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  • A ilha de Bergman

    Tony é diretor de cinema e sua namorada Chris, roteirista. Eles desembarcam na Ilha Faro, onde Ingmar Bergman fez alguns de seus importantes filmes. A ilha é um ponto turístico associado a Bergman: casas e praias que serviram de locação, a casa de Bergman, uma associação que promove debates após a exibição de filmes do famoso cineasta sueco.

    A trama de A ilha de Bergman segue o processo criativo do casal de cineastas enquanto perambulam pela ilha. Tony é um diretor famoso, seguro de seu trabalho, Chris uma roteirista em crise que não consegue desenvolver seu novo projeto. 

    A virada da trama acontece quando Chris conta ao namorado a ideia de seu filme. A metalinguagem toma conta, um filme dentro do filme, como duas realidades paralelas na ilha, trazendo à tona revelações e dramas do passado da roteirista. A diretora Mia Hansen-Love aproveita do clima bucólico e intimista da ilha, como se o cinema de Bergman ainda pairasse ali, para compor duas histórias de amor ternas, sem melodrama, embaraçando realidade e ficção.  

    A ilha de Bergman (França, 2021), de Mia Hansen-Love. Com Vicky Krieps (Chris), Tim Roth (Tony), Mia Wasikowska (Amy), Anders Danielsen Lie (Joseph). 

  • Anjos rebeldes

    As adolescente Mary e Rachel se conhecem em um trem repleto de jovens a caminho de um colégio interno administrado por freiras. A amizade começa e segue no colégio marcada por atos rebeldes, principalmente contra a Madre Superiora, pois enxergam nela a mentora das rígidas convenções que cercam as internas. 

    A comédia de Ida Lupino traz um tema caro ao cinema: o rito de passagem da adolescência para a vida adulta. A bela amizade entre Mary e Rachel vai se confrontar com as escolhas inerentes ao amadurecimento, ao descobrimento de sentimentos ocultos, que se afloram em gestos simples, como se doar ao outro. Rosalind Russell cativa e comove como a rígida Madre Superiora que enternece a todos à medida que revela sua face doce e amorosa.

    Anjos rebeldes (The trouble with angels, EUA, 1966), de Ida Lupino. Com Rosalind Russell (Madre Superiora), Hayley Mills (Mary) , June Harding (Rachel).

  • A mesma parte de um homem

    Existem ótimas referências para entender o cinema brasileiro que combina escassez de recursos com histórias intimistas, marcadas pela beleza estética. A mesma parte de um homem traz estes elementos, acrescidos com as ótimas interpretações do elenco. 

    Renata e Miguel vivem isolados em uma cabana, junto com a filha adolescente. Trabalham a terra, agricultura de subsistência no interior do Brasil. Logo na primeira sequência, Miguel morre em um acidente de carro, mas o inesperado acontece: um homem ferido, desmemoriado, bate à porta da cabana e assume o lugar de Miguel. 

    O filme está à beira de um gênero que tem feito sucesso no cinema contemporâneo nacional: o suspense. O passado de Lui pode trazer revelações imprevisíveis e violentas, mas é a personalidade conflituosa de Renata, oscilando entre o medo e o desejo, que domina a trama. O sensível final na estrada úmida deixa em aberto muito do que esconde a alma humana.  

    A mesma parte de um homem (Brasil, 2021), de Ana Johann. Com Clarissa Kiste (Renata), Irandhir Santos (Lui), Laís Cristina (Luana), Otavio Linhares (Miguel).

  • The invisible frame

    Em 1988, um ano antes da queda do Muro de Berlim, Tilda Swinton e a diretora Cynthia Beatt se uniram em um documentário. A atriz, em um road-movie de bike, percorreu o Muro de Berlim do lado ocidental, buscando vislumbres da outra Alemanha além das paredes.

