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  • Histórias que nosso cinema (não) contava

    Um dos momentos de maior bilheteria do cinema brasileiro é a pornochanchada, gênero que marcou os anos 70 e início da década de 80. Fernanda Pessoa fez intensa pesquisa, assistindo e coletando material de filmes que iam além da ousadia sexual travestida de comédia.

    A montagem do documentário é um primor. Sem narração ou depoimentos, sequências dos filmes se sucedem, separadas por temas: tortura perpetrada pela ditadura, consumismo nestes anos do milagre econômico, exploração do corpo feminino, violência contra a mulher, machismo, preconceito racial, homossexualismo, corrupção política. Muitos filmes da pornochanchada foram censurados pelo regime militar. Outros conseguiram inserir em meio a narrativas despretensiosas questões determinantes para a formação da sociedade brasileira. Fernanda Pessoa resgata a pornochanchada como gênero e como resistência política.  

    Histórias que nosso cinema (não) contava (Brasil, 2017), de Fernanda Pessoa. 

  • Yonlu

    YonluFerrugem e Torquato Neto – Todas as horas do fim compõem filmes do cinema contemporâneo brasileiro que colocam tema tabu em discussão: o suicídio entre jovens. Enquanto Ferrugem é puramente ficcional, Torquato Neto documenta a carreira do poeta/letrista que participou da tropicália. Yonlu parte de um caso real: em 2006, Vinícius Gageiro Marques, 16 anos, se matou em sua casa, em Porto Alegre. O jovem fazia parte de grupos virtuais de jovens que sofriam com a depressão. Ele filmou e transmitiu on-line seu ato final.

    O diretor Hique Montanari faz escolhas estéticas ousadas para recriar os problemas enfrentados pelo jovem. Vinícius era músico, poeta, artista promissor que depois da morte teve várias músicas gravadas. A narrativa usa as músicas para compor o perfil psicológico de Yonlu, provoca interações da animação e do grafismo em momentos de devaneio e coloca atores mascarados em cena com Yonlu para recriar fisicamente o mundo virtual do qual fazem parte os personagens. Um psicólogo, em entrevista a jornalista, explica didaticamente os problemas enfrentados por Vinícius e jovens no mesmo estado. O filme toca em tema polêmico com ousadia e sensibilidade.  

    Yonlu (Brasil, 2017), de Hique Montanari. Com Thalles Cabral, Nelson Diniz, Lorena Lorenzo, Leonardo Machado, Liane Venturella. 

  • Baronesa

    A interseção entre documentário e ficção é tendência do cinema brasileiro. A diretora Juliana Antunes exercita o estilo em Baronesa, projeto que começou como um documentário quando ainda estudava Cinema e Audiovisual e enveredou para relatos ficcionais envolvendo personagens da periferia de Belo Horizonte. 

    Andreia mora no bairro Juliana, mas está construindo uma casa no vizinho Baronesa (Juliana Antunes relata que a ideia do filme começou da observação do transporte público de Belo Horizonte, pois diversos bairros trazem nomes femininos). Leid, amiga de Andreia, cuida dos filhos enquanto espera o marido sair da cadeia. As filmagens aconteceram em locações, com moradoras do próprio bairro que improvisaram situações e diálogos. A câmera assume posição íntima das personagens, registrando imagens do cotidiano e diálogos coloquiais sobre criação dos filhos, sexo, questões sociais. Em determinada sequência, tiros invadem o som ambiente, equipe de filmagem e personagens correm para dentro da casa. Neste momento das filmagens aconteceu um tiroteio no bairro, conflito de duas gangues do tráfico rivais. Está no filme. É a força de Baronesa: o registro do cotidiano de mulheres da periferia, envolvidas pelos dramas e tragédias da realidade. 

    Baronesa (Brasil, 2017), de Juliana Antunes. Com Andreia Pereira de Sousa, Leid Ferreira, Felipe Rangel Soares. 

  • O animal cordial

    Inácio é, aparentemente, o tranquilo dono de um restaurante em São Paulo. Uma noite, perto da hora de fechar, três homens invadem o estabelecimento em tentativa de assalto. O que se segue é das mais impressionantes incursões do cinema brasileiro pelo gênero slasher.

    A diretora estreante Gabriela Amaral Almeida reúne personagens dentro do restaurante que representam a tensão de classe, de gênero e outras facetas escondidas da população brasileira. A explosão gradual de Inácio (preste atenção na brilhante cena de Murilo Benício em frente ao espelho e na incrível cena de sexo no chão do restaurante) resulta em sangue para todos os lados. Ninguém é poupado. O animal cordial demonstra a força do cinema brasileiro nas mãos das diretoras.  

