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  • Homens brancos estao enlouquecendo

    Homens brancos estão enlouquecendo (White men are cracking up, Inglaterra, 1994), de Ngozi Onwurah. 

    Mazie Blue (Theo Omambala) está em um quarto com um coronel do exército de 63 anos. Ela veste roupas sensuais e começa uma dança afro, à pedido do oficial – “Meu último pedido”. Depois da dança, Mazie pergunta: “Você está pronto?” “Sim. Eu estou.” 

    Na manhã seguinte, o oficial é encontrado morto, claramente se suicidou. É mais um caso que assola a cidade: homens brancos estão cometendo suicídio. Somente o policial interpretado por Jon Finch acredita que as mortes são causadas pela mesma pessoa, “um anjo negro que não deixa rastros”. Ele passa a caçar Mazie Blue e o confronto entre os dois vai testar os limites dessa magia poderosa que opera por meio da sedução. 

    A diretora Ngozi Onwurah compõe um filme esteticamente também sedutor, com fotografia que reflete as influências do neo-noir. Os figurinos, adereços e direção de arte remetem à cultura africana, intensificando o clima de encantamento e desejo. A narrativa surrealista, associada à essa estética onírica e simbólica, ficou conhecida como afro-surrealista. 

  • Poder local, poder popular

    Poder local, poder popular (Cuba, 1970), de Sara Gómez.

    A frase “As massas têm a palavra” abre e guia a estrutura narrativa do documentário. A diretora Sara Gómez registra a eleição do “prefeito” de uma comunidade, cuja principal atividade é relacionada ao processo de produção da cana de açúcar, localizada na Isla de Pinos. 

    O documentário trabalha com comentários e afirmações dos trabalhadores, respeitando o estilo coloquial e, às vezes, irreverente da população local. Letterings em negrito, destacam frases e palavras como “Poder Local”,  “Apoio”, “Erros”, “Poder popular”.

    Apesar do documentário, como todos os outros da diretora, ser financiado e produzido pelo Instituto Cubano Del Arte e Industria Cinematográficos, órgão ligado ao governo revolucionário, Sara Gómez destaca, na voz dos trabalhadores, pontos polêmicos, como a escassez de alimentos. “Aqui no engenho de açúcar, o fornecimento está bem bagunçado. Quando tem bebidas, não tem gelo, e quando tem gelo, não tem bebida. Quando tem manteiga, não tem pão e quando tem pão não tem manteiga.”

  • Machorka-Muff

    Machorka-Muff (Alemanha, 1963), de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub

    O  curta-metragem abre com a voz interior de Machorka (Heiner Braun), antigo coronel nazista. Corta para o sonho do coronel visualizando estátuas cobertas por lençois brancos. Os lençois caem e revelam Machorka, com seu uniforme militar, nos três pedestais. Deslumbrado, o coronel vê seu nome gravado no pedestal: Erick von Machorka-Muff. 

    O filme satírico dos franceses Jean-Marie Straub e Danièle Huillet é considerado uma das grandes influências para os jovens cineastas que criaram o novo cinema alemão. O coronel, apesar dos crimes praticados a serviço do regime nazista, vai ser condecorado e assumirá um cargo importante no novo exército alemão, cujo principal objetivo é presarvar as memórias do exército. 

    Durante um encontro com um aliado, Machorka é convidado para uma visita. A voz interior do coronel representa a ousadia do filme na crítica aos militares e a própria burguesia que fechou os olhos para o horror perpetrado pelo regime. “Prometi visitá-lo, talvez resultasse em uma pequena aventura com sua esposa. Às vezes fico com um apetite para o erotismo bruto das classes mais baixas.”

  • Cléo de 5 às 7

    Agnès Varda define o processo de criação de Cléo das 5 às 7 (França, 1962), clássico da nouvelle vague francesa.  “O produtor me disse: vou fazer um filme com você, como fiz com Godard e Demi, mas tem que ser barato. Então, como faríamos? Podíamos filmar em Paris. Não gastaríamos com viagens e hotéis. A ação poderia se passar em um dia, limitando os cenários e locações. Também me ocorreu diminuir o tempo do filme. Filmaria uma hora e meia na vida dela. Noventa minutos, o tempo de um filme.” 

