• Rock’n roll: por trás da fama

    O diretor e roteirista Guillaume Canet é casado com Marion Cotillard. Na ousada proposta de Rock’n roll: por trás da fama, os dois interpretam a si mesmos, provocando uma crítica feroz à necessidade de se manter como astros famosos no universo do audiovisual. 

    Durante gravação de sequência do filme no qual está trabalhando, o astro Guillaume Canet é chamado de velho por atriz mais nova. Incomodado com a acusação e temeroso de não conseguir mais bons papéis no cinema, o ator busca técnicas de rejuvenescimento corporal. Enquanto isso, Marion Cotillard está em casa treinando sotaque para seu novo filme. 

    As transformações físicas de Canet rendem cenas engraçadas, assim como as preparações de Marion Cottilard. O desgaste do relacionamento pontua a trama e o final do filme reserva uma virada que aponta para a angústia que domina grande parte de homens e mulheres, famosos e comuns: os dilemas do envelhecimento. 

    Rock’n roll: por trás da fama (Rock’n roll, França, 2016), de Guillaume Canet. Com Guillaume Canet, Marion Cotillard, Gilles Lelouche, Ben Foster. 

  • As duas Irenes

    A clássica história do caixeiro viajante dá origem a uma instigante narrativa. Tonico trabalha viajando pelo interior. Tem duas famílias em cidades vizinhas, duas filhas de 13 anos em cada família com o mesmo nome: Irene. Irene de Mirinha descobre o segredo do pai e começa a se relacionar com a outra Irene, sem que ela saiba.

    A amizade entre as irmãs ganha o belo contorno das descobertas da adolescência. A época é indefinida mas ainda não existem os smartphones e os massacres das redes sociais. As duas Irenes vivem o cotidiano da vida do interior, em praças, coretos, cinema. O contraponto é o perigoso mundo adulto, Tonico vive no limite com suas mulheres, com as filhas. Uma virada de roteiro encaminha o filme para um final carregado de metáforas, quando as personalidades podem se confundir.  

    As duas irenes (Brasil, 2017), de Fabio Meira. Com Priscila Bittencourt (Irene de Mirinha), Isabela Torres (Isabela de Neuza), Marco Ricca (Tonico), Suzana Ribeiro (Mirinha), Inês Peixoto (Neusa), Teuda Bara (Madalena). 

  • Bacurau

    O cenário é uma cidadezinha no meio do sertão nordestino. O tempo, futuro indefinido. Teresa está na boleia de um caminhão ao lado do motorista. Passam por caixões jogados na estrada, caídos de outro caminhão, por uma represa abandonada, chegam à Bacurau, onde acontece o funeral da velha Carmelita. Depois do enterro, dois motoqueiros chegam à cidade e partem em seguida. A partir daí, estranhos acontecimentos assolam os moradores: a cidade desaparece do mapa, drone em forma de disco voador sobrevoa a estrada, família de colonos é encontrada assassinada. 

    A sinopse demonstra as influências da película do premiado diretor Kleber Mendonça Filho (O som ao redorAquarius), dessa vez contando com a co direção de Juliano Dornelles: o clássico gênero faroeste americano aliado ao faroeste do sertão recheado de ideologias de Glauber Rocha, além de filmes de futuros distópicos ao estilo Mad Max. Quando entra em cena o grupo de caçadores humanos liderados por Michael, pode-se enxergar também referências ao Predador. Nesse ambiente caótico, acontecem confrontos violentos, colocando os pistoleiros Lunga e Michael em planos opostos. A leitura ideológica coloca também em planos opostos classes distintas, a elite voraz e sanguinária mirando a gente pobre do sertão. Resta aos oprimidos a mesma violência, todos de armas em punho, destino eterno da sociedade que vive sempre à beira da guerra civil.  

    Bacurau (Brasil, 2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Com Barbara Colen, Sônia Braga, Karine Telles, Udo Kier, Silvero Pereira. 

  • Gosto se discute

    chef Augusto é dono de restaurante e se vê diante de diversos problemas. Um ex-funcionário monta um food truck na porta de seu estabelecimento, roubando a freguesia. Cristina é designada pelo banco credor de Augusto como auditora, assume a direção do restaurante exigindo diversas mudanças, inclusive no cardápio. Para completar, o chef perde o paladar.  

