereias irremediavelmente ligadas à maldição. O filme termina com a bela e aterradora frase de Edgar Allan Poe. 

    “E assim, durante toda a maré da noite, deito-me ao lado de minha querida – minha querida – minha vida e minha noiva em seu sepulcro à beira-mar, em sua tumba ao lado do mar barulhento.”

    A noite do terror (Night tide, EUA, 1961), de Curtis Harrington. Com Dennis Hopper (Johnny), Linda Lawson (Mora), Gavin Muir (Capitão Samuel), Luana Anders (Ellen Sands). 

  • Titane

    O filme abre com uma criança sentada no banco traseiro do carro, imitando o som do motor. O motorista, seu pai, mostra-se irritado e a repreende severamente. A criança, nervosa, solta-se do cinto de segurança, fazendo com que seu pai se distraia do volante, provocando um acidente. Após passar por uma delicada cirurgia no cérebro, a criança sai do hospital e, a primeira coisa que faz, é correr para o carro e encostar a face no vidro com os braços abertos, simulando um grande e terno abraço no veículo. 

    Corta para Alexia, agora uma jovem, protagonizando uma dança erótica em cima do capô de um carro esporte. A plateia masculina vai ao delírio, Alexia é uma celebridade neste meio. Sua única motivação são os carros, com quem desenvolve uma relação até mesmo erótica: atenção para a cena de sexo de Alexia com um carro, que resulta em uma inacreditável gravidez. 

    Logo no início do filme, Alexia revela uma compulsão para a violência, praticando um série de assassinatos. Violência e erotismo se misturam de forma agressiva, quase repulsiva, neste instigante thriller da diretoria Julia Ducournau, vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Quando o bombeiro Vincent entra em cena, a reviravolta no roteiro encaminha o filme para uma espécie de fraternidade familiar, mas mantendo o tom ousado e violento. Titane surpreende pela narrativa, pela estética, pelas relações entre personagens distópicos, cada um à sua maneira. 

    Titane (França, 2021), de Julia Ducournau. Com Vincent Lindon (Vincent), Agathe Rousselle (Alexia), Garance Marillier (Justine), Lais Salameh (Rayane). 

  • Mimetismo

    A trama se passa em uma grande casa de campo, durante um congresso universitário de apresentação de artigos científicos. O jovem professor Jakub é o responsável pela organização do evento, tendo que prestar contas sempre a Jaroslaw, seu antigo professor. 

    Os longos embates entre os dois professores, de posições intelectuais conflitantes, dominam a narrativa. Outro conflito acontece entre um grupo de alunos, insatisfeitos com os rumos das apresentações, e os organizadores. 

    O diretor Krzysztof Zanussi retrata neste pequeno microcosmo burguês intelectual a situação da Polônia durante o regime comunista, marcada por conflitos de classes, por embates entre os velhos representantes do partido e os jovens ansiosos por mudanças. É o eterno conflito de gerações, radicalizado em uma sociedade que insiste em preservar os valores sociais, políticos e culturais do regime dominante. 

    Mimetismo (Barway ochronne, Polônia, 1977), de Krzysztof Zanussi. Com Piotr Garlicki (Jaroslaw Kruszyński), Zbigniew Zapasiewicz (Jakub Szelestowski), Christine Paul (Nelly). 

  • Memória

    A escocesa Jessica Holland está na Colômbia, em visita a irmã, acamada em um hospital. Orquidófila, ela tem uma profunda relação com a natureza, contemplativa, silenciosa, quase como uma integrante nata desse meio. Certa noite, ela acorda com um barulho estranho e desconhecido, vindo da selva. Jessica passa a ouvir o barulho em alguns momentos do dia, perde o sono e fica cada vez mais obcecada em descobrir a origem daquele som que parece penetrar em todos os seus sentidos. 

    O belo filme de Apichatpong Weerasethakul, primeiro realizado fora da Tailândia, exige do espectador acompanhar a protagonista nestes silêncios contemplativos. Longas imagens estáticas compõem esteticamente a narrativa, os diálogos são curtos, quase monossilábicos, seguidos de silêncios. 

    Durante sua jornada, Jessica cruza com pessoas também envoltas nas questões do sentido, como o técnico de um estúdio que a ajuda a reproduzir mecanicamente o som. O encontro entre Jessica e Hernán, que domina a parte final do filme, é pleno de sentidos, porém misterioso, envolto nestas questões incompreensíveis da memória. 