    Esses noventa minutos transcorrem durante a angústia de Florence Victoire (Corinne Marchand) à espera do resultado de um exame médico que pode indicar a incidência de um câncer. Florence é uma cantora de sucesso, seu nome artístico é Cléo, de Cleópatra. Ela perambula pelas ruas de Paris e se relaciona rapidamente com uma cartomante, uma antiga amiga, seu namorado e com um soldado prestes a embarcar para a Argélia. 

    As ruas de Paris ganham uma perspectiva feminina sob o olhar apaixonado e angustiante de Cléo. Em determinado momento, a personagem entra na cabine de projeção de um cinema e assiste ao curta Os amantes da Ponte Mac Donald, filmado por Agnès Varda em 1961, com participações de Anna Karina e Jean-Luc Godard. Em outro momento, ela encontra tempo para interpretar a bela canção Sans toi, acompanhada por um jovem pianista. 

    “Precursora da nouvelle-vague francesa com seu longa de estreia, La Point-Courte (1956), em Cléo de 5 às 7 a diretora Agnès Varda se concentra na figura de uma cantora francesa (Corinne Marchand) que aguarda o resultado de um exame médico que pode mudar sua vida. Como está claro no título, Varda escolheu acompanhar a angústia de Cléo praticamente em tempo real, levando em conta, portanto, a emergência e as técnicas do ‘cinema direto’. A casualidade da narrativa permite que a ficção se funda ao documentário enquanto a jovem vaga pela Rive Gauche de Paris, principalmente pelos arredores da estação de trem de Montparnasse, acompanhada por atordoantes travellings. Mas o realismo de Varda também é capaz de gerar emoções poderosas ao mostrar em um crescendo os sinais da lenta agonia gravada no rosto de sua protagonista.”

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Magic farm

    Magic farm (Argentina/Estados Unidos, 2025), de Amalia Ulman.  

    Edna é uma digital influencer de Nova York que descobre um filão para a produção de vídeos virais: pessoas que fazem intervenções dançantes na internet usando peças de vestuário extravagantes, como um grupo de adolescentes mexicanos dançando “tribal” com botas de couro com bicos longos e curtos.  

    O próximo episódio da série “subculturas malucas do mundo” vai ser gravado em San Cristóbal, na Argentina, com o Super Carlitos, fenômeno da internet que dança vestido com orelhas de um coelho de pelúcia. No entanto, a equipe desembarca na cidade errada (existem várias San Cristóbal na América do Sul). Para não perder a viagem, improvisam um programa, forjando uma nova tendência musical, com equipes de dançarinos locais.

    Magic farm é o segundo filme da diretora e atriz argentina Amalia Ullman, que se baseou em experiências pessoais: sua família sofreu com efeitos tóxicos de herbicidas  em uma cidade agrícola no norte da Argentina. Personagens do filme apresentam sintomas agressivos de doenças de pele; uma das gravações é interrompida após um avião despejar produtos químicos sobre as plantações. 

    Com um tom de comédia quase surrealista, a narrativa tece fortes críticas às mídias criadas e sustentadas pela superficialidade da internet. O destaque da película é a estética hiper colorida, quase como se criasse um mundo à parte dentro do caótico universo das redes sociais. 

    Elenco: Chloe Sevigny (Edna), Joe Apollonio (Justin), Simon Rex (Dave), Alex Wolff (Jeff), Amalia Ulma (Elena), Abuela Marita (Marita), Guillermo Jacubowicz (o recepcionista), Vleria Lois (Popa), Camila del Campo (Manchi). 

  • A colheita

    A colheita (Harvest, Inglaterra, 2024), da diretora Athina Rachel Tsangari, é baseado no romance de Jim Crace. A história se passa em um período indefinido da idade média, na Inglaterra, em uma pequena área agrícola onde os camponeses vivem dos frutos da terra.  Walter Thirsk (Caleb Landry), narrador da história, presencia e reflete sobre o fim de um tempo, quando as atividades agrícolas deram lugar à privatização das terras e exploração pelos futuros latifundiários. 

    A narrativa se passa praticamente em sete dias, contados a partir do momento que dois invasores são presos no pelourinho e devem cumprir a pena de uma semana. Nesse período, a colônia é tomada por incendiários, um mapeador que delimita as terras para fins políticos e econômicos, líderes da cidade que chegam para exercer seu direito à propriedade, rituais pagãos de colheita, denúncias de bruxaria, mortes e devastação. 

