• A vida extra-ordinária de Tarso de Castro 

    O documentário me remeteu aos tempos românticos do jornalismo, uma de minhas formações. Os diretores Leo Garcia e Zeca Brito tentam traçar um perfil (se é que é possível) da vida e carreira do jornalista Tarso de Castro, um dos criadores do Pasquim e outros importantes títulos do jornalismo brasileiro, como Folhetim. As histórias giram em torno da rebeldia do jornalista; trechos documentais mostram como Tarso lutava no meio jornalístico, não se rendendo a imposições dos donos dos jornais e nem do sistema político (na época, a ditadura militar). O lado romântico fica por conta do comportamento destes rebeldes no exercício da profissão. “A redação não era extensão do bar, o bar era a redação” – declara um dos entrevistados. Documentário imperdível em um momento de questionamentos sobre a prática jornalística nos grandes meios de comunicação.

    A vida extra-ordinária de Tarso de Castro (Brasil, 2016), de Leo Garcia e Zeca Brito

  • A moça do calendário

    Helena Ignez participou ativamente como atriz dos grupos que construíram o Cinema Novo e o Cinema Marginal. Foi casada com Glauber Rocha e Rogério Sganzerla. Em sua recente produção como diretora, Helena Ignez traz resquícios destes movimentos que formaram gerações de cineastas e cinéfilos. 

    Inácio trabalha como mecânico, lê Freud, transita pela noite com o olhar sonhador de quem almeja mundos melhores. Em momentos de ócio na oficina na qual trabalha, tem devaneios com a moça do calendário que invade sua imaginação com erotismo e rebeldia, como se o chamasse a sair pelo mundo. 

    A moça do calendário é Lara, militante de esquerda que luta pela reforma agrária e transita pelo MST. Em algum momento os dois podem se encontrar, enquanto isso, desfilam pelo olhar dos personagens a noite marginal paulistana, os segregados, os explorados pelo capitalismo. Belas imagens, texto contundente, crítica social, irreverência dos personagens – a autora Helena Ignez tem um quê de marginal em seu cinema. 

    A moça do calendário (Brasil, 2017), de Helena Ignez. Com André Guerreiro Lopes (Inácio), Djin Sganzerla.

  • A livraria

    Cidade litorânea da Inglaterra, final da década de 50. A recém viúva Florence Green chega à cidade, se encanta e acalenta sonho que luta para realizar: abrir uma livraria na velha casa que alugou. A empreitada encontra resistência em Violet Gamart, representante da conservadora sociedade local. 

    A livraria é dos filmes que coloca cena a cena o amor pela literatura. Florence troca correspondências sobre livros com o recluso Edmund Brundish e passa a enviar para ele edições novas. A pequena Christine acompanha tudo com o olhar infantil, ajudando Florence na livraria. O final, triste mas esperançoso, revela como os livros podem modificar a vida das pessoas.  

    A livraria (The bookshop, Inglaterra, 2018), de Isabel Coixet. Com Emily Mortmer (Florence Green), Bill Nighy (Edmund Brundish), Patricia Clarkson (Violet Gamart).

  • Ilha dos cachorros

    Wes Anderson toca fundo em questões ambientais e políticas, colocando em evidência temas como totalitarismo, corrupção, lixo tóxico, extermínio de etnias. O cenário é o Japão 20 anos no futuro. Para combater surto de febre entre os cachorros, o prefeito da cidade envia todos os cachorros para uma ilha lixão. Nessa espécie de presídio terminal, os cães formam gangues e duelam entre si por alimento. 

    Spot, cão de guarda do jovem Atari (sobrinho do prefeito) chega a ilha e se reúne ao bando de Chief. Pouco depois, Atari também desembarca na ilha em busca de seu adorado cachorro. A animação em stop-motion rendeu a Wes Anderson o Urso de Prata de melhor diretor no Festival de Berlim. 

    Ilha dos cachorros (EUA, 2018), de Wes Anderson. 

  • Cinemagia: a história das videolocadoras de São Paulo

    O documentário é saudosa viagem ao início e apogeu das principais videolocadoras de São Paulo. O diretor Alan Oliveira registrou depoimentos dos personagens que construíram pequenos impérios do entretenimento: fundadores da Vídeo Norte, 2001 Vídeo, Real, Hobby, entre outros pioneiros. Críticos, jornalistas e frequentadores depõem sobre a magia de entrar em uma loja e ficar tempo indefinido entre as prateleiras de filmes. Tom comum entre as declarações é a possibilidade que as videolocadores proporcionaram de construir relações entre os cinéfilos, alguns pioneiros foram profundos conhecedores da sétima arte que colocaram paixão no ato de alugar filmes, outros, iniciantes que começaram nos corredores o caminho mágico pelo mundo dos filmes. 

