Categoria: Filme

  • Saco de pulgas

    Saco de pulgas (Pytel blech, República Tcheca, 1963), de Vera Chytilová. 

    O filme começa com a jovem Jana (Helga Cocková) chegando no dormitório da fábrica onde vai trabalhar. Não vemos a personagem, apenas o grupo de garotas que dividem o espaço a tratando de forma jocosa, ironizando seu jeito e sua aparência. Nesse momento, conhecemos Jana pelos comentários que ela faz em off. 

    A abertura irreverente pontua o estilo da cineasta Vera Chytilová, uma das mais influentes da renascença do cinema Tcheco nos anos 60. Jana, aos poucos, demonstra sua personalidade combativa, se rebelando contras as regras rígidas do internato e da fábrica, regida por um comitê de homens, membros do partido socialista. Saco de pulgas representa o cinema contestador, feminista, de uma das principais diretoras do cinema theco. 

  • A prisioneira

    A prisioneira (La captive, França, 2000), de Chantal Akerman.

    Chantal Akerman faz uma ousada e arriscada incursão pelo universo de Marcel Proust, adaptando o quinto volume de Em busca do tempo perdido. Ao mesmo tempo, busca inspiração em Alfred Hitchcock, colocando Simon, protagonista do filme, na posição de um obsessivo voyeur, bem referenciado em John Ferguson, de Vertigo

    O jovem, rico e possessivo Simon (Stanislas Maerhar) tem uma amante, Ariane (Sylvie Testud), que ao contrário se mostra passiva aos desejos do namorado durante a narrativa. Simon acredita que Ariane está tendo um caso com uma mulher e infringe a ela uma ostensiva vigilância. O relacionamento caminha por uma jornada de desejo consumido pelo ciúme, podendo terminar em um processo de autodestruição.  

    “Akerman está mais interessada em explorar em detalhe a matéria crua que compõe a relação entre Ariane (Syilvie Testud) e Simon (Stanislas Merhar) — i.e. diálogo, encontro e desencontro, sexo; enfim, o cotidiano de um casal — do que nos tempos fortes da narrativa ou nos símbolos (aos quais volta e meia recorre) para dar forma à obsessão de seu protagonista. Dois universos distintos, por certo, homem e mulher obedecem aqui à eterna e estranha lógica da aproximação e do convívio amoroso: um mundo feminino fechado, em segredo, cercado de muralhas intransponíveis para o homem, sempre na tentativa de invadi-lo, torná-lo claro, conhecido, regrado. A liberdade narrativa do filme serve, em suas elipses, em sua variação de tempos, a duas causas distintas mas complementares: a investigação do desejo de Simon, sua vontade de descobrir, sua vocação para o fetiche e para o autoerotismo; e a construção sutil do universo de Ariane, condicionada a ser objeto amoroso de Simon, prisioneira de sua condição como de um labirinto existencial cuja fuga improvável equivale à morte.” –  Fernando Verissimo (Contracampo)

  • Laços

    Laços (Holdudvar, Hungria, 1969), de Márta Mészáros. Com Mari Torocsik (Edit), Kati Kovács (Kati), Lajos Balázsovits (Istiván). 

    O patriarcado e a masculinidade tóxica são o grande tema do filme de Márta Mészáros, cineasta hungara famosa por seu olhar feminista em um país dominado pelos homens do partido, assim como em grande parte dos países do leste europeu. Edit acaba de ficar viúva, seu promissor marido político morre repentinamente. Ela se vê bajulada pelos membros do partido, mas sabe da hipocrisia: seu marido não era bem visto neste meio.

    Esses laços familiares tornam-se cada vez mais opressores, a frustração de Edit com seu casamento se repete na maternidade madura. A grande virada do filme acontece com a personagem Kati. Enquanto Edit segue tentando se libertar, o final da narrativa apresenta uma Kati que se rebela, se recusando a seguir o destino da sogra.  A sequência final é simbólica: a jovem caminha resoluta enquanto é assediada por um grupo de jovens. 

  • Diamantes da noite

    Diamantes da noite (República Tcheca, 1964), de Jan Nemec. Com Ladislava Jansky e Antonin Kumbera. 