    21 anos depois, a ideia é a mesma, agora sem a demarcação cruel da fronteira. Tilda Swinton percorre livremente vários pontos, em um passeio contemplativo, reflexivo, por ruas, avenidas, parques que outrora foram demarcados pelo muro. A beleza do documentário está neste gesto de liberdade que um passeio de bike representa, deixando o vento ondular os cabelos, o olhar cair livremente sobre estruturas e pessoas, a mente vagar sem amarras.

    The invisible frame (Alemanha, 2009), de Cynthia Beatt.

  • Estradeiros

    O documentário segue a jornada de artistas de rua que perambulam pelo Peru, Buenos Aires, São Tomé das Letras, Recife e São Paulo. É um  road-movie de pessoas que se consideram livres, sem as amarras do mundo capitalista, vivendo de sua produção artesanal, vendida nas ruas. 

    Os depoimentos transitam por reflexões sobre as cidades, as ruas, a sociedade que insiste em rotular. Estradeiros demonstra que histórias verdadeiras,  comoventes, divertidas, que provocam reflexões, são a base dessa vida nômade. Viajar sem destino, muitas vezes sem dinheiro, é a verdadeira essência da liberdade?

    Estradeiros (Brasil, 2011), de Sergio Oliveira e Renata Pinheiro.

  • Açúcar

    O filme abre com bela imagem de uma vela de barco vermelha deslizando pela tela em uma paisagem verde. O barco trafega por um canal, Bethânia está em pé, contemplando extasiada a paisagem. Ela está de volta à terra de sua família, uma decadente fazenda da era do açúcar. As terras e o engenho estão envolvidos em dívidas que Bethânia não tem como pagar. 

    A narrativa perpassa pelos resquícios dos conflitos raciais e sociais originados nos tempo da escravidão. Os moradores, entre colonos e habitantes da vila, a maioria afrodescendentes, mantém uma ONG destinada a preservar e divulgar a cultura negra. O conflito do filme está centrado nas questões psicológicas de Bethânia: ela luta para preservar a fazenda, enquanto resiste em se entregar à sua verdadeira descendência. 

    A estética de Açúcar é deslumbrante, com destaque para as belas paisagens e imagens oníricas, quase surrealistas, de figuras folclóricas. O final é misterioso, intrigante, o fascínio do duplo. 

    Açúcar (Brasil, 2017), de Renata Pinheiro e Sergio Oliveira. Com Maeve Jinkings (Bethânia), Dandara de Morais (Alessandra), Magali Biff (Branca), Zé Maria (Zé). 

  • Baxter, Vera Baxter

    A escritora, roteirista e diretora Marguerite Duras experimenta a transposição puramente literária para o cinema em Baxter, Vera Baxter. A narrativa coloca em cena praticamente duas personagens em longos diálogos, com estilo literário, sobre as angústias e frustrações dos relacionamentos amorosos.

    Vera Baxter mora em uma luxuosa casa de campo alugada por seu marido. Ela recebe a visita de uma mulher que deve acompanhá-la ao encontro de seu amante, Michel Cayre. Vera passa o filme quase todo sentada no sofá, entabulado conversas frias e ao mesmo tempo plenas de significados com essa mulher desconhecida. A música de uma festa na casa vizinha invade o ambiente repetidamente. Inserts de Vera nua na cama compõem a trama dessa mulher reservada e enigmática, que, possivelmente, foi cedida como dívida de jogo por seu marido ao amante Michel Cayre. A película exige a entrega do espectador às reflexões literárias provocadas pelos densos diálogos.

    Baxter, Vera Baxter (França, 1977), de Marguerite Duras. Com Claudine Gabay (Vera Baxter), Delphine Seyrig (a desconhecida), Gérard Depardieu (Michel Cayre).. 

  • Kung-Fu Master!

    Agnès Varda envereda por um tema ousado, polêmico, diria até mesmo proibido. O amor de uma mulher de cerca de 40 anos por um adolescente. Durante uma festa em sua casa, promovida por sua filha Lucy, Mary-Jane fica encantada por Julien, colega de escola de Lucy. Ela decide que precisa vê-lo novamente e começa uma série de encontros com o garoto, a princípio, despretensiosos, mas que caminham cada vez mais e mais para a paixão mútua. A relação se concretiza durante uma viagem de férias em Londres, depois, Mary-Jane e Julius partem para uma estada em uma ilha na Inglaterra.