    É história comum: todo grande ou pequeno império um dia desaba. As videolocadoras foram sugadas, primeiro pelas megastores, como a Blockbuster, depois pela irrefreável ascensão do streaming. Sobrevivem na memória de pessoas que participaram como criadores ou como espectadores das antológicas prateleiras de videocassetes, depois DVDs, onde os filmes esperavam os apaixonados pelo cinema.  

    Cinemagia: a história das videolocadoras de São Paulo (Brasil, 2017), de Alan Oliveira. 

  • O passageiro

    O ex-policial Michael McCauley pega todos os dias o trem para o trabalho como corretor de seguros em Nova York. Como sucede com tantos e tantos empregados, é demitido no final do dia e se vê às voltas com problemas sérios, como pagar a hipoteca da casa. Na volta para casa, no trem, é abordado por uma estranha mulher que faz a ele uma proposta: se Michael descobrir a identidade de certo passageiro, possivelmente terrorista, ganhará grande soma em dinheiro. Michael tem até o final da viagem para solucionar o mistério. 

    Tramas em trens sempre fascinam o espectador e O passageiro guarda semelhanças com Contra o tempo. Nos dois filmes, o relógio é o inimigo dos protagonistas, decisões devem ser tomadas minuto a minuto. A trama de suspense de O passageiro (passo a passo o ex-policial se vê envolvido em intrincada rede de negócios, poder e polícia) traz questão ética premente: em situação de vulnerabilidade pessoal, até onde se pode ir por dinheiro.  

    O passageiro (The commuter, EUA, 2018), de Jaume Collet-Serra. Com Liam Neeson (Michael McCauley), Vera Farmiga (Joanna), Patrick Wilson (Murphy), Sam Neill (Capitão Hawthorne). 

  • Para todos os garotos que amei

    Vez por outra aparece uma comédia romântica com toque original. Lara Jean (Lana Condor) é filha de coreana com americano. A mãe faleceu jovem e deixa o viúvo com as três filhas. Como toda adolescente, Lara Jean tem paixões escondidas e escreve cartas (que nunca envia) para os pretendentes, entre eles o namorado de sua irmã. A irmã caçula acha as cartas escondidas em uma caixa e remete para cada um dos interessados. 

    O encontro dos garotos e da garota após tomarem conhecimento das cartas rende situações engraçadas e provoca descobertas nos relacionamentos. O roteiro de Sofia Alvarez e a direção de Susan Johnson colocam em evidência o adolescente olhar feminino sobre a família, os colegas de escola, os namorados. Lana Condor carrega sua personagem com o deslumbramento e revolta no comportamento típicos da adolescência. Atenção para a hilária cena pós-créditos. 

    Para todos os garotos que amei (To all the boys I’ve loved before, EUA, 2018), de Susan Johnson. Com Lana Condor, Noah Centineo, Jnel Parrish, Anna Cathcart. 

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  • Terra selvagem

    As sequências de abertura determinam a desolação e dor que imperam na trama: adolescente corre sozinha pela planície gelada, texto poético acompanha seus passos, ela cai na neve; corta para coiote observando o rebanho de ovelhas até ser atingido por um tiro mortal.

    As montanhas geladas do Wyoming são cenário para a história. O caçador Cory encontra o corpo de uma adolescente indígena. Ela foi estuprada e morreu correndo descalça na neve, asfixiada pelo frio que invade os pulmões até explodi-los. Jane, agente do FBI, é enviada para investigar.

    O crime traz à tona o passado de Cory e coloca em relevo outros personagens também perdidos nesta paisagem desoladora: os habitante da reserva indígena. Terra sangrenta é escrito e dirigido por Taylor Sheridan, roteirista dos marcantes A qualquer custo e Sicario: terra de ninguém. O silêncio do filme no deserto gelado, pontuado pela trilha melancólica, evidencia a dor dos personagens, principalmente de Cory, que continua lutando na neve. Depois das perdas, resta a Cory a vingança e a Jane fechar os olhos para este mundo deserto e abandonado por todos, inclusive pelo governo.

    Terra selvagem (Wind river, EUA/Canadá/Inglaterra, 2017), de Taylor Sheridan. Com Jeremy Renner (Cory), Elizabeth Olsen (Jane), Graham Greene (Ben).

