Tag: EUA

  • Soul

    Soul segue o caminho de animações contemporâneas, tratando de tema adulto, de certa forma sombrio, com leveza para não afastar o público infanto/juvenil. Joe Gardner é professor de música do ensino médio, mas alimenta o sonho de se consagrar como músico de jazz. No mesmo dia em que recebe a notícia que vai ser efetivado como professor, consegue um teste para integrar, como pianista, a banda de uma famosa cantora. A mãe pressiona o jovem para aceitar o emprego, mas Joe resolve arriscar mais uma vez. No entanto, o destino interfere de forma trágica: quando caminha para sua noite de estreia, Joe encontra a morte ao cair em um bueiro. 

    Quando acorda na estrada que o levará ao céu, Joe não aceita seu destino e provoca diversas peripécias para voltar à terra. Seu encontro com 22, jovem alma em treinamento, provoca as risadas características das tramas de animações e muita reflexão. A luta por nossos sonhos, paixões, podem ter consequências, inclusive interferindo nos destinos de pessoas próximas que também precisam fazer suas escolhas. A animação digital dá o tom lúdico, multicolorido, a esses temas complexos, intensos, como o próprio jazz. 

    Soul (EUA, 2020), de Pete Docter e Kemp Powers. 

  • O delator

    O delator deu a John Ford seu primeiro Oscar de diretor (ganhou outros três, até hoje recordista na categoria). A influência expressionista delineia toda a fotografia do filme. Os cenários minimalistas, a neblina, as luzes dos lampiões das ruas, os closes angustiantes nos personagens, é quase um filme surrealista devido a impressão angustiante que demarca cada personagem, enclausurado nesta noite de violência, perseguições, delações e julgamentos entre amigos. 

    “Por isso, a adoção intensiva de sombras e nevoeiros não confirma somente a absorção por Hollywood de recursos formais do expressionismo alemão. Eles são também modos de dar a ver o lado avesso, a face oculta dos homens e das crenças, atmosferas que embaralham nossa percepção e nos impedem de delimitar onde termina o bem e começa o mal.” – Cássio Starling Carlos. 

    O delator (The informer, EUA, 1935), de John Ford. Com Victor McLaglen (Gypo Nolan), Margot Grahame (Katie Madden), Heather Angel (Mary McPhillip), Wallace Ford (Frankie McPhillip).

    Referência: Coleção Folha Grandes diretores no Cinema. John Ford. O delator. Cássio Starling Carlos, Inácio Araújo Silva Júnior e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2016. 

  • Seja minha mulher

    Charlie Chaplin disse que se inspirou no comediante francês Max Linder para criar Carlitos. As semelhanças parecem confirmar isso, mas, claramente, o pupilo superou o mestre. 

    Em Seja minha mulher, Max Linder se vê às voltas com peripécias para conquistar Mary, pois a tia da amada não concorda com o casamento. As gags envolvem confusões típicas deste cinema mudo, motivadas por trocas de identidades e diversas incursões pelos espaços urbanos, incluindo uma ousada aventura em um bordel. No entanto, gags envoltas em discriminações de raça e gênero transformam parte do cinema de Max Linder como datado e passível de recriminações severas.

    Seja minha mulher (Be my wife, EUA, 1921), de Max Linder. Com Max Linder, Alta Allen, Caroline Rankin. 

  • A antiga e a moderna

    Buster Keaton se aventura pela paródia, revendo em forma de comédia o clássico Intolerância (1916), de D. W. Griffith. São três histórias contadas de forma paralela, em três eras da humanidade: a era primitiva, Roma antiga e os tempos modernos, marcados pelos automóveis e a velocidade do cotidiano da década de 20 nos Estados Unidos.

