Categoria: Filme

  • Nosso ex-marido

    A diretora alemã Margarethe von Trotta investe no relacionamento de duas mulheres para compor retrato da sociedade ainda marcada pelo domínio dos homens no destino de ex-esposas. Jade é promissora designer de moda, vive em um luxuoso apartamento em Nova York deixado por Nick quando da separação (ele a trocou por uma jovem beldade). De repente, Maria, a primeira mulher de Nick, exige morar no apartamento, pois também tem direitos. Por fim, Antonia, filha de Maria e Nick, chega ao apartamento em busca de trabalho na metrópole americana. 

    O convívio diário entre as mulheres rende situações às vezes cômicas, outras vezes dramáticas. Enquanto Jade luta pela ascensão profissional, inserindo Antonia em seu cotidiano de trabalho, Maria aceita sua condição de aposentada, cuidando dos afazeres domésticos, além de trabalhos na área acadêmica. Os conflitos permeiam a trama com direito a final irreverente.  

    Nosso ex-marido (Forget about Nick, Alemanha, 2017), de Margarethe von Trotta. Com Ingrid Bolso Berdal (Jade), Katja Riemann (Maria), Haluk Bilginer (Nick), Tinta Fursk (Antonia).

  • Todas as razões para esquecer

    A comédia romântica segue os passos de Antônio, após tomar fora da namorada. Ele tenta retomar a vida com naturalidade, mas sofre com a perda e solidão e se entrega a tentativas de se reencontrar e encontrar novos relacionamentos.

    O roteirista e diretor Pedro Coutinho insere na trama situações cômicas que trazem também reflexão sobre a busca incessante da juventude. Terapia, antidepressivos, relações pelas redes sociais como Tinder, festinhas regadas a álcool e relacionamentos fortuitos. O tom cômico ganha força nas sessões de terapia de Antônio; a terapeuta diverte com seus dilemos sobre sexo.  

    Todas as razões para esquecer (Brasil, 2018), de Pedro Coutinho. Com Johnny Massaro (Antônio), Bianca Comparato (Sofia), Regina Braga (Elisa). 

  • O nome da morte

    No final do filme, lettering anuncia: “Júlio Santana assumiu ter assassinado 492 pessoas. Nunca foi julgado ou condenado por seus crimes. Ele esteve preso uma única vez, mas foi solto no dia seguinte. Atualmente, Júlio e a mulher vivem num sítio no interior do Brasil. Sempre que tem pesadelos, ele reza dez Ave-Marias e vinte Pais-Nossos.” 

    Baseado no livro O nome da morte, de Klester Cavalcanti, o filme narra a trajetória de Júlio Santana pelo mundo dos assassinos de aluguel. No início, ele vive no interior de Goiás, em pequena propriedade ao lado dos pais e irmãos. Leva vida pacata até que o tio, policial, convence Júlio a entrar para a polícia – na verdade, fachada para uma máfia de assassinos da qual o tio faz parte. 

    A trama abre espaço para os conflitos do protagonista à medida que se entrega ao seu destino de matador. A relação com a esposa é outro aspecto interessante, pois uma intrigante elipse revela que conforto e dinheiro podem ser decisivos para transformações de personagens. 

    O nome da morte (Brasil, 2017), de Henrique Goldman. Com Marco Pigossi (Júlio), André Mattos (Cícero), Gillray Coutinho (Santos), Fabíula Nascimento (Maria). 

  • Depois daquela montanha

    É a tradicional história de sobrevivência, da luta dos humanos contra a natureza incremente. A jornalista Alex e o cirurgião Ben se encontram no aeroporto e são surpreendidos com o cancelamento do voo. Eles precisam chegar ao destino com urgência: a jornalista porque está com casamento marcado e o médico para realizar uma cirurgia de emergência. Os dois decidem fretar um pequeno avião e a nevasca nas montanhas provoca a queda. Alex, Ben e um cachorro labrador sobrevivem, resta ao trio caminhar pela neve, enfrentando os perigos da natureza fria e selvagem. 

    A trama segue os desafios da jornada e abre espaço para o crescente relacionamento amoroso dos protagonistas. A força do filme está no talento de Kate Winslet e Idris Elba, dois grandes atores que seguram a narrativa.

    Depois daquela montanha (The mountain between, EUA, 2017), de Hany Abu-Assad. Com Kate Winslet (Alex), Idris Elba (Ben). 