  • O filho de Saul

    Saul Ausländer está preso em um campo de concentração da Alemanha nazista. Como outros judeus, ele exerce a função de sonderkommando, responsável por ajudar os nazistas dentro das câmaras de gás. O ponto de vista escolhido pelo diretor é o grande mérito do filme. O espectador sente passo a passo o processo de execução, acompanhando o trabalho e o olhar de Saul dentro da câmara de gás. Saul e os outros sonderkommandos guiam os judeus na entrada, ajudam-nos a se despirem, os encaminham para o interior da câmara de gás. Depois, levam os corpos para o crematório.

    Faltava uma película como O filho de Saul para jogar o espectador dentro do sofrimento inimaginável dos campos de concentração. Cada sequência é feita sem cortes, a câmera registra o olhar e o trabalho de Saul, como se cada um de nós participasse e ajudasse no processo de tentativa de extermínio dos judeus.

    Em uma das externas, a câmera centrada em Saul, durante a noite, deixa o espectador vislumbrar nazistas executando a tiros os judeus e jogando os corpos na vala. A tensão, durante todo o filme, é estarrecedora. Obra-prima contemporânea, O filho de Saul revela a capacidade expressiva dos recursos de linguagem do cinema.

    O filho de Saul (Saul Fia, Hungria, 2015), de László Nemes. Com Géza Rohrig (Saul Auslander),  Sándor Zsótér (Dr. Miklos), Levente Molnár (Abraham).

  • Cidades fantasmas

    A tristeza que permeia o documentário atinge a alma com o poder das imagens do cinema. A câmera de Tyrell Spencer documenta quatro cidades no continente sul americano que foram abandonadas por motivos de decadência econômica, catástrofes naturais e/ou descaso do governo. As cidades são Humberstone (Chile), Fordlândia (Brasil), Armero (Colômbia) e Epecuen (Argentina).

    As imagens de ruas desertas, casas abandonadas, prédios em ruínas, praças destruídas, comovem, pois remetem diretamente às memórias de pessoas que viveram e foram felizes nos tempos áureos da exploração do salitre, da extração da borracha, das temporadas turísticas. A pesquisa de Tyrell Spencer traz depoimentos de antigos moradores que rememoram tempos felizes, falam da destruição, acusam empresários, políticos e governos pelas derrocadas das cidades que deixaram milhares de pessoas sem lar.

    Os relatos mais impressionantes se referem à erupção do vulcão na Colômbia que destruiu Armero. Segundo moradores, a tragédia seria evitada se as autoridades, que sabiam da iminência da erupção, alertassem a população. Não o fizeram por interesses econômicos, assim como os militares argentinos não impediram a inundação que literalmente afogou a cidade de Epecuén. Cidades fantasmas é o registro/denúncia de como a vida humana é insignificante quando estão em jogo interesses políticos e econômicos.

    Cidades fantasmas (Brasil, 2017), de Tyrell Spencer.

  • Táxi Teerã

    Jafar Panahi em mais um filme que reflete sobre o ato de filmar, sobre o cinema, tendo sempre como ponto de partida sua impossibilidade de fazer filmes (o diretor está proibido de trabalhar com cinema pelo governo iraniano). Em Isto não é um filme (2011), Panahi burlou as proibições impostas por um documento, filmando seu cotidiano dentro de casa. Na prática, ele evitou tudo que não podia fazer, como escrever um roteiro.

    Táxi Teerã, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim, é mais um experimento do diretor. O próprio Panahi dirige um táxi pelas ruas da capital iraniana com a câmera acoplada ao para-brisa. À medida que os passageiros entram, confundindo o espectador sobre os limites entre ficção e realidade, diálogos metafóricos permeiam a viagem. Um vendedor de filmes piratas reconhece o diretor e diz que tudo aquilo é armado, que Panahi está fazendo um filme. A sobrinha do diretor sai da escola com um manifesto da professora sobre como fazer um filme “exibível”. Enquanto Panahi sai do táxi (a câmera nunca deixa o carro, apenas muda de posição para filmar o exterior vez ou outra), a menina tenta convencer um garoto de rua a praticar atos interessantes para que ela possa filmar com o celular.