    Nas três histórias, Keaton tenta conquistar a mulher amada, mas tem sempre adversários, escolhidos pelas famílias das jovens pela suas posições privilegiadas na sociedade. Momentos das mais divertidas gags físicas dominam as histórias, com a marca característica do comediante: sua passividade interpretativa, a ingenuidade em seu rosto diante dos atos delirantes que provoca. Destaque para duas sequências na era contemporânea: no restaurante, quando inadvertidamente ele bebe além da conta; e no jogo de futebol americano, quando tenta fugir de seu adversário brutamonte. 

    A antiga e a moderna (Three ages, EUA, 1923), de Buster Keaton. Com Buster Keaton, Margaret Leahy, Wallace Beery. 

  • Rambo – Até o fim

    A abertura do filme é espetacular. Uma chuva torrencial nas montanhas coloca em risco um grupo de turistas. Os moradores tentam resgatar as pessoas, mas é um cavaleiro solitário que enfrenta os maiores perigos na tentativa de ajudar a todos. É John Rambo. 

    Após os resgates, o espectador descobre que o ex-combatente da guerra do Vietnã, que se transformou em herói sanguinário em quatro filmes anteriores, agora vive sua aposentadoria em um rancho, próximo à fronteira com o México. Junto com ele, moram Maria Beltran e a jovem Gabrielle, que nutre um carinho quase de filha com Rambo. 

    A virada acontece quando a jovem parte para o México em busca do pai biológico e é sequestrada por uma gangue que oferece prostitutas para a elite mexicana e americana. Quando John parte em busca de Gabrielle, se transforma no Rambo que conhecemos. 

    O que se segue é um banho de sangue, com direito a uma sequência nos túneis que mais parecem labirintos, onde Rambo enfrenta sozinho a gangue de mexicanos. A película recria clichês dos velhos filmes de faroeste e até mesmo policiais, apresentando um Rambo que não tem direito a viver uma pacata vida em sociedade. O sofrimento da jovem Gabrielle é quase incompreensível aos olhos do espectador, mas desperta Rambo para seu lado também cruel, envolto em memórias traumáticas que voltam e o jogam nessa espiral de vingança e violência. O final em aberto deixa espaço para a possível volta do personagem, mas gosto de pensar que é mesmo o fim para Rambo, pois a franquia revela seu esgotamento.  

    Rambo – Até o fim (Rambo: last blood, EUA, 2019), de Adrian Grunberg. Com Sylvester Stallone (John Rambo), Yvette Monreal (Gabrielle), Adriana Barraza (Maria Beltran).

  • Aves de rapina – Arlequina e sua emancipação fantabulosa

    O filme foi um fracasso de bilheteria nos cinemas e recebeu avaliações ruins por parte da crítica. Coisas do público exigente e da crítica incapaz de se entregar à uma sessão de cinema buscando apenas entretenimento e escapismo. Aves de rapina – Arlequina… é puro entretenimento com muita ação, bom humor e empoderamento feminino. 

    Conhecida como a namorada do Coringa, Arlequina se julga imune em seus crimes. Ela já recebeu o fora do inimigo mais poderoso do Batman, mas esconde de todos que está solteira e, convenhamos, ninguém em sã consciência vai se arriscar a mexer com a namoradinha do Coringa. Como mentira tem pernas curtas, a realidade vem à tona e a própria Arlequina resolve se emancipar.

    Margot Robbie é um show à parte na pele de Arlequina, destilando veneno, sadismo, piedade, enfim, tudo misturado com toques de humor nonsense, cativando o espectador. O encontro com as Aves de Rapina dá o tom definitivo à trama que une mocinhas e bandidas, ou vice-versa, para estraçalhar os redutos machistas. Deleite-se e esqueça essa comparação inútil sobre a qualidade dos filmes da Marvel e da DC Comics. Afinal, todos adoramos esse universo de super heróis e super heroínas. 

