Categoria: Filme

  • Hostis

    A narrativa começa com clássica cena que representa a ideologia do gênero faroeste: família de rancheiros é massacrada por tribo indígena. Rosalie Quaid sobrevive após ver o marido e seus três filhos serem assassinados pelos índios. Corta para o Capitão Joseph Blocker assistindo com tranquilidade seus oficiais espancando alguns índios. Quando chega ao quartel, o Capitão recebe uma missão: levar o chefe Falcão Amarelo e sua família para reserva indígena. No caminho, Joseph encontra Rosalie. 

    A jornada de militares, civis e índios pelo território selvagem representa os caminhos que a sociedade americana precisou empreender para sua formação. A jornada é marcada por confrontos violentos à mão armada, expondo a natureza preconceituosa, desumana e assassina dos caminhantes. Christian Bale compõe seu personagem com amargura, desilusão, depressão latente que se traduz em comportamentos ora carinhosos, ora violentos e assassinos. 

    Hostis (Hostilis, EUA, 2017), de Scott Cooper. Com Christian Bale (Capitão Joseph Blocker), Rosamund Pike (Rosalie Quaid). Wes Studi (Chefe Falcão Amarelo), Jesse Plemons (Sargento Kidder).

  • Diamantino

    A sátira futebolística inspirada em Cristiano Ronaldo (dentro e fora das telas) consegue, através da trama beirando o absurdo, debater importantes questões do mundo contemporâneo, principalmente do continente europeu, assolado por questões de xenofobia e separatistas. 

    Diamantino é o craque da seleção portuguesa de futebol, espécie de Deus dos gramados, comparado pelo pai  a Michelangelo. Em campo, as jogadas geniais do atleta acontecem quando ele tem visões de fofos cachorros gigantes (efeitos especiais a serviço do surrealismo). Na final da Copa do Mundo contra a Suécia, o craque perde pênalti aos 45 minutos do segundo tempo e cai em desgraça.

    O infantilizado Diamantino, dominado pelas cruéis irmãs gêmeas, resolve dar guinada na vida quando se depara, de seu suntuoso iate, com bote de refugiados africanos. Adota um refugiado, na verdade uma agente especial que se disfarça para investigar possíveis transações financeiras ilegais do ídolo português. 

    A trama ganha toques nonsenses passo a passo, Diamantino se vê envolvido com casal de lésbicas investigadoras, seu corpo serve de protótipo para experiência envolvendo clonagens, ingenuamente participa de campanhas publicitárias a favor da separação de Portugal da Comunidade Européia. Tudo sobre o controle quase macabro das gêmeas. A película ganhou o prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes.

    Diamantino (Portugal/Brasil, 2018), de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. Com Carloto Cotta (Diamantino Matamouros), Cleo Tavares (Aisha), Anabela Moreira (Sônia Matamouros), Margarida Moreira (Natasha Matamouros).

  • Lino

    A tecnologia digital provocou reviravolta na história da animação brasileira. Os curtas-metragens invadem as telas favorecidos pelo Anima Mundi. As crianças finalmente conseguem assistir a animações de longa-metragem com mais regularidade (até os anos oitenta foi produzido apenas um longa de animação no Brasil). O estúdio de animação Start Anima já lançou O grilo feliz (2001), O grilo feliz e os insetos gigantes (2009) e Lino, delicioso imbricamento entre o mundo humano e animal. 

    Lino trabalha como animador de festas infantis, vestido de gato. No início da narrativa, relata em primeira pessoa sua inacreditável tendência ao azar. É o típico loser, sem esperança, sem perspectivas. Ele se envolve com um mago que o transforma em gato gigante. O sucesso é imediato, Lino passa de azarão a celebridade. 

    Selton Mello empresta sua voz ao gato. As trapalhadas de Lino envolvem tentativa de voltar ao corpo humano, toques de romance e trama policial. Diversão garantida.  

    Lino (Brasil, 2017), de Rafael Ribas.