    A abertura do filme já anuncia o estilo livre e rebelde das filmagens, bem sintonizada com o novo cinema dos anos 60. Dois jovens correm por um campo, a partir de uma linha de trem (escaparam do trem em movimento, destinado ao transporte de judeus para os campos de concentração). A câmera treme incessantemente, desfoca, foca novamente, corre e, por vezes, cai junto com os jovens já exaustos.

    É um filme praticamente silencioso, com diálogos curtos e esparsos, a estética privilegia a imagem carregada da tensão da fuga dos jovens exaustos e famintos nos campos, bosques, morro de pedras. Flashbacks e flashforwards confundem o espectador sobre o que realmente aconteceu ou acontecerá, nada é definido, são apenas imagens curtas que cortam a ação. 

    O final em aberto provoca ainda mais, remetendo a incerteza, a um mundo onde  nada se prevê, nem mesmo a vida ao fim do dia. Atenção para a sequência dos alemães se embebedando em uma taberna enquanto os jovens assistem as cenas grotescas que podem decidir pela sobrevivência dos dois. 

  • La chambre

    La chambre (França, 1972), um dos filmes da fase inicial de Chantal Akerman, ainda na sua fase de curta-metragista, é uma experiência radical em plano sequência. Durante cerca de 11 minutos, a câmera gira em uma panorâmica de 360° por um quarto. O cenário é composto por móveis e objetos dispersos ao acaso e, a cada final do giro, Chantal Akerman está deitada na cama, em situações diferentes: está debaixo das cobertas, come uma fruta, lê um livro, está ligeiramente sentada. 

    É, de certa forma, um tema recorrente na obra da diretora belga: a câmera lenta, planos longos em ambientes fechados; a cozinha em Saute ma ville, o quarto em La Chambre, o apartamento em Eu, tu, ele, ela os ambientes do Hotel Monterey. Experimentalismo, palavra determinante no cinema de Chantal. 

  • A garota e o eco

    A garota e o eco (Lituânia, 1964), de Arūnas Žebriūnas e Regina Vosyliute.

    É um prazer se deparar nas plataformas de streaming, no caso a Filmicca, com filmes restaurados de cinematografias que jazem esquecidas na história do cinema. O lituano A garota e o eco acompanha durante um dia o final das férias de verão da pequena Vika (Lina Braknyté) , vivendo um um ingênuo estado de liberdade. 

    Ela ajuda o avô com o barco, nada nua no mar, escala as rochas, se diverte em uma cabine telefônica defeituosa. Vika conhece Romas (Valery Zubarev), um garoto local, e os dois exploram os arredores da praia, enquanto são atormentados por um grupo de garotos tóxicos. 

    A garota e o eco foi filmado em locação, com poucos personagens, inspirado no estilo neorrealista de fazer cinema, com uma sensibilidade fotográfica e sonora de enlevar os sentidos. Ana conversando com as montanhas, só ela sabe exatamente a posição em que os ecos vão ressoar, representa este dia de verão que todos nós vivemos ou deveríamos ter vivido em algum momento de nossas infâncias. 

  • Cria cuervos

    Cria cuervos (Espanha, 1975), de Carlos Saura.

    A pequena Ana (Ana Torrent) está do lado de fora do quarto de seu pai. Ela ouve gemidos de um casal fazendo amor, até que a mulher começa a gritar desesperada. Mercedes, amante de seu pai, sai correndo do quarto, ainda se vestindo, olha fixamente para a menina e vai embora. Ana entra no quarto e olha serenamente para o cadáver do pai. Pouco depois, sua mãe (Geraldine Chaplin) a chama e, com um abraço carinhoso, pede que a filha vá dormir. No entanto, sua mãe já está morta há algum tempo. 

    A obra-prima de Carlos Saura é um retrato amargurado da Espanha dominada pelo fascismo do general Franco. Ana cresce rodeada, e fascinada, pela morte. Uma das cenas mais dolorosas da narrativa é a agonia da mãe, gritando de dor na cama, sob o olhar tranquilo da pequena Ana. Fantasia e realidade se misturam em Cria Cuervos, cujo título é inspirado no ditado espanhol: “Crie corvos e eles lhe arrancaram os olhos.”