    A direção de fotografia de Sean Price Williams destaca, na primeira parte, a beleza harmônica do convívio com a natureza dos camponeses. À medida que o horror se anuncia, o amarelo agressivo do fogo, o tom do cobre e as sombras da noite tomam conta da estética, anunciando o final lúgubre imposto pelo cruel capitalismo.    

    Elenco: Caleb Landry Jones, Harry Melling, Rosy McEwen, Arinzé Kene, Thalissa Teixeira, Frank Dillane.

  • Hot milk

    Hot milk (Inglaterra, 2025), de Rebecca Lenkiewicz.

    O primeiro longa-metragem da roteirista e diretora Rebecca Lenkiewicz é um convite à sensualidade. A jovem Sofia (Emma Mackey) acompanha Rosi (Fiona Shaw), sua mãe, em uma temporada em Almería, Espanha. Rosi sofre com uma doença que a impede de caminhar e depende da filha. Elas estão na cidade para um tratamento com o Dr. Gómez (Vincent Perez), espécie de curandeiro místico que tenta descobrir as causas psicossomáticas para a doença de Rosi. 

    O tema central do filme, baseado no romance de Deborah Levy , é a dependência, principalmente psicológica, entre mãe e filha: para cuidar da mãe, Sofia desiste de cursar seu doutorado em Antropologia. Tudo muda para Sofia quando ela conhece Ingrid (Vicky Krieps), mulher que se relaciona livremente com homens e mulheres.

    Traumas obscuros do passado podem ser determinantes no relacionamento entre as três mulheres. Enquanto Sofia e Ingrid se entregam à paixão no sol da Almería, Rosi afunda cada vez mais em sua entrega psicológica e física. A cena final, determinada por uma instigante elipse de enquadramento, deixa tudo em aberto, como nos meandros da mente.

  • A erva do rato

    A erva do rato (Brasil, 2008), de Júlio Bressane e Rosa Dias. 

    São apenas dois personagens em cena durante todo o filme, enclausurados em uma casa perto do mar. Os dois, seus nomes nunca são revelados, se conhecem em um cemitério e o jovem, num rompante, diz que vai cuidar da jovem durante toda a vida.

    Em casa, ele lê histórias que ela nota rapidamente. Mais tarde, começam um jogo erótico de fotografias: ele a fotogrando primeiro vestida, depois nua, em poses sensuais, incluindo foco explicíto em suas partes íntimas. Quando um rato começa a destruir as fotografias, a narrativa ganha ainda mais um tom sombrio, deprimente, com leituras simbólicas e metafóricas.


    Júlio Bressane, pai do cinema marginal ao lado de Rogério Sganzerla, adaptou de forma livre dois textos de Machado de Assis: Um esqueleto e A causa secreta. Selton Mello e Alessandra Negrini praticam um verdadeiro tour de force de interpretação minimalista, com diálogos frios, mas repletos de insinuações, gestos que denotam uma distância respeitosa, mas plenos de erotismo. Pode-se dizer o mesmo do rato, que transita entre os dois despertando fúria e entrega ao destino – anunciando a erva do rato.

  • Pussy

    Pussy (Cipka, Polônia, 2016), de Renata Gasiorowska. 

    Uma jovem está em sua casa sozinha, à noite. Ela começa a se acariciar, entra na banheira e continua se entregando ao prazer. Uma reviravolta surreal, à princípio assustadora para a jovem, transforma sua busca em um auto conhecimento dos seus desejos e de seu corpo de forma livre, selvagem, rebelde. 

    Os trabalhos de animação da diretora polonesa Renata Gasiorowska, incluindo filmes e clipes, são sempre muito bem recebidos pela crítica em diversos festivais de cinema. Pussy foi premiado no Festival Internacional de Curta-Metragem de Clermont-Ferrand. A narrativa é ousada, com cenas e insinuações provocativas em relação ao prazer feminino. A passagem da personagem do mundo real para o imaginário, o surrealismo, é um convite à plena libertação. 

  • Harry Dean Stanton: em parte ficção

    Harry Dean Stanton: em parte ficção (Harry Dean Stanton: partly fiction, Suiça, 2012), de Sophie Huber. 

    O diretor Wim Wenders comenta para o documentário que, quando pensou em Harry Dean Stanton (1926 / 2017) para o papel principal de Paris, Texas (1984), se viu diante de um ator que  “esteve nos cinemas por cerca de 30 anos e nunca foi o protagonista”.

