Aribada

O curta Aribada (Colômbia, 2022), de Simon(e) Jaikiriuma Paetau e Natalia Escobar,  filmado na região cafeeira da Colômbia, encantou em festivais, incluindo o prestigiado Festival de Cannes, com suas imagens oníricas, provocativas na união do real, o mágico e o espiritual. 

A narrativa acompanha Karmen, uma jovem indígena trans, que retorna a sua comunidade no meio da selva colombiana. Aribada, o monstro ressuscitado, conhece um grupo de mulheres trans indígenas do povo Emberá. O grupo se autodenomina Las Traviesas e as mulheres ganham a vida colhendo café.

O curta, mescla de documentário e ficção, acompanha a dualidade da vida de Karmen, dividida entre o mundo urbano e sua herança indígena. É um reflexivo relato sobre a sexualidade e as questões de gênero dentro do povo indígena Emberá. As imagens induzem a contemplação, com frames que refletem a beleza da região e levam o espectador a se encantar com a leveza espiritual dos indígenas. Sensível, delicado, provocativo, Aribada é uma viagem entre a natureza e as emoções dos personagens. 

Antena da raça

Antena da raça (Brasil, 2020), de Paloma Rocha e Luís Abramo.

A filha de Glauber Rocha dirige, ao lado de Luís Abramo, esse contundente documentário sobre o maior cineasta do Brasil. A base é o programa Abertura, que Glauber realizou para a TV Tupi no final dos anos 70. O próprio diretor ia para as ruas com sua câmera entrevistar pessoas comuns com sua famosa verborragia repleta de críticas e ironias. 

Trechos dos filmes de cineastas entremeiam cenas do programa em uma narrativa não linear, provocando associações entre o Brasil dos anos 60, 70 com a atualidade, principalmente em questões políticas. Entrevistados célebres, como o teatrólogo José Celso Martinez e Caetanos Veloso relembram momentos vividos com Glauber Rocha, destacando a rebeldia inerente do artista tanto na vida pessoal como em suas obras fílmicas.  

A menina santa

A adolescente Amália participa de um grupo de jovens católicos. Helena, sua mãe, é proprietária de um hotel onde acontece um congresso médico. Dr. Jano, um dos congressistas, faz carícias na adolescente quando os dois estão espremidos em grupos de rua ou no próprio hotel. 

O filme de Lucrecia Martel é um estudo sobre fé, misticismo e sexualidade. Amália se aproxima do médico, casado e pai de dois filhos, insinuando-se e aceitando os abusos, pois se sente investida de uma missão divina que pode curar o médico desses desejos. Ao mesmo tempo, Helena se sente atraída pelo Dr. Jano, com a trama resvalando para um intrigante triângulo amoroso repleto de desejo, culpa e condenação. 

Grande parte da narrativa acontece nos ambientes fechados do hotel, com algumas cenas de rua. A câmera quase claustofócia de Lucrecia Martel percorre quartos, corredores, salões e a piscina, sempre cheios: médicos, funcionários, familiares, se cruzam e interagem em momentos divertidos, tensos, regados à comida e álcool, a sensação é de uma efervescência prestes a explodir. O som é outro ponto de destaque de A menina santa, formado por ruídos, sons que ultrapassam paredes, diálogos insinuantes e metafóricos. 

A menina santa (La Ninã Santa, Argentina, 2004), de Lucrecia Martel. Com Mercedes Morán (Helena), Carlos Belloso (Dr. Jano), Alejandro Urdapilleta (Freddy), Maria Alché (Amalia), Julieta Zylberberg (Josefina).

A felicidade das coisas

A felicidade das coisas (Brasil, 2021), de Thais Fujinaga, foi feito em parceria com a cultuada produtora Filmes de Plástico e foi escolhido como o melhor longa de estreia na Mostra de Cinema de São Paulo. Paula (Patricia Savay) está passando a temporada de férias com sua mãe e seus dois filhos (ela está grávida do terceiro filho) em uma cidade litorânea de São Paulo. Ela aproveita a estada para terminar a piscina da casa praiana, um sonho da família ou melhor, um sonho de Paula. 

Esse pequeno e complexo desejo de muitas famílias de classe média e classe média baixa brasileiras é o mote que deflagra uma série de conflitos familiares. A piscina, claro, nunca fica pronta por questões econômicas, o pai ausente não cobre os cheques e atrasa o pagamento dos trabalhadores. 

O grande conflito gira em torno das relações entre Paula e seus filhos, principalmente o adolescente Gustavo (Messias Góis) que está em sua fase rebelde, em busca de libertação das amarras, e se envolve com um grupo de adolescentes da cidade.  