    Aves de rapina – Arlequina e sua emancipação fantabulosa (Birds of prey – And the fantabulous emancipation of one Harley Quinn, EUA, 2020), de Cathy Yan. Com Margot Robbie (Alequina), Jurnee Smollett-Bell (Canário Negro), Mary Elizabeth Winstead (Caçadora), Ella Jay Basco (Cassandra Cain), Rosie Perez (Renee Montoya), Ewan McGregor (Máscara Negro), Chris Messina (Victor Zsasz).    

  • Caçada humana

    Lohman carrega a bíblia consigo, se recusa a matar e sofre com seu destino. Em uma espécie de road-movie à cavalo, em cada cidade que passa, fugindo de seus perseguidores, encontra ajuda, mas recebe conselhos que se repetem: ele precisa matar seus oponentes. É o lema que ressoou na conquista do oeste e ainda hoje ecoa entre americanos que não abrem mão de carregar suas armas.   

    Caçada humana (From hell to Texas, EUA, 1958), de Henry Hathaway. Com Don Murray, Chill Wills, Dennis Hopper. 

  • Sete anos de azar

    Após chegar bêbado em casa, o bem-sucedido Max acorda de manhã e se vê às voltas com uma confusão inusitada. Seu mordomo quebra o espelho do closet e na tentativa de disfarçar o ocorrido coloca outro empregado da casa, parecido com Max, do outro lado da moldura. É o ponto forte da comédia, as interações físicas entre Max e seu duplo frente a frente são responsáveis por cenas antológicas do cinema mudo. 

    O tema que provoca a série de gags é a superstição dos sete anos de azar para quem quebrar o espelho. Max está de casamento marcado, mas sucessivos desencontros e acidentes parecem comprovar a lenda urbana. 

    Sete anos de azar (Seven years bad luck, EUA/França, 1921), de Max Linder. Com Max Linder, Alta Allen, Ralph McCullough.

  • Tenet

    Agente da CIA, cujo nome não é pronunciado durante o filme, é recrutado para impedir que Andrei Sator (Kenneth Branagh) consiga ativar um complexo mecanismo que pode resultar na destruição da terra. Christopher Nolan volta aos intrincados enigmas do universo que tanto o fascinam. Andrei Sator consegue transitar entre o presente e o futuro, ativando o tempo reverso e assim antecipa acontecimentos. 

    O filme é recheado de ações que confundem o espectador, colocando personagens em tempos repetidos, porém invertidos. Os destaques ficam por conta das batalhas, principalmente as ambientadas no aeroporto, na estrada e no final espetacular, sequência que coloca combatentes lado a lado no tempo progressivo e reverso. 

    Tenet (EUA, 2020), de Christopher Nolan. Com John David Washington, Kenneth Branag, Robert Pattinson, Emma Thomas. 

  • Kin

    Em uma de suas andanças por prédios abandonados em busca de cobre para vender no mercado negro, o adolescente Eli (Myles Truitt) encontra, ao lado de dois corpos, uma arma futurista. Ele consegue acioná-la com o toque das mãos e guarda a arma como uma espécie de brinquedo. Eli é filho adotivo do rigoroso Hal (Dennis Quaid), as coisas mudam quando seu irmão Jimmy (Jack Reynor) sai da prisão. Após um assalto mal-sucedido, Jimmy leva Eli em uma viagem pelos Estados Unidos, fugindo da gangue a quem deve dinheiro.

    A película representa bem a mistura de gêneros cinematográficos, marca do cinema contemporâneo. Drama social que apresenta conflitos entre pais e filhos; a gangue liderada por Taylor (James Franco), essa cruel sociedade marginal; road-movie que se transforma em caça aos fugitivos, envolvendo a gangue, o FBI e dois misteriosos motoqueiros que tentam recuperar a arma e dão o tom de ficção científica à trama. 

    O ponto alto do filme é a violenta batalha final na delegacia de polícia, com direito a uma reviravolta que aponta claramente a continuação da trama. 

    Kin (EUA, 2018), de Jonathan Baker. Com Myles Truitt (Eli), Jack Reynor (Jimmy), Dennis Quaid (Hal), Zoe Kravitz, James Franco . 