    Gosto se discute aproveita a ascensão da gastronomia para compor narrativa com toques de comédia romântica. O confronto entre Augusto e Cristina assume os clichês das brigas e flertes do gênero. Os diálogos entre Augusto e o Dr. Romualdo são o melhor do filme. 

    Gosto se discute (Brasil, 2017), de André Pellenz. Com Cássio Gabus Mendes (Augusto), Kéfera Buchmann (Cristina), Gabriel Godoy (Patrick), Paulo Miklos (Dr. Romualdo).

  • Pendular

    Casal formado por artista plástico (Rodrigo Bolzan) e dançarina (Raquel Karro) vai morar em um galpão com a intenção de fazer das instalações ao mesmo tempo moradia e espaço para intervenções artísticas. A narrativa mistura dramas cotidianos do casal, incertos ante a possibilidade de terem filhos, com experimentações artísticas. As intervenções artísticas de Rodrigo Bolzan compõe com potência o cenário do filme. No entanto, o fascínio fica por conta da dançarina. Raquel Karro interage com as experimentações do marido e com o grande espaço do ambiente em números de dança solitários e fascinantes. 

    Pendular (Brasil, 2017), de Júlia Murat. Com Raquel Karro, Rodrigo Bolzan, Valeria Barreta, Renato Linhares.

  • Dona Flor e seus dois maridos (2017)

    A relação entre cinema e televisão no Brasil dá o tom da segunda adaptação do clássico romance de Jorge Amado. Além dos atores globais, o diretor Pedro Vasconcelos também se criou na direção de novelas. A história é mais do que conhecida, principalmente depois da antológica adaptação protagonizada por Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça.  

    Agora, Juliana Paes destila erotismo no papel de Flor, mas Marcelo Faria rouba as cenas quando volta do além pelado para provocar a mulher. O ponto fraco é Leandro Hassum, pois Teodoro exige uma interpretação contida o que não combina com o ator. As ousadas cenas eróticas provocam o espectador que, mais uma vez, se entrega aos prazeres deste irreverente triângulo amoroso. 

    Dona Flor e seus dois maridos (Brasil, 2017), de Pedro Vasconcelos. Com Juliana Paes (Flor), Marcelo Faria (Vadinho), Leandro Hassum (Teodoro).

  • Feito na América

    Certas histórias reais são mais surpreendentes que o mais surpreendente roteiro. É o caso da vida de Barry Seal (Tom Cruise), piloto de avião comercial em crise financeira. Ele é recrutado pela CIA para registrar imagens aéreas da Colômbia, vira traficante de drogas a serviço do Cartel de Medellín, é convencido a fazer papel de agente duplo pelo DEA (departamento que combate o tráfico de drogas nos Estados Unidos). Para completar, o piloto se envolveu no escândalo Irã-Contras durante o governo Reagan: armas que seriam vendidas ao Irã foram desviadas para financiar o treinamento dos Contras, milícia que combatia o governo Sandinista na Nicarágua. 

    O diretor Doug Liman conta esta complexa história com altas doses de aventura e ousadas sequências no avião pilotado por Barry Seal. Tom Cruise compõe um personagem que vive no limite, vai da crise financeira ao enriquecimento fácil, à falência e precisa lidar com ameaças vindas de todos os lados. O final deste personagem, claro, não poderia ser feliz. 

    Feito na América (American made, EUA, 2017), de Doug Liman. Com Tom Cruise, Domhall Gleeson, Sarah Wright, Caleb Landry Jones. 

  • A vilã

    A sequência inicial é de tirar o fôlego e digna de reverência ao atual cinema asiático: alguém entra em um prédio, a câmera em visão subjetiva mostra lutas coreografadas, personagens em sequência entram em combate e são trucidados passo a passo. No final, o espectador descobre que a assassina é Sook-hee, a vilã do título, em busca de vingança. 

    Sook-hee foi treinada desde criança para ser assassina e seu passado esconde um trauma: ela assistiu ao assassinato do pai. Romance, ação, violência, sangue em profusão se misturam na trama à medida que a jovem trilha seu caminho de vingança. Flasbacks tentam elucidar a trama, mas a narrativa se mostra intrincado quebra-cabeça. Resta se entregar às impressionantes sequências de ação, com destaque para o longo ataque em visão subjetiva do início do filme. 

