Tag: Diretoras

  • O banquete

    A diretora Daniela Thomas buscou inspiração em fatos do início da década de 90 para reunir elenco de peso em torno da mesa de jantar. A primeira inspiração vem de memórias de jantares oferecidos em sua casa; a segunda, da carta escrita pelo jornalista Otávio Frias Filho ao presidente Collor.

    O banquete começa com Nora inspecionando a mesa preparada para receber convidados do universo do teatro e da imprensa. Ela chora diante da mesa, evidenciando o tom de depressão que vai ditar a narrativa. Os convidados são Mauro, famoso diretor de teatro que escreveu uma carta ao presidente Collor e corre risco de ser preso; sua mulher Bia, atriz de sucesso; dois jornalistas culturais; o marido de Nora, advogado; a estranha mulher-gato e Claudinha, espécie de dama de companhia de Bia. O jovem chef Ted assiste a tudo com fascinação. 

    A estrutura teatral da narrativa abre possibilidades para o elenco despejar diálogos sobre cultura, sexo, política e dramas pessoais. O ponto forte do filme é o embate final entre Nora e Bia, entre Drica Moraes e Mariana Lima, duas grandes personagens nas mãos de duas grandes atrizes.  

    O banquete (Brasil, 2018), de Daniela Thomas. Com Drica Moraes (Nora), Mariana Lima (Bia Moraes), Caco Ciocler (Plínio), Rodrigo Bolzan (Mauro), Fabiana Gugli (Maria), Gustavo Machado (Lucy), Chay Suede (Ted), Bruna Linzmeyer (Catwoman), Georgette Fadel (Claudinha). 

  • A moça do calendário

    Helena Ignez participou ativamente como atriz dos grupos que construíram o Cinema Novo e o Cinema Marginal. Foi casada com Glauber Rocha e Rogério Sganzerla. Em sua recente produção como diretora, Helena Ignez traz resquícios destes movimentos que formaram gerações de cineastas e cinéfilos. 

    Inácio trabalha como mecânico, lê Freud, transita pela noite com o olhar sonhador de quem almeja mundos melhores. Em momentos de ócio na oficina na qual trabalha, tem devaneios com a moça do calendário que invade sua imaginação com erotismo e rebeldia, como se o chamasse a sair pelo mundo. 

    A moça do calendário é Lara, militante de esquerda que luta pela reforma agrária e transita pelo MST. Em algum momento os dois podem se encontrar, enquanto isso, desfilam pelo olhar dos personagens a noite marginal paulistana, os segregados, os explorados pelo capitalismo. Belas imagens, texto contundente, crítica social, irreverência dos personagens – a autora Helena Ignez tem um quê de marginal em seu cinema. 

    A moça do calendário (Brasil, 2017), de Helena Ignez. Com André Guerreiro Lopes (Inácio), Djin Sganzerla.

  • A livraria

    Cidade litorânea da Inglaterra, final da década de 50. A recém viúva Florence Green chega à cidade, se encanta e acalenta sonho que luta para realizar: abrir uma livraria na velha casa que alugou. A empreitada encontra resistência em Violet Gamart, representante da conservadora sociedade local. 

    A livraria é dos filmes que coloca cena a cena o amor pela literatura. Florence troca correspondências sobre livros com o recluso Edmund Brundish e passa a enviar para ele edições novas. A pequena Christine acompanha tudo com o olhar infantil, ajudando Florence na livraria. O final, triste mas esperançoso, revela como os livros podem modificar a vida das pessoas.  

    A livraria (The bookshop, Inglaterra, 2018), de Isabel Coixet. Com Emily Mortmer (Florence Green), Bill Nighy (Edmund Brundish), Patricia Clarkson (Violet Gamart).

