• Rambo – Até o fim

    A abertura do filme é espetacular. Uma chuva torrencial nas montanhas coloca em risco um grupo de turistas. Os moradores tentam resgatar as pessoas, mas é um cavaleiro solitário que enfrenta os maiores perigos na tentativa de ajudar a todos. É John Rambo. 

    Após os resgates, o espectador descobre que o ex-combatente da guerra do Vietnã, que se transformou em herói sanguinário em quatro filmes anteriores, agora vive sua aposentadoria em um rancho, próximo à fronteira com o México. Junto com ele, moram Maria Beltran e a jovem Gabrielle, que nutre um carinho quase de filha com Rambo. 

    A virada acontece quando a jovem parte para o México em busca do pai biológico e é sequestrada por uma gangue que oferece prostitutas para a elite mexicana e americana. Quando John parte em busca de Gabrielle, se transforma no Rambo que conhecemos. 

    O que se segue é um banho de sangue, com direito a uma sequência nos túneis que mais parecem labirintos, onde Rambo enfrenta sozinho a gangue de mexicanos. A película recria clichês dos velhos filmes de faroeste e até mesmo policiais, apresentando um Rambo que não tem direito a viver uma pacata vida em sociedade. O sofrimento da jovem Gabrielle é quase incompreensível aos olhos do espectador, mas desperta Rambo para seu lado também cruel, envolto em memórias traumáticas que voltam e o jogam nessa espiral de vingança e violência. O final em aberto deixa espaço para a possível volta do personagem, mas gosto de pensar que é mesmo o fim para Rambo, pois a franquia revela seu esgotamento.  

    Rambo – Até o fim (Rambo: last blood, EUA, 2019), de Adrian Grunberg. Com Sylvester Stallone (John Rambo), Yvette Monreal (Gabrielle), Adriana Barraza (Maria Beltran).

  • Aves de rapina – Arlequina e sua emancipação fantabulosa

    O filme foi um fracasso de bilheteria nos cinemas e recebeu avaliações ruins por parte da crítica. Coisas do público exigente e da crítica incapaz de se entregar à uma sessão de cinema buscando apenas entretenimento e escapismo. Aves de rapina – Arlequina… é puro entretenimento com muita ação, bom humor e empoderamento feminino. 

    Conhecida como a namorada do Coringa, Arlequina se julga imune em seus crimes. Ela já recebeu o fora do inimigo mais poderoso do Batman, mas esconde de todos que está solteira e, convenhamos, ninguém em sã consciência vai se arriscar a mexer com a namoradinha do Coringa. Como mentira tem pernas curtas, a realidade vem à tona e a própria Arlequina resolve se emancipar.

    Margot Robbie é um show à parte na pele de Arlequina, destilando veneno, sadismo, piedade, enfim, tudo misturado com toques de humor nonsense, cativando o espectador. O encontro com as Aves de Rapina dá o tom definitivo à trama que une mocinhas e bandidas, ou vice-versa, para estraçalhar os redutos machistas. Deleite-se e esqueça essa comparação inútil sobre a qualidade dos filmes da Marvel e da DC Comics. Afinal, todos adoramos esse universo de super heróis e super heroínas. 

    Aves de rapina – Arlequina e sua emancipação fantabulosa (Birds of prey – And the fantabulous emancipation of one Harley Quinn, EUA, 2020), de Cathy Yan. Com Margot Robbie (Alequina), Jurnee Smollett-Bell (Canário Negro), Mary Elizabeth Winstead (Caçadora), Ella Jay Basco (Cassandra Cain), Rosie Perez (Renee Montoya), Ewan McGregor (Máscara Negro), Chris Messina (Victor Zsasz).    

  • Caçada humana

    Lohman carrega a bíblia consigo, se recusa a matar e sofre com seu destino. Em uma espécie de road-movie à cavalo, em cada cidade que passa, fugindo de seus perseguidores, encontra ajuda, mas recebe conselhos que se repetem: ele precisa matar seus oponentes. É o lema que ressoou na conquista do oeste e ainda hoje ecoa entre americanos que não abrem mão de carregar suas armas.   

