• Cinema olho

    Dziga Vertov foi um dos cineastas mais radicais da chamada vanguarda russa, cujo expoente maior é Sergei Eisenstein. Pioneiro do cinema documentário, Vertov defendia o cinema sem atuação, a responsabilidade dramática de evidenciar questões sociais estaria no poder da câmera em suas mais diversas possibilidades de ângulos, planos e movimentos, conjugados na montagem revolucionária que imprimiu como sua marca documental. 

    Cinema olho é um dos experimentos de seu grupo de jovens cineastas, intitulado Kinoks (Cine-0lhos).  De forma inovadora para a época, o filme transforma em manifesto político o retrato da vida dos moradores de uma pequena vila soviética. Vertov usa técnicas de montagem inventivas para criar um dos filmes mais representativos da sua forma de pensar o cinema. A película registra o cotidiano de pequena aldeia na URSS, centrada em jovens revolucionários que propagam a solidariedade, o uso de cooperativas, desafiando o sistema. No início, cartela alerta: “Primeiro filme realista sem roteiro, sem atores, fora do estúdio.”

    Dividido em episódios, Cinema-Olho começa com a alegre dança das mulheres nas ruas da aldeia, enquanto meninos colam cartazes sobre a cooperativa. A partir daí, a vida cotidiana dos aldeões é retratada em planos e ângulos inusitados, elaboradas fusões e montagem irreverente, em determinados momentos as cenas retrocedem, para mostrar como “O Cinema-Olho faz o tempo andar de trás para a frente.” A dúvida que permanece ainda hoje é: até que ponto o cinema documental pode interferir na realidade, manipulando as imagens com irreverência e ousadia para colocar em pauta o ponto de vista do documentarista. Sem respostas, melhor se extasiar diante do brilhantismo de Dziga Vertov. 

    Cinema olho (Kinoglaz, Rússia, 1924), de Dziga Vertov. 
    Referência: Tudo sobre cinema. Philip Kemp. Rio de Janeiro: 2011.

  • Mulheres de Ryazan

    O filme segue a trajetória de duas jovens dominadas pela sociedade patriarcal na URSS. Os jovens Anna e Ivan se apaixonam à primeira vista, mas Anna alimenta também os desejos do conservador pai de Ivan, rígido fazendeiro que controla a vida de seus filhos. Valisia, também filha do fazendeiro, mantém relacionamento com um pobre ferreiro e confronta o pai para seguir sua vida. É expulsa de casa e luta pela sobrevivência ao lado do marido. A primeira guerra mundial muda o destino das duas mulheres, principalmente de Anna que passa a ser assediada pelo sogro enquanto Ivan está em batalha. 

    Mulheres de Ryazan é denúncia forte contra essa sociedade patriarcal que subjuga as mulheres quase à escravidão. A diretora Olga Preobrazhenskya usa do melodrama para denunciar questões que demarcam a luta feminista. A ousadia da diretora encontra eco na ousada sugestão de estupro e condenação da jovem Anna que passa a ser tachada, após o ato, de “meretriz” pela sociedade, enquanto seu poderoso algoz continua a ser admirado. 

    Mulheres de Ryazan (Baby Ryazanskie, Rússia, 1927), de Olga Preobrazhenskaya. Com Raisa Puzhnaya, Olga Narbekova, Kuzma Yastrebitsky, Yelena Maksimova. 

  • Victoria e Abdul – O confidente da rainha

    Pela segunda vez, Judi Dench interpreta a Rainha Victoria às voltas com amizades com seus ajudantes. Em Sua Majestade, Mrs Brown (1997) a trama versa sobre o relacionamento da rainha com o criado John Brown. Victoria e Abdul – O confidente da rainha coloca em cena o indiano Abdul Karim que chega à corte inglesa para presentear a rainha com artefatos da colônia no Jubileu dos 50 anos de reinado. 

    Abdul ganha as graças da rainha e se torna “munshi”, espécie de professor que abre a mente de Victoria para a cultura indiana e muçulmana. O preconceito é tema central da narrativa, pois os demais integrantes da corte e a própria família da rainha não aceitam a presença do indiano, passando inclusive a investigar sua vida. Judi Dench brilha como sempre, estrela que já marcou seu nome no hall das grandes atrizes de todos os tempos. 

    Victoria e Abdul – O confidente da rainha (Victoria and Abdul, Inglaterra, 2017), de Stephen Frears. Com Judi Dench, Ali Fazal, Eddie Izzard, Olivia Williams.