    Jane Birkin e Charlotte Gainsbourg, mãe e filha na vida real, transpõem essa condição para o filme. A relação entre as duas se anuncia cada vez mais conflituosa, à medida que o caso da mãe se revela. O garoto Julien é interpretado por Mathieu Demy, filho de Agnès Varda e Jacques Demy. 

    Apesar de controverso, Kung-Fu Master traz a sensibilidade característica da diretora francesa. Em um determinado momento, a mãe de Mary-Jane diz à filha que ela deve se entregar à paixão, apesar de tudo caminhar para a inevitável punição. 

    Kung-Fu Master! (Kung-Fu Master! Le petit amour, França, 1988), de Agnès Varda. Com Jane Birkin (Mary-Jane), Charlotte Gainsbourg (Lucy), Mathieu Demy (Julien), Lou Doillon (Lou).  

  • O amor dos leões

    Agnès Varda realizou este filme durante sua estada em Los Angeles, em 1969, centrando a narrativa em um triângulo amoroso, formado por Viva (a atriz de Andy Warhol, interpretando ela mesma), Jim e Jerry. Sexo a três, amor livre, viver os dias entre o mar, o sol e as piscinas, tudo indica o aclamado verão do amor que marcou a rebeldia juvenil dos anos 60. 

    Em meio a esta utopia, a diretora insere imagens dos astros e estrelas de Hollywood: fotos, cartazes, a famosa calçada da fama, citações, segundo Viva “a pressão aqui em Hollywood é tão grande, vinda de todas aquelas pessoas mortas.”

    Como pano de fundo, a própria Agnès Varda participa da trama, pois está tentando terminar um filme com a estrela Shirley Clarke, que passa por uma crise profissional e pessoal que resulta em uma overdose de remédios. 

    O amor dos leões é um retrato utópico e realista (os três protagonistas vivem em frente à TV acompanhando os impactos políticos do assassinato de Rober Kennedy) do final dos anos 60, quando parece que todo a rebeldia caminha para o erro.

    O amor dos leões (Lions love (…and lies), EUA, 1969), de Agnès Varda. Com Viva (Viva), James Rado (Jim), Gerome Ragni (Jerry), Shirley Clarke (Shirley). 

  • Nós

    O documentário da feminista Alice Diop, filha de pais senegaleses, é dedicado ao escritor François Maspero: “O seu livro Les Passagers du Roissy Express me incitou a ver e amar o que havia diante dos meus olhos.”

    Na primeira sequência, o ver e ouvir é representado por um casal e seu filho, em um bosque, observando de binóculos cervos selvagens. A partir daí, a diretora segue o cotidiano de personagens que usam o trem RER B, que atravessa Paris, conectando subúrbios ao centro da cidade.

    Compõem o filme um mecânico africano, uma cuidadora de idosos, um escritor e a própria Alice Diop que interage com os retratados. No final, uma simbólica trupe de “nobres”, vestidos a caráter para uma caça aos animais, confirma a disparidade social sugerida durante a narrativa, que dá voz aos moradores da periferia.  

    Nós (Nous, França, 2021), de Alice Diop.

  • Nuestros cuerpos son sus campos de batalla

    A diretora francesa Isabelle Solas centra sua câmera na trajetória política, combativa, de Claudia e Violeta, duas mulheres trans. Elas reúnem e lideram grupos de ativistas que buscam conscientizar a conservadora sociedade argentina dos direitos transfeministas. 

    A narrativa traz depoimentos de Claudia, Violeta e outras mulheres, momentos de reivindicações nas ruas, cenas cotidianas de casa e trabalho, além da cobertura do julgamento de um homem acusado do assassinato de Diana Sacayán, uma mulher trans. 