  • Audrey

    Impossível não se emocionar assistindo à Audrey, documentário que retrata uma das atrizes mais fascinantes, dentro e fora das telas, deste maravilhoso cinema clássico americano. O filme traz depoimentos de familiares e amigos da atriz, como Sean Hepburn-Ferrer, Emma Ferrer, Richard Dreyfuss, Clare Waight Keller, John Loring. 

    Os depoimentos reconstituem a infância de Audrey, quando ela sofreu com os horrores da ocupação nazista na Holanda, vivendo, inclusive, em estado de desnutrição. Foi abandonada pelo pai que se aliou às fileiras nazistas. A vida pessoal da atriz é pontuada ao longo de sua carreira, passando pelos casamentos desfeitos, pelo reencontro com o pai, com destaque para sua atuação como Embaixadora da Unicef. 

    Os sofrimentos de Audrey durante a segunda guerra mundial, as frustrações de seus relacionamentos amorosos,  seu engajamento fervoroso na luta pelas crianças famintas da África e, finalmente, a batalha contra o câncer que a vitimou, são entrecortados pelas belas imagens da carreira da atriz. Imagens eternas: a princesa que passeia liberta pelas ruas de Roma, a filha de um motorista que se transforma em Paris e seduz dois ricos irmãos, a mendiga que ressurge como a mais bela dama, a garota de programa com seu ar ingênuo diante da joalheria e mais, muito mais – poderíamos ficar descrevendo quase sem fim as aparições luminosas de Audrey Hepburn no cinema e em nossa vidas. Melhor assistir ao documentário e correr para rever os filmes.  

    Audrey (EUA, 2020), de Helena Coan. 

  • Alexander Nevsky

    Eisenstein começou a produção de Alexander Nevsky no momento em que a Alemanha invadiu a Áustria e a Tchecoslováquia, espécie de encomenda do governo de Stalin contra o projeto nazista. O filme, portanto, se enquadra no “realismo socialista”, marcado por obras acessíveis ao grande público, de forte teor ideológico na propagação dos ideais socialistas. Muitos dos filmes deste período traziam tramas passadas em momentos de conflitos históricos, com mensagens edificantes, esperançosas. 

    Alexander Nevsky se passa no século 13, quando a Rússia lutava contra cruéis conquistadores. O famoso estrategista Alexander está refugiado em uma aldeia de pescadores, logo após vencer o exército mongol, quando é recrutado para liderar o exército contra os germânicos, que invadiram a Rússia e rumam para a poderosa cidade de Novgorod. 

    Eisenstein usa a figura mitológica e fascinante de Alexander para tratar dos horrores da guerra, espécie de alerta para o que estava por vir com o crescente poderio nazista. A espetacular sequência de batalha no lago congelado está entre as mais impressionantes da história do cinema, quase uma ópera brutal, embalada pela música arrebatadora de Sergei Prokofiev. 

    Alexander Nevsky (Rússia, 1938), de Sergei Eisenstein. Com Nicolay Cherkasov (Alexander Nevsky), Nikolai Okhlopkov (Vasili), Andrei Abrikosov (Gabrilo), Aleksandra Danilova (Vasilisa), Valentina Ivashova (Olga).  

  • O leão de sete cabeças

    A trama descosturada do filme se passa em um país africano do qual não sabemos o nome. No entanto, as maquinações ideológicas dos personagens apontam para países que conhecemos da África, da América do Sul, Central e de outros recantos. O país é governado por um homem aparentemente germânico que tem como aliados na exploração da população um agente americano, um comerciante português e Marlene, uma loura idolatrada pela população. Um padre branco transita por todos, oscilando entre a apatia e o ódio brutal. A resistência está personificada no líder rebelde que lembra Che Guevara e no negro chamado Zumbi. 

    O primeiro filme de Glauber Rocha após o exílio durante a ditadura militar brasileira contou com financiamento francês e apresentou ao mundo a verve rebelde, avessa à narrativa convencional deste que ainda é o maior diretor brasileiro de todos os tempos. 

