• Operação skyfall

    Em uma cena do filme Hitchcock (EUA, 2012), o produtor informa ao famoso diretor que estão querendo contratá-lo para dirigir Cassino Royale, baseado em livro de Ian Fleming. Hitchcock responde que já dirigiu um filme assim, se referindo a Intriga Internacional (1959).

    Com Intriga internacional, Hitchcock praticamente lançou o estilo de filmes modernos de ação, influência direta para a série 007. Ainda no recente filme sobre o mestre do suspense, Hitchcock se depara com críticas considerando exagerado o final de Intriga internacional. Locações em várias cidades, um protagonista charmoso, perseguições mirabolantes e ações exageradas estão no filme de Hitchcock assim como em toda película de James Bond.

    Operação skyfall (Skyfall, EUA, 2012), de Sam Mendes. segue a risca os clichês que fazem de James Bond um dos personagens mais cultuados do cinema. Mas há um aspecto que me incomoda desde Cassino Royale (2006): a seriedade carrancuda que Daniel Craig impôs ao personagem. A crítica saúda este estilo como a humanização de Bond. O agente agora está entregue à fragilidade diante de questões contemporâneas como terrorismo e tortura. Ele sofre física e psicologicamente como qualquer um de nós. Gosto mais do James Bond de Sean Connery e Roger Moore: irreverente, despretensioso, irresistivelmente charmoso, irretocável e não ligando a mínima para sofrimento ou a possibilidade da morte.

    Parte desta crítica também elegeu Skyfall como o melhor filme de toda a série, exagero. O filme tem uma sequência final das mais belas, estética fascinante das terras geladas da Escócia combinada com ação envolvente. Mas de resto, é normal e despretensioso como qualquer outro Bond, com o agravante de uma solução comum de roteiro: o bandido que se deixa prender para entrar no QG do inimigo e depois empreender fuga espetacular.

    A tecnologia cada vez mais avançada e as infinitas possibilidades de manipulação da imagem e dos efeitos fazem com que determinados filmes deste tempo se sobressaiam no quesito cenas espetaculares. A tendência é James Bond ficar mais e mais empolgante, mas isto não transforma os filmes recentes em melhores da série. O fato de um personagem mais humano muito menos, pois James Bond não é personagem comum.

    Termino com a difícil lista dos meus filmes favoritos de 007, colocando, é claro, Intriga internacional de Hitchcock como hors concours.

    007 contra a chantagem atômica (Thunderball, 1965) Terence Young

    007 contra Goldfinger (Goldfinger, 1964) Guy Hamilton

    007 contra o satânico Dr. No (Dr. No, 1962) Terence Young

    007 o espião que me amava (The spy who loved me, 1977) Marvin Hamlisch

    007 os diamantes são eternos (Diamonds are forever, 1971) Guy Hamilton

    007 somente para seus olhos (For your eyes only, 1981) John Glenn

    007 a serviço secreto de sua majestade (On her majesty’s  secret service, 1969) Peter Hunt

  • Vidro

    O justiceiro David Dunn é preso e encaminhado a uma instituição psiquiátrica. No mesmo local, estão internados Vidro Elijah e Kevin, junto com suas 24 personalidades. O ousado roteiro de M. Night Shyamalan reúne os personagens de Corpo fechado e Fragmentado, cujos dons são estudados pela Doutora Ellie Staple. Cada um está enclausurado em um quarto com dispositivos que evitam o uso dos poderes. O problema é que Vidro tem um plano: colocar David e Kevin frente a frente em batalha épica.

    M. Night Shyamalan encerra trilogia iniciada em 2000. James McAvoy continua com seu show particular na interpretação das diversas personalidades;  Bruce Willis interpreta um justiceiro contido e amargo; Samuel L. Jackson é o retrato da personalidade fechada em si mesma, pronta para explodir a qualquer momento. O universo dos quadrinhos é homenageado mais uma vez. 

    Vidro (Glass, EUA, 2019), de M. Night Shyamalan. Com James McAvoy (Kevin), Bruce Willis (David Dunn), Samuel L. Jackson (Vidro Elijah)., Saraha Paulson (Ellie Staple).

