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  • Jeanne Dielman

    Em 2022, a respeitada Revista Sight & Sound atualizou a lista dos 100 melhores filmes da história (publicada de dez em dez anos). Jeanne Dielman (Jeanne Dielman, 23 Quai Du Commerce, 1080, Bruxelles, Bélgica/França, 1975), a obra prima de Chantal Akerman assumiu o topo da lista. 

    O filme tem mais de três horas de duração e acompanha três dias na vida da protagonista. Jeanne (Delphine Seyrig) mora com o filho adolescente e, para o sustento, recebe homens durante o dia em seu apartamento. Prepare-se para uma imersão na vida cotidiana: a câmera sempre estática, à distância e ligeiramente baixa (a lá Ozu) acompanha as tarefas da dona de casa na cozinha, na mesa de jantar, tomando banho, limpando o banheiro. Tudo em longos planos, quase sem cortes. É um filme silencioso e perturbador pela duração das cenas. No final, um ato inesperado encerra essa trama sem trama, um primor estético e de linguagem do cinema não-narrativo. 

    “Por mais difícil que seja o filme, traz recompensas consideráveis que estão, muitas vezes, inexoravelmente ligadas à sua duração. Por um lado, a tese feminista de Akerman é transmitida com urgência por conta de sua decisão de mostrar a vida de Jeanne em seus mínimos detalhes. Não basta para Akerman sugerir o tédio da existência abnegada de sua protagonista – em vez disso, ao apresentar explicitamente sua insípida rotina em tempo real, Akerman habilmente transmite o vazio sufocante que, no final das contas, é o que impulsiona Jeanne em direção a seu trágico ato final.”

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • A amiga de minha amiga

    La amiga de mi amiga (Espanha, 2022), de Zaida Carmona, é uma representação do amor livre entre mulheres. Zaida, jovem roteirista, termina com sua namorada e volta para Barcelona. Curtindo uma espécie de ressaca, ela sai com grupos de amigas, conhece uma diretora de cinema em ascensão e acontece uma troca de casais. 

    É um filme leve e despretensioso ambientado em apartamentos, bares e cinemas de Barcelona. É também uma homenagem aos filmes de relacionamentos entre jovens, demarcada pelo fascínio de Zaida pelo cinema de Eric Rohmer. Ela frequenta as sessões de uma mostra de Rohmer que acontece na cidade. A trilha sonora, composta pela música eletropop é um dos destaques da película.  

  • How do have sex

    Tara, Skye e Em,  três adolescentes de férias, chegam a uma badalada ilha grega em busca de diversão. O clima de euforia entre as amigas é contagiante, deixando claro desde o início o principal motivo da viagem, expresso  no título da película. 

    A narrativa acompanha esse rito de passagem, tratando com sensibilidade e um olhar amoral a procura das jovens, principalmente da protagonista Tara, cuja sensibilidade vai se confrontar com as indecisões da entrega. 

    How to have sex conquistou a categoria Un Certain Regard no Festival de Cannes, ajudando a revelar a jovem diretora Molly Manning. O que parece ser uma comédia de verão, leve e descontraída, envereda por questões perturbadoras, como o uso de álcool e drogas pela juventude e, principalmente, os limites da não-permissão, do abuso sob os efeitos químicos.

    A narrativa é movida a música, álcool, drogas e brincadeiras extremas sob a praia e sol escaldante da Grécia. A interpretação  de Mia McKenna Bruce é o ponto de destaque da trama: a princípio leve, passo a passo melancólica, até se transformar em um pesadelo psíquico. 

    How to have sex (Inglaterra, 2023), de Molly Manning. Com Mia McKenna Bruce (Tara), Lara Peake (Skye), Enva Lewis (Em), Samuel Bottomley (Paddy), Laura Ambler (Paige).