  • Corpo elétrico

    O jovem paraibano Elias trabalha em uma confecção de roupas. A rotina de Elias se divide entre o trabalho e a aspiração de ser estilista e as noitadas com amigos, quando se entrega à busca por amantes. 

    O diretor Marcelo Caetano segue tendência do cinema brasileiro contemporâneo: câmera na mão próxima dos personagens, acompanhado com naturalidade momentos rotineiros no trabalho, a caminhada pelas ruas, documentário e ficção se alternando no estilo de captação e montagem. Marcelo Caetano diz que desconstruiu o roteiro, deixando a improvisação fluir, tanto no processo de filmagem quanto de interpretação dos atores. A simplicidade do final revela a força deste cinema/retrato da vida que flui diante das câmeras. 

    Corpo elétrico (Brasil, 2017), de Marcelo Caetano. Com Kelner Macêdo, Lucas Andrade, Welket Bungué, Ronaldo Serruya, Ana Flavia Cavalcanti, Linn da Quebrada.

  • João, o maestro

    Depois de Tim Maia (2013), o roteirista e diretor Mauro Lima traz às telas a história do pianista e maestro João Carlos Martins. Rodrigo Pandolfo e Alexandre Nero interpretem com densidade o músico, reconstituindo a complexidade da vida do homem que se entregou completamente à música. 

    A narrativa segue a cronologia básica de cinebiografias: da infância à maturidade, destacando pontos pessoais e profissionais da carreira de João Martins. O lado pessoal é pouco explorado, o forte do filme é a evolução do músico, primeiro como pianista, depois como maestro, caminho seguido quando João é diagnosticado com doença nas mãos. O destaque da película são as reconstituições das interpretações musicais, dos concertos, primor visual e sonoro que praticamente coloca o espectador dentro dos teatros.   

    João, o maestro (Brasil, 2016), de Mauro Lima. Com Alexandre Nero, Rodrigo Pandolfo, Caco Ciocler, Alinne Moraes, Fernanda Nobre. 

  • Malasartes e o duelo com a morte

    Jesuíta Barbosa vive o lendário Pedro Malasartes, personagem do folclore que ganhou fama nas mãos de Mazzaropi. Na comédia de Paulo Morelli, Malasartes tem que fazer das suas trapaças para ludibriar um devedor – Próspero, irmão de sua namorada. No entanto, seu talento como trapaceiro aparece mesmo quando se defronta com a morte, que quer fazer de Malasartes seu substituto. A narrativa alterna ações de aventura e comédia em dois planos: o reino dos vivos e dos mortos. 

    Não espere muito do roteiro, é aventura despretensiosa com toques de comédia, Jesuíta Barbosa na pele do matuto desfila talento. O ponto forte do filme são os efeitos especiais, cerca de 50% das cenas foram geradas digitalmente, caminho que o cinema brasileiro trilha, investindo cada vez mais nos gêneros fantasia e sobrenatural. 

    Malasartes e o duelo com a morte (Brasil, 2017), de Paulo Morelli. Com Jesuíta Barbosa, Milhem Cortaz, Isis Valverde, Julio Andrade, Leandro Hassum. 

  • No intenso agora

    A força do cinema de João Moreira Salles está nas reflexões, traduzidas em textos poéticos, que ele faz sobre as imagens. Em Santiago (2007), o documentarista volta à infância e à família através do retrato do fascinante mordomo. No intenso agora (2017) também parte de memórias: João Moreira Salles encontrou registros feitos por sua mãe de uma viagem à China na época da revolução cultural, na década de 1960.

    O documentário é uma colagem de imagens. Entram sucessão de fotos da China de Mao-Tsé Tung, dos estudantes nas ruas de Paris em maio de 68, da Primavera de Praga na antiga Tchecoslováquia, das ruas do Brasil durante a ditadura militar.