    “Filmado literalmente enquanto Franco estava em seu leito de morte, o filme segue a metáfora da vida sob o fascismo como uma espécie de infância retardada – vista em vários outros filmes espanhois do período -, ainda assim tratando o tema com uma sensibilidade e uma graciosidade refrescantes. Geraldine Chaplin, a musa constante de Saura nesse período, está maravilhosa em um papel duplo como a mãe de Ana, abatida pelo câncer, e a Ana adulta que reflete sobre esses eventos de seu passado. Sua presença segura como a Ana adulta parece deixar implícito que o fascismo já é uma coisa do passado, algo suportado com dificuldade mas que, no fim, é vencido.”

  • Toda uma noite

    Toda uma noite (Toute une nuit, França, 1982), de Chantal Akerman. 

    A câmera de Chantal Akerman acompanha vários casais durante uma noite quente do verão de Bruxelas. A narrativa fragmentada tem como tema o romance, encontros que acontecem em bares, restaurantes, quartos, conversas ao telefone. O silêncio e a atmosfera escura da noite ditam o tom do filme, um mosaico de encontros e conflitos que não se desenvolvem, não se resolvem, apenas anunciam aquilo que atormenta os casais: o sexo, o amor, a rejeição. 

  • Saute ma ville

    Saute ma ville (França, 1971) é o primeiro curta-metragem de Chantal Akerman, realizado quando ela tinha 18 anos e estava cursando o primeiro período da faculdade de cinema em Bruxelas (Chantal abandonou o curso logo no primeiro período para seguir na carreira como autodidata).

    A própria diretora interpreta uma jovem que chega em seu apartamento com as compras do dia e começa uma série de atividades rebeldes: abre e esvazia gavetas, espalha coisas pelo chão, joga água no piso, expulsa seu gato para a varanda. É um filme silencioso que termina com a jovem vedando todas as frestas de janelas e portas e ligando o gás de cozinha. Impactante e perturbador curta de estreia de Chantal Akerman.

  • O esqueleto da Sra. Morales

    O esqueleto da Sra. Morales (El esqueleto de la señora Morales, México, 1960), de Rogelio A. González.

    A obra de Rogelio A. González é cultuada pelos amantes dos filmes de terror, mais precisamente do humor negro. O taxidermista Pablo Morales (Artur de Córdova) é admirado por todos da cidade, pois trata os amigos e as crianças com bondade e respeito. Quando chega em casa, sua vida se transforma: Pablo é tratado com desprezo e crueldade pela mulher que, inclusive, o acusa de agressão física e moral diante do fanático grupo religioso do qual faz parte. Gloria Morales tem ódio do trabalho do marido que mantém no térreo da casa uma coleção de animais empalhados. 

    Cansado dos maus tratos, Pablo envenena a esposa e disseca seu cadáver, o mantendo em destaque entre sua coleção. O esqueleto da Sra. Morales é muito mais do que bom humor e terror. É uma sátira aos rígidos costumes da sociedade mexicana, colocando a hipócrita classe média, com seus conceitos religiosos e sociais, como a principal vítima do taxidermista. A sequência do julgamento é puro nonsense, a sociedade diante do esqueleto sem saber o que significa tudo aquilo. 

  • Para sempre mulher

    Para sempre mulher (Chibusa yo eien nare, Japão, 1955), de Kinuyo Tanaka.

    A renomada atriz Kinuyo Tanaka  foi uma das primeiras diretoras que se tem notícia no cinema japonês que, assim como várias cinematografias importantes, foi amplamente dominado pelos diretores praticamente até a revolução dos anos 60 (nouvelle vague e demais renascenças). Com mais de duzentas atuações no cinema, ela dirigiu apenas seis filmes.

    Para sempre  mulher (1955) é seu terceiro longa, baseado na história da poetisa Fumiko Kanaze (Yumeji Tsukioka) que foi vitimada pelo câncer de mama com apenas 32 anos de idade. O filme abre com o cotidiano familiar de Fumiko. Ela é casada com um homem frustrado, dependente de drogas, cuida dos dois filhos pequenos e frequenta um grupo de poetas à noite. O casamento acaba e Fumiko volta para a casa de sua mãe e se apaixona por um dos integrantes do grupo, casado com sua melhor amiga. 