    O documentário de Sophie Huber se debruça sobre a carreira do enigmático ator e cantor de músicas folk. A narrativa trabalha com colagem de imagens, trechos das centenas de filmes das quais participou, gravações de Harry em sua casa e no bar que frequentou durante toda a vida e, para completar, depoimentos de importantes profissionais do cinema americano: David Lynch, Wim Wenders, Kris Kristofferson, Sam Shepard, Kris Kristofferson, Debbie Harry.

    Entre depoimentos e colagens, Harry Dean Stanton interpreta canções que, de certa forma, têm relação com a sua história. Ainda segundo Wim Wenders, o grande mérito de Harry como ator foi interpretar ele mesmo: “Harry se permitiu ser bem vulnerável naquele papel e nos deixou olhar para a sua alma. E Harry é frágil. Harry é vulnerável. As pessoas não estão acostumadas com um protagonista que se abre tanto. Acho que Harry tocou o coração de muita gente, porque ele ousou ser frágil.” 

    Perguntado pela diretora do documentário sobre como se preparou para o papel de Travis (Paris, Texas), seu mais aclamado personagem, Harry Dean Stanton respondeu: ““Ele não fala durante cerca de meia hora do filme. Então eu não fiz nada. Eu não me preparei, só não falei. Não dizer nada é um posicionamento impactante. Não falar. Ficar em silêncio. O silêncio é muito poderoso.”

  • Bird

    Bird (Inglaterra, 2024), de Andrea Arnold. 

    O cenário é a decadente cidade de Kent, norte da Inglaterra. Bailey (Nikiya Adams), 12 anos, vive com o pai, Bug (Barry Keoghan), um excêntrico e psicodélico jovem que acredita que um sapo gosmento vai proporcionar o dinheiro que precisa, expelindo alucinógenos, para seu casamento. Completam a família de Bug seu filho mais velho Hunter (Jason Buda), sua namorada e a filhinha dela. Todos vivem em um prédio ocupado por diversos outros moradores também marginalizados, como uma mulher que cria cobras. 

    Apesar de criança, Bailey precisa tomar atitudes e decisões adultas: ela tenta cuidar de seus três irmãos mais novos que vivem com a mãe alcoólatra, que passa por um relacionamento abusivo. A narrativa assume um tom de fábula surreal quando ela conhece Bird (Franz Rogowski), jovem errante  que está à procura de seus pais. 

    A diretora Andrea Arnold é considerada uma das cineastas mais vanguardistas do cinema inglês deste século. Seus três primeiros filmes de ficção conquistaram o Prêmio do Júri no Festival de Cannes: Red Road (2006), Fish Tank (2009) e American Honey (2016).  

    Bird é uma contundente crítica social, abordando temas como a marginalidade adolescente, gravidez precoce, violência doméstica. Tudo acontece aos olhos de Bailey, rebelde e ao mesmo tempo responsável o suficiente para tentar cuidar da família, incluindo seu pai disruptivo. A entrada em cena do jovem Bird, que passa os dias no alto de um prédio, é um sopro de liberdade lúdica, fabular, para a criança/adulta Bailey.

  • April

    April (Geórgia/França, 2024), de Dea Kulumbegashvili. 

    O filme começa com a imagem difusa de uma criatura disforme que se move lentamente, a tela negra, a criatura diminuta ao fundo. Ouve-se o diálogo de duas crianças enquanto a criatura se afasta até desaparecer. Cota para a cena de uma forte chuva, é o alagado mês de abril em uma província da Geórgia. 

    A narrativa acompanha Nina (Ia Sukhitashvili,), obstetra que trabalha no único hospital da província. Após a morte do bebê durante um parto, Nina é acusada de negligência pelos pais da criança e passa a ser investigada pela direção do hospital. A investigação pode levar à revelação de uma prática criminosa: Nina faz abortos em mulheres abusadas sexualmente na região. 

    O segundo longa-metragem da diretora Dea Kulumbegashvili aborda o conflito entre questões legais, éticas e humanas. Nina é uma profissional reconhecida no mundo médico, mas transita com uma amargura quase suicida pelas ruas enlameadas da província, disposta a ajudar as mulheres que são torturadas pela sociedade misógina e patriarcal.  