    O animal cordial (Brasil, 2017), de Gabriela Amaral Almeida. Com Murilo Benicio, Luciana Paes, Irandhir Santos, Camila Morgado, Ernani Moraes. 

  • Quando as luzes das marquises se apagam

    O documentário começou como trabalho de conclusão do curso do diretor Renato Brandão quando estudava Cinema e Audiovisual na Escola de Comunicação e Artes da USP. As pesquisas abordaram o apogeu dos cinemas de rua em São Paulo, situados em torno das Avenidas Ipiranga e São João. As diversas salas na mesma região ficaram conhecidas como Cinelândia Paulista. 

    Depoimentos relembram os tempos áureos dos cines Broadway, Ópera, Regina, Saci, Avenida, Marrocos, Jussara, República, Ritz, entre outros. Participam do documentário personagens como Ignácio de Loyola Brandão, José Moreira, Inimá Santos, Paula Freire Santoro, Máximo Barro, Carlos Augusto Calil e o empreendedor do ramo de cinemas Francisco José Luccas Netto.  

    Como em outras metrópoles, as salas da Cinelândia Paulista deram lugar a cinemas eróticos, estacionamentos, igrejas, lojas de varejo. A resistência fica por conta do Marabá, única sala que permanece funcionando no circuito comercial. 

    Quando as luzes das marquises se apagam – A história da Cinelândia Paulista (Brasil, 2018), de Renato Brandão. 

  • Mulheres alteradas

    Os quadrinhos da argentina Maitena foram adaptados primeiro para o teatro no Brasil, depois para as telas. A narrativa acompanha os conflitos cotidianos de quatro jovens mulheres. Keka está em crise no casamento e pede férias no trabalho para viajar com o marido e tentar salvar o casamento. Leandra está cansada das baladas e tira uma noite para cuidar dos filhos de sua irmã Sônia, que por sua vez aproveita para se esbaldar em uma boate sem o marido, com direito a experiências sexuais. A workaholic Marinatti precisa agarrar a oportunidade de um grande caso no escritório de advocacia em que trabalha para subir na carreira. Tudo dá errado quando conhece um pretendente na noite. 

    A comédia escrachada tem como ponto forte as protagonistas femininas. Estão no filme importantes debates por trás das situações hilárias, associados aos conflitos entre trabalho, família, relacionamentos. Alessandra Negrini domina a película.  

    Mulheres alteradas (Brasil, 2018), de Luís Pinheiro. Com Deborah Secco (Keika), Alessandra Negrini (Marinatti), Monica Iozzi (Sônia), Maria Casadevall (Leandra), Daniel Boaventura (Christian), Sergio Guizé (Dudu).

  • Mormaço

    A narrativa abre com imagem de Ana deitada na pedra ao sol, em uma cachoeira. Corta para imagens de explosões de obras, preparando a cidade para as Olimpíadas do Rio de Janeiro 2016. Cortina de fumaça invade as ruas, Ana é envolta pela densa e sufocante onde de calor e sujeira. 

    As cenas de abertura determinam o tom do filme: o calor do Rio associado às obras das Olimpíadas provocam ondas de revoltas. Ana é advogada e defende causa popular dos moradores da Vila Autódromo, despejados por conta da construção da Vila Olímpica. Ela mora em prédio que também está em vias de abandono pelos moradores, pois hotel de luxo será construído no local. Manchas começam a aparecer na pele da advogada sem diagnóstico preciso pelos médicos. 

    Mormaço debate os problemas decorrentes do megaprojeto olímpico, colocando em pauta o agressivo plano de desocupação de moradores. A degradação da cidade e das pessoas é indicada através de metáforas visuais e narrativas. Atenção para a triste imagem dos desocupados arrastando seus pertences na calçada em frente ao Estádio Olímpico.  

    Mormaço (Brasil, 2018), de Marina Meliande. Com Mariana Provenzzano (Ana), Paulo Gracindo (Pedro), Analú Prestes (Rosa), Sandra Maria Teixeira (Domingas).  

  • Como nossos pais

    Rosa (Maria Ribeiro) representa as angústias de grande parte das mulheres na contemporaneidade. Perto dos 40 anos, ela enfrenta problemas no casamento, frustrações no trabalho, convive com dilemas de relação com as filhas adolescentes, cuida dos pais idosos. A mãe sofre com doença terminal e faz revelação bombástica sobre a paternidade de Rosa, provocando reviravoltas nos caminhos da protagonista.