    Memória (Colômbia, 2021), de Apichatpong Weerasethakul. Com Tilda Swinton (Jessica Holland), Agnes Brecke (Karen), Daniel Giménez Cacho (Juan), Juan Pablo Urrego (Hernán Bedoya), Elkin Diaz (Hernán Bedoya).

  • Marjorie Prime

    A ficção científica de Michael Almereyda coloca de forma sensível, e um pouco cruel, aquilo que atormenta os humanos sem piedade: a passagem do tempo. Marjorie, de 86 anos, começa a sofrer com a perda da memória. Sua filha, Geena, e seu genro, Jon, tentam confortá-la com um Prime, equipamento que projeta um holograma de seu marido morto há 15 anos. A partir das longas conversas, destinadas a ajudar Marjorie em suas memórias, percebe-se que o Prime aprende e desenvolve também suas memórias.  

    À medida que o tempo passa e os protagonistas envelhecem, outros Primes entram em cena, em um primeiro momento confundindo o espectador sobre o real sentido de tudo. Pequenos flashbacks compõem, desnecessariamente, a trama. O que importa é a relação entre cada um e seus entes queridos, substituídos por uma ilusão aparentemente dotada de memórias afetivas. Marjorie Prime é sensível, afetivo, misterioso, cruel quando confronta Marjorie, Tess e Jon com a realidade implacável dos dias que escoam, com a vida que se desvanece como um apagar de telas.  

    Marjorie Prime (EUA, 2017), de Michael Almereyda. Com Lois Smith (Marjorie), Geena Davis (Tess), Jon Hamm (Walter), Tim Robbins (Jon). 

  • Mães paralelas

    Pedro Almodóvar parte de uma premissa triste, a troca de bebês na maternidade, para debater o complexo sentimento de maternidade. Janis e Ana dividem o quarto na maternidade quando estão prestes a entrar em trabalho de parto. Tornam-se amigas, confidentes, mantêm uma relação à distância quando as filhas nascem. Tudo muda, de forma drástica quando Janis começa a suspeitar que a bebê que levou para casa não é sua filha genética. 

    Não há segredos ou surpresas nesta trama de troca de bebês. O espectador sabe desde o início da verdade. No entanto, uma virada de roteiro muda o relacionamento das duas mulheres. 

    O ponto alto do filme é a narrativa paralela: no povoado de Janis, existe uma cova onde foram enterrados vários homens da cidade, executados durante a guerra civil espanhola. O final, quando a cova é aberta por uma ONG, é revelador, amparado pela potente frase de Eduardo Galeano que fecha o filme: 

    “Não existe história muda. Por mais que a queimem, por mais que a quebram, por mais que mintam, a história humana se recusa a ficar calada.”

    Mães paralelas (Madres paralelas, Espanha, 2021), de Pedro Almodóvar. Com Penélope Cruz (Janis), Milena Smit (Ana), Israel Elejalde (Arturo), Aitana Sánchez-Gijón (Teresa), Rossy De Palma (Elena). 

  • Crimes do futuro

    O mais recente filme de David Cronenberg exige do espectador estômago, no sentido literal, para acompanhar a trama. Em um futuro desconhecido, o célebre artista Saul Tenser faz performances expondo seus órgãos internos. Os humanos passaram por mutações, novos órgãos foram desenvolvidos. A jovem Caprice acompanha seu namorado nas apresentações, narrando as performances de forma dramática e visceral. 

    Prepare-se para cenas absurdamente cronenberguianas: no início do filme, um menino come um balde de plástico no banheiro e, a seguir, é assassinado pela própria mãe; a exposição pública dos órgãos de Saul; simulações sexuais de puro prazer a partir do compartilhamento de órgãos; um casal de assassinas em busca de sangue; a autópsia pública do cadáver de uma criança, manipulada por uma máquina aterradora. Bem, é um filme de David Cronenberg. 

    Crimes do futuro (Crimes of the future, Canadá, 2022), de David Cronenberg. Com Viggo Mortensen (Saul Tenser), Léa Seydoux (Caprice), Kristen Stewart (Timlin), Scott Speedman (Lang Dotrice), Don McKellar (Whippet). 