    “Deliberadamente esquemática, a intriga mobiliza personagens que encarnam agentes históricos da colonização africana sem ganharem espessura psicológica. Suas sequências quase autônomas se alternam com cenas de dança tradicional dos autóctones que interrompem o fio narrativo e afirma a força das culturas africanas. O filme inteiro se constrói por contraposições entre relato e dança, política e mito, colonizador e colonizado, indivíduo e coletividade. Rocha soube explorar nas filmagens a diversidade do elenco, em que atores de prestígio (Léaud, Rassimov, Carvana) interagem com não profissionais e pessoas comuns do Congo. Se a língua francesa predomina no som, ouvem-se também falas ou cantos em inglês, português, alemão e em língua local. Vários idiomas convivem também no título original ‘Der leone have sept cabeças’, que remete aos países colonizadores da África (Alemanha, Itália, Inglaterra, França, Portugal, Bélgica, Holanda) mas sugere, no desacordo gramatical entre sujeito e verbo, que o Leão da história é plural – designa o colonizador com suas sete vidas, mas também o colonizado, igualmente tenaz.” – Mateus Araújo

    O leão de sete cabeças (Der leone have sept cabezas, França/Brasil, 1971), de Glauber Rocha. Com Rada Rassimov (Marlene), Giulio Brogi (Pablo), Hugo Carvana (Português), Jean-Pierre Léaud (Padre), Gabriele Tinti (Agente americano). 

    Referência: Glauber Rocha. O leão de sete cabeças. Coleção Folha Grandes Diretores no Cinema. Mateus Araújo Silva e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018

  • A grande ilusão

    A obra-prima de Jean-Renoir, considerado um dos filmes mais humanistas de todos os tempos, passou por revisões de acordo com o contexto histórico. A trama acontece em dois campos de prisioneiros alemães, durante a primeira guerra mundial, onde estão presos soldados franceses e ingleses. Na primeira parte, em um quartel, na segunda, em um suntuoso castelo. O capitão Pierre Fresnay e o Tenente Marechal guiam os homens em tentativas de fuga. Neste contexto, se desenvolve o grande tema da película: a fraternidade, solidariedade entre soldados de raças e classes distintas, todos irmanados pela tragédia da guerra. 

    Não há cenas de trincheiras, tiroteios, assassinatos em massa. Prisioneiros e carcereiros interagem com compreensão sobre os papéis de cada um na guerra, cumprindo com seus deveres, servindo nobremente às suas nações, mas solidários no sofrimento e na ilusão de que tudo passará rápido. 

    O Capitão alemão von Rauffenstein e o Capitão francês Boeldieu se aproximam em respeito mútuo, pois fazem parte da mesma classe social aristocrática. Diferenças raciais também são tema da película. O judeu Rosenthal convive com os soldados ouvindo agressões verbais, mas o companheirismo supera tudo, como na emocionante cena na neve, quando Marechal e Rosenthal estão quase se entregando ao destino. “Renoir aproveita o poder ilusório da arte para demonstrar como os homens poderiam ser. Por isso, seus personagens podem estar em posições distintas, sem que isso implique oposição ou impulso de aniquilar o outro.” – Cássio Starling Carlos. 

    Lançado em 1937, A grande ilusão arrebatou público e crítica como um libelo contra a guerra, capaz de receber elogios da direita e da esquerda. Nos países fascistas, claro, o filme foi proibido, pois a segunda grande guerra já se avizinhava, justificando de vez o título do filme. 

    Depois dos horrores nazistas, mesmo na França o filme sofreu cortes, pois já não era possível apelar para a fraternidade entre alemães e franceses. Críticas severas e infundadas acusaram até mesmo Renoir de incentivar o antisemistismo. Em vários momentos, os ataques à Rosenthal refletem a realidade da sociedade francesa, mas Renoir deixa claro que o companheirismo entre os soldados leva a necessidade urgente de integrar os judeus. 

    Renoir afirmou diversas vezes que o filme é totalmente baseado na realidade, em sua experiência na guerra e em relatos de outros soldados, afirmando seu apego ao cinema realista. Os diálogos são primorosos e foram reescritos durante as filmagens, pois todos já tinham consciência de uma nova tragédia pairando no ar. Renoir também reescrevia no set cenas importantes da trama, contando com a participação de sua secretária François Giroud, que depois se tornaria famosa roteirista, com vigorosa carreira no jornalismo e na política, chegando à Secretaria de Estado da Cultura do governo francês nos anos 70. 