    Caçada humana (From hell to Texas, EUA, 1958), de Henry Hathaway. Com Don Murray, Chill Wills, Dennis Hopper. 

  • Música do passado

    Marina chegou perto do meu ouvido.

    – Feche os olhos. – ouvi passos se afastando,  ainda sentindo cheiro de cabelos molhados.

    Há quantos anos não ouço esse som. O clique do toca-discos acionado, o braço levantando automaticamente, o LP girando no prato, o primeiro contato da agulha com o vinil, os ruídos da agulha deslizando no vazio até se encontrar com a primeira faixa de música, os acordes se misturando com o chiado no fundo, as caixas de som reverberando. Há quantos anos não ouço essa música.

    O vento de junho denunciava um mês frio. Nessas noites, eu vestia calça e jaqueta  jeans tradicional sobre camiseta de malha, tênis da moda não muito caro, condizente com meu salário de datilógrafo (estamos nos lembrando de coisas que já não existem) e saía andando pela cidade a pé, entre um cinema e outro, entre uma pizzaria e outra, entre um bar e outro, entre coisas assim. Andar pela cidade em noites de inverno. Mãos nos bolsos, ombros caídos, a brisa fria no rosto, flertando com meninas acobertadas nas fachadas dos cinemas.

    Poucos carros passavam em frente ao Cine Amazonas naquele domingo à noite. Pode se passar uma vida e vou me lembrar do glamour de tardes e noites na porta deste cinema, de olhares, de sensações de espera, “ela não vem” e quase na hora de começar a sessão a menina aparece do outro lado da rua. E ficamos nos olhando através dos carros que não a deixam atravessar.

    Eram quase dez horas da noite, eu andava impaciente pela entrada para afastar o frio e o medo de entrar atrasado.

    Carlos e Marina chegaram a tempo, calmos como sempre.

    – Cadê Juliana? – ele perguntou assim que me viu.

    – Ela não vem. Desistiu na última hora, a mãe encheu o saco, disse que isso não é hora de ir ao cinema. Você conhece. Vim sozinho, segurar um pouco de vela. – Marina sorriu daquele jeito que a tornava um encanto.

    Marco e Juliana, Carlos e Marina. Cresceram na mesma rua, brincaram de esconde-esconde, estudaram juntos na escola do bairro, assistiram aos pequenos e grandes filmes deste tempo. Naturalmente, tudo acabou em romance.

    Marina sentou-se entre mim e Carlos. Apagaram-se as luzes, ficou no ar o silêncio respeitoso de amantes do cinema. Silêncio interrompido pela canção de amor dos créditos iniciais.

    A mesma música que escuto agora, mais de vinte anos depois, recostado no sofá, as cenas do filme passando pela minha mente, as lembranças daquele momento se misturando ao cheiro dos cabelos molhados de Marina, tentando e quase conseguindo sentir as mesmas sensações daquela noite no cinema.

    No momento em que a canção do filme tomou conta da sala escura, Marina deixou seu braço roçar no meu, dividindo de propósito aquele estreito braço de cadeira de cinema que parece feito para provocar. Ela mexia o braço lentamente, sua pele na minha pele. Olhei de lado com temor, Marina estava com a cabeça deitada em Carlos, olhos fixos na tela. Ela passou os dedos suavemente pelo dorso da minha mão. Fechei a mão em seus dedos com certa violência, como uma recusa. Ou aceitação. A mão dela relaxou por alguns segundos, mas quando a música estava quase no clímax, Marina de súbito entrelaçou seus dedos entre os meus pelo tempo suficiente para me fazer esquecer.

    No final do filme, quase uma hora da madrugada de segunda-feira, me despedi sem graça do casal de namorados. Um aperto de mão em Carlos, dois beijos no rosto de Marina, bem perto dos lábios, bem perto.