  • A festa

    Janet acaba de ser nomeada Ministra da Saúde no governo inglês. Junto com seu marido Bill, um professor universitário, ela reúne um pequeno grupo de amigos em sua casa para comemorar. Um casal de lésbicas, Martha e Jinny, que passou por inseminação artificial e está grávida de trigêmeos. April, a melhor amiga de Janet, junto com seu marido, Gottfried. Tom, um profissional do mercado financeiro.

    O clima de alegria e confraternização muda drasticamente quando Bill faz uma revelação que envolve morte e adultério. A festa tem uma estrutura completamente teatral, apesar de o roteiro ser original para cinema: a encenação acontece em um único ambiente com sete personagens. O humor ácido está nos diálogos e em situações inusitadas, como o personagem de Tom que entra no banheiro a todo instante para cheirar cocaína. O conflito principal da trama gira em torno de uma personagem ausente, a mulher de Tom. Mas revelações bombásticas são feitas a cada minuto das conversas. O final surpreendente deixa o espectador fascinado diante de um grande roteiro.

    A festa (The party, Inglaterra, 2021), de Sally Potter. Com Timothy Spall (Bill), Kristin Scott Thomas (Janet), Patricia Clarkson (April), Gottfried (Bruno Ganz), Cherry Jones (Martha), Emily Mortimer (Jinny), Cillian Murphy (Tom).

  • Os palhaços

    O início do filme dá o tom deste documentário, misturado com ficção: um menino observa deslumbrado da janela de seu quarto a montagem de um circo. Na noite de estreia, ele está presente, mas ao se ver cara a cara com um palhaço, corre assustado para casa. O menino, claro, é Fellini, o circo é o seu cinema. 

    De início, a narrativa abre espaço para o picadeiro do circo com suas atrações, Depois, concentra-se em diversos palhaços que interpretam seus números, cantam, dançam, revelam a arte circense desses anônimos que tomaram conta do imaginário de crianças mundo afora. É a homenagem de Fellini aos palhaços que ele tanto amou e copiou: personagens mascarados, espécies de super-heróis ao avesso, espontâneos, atrapalhados, impudicos, quase sem limites em suas reverberações corporais. 

    Os palhaços (I clowns, Itália, 1970), de Federico Fellini. 

  • Pleasure

    Bella sai da Suécia para Los Angeles com um sonho: ser uma estrela de filmes pornô. Ela faz contatos e rapidamente passa a participar dos sets, mas, de início, impõe certos limites aos tipos de relacionamentos, tentando se preservar até alcançar o topo. No entanto, Bella se vê obrigada a fazer mais e mais concessões, se enveredando em uma rede perversa de exploração sexual. 

    Pleasure é o filme de estreia da diretora sueca Ninja Thyberg. Através da trajetória de Bella no mundo, ou submundo, das produções pornôs, a diretora compõe um painel triste da ambição humana, da exploração cruel da indústria cinematográfica pornô. A transformação da personagem de Sofia Kappel (atuação intensa, visceral), testando os limites de seu corpo, é marcante. 

    Pleasure (Suécia, 2021), de Ninja Thyberg.Com Sofia Kappel (Bella), Zelda Morrison (Joy), Evelyn Claire (Ava), Chris Cock (Bear), Jason Toler (Mike). 

  • Madre Joana dos Anjos

    A partir dos anos 60, vários filmes se debruçaram sobre a vida enclausurada de freiras em conventos, abordando, principalmente, questões sexuais. O gênero ficou conhecido como nunsploitation, revelando obras audaciosas como Os demônios (1971, Ken Russell), A religiosa (1966, Jacques Rivette) e Viridiana (1961, Luis Bunuel).

    Madre Joana dos Anjos transita pelo gênero, incluindo como princípio narrativo a possessão demoníaca. O Padre Suyrn chega a um convento para investigar um possível caso de possessão: Madre Joana dos Anjos diz estar possuída por oito demônios, nominados um a um por ela. As sessões de exorcismo são assustadoras, principalmente pelo fato da Madre se dizer feliz em estar possuída pois, assim, pode dar vazão aos seus desejos carnais. As outras freiras também celebram, dançando livremente no pátio do convento, em uma espécie de orgia.

    A obra adapta o livro de Jaroslaw Iwaszkiewicz, por sua vez livremente inspirado em um caso real. Em 1634, num convento na França, um padre foi condenado à fogueira, acusado de bruxaria por freiras que estariam possuídas pelo demônio. Foram revelados várias ocorrências sexuais dentro do convento e o caso ficou conhecido como As possessões das Freiras de Loudun

    Antecipando o clássico O exorcista (1973, William Friedkin), acontece a inversão, com o Padre abrigando os demônios. As sequências finais, Suryn com um machado nas mãos e confrontando a si mesmo são de estremecer até os mais incrédulos. 