    Sobre o roteiro, um dos melhores da história do cinema, vale refletir sobre duas outras questões, além da reescrita dos diálogos. Quando Erich von Stroheim foi escolhido para interpretar o capitão alemão, mudanças significativas foram feitas, contando com a participação do ator na reescrita de suas falas e na composição do próprio figurino, trazendo contribuições decisivas para a história. A outra questão é o crescimento do judeu Rosenthal. No roteiro original, ele estaria presente apenas na primeira parte da trama, como um dos prisioneiros do quartel. Renoir decidiu colocá-lo também no castelo o que transformou Rosenthal em um dos personagens mais fortes da narrativa, inclusive fugindo com Marecha e empreendendo a famosa batalha contra o tempo e a paisagem nas andanças rumo à Suíça.

    Por fim, vale citar a aparição luminosa da atriz Dita Parla, pequena fazendeira que abriga os fugitivos. O amor que cresce entre Elsa e Marechal faz refletir não apenas sobre o absurdo da guerra, mas também sobre a incomunicabilidade ou sobre a não-necessidade de se comunicar por palavras, apenas por olhares, gestos e ações fraternas. É o apelo final de Renoir ao pacifismo, ao humanismo, não é necessário compreender verbalmente um ao outro, basta nos entregarmos aos sentimentos mais belos que deveriam mover a humanidade: amizade, fraternidade, amor.  

    A grande ilusão (La grande illusion, França, 1937), de Jean Renoir. Com Jean Gabin (Tenente Marechal), Pierre Fresnay (Capitão Boeldieu), Erich von Stroheim (Capitão von Rauffenstein), Marcel Dalio (Tenente Rosenthal), Dita Parlo (Elsa).

    Referência: Jean Renoir. A grande ilusão. Coleção Folha Grandes Diretores no Cinema. Cássio Starling Carlos e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018

  • Uma mulher é uma mulher

    Pelos créditos, é nítido que Godard faz uma grande homenagem ao cinema, incluindo nos letreiros gêneros como a comédia romântica, o musical, bem como diretores como Lubitsch. Angela é dançarina de cabaré e pede um bebê ao namorado Emile. Ele se recusa, mas conversa com seu amigo Alfred Lubitsch (Hitchcock/Lubitsch)  sobre a possibilidade dele engravidar Angela. Segue-se uma divertida relação a lá triângulo amoroso, refletindo comportamentos quase adolescentes dos três. Os conflitos levam à situações divertidas envolvendo amizade, sexo, liberdade de escolhas, descompromisso com valores morais, temas caros à Godard e, por extensão, aos jovens cineastas da nouvelle vague francesa. Tudo com a irreverência narrativa, estilística, a fragmentação descontinuada, também marcas deste novo cinema dos anos 60. 

    “O cinema e a crítica vivam na época os efeitos do novo cinema francês, com a continuidade da onda de  modernização estética e narrativa iniciada poucos anos antes. Os críticos locais oscilavam entre a exclamação e a interrogação. Noções e slogans conceituais como política de autores, cinema moderno e Nouvelle Vague que estavam em moda. Em dez anos de existência, a revista Cahiers du cinéma não apenas gestou em suas páginas parte dos conceitos e slogans então vigentes como, nos poucos anos anteriores, serviu de útero e eco para as posições estéticas de cinéfilos críticos e cineastas.” – Cleber Eduardo. 

    Esses anos 60 trouxeram o melhor do cinema de Jean-Luc Godard, ainda afeito de certa forma ao cinema narrativo, aos gêneros que tanto ama, reverenciado com seu estilo revolucionário o cinema que também tanto amamos.  

    Uma mulher é uma mulher (Une femme est une femme, França, 1961), de Jean-Luc Godard. Com Anna Karina (Angela), Jean-Claude Brialy (Emile), Jean-Paul Belmondo (Alfred). 

    Referência: Godard inteiro ou o mundo em pedaços. Eugênio Puppo e Mateus Araújo. Catálogo da mostra editado pelo Cine Humberto Mauro – Fundação Clóvis Salgado: Belo Horizonte, 2014

  • Cinema olho

    Dziga Vertov foi um dos cineastas mais radicais da chamada vanguarda russa, cujo expoente maior é Sergei Eisenstein. Pioneiro do cinema documentário, Vertov defendia o cinema sem atuação, a responsabilidade dramática de evidenciar questões sociais estaria no poder da câmera em suas mais diversas possibilidades de ângulos, planos e movimentos, conjugados na montagem revolucionária que imprimiu como sua marca documental. 