  • A idade da pedra

    A idade da pedra (França/Brasil, 2013), curta-metragem de Ana Vaz, foi filmado nos arredores de Brasília, focando em uma estrutura monumental, petrificado no meio da paisagem do cerrado. Em torno do monumento, trabalhadores da construção civil buscam o seu sustento sob o sol incremente. 

    A ausência de narração é uma marca nos filmes de Ana Vaz. Em A idade da pedra, o som é responsável por pontuar de forma estridente, outras vezes suave, esta interação desprovida de harmonia entre o homem e a natureza. As imagens e sons levam o espectador a um estado contemplativo, motivando um olhar sensorial nesta intervenção cruel e suicida dos humanos sobre a natureza.

  • É noite na América

    É noite na América (Itália/França, 2022), o primeiro longa-metragem de Ana Vaz, lança um olhar assustador sobre a paisagem do distrito federal. Dominada pelo silêncio, a narrativa fragmentada traz imagens de animais vagando desorientados: jiboia, tamanduá, raposas, rondam as ruas e estradas da cidade. No zoológico, onde residem animais que deveriam estar na natureza, as espécies olham desoladas para os humanos. 

    O documentário é um libelo político e humanista, alertando para a ação do homem sobre a natureza, ação destruidora e desprovida de esperanças de que alguma coisa pode mudar. É noite na América é um profundo convite à reflexão sobre o presente e a possível ausência de futuro de nosso planeta. 

  • Aribada

    O curta Aribada (Colômbia, 2022), de Simon(e) Jaikiriuma Paetau e Natalia Escobar,  filmado na região cafeeira da Colômbia, encantou em festivais, incluindo o prestigiado Festival de Cannes, com suas imagens oníricas, provocativas na união do real, o mágico e o espiritual. 

    A narrativa acompanha Karmen, uma jovem indígena trans, que retorna a sua comunidade no meio da selva colombiana. Aribada, o monstro ressuscitado, conhece um grupo de mulheres trans indígenas do povo Emberá. O grupo se autodenomina Las Traviesas e as mulheres ganham a vida colhendo café.

    O curta, mescla de documentário e ficção, acompanha a dualidade da vida de Karmen, dividida entre o mundo urbano e sua herança indígena. É um reflexivo relato sobre a sexualidade e as questões de gênero dentro do povo indígena Emberá. As imagens induzem a contemplação, com frames que refletem a beleza da região e levam o espectador a se encantar com a leveza espiritual dos indígenas. Sensível, delicado, provocativo, Aribada é uma viagem entre a natureza e as emoções dos personagens. 

  • Antena da raça

    Antena da raça (Brasil, 2020), de Paloma Rocha e Luís Abramo.

    A filha de Glauber Rocha dirige, ao lado de Luís Abramo, esse contundente documentário sobre o maior cineasta do Brasil. A base é o programa Abertura, que Glauber realizou para a TV Tupi no final dos anos 70. O próprio diretor ia para as ruas com sua câmera entrevistar pessoas comuns com sua famosa verborragia repleta de críticas e ironias. 

    Trechos dos filmes de cineastas entremeiam cenas do programa em uma narrativa não linear, provocando associações entre o Brasil dos anos 60, 70 com a atualidade, principalmente em questões políticas. Entrevistados célebres, como o teatrólogo José Celso Martinez e Caetanos Veloso relembram momentos vividos com Glauber Rocha, destacando a rebeldia inerente do artista tanto na vida pessoal como em suas obras fílmicas.  

  • A menina santa

    A adolescente Amália participa de um grupo de jovens católicos. Helena, sua mãe, é proprietária de um hotel onde acontece um congresso médico. Dr. Jano, um dos congressistas, faz carícias na adolescente quando os dois estão espremidos em grupos de rua ou no próprio hotel. 

    O filme de Lucrecia Martel é um estudo sobre fé, misticismo e sexualidade. Amália se aproxima do médico, casado e pai de dois filhos, insinuando-se e aceitando os abusos, pois se sente investida de uma missão divina que pode curar o médico desses desejos. Ao mesmo tempo, Helena se sente atraída pelo Dr. Jano, com a trama resvalando para um intrigante triângulo amoroso repleto de desejo, culpa e condenação. 