    Ela descobre o câncer já em estado avançado e o tratamento da doença coincide com a sua consagração como poeta, seus livros são publicados e admirados. A roteirista e diretora Kinuyo Tanaka preenche essa história real com ousados tons de libertação feminina, sexualidade e as questões da mortalidade. O cinema japonês do pós-guerra estava passo a passo se libertando das amarras da censura e a quase obrigatoriedade social de não tocar em assuntos tabus, como a eterna submissão da mulher aos desejos masculinos. Atenção para uma das cenas mais ousadas deste período: já em fase terminal, a jovem e bela Fumiko, pede ao jornalista por quem se apaixonou, “faça amor comigo.” Eles estão no hospital.

  • A noite de 23 de maio

    A noite de 23 de maio (Mystery street, EUA, 1950), de John Sturges.  

    O detetive Peter Morales (Ricardo Montalbán) está encarregado de investigar o assassinato de uma jovem, Vivian Heldon (Jan Sterling). A princípio, a vida da vítima, assim como a forma que morreu são desconhecidas. O detetive, então,  recorre ao Departamento de Medicina da Universidade de Boston. O Dr. McAdoo passa a ajudá-lo examinando o cadáver e promovendo reconstituições a partir de suas descobertas. 

    O filme é praticamente o precursor dos famosos seriados de TV, como CSI e Law & Order, que utilizam a ciência forense nas tramas policiais. A investigação do detetive e do médico orientam o caso na direção de um suspeito incomum: um pacato pai de família, casado, com dois filhos, que estava sendo chantageado pela vítima. As viradas de roteiro elevam o tom do thriller, principalmente após a entrada em cena da Senhora Smerrrling (Elsa Lancaster), dona da pensão onde Vivan morou.

  • Justiça injusta

    Justiça injusta (The sound of fury/Try and get me, EUA, 1950), de Cy Endfield.

    Howard Tyler (Frank Lovejoy), um homem de meia idade, está desempregado e sofre com esta condição, principalmente ao chegar em casa e ser “cobrado” pela mulher, pois precisam de dinheiro para o sustento do filho. Uma noite, ele conhece Gil Stanton (Richard Carson), misterioso personagem que o ajuda e, logo depois, faz uma proposta: os dois podem se ajudar, fazendo pequenos assaltos em lojas e casas. 

    A virada da trama provoca uma transformação surpreendente do protagonista. Os dois comparsas sequestram um jovem rico com a intenção de pedir resgate ao pai, mas Gil Stanton assassina de forma brutal o herdeiro. Começa então uma caçada policial que termina com a prisão dos dois. 

    O filme é baseado em um evento real, retratado também em Fúria (1936), de Fritz Lang. O clímax da narrativa, julgamento e condenação à morte dos assassinos, é assustador sob dois aspectos: o terror da morte estampado em Gil Stanton e o arrependimento de Howard, pacato cidadão de família que se vê enredado em um círculo criminoso, que aceita a condenação como forma de punição e sacrifício necessários para a redenção. 

  • A taverna do caminho

    A taverna do caminho (Road house, EUA, 1948), de Jean Negulesco. Com Ida Lupino (Lily Stevens), Richard Widmark (Jefferson T.), Cornel Wilde (Pete Morgan), Celeste Holm (Susie Smith). 

    Jefferson T. é o proprietário de uma casa de shows em uma pequena cidade americana. Ele contrata Susie, cantora por quem está apaixonado e com quem pretende se casar. Pete Morgan, o gerente do local e amigo de infância de Jefferson, tenta tirar a cantora da cidade, mas os dois se apaixonam e a trama caminha para um trágico triângulo amoroso. 

    Ida Lupino é o grande destaque do filme, suas interpretações musicais são encantadoras, revelando um novo talento para a star system e uma das únicas mulheres diretoras do machista sistema de estúdios. O final do filme, quando os quatro personagens principais são levados pelo ciumento Jefferson para uma casa no bosque, é um thriller de tirar o fôlego, com atuação surpreendente de Robert Widmark. 

  • A pequena loja da rua principal

    A pequena loja da rua principal (Obchod na korze, República Tcheca, 1966), de Ján Kadá e Elmar Klos. 