    O belo texto pontua de forma pessoal, às vezes apaixonada, outras vezes refletindo o desencanto pelos rumos tomados. Em diversos momentos o silêncio é mais forte do que tudo. Os documentários de João Moreira Salles são assim: apaixonados, pessoais; por isso mesmo profundamente reais.

    No intenso agora (Brasil, 2017), de João Moreira Salles.

  • Clash

    Cairo, 3 de julho de 2013. O Presidente Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, é deposto pelo exército do país, depois de manifestação contra o governo. Manifestantes a favor e contra o presidente deposto tomam as ruas da cidade em violentos confrontos.

    O diretor Mohamed Diab narra este dia através de ousada experimentação linguística. Manifestantes de ambos os lados são presos dentro de um camburão da polícia e o motorista deve atravessar as zonas de confronto rumo à delegacia. A câmera não sai de dentro do camburão, filmando tudo neste minúsculo espaço repleto de personagens. A tensão cresce minuto a minuto e os manifestantes devem decidir entre o preconceito irascível e perigoso neste ambiente fechado, cujo calor insuportável acirra os ânimos, ou ceder à solidariedade para sobreviverem aos conflitos. 

    Clash (Eshtebak, Egito/França, 2016), de Mohamed Diab. 

  • A gente

    Aly Muritiba trabalhou como agente penitenciário no Paraná. A experiência serviu de inspiração para a Trilogia do cárcere, composta por dois curta-metragens, A fábrica (2011), Pátio (2013) e o longa A gente. O filme, misturando estilos do documentário e da ficção, foi realizado no presídio onde Aly Muritiba trabalhou, em São José dos Pinhais, na Grande Curitiba. 

    A narrativa segue o cotidiano de equipe de agentes penitenciários, liderados por Jefferson Walku. Conflitos rotineiros são retratados, como a tensão no trato com os presidiários, falta de condições de trabalho, superlotação das celas, ausência de estrutura para os trabalhadores e falta de condições dignas para os presos. O ponto de vista escolhido pelo diretor é dos agentes, os presos não aparecem, o espectador ouve apenas suas vozes ou os vê à distância. Quando a câmera sai da prisão, acompanha a rotina pessoal de Jefferson em família ou atuando como pastor em igreja evangélica. Aly Muritiba exercita o estlo doc/fic com potência narrativa, demonstrando a força dos novos realizadores do cinema brasileiro contemporâneo.  

    A gente (Brasil, 2013), de Aly Muritiba. Com Jefferson Walku, Tiago Simioni Andreatta, Manassas da Silva, Ivanney Montenegro.

  • Rock’n roll: por trás da fama

    O diretor e roteirista Guillaume Canet é casado com Marion Cotillard. Na ousada proposta de Rock’n roll: por trás da fama, os dois interpretam a si mesmos, provocando uma crítica feroz à necessidade de se manter como astros famosos no universo do audiovisual. 

    Durante gravação de sequência do filme no qual está trabalhando, o astro Guillaume Canet é chamado de velho por atriz mais nova. Incomodado com a acusação e temeroso de não conseguir mais bons papéis no cinema, o ator busca técnicas de rejuvenescimento corporal. Enquanto isso, Marion Cotillard está em casa treinando sotaque para seu novo filme. 

    As transformações físicas de Canet rendem cenas engraçadas, assim como as preparações de Marion Cottilard. O desgaste do relacionamento pontua a trama e o final do filme reserva uma virada que aponta para a angústia que domina grande parte de homens e mulheres, famosos e comuns: os dilemas do envelhecimento. 

    Rock’n roll: por trás da fama (Rock’n roll, França, 2016), de Guillaume Canet. Com Guillaume Canet, Marion Cotillard, Gilles Lelouche, Ben Foster. 

  • As duas Irenes

    A clássica história do caixeiro viajante dá origem a uma instigante narrativa. Tonico trabalha viajando pelo interior. Tem duas famílias em cidades vizinhas, duas filhas de 13 anos em cada família com o mesmo nome: Irene. Irene de Mirinha descobre o segredo do pai e começa a se relacionar com a outra Irene, sem que ela saiba.