  • Não devore meu coração

    O cenário é a divisa entre Brasil e Paraguai. Fernando é chefe de gangue de motoqueiros que se confronta nas estradas com a gangue rival dos guaranis. Resquícios da Guerra do Paraguai se vislumbram no sangrento confronto, com direito a mortes nas estradas, tiroteios e corpos boiando na correnteza do rio. 

    A esperança está no irmão de Fernando, Joca, adolescente que se apaixona por Basano, menina paraguaia. O diretor Felipe Bragança compõe fascinante painel destas relações movidas a preconceito, trabalhando com gêneros distintos, como road movie, faroeste, drama romântico e realismo fantástico. A sequência na ponte entre os dois países é tocante. 

    Não devore meu coração (Brasil, 2017) de Felipe Bragança. Com Cauã Reymond (Fernando), Eduardo Macedo (Joca), Adeli Benitez (Basano).

  • Quando o galo cantar pela terceira vez renegarás tua mãe 

    Inácio tem perturbações psicológicas e assume o trabalho de porteiro em prédio na zona sul carioca após a morte de seu pai. Ele mora com a mãe Zaira no mesmo prédio. Na portaria, Inácio passa o tempo bisbilhotando os moradores através das câmeras, até que sente atração por um dos moradores. 

    O título do filme é baseado em uma frase do conto Feliz aniversário, de Clarice Lispector. A narrativa centra o foco no conflito violento entre Inácio e sua mãe. O filho não aceita a morte do pai e despeja sua raiva na mãe que, por sua vez, responde de forma abusiva e também violenta. A trama do filme é previsível e  irreverente montagem final elucida fatos para o espectador. A força está mesmo na interpretação visceral de Fernando Alves Pinto.

    Quando o galo cantar pela terceira vez renegarás tua mãe (Brasil, 2017), de Aaron Salles Torres. Com Fernando Alves Pinto (Inácio), Catarina Abdalla (Zaira), Tião D’Ávilla (Guilherme), Lucas Malvacini (Antonio). 

  • Herói da infância

    Aprendi a nadar antes dos cinco anos de idade. Entrava em rios, piscinas, lagoas. Atravessava correnteza e distâncias com o pai atrás – ele era a segurança da chegada. Meu pai era pequeno, magro e deslizava na água. Cortava a piscina com elegância de causar inveja. Um de seus amigos da juventude, companheiro de cinema, sempre dizia quando o via nadando: “Lá vai o Johnny Weissmuller”. Os outros amigos não sabiam pronunciar o nome e passaram a chamá-lo de Tarzan.

    Johnny Weissmuller (1904-1984), nascido na Romênia, ganhou cinco medalhas de ouro de natação nas olimpíadas de Paris – 1924 e Amsterdã – 1928. Foi o primeiro atleta a nadar 100 metros rasos em menos de um minuto. Durante a carreira, estabeleceu 67 recordes mundiais.

    Forte e bonito, foi seduzido primeiro pela publicidade, posando como modelo para uma campanha de maiôs, e logo depois pelo cinema. Em 1932, vestiu a tanga de Tarzan,  personagem que o acompanharia pelo resto da vida. “Quando cheguei a Hollywood, o produtor disse que meu nome era longo demais para caber no letreiro.” – relata Weissmuller. O diretor W. S. Van Dyke (1889-1943) explicou ao produtor. “Você não sabe quem ele é? O maior nadador do mundo. – o produtor concordou em não mudar o nome e ainda sugeriu incluir algumas cenas de natação no filme.”

    Tarzan, o Homem Macaco foi lançado em 1932. Além das cenas de natação, Johnny Weissmuller personificou o grito mais famoso da história do cinema. Ele interpretou Tarzan em 11 filmes. A partir de 1948, incorporou outro personagem, Jim da Selvas, em mais 16 filmes. Morreu pobre e esquecido no México, num hotel em Acapulco, em 1984.

    Quanto ao outro Johnny Weissmuller, herói da minha infância, dividiu comigo algumas braçadas e muitas, muitas conversas sobre cinema. Meu pai me apresentou às pequenas felicidades do dia-a-dia: uma piscina, um jogo do Atlético Mineiro, uma sessão de cinema.