A felicidade das coisas traz muito das memórias afetivas da diretora Thaís Fujinaga. A locação é em Caraguatatuba, litoral norte de São Paulo, no Morro do Algodão (bairro formado por casas de praia e um clube de classe média alta), onde a diretora passou vários verões durante os anos 80 e 90. Segundo Thaís “Era uma dinâmica de certa segregação: quem se hospedava no clube não se relacionava com a cidade e muito menos com o bairro. Ao longo dos anos, fiquei circulando dentro e fora daquele lugar e veio daí minha primeira inspiração. Queria explorar esse espaço e a relação de ter ou não acesso a certas coisas.” – Mulher no Cinema

A estrada perdida

A estrada perdida (Lost highway, EUA, 1997), de David Lynch, começa como um tradicional filme de suspense. Fred Madison (Bill Pullman é um saxofonista de jazz que vive em Los Angeles com sua esposa Renee (Patricia Arquette). O casal começa a receber fitas de vídeo com imagens do exterior e do interior da casa onde moram, uma demonstração clara de que estão sendo vigiados. A polícia é acionada, mas nada se descobre. Quando Fred imagina que sua esposa pode estar em um caso extraconjugal, relacionado às fitas, a narrativa envereda por um thriller violento e surrealista, bem ao estilo David Lynch, 

A película pode ser dividida em duas histórias, ambas com as características do cinema noir, incluindo as femme fatalles, e trocas de idenditades surrealistas, algo como as narrativas distópicas cujos universos paralelos trocam de posições. 

A frase de David Lynch “os sonhos não têm lógica, mas nós os entendemos” se adapta às complexas personalidade de Fred/Pete. Medos e desejos reprimidos, sonhos em múltiplas visualizações, mistérios insondáveis da natureza humana, a narrativa e a estética da trama desconexa exigem do espectador uma imersão sensorial em todos esses devaneios lynchianos. 

A empregada

Hanyo, a empregada (1960) é um dos maiores sucessos comerciais e de crítica do cinema sul coreano. O remake A empregada (2010) de Im Sang-Soo preserva a história original, transpondo a trama para a atualidade. 

Eun-yi é contratada como empregada doméstica por Hoon Goh, um rico empresário. Hae-ra, mulher do empresário, está grávida. Eun-yi começa uma relação fraterna e carinhosa com a filha do casal. No entanto, o empresário seduz Eun-yi e os dois começam um perigoso jogo erótico e sexual. A trama resvala para o thriller quando entra em cena a mãe de Hae-ra e as duas começam a ameaçar a empregada. 

O filme é uma incursão tórrida e violenta no conflito de classes da Coreia, com um final estarrecedor. A interpretação de Jeon Do-yeon no papel da empregada é o ponto alto do filme. De possível vítima, ela entra de forma arriscada em um complexo jogo que envolve intrigas, traições, manipulações e vingança. Eun-yi passa por uma das grandes transformações de personagem do cinema contemporâneo. Ponto para o roteiro.

A empregada (Coreia do Sul, 2010), de Im Sang-Soo. Com Jeon Do-yeon (Eun-yi Li), Lee Jung-jae (Hoon Goh), Woo Seo (Hae-ra), Park Ji-young (Hae-ra ‘s mother).

A carruagem de ouro

A carruagem de ouro (Le carrosse d’or, França, 1952), de Jean Renoir.

Um grupo italiano de Commedia Dell’Arte chega a uma colônia espanhola na América do Sul, no século XVIII. O grupo é surpreendido pela rusticidade do local que não tem sequer um teatro para apresentações. Camilla (Anna Magnani), estrela do grupo, se revolta com as condições, mas vai ter que vencer sua frustração pelo amor à sua arte. 

O filme é uma comédia satírica fortemente marcada pela estética, cores exuberantes, com claras referências às artes plásticas, e pela interseção entre o cinema e o teatro, entre a vida real e a ilusão provocada pelas encenações artísticas. 

Anna Magnani é o destaque da trama com sua exuberância, seu espontâneo comportamento tanto em em meio à plebe rude quanto  em meio à realeza. Assediada pela paixão de três homens, o vice-rei, um toureiro famoso e um oficial espanhol, Camilla oscila entre suas paixões pessoais, incluindo sua ambição material (o título se refere a uma carruagem de ouro que ela ganha de presente do rei) e seu amor incondicional pela interpretação, pelo teatro. Não é difícil imaginar quem vencerá, em se tratando de um papel interpretado pela majestosa Anna Magnani.