  • A longa caminhada de Billy Lynn

    Guerra do Iraque. O jovem soldado Billy Lynn tenta salvar o Sargento Dime de um ataque inimigo nas ruas da cidade, se confrontando sozinho com guerrilheiros iraquianos. O ato é registrado pelas câmeras de um fotógrafo, Billy Lynn é considerado herói e vira celebridade nos EUA. Para homenagear a equipe Bravo, regimento da qual o soldado faz parte, o presidente Bush organiza recepção durante um jogo de futebol americano.

    A longa caminhada de Billy Lynn narra este único dia na vida dos soldados: primeiro o encontro de Billy com sua família, depois no estádio de futebol. Flashbacks reconstituem as memórias e sensações do soldado herói no Iraque.

    O diretor taiwanês Ang Lee compõe uma peça crítica e melancólica dos jovens sem rumo após os ataques de 11 de setembro, praticamente forçados à guerra contra o terror (Billy Lynn é obrigado pelo pai a se alistar para fugir da acusação de delinquência juvenil). A câmera no rosto de Billy em vários momentos constrangedores das homenagens no estádio, depois entrando nas memórias da guerra do Iraque, alertam para este país centrado nas aparências, nos devaneios midiáticos. Aos soldados cabe apenas se amparar uns nos outros, como na simbólica sequência final dentro da gigantesca limusine.

    A longa caminhada de Billy Lynn (Billy Lynn’s long halftime walk, EUA, 2016), de Ang Lee. Com Joe Alwyn (Billy Lynn), Kristen Stewart (Kathryn), Garret Hedlund (Dime), Vin Diesel (Shroom).

  • A cordilheira

    Hotel na Cordilheira dos Andes, Chile, sedia a cúpula de presidentes dos países da América do Sul e da América Central. O objetivo é criar organização para exploração das reservas de petróleo na região. Oliveira Prete, presidente do Brasil, é o influente líder, pois o país concentra grande parte das reservas e detém a maior empresa petrolífera. 

    A cordilheira concentra a narrativa na cúpula, com a trama centrada em Hernán Blanco, presidente da Argentina. Homem comum, alçado à presidência após governar pequena província do país, Blanco é o curinga das negociações que envolve o inescrupuloso presidente mexicano e os interesses dos americanos em controlar a exploração do petróleo em todas as Américas.

    Um mistério do passado do presidente argentino pontua a narrativa quando entra em cena Marina, filha de Hernán Blanco. Os problemas psicológicos de Marina apontam para questões do passado que podem ou não ter acontecido. Na cúpula, a trama aponta para jogos de interesses, negociatas e interesses políticos determinados pelo poderio econômico.   

    A cordilheira (La cordillera, Argentina, 2017), de Santiago Mitre. Com Ricardo Darín (Hernan Blanco), Dolores Fonzi (Marina), Oliveira Prete (Leonardo Franco), Erica Rivas (Luisa Cordero). 

  • A esposa

    Filme abre com o casal Joan e Joe Castleman recebendo ligação informando que o escritor Joe receberá Prêmio Nobel de Literatura. A trama narras os conflitos do casal, envolvendo o filho também escritor, durante a viagem para receber o prêmio. 

    Glenn Close foi indicada ao Oscar de melhor atriz e praticamente carrega o filme. A princípio, os conflitos indicam traumas em família: a infidelidade de Joe, a frustração do filho escritor que sente a sua literatura desprezada pelo pai, a necessidade de afirmação de Joan diante do sucesso do marido. A entrada em cena do jornalista disposto a escrever a biografia do escritor provoca a virada do roteiro, pois Joan pode esconder segredo relacionado a autoria dos textos literários de Joe. 

    A esposa (The wife, EUA, 2017), de Bjorn Runge. Com Glenn Close (Joan Castleman), Jonathan Pryce (Joe Castleman), Christian Slater (Nathaniel Bone), Max Irons (David Castleman). . 

  • Todos já sabem

    O diretor iraniano Asghar Farhadi (dos premiados A separação e O apartamento) reúne elenco de peso em Todos já sabem. A narrativa parte da chegada de Laura e seus dois filhos, vindos da Argentina, ao seu povoado natal na Espanha para as festividades do casamento de sua irmã.

    O casamento reúne a grande família, amigos de infância, entre eles Paco, ex-namorado de Laura. É o típico filme de drama familiar movido a ressentimentos do passado, amores deixados para trás e segredos perturbadores. A virada da trama acontece na noite do casamento, forçando Laura e Paco a se defrontarem com o segredo que todos já sabem. O cinema de Asghar Farhadi aborda esses universos particulares carregados da complexidade humana; tramas concentradas em pequenos ambientes familiares que dialogam com a cultura de cada país. 