    A vilã (Ak-Nyeo, Coréia do Sul, 2017), de Jung Byung-Gil. Com Kim Ok-Bin, Shin Ha-Kyun, Sung Jun. 

  • Cleo das 5 as 7

    BBC Culture lançou lista dos 100 melhores filmes realizados por mulheres. O piano (1993), de Jane Campion, lidera. Em seguida vem Cléo de 5 às 7. A cineasta francesa Agnés Varda tem seis filmes na lista dos 100 melhores. 

    Cléo de 5 às 7 é dos mais importantes filmes da nouvelle vague francesa. A trama acompanha duas horas na vida da cantora Cléo (Corinne Marchand), enquanto ela aguarda o resultado de exame médico que pode atestar ou não um câncer. A caminhada da cantora pelas ruas de Paris é marcada pela irreverência estilística típica do movimento que revolucionou o cinema. 

    “Como está claro no título, Varda escolheu acompanhar a angústia de Cléo praticamente em tempo real, levando em conta, portanto, a emergência e as técnicas do ‘cinema direto’. A casualidade da narrativa permite que a ficção se funda ao documentário enquanto a jovem vaga pela Rive Gauche de Paris, principalmente pelos arredores da estação de trem de Montparnasse, acompanhada por atordoantes travellings. Mas o realismo de Varda também é capaz de gerar emoções poderosas ao mostrar em um crescendo os sinais da lenta agonia gravada no rosto de sua protagonista.”

    Cléo de 5 às 7 (Cléo de 5 à 7, França, 1962), de Agnés Varda. Com Corinne Marchand, Antoine Bourseiller, Dominique Davray, Dorothée Blank.

  • O sacrifício do cervo sagrado

    O grego Yorgos Lanthimos faz releitura de Ifigênia, tragédia de Eurípides, na qual Agamenon é obrigado a sacrificar um filho por ter matado um cervo sagrado. Steven Murphy é cirurgião cardiologista e tem estranha relação com o filho adolescente de um paciente. As poucos, o espectador desvenda o mistério por trás da relação que envolve cobrança e justiça por erros cometidos no passado. 

    Steven é casado com a também médica Anna; o casal tem dois filhos. Quando o amigo adolescente de Steven é inserido no seio familiar, a trama caminha para a previsível anunciação estampada no título do filme, com direito a final perturbador que exige controle de nervos do espectador. 

    Estranheza é o que se pode esperar de O sacrifício do cervo sagrado. Além da inserção de metáforas bíblicas na narrativa, os atores trabalham com a não-interpretação, agindo quase como autômatos entregues ao destino. Barry Keoghan, no papel do adolescente Martin, é a grande surpresa do filme. 

    O sacrifício do cervo sagrado (The killing of a sacred deer, Inglaterra, 2017), de Yorgos Lanthimos . Com Colin Farrell (Steven Murphy), Nicole Kidman (Anna Murphy), Barry Keoghan (Martin), Raffey Cassidy (Kim Murphy), Sunny Sujic (Bob Murphy), Alicia Silverstone (Mãe de Martin). 

  • Deslembro

    Deslembro trata com sensibilidade da história recente do Brasil que o atual governo insiste em negar: a ditadura militar. A adolescente Joana vive em Paris com a mãe e reluta em voltar ao Brasil após a anistia política. No Rio de Janeiro, ela conhece a avô Lucia e passo a passo vai se entregando as memórias de criança, quando o pai vivia na clandestinidade e acabou preso pelos militares. Foi considerado desaparecido, seu corpo nunca foi encontrado. Um fato atesta a crueldade desta condição: a turma escolar de Joana vai participar de excursão a Ouro Preto; a garota precisa da autorização dos pais, mas como não tem o atestado de óbito do pai é impedida de viajar. 

    A narrativa parte das próprias memórias da diretora Flávia de Castro. Em 1972, seus pais tiveram que deixar o Brasil, história retratada no documentário Diário de uma busca (2011). A fotografia é dos pontos de destaque de Deslembro. Em Paris as cores são vibrantes, no Rio de Janeiro a fotografia ganha um tom frio; o tratamento da imagem também remete ao cinema dos anos 70/80. Jeanne Boudier faz sua estreia como atriz, tratando a personagem com as dubiedades próprias da adolescência: revolta, compreensão; carinho e raiva pelos familiares; deslumbre com o novo país, com a descoberta da sexualidade. O tom político ganha força com o padastro chileno e, principalmente, nas memórias da avó Lúcia sobre o filho desaparecido.