    Um destaque: em tempos de supremacia digital, o filme foi filmado em 35mm, com a direção de fotografia de Arseni Khachaturian evidenciando o clima de amargura, tristeza e falta de esperança da narrativa. April conquistou o Prêmio Especial do Júri no 81º Festival Internacional de Cinema de Veneza. 

  • A caminho da loucura

    A caminho da loucura (Heller wahn, Alemanha, 1983), de Margarethe von Trotta.

    Olga (Hanna Schygulla) é uma professora universitária de bem com a vida, vive sua liberdade, incluindo um relacionamento amoroso tranquilo, sem as amarras das convenções ou sociais. Ruth (Angela Winkler), ao contrário, vive em conflito interno, sofrendo com um marido possessivo. Ela tenta vencer a depressão se dedicando à pintura, sempre solitária. O relacionamento entre as duas começa quando, numa casa de campo, Olga impede Ruth de cometer suicídio. 

    A diretora e atriz Margarethe von Trotta, uma das expoentes do novo cinema alemão, trata com delicadeza e sensibilidade, bem ao estilo de seu olhar feminino e feminista, a intensa relação entre Olga e Ruth. É um filme sobre amizade, sobre mulheres que lutam para se libertar das convenções impostas, sobre a depressão e possibilidades de fuga.

  • Jane B. por Agnès V.

    Jane B. por Agnès V. (França, 1988), de Agnès Varda.

    Em 1988, Jane Birkin estrelou o polêmico e ousado filme Kung Fu Master, dirigido por Agnès Varda. As filmagens foram realizadas na casa de Jane Birkin, em Londres. Durante as filmagens, a consagrada modelo, atriz e cantora revelou à Agnes Varda seu medo de completar 40 anos. Diretora e atriz fizeram, então, um projeto paralelo à Kung Fu Master: o documentário, mescla de realidade e ficção, Jane B. por Agnès V.  

    A estrutura fragmentada do filme intercala reflexões de Jane Birkin sobre sua carreira e seus relacionamentos amorosos, principalmente com Serge Gainsbourg; pequenos trechos de filmes, imagens de arquivo, incluindo interpretações de famosas canções; participação ativa da diretora com perguntas ousadas. A parte ficção é uma série de esquetes nas quais Jane Birkin interpreta papéis famosos do cinema, como Joana D’Arc, Calamity Jane, Jane (Tarzan) e uma divertida simulação de O gordo e o magro, contracenando com Agnès Varda. 

    Agnès Varda sempre usou o termo documenteur para seus projetos, sugerindo a mistura de documentário e ficção, realidade e imaginação. O documentário conta com participações especiais de celebridades em alguns quadros: Jean-Pierre Léaud, Philippe Léotard e Serge Gainsbourg. 

    A  participação de Jean-Pierre Léaud, famoso astro da nouvelle-vague francesa, surge após um diálogo divertido: 

    Agnès Varda: Com que atores gostaria de contracenar?

    Jane Birkin: Com o Marlon Brando.

    Agnès Varda: Caro demais! Um ator francês do mesmo gênero e mais barato. 

    Jane Birkin: Jean-Pierre Léaud. Ele tem um olhar desesperado que eu gosto muito, parece meio perdido. Eu prefiro as pessoas perdidas. 

  • Ilha do tesouro

    Ilha do tesouro (Isla del tesoro, Cuba, 1969), de Sara Gómez.

    O Presídio Modelo foi construído na Ilha de Pinos em 1931, durante o regime opressor de Gerardo Machado. Em 1953, após o ataque ao Quartel Moncada, Fidel Castro, seu irmão Raul e outros revolucionários foram encarcerados no presídio. O próprio regime de Fidel Castro usou o presídio como prisão de dissidentes políticos. 

    O documentário de Sara Gómez faz uma incursão pela Ilha de Pinos, acompanhando a desativação e remodelação do presídio,  iniciada em 1967. O documentário começa com fotos de arquivo, acompanhas de narração que indicam a ocupação da ilha por piratas, corsário  e bucaneiros durante três séculos, associando a origem da colonização da ilha às velhas lendas de tesouros escondidos. As imagens históricas e cenas de trabalhadores e moradores naquela atualidade são entrecortadas por imagens da “desconstrução” do presídio. Uma grade de cela caindo marca a transição das cenas. 