  • Across the universe

    Assistir a um filme baseado em canções dos Beatles já vale apenas pela música, qualquer que seja o filme, e nem precisa ser beatlemaníaco, basta se enlevar com  as belas canções compostas por Lennon e McCartney que insuflam gerações há décadas. Across the universe vai além com a narrativa que mistura romance, ativismo político, conflitos raciais, discussões de gênero, tudo pontuado por interpretações belíssimas de I want you handLet it beHey JudeStrawberry fields forever e muito mais. 

    Jude é um jovem inglês, trabalhador de um estaleiro em Liverpool. Viaja aos EUA para conhecer o pai, que engravidou sua mãe durante a Segunda Grande Guerra. Na América, desenvolve forte amizade com o universitário Max, vai morar em um apartamento habitado por personagens da contracultura dos agitados anos 60: a jovem lésbica Prudence, a cantora de boates Sadie, o guitarrista negro Jo-Jo. Quando Jude conhece Lucy, irmã de Max, a paixão é arrebatadora e acompanha os clichês naturais do gênero: início de enternecer corações, com erotismo aflorando, conflitos pessoais que afastam os amantes até o apoteótico final, tudo com direito às inesquecíveis canções dos Beatles. Enfim, Across the universe vale a sessão fílmica, sonora, imagética, sensual…

    Across the universe (EUA, 2007), de Julie Taymor. Com Ewan Rachel Wood (Lucy), Jim Sturgess (Jude), Joe Anderson (Max), Dana Fuchs (Sadie), Martin|Luther McCoy (Jo-Jo), T.V. Carpio (Prudence). 

  • O supersticioso

    O filme abre com o Dr. Ulrich Metz informando que vai estender suas experiências psiquiátricas, usando um humano pela primeira vez como cobaia. O escolhido é o jovem Daniel Brown, cuja mente é dominada pelas mais impressionantes superstições que orientam seu dia-a-dia. A ideia do cruel psiquiatra é levar Brown ao suicidio. Esse é o ponto polêmico e contestável da obra de Victor Fleming (E o vento levou e O mágico de Oz): colocar o suicídio no gênero comédia quase ao estilo pastelão, Daniel Brown protagoniza série de esquetes à medida que é manipulado pelo médico. 

    Os encontros e desencontros típicos do gênero levam Daniel Brown e sua pretendente, também supersticiosa, ao apoteótico clímax durante o rompimento de uma represa, ousada representação realista da tragédia que representa o estilo de produção do sistema de estúdios de Hollywood já no cinema mudo. 

    O supersticioso (When the clouds roll by, EUA, 1919), de Victor Fleming. Com Douglas Fairbanks, Albert Macquarrie, Kathleen Clifford.

  • Ameaça profunda

    A premissa do filme fascina e aterroriza: o desconhecido que habita as profundezas do mar pode despertar pela cobiça dos homens. Empresa constrói uma torre de acesso a onze mil metros de profundidade, com fins aparentemente de pesquisas. Logo nas primeiros momentos da narrativa, a estação não aguenta a pressão e tem 70% de suas instalações destruídas. Grupo de seis sobreviventes tem que descer até o mais fundo do mar em busca de cápsulas de ejeção para a superfície. 

    Kristen Stewart é a estrela do filme. Nora, sua personagem, guia o grupo ao lado do capitão da estação. Seus cabelos curtos e descoloridos, seu físico esguio, sua personalidade frágil e ao mesmo tempo destemida, representa o estranho que tenta se adaptar a ambientes hostis, onde a luta pela sobrevivência é a única alternativa. 

    Ameaça profunda (Underwater, EUA, 2019), de William Ewbank. Com Krister Stewart, T. J. Miller, Jessica Henwick, Vicente Casel.