    A amizade entre as irmãs ganha o belo contorno das descobertas da adolescência. A época é indefinida mas ainda não existem os smartphones e os massacres das redes sociais. As duas Irenes vivem o cotidiano da vida do interior, em praças, coretos, cinema. O contraponto é o perigoso mundo adulto, Tonico vive no limite com suas mulheres, com as filhas. Uma virada de roteiro encaminha o filme para um final carregado de metáforas, quando as personalidades podem se confundir.  

    As duas irenes (Brasil, 2017), de Fabio Meira. Com Priscila Bittencourt (Irene de Mirinha), Isabela Torres (Isabela de Neuza), Marco Ricca (Tonico), Suzana Ribeiro (Mirinha), Inês Peixoto (Neusa), Teuda Bara (Madalena). 

  • Bacurau

    O cenário é uma cidadezinha no meio do sertão nordestino. O tempo, futuro indefinido. Teresa está na boleia de um caminhão ao lado do motorista. Passam por caixões jogados na estrada, caídos de outro caminhão, por uma represa abandonada, chegam à Bacurau, onde acontece o funeral da velha Carmelita. Depois do enterro, dois motoqueiros chegam à cidade e partem em seguida. A partir daí, estranhos acontecimentos assolam os moradores: a cidade desaparece do mapa, drone em forma de disco voador sobrevoa a estrada, família de colonos é encontrada assassinada. 

    A sinopse demonstra as influências da película do premiado diretor Kleber Mendonça Filho (O som ao redorAquarius), dessa vez contando com a co direção de Juliano Dornelles: o clássico gênero faroeste americano aliado ao faroeste do sertão recheado de ideologias de Glauber Rocha, além de filmes de futuros distópicos ao estilo Mad Max. Quando entra em cena o grupo de caçadores humanos liderados por Michael, pode-se enxergar também referências ao Predador. Nesse ambiente caótico, acontecem confrontos violentos, colocando os pistoleiros Lunga e Michael em planos opostos. A leitura ideológica coloca também em planos opostos classes distintas, a elite voraz e sanguinária mirando a gente pobre do sertão. Resta aos oprimidos a mesma violência, todos de armas em punho, destino eterno da sociedade que vive sempre à beira da guerra civil.  

    Bacurau (Brasil, 2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Com Barbara Colen, Sônia Braga, Karine Telles, Udo Kier, Silvero Pereira. 

  • Gosto se discute

    chef Augusto é dono de restaurante e se vê diante de diversos problemas. Um ex-funcionário monta um food truck na porta de seu estabelecimento, roubando a freguesia. Cristina é designada pelo banco credor de Augusto como auditora, assume a direção do restaurante exigindo diversas mudanças, inclusive no cardápio. Para completar, o chef perde o paladar.  

    Gosto se discute aproveita a ascensão da gastronomia para compor narrativa com toques de comédia romântica. O confronto entre Augusto e Cristina assume os clichês das brigas e flertes do gênero. Os diálogos entre Augusto e o Dr. Romualdo são o melhor do filme. 

    Gosto se discute (Brasil, 2017), de André Pellenz. Com Cássio Gabus Mendes (Augusto), Kéfera Buchmann (Cristina), Gabriel Godoy (Patrick), Paulo Miklos (Dr. Romualdo).

  • Pendular

    Casal formado por artista plástico (Rodrigo Bolzan) e dançarina (Raquel Karro) vai morar em um galpão com a intenção de fazer das instalações ao mesmo tempo moradia e espaço para intervenções artísticas. A narrativa mistura dramas cotidianos do casal, incertos ante a possibilidade de terem filhos, com experimentações artísticas. As intervenções artísticas de Rodrigo Bolzan compõe com potência o cenário do filme. No entanto, o fascínio fica por conta da dançarina. Raquel Karro interage com as experimentações do marido e com o grande espaço do ambiente em números de dança solitários e fascinantes. 