  • Para todos os garotos que amei

    Vez por outra aparece uma comédia romântica com toque original. Lara Jean (Lana Condor) é filha de coreana com americano. A mãe faleceu jovem e deixa o viúvo com as três filhas. Como toda adolescente, Lara Jean tem paixões escondidas e escreve cartas (que nunca envia) para os pretendentes, entre eles o namorado de sua irmã. A irmã caçula acha as cartas escondidas em uma caixa e remete para cada um dos interessados. 

    O encontro dos garotos e da garota após tomarem conhecimento das cartas rende situações engraçadas e provoca descobertas nos relacionamentos. O roteiro de Sofia Alvarez e a direção de Susan Johnson colocam em evidência o adolescente olhar feminino sobre a família, os colegas de escola, os namorados. Lana Condor carrega sua personagem com o deslumbramento e revolta no comportamento típicos da adolescência. Atenção para a hilária cena pós-créditos. 

    Para todos os garotos que amei (To all the boys I’ve loved before, EUA, 2018), de Susan Johnson. Com Lana Condor, Noah Centineo, Jnel Parrish, Anna Cathcart. 

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  • Histórias que nosso cinema (não) contava

    Um dos momentos de maior bilheteria do cinema brasileiro é a pornochanchada, gênero que marcou os anos 70 e início da década de 80. Fernanda Pessoa fez intensa pesquisa, assistindo e coletando material de filmes que iam além da ousadia sexual travestida de comédia.

    A montagem do documentário é um primor. Sem narração ou depoimentos, sequências dos filmes se sucedem, separadas por temas: tortura perpetrada pela ditadura, consumismo nestes anos do milagre econômico, exploração do corpo feminino, violência contra a mulher, machismo, preconceito racial, homossexualismo, corrupção política. Muitos filmes da pornochanchada foram censurados pelo regime militar. Outros conseguiram inserir em meio a narrativas despretensiosas questões determinantes para a formação da sociedade brasileira. Fernanda Pessoa resgata a pornochanchada como gênero e como resistência política.  

    Histórias que nosso cinema (não) contava (Brasil, 2017), de Fernanda Pessoa. 

  • Baronesa

    A interseção entre documentário e ficção é tendência do cinema brasileiro. A diretora Juliana Antunes exercita o estilo em Baronesa, projeto que começou como um documentário quando ainda estudava Cinema e Audiovisual e enveredou para relatos ficcionais envolvendo personagens da periferia de Belo Horizonte. 

    Andreia mora no bairro Juliana, mas está construindo uma casa no vizinho Baronesa (Juliana Antunes relata que a ideia do filme começou da observação do transporte público de Belo Horizonte, pois diversos bairros trazem nomes femininos). Leid, amiga de Andreia, cuida dos filhos enquanto espera o marido sair da cadeia. As filmagens aconteceram em locações, com moradoras do próprio bairro que improvisaram situações e diálogos. A câmera assume posição íntima das personagens, registrando imagens do cotidiano e diálogos coloquiais sobre criação dos filhos, sexo, questões sociais. Em determinada sequência, tiros invadem o som ambiente, equipe de filmagem e personagens correm para dentro da casa. Neste momento das filmagens aconteceu um tiroteio no bairro, conflito de duas gangues do tráfico rivais. Está no filme. É a força de Baronesa: o registro do cotidiano de mulheres da periferia, envolvidas pelos dramas e tragédias da realidade. 

    Baronesa (Brasil, 2017), de Juliana Antunes. Com Andreia Pereira de Sousa, Leid Ferreira, Felipe Rangel Soares. 

  • O animal cordial

    Inácio é, aparentemente, o tranquilo dono de um restaurante em São Paulo. Uma noite, perto da hora de fechar, três homens invadem o estabelecimento em tentativa de assalto. O que se segue é das mais impressionantes incursões do cinema brasileiro pelo gênero slasher.

    A diretora estreante Gabriela Amaral Almeida reúne personagens dentro do restaurante que representam a tensão de classe, de gênero e outras facetas escondidas da população brasileira. A explosão gradual de Inácio (preste atenção na brilhante cena de Murilo Benício em frente ao espelho e na incrível cena de sexo no chão do restaurante) resulta em sangue para todos os lados. Ninguém é poupado. O animal cordial demonstra a força do cinema brasileiro nas mãos das diretoras.  