    O marido ferido dentro do carro, após um acidente, desesperado, no colo da mulher, pede a Panahi que grave com o celular o seu testamento, como um retrato destes tempos nos quais a câmera portátil registra, delata. Em diálogo com um comprador de filmes piratas, Panahi expressa a singularidade do cinema. O comprador pede sugestões sobre qual obra assistir. O diretor revela simplesmente: “Todo filme vale a pena ser assistido.” Principalmente este Táxi Teerã, obra-prima do que pode, novamente, não ser um filme.

    Táxi Teerã (Taxi, Irã, 2015), de Jafar Panahi.

  • A sociedade literária e a torta da casca de batata

    Juliet Ashton (Lily James) recebe carta de fazendeiro da pequena ilha de Guernsey, situada no Canal da Mancha. Ele pede dicas de leitura para trocar com os membros do grupo de leitores do qual participa, intitulado A sociedade literária e a torta de casca de batata. Em crise criativa, a jovem escritora parte para a ilha intrigada com o grupo com nome inusitado, buscando material para um novo livro. 

    O amor pela literatura é o tema de mais um belo filme de Mike Newell (Quatro casamentos e um funeral). O grupo de leitura foi criado durante a ocupação nazista como forma de resistir aos tempos sombrios. Os integrantes escondem um segredo do passado que Lily tenta desvendar. A deslumbrante paisagem da ilha, a singela amizade dos componentes do grupo, o amor que começa a florir – Lily está no meio de tudo isto com o olhar de escritora. Filme para amantes dos livros. 

    A sociedade literária e a torta de casca de batata (The guernsey literary and potato peel pie society, Inglaterra, 2018), de Mike Newell. Com Lily James, Michiel Huisman, Tom Courtenay, Katherine Parkison, Matthew Goode. 

  • Ferrugem

    Ferrugem é dos mais impactantes filmes do cinema contemporâneo brasileiro. A adolescente Tati está às voltas com um pretenso namorado, o introvertido e estranho Renet. Durante final de semana com amigos da escola, Tati perde seu celular. Pouco depois, vídeo íntimo dela com o antigo namorado invade as redes sociais. Este ato criminoso, infelizmente comum nos dias de hoje, desencadeia série de conflitos envolvendo Tati e os meninos e meninas da escola e a família de Renet. A grande virada do filme é das cenas mais chocantes e perturbadoras: Tati sozinha no corredor da escola, em frente à câmera de segurança.

    O filme conquistou importantes prêmios no Brasil. Traz à tona duas gerações envoltas em seu próprios problemas: os adolescentes consumidos pelas redes sociais, sem saber lidar com a gravidade de atos como postar a intimidade alheia no ambiente virtual; os pais que convivem com problemas nos relacionamentos, no mercado de trabalho, no trato com os filhos. Filme que remete à reflexão destes tempos modernos. 

    Ferrugem (Brasil, 2017), de Aly Muritiba. Com  Tiffany Dopke (Tati), Giovanni De Lorenzi (Renet), Enrique Diaz (Davi), Clarissa Kiste (Raquel), Pedro Inoue (Normal).  

  • Benzinho

    Irene, o marido Klaus e seus quatro filhos vivem o cotidiano da classe média brasileira, às voltas com problemas de dinheiro e de relacionamentos. O refúgio é uma decrépita casa de praia, ideal de consumo principalmente de Irene. A virada no roteiro acontece quando o primogênito ganha bolsa para jogar handebol na Alemanha. O descontrole toma conta de Irene diante da possibilidade de se afastar de um dos filhos. 

    A força de Benzinho está em colocar estes conflitos mesclando humor e drama na medida certa. Importantes debates do contemporâneo pontuam a trama: sonhos de consumo da classe média, violência contra a mulher, estresse provocado pelos traumas cotidianos em família (a mãe completamente entregue aos filhos), jovens sem perspectiva que enxergam apenas o aeroporto como saída. A explosão de Irene na cozinha da casa é o grande momento do filme. 

    Benzinho (Brasil, 2018), de Gustavo Pizzi. Com Karine Teles, Otávio Muller, Adriana Esteves, Konstantinos Sarris. 

  • Monsieur e Madame Adelman

    É o funeral do premiado escritor Victor Adelman. Os convidados lamentam e levantam suspeitas sobre a causa da morte. A viúva Sarah Adelman convida o biógrafo do escritor para uma conversa na biblioteca. Com frieza e sinceridade, Sarah rememora toda a vida em comum do casal, quando se conheceram, em 1971, até a morte do escritor.

    Os flashbacks são reconstituídos em capítulos, com títulos e data, como em uma narrativa literária. A história mescla romantismo, adultério, tragédias pessoais, conflitos entre o casal e com os filhos, tudo com bom humor. As situações e diálogos compõem um filme irresistível que se completa com a perfeita parceria em cena do casal (também na vida real).