    Deslembro (Brasil, 2018), de Flávia Castro. Com Jeanne Boudier (Joana), Sara Antunes (mãe), Eliane Giardini (Lúcia). 

  • Nosso ex-marido

    A diretora alemã Margarethe von Trotta investe no relacionamento de duas mulheres para compor retrato da sociedade ainda marcada pelo domínio dos homens no destino de ex-esposas. Jade é promissora designer de moda, vive em um luxuoso apartamento em Nova York deixado por Nick quando da separação (ele a trocou por uma jovem beldade). De repente, Maria, a primeira mulher de Nick, exige morar no apartamento, pois também tem direitos. Por fim, Antonia, filha de Maria e Nick, chega ao apartamento em busca de trabalho na metrópole americana. 

    O convívio diário entre as mulheres rende situações às vezes cômicas, outras vezes dramáticas. Enquanto Jade luta pela ascensão profissional, inserindo Antonia em seu cotidiano de trabalho, Maria aceita sua condição de aposentada, cuidando dos afazeres domésticos, além de trabalhos na área acadêmica. Os conflitos permeiam a trama com direito a final irreverente.  

    Nosso ex-marido (Forget about Nick, Alemanha, 2017), de Margarethe von Trotta. Com Ingrid Bolso Berdal (Jade), Katja Riemann (Maria), Haluk Bilginer (Nick), Tinta Fursk (Antonia).

  • Todas as razões para esquecer

    A comédia romântica segue os passos de Antônio, após tomar fora da namorada. Ele tenta retomar a vida com naturalidade, mas sofre com a perda e solidão e se entrega a tentativas de se reencontrar e encontrar novos relacionamentos.

    O roteirista e diretor Pedro Coutinho insere na trama situações cômicas que trazem também reflexão sobre a busca incessante da juventude. Terapia, antidepressivos, relações pelas redes sociais como Tinder, festinhas regadas a álcool e relacionamentos fortuitos. O tom cômico ganha força nas sessões de terapia de Antônio; a terapeuta diverte com seus dilemos sobre sexo.  

    Todas as razões para esquecer (Brasil, 2018), de Pedro Coutinho. Com Johnny Massaro (Antônio), Bianca Comparato (Sofia), Regina Braga (Elisa). 

  • O nome da morte

    No final do filme, lettering anuncia: “Júlio Santana assumiu ter assassinado 492 pessoas. Nunca foi julgado ou condenado por seus crimes. Ele esteve preso uma única vez, mas foi solto no dia seguinte. Atualmente, Júlio e a mulher vivem num sítio no interior do Brasil. Sempre que tem pesadelos, ele reza dez Ave-Marias e vinte Pais-Nossos.” 

    Baseado no livro O nome da morte, de Klester Cavalcanti, o filme narra a trajetória de Júlio Santana pelo mundo dos assassinos de aluguel. No início, ele vive no interior de Goiás, em pequena propriedade ao lado dos pais e irmãos. Leva vida pacata até que o tio, policial, convence Júlio a entrar para a polícia – na verdade, fachada para uma máfia de assassinos da qual o tio faz parte. 

    A trama abre espaço para os conflitos do protagonista à medida que se entrega ao seu destino de matador. A relação com a esposa é outro aspecto interessante, pois uma intrigante elipse revela que conforto e dinheiro podem ser decisivos para transformações de personagens. 

    O nome da morte (Brasil, 2017), de Henrique Goldman. Com Marco Pigossi (Júlio), André Mattos (Cícero), Gillray Coutinho (Santos), Fabíula Nascimento (Maria). 

  • Depois daquela montanha

    É a tradicional história de sobrevivência, da luta dos humanos contra a natureza incremente. A jornalista Alex e o cirurgião Ben se encontram no aeroporto e são surpreendidos com o cancelamento do voo. Eles precisam chegar ao destino com urgência: a jornalista porque está com casamento marcado e o médico para realizar uma cirurgia de emergência. Os dois decidem fretar um pequeno avião e a nevasca nas montanhas provoca a queda. Alex, Ben e um cachorro labrador sobrevivem, resta ao trio caminhar pela neve, enfrentando os perigos da natureza fria e selvagem. 