    Tono (Josef Kroner) é carpinteiro em cidadezinha da Tchecoslováquia. Está desempregado e passa os dias sendo atormentado pela mulher. Para escapar, ele vai regularmente à cidade onde, na rua principal, está sendo construído um monumento de madeira em homenagem aos nazistas. Seu cunhado é o representante oficial dos nazistas na cidade e oferece a Tono a administração de uma pequena loja, cuja proprietária é a senhora Lautmann (Ida Kaminska) uma velha judia que sofre de surdez. 

    “Talvez o mais comovente drama feito sobre o holocausto, o filme de Ján Kadá e Elmar Klos, trata da moralidade individual e da responsabilidade no contexto de uma sociedade ‘total’, tema provocante que não passou despercebido dos censores thecos. Embora trate das complicadas questões humanas levantadas pelo relacionamento entre judeus e gentios em uma Tchecoslováquia ocupadas pelos alemães, o filme descobre uma esperança utópica para a felicidade coletiva no meio do desespero profundo”. 

    A relação entre Tono e a senhora judia começa agressiva de ambos os lados e, passo a passo, caminha para a aceitação e o respeito. O desejo de ascensão social de Tono e, principalmente de sua ambiciosa mulher, naufraga rápido, pois a loja sequer tem produtos para serem vendidos. Tudo muda quando os nazistas decretam a deportação dos judeus da cidade para os campos de concentração. O bom humor e a sensação de esperança dá lugar à tragédia, o final representa as trevas que cobriam a Europa. 


    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • As pequenas margaridas

    As pequenas margaridas (República Tcheca, 1966), de Vera Chytilová. Com Ivana Karbanová e Jitka Cerhová

    O filme começa com plano fechado em duas jovens, cujos nomes verdadeiros não serão revelados ao longo da trama (ambas são Marie) tomando sol de biquínis. Elas conversam sobre trivialidades e, em determinado momento, dizem a frase que será o cerne da narrativa: “Se o mundo está tão mal, então seremos más também.”

    A partir daí, as duas começam uma série de brincadeiras atrevidas, provocando as pessoas em restaurantes, bares e demais ambientes; brincadeira de mau gosto que envolvem uma comilança sem fim. Elas conquistam homens mais velhos dispostos a pagar a conta dos lugares, se empanturram e os dispensam. 

    Claro, o filme teve diversos problemas com a censura comunista da antiga Tchecoslováquia. As protagonistas representam a anarquia pura de uma proposta de libertação feminina em um mundo dominado pelos autoritários homens do poder. 

    “Um dos exemplares mais delicosamente piscodélicos e cheios de estilo dos anos 60, As pequenas margaridas, de Vera Chytilová, é uma farsa feminista amalucada e agressiva, que explode em diversas direções. Embora muitos cineastas americanos e europeus se orgulhassem, na época, de sua vocação para a subversão, é possível que o filme mais radical da década – tanto formal quanto ideologicamente – seja proveniente do Leste europeu, do caldeirão que fervia com a preparação para as reformas políticas de 1968: a Primavera de Praga, de tão curta duração.”

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Tensão

    Tensão (Tension, EUA, 1949), de John Berry.

    Warren Quimby é um pacato funcionário de farmácia. Admirado pelos seus colegas de trabalho, trata com gentileza todos os clientes e, após o final do expediente, ruma tranquilamente para sua casa, onde espera encontrar Claire (Audrey Totter), sua esposa. Desde o início o espectador sabe que é um casamento praticamente de fachada por parte de Claire que trata o marido com indiferença e agressividade, enquanto se diverte à noite com outros homens. 

    O casamento termina quando Claire resolve assumir seu amante. Acontece então uma radical mudança de personagem: Warren se disfarça fisicamente e planeja assassinar seu oponente. 

    A femme fatale vivida por Audrey Totter é o grande destaque da trama. Após o assassinato, ele tenta virar o jogo e voltar para o marido, mas agora é ela quem enfrenta uma oponente: Mary (Cyd Charisse), jovem que se apaixona por Warren e é correspondida. No entanto, a polícia agora está no encalço do farmacêutico, sob acusação de um assassinato que ele planejou mas não cometeu. Ótimo noir de John Berry, responsável por um clássico do gênero: Por amor também se mata (1951). 