    O olhar poético de Sara Gómez se revela na edição-clipe de trabalhadores e trabalhadoras na agricultura ao som de uma canção. Já o olhar crítico da diretora é simbólico e incisivo: as imagens leves, sensíveis da Ilha de Pinos são cortadas abruptamente para a janela de grades do presídio caindo, símbolo da repressão e violência política que imperou em ambos os regimes.

  • Eu vou para Santiago

    Eu vou para Santiago (Irá a Santiago, Cuba, 1964), de Sara Gómez. 

    “Quando a lua cheia chegar / Eu irei a Santiago de Cuba / Eu irei a Santiago / Em um carro de águas negras.” 

    O verso de Federico Garcia Lorca é a primeira cena do documentário, escrito à mão com tinta branca em uma parede da cidade. Uma jovem passa em frente à citação e sobe uma escadaria. Entram cenas de moradores caminhando pelas ruas da cidade, ao som de uma canção romântica.  

    Narração em off de Sara Gómez: “Sim, dizem que somos de uma ilha onde a terra treme e todos os mulatos têm cheiro de grama fresca. Aqui nos acostumamos com o calor bebendo suco de raiz fermentada. Nas ruas, nós temos um mercado de cor e grito dos vendedores. Do milho, a ferida. Pão, com banana da terra. Nós rimos e falamos em voz alta com agressividade e orgulho. Nossos gestos são exagerados e divertidos.”

    As imagens sensíveis de pessoas, casas, pontos históricos, acompanhadas por esse texto poético, traduz o objetivo do documentário da prestigiada cineasta Sara Gómez: compor um hino de amor à cidade. A câmera na mão transitando junto com as pessoas e a música popular cubana marcam esse filme poesia, estilo que se consagrou a partir do novo cinema dos anos 60. 

    Eu vou para Santiago é assim, formado pela simplicidade de imagens e frases que instigam a contemplação do espectador: “Na minha ilha, a sesta é um balanço de vime e madeira.” 

  • Excursão a Vueltabajo

    Vueltabajo, localizada no oeste de Cuba, província de Pinar del Rio, é famosa mundialmente por ser a principal fonte do tabaco utilizado na produção dos famosos charutos cubanos de alta qualidade. O documentário Excursão a Vueltabajo (Excursión a Vueltabajo, Cuba, 1965), de Sara Gómez, é composto por fotos de arquivos dos primeiros colonizadores, ilustrações e cenas dos campos agrícolas, das ruas no centro urbano, de trabalhadores cultivando as terras. 

    A breve história do desenvolvimento da indústria do tabaco promove também uma reflexão sobre o conflito entre as técnicas rudimentares de agricultura, como o arado, e a maquinização adotada a partir da revolução cubana. “Pensando em todas essas coisas, em Pinar del Rio e no tabaco, cheguei a uma fazenda em Vueltabajo. Eu vi os campos de tabaco, a décima e o guajiro de origem nas Ilhas Canárias. Mas também uma máquina que faz o arado, fertiliza, molha e semeia, enquanto poupa o trabalho de 30 homens.” 

  • E… nós temos sabor

    E… nós temos sabor (Y… nos tenemos sabor, Cuba, 1967), de Sara Gómez.

    O filme abre com uma informação em lettering sobre a impossibilidade de mostrar todos os instrumentos cubanos no documentário. “Nós nos limitamos aos de danças populares.” O guia da narrativa é Alberto Zayas, compositor e cantor cubano de rumba, considerado um dos mais importantes músicos deste gênero peculiar da ilha. 

    Os depoimentos de Zaya, mostrando e explicando a origem e funcionalidade dos instrumentos musicais, alternam-se com cenas de músicos em diversas manifestações: durante gravações em estúdios, em festas populares nas ruas, apresentando-se em palcos, nos quintais das casa… Narração em off de Sara Gomez também acompanha as imagens: “Os trovadores, acompanhados de violões, a herança espanhola que aparece em toda a nossa música tradicional, utilizam a clave como um elemento rítmico e às vezes como uma dupla de percussão com claves e colheres.”