    Como nossos pais é o retrato dos problemas que assolam famílias de classe média: conflitos entre gerações, desconfianças e infidelidades conjugais, frustrações profissionais, machismo, liberdades sexual, abandono dos pais. Rosa faz refletir sobre o papel da mulher em meio a tudo isto, afirmando o protagonismo feminino – Laís Bodanzky na direção, Maria Ribeiro como protagonista – na recente produção do cinema brasileiro. 

    Como nossos pais (Brasil, 2017), de Laís Bodanzky. Com Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena, Felipe Rocha, Jorge Mautner, Herson Capri. 

  • Bingo, o rei das manhãs

    O cinema brasileiro se debruçou com louvor sobre personagens que fizeram a história da nossa televisão, da nossa cultura pop. Hebe – A estrela do Brasil (2019), Chacrinha – O velho guerreiro (2018) e Bingo: o rei das manhãs (2017) recriam parte da biografia de ícones da telinha. 

    Vladimir Brichta interpreta Arlindo Barreto, mais famoso intérprete do palhaço Bozo no programa que encantou as crianças na década de 80. Por contrato, Arlindo Barreto não podia revelar a identidade por trás do palhaço. A narrativa acompanha sua obsessão em busca da fama, tentando bater no ibope uma certa rainha dos baixinhos e provar a si mesmo e aos executivos seu talento. Na vida pessoal, são retratados seus dramas pessoais com o filho, que se sente abandonado, seu envolvimento com mulheres, álcool e drogas. 

    Os bastidores da criação de programas na crescente indústria televisiva da época, movida a números do ibope, revelam a cruel pressão a que são submetidos os artistas. Vladimir Brichta é destaque do filme, entregando um personagem engraçado, tenso, deprimente. 

    Bingo: o rei das manhãs (Brasil, 2017), de Daniel Rezende. Com Vladimir Brichta, Leandra Leal, Tainá Muller, Augusto Madeira, Ana Lúcia Torre. 

  • O segredo de Davi

    Davi é jovem estudante de cinema cujo voyeurismo se traduz no hábito de filmar pessoas às escondidas. Tem aparência angelical, gestos delicados, falas comedidas, mas se transforma ao cometer o primeiro assassinato: sua vizinha Mara, que reaparece a partir daí, provocando o instinto violento de Davi que comete outros crimes. 

    O primeiro longa do diretor Diego Freitas segue a tendência de lançamento de bons gêneros no cinema nacional, a exemplo de As boas maneiras e O animal cordial. O ponto forte da película é o apuro estético, com sequências estilísticas nas incursões do personagem pela noite paulistana.

    O segredo de Davi (Brasil, 2018), de Diego Freitas. Com Nicolas Prattes (Davi), Neusa Maria Faro (Maria), André Hendges (Jônatas), Bianca Muller (Dóris).    

  • Lino

    A tecnologia digital provocou reviravolta na história da animação brasileira. Os curtas-metragens invadem as telas favorecidos pelo Anima Mundi. As crianças finalmente conseguem assistir a animações de longa-metragem com mais regularidade (até os anos oitenta foi produzido apenas um longa de animação no Brasil). O estúdio de animação Start Anima já lançou O grilo feliz (2001), O grilo feliz e os insetos gigantes (2009) e Lino, delicioso imbricamento entre o mundo humano e animal. 

    Lino trabalha como animador de festas infantis, vestido de gato. No início da narrativa, relata em primeira pessoa sua inacreditável tendência ao azar. É o típico loser, sem esperança, sem perspectivas. Ele se envolve com um mago que o transforma em gato gigante. O sucesso é imediato, Lino passa de azarão a celebridade. 

    Selton Mello empresta sua voz ao gato. As trapalhadas de Lino envolvem tentativa de voltar ao corpo humano, toques de romance e trama policial. Diversão garantida.  

    Lino (Brasil, 2017), de Rafael Ribas.

  • Corpo elétrico

    O jovem paraibano Elias trabalha em uma confecção de roupas. A rotina de Elias se divide entre o trabalho e a aspiração de ser estilista e as noitadas com amigos, quando se entrega à busca por amantes. 

    O diretor Marcelo Caetano segue tendência do cinema brasileiro contemporâneo: câmera na mão próxima dos personagens, acompanhado com naturalidade momentos rotineiros no trabalho, a caminhada pelas ruas, documentário e ficção se alternando no estilo de captação e montagem. Marcelo Caetano diz que desconstruiu o roteiro, deixando a improvisação fluir, tanto no processo de filmagem quanto de interpretação dos atores. A simplicidade do final revela a força deste cinema/retrato da vida que flui diante das câmeras. 