  • A dama de Shanghai

    A dama de Shanghai (The lady from Shanghai, EUA, 1948) abre com voz em off do marinheiro Michael (Orson Welles) narrando seu primeiro encontro com a bela e sedutora Elsa Bannister (Rita Hayworth), durante um passeio noturno no Central Park. São os indícios da experimentação de Orson Welles pelo universo do filme noir: narração em primeira pessoa, fotografia noturna das cidades, a sedutora mulher fatal que envolve o amante com propósitos criminosos.

    “Com um sotaque irlandês titubeante, Welles é um marinheiro contratado por um advogado aleijado (Everett Sloane, sórdido e assustador) para trabalhar em seu iate e talvez também (como no enredo preservado por Welles em Uma história imortal – 1968) prestar serviços à sua bela esposa. Um assassinato ocorre, seguido por um julgamento em que todos agem de forma no mínimo antiética, e um caleidoscópio louco é despedaçado por um clímax envolvendo um tiroteio numa sala de espelhos. A dama de Shanghai, como filme, é um espelho despedaçado, com fragmentos de genialidade que jamais poderão ser juntados para formar algo que faça sentido.”

    Rita Hayworth, de cabelos curtos, está deslumbrante em cada close, em cada ângulo ousado de Orson Welles: tomando sol no iate, cercada pelos três homens que a desejam, pulando de uma rocha para o banho de mar, a luz do cinema noir refletindo em seu rosto quando finge amor, tristeza, desolação. Para completar, a antológica sequência final na sala de espelhos, quando o confronto entre Elsa e Arthur é pontuado por estilhaços de vidros, a imagem da femme fatalle se despedaçando para logo em seguida se reconstituir em um novo reflexo, como a própria Rita Hayworth.

  • Na teia do destino

    Não espere os cânones do gênero neste revigorante filme noir de Max Ophuls. “Os gêneros são cercados de convenções. É o que fazem. É por isso que os amamos. Mas, quando transcendem essas convenções, levam você a considerações e a reflexões sobre as questões psicológicas e morais que despertam. Aí, tornam-se grandes.”

    Essa análise de Richard Schickel, crítico e historiador, se aplica com perfeição à Na teia do destino. Lucia Harper (Joan Bennett) tenta proteger sua filha adolescente da sedução de um atraente mafioso de Los Angeles. Ao descobrir as verdadeiras intenções do namorado, ele quer extorquir dinheiro da família, a jovem provoca acidentalmente a morte do canalha, em uma noite de tempestade. Lucia descobre o cadáver e tenta encobrir o assassinato. No entanto, entra em cena o irlandês Martin Donnelly (James Mason), outro mafioso, que, a serviço de seu chefe, passa a chantagear Lucia. 

    A reviravolta da trama, consequentemente do gênero, acontece quando o irlandês se apaixona por Lucia. A tradicional femme fatale, presente em várias narrativas noir, agora age por causas nobres, provocando a tentativa de redenção do bandido apaixonado. 

    Debates éticos permeiam o filme, como adultério, um inocente que pode ser condenado por um crime que não cometeu mas, que, segundo Donnelly vai pagar pelos outros crimes. Joan Bennett é a grande estrela do filme, sua personagem destila charme em cada cena, mesmo nas mais aflitivas, incentivando, talvez inconscientemente, as investidas do irlândes amargurado, capaz de qualquer sacrifício para salvar sua amada. É a transcendência das convenções em um filme belo, triste e sedutor.  

    Na teia do destino (The reckless moment, EUA, 1949), de Max Ophuls. Com Joan Bennett, James Mason, Geraldine Brooks.

  • A sorridente Madame Beudet

    Madame Beudet está enclausurada em um casamento monótono, representação da sociedade que relega a mulher ao papel de dona de casa amorosa, cuja obrigação é sentir-se feliz diante da vida confortável proporcionada pelo casamento. Cada vez mais triste e deprimida, Madame Beudet enseja sua única possibilidade de libertação: a morte do marido.

    A diretora Germaine Dulac fez parte do círculo de cineastas experimentais da última década do cinema mudo, reunidos em torno do movimento denominado impressionismo francês. Seus filme buscavam ao mesmo tempo a poesia das imagens e a representação da opressão feminina, sendo por isso considerada uma das primeiras autoras do cinema feminista.

    “O elemento mais cativante de A sorridente Madame Beudet é composto pelas elaboradas sequências de sonho em que a dona de casa do título (Germaine Dermoz) fantasia uma vida fora dos limites da sua existência monótona. Usando efeitos especiais radicais e técnicas de montagem, Dulac incorpora alguns dos elementos estéticos de vanguarda da época para contrastar o poder feminino rico e vigoroso da vida imaginária de madame Beudet com o tédio da rotina compartilhada com seu marido (Alexandre Arquillière).” 

