A relação entre cinema e televisão no Brasil dá o tom da segunda adaptação do clássico romance de Jorge Amado. Além dos atores globais, o diretor Pedro Vasconcelos também se criou na direção de novelas. A história é mais do que conhecida, principalmente depois da antológica adaptação protagonizada por Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça.
Agora, Juliana Paes destila erotismo no papel de Flor, mas Marcelo Faria rouba as cenas quando volta do além pelado para provocar a mulher. O ponto fraco é Leandro Hassum, pois Teodoro exige uma interpretação contida o que não combina com o ator. As ousadas cenas eróticas provocam o espectador que, mais uma vez, se entrega aos prazeres deste irreverente triângulo amoroso.
Dona Flor e seus dois maridos (Brasil, 2017), de Pedro Vasconcelos. Com Juliana Paes (Flor), Marcelo Faria (Vadinho), Leandro Hassum (Teodoro).
Deslembro trata com sensibilidade da história recente do Brasil que o atual governo insiste em negar: a ditadura militar. A adolescente Joana vive em Paris com a mãe e reluta em voltar ao Brasil após a anistia política. No Rio de Janeiro, ela conhece a avô Lucia e passo a passo vai se entregando as memórias de criança, quando o pai vivia na clandestinidade e acabou preso pelos militares. Foi considerado desaparecido, seu corpo nunca foi encontrado. Um fato atesta a crueldade desta condição: a turma escolar de Joana vai participar de excursão a Ouro Preto; a garota precisa da autorização dos pais, mas como não tem o atestado de óbito do pai é impedida de viajar.
A narrativa parte das próprias memórias da diretora Flávia de Castro. Em 1972, seus pais tiveram que deixar o Brasil, história retratada no documentário Diário de uma busca (2011). A fotografia é dos pontos de destaque de Deslembro. Em Paris as cores são vibrantes, no Rio de Janeiro a fotografia ganha um tom frio; o tratamento da imagem também remete ao cinema dos anos 70/80. Jeanne Boudier faz sua estreia como atriz, tratando a personagem com as dubiedades próprias da adolescência: revolta, compreensão; carinho e raiva pelos familiares; deslumbre com o novo país, com a descoberta da sexualidade. O tom político ganha força com o padastro chileno e, principalmente, nas memórias da avó Lúcia sobre o filho desaparecido.
Deslembro (Brasil, 2018), de Flávia Castro. Com Jeanne Boudier (Joana), Sara Antunes (mãe), Eliane Giardini (Lúcia).
A comédia romântica segue os passos de Antônio, após tomar fora da namorada. Ele tenta retomar a vida com naturalidade, mas sofre com a perda e solidão e se entrega a tentativas de se reencontrar e encontrar novos relacionamentos.
O roteirista e diretor Pedro Coutinho insere na trama situações cômicas que trazem também reflexão sobre a busca incessante da juventude. Terapia, antidepressivos, relações pelas redes sociais como Tinder, festinhas regadas a álcool e relacionamentos fortuitos. O tom cômico ganha força nas sessões de terapia de Antônio; a terapeuta diverte com seus dilemos sobre sexo.
Todas as razões para esquecer (Brasil, 2018), de Pedro Coutinho. Com Johnny Massaro (Antônio), Bianca Comparato (Sofia), Regina Braga (Elisa).
No final do filme, lettering anuncia: “Júlio Santana assumiu ter assassinado 492 pessoas. Nunca foi julgado ou condenado por seus crimes. Ele esteve preso uma única vez, mas foi solto no dia seguinte. Atualmente, Júlio e a mulher vivem num sítio no interior do Brasil. Sempre que tem pesadelos, ele reza dez Ave-Marias e vinte Pais-Nossos.”
Baseado no livro O nome da morte, de Klester Cavalcanti, o filme narra a trajetória de Júlio Santana pelo mundo dos assassinos de aluguel. No início, ele vive no interior de Goiás, em pequena propriedade ao lado dos pais e irmãos. Leva vida pacata até que o tio, policial, convence Júlio a entrar para a polícia – na verdade, fachada para uma máfia de assassinos da qual o tio faz parte.