    Corpo elétrico (Brasil, 2017), de Marcelo Caetano. Com Kelner Macêdo, Lucas Andrade, Welket Bungué, Ronaldo Serruya, Ana Flavia Cavalcanti, Linn da Quebrada.

  • João, o maestro

    Depois de Tim Maia (2013), o roteirista e diretor Mauro Lima traz às telas a história do pianista e maestro João Carlos Martins. Rodrigo Pandolfo e Alexandre Nero interpretem com densidade o músico, reconstituindo a complexidade da vida do homem que se entregou completamente à música. 

    A narrativa segue a cronologia básica de cinebiografias: da infância à maturidade, destacando pontos pessoais e profissionais da carreira de João Martins. O lado pessoal é pouco explorado, o forte do filme é a evolução do músico, primeiro como pianista, depois como maestro, caminho seguido quando João é diagnosticado com doença nas mãos. O destaque da película são as reconstituições das interpretações musicais, dos concertos, primor visual e sonoro que praticamente coloca o espectador dentro dos teatros.   

    João, o maestro (Brasil, 2016), de Mauro Lima. Com Alexandre Nero, Rodrigo Pandolfo, Caco Ciocler, Alinne Moraes, Fernanda Nobre. 

  • Malasartes e o duelo com a morte

    Jesuíta Barbosa vive o lendário Pedro Malasartes, personagem do folclore que ganhou fama nas mãos de Mazzaropi. Na comédia de Paulo Morelli, Malasartes tem que fazer das suas trapaças para ludibriar um devedor – Próspero, irmão de sua namorada. No entanto, seu talento como trapaceiro aparece mesmo quando se defronta com a morte, que quer fazer de Malasartes seu substituto. A narrativa alterna ações de aventura e comédia em dois planos: o reino dos vivos e dos mortos. 

    Não espere muito do roteiro, é aventura despretensiosa com toques de comédia, Jesuíta Barbosa na pele do matuto desfila talento. O ponto forte do filme são os efeitos especiais, cerca de 50% das cenas foram geradas digitalmente, caminho que o cinema brasileiro trilha, investindo cada vez mais nos gêneros fantasia e sobrenatural. 

    Malasartes e o duelo com a morte (Brasil, 2017), de Paulo Morelli. Com Jesuíta Barbosa, Milhem Cortaz, Isis Valverde, Julio Andrade, Leandro Hassum. 

  • No intenso agora

    A força do cinema de João Moreira Salles está nas reflexões, traduzidas em textos poéticos, que ele faz sobre as imagens. Em Santiago (2007), o documentarista volta à infância e à família através do retrato do fascinante mordomo. No intenso agora (2017) também parte de memórias: João Moreira Salles encontrou registros feitos por sua mãe de uma viagem à China na época da revolução cultural, na década de 1960.

    O documentário é uma colagem de imagens. Entram sucessão de fotos da China de Mao-Tsé Tung, dos estudantes nas ruas de Paris em maio de 68, da Primavera de Praga na antiga Tchecoslováquia, das ruas do Brasil durante a ditadura militar.

    O belo texto pontua de forma pessoal, às vezes apaixonada, outras vezes refletindo o desencanto pelos rumos tomados. Em diversos momentos o silêncio é mais forte do que tudo. Os documentários de João Moreira Salles são assim: apaixonados, pessoais; por isso mesmo profundamente reais.

    No intenso agora (Brasil, 2017), de João Moreira Salles.

  • A gente

    Aly Muritiba trabalhou como agente penitenciário no Paraná. A experiência serviu de inspiração para a Trilogia do cárcere, composta por dois curta-metragens, A fábrica (2011), Pátio (2013) e o longa A gente. O filme, misturando estilos do documentário e da ficção, foi realizado no presídio onde Aly Muritiba trabalhou, em São José dos Pinhais, na Grande Curitiba. 

    A narrativa segue o cotidiano de equipe de agentes penitenciários, liderados por Jefferson Walku. Conflitos rotineiros são retratados, como a tensão no trato com os presidiários, falta de condições de trabalho, superlotação das celas, ausência de estrutura para os trabalhadores e falta de condições dignas para os presos. O ponto de vista escolhido pelo diretor é dos agentes, os presos não aparecem, o espectador ouve apenas suas vozes ou os vê à distância. Quando a câmera sai da prisão, acompanha a rotina pessoal de Jefferson em família ou atuando como pastor em igreja evangélica. Aly Muritiba exercita o estlo doc/fic com potência narrativa, demonstrando a força dos novos realizadores do cinema brasileiro contemporâneo.  