  • Judy: muito além do arco-íris

    Judy: muito além do arco-íris se concentra nos meses em que a cantora se apresentou em Londres, pouco antes de morrer. Sem casa para morar, é despejada inclusive de quartos de hotel por falta de pagamento. Ela perde a guarda de seus dois filhos pequenos para o ex-marido e aceita fazer a turnê musical por Londres para tentar se recuperar financeiramente.

    A narrativa alterna entre os problemas de Judy em Londres, suas apresentações oscilam entre o sucesso e o completo fiasco em algumas noites, quando se apresenta alcoolizada e agressiva, e seu passado como atriz. São esses flashbacks que trazem à tona a crueldade do sistema de estúdios, cujos produtores exploraram o talento infantil de Judy à custa da saúde da atriz, impondo à ela jornadas excessivas de trabalho, impedindo que exercesse atividades inerentes à infância/adolescência, como ir à escola, sair com amigos, ter relacionamentos não-autorizados pelo estúdio.

    Assim como outras importantes componentes do star-system da era de ouro de Hollywood, Judy Garland pagou caro por estar sob controle de homens cuja crueldade parecia não ter limites, tudo em função do negócio chamado cinema. Cada aparição de Louis B. Mayer, todo poderoso da MGM, revela que por trás das telas o mundo mágico de Hollywood era construído através de atitudes desumanas, que destruíam as estrelas que povoavam o imaginário dos espectadores. 

    Judy: muito além do arco-íris (Judy, EUA, 2019), de Robert Gould. Com Renée Zellweger (Judy Garland), Jessie Buckley (Rosalyn Wilder), Finn Wittrock (Mickey Deane), Rufus Swell (Sid Luft), Michael Gambon (Bernard Delfont).

  • Você nunca esteve realmente aqui

    O filme traz mais um personagem que vez por outra domina narrativas: assassino de aluguel atormentado pelo passado, no caso de Joe, ex-combatente imerso nas memórias cruéis da guerra. No entanto, Joe aluga seus implacáveis tiros por causa nobre: resgatar menores das mãos de pedófilos, executando-os. 

    A trama se complica quando Joe se vê envolvido numa intrincada rede de pedofília envolvendo políticos americanos. Ao resgatar a criança Nina dessa rede, a violência explode em sequências sanguinárias e dolorosas.

    Joaquin Phoenix ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes (também prêmio de melhor roteiro para Lynne Ramsay). Sua atuação visceral apresenta um personagem que caminha irreversivelmente para a tragédia pessoal, sufocado pela realidade, pelas memórias, pelo destino, como drogas que dominam seu corpo e sua mente. 

    Você nunca esteve realmente aqui (You were never really here, EUA, 2017), de Lynne Ramsay. Com Joaquin Phoenix (Joe),  Ekaterina Samsonov (Nina), Alex Manette (Albert voto). 

  • Lili – Minha adorável espiã

    O musical de Black Edwards gira em torno do envolvimento de Lili e Larrabee, com toques de comédia, romance, cenas de batalhas aéreas, tudo pontuado por belas canções, a maioria na inesquecível voz de Julie Andrews. O roteiro não apresenta novidades ao gênero, melhor mesmo é se entregar às canções e ao belo final, quando Lili repete o número de abertura. Impossível não se emocionar ao ouvir a música, cuja belíssima letra simboliza os obscuros tempos de guerra:

    Penso sempre que este mundo velho e triste
    Está assobiando na escuridão
    Como uma criança que sai tarde da escola 
    E bravamente atravessa o parque ao voltar para casa
    Para criar coragem e manter a noite à distância
    Sem saber exatamente o caminho a tomar
    Cantando para afugentar as sombras

    Penso sempre que o meu pobre coração 
    Desistiu de vez até que eu vejo um novo rosto
    Ou vislumbro uma nova vizinhança
    Então, me leve para casa meu amor
    Diga que os sonhos se realizam de fato
    Assobiando, assobiando, aqui no escuro com você. 