A trama abre espaço para os conflitos do protagonista à medida que se entrega ao seu destino de matador. A relação com a esposa é outro aspecto interessante, pois uma intrigante elipse revela que conforto e dinheiro podem ser decisivos para transformações de personagens.
O nome da morte (Brasil, 2017), de Henrique Goldman. Com Marco Pigossi (Júlio), André Mattos (Cícero), Gillray Coutinho (Santos), Fabíula Nascimento (Maria).
A trama descosturada do filme se passa em um país africano do qual não sabemos o nome. No entanto, as maquinações ideológicas dos personagens apontam para países que conhecemos da África, da América do Sul, Central e de outros recantos. O país é governado por um homem aparentemente germânico que tem como aliados na exploração da população um agente americano, um comerciante português e Marlene, uma loura idolatrada pela população. Um padre branco transita por todos, oscilando entre a apatia e o ódio brutal. A resistência está personificada no líder rebelde que lembra Che Guevara e no negro chamado Zumbi.
O primeiro filme de Glauber Rocha após o exílio durante a ditadura militar brasileira contou com financiamento francês e apresentou ao mundo a verve rebelde, avessa à narrativa convencional deste que ainda é o maior diretor brasileiro de todos os tempos.
“Deliberadamente esquemática, a intriga mobiliza personagens que encarnam agentes históricos da colonização africana sem ganharem espessura psicológica. Suas sequências quase autônomas se alternam com cenas de dança tradicional dos autóctones que interrompem o fio narrativo e afirma a força das culturas africanas. O filme inteiro se constrói por contraposições entre relato e dança, política e mito, colonizador e colonizado, indivíduo e coletividade. Rocha soube explorar nas filmagens a diversidade do elenco, em que atores de prestígio (Léaud, Rassimov, Carvana) interagem com não profissionais e pessoas comuns do Congo. Se a língua francesa predomina no som, ouvem-se também falas ou cantos em inglês, português, alemão e em língua local. Vários idiomas convivem também no título original ‘Der leone have sept cabeças’, que remete aos países colonizadores da África (Alemanha, Itália, Inglaterra, França, Portugal, Bélgica, Holanda) mas sugere, no desacordo gramatical entre sujeito e verbo, que o Leão da história é plural – designa o colonizador com suas sete vidas, mas também o colonizado, igualmente tenaz.” – Mateus Araújo
O leão de sete cabeças (Der leone have sept cabezas, França/Brasil, 1971), de Glauber Rocha. Com Rada Rassimov (Marlene), Giulio Brogi (Pablo), Hugo Carvana (Português), Jean-Pierre Léaud (Padre), Gabriele Tinti (Agente americano).
Referência: Glauber Rocha. O leão de sete cabeças. Coleção Folha Grandes Diretores no Cinema. Mateus Araújo Silva e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018
O cenário é a divisa entre Brasil e Paraguai. Fernando é chefe de gangue de motoqueiros que se confronta nas estradas com a gangue rival dos guaranis. Resquícios da Guerra do Paraguai se vislumbram no sangrento confronto, com direito a mortes nas estradas, tiroteios e corpos boiando na correnteza do rio.
A esperança está no irmão de Fernando, Joca, adolescente que se apaixona por Basano, menina paraguaia. O diretor Felipe Bragança compõe fascinante painel destas relações movidas a preconceito, trabalhando com gêneros distintos, como road movie, faroeste, drama romântico e realismo fantástico. A sequência na ponte entre os dois países é tocante.
Não devore meu coração (Brasil, 2017) de Felipe Bragança. Com Cauã Reymond (Fernando), Eduardo Macedo (Joca), Adeli Benitez (Basano).
Inácio tem perturbações psicológicas e assume o trabalho de porteiro em prédio na zona sul carioca após a morte de seu pai. Ele mora com a mãe Zaira no mesmo prédio. Na portaria, Inácio passa o tempo bisbilhotando os moradores através das câmeras, até que sente atração por um dos moradores.
