A idade da pedra

A idade da pedra (França/Brasil, 2013), curta-metragem de Ana Vaz, foi filmado nos arredores de Brasília, focando em uma estrutura monumental, petrificado no meio da paisagem do cerrado. Em torno do monumento, trabalhadores da construção civil buscam o seu sustento sob o sol incremente. 

A ausência de narração é uma marca nos filmes de Ana Vaz. Em A idade da pedra, o som é responsável por pontuar de forma estridente, outras vezes suave, esta interação desprovida de harmonia entre o homem e a natureza. As imagens e sons levam o espectador a um estado contemplativo, motivando um olhar sensorial nesta intervenção cruel e suicida dos humanos sobre a natureza.

É noite na América

É noite na América (Itália/França, 2022), o primeiro longa-metragem de Ana Vaz, lança um olhar assustador sobre a paisagem do distrito federal. Dominada pelo silêncio, a narrativa fragmentada traz imagens de animais vagando desorientados: jiboia, tamanduá, raposas, rondam as ruas e estradas da cidade. No zoológico, onde residem animais que deveriam estar na natureza, as espécies olham desoladas para os humanos. 

O documentário é um libelo político e humanista, alertando para a ação do homem sobre a natureza, ação destruidora e desprovida de esperanças de que alguma coisa pode mudar. É noite na América é um profundo convite à reflexão sobre o presente e a possível ausência de futuro de nosso planeta. 

Duelo

Duelo (França, 1976), de Jacques Rivette, é um dos filmes mais experimentais do aclamado diretor da nouvelle-vague francesa. A narrativa acompanha a batalha de dois seres místicos: A Rainha do Sol, Viva (Bulle Ogier) contra a Rainha da Noite, Leni (Juliet Berto). O centro da disputa é um diamante mágico, mas no caminho das duas se interpõe a jovem Lucie (Hermine Karagheuz) e seu irmão Pierre (Jean Babilée), que se torna objeto de desejo das rainhas. 

O filme é um desfile extravagante de figurinos e cenários, transformando a clássica Paris em um virtuosismo de cores e cenas oníricas. A cidade ganha contornos esótericos como palco, quase sempre noturno, do duelo das rainhas. 

O filme faz parte do ciclo criado por Jacques Rivette Scènes de la vie parallèle, projeto que seria composto por quatro filmes interconectados, cujas temáticas seriam místicas e míticas, espécie de narrativas paralelas ou realidades alternativas. No entanto, apenas Duelo foi concebido de acordo com a ideia original. 

Butterfly vision

Butterfly vision (Ucrânia/Croácia, 2022), de Maksym Nakonechnyj. Lilya (Rita Burkovska) é especialista ucraniana em reconhecimento aéreo. Ela volta para casa depois de passar vários meses na prisão em Donbas, onde sofreu abusos e tortura. Traumatizada, Lilya passa um tempo em centros de reabilitação, seu passado sempre volta em forma de alucinações. 

O diretor e roteirista ucraniano Maksym Nakonechnyj desnuda de forma contundente, cruel (atenção para a explosão no apartamento) as cicatrizes, os traumas, as consequência no corpo e na mente da Guerra da Ucrânia. Escolher uma protagonista feminina é um destaque da trama, pois as guerras modernas colocaram as mulheres na linha de frente dos combates. 

O título “visão de borboleta” é uma alusão ao fenômeno psicológico conhecido como “visão de túnel”, uma metáfora sobre os traumas, em forma de alucinações, para pessoas que passaram por experiências extremas.  O estilo da narrativa é quase documental, com cenas impactantes das visões de Lilya, cuja interpretação naturalista, apesar de carregada de dor, evita o melodrama. 

Blue jeans

Blue jeans (França, 1958), de Jacques Rozier. Com Rene Ferro (Rene), Francis De Peretti (Francis), Elizabeth Klar (Elisabeth), Laure Coretti (Laure). 

O final dos anos 50 ficou demarcado na França por filmes que finalmente dialogaram com o público jovem que perambulava pelas ruas de Paris e pelas praias e campos: La Pointe Courte (1955), de Agnés Varda, Os primos (1959), de Claude Chabrol, Os incompreendidos (1959), de François Truffaut, Acossado (1959), de Jean-Luc Godard. Em todos esses filmes, o objetivo diário dos jovens é se divertir, alguns inocentemente, outros praticando pequenos delitos ou, no caso de Michel, um assassinato acidental. 

Jacques Rozier não ficou tão famoso quanto seus contemporâneos que lançaram e consolidaram a nouvelle-vague francesa, mas dirigiu pelo menos um clássico deste período: Adieu Philippine (1963). No curta Blue jeans, aclamado por Godard, Francis e Rene, dois jovens de 17 anos, passam as férias de verão em Cannes e redondezas, andando de Vespa pelas praias, tentando desajeitadamente conquistar garotas. Até que conhecem duas meninas e os quatro passam alguns dias despretensiosamente em cafés, bares e praias. 

Não há nada a fazer a não ser perambular entre carícias, beijos e romantismo, portanto, nada acontece no filme de Jacques Rozier. O espectador se entrega ao deleite puro de contemplar a beleza dos quatros jovens, emoldurados por uma beleza ainda mais estonteante. Os amigos não têm dinheiro sequer para abastecer as Vespas, mas pouco se preocupam, se preciso largam as motonetas para trás, Querem apenas viver as garotas e vice-versa, aproveitar o sol e os dias luminosos. 

Não é difícil imaginar o impacto que esses primeiros filmes da nouvelle-vague francesa provocaram nos jovens que cresceram com os traumas da segunda guerra, que estavam sendo convocados para a Guerra da Argélia enquanto saíam para as ruas em protesto. Viver a cada dia, salve Blue Jeans