  • A lua nasceu

    Kinuyo Tanaka trabalhou como atriz em filmes de Yasujiro Ozu. A lua nasceu é seu segundo filme como diretora, cujo roteiro é de Ozu. A trama gira em torno de uma família composta pelo pai viúvo, suas duas filhas, Ayako e Setsuko, e sua nora, Chizuru, também viúva. Ayako está de casamento marcado, matrimônio arranjado pela tia, mas a caçula Setsuko faz de tudo para que ela se enamore de um amigo de infância, que está de passagem pela cidade.

    Como recorrente em filmes de Ozu, o tema central são as relações familiares no Japão do pós-guerra, com destaque para os jovens que começam a renegar as tradições do país. O pai assiste às tentativas de namoro das três jovens sob sua tutela com resignação e bom humor, entendendo que as mudanças são inevitáveis. As cenas ao luar são encantadoras, pontuadas por poemas clássicos que embalam os corações dos enamorados.

    A lua nasceu (Japão, 1955), de Kinuyo Tanaka. Com Chishu Ryu (Mokichi Asai), Shoji Sano (Takasu), Hisako Yamane (Chizuru), Yoko Sushi (Ayako), Mie Kitahara (Setsuko). 

  • A festa e os convidados

    A festa e os convidados (República Tcheca, 1966), Jan Nemec. Com Helena Pejšková, Jana Prachařová, Zdena Skvorecky, Ivan Vyskocil, (Jan Klusák, Jiri Nemec. 

    Sete burgueses estão em um bosque, fazendo um piquenique. Logo depois eles seguem em direção a uma festa, em uma casa de campo. Durante o trajeto, são abordados por um grupo de jovens que começam uma série de brincadeiras com os burgueses e, passo a passo, a situação caminha para uma possível tragédia. 

    A virada acontece quando o anfitrião da festa chega, repreende o grupo, dizendo que tudo não passou de um mal entendido. Todos os convidados se encaminham para o banquete servido ao ar livre, à beira de um lago. 

    A festa e os convidados é um dos filmes que marca a renascença do cinema theco, conhecida como Nouvelle Vague Tcheca. O filme foi rodado em 1966, mas devido à censura, foi exibido em 1968. Durante a explosão da Primavera de Praga, o filme foi censurado novamente. 

    A alegoria não agradou ao regime, pois assim como O baile dos bombeiros (1967) e As pequenas margaridas (1966), a exploração do tema comida em profusão representou o momento de escassez da sociedade, bem como a passividade, a submissão diante de autoridades. Durante o assédio no bosque, ninguém, nem mesmo os agressores, sabem o motivo e, cabe aos agredidos, aceitarem de cabeça baixa as ameaças. 

  • O gato preto

    O gato preto (Japão, 1968), de Kaneto Shindô. Com Kichiemon Nakamura (Gintoki), Nobuko Otowa (Yone), Kei Satô (Raiko). 

    O início do filme é desolador. Um grupo de samurais famintos (o Japão está afundado em uma guerra civil), entra em uma cabana onde duas mulheres, a jovem Gintoki e sua sogra Yone, comem. Eles roubam a comida das mulheres, praticam um estupro coletivo e colocam fogo na cabana. É uma cruel sequência de estupro e assassinato, traduzindo esse Japão sem lei, que permitia poder total aos guerreiros

    As duas mulheres renascem misteriosamente, encarnadas em um gato preto. Fizeram um pacto para voltar à vida e passam a seduzir e matar os samurais que cruzarem o caminho de um bambuzal. No entanto, elas vão se confrontar com um samurai inesperado: Raiko, o filho de Yone e marido de Gintoki que retorna da guerra como heroi. 

    O gato preto começa como um assustador  e simbólico conto de fantasmas. As protagonistas buscam vingança não apenas contra os samurais, mas contra a sociedade patriarcal que marcou a história do Japão, história de sádica exploração feminina. Quando Raiko entra em cena, começa uma sensível e erótica história de amor, com belíssimas cenas de sexo. O desejo masculino e feminino se encontram em plenitude, levando Gintoki a um perigoso jogo entre o seu amor e o pacto que fez.