O título do filme é baseado em uma frase do conto Feliz aniversário, de Clarice Lispector. A narrativa centra o foco no conflito violento entre Inácio e sua mãe. O filho não aceita a morte do pai e despeja sua raiva na mãe que, por sua vez, responde de forma abusiva e também violenta. A trama do filme é previsível e irreverente montagem final elucida fatos para o espectador. A força está mesmo na interpretação visceral de Fernando Alves Pinto.
Quando o galo cantar pela terceira vez renegarás tua mãe (Brasil, 2017), de Aaron Salles Torres. Com Fernando Alves Pinto (Inácio), Catarina Abdalla (Zaira), Tião D’Ávilla (Guilherme), Lucas Malvacini (Antonio).
Juarez (Paulo Gracindo) está escrevendo uma carta para órgãos públicos reclamando da situação brasileira. Três amigos do passado, possivelmente já mortos, interagem com ele: um integralista, um funcionário público poeta e um imigrante italiano. Elvira (Fernanda Montenegro) também conversa com seu imaginário, a Santa, reclamando da falta de desejo de seu marido, Juarez. Na sua cabeça, Juarez tem uma amante.
Os conflitos internos desta típica família de classe média dos anos 70, que se completa com o filho relações públicas e a filha estudante, se misturam com a realidade: um grupo de operários está fazendo obras no apartamento; trabalham para o casal a empregada benzedeira e outra empregada (que completa seu orçamento se prostituindo nas ruas); por fim, a família de um dos operários chega ao apartamento e é alojada por Elvira e Juarez.
O filme se passa todo dentro do apartamento, na típica estrutura teatral, baseado inteiramente nos diálogos criados por Arnaldo Jabor e pelo roteirista Leopoldo Serran. As interpretações beiram o caricatural, os grupos de personagens atuando como em um picadeiro de circo, com sequências nonsenses. A ideia é recorrente, principalmente no cinema brasileiro contemporâneo: colocar personagens representantes de classes distintas interagindo, criando conflitos psicológicos e comportamentais, dentro de um ambiente fechado. Destaque para a empregada/prostituta (Zezé Motta) de botas longas e calcinha cantando Como nossos pais pelos ambientes diante do olhar estupefato de Aparecida de Fátima (Maria Silvia).
Tudo bem (Brasil, 1978), de Arnaldo Jabor. Com Paulo Gracindo, Fernanda Montenegro, Regina Casé, Luiz Fernando Guimarães, Zezé Motta, Stênio Garcia, Fernando Torres.
1979. Um adolescente acaba de sair do seu trabalho como office-boy e se encaminha para o programa favorito no início da noite: pegar uma sessão de cinema, neste dia, no Cine Jacques. Perto da portaria do cinema, é surpreendido pela multidão que caminha em sentido contrário aos gritos, portanto porretes e outras peças de madeira. Pessoas correm assustadas, lojistas fecham apressados as portas. Ao adolescente, também aterrorizado, resta se jogar debaixo da porta já quase fechada do Rei do Disco (onde ele frequentemente ouvia LPs nas cabines individuais antes de se decidir por este ou aquele). A porta descerrada só não impede a passagem do som: gritos, vidros quebrados, cantos de ordem.
Lembrei-me desse episódio que marcou minha adolescência, durante a famosa greve dos operários da construção civil em Belo Horizonte, ao rever o documentário ABC da greve (Brasil, 1979), de Leon Hirszman.
Leon Hirszman era considerado pelos integrantes do grupo a voz política do cinema novo. Pedreira de São Diogo, curta que integra o clássico Cinco vezes favela (1962) é um grito de resistência a favor das favelas do Rio de Janeiro. Eles não usam black-tie (1981), meu filme favorito do diretor, marca o cinema brasileiro a partir dos anos 80, quando os realizadores se voltaram para a história recente de nosso país, ou seja, a ditadura militar.
Em 1979, o diretor acompanhou a lendária greve dos metalúrgicos no ABC paulista. As filmagens foram complicadas, negativos do filme tiveram que ser escondidos e tirados camuflados da sede do sindicato dos metalúrgicos. Com problemas na finalização, o documentário só foi concluído em 1989 e lançado em 1990, após a morte de Leon Hirszman.