    Lili – Minha adorável espiã (Darling Lili, EUA, 1970), de Black Edwards. Com Julie Andrews, Rock Hudson, Jeremy Kemp

  • High life – Uma nova vida

    Grupo de criminosos, todos condenados à morte ou prisão perpétua, aceita participar de exploração espacial. O destino da nave é encontrar um buraco negro nos confins da galáxia. O filme é contado sob o ponto de vista de Monte (Robert Pattinson) que no início da trama está sozinho na nave com uma bebê. Narrativa em flash back elucida o destino dos outros tripulantes. 

    O olhar da diretora Claire Denis se volta para os instintos que dominam homens e mulheres enclausurados, cujo passado violento aflora e precisa ser controlado através do uso de drogas. Os tripulantes são manipulados pela inescrupulosa médica Dibbs (Juliette Binoche), cujo crime que cometeu, segundo ela mesma, é o único digno do nome. O final enigmático faz referência clara ao maior filme de ficção científica de todos os tempos: 2001 – Uma odisséia no espaço.  

    High life – Uma nova vida (High life, EUA, 2018), de Claire Denis. Com Robert Pattinson, Juliette Binoche, André Benjamin. Mia Goth, Agata Buzek. 

  • Sangue em Sonora

    Matteo chega em Ojo Prieto, cidade fronteiriça com o México, montado em um belo cavalo da raça appaloosa. Vai a igreja se confessar, pedindo perdão pelos inúmeros assassinatos que cometeu, a maioria durante a guerra. A bela mexicana Trini também está na igreja e, na saída, diz ao seu namorado Chuy Medina que foi assediada por Mateo. Ela usa o pretexto para fugir no cavalo de Matteo. 

    Esses encontros e provocações dentro e fora da igreja são o plot da narrativa, abrindo o conflito entre Matteo e o bandoleiro Chuy Medina, chefe de uma gangue em Sonora, no México. Sangue em Sonora se enquadra nos filmes de faroeste que provocaram revisões no gênero a partir do anos 50. Matteo quer se livrar de seu passado de marginal, jovem inconsequente que saiu pelo oeste em busca de fortuna. O appaloosa do título é seu trunfo para voltar para o seio da família que o criou e dar início a uma pacata vida de rancheiro. No entanto, ele deve partir novamente para acertar as contas com Medina, que se posiciona como espécie de justiceiro contra os americanos, a quem acusa de terem roubado tudo dos mexicanos. Marlon Brando, claro, por si só já vale o filme.   

    Sangue em Sonora (The appaloosa, EUA, 1966), de Sidney J.Furie. Com Marlon Brando (Mateo), John Saxon (Chuy Medina), Anjanette Comer (Trini).

  • Blácula – O vampiro negro

    O movimento blaxploitation do início dos anos 70 fez a releitura do clássico vampiro.1780, Transilvânia. Mamuwalde, príncipe africano, e sua esposa Luva são convidados do castelo do Conde Drácula. O príncipe pede o apoio do Conde para ajudar a extinguir o tráfico de escravos. Começa a discussão, Drácula destila rascismo, justificando a ascendência dos brancos europeus sobre os negros. Mamuwalde se revolta, após ser mordido e sofrer a mutação é enclausurado em um caixão e amaldiçoado. Sua esposa Luva é deixada presa ao lado do marido para definhar até morrer. 

    A trama segue os princípios básicos da narrativa de Bram Stoker. Nos anos 70 do século XX, casal de decoradores negros arremata o castelo e leva para Los Angeles artefatos da mansão, entre eles o caixão. Blacula renasce, começa a aterrorizar a cidade e encontra a encarnação de sua amada Luva. 

    Como boa parte das películas do importante movimento dos anos 70, os traços de filme B estão presentes em toda a trama. Outra marca do blaxploitation também está presente: números musicais em bares e boates, cantoras e grupos musicais interpretando belas canções afros. O ponto forte do filme é a história de amor entre Mamuwalde/Blacula e Luva. Luva se entrega ao seu destino e Mamuwalde protagoniza um emocionante sacríficio final. 