    Pendular (Brasil, 2017), de Júlia Murat. Com Raquel Karro, Rodrigo Bolzan, Valeria Barreta, Renato Linhares.

  • Dona Flor e seus dois maridos (2017)

    A relação entre cinema e televisão no Brasil dá o tom da segunda adaptação do clássico romance de Jorge Amado. Além dos atores globais, o diretor Pedro Vasconcelos também se criou na direção de novelas. A história é mais do que conhecida, principalmente depois da antológica adaptação protagonizada por Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça.  

    Agora, Juliana Paes destila erotismo no papel de Flor, mas Marcelo Faria rouba as cenas quando volta do além pelado para provocar a mulher. O ponto fraco é Leandro Hassum, pois Teodoro exige uma interpretação contida o que não combina com o ator. As ousadas cenas eróticas provocam o espectador que, mais uma vez, se entrega aos prazeres deste irreverente triângulo amoroso. 

    Dona Flor e seus dois maridos (Brasil, 2017), de Pedro Vasconcelos. Com Juliana Paes (Flor), Marcelo Faria (Vadinho), Leandro Hassum (Teodoro).

  • Feito na América

    Certas histórias reais são mais surpreendentes que o mais surpreendente roteiro. É o caso da vida de Barry Seal (Tom Cruise), piloto de avião comercial em crise financeira. Ele é recrutado pela CIA para registrar imagens aéreas da Colômbia, vira traficante de drogas a serviço do Cartel de Medellín, é convencido a fazer papel de agente duplo pelo DEA (departamento que combate o tráfico de drogas nos Estados Unidos). Para completar, o piloto se envolveu no escândalo Irã-Contras durante o governo Reagan: armas que seriam vendidas ao Irã foram desviadas para financiar o treinamento dos Contras, milícia que combatia o governo Sandinista na Nicarágua. 

    O diretor Doug Liman conta esta complexa história com altas doses de aventura e ousadas sequências no avião pilotado por Barry Seal. Tom Cruise compõe um personagem que vive no limite, vai da crise financeira ao enriquecimento fácil, à falência e precisa lidar com ameaças vindas de todos os lados. O final deste personagem, claro, não poderia ser feliz. 

    Feito na América (American made, EUA, 2017), de Doug Liman. Com Tom Cruise, Domhall Gleeson, Sarah Wright, Caleb Landry Jones. 

  • A vilã

    A sequência inicial é de tirar o fôlego e digna de reverência ao atual cinema asiático: alguém entra em um prédio, a câmera em visão subjetiva mostra lutas coreografadas, personagens em sequência entram em combate e são trucidados passo a passo. No final, o espectador descobre que a assassina é Sook-hee, a vilã do título, em busca de vingança. 

    Sook-hee foi treinada desde criança para ser assassina e seu passado esconde um trauma: ela assistiu ao assassinato do pai. Romance, ação, violência, sangue em profusão se misturam na trama à medida que a jovem trilha seu caminho de vingança. Flasbacks tentam elucidar a trama, mas a narrativa se mostra intrincado quebra-cabeça. Resta se entregar às impressionantes sequências de ação, com destaque para o longo ataque em visão subjetiva do início do filme. 

    A vilã (Ak-Nyeo, Coréia do Sul, 2017), de Jung Byung-Gil. Com Kim Ok-Bin, Shin Ha-Kyun, Sung Jun. 

  • Cleo das 5 as 7

    BBC Culture lançou lista dos 100 melhores filmes realizados por mulheres. O piano (1993), de Jane Campion, lidera. Em seguida vem Cléo de 5 às 7. A cineasta francesa Agnés Varda tem seis filmes na lista dos 100 melhores. 

    Cléo de 5 às 7 é dos mais importantes filmes da nouvelle vague francesa. A trama acompanha duas horas na vida da cantora Cléo (Corinne Marchand), enquanto ela aguarda o resultado de exame médico que pode atestar ou não um câncer. A caminhada da cantora pelas ruas de Paris é marcada pela irreverência estilística típica do movimento que revolucionou o cinema. 