    Grande parte da narrativa acontece nos ambientes fechados do hotel, com algumas cenas de rua. A câmera quase claustofócia de Lucrecia Martel percorre quartos, corredores, salões e a piscina, sempre cheios: médicos, funcionários, familiares, se cruzam e interagem em momentos divertidos, tensos, regados à comida e álcool, a sensação é de uma efervescência prestes a explodir. O som é outro ponto de destaque de A menina santa, formado por ruídos, sons que ultrapassam paredes, diálogos insinuantes e metafóricos. 

    A menina santa (La Ninã Santa, Argentina, 2004), de Lucrecia Martel. Com Mercedes Morán (Helena), Carlos Belloso (Dr. Jano), Alejandro Urdapilleta (Freddy), Maria Alché (Amalia), Julieta Zylberberg (Josefina).

  • A felicidade das coisas

    A felicidade das coisas (Brasil, 2021), de Thais Fujinaga, foi feito em parceria com a cultuada produtora Filmes de Plástico e foi escolhido como o melhor longa de estreia na Mostra de Cinema de São Paulo. Paula (Patricia Savay) está passando a temporada de férias com sua mãe e seus dois filhos (ela está grávida do terceiro filho) em uma cidade litorânea de São Paulo. Ela aproveita a estada para terminar a piscina da casa praiana, um sonho da família ou melhor, um sonho de Paula. 

    Esse pequeno e complexo desejo de muitas famílias de classe média e classe média baixa brasileiras é o mote que deflagra uma série de conflitos familiares. A piscina, claro, nunca fica pronta por questões econômicas, o pai ausente não cobre os cheques e atrasa o pagamento dos trabalhadores. 

    O grande conflito gira em torno das relações entre Paula e seus filhos, principalmente o adolescente Gustavo (Messias Góis) que está em sua fase rebelde, em busca de libertação das amarras, e se envolve com um grupo de adolescentes da cidade.  

    A felicidade das coisas traz muito das memórias afetivas da diretora Thaís Fujinaga. A locação é em Caraguatatuba, litoral norte de São Paulo, no Morro do Algodão (bairro formado por casas de praia e um clube de classe média alta), onde a diretora passou vários verões durante os anos 80 e 90. Segundo Thaís “Era uma dinâmica de certa segregação: quem se hospedava no clube não se relacionava com a cidade e muito menos com o bairro. Ao longo dos anos, fiquei circulando dentro e fora daquele lugar e veio daí minha primeira inspiração. Queria explorar esse espaço e a relação de ter ou não acesso a certas coisas.” – Mulher no Cinema

  • Playback

    Agustina Comedi monta Playback (Argentina, 2019) com imagens de arquivo, registros pessoais, entrevistas, para documentar a trajetória de um grupo de travestis e transformistas que atuaram na noite de Córdoba, entre 1980 e 1990. La Delpi funciona como um elo de ligação, pois é a única sobrevivente do grupo, muitos vitimados pela AIDS. 

    O documentário é um potente registro da Argentina ainda marcada pela repressora e violenta ditadura militar. A noite underground e queer de Córdoba reserva momentos alegres, rebeldes, uma intensa luta pela liberdade rodeada pelo terror imposto pela conservadora sociedade e pela epidemia da AIDS.

    A narrativa fragmentada, não-linear, ajuda o espectador a transitar pelas memórias das personagens, recheadas de sensibilidade, afeto e fraternidade. Playback é um curta-metragem sensível sobre um momento ao mesmo tempo vibrante e trágico da sociedade argentina.  

  • Entre mulheres

    O ano é 2010. Em uma colônia agrícola, moram homens e mulheres regidos pela ortodoxia religiosa que coloca os homens no poder e as mulheres em posições subalternas e subservientes – não podem nem mesmo aprender a ler. Durante um período, jovens da comunidade são drogadas e estupradas, algumas engravidando dos agressores. 