    Cinema olho é um dos experimentos de seu grupo de jovens cineastas, intitulado Kinoks (Cine-0lhos).  De forma inovadora para a época, o filme transforma em manifesto político o retrato da vida dos moradores de uma pequena vila soviética. Vertov usa técnicas de montagem inventivas para criar um dos filmes mais representativos da sua forma de pensar o cinema. A película registra o cotidiano de pequena aldeia na URSS, centrada em jovens revolucionários que propagam a solidariedade, o uso de cooperativas, desafiando o sistema. No início, cartela alerta: “Primeiro filme realista sem roteiro, sem atores, fora do estúdio.”

    Dividido em episódios, Cinema-Olho começa com a alegre dança das mulheres nas ruas da aldeia, enquanto meninos colam cartazes sobre a cooperativa. A partir daí, a vida cotidiana dos aldeões é retratada em planos e ângulos inusitados, elaboradas fusões e montagem irreverente, em determinados momentos as cenas retrocedem, para mostrar como “O Cinema-Olho faz o tempo andar de trás para a frente.” A dúvida que permanece ainda hoje é: até que ponto o cinema documental pode interferir na realidade, manipulando as imagens com irreverência e ousadia para colocar em pauta o ponto de vista do documentarista. Sem respostas, melhor se extasiar diante do brilhantismo de Dziga Vertov. 

    Cinema olho (Kinoglaz, Rússia, 1924), de Dziga Vertov. 
    Referência: Tudo sobre cinema. Philip Kemp. Rio de Janeiro: 2011.

  • Mulheres de Ryazan

    O filme segue a trajetória de duas jovens dominadas pela sociedade patriarcal na URSS. Os jovens Anna e Ivan se apaixonam à primeira vista, mas Anna alimenta também os desejos do conservador pai de Ivan, rígido fazendeiro que controla a vida de seus filhos. Valisia, também filha do fazendeiro, mantém relacionamento com um pobre ferreiro e confronta o pai para seguir sua vida. É expulsa de casa e luta pela sobrevivência ao lado do marido. A primeira guerra mundial muda o destino das duas mulheres, principalmente de Anna que passa a ser assediada pelo sogro enquanto Ivan está em batalha. 

    Mulheres de Ryazan é denúncia forte contra essa sociedade patriarcal que subjuga as mulheres quase à escravidão. A diretora Olga Preobrazhenskya usa do melodrama para denunciar questões que demarcam a luta feminista. A ousadia da diretora encontra eco na ousada sugestão de estupro e condenação da jovem Anna que passa a ser tachada, após o ato, de “meretriz” pela sociedade, enquanto seu poderoso algoz continua a ser admirado. 

    Mulheres de Ryazan (Baby Ryazanskie, Rússia, 1927), de Olga Preobrazhenskaya. Com Raisa Puzhnaya, Olga Narbekova, Kuzma Yastrebitsky, Yelena Maksimova. 

  • Victoria e Abdul – O confidente da rainha

    Pela segunda vez, Judi Dench interpreta a Rainha Victoria às voltas com amizades com seus ajudantes. Em Sua Majestade, Mrs Brown (1997) a trama versa sobre o relacionamento da rainha com o criado John Brown. Victoria e Abdul – O confidente da rainha coloca em cena o indiano Abdul Karim que chega à corte inglesa para presentear a rainha com artefatos da colônia no Jubileu dos 50 anos de reinado. 

    Abdul ganha as graças da rainha e se torna “munshi”, espécie de professor que abre a mente de Victoria para a cultura indiana e muçulmana. O preconceito é tema central da narrativa, pois os demais integrantes da corte e a própria família da rainha não aceitam a presença do indiano, passando inclusive a investigar sua vida. Judi Dench brilha como sempre, estrela que já marcou seu nome no hall das grandes atrizes de todos os tempos. 

    Victoria e Abdul – O confidente da rainha (Victoria and Abdul, Inglaterra, 2017), de Stephen Frears. Com Judi Dench, Ali Fazal, Eddie Izzard, Olivia Williams.

  • Não devore meu coração

    O cenário é a divisa entre Brasil e Paraguai. Fernando é chefe de gangue de motoqueiros que se confronta nas estradas com a gangue rival dos guaranis. Resquícios da Guerra do Paraguai se vislumbram no sangrento confronto, com direito a mortes nas estradas, tiroteios e corpos boiando na correnteza do rio. 