    “Como está claro no título, Varda escolheu acompanhar a angústia de Cléo praticamente em tempo real, levando em conta, portanto, a emergência e as técnicas do ‘cinema direto’. A casualidade da narrativa permite que a ficção se funda ao documentário enquanto a jovem vaga pela Rive Gauche de Paris, principalmente pelos arredores da estação de trem de Montparnasse, acompanhada por atordoantes travellings. Mas o realismo de Varda também é capaz de gerar emoções poderosas ao mostrar em um crescendo os sinais da lenta agonia gravada no rosto de sua protagonista.”

    Cléo de 5 às 7 (Cléo de 5 à 7, França, 1962), de Agnés Varda. Com Corinne Marchand, Antoine Bourseiller, Dominique Davray, Dorothée Blank.

  • O sacrifício do cervo sagrado

    O grego Yorgos Lanthimos faz releitura de Ifigênia, tragédia de Eurípides, na qual Agamenon é obrigado a sacrificar um filho por ter matado um cervo sagrado. Steven Murphy é cirurgião cardiologista e tem estranha relação com o filho adolescente de um paciente. As poucos, o espectador desvenda o mistério por trás da relação que envolve cobrança e justiça por erros cometidos no passado. 

    Steven é casado com a também médica Anna; o casal tem dois filhos. Quando o amigo adolescente de Steven é inserido no seio familiar, a trama caminha para a previsível anunciação estampada no título do filme, com direito a final perturbador que exige controle de nervos do espectador. 

    Estranheza é o que se pode esperar de O sacrifício do cervo sagrado. Além da inserção de metáforas bíblicas na narrativa, os atores trabalham com a não-interpretação, agindo quase como autômatos entregues ao destino. Barry Keoghan, no papel do adolescente Martin, é a grande surpresa do filme. 

    O sacrifício do cervo sagrado (The killing of a sacred deer, Inglaterra, 2017), de Yorgos Lanthimos . Com Colin Farrell (Steven Murphy), Nicole Kidman (Anna Murphy), Barry Keoghan (Martin), Raffey Cassidy (Kim Murphy), Sunny Sujic (Bob Murphy), Alicia Silverstone (Mãe de Martin). 

  • Deslembro

    Deslembro trata com sensibilidade da história recente do Brasil que o atual governo insiste em negar: a ditadura militar. A adolescente Joana vive em Paris com a mãe e reluta em voltar ao Brasil após a anistia política. No Rio de Janeiro, ela conhece a avô Lucia e passo a passo vai se entregando as memórias de criança, quando o pai vivia na clandestinidade e acabou preso pelos militares. Foi considerado desaparecido, seu corpo nunca foi encontrado. Um fato atesta a crueldade desta condição: a turma escolar de Joana vai participar de excursão a Ouro Preto; a garota precisa da autorização dos pais, mas como não tem o atestado de óbito do pai é impedida de viajar. 

    A narrativa parte das próprias memórias da diretora Flávia de Castro. Em 1972, seus pais tiveram que deixar o Brasil, história retratada no documentário Diário de uma busca (2011). A fotografia é dos pontos de destaque de Deslembro. Em Paris as cores são vibrantes, no Rio de Janeiro a fotografia ganha um tom frio; o tratamento da imagem também remete ao cinema dos anos 70/80. Jeanne Boudier faz sua estreia como atriz, tratando a personagem com as dubiedades próprias da adolescência: revolta, compreensão; carinho e raiva pelos familiares; deslumbre com o novo país, com a descoberta da sexualidade. O tom político ganha força com o padastro chileno e, principalmente, nas memórias da avó Lúcia sobre o filho desaparecido.

    Deslembro (Brasil, 2018), de Flávia Castro. Com Jeanne Boudier (Joana), Sara Antunes (mãe), Eliane Giardini (Lúcia).