    Blácula – O vampiro negro (Blácula, EUA, 1972), de William Crain. Com William Marshall, Vonetta McGee, Denise Nicholas. 

  • Cujo

    No início dos anos 80, estudei no Estadual Central. Acabada as aulas, descia a pé, só ou em turma, pela Rua São Paulo em direção ao centro. Cerca de dois quarteirões abaixo do colégio, uma bela casa, típica do bairro de classe média alta, deixava a vista adentrar pela grade, se deparar com o jardim e dois grandes cachorros São Bernardo, lindos, imponentes. Os cães andavam do característico jeito desengonçado até a cerca, metiam os focinhos pela grade a espera de carinho. Impossível não estender a mão, se abaixar e morrer de vontade de rolar na grama com dois gigantes tão carinhosos, infantis. 

    Quando Cujo (EUA, 1983), de Lewis Teague estreou nos cinemas mais ou menos na mesma época, o terror tomou conta de mim. Não necessariamente pelo filme em si, produção de baixo orçamento, o típico terror B que imperava na época. Durante dias não consegui me desvencilhar da premissa: o horror, movido por razões incompreensíveis, como vírus que se apossam do corpo após uma mordida de morcego,  pode irromper dos seres mais dóceis. Um cão São Bernardo. 

    Baseado na obra de Stephen King, livro lançado em 1981 como Cão RaivosoCujo centra a narrativa em um casal em crise. Donna Trenton (Dee Wallace) e Daniel Hugh Kelly (Vic Trenton) têm um filho, Tad (Danny Pintauro). Donna tem um caso com um belo morador da pequena cidade litorânea onde vivem e o casamento caminha para a separação. 

    No entanto, Cujo é o protagonista. No início do filme, o cão corre meio como brincadeira atrás do coelho no bosque. Passa por gramados, arbustos, riacho e enfia a grande cabeça na toca do coelho. Os latidos de Cujo despertam a ira de morcegos no teto, pois o que era aparentemente uma toca de coelho é, na verdade, refúgio destes aterradores seres noturnos. Após a mordida, a narrativa acompanha uma das grandes transformações de personagem. 

    O animal começa a lutar consigo mesmo, alternando entre a tradicional docilidade e atitudes raivosas que selam seu destino. Em alguns momentos, o cão se afasta de pessoas com quem convive, como se em fuga do instinto desconhecido que começa a tomar conta. Aos poucos, as alternativas estéticas e de linguagem do fascinante cinema B ajudam o espectador a se defrontar como emoções que variam do puro medo ao repúdio (como eu) por colocarem o São Bernardo nesta situação. 

    “A fotografia de Jan de Bont, a montagem de Neil Travis e a trilha sonora de Charles Bernstein são alguns dos elementos que transformam a obra em uma experiência fascinante e também angustiante. O confinamento de Donna e Tad num carro faz do ambiente claustrofóbico uma ameaça tão grande quanto o animal que os cerca. Destaque ainda para os departamentos de arte e maquiagem, principalmente na abordagem do cachorro. Eles conseguiram transformar um belo animal em algo realmente horripilante. Para isso, não se preocuparam com excessos. É gore, é para ser grotesco. E é por isso que funciona de forma tão eficiente.” – Lucas Salgado. 

    Ainda hoje, ao rever o filme, não consigo me assustar com a impressionante sequência do carro parado em frente à velha e suja oficina, o cão tentando matar mãe e filho enclausurados. Só consigo pensar que um São Bernardo não merece se transformar naquela grotesca encarnação do mal. 

    Referência: Stephen KingO medo é seu melhor companheiro. Breno Gomes e Rita Ribeiro (org.).  Catálogo da mostra patrocinada e exibida no Centro Cultural Banco do Brasil.