    Madre Joana dos Anjos (Matka Joanna Od Aniolów, Polônia, 1961), de Jerzy Kawalerowicz. Com Lucyna Winnicka (Madre Joana dos Anjos), Mieczyslaw Voit (Padre Josef Suryn), Anna Ciepielewska (Irmã Malgorzata).

  • Roma, cidade aberta

    Roma, cidade aberta talvez seja o filme mais contundente sobre a Segunda Guerra Mundial. Foi realizado ainda no calor dos conflitos, quando os americanos libertaram Roma da ocupação nazista. Roberto Rossellini passou parte da ocupação se escondendo, trocando de casa com frequência para evitar ser recrutado para lutar pelo fascismo. O diretor usou suas experiências no filme, os membros da resistência se escondem em casas, trocam de lugar, andam pelos telhados à noite. 

    A realização do filme foi complexa, não havia película disponível, a equipe passava dias procurando material com fotógrafos e outros cinegrafistas. Quando conseguiam, filmavam rapidamente nas ruas, em caráter documental. Segundo Aldo Fabrizi, “Geralmente, o negativo acabava antes da cena”, dotando a obra com os famosos cortes abruptos que influenciaram decisivamente o cinema moderno. 

    Três sequências entraram para a galeria de antologias do cinema: a morte de Pina, alvejada por um tiro quando corre pela rua atrás do caminhão que leva seu noivo Francesco; a tortura de um membro da resistência, filmada em plano fechado, com realismo aterrador; a execução do padre no final do filme, vista pelos olhos das crianças que jogavam futebol com ele em frente à igreja. 

    “Como notaram os críticos, Roma, cidade aberta não é explicitamente um filme neorrealista como parece de início. Além da filmagem documental, reúne elementos que combinariam mais com um melodrama hollywoodiano. Há uma dona de casa corajosa (Anna Magnani) que parece uma Sra. Miniver italiana, meninos de rua heróicos e um padre bem semelhante ao padre Brown. Numa cena assustadora, a jovem atriz que trai a resistência desmaia ao perceber o sofrimento que causou. Ela recebera um casaco de pele como propina para delatar os combatentes. Enquanto está desfalecida, seu casaco é retirado do corpo para ser reutilizado no convencimento de outra traidora. Ninguém sabia filmar uma cena de morte melhor do que Rossellini: o assassinato de Magnani, correndo pelas ruas, a execução do padre diante de várias crianças são encenadas como o máximo de compaição e dramaticidade.”

    Roma, cidade aberta (Roma, città aperta, Itália, 1945), de Roberto Rossellini. Com Anna Magnani, Aldo Fabrizi, Marcello Pagliero.

    Referência: Tudo sobre cinema. Philip Kemp (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2011

  • Alemanha ano zero

    Críticos afirmam que Alemanha, ano zero é o filme essencialmente neorrealista de Roberto Rossellini. A narrativa acompanha o menino Edmund em sua jornada por uma Berlim em ruínas, após a Segunda Guerra Mundial, em busca de trabalho e comida. Seu pai está doente, o irmão desertor não pode sair de casa, cabe à irmã e a Edmund o sustento da família. Um encontro entre Edmund e seu ex-professor, um pedófilo, muda os rumos da história. O professor diz ao menino que os velhos e doentes devem morrer para que os jovens sadios sobrevivam. 

    Roberto Rossellini estava produzindo o filme quando foi surpreendido com a morte de seu filho Romano, aos nove anos de idade. A profunda amargura e tristeza na jornada de Edmund é reflexo desse luto. O registro documental da cidade destruída, das pessoas em busca de comida, de trabalho, vivendo apinhadas em pequenos cômodos, expressa também a falta de esperança, de dignidade. O ato de Edmund, influenciado pelas ideias do professor, é praticado de forma fria, como se fosse inevitável. Assim como o gesto final da criança. Realismo, neorrealismo, cinema, não importa, Alemanha ano zero é o documento decisivo daquilo que não podemos esquecer. 

    Alemanha, ano zero (Germania anno zero, Itália, 1948), de Roberto Rossellini. Com Edmund Moeschke, Ernst Pittschau, Ingetraud Hinze.