    O animal cordial (Brasil, 2017), de Gabriela Amaral Almeida. Com Murilo Benicio, Luciana Paes, Irandhir Santos, Camila Morgado, Ernani Moraes. 

  • Mormaço

    A narrativa abre com imagem de Ana deitada na pedra ao sol, em uma cachoeira. Corta para imagens de explosões de obras, preparando a cidade para as Olimpíadas do Rio de Janeiro 2016. Cortina de fumaça invade as ruas, Ana é envolta pela densa e sufocante onde de calor e sujeira. 

    As cenas de abertura determinam o tom do filme: o calor do Rio associado às obras das Olimpíadas provocam ondas de revoltas. Ana é advogada e defende causa popular dos moradores da Vila Autódromo, despejados por conta da construção da Vila Olímpica. Ela mora em prédio que também está em vias de abandono pelos moradores, pois hotel de luxo será construído no local. Manchas começam a aparecer na pele da advogada sem diagnóstico preciso pelos médicos. 

    Mormaço debate os problemas decorrentes do megaprojeto olímpico, colocando em pauta o agressivo plano de desocupação de moradores. A degradação da cidade e das pessoas é indicada através de metáforas visuais e narrativas. Atenção para a triste imagem dos desocupados arrastando seus pertences na calçada em frente ao Estádio Olímpico.  

    Mormaço (Brasil, 2018), de Marina Meliande. Com Mariana Provenzzano (Ana), Paulo Gracindo (Pedro), Analú Prestes (Rosa), Sandra Maria Teixeira (Domingas).  

  • A casa de veraneio

    A princípio, há um toque de humor nos pequenos e diversos conflitos que permeiam a narrativa do filme. Começa com Luca rompendo com Anna em um café de Paris, pouco antes da cineasta se reunir com grupo de investidores em busca de dinheiro para seu novo filme. Corta para paradisíaca mansão à beira do mar na Côte d’Azur onde amigos se reúnem para as férias de verão. 

    Anna, proprietária da casa junto com a irmã Elena, tenta escrever o roteiro de seu filme, baseado na morte do irmão, enquanto sofre com a separação de Lucca. Os outros personagens entremeiam dramas, angústias, discutem sobre o passado. Todos são de classe média alta, estão na meia idade ou já na terceira idade. Do outro lado, os empregados da casa também desfilam seus dramas pessoais. O tom de humor se perde à medida que entram questões como crise entre casais, solidão, velhice, depressão, conflitos de classes, xenofobia, dilema de integrantes da esquerda francesa diante da ascensão da direita. Difícil esboçar sorrisos, mesmo quando os personagens se entregam às caricaturas de si mesmos, diante de tanta angústia. 

    A casa da veraneio (Les estivants, França, 2018), de Valeria Bruni Tedeschi. Com Valeria Bruni Tedeschi (Anna), Pierre Arditi (Jean), Valeria Golino (Elena), Noémie Lvovsky (Nathalie), Yolande Moreau (Jacqueline), Laurent Stocker (Stanislas), Riccardo Scamarcio (Luca), Bruno Raffaelli (Bruno), Stefano Cassetti (Marcello), Brandon Lavieville (François), Celia (Oumy Bruni Garrel). 

  • Como nossos pais

    Rosa (Maria Ribeiro) representa as angústias de grande parte das mulheres na contemporaneidade. Perto dos 40 anos, ela enfrenta problemas no casamento, frustrações no trabalho, convive com dilemas de relação com as filhas adolescentes, cuida dos pais idosos. A mãe sofre com doença terminal e faz revelação bombástica sobre a paternidade de Rosa, provocando reviravoltas nos caminhos da protagonista.