    Alguns desses homens são identificados e levados para a delegacia. Mas os anciões da aldeia avisam: todos os homens vão voltar em 48 horas e as mulheres devem perdoar os agressores. 

    A diretora Sarah Polley adaptou o livro de Miriam Toews que recria os crimes que ocorreram contra as mulheres em um colônia menonita, na Bolívia, em 2009. Grande parte da trama se passa dentro de um celeiro. As mulheres devem votar em três opções: perdoar os agressores, fugir, ficar e lutar. Após empate entre as duas últimas opções, oito mulheres são escolhidas para analisar e decidir. 

    A direção de fotografia espelha, nas cenas externas, a beleza agreste da colônia, com seus campos floridos, o entardecer inebriante, como se fosse um lugar idílico, belo de se viver. Nas cenas internas, particularmente dentro do celeiro, onde acontecem os longos debates entre as mulheres (women talking) a fotografia carrega no ar claustrofóbico, de pura angústia, medo e tristeza – em ambientes assim, as mulheres são espancadas e estupradas. 

    Entre mulheres concorreu a dois Oscars: Melhor filme e Roteiro Adaptado. Vale destacar as atuações de Rooney Mara, Claire Foy e Jessie Buckley. O embate verbal entre as três personagens é sensível, sofrido, quase como um grito de desespero. É um filme de uma brutalidade ensurdecedora, mesmo sem mostrar nenhuma agressão física. 

    Entre mulheres (Women talking, EUA, 2023), de Sarah Polley. Com Rooney Mara (Ona), Claire Foy (Salome), Jessie Buckley (Mariche), Judith Ivey (Agata), Emily Mitchell (Miep), Ben Whishaw (August).

  • Saltburn

    O jovem Oliver Quick chega a Oxford para um período de residência. É o início dos anos 2000 e a juventude da renomada universidade segue os padrões rotineiros: estudos, baladas, álcool, sexo. Oliver, cuja narração em off acompanha a trama, se apaixona pelo belo milionário Felix, “não estou apaixonado por Feliz, eu o amo”, destaca Oliver. 

    Nas férias de verão, Oliver é convidado por Felix para passar a temporada na mansão de sua família. Saltburn é uma espécie de castelo de contos de fadas, habitado por Sir James Catton, sua esposa Elspeth e Annabell, irmã de Félix. E, claro, uma legião de estranhos empregados. 

    A fotografia do filme é um dos destaques, evidenciando a beleza interna e externa da propriedade, assim como os corpos dos jovens neste verão reluzente, pleno de devaneios eróticos. Oliver, a princípio tímido (ou aparenta) passa a ser o pivô de um sensual jogo de manipulação entre a família e convidados. Um dos méritos da diretora Emerald Fennell é tratar de todo o erotismo através de insinuações tensas, sem usar de cenas de sexo ousadas. Félix é o centro do desejo, sua beleza atrai naturalmente os anseios de todos, inclusive dos espectadores. O ponto negativo do filme é a reviravolta final, expressa em confusos flashbacks que exploram a verdadeira personalidade de Oliver.  

    Saltburn (EUA, 2023), de Emerald Fennell. Com Barry Keoghan (Oliver Quick), Jacob Elord (Felix Catton), Rosamund Pike (Elspeth Catton), Richard E. Grant (Sir James Catton), Archi Madekwe (Fernleigh), Sadie Soverall (Annabel Catton).

  • Revolução na terra dos brinquedos

    Hermína Týrlová, aclamada diretora alemã de animação, dirige em parceria essa pequena obra-prima, uma manifesto contra o nazismo e o fascismo. Um fabricante de brinquedos de madeira está trabalhando em sua oficina quando se vê ameaçado por um oficial da Gestado. Ele foge pela janela, o policial invade a oficina e começa a vasculhar o ambiente, tentando destruir os brinquedos. 