    A sorridente Madame Beudet (La souriante Madame Beudet, França, 1923), de Germaine Dulac. Com Germaine Dermoz, Alexandre Arquillère, Jean D’yd.

  • O rei dos elfos

    O filme abre com a descrição em prosa do célebre poema de Goethe, O rei dos elfos. Corta para um homem à cavalo levando o filho doente nos braços. Ele precisa chegar à cidade o mais rápido possível, mas seu cavalo não resiste e cai por terra. Pai e filho encontram abrigo em uma casa, conseguem um cavalo e cavalgam pela estrada até adentrar, à noite, a floresta. 

    A partir daí, a trama ganha o tom assombrado, baseado no poema de Goethe. O rei dos elfos emerge das sombras, junto com suas fadas, e persegue o garoto. A diretora Marie-Louise Iribe, também atriz, uma das pioneiras do cinema francês, recria com efeitos visuais o visual místico da floresta, onde vivem seres fantasmagóricos comandados pelo assustador rei que sequestra a alma das crianças. Realizado logo no início do cinema sonoro, a película traz a força da narrativa visual, com frases curtas  entre a criança e seu pai, reproduzidas do poema. O final triste, já anunciado na balada de Goethe, deixa o espectador entre os sentimentos de beleza e melancolia, ciente que está diante de um filme que une várias referências artísticas.  

    O rei dos elfos (Les roi des aulnes, França, 1931), de Marie-Louise Iribe. Com Otto Gebuhr, Joe Hamman, Mary Costes, Rosa Bertens.  

  • As aventuras do Sr. Hulot no trânsito louco

    Mais uma vez, Jacques Tati centra suas lentes críticas e irônicas na direção da modernidade, agora o alvo são os automóveis. Em entrevista, o diretor disse que pensou no filme observando como a personalidade das pessoas muda quando estão dentro de seus carros. Depois do lançamento do filme, Tati inclusive se juntou a grupos ativistas em passeios de bicicletas para protestar contra a invasão dos carros nas cidades, em detrimento de pedestres. 

    A crítica é o pretexto para as divertidas gags protagonizadas pelo Sr. Hulot em meio ao trânsito louco. A marca visual de Jacques Tati continua inovadora, em sequências que reforçam o poder das imagens no cinema, com destaque para a série de acidentes de carros em um cruzamento e a composição estética dos carros em uma tarde de chuva, quando motoristas e passageiros se integram ao movimento dos limpadores de pára brisas. 

    As aventuras do Sr. Hulot no trânsito louco (Trafic, França, 1971), de Jacques Tati. Com Jacques Tati, Maria Kimberly, François Maison Grosse. 

  • Eu posso ouvir o oceano

    Finais de dramas românticos em estações de trem têm tudo para enternecer o espectador. A estação de trem pode ser substituída também por estação de metrô, caso da megalópole Tóquio  de Eu posso ouvir o oceano

    A trama da animação japonesa acompanha um triângulo amoroso formado pelos amigos Taku e Yutaka, que compartilham o fascínio pela rebelde Rikako. O cenário é uma escola secundária no interior. Os estudantes são submetidos ao rígido sistema educacional do país que cobra de forma assustadora as melhores notas de seus alunos e alunas, pois o nome da Instituição está em jogo. Outras questões importantes são discutidas: a ausência dos pais; como as grandes cidades fascinam e, ao mesmo tempo, pressionam seus moradores, principalmente a juventude que busca espaços.

    A narrativa em primeira pessoa de Taku guia o espectador através das descobertas, conflitos, desejos… São as memórias de um verão marcante, quando ele conheceu uma menina com quem chegou a trocar tapas nas faces. Tudo termina, ou verdadeiramente começa, na estação de metrô, para deixar este e outros espectadores relembrando de verões assim. 

    Eu posso ouvir o oceano (Japão, 1993), de Tomomi Mochizuki.

  • Corações enamorados

    A princípio, o musical segue os passos característicos do gênero. As três filhas do músico Gregory Tuttle (Robert Keith) sentem-se fascinadas por Alex Burke (Gig Young), jovem músico que passa uma temporada na casa enquanto escreve um concerto. Laurie (Doris Day), a filha mais velha, conquista o coração do músico e tudo parece caminhar para os encontros e desencontros motivados pela disputa das outras irmãs.