    A esperança está no irmão de Fernando, Joca, adolescente que se apaixona por Basano, menina paraguaia. O diretor Felipe Bragança compõe fascinante painel destas relações movidas a preconceito, trabalhando com gêneros distintos, como road movie, faroeste, drama romântico e realismo fantástico. A sequência na ponte entre os dois países é tocante. 

    Não devore meu coração (Brasil, 2017) de Felipe Bragança. Com Cauã Reymond (Fernando), Eduardo Macedo (Joca), Adeli Benitez (Basano).

  • Quando o galo cantar pela terceira vez renegarás tua mãe 

    Inácio tem perturbações psicológicas e assume o trabalho de porteiro em prédio na zona sul carioca após a morte de seu pai. Ele mora com a mãe Zaira no mesmo prédio. Na portaria, Inácio passa o tempo bisbilhotando os moradores através das câmeras, até que sente atração por um dos moradores. 

    O título do filme é baseado em uma frase do conto Feliz aniversário, de Clarice Lispector. A narrativa centra o foco no conflito violento entre Inácio e sua mãe. O filho não aceita a morte do pai e despeja sua raiva na mãe que, por sua vez, responde de forma abusiva e também violenta. A trama do filme é previsível e  irreverente montagem final elucida fatos para o espectador. A força está mesmo na interpretação visceral de Fernando Alves Pinto.

    Quando o galo cantar pela terceira vez renegarás tua mãe (Brasil, 2017), de Aaron Salles Torres. Com Fernando Alves Pinto (Inácio), Catarina Abdalla (Zaira), Tião D’Ávilla (Guilherme), Lucas Malvacini (Antonio). 

  • Vampiros de almas

    Duas questões marcaram ideologicamente parte do cinema americano dos anos 50. Primeiro, a guerra fria. A disputa em diversos campos, incluindo a espionagem, envolveu os dois grandes polos mundiais, contrapondo o capitalismo americano e o socialismo soviético. A “ameaça vermelha” virou paranoia para a sociedade americana.

    Segundo, o macarthismo. Na década de 50, o senador Joseph McCarthy  empreendeu violenta campanha nos EUA para combater comunistas supostamente infiltrados em importantes setores da sociedade. Esta caça às bruxas levou centenas de cidadãos aos tribunais americanos, principalmente cineastas, devido ao imenso prestígio que a classe detinha junto à sociedade. Vários cineastas foram impedidos de trabalhar, alguns condenados à prisão.

    Segundo Antonio Costa (Compreender o cinema), em determinados filmes de gênero dos anos 50 “serão evidenciadas as relações entre as temáticas dos gêneros e determinadas linhas de tendências políticas, econômicas etc. Segundo uma exemplificação fornecida por La Polla (1978), podemos notar como o western retrata o modelo do desenvolvimento ‘expansionista e colonialista‘ dos Estados Unidos, enquanto o cinema de ficção será o gênero ‘passível, mais que qualquer outro, de uma leitura política em clave contemporânea durante o macartismo e o perigo vermelho’.”

    No clássico western Matar ou morrer (1952), de Fred Zinnemann, há uma alegoria ao macarthismo. O xerife Will Kane (Gary Cooper) pede ajuda aos moradores da cidade para enfrentar três pistoleiros que vão chegar no trem do meio dia para matá-lo. Um a um, os moradores viram as costas, o xerife foge da cidade, mas volta e resolve enfrentar os pistoleiros, mesmo sabendo que seria vítima fácil. Exatamente o que aconteceu com vários artistas nos tribunais americanos, entregues à própria sorte, delatados e abandonados por amigos, tentando se defender sozinhos. “O filme de Zinnemann é ao mesmo tempo um excelente faroeste de suspense e uma perfeita alegoria do clima de medo e suspeita que prevalecia nos Estados Unidos durante a era McCarthy”. – 1001 filmes para ver antes de morrer.

    Nestas posições ideológicas, Vampiros de almas (Invasion of the body snatchers, EUA, 1956), de Don Siegel. tem uma singularidade: a dupla leitura. A história se passa em uma cidadezinha do meio-oeste americano.  Quando o Dr. Miles Bennell (Kevin McCarthy) retorna à cidade, é procurado por alguns de seus pacientes. Eles relatam que parentes próximos são impostores, estão possuídos. Gradativamente, os moradores da cidade passam por transformações psicológicas, perdem as emoções, andam em grupos como autômatos.