    Vinte anos. Fazia tanto tempo que não via Marina, Carlos já se distanciara há muito. Tudo me vem agora com os cabelos molhados de Marina roçando em minha pele.

    – Você se lembra? – ela me perguntou com seus lábios quase tocando nos meus, a música daquele filme antigo já nas últimas faixas.

  • Sete anos de azar

    Após chegar bêbado em casa, o bem-sucedido Max acorda de manhã e se vê às voltas com uma confusão inusitada. Seu mordomo quebra o espelho do closet e na tentativa de disfarçar o ocorrido coloca outro empregado da casa, parecido com Max, do outro lado da moldura. É o ponto forte da comédia, as interações físicas entre Max e seu duplo frente a frente são responsáveis por cenas antológicas do cinema mudo. 

    O tema que provoca a série de gags é a superstição dos sete anos de azar para quem quebrar o espelho. Max está de casamento marcado, mas sucessivos desencontros e acidentes parecem comprovar a lenda urbana. 

    Sete anos de azar (Seven years bad luck, EUA/França, 1921), de Max Linder. Com Max Linder, Alta Allen, Ralph McCullough.

  • Pelas ruas de Paris

    Em uma boate, Anna conhece Greg. Os dois começam um relacionamento que se estende pelo tempo que não é demarcado para o espectador. Os conflitos do relacionamento se misturam à embates sociais e políticos, quando manifestantes tomam as ruas de Paris, assim como a jovem Anna que vive seus dilemas caminhando e correndo pela cidade. 

    A narrativa não é o ponto central da trama. A diretora Elisabeth Vogler pratica intensas experimentações visuais à medida que Anna se defronta com ela mesma, buscando sentido para seus dias, seu relacionamento. Mesmos dilemas que afetam os moradores de Paris que se encontram em meio a crises existenciais motivadas pelas incessantes crises que assolam o país, inclusive resultados de atos terroristas. Um acidente de avião é o marco simbólico, pois representa a ruptura entre vida e morte, acaso e destino, provocando ainda mais as pessoas que ao mesmo tempo que tentam interferir se encontram passivos diante do destino.  

    Pelas ruas de Paris (Paris est à nous, França, 2019), de Elisabeth Vogler. Com Noémie Schmidt (Anna), Grégoire Isvarine (Greg).

  • Tenet

    Agente da CIA, cujo nome não é pronunciado durante o filme, é recrutado para impedir que Andrei Sator (Kenneth Branagh) consiga ativar um complexo mecanismo que pode resultar na destruição da terra. Christopher Nolan volta aos intrincados enigmas do universo que tanto o fascinam. Andrei Sator consegue transitar entre o presente e o futuro, ativando o tempo reverso e assim antecipa acontecimentos. 

    O filme é recheado de ações que confundem o espectador, colocando personagens em tempos repetidos, porém invertidos. Os destaques ficam por conta das batalhas, principalmente as ambientadas no aeroporto, na estrada e no final espetacular, sequência que coloca combatentes lado a lado no tempo progressivo e reverso. 

    Tenet (EUA, 2020), de Christopher Nolan. Com John David Washington, Kenneth Branag, Robert Pattinson, Emma Thomas. 

  • Kin

    Em uma de suas andanças por prédios abandonados em busca de cobre para vender no mercado negro, o adolescente Eli (Myles Truitt) encontra, ao lado de dois corpos, uma arma futurista. Ele consegue acioná-la com o toque das mãos e guarda a arma como uma espécie de brinquedo. Eli é filho adotivo do rigoroso Hal (Dennis Quaid), as coisas mudam quando seu irmão Jimmy (Jack Reynor) sai da prisão. Após um assalto mal-sucedido, Jimmy leva Eli em uma viagem pelos Estados Unidos, fugindo da gangue a quem deve dinheiro.