ABC da greve é retrato contundente da situação dos trabalhadores no final dos anos 70, denúncia da falsidade do milagre econômico apregoado pelo regime militar. Compõem o documentário cenas de rua dos trabalhadores em greve, depoimentos dos próprios trabalhadores, discursos dos líderes sindicais em impressionantes reuniões de milhares de grevistas a céu aberto, a equipe de Leon tentando se infiltrar nos pátios das fábricas. Tudo com câmera realista, próxima dos acontecimentos.
Para completar, o documentário traz imagens contundentes de Luiz Inácio Lula da Silva. Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Lula lidera a greve, magnetiza os trabalhadores; as imagens registram seu poder carismático, a liderança e persistência que o levariam mais de duas décadas depois à presidência da república.
A voz política de Leon Hirszman produziu um dos mais importantes documentários da história recente do Brasil, filme que precisa ser revisitado em um momento no qual a extrema direita massacra a sociedade e os trabalhadores se mantêm calados no chão de fábrica.
A diretora e atriz Bárbara Paz faz uma incursão ousada pela intimidade de Hector Babenco, com quem era casada. O documentário entremeia depoimentos de Babenco coletados ao longo de sua vida, cenas da vida cotidiana, incluindo imagens íntimas do casal, imagens do diretor em situações de trabalho e em polêmicas entrevistas, várias e várias cenas de seus mais importantes filmes. Mas a ousadia está em registrar com a câmera momentos da doença de Hector Babenco: em casa, no hospital, ainda trabalhando, ele refletindo sobre a doença que consome sua vida.
Agnès Varda fez registro semelhante também com seu marido, o famoso diretor da nouvelle-vague francesa, Jacques Demy. Filmes que só podem ser realizados por mulheres corajosas, sensíveis, francas, capazes de expressar com a câmera não só momentos íntimos, mas intensamente dolorosos. Bárbara Paz em seu documentário presta uma grande homenagem a Babenco, um dos maiores diretores de todos os tempos do cinema nacional. E também ao cinema, pois cinema é acima de tudo intimidade, intensidade, verdadeiro na essência.
Babenco. Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou (Brasil,2020), de Bárbara Paz.
Mandacaru Vermelho (1961) abre com massacre na Pedreira do Mandacaru Vermelho perpetrado pelos capangas de Dona Dusinha. Corta para Dona Dusinha, anos depois, abrindo as janelas da casa aos gritos de Clara, sua sobrinha. Ela descobre que a jovem fugiu com Augusto, empregado da fazenda. Decidida a lavar a honra da família, a poderosa fazendeira reúne filhos e sobrinho e parte em busca dos fugitivos.
A narrativa segue os cânones do faroeste do sertão, gênero que fez sucesso a partir dos anos 50 no cinema brasileiro. Clara e Augusto fogem com a ajuda do vaqueiro Pedro e são perseguidos a tiros, com sequência final na pedreira que faz referência a grandes westerns americanos. Outra marca do filme é a improvisação, pois o diretor Nelson Pereira dos Santos estava no sertão baiano para filmar Vidas Secas. A chuva impediu as filmagens e a equipe decidiu aproveitar a mudança da paisagem do sertão.
“Nelson Pereira dos Santos, outro cineasta que ‘descobriu’ a Bahia em 1960, realiza em Juazeiro, às margens do Rio São Francisco, MANDACARU VERMELHO. A história das filmagens é conhecida: Nelson foi à Bahia na esperança de filmar VIDAS SECAS; lá chegando, o sertão vira mar e chove durante dias; então a caatinga floriu, e a equipe começa a falar em tom de brincadeira em ‘vidas molhadas’. Ilhados em Juazeiro, com a cidade alagada, a saída encontrada foi a realização de outro filme, aproveitando o cenário diferente da caatinga florida. O próprio Nelson faz o papel do mocinho que foge com a mocinha já prometida para outro. Perseguidos pela família da jovem, refugiam-se no monte do Mandacaru Vermelho, onde um beato errante realiza o casamento. No final os perseguidores morrem, e o casal consegue escapar para um vilarejo próximo assistindo emocionado a uma cerimônia de casamento.”