    A estreia na direção do roteirista e diretor Nicolas Bedos é promissora e a associação com a literatura revela momentos surpreendentes (o final do filme), quando ficção e realidade podem ser uma coisa só. As imagens que nos encantam no cinema, as palavras que nos seduzem na literatura, escondem mistérios que não precisam ser revelados, mentiras que não precisam de confirmação. Como a boa literatura, como o bom cinema.

    Monsieur e Madame Adelman (MR & MME Adelman, Bélgica/França, 2017), de Nicolas Bedos. Com Nicolas Bedos (Victor Adelman), Doria Tillier (Sarah Adelman).

  • Comeback

    A periferia de Goiânia é o ambiente para Comeback, filme que flerta com o thriller de ação e com o faroeste, carregando na composição psicológica do protagonista. Amador, um matador aposentado, recebe a incumbência de treinar o neto de seu amigo Davi. A relação entre os dois passa pelos relatos de Amador, cujas façanhas estão registradas em um álbum de recortes de jornais, incluindo a famosa chacina em um bar nas imediações. Ao mesmo tempo, dois cineastas fazem pesquisa para um filme e colocam em dúvida as histórias relatadas pelo matador que, segundo um deles, “não tem cara de pistoleiro.”

    A melancolia está expressa nos diálogos entre Amador e seus antigos colegas de profissão, principalmente Davi, que espera a morte em um leito de hospital. Da mesma forma, o caminhar de Amador pelas ruelas à noite (interpretação primorosa de Nelson Xavier em seu último papel), percorrendo bares, tentando sobreviver à custa de instalação de máquinas caça-níqueis, revelam um homem amargurado, bem ao estilo dos pistoleiros decadentes retratados por John Ford e Howard Hawks nos anos 60. O final, que poderia ser a volta do título, é a constatação de que o passado está irremediavelmente impresso nas memórias do matador.

    Comeback (Brasil, 2016), de Érico Rassi. Com Nelson Xavier (Amador), Marcos de Andrade (Neto do Davi), Everaldo Pontes (Davi), Gê Martú (Tio), Sergio Sartorio (Cineasta 1), Eucir de Souza (Cineasta 2).

  • Ana e Vitória

    A dupla Anavitória integra um ritmo musical contemporâneo conhecido como “pop rural”. As duas jovens já conquistaram o Grammy Latino com apenas cinco anos de carreira. O filme Ana e Vitória parte de ideia do produtor das intérpretes para divulgação, se transformando em uma espécie de storytelling em longa-metragem. 

    Ana e Vitória interpretam elas mesmas no momento em que se conheceram. É mistura de documentário e ficção e grande parte da narrativa se passa em ambientes fechados: bares, casas de espetáculos, hotéis. Pontos fortes da narrativa são as músicas e a coragem em retratar as escolhas amorosas das jovens e seus parceiros/parceiras. Amizade, amor, sexo, tudo se confunde de maneira natural à medida que Ana e Vitória descobrem sua música e a si mesmas. 

    Ana e Vitória (Brasil, 2018), de Matheus Souza. Com Ana Caetano, Vitória Falcão, Thati Lopes, Érika Mader, Bruce Gomlevsky, Clarissa Muller.

  • Cena de cinema

    “Ele é igualzinho aquele ator de cinema.” A irmã deu um pulo da cama assim que Alice entrou aos gritos pela janela.” “Quem?”  “Aquele ator de cinema… do filme que assistimos na semana passada. Vem, vem ver.”

    As irmãs dormiam no quarto voltado para a rua, bastava abrir a janela e o movimento estava bem ali. Vez por outra elas se assustavam quando, deitadas na cama, a modorra quente da tarde, abas da janela de madeira abertas, um amigo assobiava, outra amiga pulava de repente no meio do quarto às risadas.

    Era assim a vida das meninas: debruçadas na janela, esperando um rosto novo, diferente dos rapazes que passavam três, quatro vezes por dia em frente a casa. No sábado à noite, davam voltas na pracinha da igreja, moças em sentido contrário aos rapazes, olhares se cruzando até enjoarem um do outro.

    Alice, mal completados 16 anos, era dois anos mais velha do que a irmã. Há algum tempo elas ludibriavam o horário das nove da noite, estipulado pelo pai, de entrar em casa e se recolherem. Pouco depois das dez, quando a noite encobria com o silêncio aquela casa austera, as meninas destrancavam a taramela da janela e pulavam de volta para a praça.