    Os brinquedos ganham vida e fazem uma resistência coletiva contra o oficial, usando de inventividade, com recursos criativos de guerrilha, bem ao estilo da resistência tcheca durante a ocupação na Segunda Guerra Mundial. Revolução na terra dos brinquedos, de certa forma, é o antecessor de Toy Story, colocando o universo da fantasia contra os horrores do nazismo. 

    Revolução na terra dos brinquedos (República Tcheca, 1946), de Hermína Týrlová e Šádek František.

  • De cierta manera

    De cierta manera (Cuba, 1977),  é o único filme da cubana Sara Gómez. Ela morreu durante a montagem do filme, aos 31 anos, vítima de uma crise de asma. A película, filmada em 1971, só foi lançada em 1977, após a participação na montagem de Gutiérrez Alea e Julio García Espinosa. 

    O início do filme, em narrativa invertida, transcorre durante um tribunal de trabalhadores que devem julgar um colega que se afastou do trabalho, supostamente para se encontrar com uma mulher. Essa sequência volta no final do filme. 

    Entre as sequências do tribunal, conhecemos Yolanda (Yolanda Cuéllar), uma professora idealista que se confronta com a miséria e as dificuldades de alunos “marginais” no Bairro de Miraflores, um dos mais pobres de Havana na época. Ela mantém um relacionamento com Mario (Mario Balmaseda), peça-chave do tribunal, um trabalhador que não encontra seu lugar nestes primeiros anos da revolução cubana. O sonho de Mario é tornar-se membro da sociedade abakua, organização religiosa influenciada pela maçonaria e pela religiosidade yorubá. Só homens podem fazer parte da sociedade, simbolizando o caráter machista de Mario que vai colidir com a politizada e libertária Yolanda.

    “O romance entre os dois é uma pequena metáfora da Cuba que se desmonta e precisa se reconstruir após a revolução. A todo tempo o caminhar da narrativa romântica do filme é interrompido pelos excertos documentais, que de início têm enfadonho caráter jornalístico, mas aos poucos vão se convertendo em digressões que dialogam e questionam a trama ficcional (e vice-versa). Uma das melhores sequências do filme, por exemplo, é a cena em que o casal discute enquanto caminha pela Calle 23, e encontra um amigo de Mario; o momento de tensão é interrompido por uma sequência que nos apresenta a peculiar história deste amigo.” – Beatriz Macruz – Site Mulher no cinema

  • Chocolate

    O primeiro filme da prestigiada Claire Denis é uma volta à infância, memórias da época em que viveu com seus pais em uma fazenda em Camarões. No início da película, a jovem Frances está caminhando por uma estrada litorânea. Um homem, acompanhado de seu pequeno filho, oferece carona a ela. Durante o trajeto, ela se depara com paisagens, moradores das cidades, as lembranças. 

    Em flashback, a narrativa retoma a infância da menina Frances na fazenda. Seu pai, Marc, vive ausente, pois é responsável pelo gerenciamento da região. Aimée, a mãe, vive reclusa em casa, entregue aos comandos da casa. O personagem motriz da trama é Protée, espécie de mordomo “faz tudo”, inclusive cuidar da menina, com quem desenvolve um relacionamento recíproco de ternura e compreensão.  

    A relação colônia/colonizador está expressa nesse pequeno contexto familiar e em situações mais amplas. A relação entre Aimée e Protée é marcada pelo imperativo da patroa branca e a submissão (aparente) do empregado negro. No entanto, o conflito se revela no erotismo sugerido entre os dois, em alguns momentos, quase concretizado. 

    Ao mesmo tempo em que lida com questões políticas complexas, como agradar um grupo preconceituoso de turistas e investidores endinheirados, Marc se vê diante do inevitável conflito posto pela sua família (também simbólico no contexto geral): ficar e caminhar para a ruptura ou partir e deixar a África para os africanos. 