    A virada acontece quando o também músico Barney Sloan (Frank Sinatra) chega à casa para ajudar o amigo Alex. Ele se apaixona por Laurie, mas sua personalidade é o motivo para a grande ousadia deste musical dos anos 50. Barney se sente fracassado na vida, seu pessimismo consigo revela a mente depressiva, caminhando para a atitude polêmica, raramente discutida até esse momento em filmes de gênero: o suicídio. 

    Frank Sinatra está perfeito como o músico fracassado, que contagia todos ao seu redor com sua tristeza. Doris Day, a eterna garota das comédias românticas, toma conta do filme, revelando sua personalidade amorosa, doce e firme, disposta a lutar para que todos com quem convive fiquem bem. 

    Corações enamorados (Young at heart, EUA, 1955), de Gordon Douglas. Com Doris Day, Frank Sinatra, Gig Young, Ethel Barrymore, Dorothy Malone. 

  • Tudo bem

    Juarez (Paulo Gracindo) está escrevendo uma carta para órgãos públicos reclamando da situação brasileira. Três amigos do passado, possivelmente já mortos, interagem com ele: um integralista, um funcionário público poeta e um imigrante italiano. Elvira (Fernanda Montenegro) também conversa com seu imaginário, a Santa, reclamando da falta de desejo de seu marido, Juarez. Na sua cabeça, Juarez tem uma amante. 

    Os conflitos internos desta típica família de classe média dos anos 70, que se completa com o filho relações públicas e a filha estudante, se misturam com a realidade: um grupo de operários está fazendo obras no apartamento; trabalham para o casal a empregada benzedeira e outra empregada (que completa seu orçamento se prostituindo nas ruas); por fim, a família de um dos operários chega ao apartamento e é alojada por Elvira e Juarez. 

    O filme se passa todo dentro do apartamento, na típica estrutura teatral, baseado inteiramente nos diálogos criados por Arnaldo Jabor e pelo roteirista Leopoldo Serran. As interpretações beiram o caricatural, os grupos de personagens atuando como em um picadeiro de circo, com sequências nonsenses. A ideia é recorrente, principalmente no cinema brasileiro contemporâneo: colocar personagens representantes de classes distintas interagindo, criando conflitos psicológicos e comportamentais, dentro de um ambiente fechado. Destaque para a empregada/prostituta (Zezé Motta) de botas longas e calcinha cantando Como nossos pais pelos ambientes diante do olhar estupefato de Aparecida de Fátima (Maria Silvia). 

    Tudo bem (Brasil, 1978), de Arnaldo Jabor. Com Paulo Gracindo, Fernanda Montenegro, Regina Casé, Luiz Fernando Guimarães, Zezé Motta, Stênio Garcia, Fernando Torres. 

  • Playtime – Tempo de diversão

    “Dou risada quando dizem que Playtime não tem estrutura”, disse Jacques Tati, em resposta às críticas que recebeu sobre o filme. A obra consumiu três anos de filmagens, com a construção de cenários gigantescos nos arredores de Paris, incluindo a réplica do aeroporto. O diretor tentou junto à prefeitura, sem sucesso, que a cidade cenográfica permanecesse como ponto turístico da capital francesa.  

    Dividido em seis partes, Playtime narra os encontros e desencontros de uma turista americana e o personagem interpretado por Tati, francês assombrado pela modernidade da cidade. Tati disse que aplicou ao filme sua visão das cidades modernas, que se igualaram quando optaram pela construção de complexos centros turísticos, tentativa de fascinar e oferecer o máximo de conforto e deslumbre aos visitantes. Em Playtime, a arquitetura do aeroporto motiva todos a andarem em linha reta. O restaurante que abre suas portas no dia do término das reformas provoca uma série hilária de acidentes envolvendo tetos de gesso, cadeiras e a porta de vidro. 

    “É como um balé. No começo, os personagens sempre andam alinhados com a arquitetura. Nunca fazem curvas. Vem e vão em linhas retas. Mas quando mais nos adentramos no filme, mais as pessoas começam a dançar e girar, até se tornarem um círculo.” – Jacques Tati.

    A sequência final é antológica: após a noite de peripécias no restaurante, levando todos à exaustão física e psicológica, a cidade amanhece. Enquanto alguns vão à padaria tomar o café da manhã, os turistas americanos embarcam de volta para o aeroporto, outros tomam seus carros. Todos se envolvem em um congestionamento que provoca o giro dos automóveis na praça, num carrossel simétrico, verdadeiro balé aos olhos do espectador. 