    A película representa bem a mistura de gêneros cinematográficos, marca do cinema contemporâneo. Drama social que apresenta conflitos entre pais e filhos; a gangue liderada por Taylor (James Franco), essa cruel sociedade marginal; road-movie que se transforma em caça aos fugitivos, envolvendo a gangue, o FBI e dois misteriosos motoqueiros que tentam recuperar a arma e dão o tom de ficção científica à trama. 

    O ponto alto do filme é a violenta batalha final na delegacia de polícia, com direito a uma reviravolta que aponta claramente a continuação da trama. 

    Kin (EUA, 2018), de Jonathan Baker. Com Myles Truitt (Eli), Jack Reynor (Jimmy), Dennis Quaid (Hal), Zoe Kravitz, James Franco . 

  • Across the universe

    Assistir a um filme baseado em canções dos Beatles já vale apenas pela música, qualquer que seja o filme, e nem precisa ser beatlemaníaco, basta se enlevar com  as belas canções compostas por Lennon e McCartney que insuflam gerações há décadas. Across the universe vai além com a narrativa que mistura romance, ativismo político, conflitos raciais, discussões de gênero, tudo pontuado por interpretações belíssimas de I want you handLet it beHey JudeStrawberry fields forever e muito mais. 

    Jude é um jovem inglês, trabalhador de um estaleiro em Liverpool. Viaja aos EUA para conhecer o pai, que engravidou sua mãe durante a Segunda Grande Guerra. Na América, desenvolve forte amizade com o universitário Max, vai morar em um apartamento habitado por personagens da contracultura dos agitados anos 60: a jovem lésbica Prudence, a cantora de boates Sadie, o guitarrista negro Jo-Jo. Quando Jude conhece Lucy, irmã de Max, a paixão é arrebatadora e acompanha os clichês naturais do gênero: início de enternecer corações, com erotismo aflorando, conflitos pessoais que afastam os amantes até o apoteótico final, tudo com direito às inesquecíveis canções dos Beatles. Enfim, Across the universe vale a sessão fílmica, sonora, imagética, sensual…

    Across the universe (EUA, 2007), de Julie Taymor. Com Ewan Rachel Wood (Lucy), Jim Sturgess (Jude), Joe Anderson (Max), Dana Fuchs (Sadie), Martin|Luther McCoy (Jo-Jo), T.V. Carpio (Prudence). 

  • O supersticioso

    O filme abre com o Dr. Ulrich Metz informando que vai estender suas experiências psiquiátricas, usando um humano pela primeira vez como cobaia. O escolhido é o jovem Daniel Brown, cuja mente é dominada pelas mais impressionantes superstições que orientam seu dia-a-dia. A ideia do cruel psiquiatra é levar Brown ao suicidio. Esse é o ponto polêmico e contestável da obra de Victor Fleming (E o vento levou e O mágico de Oz): colocar o suicídio no gênero comédia quase ao estilo pastelão, Daniel Brown protagoniza série de esquetes à medida que é manipulado pelo médico. 

    Os encontros e desencontros típicos do gênero levam Daniel Brown e sua pretendente, também supersticiosa, ao apoteótico clímax durante o rompimento de uma represa, ousada representação realista da tragédia que representa o estilo de produção do sistema de estúdios de Hollywood já no cinema mudo. 

    O supersticioso (When the clouds roll by, EUA, 1919), de Victor Fleming. Com Douglas Fairbanks, Albert Macquarrie, Kathleen Clifford.

  • As aventuras extraordinárias de Mister West no país dos bolcheviques

    O americano Mister West viaja à URSS para conhecer o “país dos bolcheviques”. Influenciado pela leitura de publicações americanas que retratam os soviéticos como “selvagens”, leva na viagem o Caubói Jeddy como guarda-costas. Os dois protagonizam uma série de peripécias, incluindo sequestro e tiroteios bem ao estilo western americano nas ruas de Moscou. 