    Na verdade,  alienígenas estão incubados em uma espécie de vagem e tomam os corpos dos moradores. Analogia ao vírus do comunismo que paira no ar como uma ameaça e pode transformar os cidadãos em vegetais.

    A sequência final deixa em aberto outra especulação ideológica. O Dr. Miles, último sobrevivente do vírus, corre da multidão pela cidade. Esconde-se em uma mina abandonada, vê sua namorada ser tomada pelos alienígenas, continua correndo até conseguir sair da cidade e entrar em uma rodovia no meio de centenas de carros. É noite, Miles se desvia dos carros, gritando por socorro, até que se volta para a câmera e grita “você é o próximo”.

    A ameaça vermelha e o macarthismo, duas paranoias que chegaram ao limite da criminalidade oficial, se confundem em Vampiros de Almas, este clássico da ficção científica.

    “Apesar do clima de filme B, a obra de Siegel – baseada no romance de Jack Finney – está menos interessada em respeitar as convenções da ficção científica do que em dramatizar os perigos do conformismo social e a ameaça de invasão que pode vir tanto de fora quanto de dentro da própria comunidade.”  – 1001 filmes…

    Referências:

    Compreender o cinema. Antônio Costa. São Paulo: Globo, 1989

    1001 filmes para ver antes de morrer. Jay Schneider (org.). Rio de Janeiro: Sextante, 2008

  • A dama de Shanghai

    A dama de Shanghai (The lady from Shanghai, EUA, 1948) abre com voz em off do marinheiro Michael (Orson Welles) narrando seu primeiro encontro com a bela e sedutora Elsa Bannister (Rita Hayworth), durante um passeio noturno no Central Park. São os indícios da experimentação de Orson Welles pelo universo do filme noir: narração em primeira pessoa, fotografia noturna das cidades, a sedutora mulher fatal que envolve o amante com propósitos criminosos.

    “Com um sotaque irlandês titubeante, Welles é um marinheiro contratado por um advogado aleijado (Everett Sloane, sórdido e assustador) para trabalhar em seu iate e talvez também (como no enredo preservado por Welles em Uma história imortal – 1968) prestar serviços à sua bela esposa. Um assassinato ocorre, seguido por um julgamento em que todos agem de forma no mínimo antiética, e um caleidoscópio louco é despedaçado por um clímax envolvendo um tiroteio numa sala de espelhos. A dama de Shanghai, como filme, é um espelho despedaçado, com fragmentos de genialidade que jamais poderão ser juntados para formar algo que faça sentido.”

    Rita Hayworth, de cabelos curtos, está deslumbrante em cada close, em cada ângulo ousado de Orson Welles: tomando sol no iate, cercada pelos três homens que a desejam, pulando de uma rocha para o banho de mar, a luz do cinema noir refletindo em seu rosto quando finge amor, tristeza, desolação. Para completar, a antológica sequência final na sala de espelhos, quando o confronto entre Elsa e Arthur é pontuado por estilhaços de vidros, a imagem da femme fatalle se despedaçando para logo em seguida se reconstituir em um novo reflexo, como a própria Rita Hayworth.

  • Na teia do destino

    Não espere os cânones do gênero neste revigorante filme noir de Max Ophuls. “Os gêneros são cercados de convenções. É o que fazem. É por isso que os amamos. Mas, quando transcendem essas convenções, levam você a considerações e a reflexões sobre as questões psicológicas e morais que despertam. Aí, tornam-se grandes.”

    Essa análise de Richard Schickel, crítico e historiador, se aplica com perfeição à Na teia do destino. Lucia Harper (Joan Bennett) tenta proteger sua filha adolescente da sedução de um atraente mafioso de Los Angeles. Ao descobrir as verdadeiras intenções do namorado, ele quer extorquir dinheiro da família, a jovem provoca acidentalmente a morte do canalha, em uma noite de tempestade. Lucia descobre o cadáver e tenta encobrir o assassinato. No entanto, entra em cena o irlandês Martin Donnelly (James Mason), outro mafioso, que, a serviço de seu chefe, passa a chantagear Lucia. 

    A reviravolta da trama, consequentemente do gênero, acontece quando o irlandês se apaixona por Lucia. A tradicional femme fatale, presente em várias narrativas noir, agora age por causas nobres, provocando a tentativa de redenção do bandido apaixonado. 