    É a obra-prima do diretor, verdadeiro delírio visual, recheado de metáforas sobre a modernidade das cidades e como afetam nossas vidas. ”Quero que o filme comece quando você sai do cinema.”. Afirmou Jacques Tati. Sobre a estrutura narrativa de Playtime, Tati comentou.  

    “Eu não sentia a necessidade de escrever um roteiro com o enredo, surpresas, reviravoltas e desfechos de sempre. Tais convenções não são necessárias para se fazer um filme. Filmes sempre expressam histórias bem estruturadas. Não podemos deixar isso de lado ao menos uma vez? É justamente porque o público não espera saber se ocorrerá um assassinato, estupro, um beijo ao luar, um resgate, a identidade de um estranho ou de um assassino, que eles têm tempo para rir e eu posso incluir várias piadas.”

    Playtime – Tempo de diversão (Playtime, França, 1967), de Jacques Tati. Com Jacques Tati, Barbara Dennek, Billy Kearns.

  • Oliver Twist

    A adaptação literária para o cinema sempre suscita controvérsias, principalmente de livros de autores consagrados como Charles Dickens. O livro Oliver Twist foi publicado no formato de folhetins, episódios mensais em jornais, portanto, já com uma estrutura que se adequa ao cinema, com as viradas na narrativa. 

    Na adaptação feita em 1948, David Lean, junto com o roteirista Stanley Haynes, respeitou a essência da história. Uma jovem mulher dá à luz a um menino e morre em seguida. A criança ganha o nome de Oliver Twist e é criada em um reformatório, sofrendo com trabalhos forçados, alimentação precária e castigos físicos. Com nove anos, Oliver foge para Londres e cai nas mãos de Fagin, bandido que controla uma gangue de meninos que roubam nas ruas da cidade. A questão da pobreza, da marginalidade de adultos e crianças nas ruas, de um sistema religioso cruel e punitivo, são pontos evidentes de críticas na obra de Dickens. 

    David Lean sempre foi adepto do cinema clássico, buscou contar histórias bem estruturadas, respeitando os princípios da narrativa de gênero e privilegiando a força das imagens. Nesse sentido, vale a pena se debruçar sobre duas sequências que diferem do livro e tratam de aspectos simbólicos e do uso da linguagem audiovisual. 

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  • Pedras de Acapulco

    Meu pai era um homem magro, leve. Nadava com elegância, como se flutuasse milímetros acima da superfície, a cabeça submersa, os braços entrando e saindo ritmados da água sem fazer barulho, sem espirrar água para os lados.

    Lembrança da infância: meu pai no alto do trampolim do clube, altura de cerca de 10, 12 metros. Ele olha a última vez para baixo, abre os braços, se deixa cair do trampolim com os braços esticados acima da cabeça, salto na diagonal, como se deixasse o peito resistir ao ar para se preservar no voo durante um tempo maior. O pai entra na água com a elegância de sempre, sem muito barulho, sem muita água espirrando, e emerge menos de dois segundos depois. Salto bonito. Imagem que mais parece recriação fantástica de menino  – lembranças da primeira infância sempre se confundem com fantasia.

    Muito tempo depois, o filho já adolescente repete o ritual em uma cachoeira na Serra do Cipó, do alto de uma pedra. Subo atrás do pai pela encosta rochosa até o patamar, espécie de plataforma lapidada por milênios. Grande poço de águas turvas se forma debaixo da queda d’água. Chego à beira da pedra e sinto medo. Recuo.

    – Você não vai pular? – pergunta o pai.

    – Só se você pular primeiro.

    Ele posiciona-se na ponta da plataforma, abre os braços e pouco depois aparece na água escura, pequeno lá embaixo. O pai acena para mim como a dizer “não tenha medo”.

    Eu já saltara de vários lugares, de trampolins, de pedras. Domingos da minha infância e adolescência eram frequentemente domingos em piscinas, rios. O pai saltando e nadando com os filhos, presença segura apesar da inconsequência que hoje sinto nessas disputas entre pais e filhos. A mãe rezava, dava para ver pela sua expressão que ela rezava e maldizia o marido por instigar os filhos a essas loucuras. No fim do dia, voltávamos para casa, o pai calado ao volante do carro ouvindo a mãe bradar que nunca mais sairíamos a passeio em busca de rios e cachoeiras. Mas no outro fim de semana lá estava ela, cedo cedo preparando o almoço, o pão com salame, apressando todo mundo.