    A trama segue os desafios da jornada e abre espaço para o crescente relacionamento amoroso dos protagonistas. A força do filme está no talento de Kate Winslet e Idris Elba, dois grandes atores que seguram a narrativa.

    Depois daquela montanha (The mountain between, EUA, 2017), de Hany Abu-Assad. Com Kate Winslet (Alex), Idris Elba (Ben). 

  • Audrey

    Impossível não se emocionar assistindo à Audrey, documentário que retrata uma das atrizes mais fascinantes, dentro e fora das telas, deste maravilhoso cinema clássico americano. O filme traz depoimentos de familiares e amigos da atriz, como Sean Hepburn-Ferrer, Emma Ferrer, Richard Dreyfuss, Clare Waight Keller, John Loring. 

    Os depoimentos reconstituem a infância de Audrey, quando ela sofreu com os horrores da ocupação nazista na Holanda, vivendo, inclusive, em estado de desnutrição. Foi abandonada pelo pai que se aliou às fileiras nazistas. A vida pessoal da atriz é pontuada ao longo de sua carreira, passando pelos casamentos desfeitos, pelo reencontro com o pai, com destaque para sua atuação como Embaixadora da Unicef. 

    Os sofrimentos de Audrey durante a segunda guerra mundial, as frustrações de seus relacionamentos amorosos,  seu engajamento fervoroso na luta pelas crianças famintas da África e, finalmente, a batalha contra o câncer que a vitimou, são entrecortados pelas belas imagens da carreira da atriz. Imagens eternas: a princesa que passeia liberta pelas ruas de Roma, a filha de um motorista que se transforma em Paris e seduz dois ricos irmãos, a mendiga que ressurge como a mais bela dama, a garota de programa com seu ar ingênuo diante da joalheria e mais, muito mais – poderíamos ficar descrevendo quase sem fim as aparições luminosas de Audrey Hepburn no cinema e em nossa vidas. Melhor assistir ao documentário e correr para rever os filmes.  

    Audrey (EUA, 2020), de Helena Coan. 

  • Alexander Nevsky

    Eisenstein começou a produção de Alexander Nevsky no momento em que a Alemanha invadiu a Áustria e a Tchecoslováquia, espécie de encomenda do governo de Stalin contra o projeto nazista. O filme, portanto, se enquadra no “realismo socialista”, marcado por obras acessíveis ao grande público, de forte teor ideológico na propagação dos ideais socialistas. Muitos dos filmes deste período traziam tramas passadas em momentos de conflitos históricos, com mensagens edificantes, esperançosas. 

    Alexander Nevsky se passa no século 13, quando a Rússia lutava contra cruéis conquistadores. O famoso estrategista Alexander está refugiado em uma aldeia de pescadores, logo após vencer o exército mongol, quando é recrutado para liderar o exército contra os germânicos, que invadiram a Rússia e rumam para a poderosa cidade de Novgorod. 

    Eisenstein usa a figura mitológica e fascinante de Alexander para tratar dos horrores da guerra, espécie de alerta para o que estava por vir com o crescente poderio nazista. A espetacular sequência de batalha no lago congelado está entre as mais impressionantes da história do cinema, quase uma ópera brutal, embalada pela música arrebatadora de Sergei Prokofiev. 

    Alexander Nevsky (Rússia, 1938), de Sergei Eisenstein. Com Nicolay Cherkasov (Alexander Nevsky), Nikolai Okhlopkov (Vasili), Andrei Abrikosov (Gabrilo), Aleksandra Danilova (Vasilisa), Valentina Ivashova (Olga).  

  • O leão de sete cabeças

    A trama descosturada do filme se passa em um país africano do qual não sabemos o nome. No entanto, as maquinações ideológicas dos personagens apontam para países que conhecemos da África, da América do Sul, Central e de outros recantos. O país é governado por um homem aparentemente germânico que tem como aliados na exploração da população um agente americano, um comerciante português e Marlene, uma loura idolatrada pela população. Um padre branco transita por todos, oscilando entre a apatia e o ódio brutal. A resistência está personificada no líder rebelde que lembra Che Guevara e no negro chamado Zumbi. 

    O primeiro filme de Glauber Rocha após o exílio durante a ditadura militar brasileira contou com financiamento francês e apresentou ao mundo a verve rebelde, avessa à narrativa convencional deste que ainda é o maior diretor brasileiro de todos os tempos. 