    Isabelle Solas planejou o documentário a partir do encontro com mulheres do Colectivo Otrans. “Queria dissecar como o desejo pode ser político, esta fonte individual e coletiva que torna possível pensar o mundo de forma diferente. Estes corpos que se movem neste território conturbado e violento que é hoje a Argentina; e que são em si mesmos um ato de resistência.” – declara a diretora.

    O título do documentário foi inspirado no cartaz da artista Bárbara Kruger, criado em apoio à luta pelo aborto: Your body is battleground.

    Nuestros cuerpos son sus campos de batalla (Argentina, 2021), de Isabelle Solas. 

  • Titane

    O filme abre com uma criança sentada no banco traseiro do carro, imitando o som do motor. O motorista, seu pai, mostra-se irritado e a repreende severamente. A criança, nervosa, solta-se do cinto de segurança, fazendo com que seu pai se distraia do volante, provocando um acidente. Após passar por uma delicada cirurgia no cérebro, a criança sai do hospital e, a primeira coisa que faz, é correr para o carro e encostar a face no vidro com os braços abertos, simulando um grande e terno abraço no veículo. 

    Corta para Alexia, agora uma jovem, protagonizando uma dança erótica em cima do capô de um carro esporte. A plateia masculina vai ao delírio, Alexia é uma celebridade neste meio. Sua única motivação são os carros, com quem desenvolve uma relação até mesmo erótica: atenção para a cena de sexo de Alexia com um carro, que resulta em uma inacreditável gravidez. 

    Logo no início do filme, Alexia revela uma compulsão para a violência, praticando um série de assassinatos. Violência e erotismo se misturam de forma agressiva, quase repulsiva, neste instigante thriller da diretoria Julia Ducournau, vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Quando o bombeiro Vincent entra em cena, a reviravolta no roteiro encaminha o filme para uma espécie de fraternidade familiar, mas mantendo o tom ousado e violento. Titane surpreende pela narrativa, pela estética, pelas relações entre personagens distópicos, cada um à sua maneira. 

    Titane (França, 2021), de Julia Ducournau. Com Vincent Lindon (Vincent), Agathe Rousselle (Alexia), Garance Marillier (Justine), Lais Salameh (Rayane). 

  • A festa

    Janet acaba de ser nomeada Ministra da Saúde no governo inglês. Junto com seu marido Bill, um professor universitário, ela reúne um pequeno grupo de amigos em sua casa para comemorar. Um casal de lésbicas, Martha e Jinny, que passou por inseminação artificial e está grávida de trigêmeos. April, a melhor amiga de Janet, junto com seu marido, Gottfried. Tom, um profissional do mercado financeiro.

    O clima de alegria e confraternização muda drasticamente quando Bill faz uma revelação que envolve morte e adultério. A festa tem uma estrutura completamente teatral, apesar de o roteiro ser original para cinema: a encenação acontece em um único ambiente com sete personagens. O humor ácido está nos diálogos e em situações inusitadas, como o personagem de Tom que entra no banheiro a todo instante para cheirar cocaína. O conflito principal da trama gira em torno de uma personagem ausente, a mulher de Tom. Mas revelações bombásticas são feitas a cada minuto das conversas. O final surpreendente deixa o espectador fascinado diante de um grande roteiro.

    A festa (The party, Inglaterra, 2021), de Sally Potter. Com Timothy Spall (Bill), Kristin Scott Thomas (Janet), Patricia Clarkson (April), Gottfried (Bruno Ganz), Cherry Jones (Martha), Emily Mortimer (Jinny), Cillian Murphy (Tom).

  • As filhas do fogo

    Duas namoradas se encontram em Ushuaia, após um longo tempo afastadas. Em um bar, elas namoram livremente e são ofendidas por um homofóbico. Uma jovem as defende e começa uma briga generalizada no estabelecimento. Elas fogem e começam um relacionamento a três que se intensifica quando fazem uma viagem de van pela Terra do Fogo. No caminho, acolhem outras mulheres lésbicas que praticam o amor livre, sem restrições. 

    O road-movie pornô lésbico da diretora Albertina Carri é recheado de cenas ousadas, entremeadas pela narração da protagonista que está tentando estruturar um filme pornô. As divagações da jovem passam pela liberdade sexual, pela natureza do corpo feminino, pela incerteza sobre o que é pornográfico ou não.

