
William Wyler nasceu em Mulhouse, região da Alsácia, França. Quando completou 18 anos, sua mãe o levou para conhecer um primo distante, Carl Lemann, que emigrou para os Estados Unidos e fundou a Universal Studios.
Wyler se mudou para a América e foi trabalhar com o Tio Carl, como o chamava. Começou em funções básicas, trabalhando como assistente de direção. Um dia, procurou o Tio e disse que queria dirigir. O início foi comum a outros grandes diretores do cinema mudo: realização de curta-metragem do gênero western. Em três anos, Wyler dirigiu 27 faroestes de dois e cinco rolos.
“Sabe, naqueles tempos era uma escola fazer faroestes, porque os filmes exigiam ação. E a base do cinema é, na verdade, ação. Segunda, terça e quarta-feira, nos falávamos. Às vezes, algumas cenas ficavam para quinta, mas às sextas você dava os negativos. Sábado você escalava o elenco, aí segunda começava a filmar. O orçamento era de dois mil dólares. As histórias eram simples, o vilão, um protagonista, uma garota e nada de sexo, nada disso, ele só podia beijar a garota na última cena do filme.”
Quando migrou para os filmes longos, enfrentou um desafio que assustava Hollywood: a transição dos filmes mudos para os sonoros. O trapaceiro (The Shakedown, EUA, 1929) foi uma das obras realizadas nesta fase, ainda marcada por experimentos com as novas técnicas.
Dave Roberts (James Murray) faz parte de uma gangue que percorre pequenas cidades dos Estados Unidos aplicando golpes de falsas lutas de boxe. Dave chega antes à cidade e ganha a simpatia dos moradores. Um tempo depois, seus comparsas desembarcam na mesma cidade, entre eles, Roff (George Kotsonaros), lutador de boxe profissional. Dave e Roff fingem uma briga nas ruas da cidade e marcam uma luta para resolver a diferença. Os moradores apostam em Dave. A farsa se concretiza no ringue: Dave entrega a luta, fingindo um nocaute logo nos primeiros assaltos.
Dave inicia o processo de redenção quando se apaixona por Marjorie (Barbara Kent), uma jovem da cidade, e se torna protetor de Clem (Jack Hanlon), um menino abandonado que também vive de pequenos golpes nas ruas, Para ficar livre da gangue, Dave deve finalmente vencer uma luta contra Roff.
O diretor investe em um tema que percorreu o cinema americano durante décadas: o mercado de apostas ilegais nas lutas de boxe. O trapaceiro foi rodado ainda como um filme mudo, mas sequências foram sincronizadas com diálogos e efeitos sonoros para se adaptar ao cinema sonoro que já causava furor entre os espectadores.
O talento narrativo e técnico de William Wyler permitiu que ele fizesse a transição do mudo para o sonoro com tranquilidade. Outros diretores, assim como integrantes do star system, não sobreviveram aos filmes falados, história contada em clássicos do cinema, como Crepúsculo dos deuses (1950) e Cantando na chuva (1952).
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