    A gente (Brasil, 2013), de Aly Muritiba. Com Jefferson Walku, Tiago Simioni Andreatta, Manassas da Silva, Ivanney Montenegro.

  • As duas Irenes

    A clássica história do caixeiro viajante dá origem a uma instigante narrativa. Tonico trabalha viajando pelo interior. Tem duas famílias em cidades vizinhas, duas filhas de 13 anos em cada família com o mesmo nome: Irene. Irene de Mirinha descobre o segredo do pai e começa a se relacionar com a outra Irene, sem que ela saiba.

    A amizade entre as irmãs ganha o belo contorno das descobertas da adolescência. A época é indefinida mas ainda não existem os smartphones e os massacres das redes sociais. As duas Irenes vivem o cotidiano da vida do interior, em praças, coretos, cinema. O contraponto é o perigoso mundo adulto, Tonico vive no limite com suas mulheres, com as filhas. Uma virada de roteiro encaminha o filme para um final carregado de metáforas, quando as personalidades podem se confundir.  

    As duas irenes (Brasil, 2017), de Fabio Meira. Com Priscila Bittencourt (Irene de Mirinha), Isabela Torres (Isabela de Neuza), Marco Ricca (Tonico), Suzana Ribeiro (Mirinha), Inês Peixoto (Neusa), Teuda Bara (Madalena). 

  • Bacurau

    O cenário é uma cidadezinha no meio do sertão nordestino. O tempo, futuro indefinido. Teresa está na boleia de um caminhão ao lado do motorista. Passam por caixões jogados na estrada, caídos de outro caminhão, por uma represa abandonada, chegam à Bacurau, onde acontece o funeral da velha Carmelita. Depois do enterro, dois motoqueiros chegam à cidade e partem em seguida. A partir daí, estranhos acontecimentos assolam os moradores: a cidade desaparece do mapa, drone em forma de disco voador sobrevoa a estrada, família de colonos é encontrada assassinada. 

    A sinopse demonstra as influências da película do premiado diretor Kleber Mendonça Filho (O som ao redorAquarius), dessa vez contando com a co direção de Juliano Dornelles: o clássico gênero faroeste americano aliado ao faroeste do sertão recheado de ideologias de Glauber Rocha, além de filmes de futuros distópicos ao estilo Mad Max. Quando entra em cena o grupo de caçadores humanos liderados por Michael, pode-se enxergar também referências ao Predador. Nesse ambiente caótico, acontecem confrontos violentos, colocando os pistoleiros Lunga e Michael em planos opostos. A leitura ideológica coloca também em planos opostos classes distintas, a elite voraz e sanguinária mirando a gente pobre do sertão. Resta aos oprimidos a mesma violência, todos de armas em punho, destino eterno da sociedade que vive sempre à beira da guerra civil.  

    Bacurau (Brasil, 2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Com Barbara Colen, Sônia Braga, Karine Telles, Udo Kier, Silvero Pereira. 

  • Gosto se discute

    chef Augusto é dono de restaurante e se vê diante de diversos problemas. Um ex-funcionário monta um food truck na porta de seu estabelecimento, roubando a freguesia. Cristina é designada pelo banco credor de Augusto como auditora, assume a direção do restaurante exigindo diversas mudanças, inclusive no cardápio. Para completar, o chef perde o paladar.  

    Gosto se discute aproveita a ascensão da gastronomia para compor narrativa com toques de comédia romântica. O confronto entre Augusto e Cristina assume os clichês das brigas e flertes do gênero. Os diálogos entre Augusto e o Dr. Romualdo são o melhor do filme. 

    Gosto se discute (Brasil, 2017), de André Pellenz. Com Cássio Gabus Mendes (Augusto), Kéfera Buchmann (Cristina), Gabriel Godoy (Patrick), Paulo Miklos (Dr. Romualdo).

  • Pendular

    Casal formado por artista plástico (Rodrigo Bolzan) e dançarina (Raquel Karro) vai morar em um galpão com a intenção de fazer das instalações ao mesmo tempo moradia e espaço para intervenções artísticas. A narrativa mistura dramas cotidianos do casal, incertos ante a possibilidade de terem filhos, com experimentações artísticas. As intervenções artísticas de Rodrigo Bolzan compõe com potência o cenário do filme. No entanto, o fascínio fica por conta da dançarina. Raquel Karro interage com as experimentações do marido e com o grande espaço do ambiente em números de dança solitários e fascinantes. 

    Pendular (Brasil, 2017), de Júlia Murat. Com Raquel Karro, Rodrigo Bolzan, Valeria Barreta, Renato Linhares.