Mandacaru vermelho (Brasil, 1961), de Nelson Pereira dos Santos. Com Nelson Pereira dos Santos, Miguel Torres, Jurema Pena, Sonia Pereira.
O livro As cariocas, de Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto), contém seis histórias centradas no ambiente urbano do Rio de Janeiro, abordando o cotidiano de mulheres com o tradicional humor do autor. Para o filme de 1966, foram adaptadas três contos da obra: A noiva do catete,A desinibida do Grajaú e A grã-fina de Copacabana.
Os diretores mantiveram o tom ácido de Sérgio Porto, tratando com ousadia as peripécias de Paula, Júlia e Marlene. As três se envolvem em festas da alta sociedade, planejam golpes contra homens ricos, não se furtam a casos infiéis. A direção de fotografia da película segue princípios do cinema dos anos 60 no Brasil, tratando as locações reais com estética realista. É o retrato de personagens da classe média urbana do Rio de Janeiro, transitando pelas ruas, bares, praias e apartamentos da zona sul.
As cariocas (Brasil, 1966), de Fernando de Barros, Roberto Santos, Walter Hugo Khouri. Com Norma Bengell (Paula), Jacqueline Myrna (Júlia), Íris Bruzzi (Marlene), John Herbert (Cid), Walter Forster (Téo).
A narrativa segue o estilo road-movie, a jornada de Ofélia por mar e terra revela detalhes do passado dos seus pais, através do encontro da jovem fotógrafa com amigos dos dois e flashbacks, imagens recortadas que afloram na tela. Outro tema que perpassa a narrativa é o universo dos artistas e seus conflitos, vaidades, com direito a revelação final que pode mudar o destino da protagonista. Destaque para as paisagens, amplificadas pela fotografia de encher os olhos.
Vou nadar até você (Brasil, 2017), de Klaus Mitteldorf. Com Bruna Marquezine, Ondina Clais, Peter Ketnath, Fernando Alves Pinto.
Sandra (Nathália Molina) e Jorge (Diego Avelino) são irmãos de pais diferentes, mas não se relacionam. Os dois vivem problemas típicos da periferia da cidade, convivendo com a violência social enquanto lutam pela sobrevivência cotidiana. Os dois se aproximam quando a mãe de Sandra desaparece de casa, colocando a adolescente em problemas que vão desde idas à polícia, ameaças de credores que cobram dívidas deixadas pela mãe, falta do que comer em casa, além de conflitos na escola.
A diretora Eliane Costes debate questões que permeiam a vida da periferia, como pais ausentes, filhos que crescem em comunidades complexas, muitas vezes violentas com os jovens, principalmente quando suas escolhas não se adequam aos valores sociais dominantes. A câmera da diretora filma tudo quase como um registro documental, sem conclusões em questões narrativas, sem julgamentos. Apenas acompanha os jovens em sua difícil lida cotidiana.
Meio irmão (Brasil, 2018), de Eliane Coster. Com Nathália Molina (Sandra), Diego Avelino (Jorge), Francisco Gomes.
O filme abre com Edu (Flávio Migliaccio) na praia, conversando com o espectador. O personagem divaga sobre a impossibilidade de amar, pois são muitas mulheres no mundo. O encontro de Edu com Paulo (Paulo José) em uma rua do Rio de Janeiro provoca virada na narrativa, pois os dois sentam-se em um bar e Paulo passa a contar sua história de paixão pela professora Maria Alice (Leila Diniz).
A ideia do diretor Domingos de Oliveira era fazer dois filmes, um centrado em Edu e outro em Paulo. Acabou optando apenas pelas desventuras de Paulo tentando conquistar Maria Alice e renegar todas as suas outras mulheres. O filme tem inclusive dois momentos iniciais de créditos, em uma ousada abertura apresentando os protagonistas (é clara a influência da nouvelle-vague francesa nas estratégias narrativas ao longo do percurso).