  • Grisbi, ouro maldito

    Esse filme noir francês é reverenciado por vários cineastas modernos, como Martin Scorsese. Como nos bons filmes do gênero, a trama é composta por personagens marginais, que vivem e frequentam as boates, becos e antros do crime de uma grande cidade. 

    Max acabara de realizar um grande roubo, pacotes de ouro em barra, e planeja se aposentar. No entanto, Ritton, seu grande amigo e parceiro no roubo, revela o acontecido à sua namorada Josy, uma jovem dançarina de cabarés. Josy está apaixonada por Angelo, outro gangster da cidade, e repassa a informação a ele. O que se segue é um conflito sanguinário pela disputa da mercadoria entre Max, Angelo e seus comparsas. 

    O filme tem uma grande sequência de ação, à noite, em uma estrada, quando Max vai trocar as barras de ouro com Ângelo, que sequestrara Ritton. Explosões e rajadas de metralhadora enchem a tela noturna, marca do cinema noir. No entanto, a narrativa é centrada nos conflitos pessoais entre os protagonistas, principalmente entre os amigos Max e Ritton. É um filme sobre a amizade, sobre o envelhecimento, sobre sentimentos nobres que se sobressaem à crueldade dos bandidos, sobre a ambição e a cobiça. 

    Grisbi, ouro maldito (Touchez pas au grisbi, França, 1954), de Jacques Becker. Com Jean Gabin (Max), René Dary (Riton), Lino Ventura (Angelo), Jeanne Moreau (Josy), Angelo Dessy (Bastien), Michel Jourdan (Marco).

  • Lar dos esquecidos

    O terror parece ser o gênero da segunda década do século XXI. Basta ver a quantidade de produções que são lançadas nos diversos streamings. Lar dos esquecidos, produção alemã disponível na Netflix, segue as normas do gênero, além de fazer referência explícita ao clássico A noite dos mortos vivos (1968), de George Romero. 

    A narrativa abre com um brutal assassinato: um idoso mata sua cuidadora, massacrando sua cabeça com um cilindro (referência à aterradora cena de Irreversivel). Corta para Ella dirigindo em uma estrada com seus dois filhos. O destino é a sua cidade natal, um povoado com poucos moradores, a maioria deixou a cidade. Restou aos idosos da cidade uma casa de repouso, onde foram praticamente abandonados pelos parentes. 

    Na noite do casamento da irmã de Ella, os idosos se revoltam, acometidos por uma espécie de vírus que os torna violentos e sanguinários. Segue-se um massacre na cidade, com os idosos sitiando a casa onde aconteceu a festa. É a noite dos mortos vivos, no caso, idosos abandonados, relegados a uma vida solitária e sem perspectivas em uma casa de repouso decrépita. Terror e crítica social se misturam em Lar dos esquecidos.  

    Lar dos esquecidos (Old people, Alemanha, 2022), de Andy Fetscher. Com Melika Foroutan (Ella), Louie Betton (Alex), Paul Fassnacht (Aike), Ott Emil Koch (Noah), Stephan Luca (Lukas), Anna Unterberger (Kim). 

  • A garota e a aranha

    O filme dos irmãos Zurcher faz parte da tradição do cinema intimista europeu, regido pela simplicidade técnica, mas com intensa força poética. Tudo se passa em uma casa, onde os moradores estão se preparando para uma mudança. Enquanto empacotam objetos, carregam caixas, tentam organizar o caos tradicional desses momentos, cada um se despede à sua maneira um do outro, do lugar, das lembranças. 

    Lisa transita pelos ambientes em silêncio quase profundo, tocando em objetos, em uma aranha, gestos sutis de quem deixa uma importante fase da vida para trás. O casal Mara e Markus se movimentam apressados pelos ambientes, pintam paredes. Astrid, a mãe, cuida com carinho de tecidos e comanda os funcionários encarregados da mudança, dos consertos. A narrativa revela, através destes gestos simples e cotidianos das personagens, os mistérios insondáveis da alma quando nos despedimos de pessoas e coisas queridas.  

    A garota e a aranha (Das mädchen und die spinne, Suiça, 2021), de Ramon Zurcher e Silvan Zurcher.  Com Henriette Confurius (Mara), Liliane Amuat (Lisa), Ursina Lardi (Astrid), Ivan Georgiev (Markus). 