    Hesito novamente no alto da pedra. Eu nunca saltara de altura assim. O pai, ainda na água, acena, como a mostrar que é seguro. Naquela hora, os pés quase tocando o vazio, as pedras, a água, o medo,  finalmente entendi o fascínio que o pai sentia por alguns filmes.

    – Você já assistiu O Seresteiro de Acapulco? – o pai acaba de encher o copo de cerveja, bebe mais um gole e continua  – O filme é passado em Acapulco, no México. Quase no final, Elvis Presley sobe no penhasco, o mar embaixo, garganta d´água entre as rochas. Ele tinha que vencer o medo da altura. Chega na beirada e salta, os braços abertos. É uma cena maravilhosa. – ouvi essa narração repetidas vezes e mesmo já tendo assistido ao filme, deixava que ele a contasse novamente.

    Deixo o corpo despencar no vazio. Os braços abertos buscam equilíbrio, o corpo ligeiramente na diagonal vence a resistência do ar até bater na água e submergir rapidamente. O medo dá lugar à sensação de juventude. Olho para os lados tentando decifrar olhares de admiração. O primeiro olhar que vejo é do rosto de meu pai bem perto de mim, sorrindo.

  • Amarga esperança

    Nicholas Ray foi amado, talvez idolatrado, pelos jovens críticos da Cahiers du Cinema e posteriormente diretores consagrados da nouvelle vague francesa. Jean-Luc Godard chegou ao extremo de afirmar: “Houve o teatro (Griffith), a poesia (Murnau), a pintura (Rossellini), a dança (Eisenstein), a música (Renoir). Doravante, há o cinema. E o cinema é Nicholas Ray”. A própria teoria do autor, defendida pelos críticos franceses, encontrou em Nicholas Ray uma de suas principais referência: 

    “Acho que o que nos atraiu foi que havia algo europeu neste diretor de Hollywood. E o que havia de Europeu? Talvez a fragilidade e vulnerabilidade dos personagens principais. Apesar de ele rodar muito com astros como John Wayne ou Humphrey Bogart, seus personagens masculinos não eram machões. Havia uma grande sensibilidade, principalmente no tratamento das histórias sentimentais que dava uma impressão de grande realismo. Numa época em que o cinema de Hollywood não era pessoal ou autobiográfico tínhamos sempre a impressão de que as histórias de amor nos filmes de Nicholas Ray eram histórias reais.” – François Truffaut. Sobre a admiração incondicional pelo cinema de Nichoas Ray, Traffaut completa, em depoimento para um documentário: “Eu já disse uma vez, e repito para esta câmera. Eu disse que um filme como Johnny Guitar teve mais importância na minha vida do que na de Nicholas Ray.”

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  • Tabu

    Antes mesmo das filmagens, Tabu já apresenta uma história de amor: em 1929, Murnau realiza seu sonho de comprar um iate, nomeado de Bali. Assim, conseguiria realizar seu sonho de juventude, conhecer os mares do sul e, ao mesmo tempo, reencontrar seu amado Walter Spies que vivia em Bali.

    Junto com o documentarista Robert Flaherty, Murnau chega em Bali em 29 de julho de 1929. Flaherty começa a trabalhar no projeto de um filme chamado Turia, filmando cenas de praias e dos nativos nas cachoeiras. A película seria produzida pela Colorart, no entanto, a produtora faliu durante o crash da bolsa de Nova Iorque. Murnau escreve, então, o roteiro de Tabu e decide financiar o filme. Ele contrata o diretor de fotografia Robert Crosby para substituir Flaherty, com quem o diretor se desentendeu. 

    A trama de Tabu segue os passos de dois nativos, Matahi e Reri, jovem virgem que é escolhida pela tribo para servir aos Deuses, sob os cuidados do velho sacerdote Hitu. Matahi sequestra Reri, os dois fogem para outra ilha, onde os brancos exploram pérolas, colonizando os nativos com objetivos de exploração econômica. Matahi se revela exímio mergulhador, o casal vive algum tempo num idílio amoroso. No entanto, a figura do velho sacerdote persegue-os, até o final trágico. 