    “Deliberadamente esquemática, a intriga mobiliza personagens que encarnam agentes históricos da colonização africana sem ganharem espessura psicológica. Suas sequências quase autônomas se alternam com cenas de dança tradicional dos autóctones que interrompem o fio narrativo e afirma a força das culturas africanas. O filme inteiro se constrói por contraposições entre relato e dança, política e mito, colonizador e colonizado, indivíduo e coletividade. Rocha soube explorar nas filmagens a diversidade do elenco, em que atores de prestígio (Léaud, Rassimov, Carvana) interagem com não profissionais e pessoas comuns do Congo. Se a língua francesa predomina no som, ouvem-se também falas ou cantos em inglês, português, alemão e em língua local. Vários idiomas convivem também no título original ‘Der leone have sept cabeças’, que remete aos países colonizadores da África (Alemanha, Itália, Inglaterra, França, Portugal, Bélgica, Holanda) mas sugere, no desacordo gramatical entre sujeito e verbo, que o Leão da história é plural – designa o colonizador com suas sete vidas, mas também o colonizado, igualmente tenaz.” – Mateus Araújo

    O leão de sete cabeças (Der leone have sept cabezas, França/Brasil, 1971), de Glauber Rocha. Com Rada Rassimov (Marlene), Giulio Brogi (Pablo), Hugo Carvana (Português), Jean-Pierre Léaud (Padre), Gabriele Tinti (Agente americano). 

    Referência: Glauber Rocha. O leão de sete cabeças. Coleção Folha Grandes Diretores no Cinema. Mateus Araújo Silva e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018

  • A grande ilusão

    A obra-prima de Jean-Renoir, considerado um dos filmes mais humanistas de todos os tempos, passou por revisões de acordo com o contexto histórico. A trama acontece em dois campos de prisioneiros alemães, durante a primeira guerra mundial, onde estão presos soldados franceses e ingleses. Na primeira parte, em um quartel, na segunda, em um suntuoso castelo. O capitão Pierre Fresnay e o Tenente Marechal guiam os homens em tentativas de fuga. Neste contexto, se desenvolve o grande tema da película: a fraternidade, solidariedade entre soldados de raças e classes distintas, todos irmanados pela tragédia da guerra. 

    Não há cenas de trincheiras, tiroteios, assassinatos em massa. Prisioneiros e carcereiros interagem com compreensão sobre os papéis de cada um na guerra, cumprindo com seus deveres, servindo nobremente às suas nações, mas solidários no sofrimento e na ilusão de que tudo passará rápido. 

    O Capitão alemão von Rauffenstein e o Capitão francês Boeldieu se aproximam em respeito mútuo, pois fazem parte da mesma classe social aristocrática. Diferenças raciais também são tema da película. O judeu Rosenthal convive com os soldados ouvindo agressões verbais, mas o companheirismo supera tudo, como na emocionante cena na neve, quando Marechal e Rosenthal estão quase se entregando ao destino. “Renoir aproveita o poder ilusório da arte para demonstrar como os homens poderiam ser. Por isso, seus personagens podem estar em posições distintas, sem que isso implique oposição ou impulso de aniquilar o outro.” – Cássio Starling Carlos. 

    Lançado em 1937, A grande ilusão arrebatou público e crítica como um libelo contra a guerra, capaz de receber elogios da direita e da esquerda. Nos países fascistas, claro, o filme foi proibido, pois a segunda grande guerra já se avizinhava, justificando de vez o título do filme. 

    Depois dos horrores nazistas, mesmo na França o filme sofreu cortes, pois já não era possível apelar para a fraternidade entre alemães e franceses. Críticas severas e infundadas acusaram até mesmo Renoir de incentivar o antisemistismo. Em vários momentos, os ataques à Rosenthal refletem a realidade da sociedade francesa, mas Renoir deixa claro que o companheirismo entre os soldados leva a necessidade urgente de integrar os judeus. 

    Renoir afirmou diversas vezes que o filme é totalmente baseado na realidade, em sua experiência na guerra e em relatos de outros soldados, afirmando seu apego ao cinema realista. Os diálogos são primorosos e foram reescritos durante as filmagens, pois todos já tinham consciência de uma nova tragédia pairando no ar. Renoir também reescrevia no set cenas importantes da trama, contando com a participação de sua secretária François Giroud, que depois se tornaria famosa roteirista, com vigorosa carreira no jornalismo e na política, chegando à Secretaria de Estado da Cultura do governo francês nos anos 70. 