    Chocolate (Chocolat, França, 1988), de Claire Denis. Com Isaach De Bankolé (Protée), Giulia Boschi (Aimée Dalens), François Cluzet (Marc Dalens), Mireille Perrier (France Dalens). 

  • Please baby, please

    É ótimo encontrar filmes contemporâneos nos quais a estética noir ainda provoca forte influência. O grande trunfo de Please baby, please é o visual extravagante, pontuado por números musicais também estranhos e por fortes doses de violência e erotismo. 

    No início da trama, o casal formado por Suze e Arthur presencia uma gangue gótica assassinando um homem a pontapés no beco da cidade. Os dois passam a ser chantageados pela gangue, mas entre os riscos de violência e morte, desenvolvem um complexo fascínio: Suze fica cada vez mais obcecada pelo visual e estilo da gangue; Harry se entrega ao desejo por Teddy, um dos integrantes. 

    O roteiro não traz atrativos, muito menos surpresas. O destaque fica por conta da estética, da participação especial de Demi Moore e da interpretação caricata de Andrea Riseborough (indicada ao Oscar em 2022 por To Leslie).  

    Please baby, please (EUA, 2022), de Amanda Kramer. Com Andrea Riseborough (Suze), Harry Melling (Arthur), Demi Moore (Maureen), Karl Glusman (Teddy), Ryan Simpkins (Dickie), Cole Escola (Billy). 

  • Aos nossos filhos

    Vera coordena uma ONG que acolhe e encaminha para adoção crianças de uma comunidade carioca, inclusive crianças soropositivas. Sua filha Tânia e a namorada, Vanessa, tentam ter um filho através de inseminação artificial. O passado de Vera nas prisões da ditadura militar, quando foi torturada, vem à tona quando ela é entrevistada por Sérgio, um jovem que está escrevendo um livro sobre sua mãe, companheira de cela de Vera. 

    A trama desenvolve dois núcleos fortes: a relação conflituosa entre Tânia e Vera, angustiada e incerta diante do desgastante processo de inseminação; e as lembranças dolorosas de Vera no submundo dos porões militares. Destaque para a sequência do cemitério, quando Vera se vê finalmente diante de seu maior tormento, revelador da cruel e desumana prática de tortura no Brasil dos generais, que muitos ainda insistem em negar. Outros, também criminosos, prestam homenagens oficiais a torturadores. 

    Aos nossos filhos (Brasil, 2019), de Maria de Medeiros. Com Marieta Severo (Vera), Laura Castro (Tânia), Cláudio Lins (Sérgio), José de Abreu (Fernando), Marta Nobrega (Vanessa).  

  • Quem ama não teme

    Quem ama não teme (Never fear, EUA, 1949), de Ida Lupino. O filme abre com a tradicional sequência do gênero musical: um casal de jovens dançarinos se apresenta em um nightclub da Califórnia. A sequência, belamente coreografada, destaca Carol Williams (Sally Forrest), de pernas exuberantes, gestos graciosos e um olhar apaixonado para seu par dançante, Guy Richards (Keefe Brasselle). O casal tem uma promissora carreira pela frente, Guy compondo e coreografando, Sally se afirmando como dançarina. Pouco depois, Carol passa mal, é internada e diagnosticada com poliomielite. É o fim de sua carreira precoce e, possivelmente, de seu caso de amor com Guy. 

    Ida Lupino dirigiu apenas seis filmes, uma das únicas mulheres a ter esse privilégio durante a chamada era do cinema clássico americano, entre os anos 30 e 60. A maioria de seus filmes trazem protagonistas femininas fortes, humanas, que em alguns momentos se entregam à fatalidade, mas se erguem e lutam. É o caso de Carol (espécie de biografia de Ida Lupino que também sofreu com a pólio na infância). 