    A comédia de Kuleshov, um dos principais teóricos da montagem revolucionária soviética, apresenta, a princípio, a confirmação da visão estereotipada dos americanos sobre a revolução socialista. Trupe de vagabundos sequestra Mister West e forjam situações satíricas da sociedade, visando ganhar o dinheiro do resgate. A virada no final apresenta “a verdadeira URSS”, referendando o ponto de vista de Kuleshov sobre a ideologia socialista, bem afeita aos tempos de Stalin no poder. 

    As aventuras extraordinárias de Mister West no país dos bolcheviques (Neobychainye Priklyucheniya Mistera Vest V Strane Bolshevikov, Rússia, 1924), de Lev Kuleshov. Com Porfir Podobel, Boris Barnet, Aleksandra Khokhlova.

  • Vou nadar até você

    A narrativa segue o estilo road-movie, a jornada de Ofélia por mar e terra revela detalhes do passado dos seus pais, através do encontro da jovem fotógrafa com amigos dos dois e flashbacks, imagens recortadas que afloram na tela. Outro tema que perpassa a narrativa é o universo dos artistas e seus conflitos, vaidades, com direito a revelação final que pode mudar o destino da protagonista. Destaque para as paisagens, amplificadas pela fotografia de encher os olhos. 

    Vou nadar até você (Brasil, 2017), de Klaus Mitteldorf. Com Bruna Marquezine, Ondina Clais, Peter Ketnath, Fernando Alves Pinto. 

  • Meio irmão

    Sandra (Nathália Molina) e Jorge (Diego Avelino) são irmãos de pais diferentes, mas não se relacionam. Os dois vivem problemas típicos da periferia da cidade, convivendo com a violência social enquanto lutam pela sobrevivência cotidiana. Os dois se aproximam quando a mãe de Sandra desaparece de casa, colocando a adolescente em problemas que vão desde idas à polícia, ameaças de credores que cobram dívidas deixadas pela mãe, falta do que comer em casa, além de conflitos na escola. 

    A diretora Eliane Costes debate questões que permeiam a vida da periferia, como pais ausentes, filhos que crescem em comunidades complexas, muitas vezes violentas com os jovens, principalmente quando suas escolhas não se adequam aos valores sociais dominantes. A câmera da diretora filma tudo quase como um registro documental, sem conclusões em questões narrativas, sem julgamentos. Apenas acompanha os jovens em sua difícil lida cotidiana. 

    Meio irmão (Brasil, 2018), de Eliane Coster. Com Nathália Molina (Sandra), Diego Avelino (Jorge), Francisco Gomes. 

  • Papicha

    A estreante diretora Mounia Meddour compõe dois mundos que se encontram: o do idealismo das jovens estudantes, liderada por Nedja, que se recusam a aceitar os dogmas impostos pelos grupos radicais, entre eles se esconder atrás dos austeros hijabs; e a violência das ruas, marcada por atos cruéis, como uma mulher que saca a arma debaixo do hijab e atira a sangue-frio. 

    Nedja representa a juventude rebelde, que ama o país em que vive e de dispõe a lutar contra as convenções. Sua luta é simbolizada por um desfile de moda que deseja realizar na escola. As vestimentas coloridas que prepara, usando elementos como a terra (simbolismo) traz vida às jovens, às mulheres, que segundo leis incompreensíveis devem se esconder debaixo das roupas, nas casas, servindo aos homens. 

    Papicha (Argélia, 2019) de Mounia Meddour. Com Lyna Khoudri (Nedjma), Shirine Boutella (Wassila), Hilda Amira Douaouda (Samira), Yasin Houcha (Mehdi). 

  • Retrato de uma jovem em chamas

    França, século XVIII. Marianne (Noémie Merlant) desembarca em uma ilha. Ela foi contratada para pintar o retrato da jovem Héloise ( Adèle Haenel) que vive reclusa na ilha com sua mãe. O quadro será enviado para o futuro marido de Héloise, que ainda não a conhece. O processo da pintura é longo, pois atrasar o término é, de certa forma, atrasar o casamento indesejado. 