    Debates éticos permeiam o filme, como adultério, um inocente que pode ser condenado por um crime que não cometeu mas, que, segundo Donnelly vai pagar pelos outros crimes. Joan Bennett é a grande estrela do filme, sua personagem destila charme em cada cena, mesmo nas mais aflitivas, incentivando, talvez inconscientemente, as investidas do irlândes amargurado, capaz de qualquer sacrifício para salvar sua amada. É a transcendência das convenções em um filme belo, triste e sedutor.  

    Na teia do destino (The reckless moment, EUA, 1949), de Max Ophuls. Com Joan Bennett, James Mason, Geraldine Brooks.

  • A sorridente Madame Beudet

    Madame Beudet está enclausurada em um casamento monótono, representação da sociedade que relega a mulher ao papel de dona de casa amorosa, cuja obrigação é sentir-se feliz diante da vida confortável proporcionada pelo casamento. Cada vez mais triste e deprimida, Madame Beudet enseja sua única possibilidade de libertação: a morte do marido.

    A diretora Germaine Dulac fez parte do círculo de cineastas experimentais da última década do cinema mudo, reunidos em torno do movimento denominado impressionismo francês. Seus filme buscavam ao mesmo tempo a poesia das imagens e a representação da opressão feminina, sendo por isso considerada uma das primeiras autoras do cinema feminista.

    “O elemento mais cativante de A sorridente Madame Beudet é composto pelas elaboradas sequências de sonho em que a dona de casa do título (Germaine Dermoz) fantasia uma vida fora dos limites da sua existência monótona. Usando efeitos especiais radicais e técnicas de montagem, Dulac incorpora alguns dos elementos estéticos de vanguarda da época para contrastar o poder feminino rico e vigoroso da vida imaginária de madame Beudet com o tédio da rotina compartilhada com seu marido (Alexandre Arquillière).” 

    A sorridente Madame Beudet (La souriante Madame Beudet, França, 1923), de Germaine Dulac. Com Germaine Dermoz, Alexandre Arquillère, Jean D’yd.

  • O rei dos elfos

    O filme abre com a descrição em prosa do célebre poema de Goethe, O rei dos elfos. Corta para um homem à cavalo levando o filho doente nos braços. Ele precisa chegar à cidade o mais rápido possível, mas seu cavalo não resiste e cai por terra. Pai e filho encontram abrigo em uma casa, conseguem um cavalo e cavalgam pela estrada até adentrar, à noite, a floresta. 

    A partir daí, a trama ganha o tom assombrado, baseado no poema de Goethe. O rei dos elfos emerge das sombras, junto com suas fadas, e persegue o garoto. A diretora Marie-Louise Iribe, também atriz, uma das pioneiras do cinema francês, recria com efeitos visuais o visual místico da floresta, onde vivem seres fantasmagóricos comandados pelo assustador rei que sequestra a alma das crianças. Realizado logo no início do cinema sonoro, a película traz a força da narrativa visual, com frases curtas  entre a criança e seu pai, reproduzidas do poema. O final triste, já anunciado na balada de Goethe, deixa o espectador entre os sentimentos de beleza e melancolia, ciente que está diante de um filme que une várias referências artísticas.  

    O rei dos elfos (Les roi des aulnes, França, 1931), de Marie-Louise Iribe. Com Otto Gebuhr, Joe Hamman, Mary Costes, Rosa Bertens.  

  • As aventuras do Sr. Hulot no trânsito louco

    Mais uma vez, Jacques Tati centra suas lentes críticas e irônicas na direção da modernidade, agora o alvo são os automóveis. Em entrevista, o diretor disse que pensou no filme observando como a personalidade das pessoas muda quando estão dentro de seus carros. Depois do lançamento do filme, Tati inclusive se juntou a grupos ativistas em passeios de bicicletas para protestar contra a invasão dos carros nas cidades, em detrimento de pedestres. 

    A crítica é o pretexto para as divertidas gags protagonizadas pelo Sr. Hulot em meio ao trânsito louco. A marca visual de Jacques Tati continua inovadora, em sequências que reforçam o poder das imagens no cinema, com destaque para a série de acidentes de carros em um cruzamento e a composição estética dos carros em uma tarde de chuva, quando motoristas e passageiros se integram ao movimento dos limpadores de pára brisas. 

    As aventuras do Sr. Hulot no trânsito louco (Trafic, França, 1971), de Jacques Tati. Com Jacques Tati, Maria Kimberly, François Maison Grosse.