“O filme segue um estilo narrativo que o Cinema Novo também prezava, evitando o plano e contraplano em favor de planos mais longos e com espaço para o improviso. Mas Todas as mulheres do mundo era um contraponto solar e descontraído (e necessário) à sisudez do movimento liderado por Glauber Rocha, que não tinha praticamente nenhum espaço para o humor ou romance. Como era de se esperar, o filme foi atacado na época como ‘alienado’”. – Renato Félix.
Domingos de Oliveira idealizou o filme como uma declaração de amor à Leila Diniz (seu primeiro trabalho no cinema) com quem fora casado recentemente. Cada frame parece destinado a evidenciar a beleza da atriz e a beleza do amor. Deve-se considerar que o ponto de vista narrativo é masculino, portanto sujeito às inconsequências da época, colocando Paulo como o conquistador dominante, a quem as mulheres se entregam.
“A idealização faz certo sentido, tendo em vista que acompanhamos a história pelo que Paulo nos conta. Quando ele não se aguenta e comete a inconfidência de contar a Edu como é Maria Alice na cama, somos obrigados a acreditar nele. Em seu próprio ponto de vista de aspirante a escritor, é natural se retratar como um exímio frasista e a amada como musa – o que vale também para o diretor-roteirista.” – Renato Félix.
No final, Paulo se redime. Indagado por Edu sobre a impossibilidade de amar uma mulher, Paulo afirma sua entrega à Maria Alice e ao maravilhoso fruto desse amor: a família.
Todas as mulheres do mundo (Brasil, 1967), de Domingos de Oliveira. Com Leila Diniz, Paulo José, Joana Fomm, Ivan de Albuquerque, Irma Alvarez, Flávio Migliaccio.
O primeiro verão acontece em 2016 (ano do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff), em pleno funcionamento da Operação Lava Jato. O cenário é uma luxuosa casa à beira-mar em Angra dos Reis. O empresário Edgar e sua mulher Marta recebem familiares e convidados para as festas de final de ano. Madalena, caseira do local, organiza tudo com dedicação e bom-humor.
Os dois verões seguintes se passam no mesmo local, com reviravoltas que refletem a realidade brasileira da elite envolta em esquemas de corrupção e os trabalhadores da luxuosa mansão tentando sobreviver. Madalena é envolvida inconsequentemente pelas investigações da polícia, enquanto alimenta sonhos utópicos de simplesmente ter um quiosque de quitutes na beira da estrada.
Regina Casé, como sempre, conduz a narrativa com talento. Madalena busca alternativas para cuidar de todos os empregados da casa e de Seu Lira, pai de Otávio. Destaque para a revelação de Madalena em frente à câmara, expondo com profunda tristeza a realidade de cidades como Angra dos Reis, dividida em ilhas paradisíacas, mansões e iates luxuosas, e os morros que abrigam a pobreza, onde moradores saem de casa sem saber o que vão encontrar na volta.
Três verões (Brasil, 2019), de Sandra Kogut. Com Regina Casé (Madalena), Otávio Muller (Otávio), Gisele Fróes (Marta), Rogério Fróes (Seu Lira).
Maria Gadú assina a bela trilha sonora, grande trunfo do filme. Anna e Chico, recém-casados, se mudam para um apartamento. Anna descobre um som 3×1 guardado em um cômodo, junto com uma fita cassete escrita “Todas as canções de amor.” À medida que escuta as músicas, se interessa e passa a escrever a história de Clarisse, autora da seleção de músicas, presente para seu marido Daniel.
São duas histórias permeadas pelos conflitos de casais, narradas pelo ponto de vista feminino. Anna tenta entender o casamento, o amor, a fita de Clarisse a faz retomar o desejo pela literatura, pela escrita. Nos anos 90, Clarisse luta contra a desilusão do casamento, da relação a dois, sofrendo pela incompreensão de Daniel, músico que nunca tocou uma canção de amor para ela. A trilha sonora eclética traz, entre outras canções, Não aprendi a dizer adeus, Drão, Codinome Beija-Flor, I will survive, Chorando se foi.