    Como nossos pais é o retrato dos problemas que assolam famílias de classe média: conflitos entre gerações, desconfianças e infidelidades conjugais, frustrações profissionais, machismo, liberdades sexual, abandono dos pais. Rosa faz refletir sobre o papel da mulher em meio a tudo isto, afirmando o protagonismo feminino – Laís Bodanzky na direção, Maria Ribeiro como protagonista – na recente produção do cinema brasileiro. 

    Como nossos pais (Brasil, 2017), de Laís Bodanzky. Com Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena, Felipe Rocha, Jorge Mautner, Herson Capri. 

  • Cleo das 5 as 7

    BBC Culture lançou lista dos 100 melhores filmes realizados por mulheres. O piano (1993), de Jane Campion, lidera. Em seguida vem Cléo de 5 às 7. A cineasta francesa Agnés Varda tem seis filmes na lista dos 100 melhores. 

    Cléo de 5 às 7 é dos mais importantes filmes da nouvelle vague francesa. A trama acompanha duas horas na vida da cantora Cléo (Corinne Marchand), enquanto ela aguarda o resultado de exame médico que pode atestar ou não um câncer. A caminhada da cantora pelas ruas de Paris é marcada pela irreverência estilística típica do movimento que revolucionou o cinema. 

    “Como está claro no título, Varda escolheu acompanhar a angústia de Cléo praticamente em tempo real, levando em conta, portanto, a emergência e as técnicas do ‘cinema direto’. A casualidade da narrativa permite que a ficção se funda ao documentário enquanto a jovem vaga pela Rive Gauche de Paris, principalmente pelos arredores da estação de trem de Montparnasse, acompanhada por atordoantes travellings. Mas o realismo de Varda também é capaz de gerar emoções poderosas ao mostrar em um crescendo os sinais da lenta agonia gravada no rosto de sua protagonista.”

    Cléo de 5 às 7 (Cléo de 5 à 7, França, 1962), de Agnés Varda. Com Corinne Marchand, Antoine Bourseiller, Dominique Davray, Dorothée Blank.

  • Deslembro

    Deslembro trata com sensibilidade da história recente do Brasil que o atual governo insiste em negar: a ditadura militar. A adolescente Joana vive em Paris com a mãe e reluta em voltar ao Brasil após a anistia política. No Rio de Janeiro, ela conhece a avô Lucia e passo a passo vai se entregando as memórias de criança, quando o pai vivia na clandestinidade e acabou preso pelos militares. Foi considerado desaparecido, seu corpo nunca foi encontrado. Um fato atesta a crueldade desta condição: a turma escolar de Joana vai participar de excursão a Ouro Preto; a garota precisa da autorização dos pais, mas como não tem o atestado de óbito do pai é impedida de viajar. 

    A narrativa parte das próprias memórias da diretora Flávia de Castro. Em 1972, seus pais tiveram que deixar o Brasil, história retratada no documentário Diário de uma busca (2011). A fotografia é dos pontos de destaque de Deslembro. Em Paris as cores são vibrantes, no Rio de Janeiro a fotografia ganha um tom frio; o tratamento da imagem também remete ao cinema dos anos 70/80. Jeanne Boudier faz sua estreia como atriz, tratando a personagem com as dubiedades próprias da adolescência: revolta, compreensão; carinho e raiva pelos familiares; deslumbre com o novo país, com a descoberta da sexualidade. O tom político ganha força com o padastro chileno e, principalmente, nas memórias da avó Lúcia sobre o filho desaparecido.

    Deslembro (Brasil, 2018), de Flávia Castro. Com Jeanne Boudier (Joana), Sara Antunes (mãe), Eliane Giardini (Lúcia). 