    Sobre o roteiro, um dos melhores da história do cinema, vale refletir sobre duas outras questões, além da reescrita dos diálogos. Quando Erich von Stroheim foi escolhido para interpretar o capitão alemão, mudanças significativas foram feitas, contando com a participação do ator na reescrita de suas falas e na composição do próprio figurino, trazendo contribuições decisivas para a história. A outra questão é o crescimento do judeu Rosenthal. No roteiro original, ele estaria presente apenas na primeira parte da trama, como um dos prisioneiros do quartel. Renoir decidiu colocá-lo também no castelo o que transformou Rosenthal em um dos personagens mais fortes da narrativa, inclusive fugindo com Marecha e empreendendo a famosa batalha contra o tempo e a paisagem nas andanças rumo à Suíça.

    Por fim, vale citar a aparição luminosa da atriz Dita Parla, pequena fazendeira que abriga os fugitivos. O amor que cresce entre Elsa e Marechal faz refletir não apenas sobre o absurdo da guerra, mas também sobre a incomunicabilidade ou sobre a não-necessidade de se comunicar por palavras, apenas por olhares, gestos e ações fraternas. É o apelo final de Renoir ao pacifismo, ao humanismo, não é necessário compreender verbalmente um ao outro, basta nos entregarmos aos sentimentos mais belos que deveriam mover a humanidade: amizade, fraternidade, amor.  

    A grande ilusão (La grande illusion, França, 1937), de Jean Renoir. Com Jean Gabin (Tenente Marechal), Pierre Fresnay (Capitão Boeldieu), Erich von Stroheim (Capitão von Rauffenstein), Marcel Dalio (Tenente Rosenthal), Dita Parlo (Elsa).

    Referência: Jean Renoir. A grande ilusão. Coleção Folha Grandes Diretores no Cinema. Cássio Starling Carlos e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018

  • Uma mulher é uma mulher

    Pelos créditos, é nítido que Godard faz uma grande homenagem ao cinema, incluindo nos letreiros gêneros como a comédia romântica, o musical, bem como diretores como Lubitsch. Angela é dançarina de cabaré e pede um bebê ao namorado Emile. Ele se recusa, mas conversa com seu amigo Alfred Lubitsch (Hitchcock/Lubitsch)  sobre a possibilidade dele engravidar Angela. Segue-se uma divertida relação a lá triângulo amoroso, refletindo comportamentos quase adolescentes dos três. Os conflitos levam à situações divertidas envolvendo amizade, sexo, liberdade de escolhas, descompromisso com valores morais, temas caros à Godard e, por extensão, aos jovens cineastas da nouvelle vague francesa. Tudo com a irreverência narrativa, estilística, a fragmentação descontinuada, também marcas deste novo cinema dos anos 60. 

    “O cinema e a crítica vivam na época os efeitos do novo cinema francês, com a continuidade da onda de  modernização estética e narrativa iniciada poucos anos antes. Os críticos locais oscilavam entre a exclamação e a interrogação. Noções e slogans conceituais como política de autores, cinema moderno e Nouvelle Vague que estavam em moda. Em dez anos de existência, a revista Cahiers du cinéma não apenas gestou em suas páginas parte dos conceitos e slogans então vigentes como, nos poucos anos anteriores, serviu de útero e eco para as posições estéticas de cinéfilos críticos e cineastas.” – Cleber Eduardo. 

    Esses anos 60 trouxeram o melhor do cinema de Jean-Luc Godard, ainda afeito de certa forma ao cinema narrativo, aos gêneros que tanto ama, reverenciado com seu estilo revolucionário o cinema que também tanto amamos.  

    Uma mulher é uma mulher (Une femme est une femme, França, 1961), de Jean-Luc Godard. Com Anna Karina (Angela), Jean-Claude Brialy (Emile), Jean-Paul Belmondo (Alfred). 

    Referência: Godard inteiro ou o mundo em pedaços. Eugênio Puppo e Mateus Araújo. Catálogo da mostra editado pelo Cine Humberto Mauro – Fundação Clóvis Salgado: Belo Horizonte, 2014