    Naquele sábado chovia como se o céu se desprendesse. Quando Alice entrou esbaforida, encharcando o chão do quarto, repetindo “igualzinho aquele ator de cinema”, a irmã pensou em chamar a mãe para detectar febre na filha. Dedos benignos de mãe, bastava um toque na testa e, pouco depois, compressas de água refrescavam.

    Alice juntou a irmã pelas mãos e, quase sem perceber, as duas estavam no passeio da rua, a chuva caindo pesada nos cabelos, nos ombros. “Corre, senão ele vai embora. Olha lá, olha lá…”

    Do outro lado da rua, debaixo da pequena marquise de uma das entradas da igreja, um rapaz se escondia da chuva. Apesar do cedo da hora para sábado à noite, a praça estava deserta. A irmã forçou a vista: o estranho vestia um sobretudo cinza, caindo até abaixo dos joelhos. Uma das mãos estava no bolso, a outra, pendente ao longo do corpo, deixava ver brasa entre os dedos. Ela acompanhou o estranho erguer o cigarro até os lábios. A luz fraca do poste impedia que as meninas vissem os traços do rosto. No breve instante em que o cigarro tocou os lábios e a brasa refletiu com um pouco mais de intensidade, o clarão de um relâmpago iluminou a noite, ajudando as meninas a vislumbrarem um rosto moço, moreno, o chapéu escuro encobrindo a cabeça.

    “É ou não é igualzinho… o moço que falou tanto coisa bonita no aeroporto.”

    Quando viu as irmãs, o estranho tirou lentamente o cigarro dos lábios, soltou uma longa baforada e arredou pé de debaixo da marquise, sentindo a água da chuva bater com força na aba do chapéu. Deixou o cigarro cair no chão e, agora com as duas mãos nos bolsos, atravessou lentamente a rua, provocando sobressaltos nos seios da adolescente Alice, como naquelas noites em frente à tela grande do cinema.

  • Histórias que nosso cinema (não) contava

    Um dos momentos de maior bilheteria do cinema brasileiro é a pornochanchada, gênero que marcou os anos 70 e início da década de 80. Fernanda Pessoa fez intensa pesquisa, assistindo e coletando material de filmes que iam além da ousadia sexual travestida de comédia.

    A montagem do documentário é um primor. Sem narração ou depoimentos, sequências dos filmes se sucedem, separadas por temas: tortura perpetrada pela ditadura, consumismo nestes anos do milagre econômico, exploração do corpo feminino, violência contra a mulher, machismo, preconceito racial, homossexualismo, corrupção política. Muitos filmes da pornochanchada foram censurados pelo regime militar. Outros conseguiram inserir em meio a narrativas despretensiosas questões determinantes para a formação da sociedade brasileira. Fernanda Pessoa resgata a pornochanchada como gênero e como resistência política.  

    Histórias que nosso cinema (não) contava (Brasil, 2017), de Fernanda Pessoa. 

  • Yonlu

    YonluFerrugem e Torquato Neto – Todas as horas do fim compõem filmes do cinema contemporâneo brasileiro que colocam tema tabu em discussão: o suicídio entre jovens. Enquanto Ferrugem é puramente ficcional, Torquato Neto documenta a carreira do poeta/letrista que participou da tropicália. Yonlu parte de um caso real: em 2006, Vinícius Gageiro Marques, 16 anos, se matou em sua casa, em Porto Alegre. O jovem fazia parte de grupos virtuais de jovens que sofriam com a depressão. Ele filmou e transmitiu on-line seu ato final.

    O diretor Hique Montanari faz escolhas estéticas ousadas para recriar os problemas enfrentados pelo jovem. Vinícius era músico, poeta, artista promissor que depois da morte teve várias músicas gravadas. A narrativa usa as músicas para compor o perfil psicológico de Yonlu, provoca interações da animação e do grafismo em momentos de devaneio e coloca atores mascarados em cena com Yonlu para recriar fisicamente o mundo virtual do qual fazem parte os personagens. Um psicólogo, em entrevista a jornalista, explica didaticamente os problemas enfrentados por Vinícius e jovens no mesmo estado. O filme toca em tema polêmico com ousadia e sensibilidade.  

    Yonlu (Brasil, 2017), de Hique Montanari. Com Thalles Cabral, Nelson Diniz, Lorena Lorenzo, Leonardo Machado, Liane Venturella.