Todas as canções de amor (Brasil, 2018), de Joana Mariani. Com Marina Ruy Barbosa (Anna), Bruno Gagliasso (Chico), Luíza Mariani (Clarisse), Júlio Andrade (Daniel).
Aos 50 anos, Maria do Caritó (Lilia Cabral) ainda é virgem, pois cumpre promessa feita pelo pai. Esteve perto da morte no parto, o pai orou para São Djalminha, prometendo que entregaria a filha casta ao santo. O clero e políticos da pequena cidade do sertão lucram com histórias difundidas pelos fiéis de que a virgem é milagreira. No entanto, Maria do Caritó também faz suas orações e simpatias, rezando por um marido antes de ser entregue ao claustro da igreja.
Baseado em peça de Newton Moreno, o filme foi realizado para Lília Cabral destilar seu talento cena a cena. Os diálogos bem-humorados encontram a mais legítima expressão da comédia na atriz, que encarna a mulher sedenta por prazer, queimando por dentro, enquanto desfila cética pelas ruas da cidade, recusando a santidade. A falsidade ideológica é o grande tema da película, retratando políticos, padres, moradores da cidade, o pai de Caritó, todos fingindo sem escrúpulos enquanto buscam o lucro através da lenda criada. O circo mambembe que chega na cidade vai ajudar a desmascarar, incluindo a própria Maria do Caritó que precisa se travestir de palhaça para se encontrar e provocar a reviravolta final.
Maria do Caritó (Brasil, 2019), de João Paulo Jabur. Com Lilia Cabral Gustavo Vaz, Juliana Carneiro da Cunha.
Marco Nanini é o grande destaque do filme, em papel ousado e fascinante. Ele é Pedro, enfermeiro de 70 anos que trabalha em hospital público. Certa noite, ele leva sua amiga transexual Daniela para o hospital, mas a falta de leitos impede a internação. Juan dá entrada no hospital com ferimentos após uma briga de bar que resultou na morte do oponente. Ele pede a Pedro que o tire do hospital, com medo de ser assassinado. Pedro atende ao pedido, conseguindo assim leito para Daniela, e abriga Juan em sua casa.
Parte do cinema recente brasileiro traz o mérito de mostrar sem pudor o submundo da sociedade. Em Greta, o diretor Armando Praça eleva o tom ao mostrar de forma às vezes explícita a rotina noturna dos hospitais públicos, dos bares impregnados de sexo, da miséria e tragédia que ronda personagens que transitam pela noite. O destaque da trama é a relação de Pedro e Juan, oscilando entre o perigo, o erotismo, a amizade e o amor.
Greta (Brasil, 2019), de Armando Praça. Com Marco Nanini (Pedro), Démick Lopes (Juan), Denise Weinberg (Daniela).
O ano é 1961. Jânio Quadros renuncia à presidência da república. O vice, João Goulart, está em viagem à China comunista e os militares ameaçam não deixá-lo assumir a presidência. No Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola lidera o movimento chamado de Legalidade para evitar o golpe, clamando à população para se rebelar em favor do respeito à constituição.
O fato histórico que antecedeu ao golpe de 1964 é a trama de Legalidade, filme do diretor gaúcho Zeca Brito. Realidade e ficção se misturam. Em torno dos bastidores do movimento de Brizola, circula um triângulo amoroso que envolve a jornalista Cecília, o antropólogo e revolucionário Luiz Carlos (lutou ao lado de Che Guevara) e o fotógrafo Tonho.
Os destaques do filme são a primorosa reconstituição de época, utilizando a beleza do palácio Piratini em Porto Alegre, a visceral interpretação de Leonardo Machado na pele do grande Brizola. Infelizmente, Leonardo Machado faleceu pouco depois de terminar as filmagens.
Legalidade (Brasil, 2019), de Zeca Brito. Com Leonardo Machado (Leonel Brizola), Cleo (Cecília Ruiz), Fernando Alves Pinto (Luiz Carlos), Tonho (José Henrique