  • Nosso ex-marido

    A diretora alemã Margarethe von Trotta investe no relacionamento de duas mulheres para compor retrato da sociedade ainda marcada pelo domínio dos homens no destino de ex-esposas. Jade é promissora designer de moda, vive em um luxuoso apartamento em Nova York deixado por Nick quando da separação (ele a trocou por uma jovem beldade). De repente, Maria, a primeira mulher de Nick, exige morar no apartamento, pois também tem direitos. Por fim, Antonia, filha de Maria e Nick, chega ao apartamento em busca de trabalho na metrópole americana. 

    O convívio diário entre as mulheres rende situações às vezes cômicas, outras vezes dramáticas. Enquanto Jade luta pela ascensão profissional, inserindo Antonia em seu cotidiano de trabalho, Maria aceita sua condição de aposentada, cuidando dos afazeres domésticos, além de trabalhos na área acadêmica. Os conflitos permeiam a trama com direito a final irreverente.  

    Nosso ex-marido (Forget about Nick, Alemanha, 2017), de Margarethe von Trotta. Com Ingrid Bolso Berdal (Jade), Katja Riemann (Maria), Haluk Bilginer (Nick), Tinta Fursk (Antonia).

  • A sorridente Madame Beudet

    Madame Beudet está enclausurada em um casamento monótono, representação da sociedade que relega a mulher ao papel de dona de casa amorosa, cuja obrigação é sentir-se feliz diante da vida confortável proporcionada pelo casamento. Cada vez mais triste e deprimida, Madame Beudet enseja sua única possibilidade de libertação: a morte do marido.

    A diretora Germaine Dulac fez parte do círculo de cineastas experimentais da última década do cinema mudo, reunidos em torno do movimento denominado impressionismo francês. Seus filme buscavam ao mesmo tempo a poesia das imagens e a representação da opressão feminina, sendo por isso considerada uma das primeiras autoras do cinema feminista.

    “O elemento mais cativante de A sorridente Madame Beudet é composto pelas elaboradas sequências de sonho em que a dona de casa do título (Germaine Dermoz) fantasia uma vida fora dos limites da sua existência monótona. Usando efeitos especiais radicais e técnicas de montagem, Dulac incorpora alguns dos elementos estéticos de vanguarda da época para contrastar o poder feminino rico e vigoroso da vida imaginária de madame Beudet com o tédio da rotina compartilhada com seu marido (Alexandre Arquillière).” 

    A sorridente Madame Beudet (La souriante Madame Beudet, França, 1923), de Germaine Dulac. Com Germaine Dermoz, Alexandre Arquillère, Jean D’yd.

  • O rei dos elfos

    O filme abre com a descrição em prosa do célebre poema de Goethe, O rei dos elfos. Corta para um homem à cavalo levando o filho doente nos braços. Ele precisa chegar à cidade o mais rápido possível, mas seu cavalo não resiste e cai por terra. Pai e filho encontram abrigo em uma casa, conseguem um cavalo e cavalgam pela estrada até adentrar, à noite, a floresta. 

    A partir daí, a trama ganha o tom assombrado, baseado no poema de Goethe. O rei dos elfos emerge das sombras, junto com suas fadas, e persegue o garoto. A diretora Marie-Louise Iribe, também atriz, uma das pioneiras do cinema francês, recria com efeitos visuais o visual místico da floresta, onde vivem seres fantasmagóricos comandados pelo assustador rei que sequestra a alma das crianças. Realizado logo no início do cinema sonoro, a película traz a força da narrativa visual, com frases curtas  entre a criança e seu pai, reproduzidas do poema. O final triste, já anunciado na balada de Goethe, deixa o espectador entre os sentimentos de beleza e melancolia, ciente que está diante de um filme que une várias referências artísticas.  

    O rei dos elfos (Les roi des aulnes, França, 1931), de Marie-Louise Iribe. Com Otto Gebuhr, Joe Hamman, Mary Costes, Rosa Bertens.  

  • Rafiki

    Rafiki foi o primeiro filme queniano a ser exibido no prestigiado Festival de Cannes, indicado ao prêmio Un Certain Regard. A trama acompanha o relacionamento das jovens Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva), cujos pais são adversários políticos. 