    A narrativa está impregnada de cores reais no processo da doença da dançarina, retratando de forma vívida o drama dos cadeirantes e o sofrimento físico e emocional diário a que são submetidos nos hospitais de reabilitação. Um dos pontos fortes da trama está na amizade entre Carol e Len Randall (Hugh O’Brien). Os dois são cadeirantes e estão internados no mesmo hospital. Len tem um ar jovial, otimista, alegre, ajuda a todos, ao contrário de Sally, entregue à tristeza e à depressão. Entre os dois, Sally é a única com possibilidades de cura, mas é Len quem se esforça ao máximo nos exercícios, demonstrando uma esperança contagiante. O olhar e a direção sensível de Ida Lupino transformam essa luta cotidiana em gestos de amizade, amor e companheirismo.

  • O bígamo

    O filme abre com o casal Harry Graham e Eve em uma entrevista para adoção de uma criança. Estão na faixa dos quarenta anos, são profissionais de sucesso e a adoção é o sonho da esposa. Harry reluta, mostra-se apreensivo, reticente, Edmund Gwenn, o entrevistador remarca a entrevista e, perspicaz como um detetive, passa a investigar Harry. A descoberta não tarda a acontecer. Harry viaja muito a trabalho e, certo dia, ao abrir a porta de sua outra residência, se depara com Edmund. O som de uma criança recém nascida ressoa ao fundo e Phyllis entra em cena. 

    O título já revela ao espectador o tema da trama, portanto, não é surpresa a descoberta. A partir desse momento, O bígamo se transforma em um profundo estudo de personagens. Em flash back, Harry conta como conheceu Phyllis e a engravidou. Narrativa paralela revela o crescente distanciamento que vive com a esposa original, motivado, em grande parte, pelos anos de casamento, pela dedicação à vida profissional, a rotina e o tempo que transformam inúmeros casais em apenas amigos. 

    O trunfo do filme é a dissecação dolorosa das escolhas de Harry, sua paixão por Phyllis, seu respeito pelo longo casamento, um remorso lento e diário que corrói sua integridade. Ida Lupino não escolhe julgar Harry, nem suas esposas, coloca em pauta a complexidade da alma humana, os erros inerentes à condição de existir, de se entregar a momentos ternos como a troca de um olhar em um parque. Espero que, nem mesmo o espectador, se sinta capaz de julgar nem um dos personagens. 

    O bígamo (The bigamist, EUA, 1953), de Ida Lupino. Com Joan Fontaine (Eva Graham), Ida Lupino (Phyllis Martin), Edmond O’Brien (Harry Graham), Edmund Gwenn (Sr. Jordan). 

  • Mãe solteira

    Sally, uma jovem e ingênua garçonete, se apaixona pelo pianista que toca onde ela trabalha. O caso resulta em uma gravidez, mas o pianista muda de cidade, em busca do seu sonho de ser compositor. A jovem vai à sua procura, mas é renegada e abandonada. Desesperada, sua decisão é se internar em uma instituição que cuida de jovens solteiras grávidas e buscam pais adotivos para as crianças. 

    Mãe solteira é o primeiro filme dirigido pela consagrada Ida Lupino. Ela assumiu o filme durante as filmagens, substituindo Elmer Clifton, que sofreu um ataque cardíaco. Lupino tinha 31 anos e foi responsável pelo roteiro do filme, além de atuar como co-produtora.  

    Lupino impôs um olhar feminino ao drama de Sally, sofrendo com o abandono e as angústias quase insuportáveis da sua decisão de ceder o filho para adoção. Uma característica marcante de Mãe solteira, fruto da experiência da diretora como atriz no cinema clássico americano, é a narrativa visual, com momentos dramáticos transmitidos por planos longos e pela montagem com cortes secos e precisos.  

    Mãe solteira (Not wanted, EUA, 1949), de Ida Lupino e Elmer Clifton. Com Sally Forrest (Sally Kelton), Keefe Brasselle (Drew Baxter), Leo Penn (Steve Ryan).