  • A comuna

    Erik, professor de arquitetura, é casado há 15 anos com Anna, uma influente apresentadora da televisão norueguesa. Erik recebe uma enorme casa de herança e para conseguir manter os custos da residência, o casal convida vários amigos para morarem juntos, formando uma comunidade. As decisões cotidianas são resolvidas em reuniões à mesa, lideradas por Ole. A harmonia da comunidade ameaça ser rompida quando Erik se apaixona por Emma, uma aluna. Após uma separação amigável, Erik leva Emma para morar na comunidade. 

    Thomas Vinterberg (Festa de família), ambienta essa comunidade conflituosa, mas ao mesmo tempo regida pelas leis da amizade, nos anos 70. Os adultos às vezes explodem em crises histéricas, outras vezes se regalam à vinho e olhares cúmplices na mesa. A liberdade sexual está expressa no comportamento de Erik e Anna, no entanto, ela se mostra passo a passo despreparada para essa maturidade compreensiva. 

    O contraponto dos adultos é o menino Vilads – ele tem problemas cardíacos e diz a todo mundo que conhece: vou morrer quando fizer nove anos – e a adolescente Freja, filha do casal, que assiste a tudo entre o deslumbramento e a decepção. A grande e tocante sequência do filme é quando Vilads se deita nos ombros da mãe olhando com o olhar terno para Freja, que acaba de apresentar seu namorado à comunidade. 

    A comuna (Kollektivet, Dinamarca, 2016), de Thomas Vinterberg. Com Trine Dyrholm (Anna), Ulrich Thomsen (Erik), Helene Reingaard Neumann (Emma), Martha Sofie Wallstrom Hansen (Freja), Lars Ranthe (Ole), Fares Fares (Allon), Magnus Millang (Steffen), Anne Gry Henningsen (Ditte), Julie Agnete Yang (Mona), Sebastian Gronnegaard Milbrat (Vilads).

  • Merry-go-round

    O diretor Jacques Rivette se aventura por uma trama com ar de thriller policial. Elisabeth envia telegramas para o ex-namorado Ben, em Nova York, e para a irmã Léo em Roma. Os dois devem se juntar a ela em Paris para ajudá-la a vender as casas do pai, recém-falecido. No entanto, Elisabeth desaparece assim que Ben e Léo chegam em uma das casas. Os dois começam, então, uma estranha investigação sobre o paradeiro da jovem, passando por várias cidades e por outros relacionamentos também estranhos. 

    A aventura policial resvala para dramas emocionais, filmados em caráter quase experimental pelo diretor. Tudo se resolve de forma simplista, o que interessa à Rivette é acompanhar as relações que se criam ao longo da narrativa, também sem profundidade. Merry-go-round faz parte de um gênero de sucesso, principalmente a partir dos anos 70: o road-movie. No entanto, o filme foi um fracasso de público e crítica, tendo como único atrativo trazer nos papéis principais duas estrelas: Maria Schneider e Joe Dallesandro.

    Merry-go-round (França, 1981), de Jacques Rivette. Com Maria Schneider (Léo), Joe Dalessandro (Ben), Danièle Gégauff (Elisabeth), Sylvie Matton (Shirley). 

  • Iluminação

    O filme abre com o Professor Wladyslaw Tatarkiewicz discursando para o espectador sobre o conceito de iluminação, definido por Santo Agostinho. A seguir, uma série de cenas do jovem Franciszek Reitman passando por provas físicas e psicológicas, visando sua aprovação em uma conceituada universidade polonesa para estudar física. 

    A narrativa acompanha os conflitos psicológicos de Franciszek durante seus estudos e sua convivência social. É um embate entre a razão e a fé, entre o racionalismo e a emotividade. Tudo se transforma para o jovem estudante quando ele se apaixona, casa e tem um filho. 

    Ao acompanhar dez anos na vida de Franciszek, o diretor Krzysztof Zanussi tece uma profunda reflexão sobre a juventude polonesa do pós-guerra que busca sentido para a vida na sociedade regida pelo comunismo. Promessas que não se cumprem, amores que devem sobreviver ou não às dificuldades cotidianas, a busca pelo trabalho, pelos estudos, o essencial contraponto entre a fé e a razão, é a Polônia refletida em um cinema poderoso e poético. 

    Iluminação (Iluminacja, Polônia, 1973), de Krzysztof Zanussi. Com Stanislaw Latallo (Franciszek Retman), Monika Dzienisiewicz (Agnieszka), Małgorzata Pritulak (Małgorzata).