    Logo no início, a troca de olhares entre Kena e Ziki indicam o fascínio que caminha de forma delicada para o relacionamento amoroso. Enquanto Kena se veste de forma masculina (diz que vestido queima em seu corpo), Ziki é extravagante nas cores femininas, com cabelos em vários tons. 

    A delicadeza quase ingênua do romance entre as jovens contrasta com o conservadorismo agressivo da sociedade queniana. A repressão se mostra em várias frentes: nos cultos religiosos, nos políticos representados pelos pais de Kena e Ziki, nos jovens que extravasam a homofobia em agressões verbais e físicas, nas próprias mulheres que atribuem o relacionamento amoroso das jovens ao demônio. 

    O destaque da película é a lenta progressão do relacionamento entre Kena e Ziki, marcado por trocas de olhares, toques de mãos, gestos sutis como enfeitar uma a outra. É a beleza do afeto, do romance, do amor. Isso deveria ser capaz de destruir de vez esses criminosos que, em defesa da moralidade, são capazes de espancar meninas. 

    Rafiki (Quênia, 2019), de Wanuri-Kahiu. Com Samantha Mugatsia, Sheila Munyiva, Jimmi Gathu, Nini Wacera, Dennis Musyoka. 

  • Os olhos de Cabul

    As cenas na abertura do filme retratam o cotidiano do centro de uma grande cidade. O ano é 1998. Carros buzinam, homens trabalham com com pás e picaretas (um carrinho de pedras é despejado na calçada, sinal do que está por vir), meninos jogam bola, pessoas caminham por uma feira de frutas e verduras onde se vê um homem com um rifle nas costas, uma caminhonete passa com diversos homens armados. Letreiro informa: Cabul, Afeganistão, sob domínio do Talibã

    O filme é baseado no romance As andorinhas de Cabul.  A narrativa acompanha dois casais distantes que se cruzam. Zunaira, artista plástica, é casada com Mohsen, professor de história. O sonho do casal de lecionar foi abortado pela tomada do poder pelo Talibã. Zunaira se recusa a usar a burca e vive enclausurada em casa, ouvindo rap e desenhando na parede. Mohsen caminha pela cidade e seu olhar desolado reflete o novo Afeganistão.  Ele anda pelos corredores da destruída Universidade de Cabul. Na rua, assiste ao apedrejamento de uma mulher condenada à morte por “fornicação.” Ele vê jovens felizes saindo de um cinema, corta para imagem do cinema destruído e as  jovens estão cobertas pela pesada burca. 

    Atiq lutou pela revolução do regime e trabalha como guarda-chave da cadeia onde estão mulheres condenadas à morte. Ele atravessa um momento de crise profunda, agravada pela doença terminal de sua esposa. O encontro de Atiq com Zunaira provoca profundas mudanças em seu comportamento e sela seu destino. 

    A animação produzida na França traz o olhar das duas diretoras, Zabou Breitman e Eléa Gobé Mévellec, sobre o Afeganistão dominado por um regime cruel, nas mãos de homens ainda mais cruéis, capazes de apedrejar uma mulher até à morte ou, quando entediados por uma manifestação na porta de um hospital, sair e disparar rajadas de metralhadoras em homens, mulheres e crianças. Claro, o olhar das diretoras nesta bela animação em questões estéticas, mas profundamente triste pelo tema e acontecimentos, é desprovido de esperanças. Como confirma a nova investida do Talibã no Afeganistão em 2021. 

    Os olhos de Cabul (Les hirondelles de Kaboul, França, 2019), de Zabou Breitman e Eléa Gobé Mévellec

  • A fotografia

    O jornalista Michael Block está fazendo pesquisa para uma reportagem em Nova Orleans. Ao entrevistar Isaac, antigo pescador da região, se depara com a fotografia de uma jovem, sentada na mesa da cozinha. Isaac revela a ele que é Christine Eames, namorada de sua juventude. Ela mudou para Nova York em busca de trabalho como fotógrafa. Fascinado pela imagem, Michael pesquisa  e chega até a curadora de arte Mae Morton, filha de Christine, que está trabalhando na preparação de uma exposição sobre os trabalhos da mãe. 