    Contra todas as expectativas, a natureza pornô da narrativa, o filme fez sucesso nas salas comerciais do Brasil. Atenção para a sequência de duas amantes fazendo sexo dentro de uma igreja, enquanto outra jovem em posição de voyeur se masturba e para a longa sequência final, em plano fechado frontal, de uma das jovens se masturbando.

    As filhas do fogo (Las hijas del fuego, Argentina, 2018), de Albertina Carri. Com Disturbia Rocío, Mijal Katzowicz, Violeta Valiente, Rana Rzonscinsky, Canela M., Ivanna Colonna Olsen, Mar Morales, Carlos Morales Rios, Cristina Banegas e Érica Rivas. 

  • Chão

    O documentário de Camila Freitas acompanha integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra que lutam para terem direito ao território de uma antiga fábrica de cana-de-açúcar. Sem narração ou legendas explicativas, o filme destaca os ativistas em momentos de luta pacífica nas ruas, buscando conscientizar os moradores da região, e em momentos de descontração nos acampamentos. 

    O contraponto conservador é expresso em uma sequência nos tribunais, quando, diante de líderes do movimento, os juristas tentam justificar, usando complexos argumentos legais, a negação ao direito dos trabalhadores rurais. Belo em alguns momentos, visualmente encantador quando as lentes da diretora exploram todas as nuances das pessoas em sua luta cotidiana por direitos inegáveis (deveria ser assim), triste em outros, quando a realidade mostra sua face injusta, elitista e cruel.  

    Chão (Brasil, 2019), de Camila Freitas.

  • Documenteur

    Agnès Varda tece uma narrativa híbrida, entre o documentário e a ficção. Emile, jovem recém divorciada, vive com seu filho Martin, que tem cerca de 10 anos, em Los Angeles. Ela é imigrante e passa seus dias entre o trabalho como datilógrafa, os cuidados com o filho e andanças pela cidade. 

    A diretora francesa, única mulher integrante da prestigiada nouvelle-vague francesa, parece ter uma câmera acoplada ao seu corpo. Por onde passa, a diretora produz um filme. Documenteur foi realizada durante sua breve estadia em Los Angeles no início da década de 80. Documentário ou ficção, não importa. É o retrato de uma jovem mulher, Emile, em busca de se integrar a um país que finge abrir as portas para todos os sonhadores, sonhos que se desfazem na luta cotidiana. Atenção para a bela imagem de Emile sentada nua na cama. É uma pura imagem de Agnès Varda. 

    Documenteur (França, 1981), de Agnès Varda. Com Sabine Mamour (Emile Cooper) e Mathieu Demy (Martin Cooper).

  • Você tem belas escadarias, sabia?

    Em apenas quatro minutos, Agnès Varda faz uma bela homenagem à história do cinema. O curta usa as escadas da Cinemateca Francesa que conduzem ao Museu do Cinema. A montagem alternada intercala pessoas descendo as escadas com cenas de diversas obras filmadas em escadas. É uma sucessão de imagens que remetem à história do cinema, filmes que marcaram gerações, o fascínio irrompe em cada take. 

    O curta-metragem celebrou os 50 anos da Cinemateca Francesa e, por coincidência, a escadaria tem exatamente 50 degraus. Agnès Varda recortou cenas dos seguintes filmes: Juve contre fantômas – Louis Feuillade, Pépé le moko – Julien Duvivier, O encouraçado Potemkin – Sergei Eisenstein, A imperatriz vermelha – Josef von Sternberg, Cidadão Kane – Orson Welles, Ran – Akira Kurosawa, Le coup du parapluie – Gérard Oury, O desprezo – Jean-Luc Godard, Modelos – Charles Vidor, A história de Adele H – François Truffaut. 

    Você tem belas escadarias, sabia? (T’as de beaux escaliers, tu sais, França, 1986), de Agnès Varda. 