    A narrativa acompanha de forma linear o relacionamento de Marianne e Héloise, a princípio dominado pelo silêncio. As duas caminham pela ilha, contemplando a natureza, se contemplando, deixando-se levar cada vez mais pela afetividade, pela atração de duas jovens solitárias que buscam, cada uma a sua forma, a beleza da arte. Beleza que se revela em imagens sensíveis de Marianne e Héloise, entregues àquele mundo só delas, como se cada momento fosse destinado a este encontro inevitável, enquanto esperam o destino já traçado: deixar a ilha e entrar no cruel mundo determinado pelas convenções sociais da família, dos homens. Atenção para a tocante cena final na ópera, momento em que a arte conversa com essas mulheres a quem não foi permitido se entregar as suas escolhas. 

    Retrato de uma jovem em chamas (Portrait de la femme fille en jeu ,França, 2019 ), de Céline Sciamma. Com Noémie Merlant, Adèle Haenel, Luàna Bajrami.

  • Ameaça profunda

    A premissa do filme fascina e aterroriza: o desconhecido que habita as profundezas do mar pode despertar pela cobiça dos homens. Empresa constrói uma torre de acesso a onze mil metros de profundidade, com fins aparentemente de pesquisas. Logo nas primeiros momentos da narrativa, a estação não aguenta a pressão e tem 70% de suas instalações destruídas. Grupo de seis sobreviventes tem que descer até o mais fundo do mar em busca de cápsulas de ejeção para a superfície. 

    Kristen Stewart é a estrela do filme. Nora, sua personagem, guia o grupo ao lado do capitão da estação. Seus cabelos curtos e descoloridos, seu físico esguio, sua personalidade frágil e ao mesmo tempo destemida, representa o estranho que tenta se adaptar a ambientes hostis, onde a luta pela sobrevivência é a única alternativa. 

    Ameaça profunda (Underwater, EUA, 2019), de William Ewbank. Com Krister Stewart, T. J. Miller, Jessica Henwick, Vicente Casel.

  • Judy: muito além do arco-íris

    Judy: muito além do arco-íris se concentra nos meses em que a cantora se apresentou em Londres, pouco antes de morrer. Sem casa para morar, é despejada inclusive de quartos de hotel por falta de pagamento. Ela perde a guarda de seus dois filhos pequenos para o ex-marido e aceita fazer a turnê musical por Londres para tentar se recuperar financeiramente.

    A narrativa alterna entre os problemas de Judy em Londres, suas apresentações oscilam entre o sucesso e o completo fiasco em algumas noites, quando se apresenta alcoolizada e agressiva, e seu passado como atriz. São esses flashbacks que trazem à tona a crueldade do sistema de estúdios, cujos produtores exploraram o talento infantil de Judy à custa da saúde da atriz, impondo à ela jornadas excessivas de trabalho, impedindo que exercesse atividades inerentes à infância/adolescência, como ir à escola, sair com amigos, ter relacionamentos não-autorizados pelo estúdio.

    Assim como outras importantes componentes do star-system da era de ouro de Hollywood, Judy Garland pagou caro por estar sob controle de homens cuja crueldade parecia não ter limites, tudo em função do negócio chamado cinema. Cada aparição de Louis B. Mayer, todo poderoso da MGM, revela que por trás das telas o mundo mágico de Hollywood era construído através de atitudes desumanas, que destruíam as estrelas que povoavam o imaginário dos espectadores. 

    Judy: muito além do arco-íris (Judy, EUA, 2019), de Robert Gould. Com Renée Zellweger (Judy Garland), Jessie Buckley (Rosalyn Wilder), Finn Wittrock (Mickey Deane), Rufus Swell (Sid Luft), Michael Gambon (Bernard Delfont).

  • Você nunca esteve realmente aqui

    O filme traz mais um personagem que vez por outra domina narrativas: assassino de aluguel atormentado pelo passado, no caso de Joe, ex-combatente imerso nas memórias cruéis da guerra. No entanto, Joe aluga seus implacáveis tiros por causa nobre: resgatar menores das mãos de pedófilos, executando-os. 