    O tema do filme é encantador: fotografia encontrada ao acaso remete às memórias e sentimentos dos personagens, enquanto provoca o entrelaçamento de caminhos. Michael e Mae começam um relacionamento marcado por dúvidas, aparentemente sem pretensões. Mergulham na história da fotógrafa, cujo relacionamento com Isaac é narrado em flashbacks. A trama é simples, resvala para as tradicionais histórias de relacionamentos amorosos separados por escolhas. Assim como uma imagem, paixões podem se diluir na memória, mas basta vasculhar a gaveta que o passado volta perturbador na forma de velhas fotografias.  

    A fotografia (The photograph, EUA, 2020), de Stella Meghie. Com Issa Rae (Mae Morton), Lakeith Stanfield (Michael Block), Chanté Adam (Christine Eames), Y’lan Noel (Isaac Jefferson)

  • A mancha

    A diretora Lois Weber (1879/1939) tratou de questões ousadas em Hollywood, como aborto

    Lois Weber, uma das pioneiras na direção cinematográficas em Hollywood, debate questões sociais importantes nesta película esquecida. O professor Andrew Griggs não ganha o suficiente para custear nem mesmo suas necessidades básicas. Sua mulher não aceita a penúria em que vivem e sente inveja dos vizinhos ricos, a família de Peter Olsen, bem sucedido homem de negócios. 

    Estes vizinhos, que dividem a cerca, representa a imensa disparidade de classes dos Estados Unidos pré-depressão. O debate evolui quando Phil West, filho de um milionário e o mais importante conselheiro da Universidade, se apaixona pela filha do professor e passa a conviver com um pastor também muito pobre, com quem compartilha o gosto pelas artes.

    Quem move o grande conflito do filme é a esposa do professor quando, em um gesto desesperado, tenta roubar o frango da cozinha de seu vizinho abastado.  Louis Weber não se furta a fazer um discurso panfletário no final do filme, quando o transformado Phil questiona o pai sobre como os professores e clérigos, responsáveis pela formação dos jovens, são forçados e viver em situações de penúria, enquanto os homens de negócios enriquecem livremente. É o olhar feminino de importantes diretoras que, cruelmente, foram expulsas de Hollywood quando os homens de negócios tomaram conta e extirparam, durante décadas, debates fundamentais através do cinema. 

    A mancha (The blot, EUA, 1921), de Lois Weber. Com Philip Hubbard, Margaret McWade, Claire Windsor, Louis Calhern.

  • Babenco. Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou

    A diretora e atriz Bárbara Paz faz uma incursão ousada pela intimidade de Hector Babenco, com quem era casada. O documentário entremeia depoimentos de Babenco coletados ao longo de sua vida, cenas da vida cotidiana, incluindo imagens íntimas do casal, imagens do diretor em situações de trabalho e em polêmicas entrevistas, várias e várias cenas de seus mais importantes filmes. Mas a ousadia está em registrar com a câmera momentos da doença de Hector Babenco: em casa, no hospital, ainda trabalhando, ele refletindo  sobre a doença que consome sua vida.

    Agnès Varda fez registro semelhante também com seu marido, o famoso diretor da nouvelle-vague francesa, Jacques Demy. Filmes que só podem ser realizados por mulheres corajosas, sensíveis, francas, capazes de expressar com a câmera não só momentos íntimos, mas intensamente dolorosos.  Bárbara Paz em seu documentário presta uma grande homenagem a Babenco, um dos maiores diretores de todos os tempos do cinema nacional. E também ao cinema, pois cinema é acima de tudo intimidade, intensidade, verdadeiro na essência. 

    Babenco. Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou (Brasil,2020), de Bárbara Paz.