  • Os amantes da Ponte Mac Donald

    Este curta-metragem mudo, na verdade um mini filme de cerca de quatro minutos de duração, foi inserido no longa Cléo das 5 às 7. É uma grande homenagem aos primórdios do cinema e conta com uma atração à parte: Jean-Luc Godard como protagonista, ainda sem seus marcantes óculos escuros. 

    A narrativa segue uma aventura burlesca às margens do Sena, Godard e Anna Karina interpretam um casal que se despede na ponte e um pequeno acidente acontece, de forma repetida, quando a jovem enamorada está de saída. A fotografia em preto e branco, montagem acelerada, interpretações caricatas, é puro cinema mudo, com certeza uma divertida experimentação para os jovens da nouvelle-vague francesa.  

    Os amantes da Ponte Mac Donald (Les fiancés du Pont Mac Donald, França, 1961), de Agnès Varda. Com Jean-Luc Godard e Anna Karina.

  • A ganha pão

    Kabul, 2001. O Talibã tomou o poder no Afeganistão e implantou suas extremistas formas de controle. A pré-adolescente Parvana é filha de um professor e de uma escritora, ambos impedidos de trabalhar. Ela acompanha seu pai à feira, onde vendem produtos caseiros. Idress, um jovem que foi aluno do professor, impõe violentamente que Parvana vá para casa e, depois, denuncie o professor. Ele é preso arbitrariamente e sua família, composta pela mulher, outra filha e um menino ainda bebê, não tem mais condições de sequer se alimentar: no regime Talibã, mulheres não podem sair às ruas sem a companhia de um homem, mesmo para comprar comida. 

    A narrativa de A ganha pão (a animação foi produzida por Angelina Jolie) mescla realismo e fantasia. A alternativa de sobrevivência da família vem de Parvana: ela corta seus longos cabelos, se veste de menino e sai todos os dias para trabalhar, junto com uma amiga da escola, que também se finge de menino. Diante da violência, da inacreditável crueldade dos membros do regime – praticadas até mesmo por jovens como elas -, Parvana conta histórias de um mundo de fantasia, onde um jovem, Suleyman, luta contra seres endiabrados. 

    A triste sequência final, quando as mulheres da família de Parvana enfrentam seus piores pesadelos nas estradas tomadas pela guerra, aponta uma esperança. Sentimento ilusório como demonstrou a recente retomada do poder pelo regime Talibã no Afeganistão. 

    A ganha pão (The breadwinner, Irlanda/Canadá, 2017), de Nora Twomey.

  • O leão volátil

    Agnes Varda está sentada em um banco de praça, lendo. Ela narra:  “Em 1933 houve uma pesquisa sobre o que poderia ser feito aos monumentos para embelezar Paris. André Breton respondeu: dê ao Leão de Belfort um osso para roer e vire-o ao oeste.”

    O tom surrealista consagrado por André Breton está presente na narrativa de O leão volátil. Clarisse é aprendiz de vidente, tem os olhos fascinados pelas predições de sua mentora, Madame Clara. Em alguns dias seguidos, sempre na hora do almoço, ela encontra Lazarus, porteiro que trabalha nas catacumbas parisienses. Os encontros acontecem sempre na Praça Denfert-Rochereau, onde fica a estátua do Leão de Denfert.

    Clarisse, sempre com olhar deslumbrado, apaixonado, vê pequenos acontecimentos místicos, surrealistas. Objetos desaparecem nas mãos de Lazarus; o próprio Lazarus desaparece ao atravessar a rua; a sugestão de Breton aparece ante seus olhos: o leão tem um osso na boca, depois é substituído por Zgougou, o gato de Agnès Varda (mascote do Ciné-Tamaris, produtora da cineasta). São os olhos de leitores e espectadores de cinema que, assim como videntes, imaginam coisas o tempo todo. 

    O leão volátil (Le lion volatil, França, 2003), de Agnés Varda. Com Julie Depardieu (Clarisse), Frédérick E. Grasser-Hermé (Madame Clara), David Deciron (Lazarus).