    A importância histórica e cultural do documentário está na estrutura que alterna as sensíveis cenas de músicos, a maioria desconhecidos, em comoventes interpretações, com os depoimentos, quase didáticos, de Alberto Zaya: “As claves, dois pedaços de cabo de vassoura. Mas, dão um sabor delicioso. Essas claves se tornaram muito boas. Elas são usadas desde o século nove. Mas depois vieram as melhores, para o tipo de guaracha que eles usam no oriente. Depois usaram elas para son. Para o son e guaguancó. Mas perceba, todos os instrumentos cubanos, os primitivos, os instrumentos mulatos, todos eles são em pares, fêmea e macho. Duas claves, duas maracas, um par de bongôs…”

  • Uma ilha para Miguel

    Uma ilha para Miguel (Una isla para Miguel, Cuba, 1968), de Sara Gómez

    Em determinado momento do documentário, a câmera está fixa, em meio primeiro plano, no rosto de um adolescente: “Nossa escola, Antonio Briones Montoto, é um centro de estudos técnicos onde esperamos conseguir resolver as necessidades de nosso país a respeito de especialistas em cítricos. Devemos formar cerca de 400 camaradas nesta função. Através de treinamento abrangente, nós desenvolvemos um trabalho que consiste no seguinte: coordenar o estudo, o trabalho e a defesa. Nesse caso, nós relacionamos estudos acadêmicos a matérias técnicas e às matérias voltadas para elevar o nível cultural do corpo estudantil. A respeito do trabalho, nosso corpo, ou seja, os estudantes, trabalham quatro horas e meia todo dia, de 7h30 a 11h30 da manhã. Nesse período, eles completam as tarefas relacionadas aos estudos.”  

    O depoimento segue um tom formal de um jovem representante do partido e dos ideais da revolução. As imagens que acompanham este e outros depoimentos refletem a sensibilidade desta proposta, mostrando grupos de jovens, estudantes, trabalhadores, em seus afazeres cotidianos, sempre com leveza e alegria. 

    O contraste é Miguel, jovem que foi enviado para a Ilha dos Pinos, onde o programa de educação e formação técnica se desenvolve. Ele é um menino rebelde, na infância provocou problemas para sua família formada por nove irmãos e passou por atritos violentos com seu pai. Logo nos primeiros dias na ilha, Miguel comparece ao comitê devido a um gesto rebelde, é julgado e punido. 

    Uma ilha para Miguel faz parte da trilogia de documentários de Sara Gomes sobre a Ilha dos Pinos. Os outros filmes são Na outra ilha (1968) e A ilha do tesouro (1969). A abordagem são as tentativas de programas comunitários, implantados pelo regime de Fidel Castro, com intenção de formar trabalhadores com bagagem técnica e cultural. O final de Uma ilha para Miguel deixa em aberto o futuro desses jovens. As últimas imagens mostram Miguel olhando de forma inexpressiva para a câmera. Corta para claquete batida em frente ao rosto de seu amigo que diz: “Miguel, sendo meu amigo e um homem, eu sei que ele vai se comportar bem.” 

  • Guanabacoa: crônica de minha família

    Guanabacoa: crônica de minha família (Guanabacoa: Crónica de mi familia, Cuba, 1966), de Sara Gómez.

    A cineasta cubana Sara Gómez, primeira mulher a dirigir filmes na ilha, foi pioneira também, por meio deste curta, no documentário autobiográfico. Guanabacoa é um bairro de classe média em Havana. Sara Gómez resgata a história de sua família, com fotos antigas e depoimentos de familiares, principalmente de Luísa Maria Lopes Y Galainena,  chamada de “madrinha”. 

    A música clássica e popular de Cuba também acompanha a narrativa, com destaque para apresentações de grupos em teatros, nas ruas, em ensaios e escolas dedicadas ao ensino musical. Lettering sobre posto a participantes indicam membros da família de Sara Gómez que se dedicaram à música. 

    Narrativa em off da própria diretora pontua determinadas imagens. “Somos das famílias Banquecer e Galainena. Eu lembro de visitar as casas de primos velhos, de golas prensadas e gravatas retas, e meus ótimos primos mulatos. Casas onde clarinetes eram guardados em estojos velhos de couros ou capas de tecido amarelo. Casas onde a madrinha agora, com o esforço de oitenta anos de memórias, se lembra.”    

    O destaque do documentário é a narrativa silenciosa do bairro, reduto histórico e cultural de Havana, formada por imagens de ruas, vielas, moradores, trabalhadores, monumentos (o busto de Ernest Hemingway, que se matou em Cuba em 1961). A sensibilidade estética de Sara Gómez compõe uma obra repleta de memórias e sensações, antes e depois da revolução cubana.