    Robert Flaherty queria produzir um documentário sobre a exploração dos nativos pelo homem branco. Murnau, ao contrário, imprimiu um estilo estético ao filme baseado em pinturas alemãs, pedindo aos atores que imitassem as poses dos quadros. Os movimentos também deveriam se parecer com uma dança, estilo chamado por Murnau e Spies de “cinematografia arquitetônica”. Flaherty não gostou do resultado, pois acreditava na verdade dos documentários. Ele disse que “o estilo de Murnau não passava de uma espantosa manipulação.”

    O erotismo está presente em grande parte das tomadas de Tabu, principalmente no início, quando os nativos praticam alegremente a pesca. Os gestos coreografados destilam beleza e sensualidade nas cenas aquáticas. 

    “A sensação de puro regozijo dessas imagens prolonga-se na sequência seguinte, quando vemos a aproximação entre Matahi e Reri, o surgimento entre eles de um amor pleno, físico e que se exibe sem nenhum pudor. Toda essa parte é feita de movimentos incessantes na forma de saltos, lutas, danças e nados, de fluxos que reforçam o sentimento de alegria.” – Cássio Starling Carlos

    O estilo expressionista de Murnau contrapõe essa alegria erótica e inocente quando as sombras projetadas no rosto do sacerdote Htu, o velho que condena Reri ao Tabu, representam forças ocultas e sombrias que exigem o sacrifício dos amantes. O silencioso Htu, de olhar penetrante e aterrador, é como uma maldição que se interpõe no caminho dos jovens.

    Assim como o destino dos dois jovens amantes de Tabu, a relação entre Walter Spies e Friedrich Wilhelm Murnau, o mítico diretor do expressionismo alemão, responsável por obras-primas como Nosferatu (1922), A última gargalhada (1924), Fausto (1926) e Aurora (1927), seguiu caminhos trágicos após a conclusão das filmagens. Em 11 de março de 1931, uma semana antes da estreia de Tabu, Murnau morreu em um acidente de carro em Santa Mônica, Califórnia. Tinha 42 anos.  

    “Após auxiliar Andre Roosevelt na produção do longa Kriss, em 1928, Walter Spies produziu um novo filme que ele gostaria de ter dirigido com Murnau em Bali, A ilha dos demônios. Após a morte de Murnau, o filme foi concluído, apresentando Bali como o paraíso que ele e Murnau sempre sonharam.  Posteriormente, Spies foi preso e acusado de homossexualidade e pederastia. Ele passou muitos anos na prisão. Em 1942, durante a Segunda Grande Guerra, o navio no qual ele havia sido deportado de Bali foi atingido por um torpedo próximo ao Ceilão. Spies morreu afogado tal como o herói Matahi, que no filme de Murnau morre afogado após lutar contra tabus religiosos e morais.” – extraído do documentário “Uma obra em criação”. 

    Tabu (EUA, 1931), de F. W. Murnau. Com Matahi, Reri, Hitu, Bill Bambridge. Referência: Coleção Folha Grande Diretores do Cinema. F. W. Murnau – Tabu. Carlos Starling Carlos e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018

  • Face a face

    É um dos filmes mais pesados, difíceis de assistir de Bergman, mas, ao fim, dialoga com nossas angústias mais profundas. Jenny Isaksson (Liv Ullmann) é psiquiatra, seu caso atual é uma jovem com tendências suicidas que a agride verbalmente. Jenny vai passar um tempo com os avós, na casa de sua infância, e tem visões noturnas com uma anciã, possivelmente sua falecida mãe. A rotina de Jenny é marcada por encontros com personagens que, assim como a médica, sofrem de perturbações.

    Bergman filma tudo com uma câmera distante, quase documental. Na forte sequência em que Jenny é estuprada em um apartamento, o diretor posiciona a câmera fora do quarto, filmando pela porta aberta, deixando em quadro um homem em pé que assiste a tudo impossível e as pernas da médica que se debatem durante o ato. 

    A complexa intensidade da mente humana, muitas vezes reprimida, permeia toda a narrativa. Em pauta temas como a inutilidade do tratamento psiquiátrico,  tentativas de se libertar através de ousadas incursões físicas, a mente que não acompanha a decrepitude do corpo, busca desesperada de salvação que leva à tentativas do ato extremo. Resta ao espectador assistir e se entregar às suas próprias e incompreensíveis angústias.  

    Face a Face (Face to face, Suécia, 1975), de Ingmar Bergman. Com Liv Ullmann, Erland Josephson, Aino Taube, Gunnar Bjornstrand.