    A trama se complica quando Joe se vê envolvido numa intrincada rede de pedofília envolvendo políticos americanos. Ao resgatar a criança Nina dessa rede, a violência explode em sequências sanguinárias e dolorosas.

    Joaquin Phoenix ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes (também prêmio de melhor roteiro para Lynne Ramsay). Sua atuação visceral apresenta um personagem que caminha irreversivelmente para a tragédia pessoal, sufocado pela realidade, pelas memórias, pelo destino, como drogas que dominam seu corpo e sua mente. 

    Você nunca esteve realmente aqui (You were never really here, EUA, 2017), de Lynne Ramsay. Com Joaquin Phoenix (Joe),  Ekaterina Samsonov (Nina), Alex Manette (Albert voto). 

  • Vidas duplas

    Ganhei meu kindle de presente de aniversário anos atrás. Relutei no início em ligar o fascinante objeto, comprar meu primeiro e-book e aderir à leitura digital. Amo os livros físicos, admirar as capas, sentir o cheiro de páginas novas, sentar-me no confortável sofá e deitar os olhos nas letras impressas. Às vezes, pago caro por esse prazer, livros no Brasil alcançam preços fora da realidade. 

    O tema de Vidas duplas é a revolução digital no mercado editorial. Alain é editor de importante empresa que prepara a transição para o mercado digital, que exige investimentos em e-books, audio livros e outras propostas. Léonard é escritor e reluta em se render a esses tempos. Selena, mulher de Alain, também enfrenta sua crise profissional: interpreta uma especialista em crises em série policial de sucesso e está cansada do trabalho repetitivo. Crises de relacionamento e casos extraconjugais pontuam a trama. 

    O interesse da trama está nos conflitos dos personagens, revelados em diálogos reflexivos quando editor, escritores, blogueiros se encontram em bares e jantares e colocam em pauta as mudanças profissionais. “Meu blog tem cinco mil acessos diários, mas ninguém lê meus livros.” ‘Com um kindle, você pode carregar sua biblioteca inteira em uma viagem.” “Eu não quero carregar minha biblioteca inteira, prefiro levar um livro leve.” Outra importante questão desses tempos virtuais aparece quando a responsável pela transição digital da editora dá lições a Alain sobre o poder dos algoritmos também no universo da literatura. 

    Hoje ligo meu kindle e leio também com prazer, no mesmo sofá confortável, afinal, “as letras são maiores”, como diz um personagem de Vidas duplas

    Vidas duplas (Doubles vies, França, 2018), de Olivier Assayas. Com Juliette Binoche (Selena), Guillaume Canet (Alain), Vincent Macaigne Léonard), Nora Hamzawi (Valérie). 

  • Lili – Minha adorável espiã

    O musical de Black Edwards gira em torno do envolvimento de Lili e Larrabee, com toques de comédia, romance, cenas de batalhas aéreas, tudo pontuado por belas canções, a maioria na inesquecível voz de Julie Andrews. O roteiro não apresenta novidades ao gênero, melhor mesmo é se entregar às canções e ao belo final, quando Lili repete o número de abertura. Impossível não se emocionar ao ouvir a música, cuja belíssima letra simboliza os obscuros tempos de guerra:

    Penso sempre que este mundo velho e triste
    Está assobiando na escuridão
    Como uma criança que sai tarde da escola 
    E bravamente atravessa o parque ao voltar para casa
    Para criar coragem e manter a noite à distância
    Sem saber exatamente o caminho a tomar
    Cantando para afugentar as sombras

    Penso sempre que o meu pobre coração 
    Desistiu de vez até que eu vejo um novo rosto
    Ou vislumbro uma nova vizinhança
    Então, me leve para casa meu amor
    Diga que os sonhos se realizam de fato
    Assobiando, assobiando, aqui no escuro com você. 

    Lili – Minha adorável espiã (Darling Lili, EUA, 1970), de Black Edwards. Com Julie Andrews, Rock Hudson, Jeremy Kemp