    Todos já sabem (Todos lo saben, Espanha, 2018), de Asghar Farhadi. Com Javier Bardem (Paco), Penélope Cruz (Laura), Ricardo Darin (Alejandro), Eduard Fernández (Fernando).

  • Uma quase dupla

    A investigadora Keyla chega à cidade de Joinlândia para elucidar crime que se anuncia como a primeira investida de um serial killer. Sua dupla de trabalho é Cláudio, morador da cidade. Enquanto os crimes acontecem, Keyla e Cláudio enveredam por trapalhadas típicas do gênero comédia de duplas de policiais. 

    Tatá Werneck é a estrela do filme, proporcionando momentos engraçados bem ao seu estilo de disparar diálogos como metralhadora. Cauã Reymond faz o estilo policial galã, preocupado em tingir os cabelos e posando para o espelho. O roteiro não ajuda os atores, os clichês se sucedem crime a crime. Resta ao espectador se entregar ao carisma dos protagonistas. 

    Uma quase dupla (Brasil, 2018), de Marcos Baldini. Com Tatá Werneck (Keyla), Cauã Reymond (Cláudio), Ary França (Moacyr), Alejandro Claveaux (Augusto).  

  • O cinema e o silêncio

    A máscara negra desceu sobre o rosto deformado de Anakin Skywalker. Certos closes tomam conta dos nossos olhos e do que eles escondem. No final de A Vingança dos Sith, a máscara de Darth Vader dominou o cinema através do mais completo silêncio.

    Em 1980, entrei no cinema tentando dominar a ansiedade que me persegue desde a década de 70, antes de cada filme da série Star wars. Naquele ano, o filme ainda era chamado de Guerra nas estrelas e parecia a história de Luke Skywalker, guerreiro estelar, samurai, pistoleiro e piloto de combate. Dentro do cinema lotado, os adolescentes gritam e assobiam a cada batalha de O império contra-ataca. Impossível ficar indiferente diante do idealismo místico de Luke e do romantismo cínico de Hans Solo.

    Luke Skywalker finalmente se encontra com Darth Vader. Eles duelam pelos corredores da Cidade das Nuvens. A cena é famosa. Um dos vilões mais lembrados do cinema decepa a mão do herói, o jovem cavaleiro jedi procura fugir mas tem abaixo o abismo. Luke agarra-se como pode, a dor estampada no rosto. Darth Vader estende a mão para ele e numa frase revela o segredo da saga.

    Não sei quantas pessoas cabiam naquele velho e grandioso cinema que guardava o glamour da sétima arte: tapetes vermelhos, dois andares, escada em caracol, tela de 70 mm. Quando a câmara deu close em Darth Vader e a voz impiedosa de James Earl Jones invadiu o cinema, nada mais se ouviu. Nem um som, nem um suspiro. O fascínio da revelação se traduziu em completo silêncio.

    A vingança dos Sith encerra uma história de seis filmes. História que perdeu muito da magia e ganhou efeitos visuais espetaculares, que trocou o glamour por uma franquia milionária, a marca Star warsA vingança dos Sith invadiu metade dos cinemas no mundo inteiro, domina jornais, revistas, programas de TV e a sempre inquietante Internet, que acabou com a sensação de ser surpreendido por uma frase tão banal quanto “Eu sou seu pai”.

    Mas dentro do cinema, quando a máscara de Darth Vader tomou conta da tela, o silêncio era o mesmo de 1980.

  • As duas faces da felicidade

    François e Thereze estão em um bosque com seus dois filhos pequenos. Momento de idílio na vida do casal feliz, a esplendorosa fotografia evidenciando a beleza do campo, dos personagens em sua juventude feliz. Em viagem ao interior a trabalho, François se apaixona por Emilie e passa a viver em duplicidade, declarando amor incondicional às duas mulheres.

    Agnès Varda compõe um filme esteticamente fascinante, com a fotografia elevando o tom de felicidade que se anuncia para os integrantes do triângulo amoroso. O estilo nouvelle-vague está presente em cortes abruptos, cenas quase subliminares inseridas entre os acontecimentos. A virada da trama determina o olhar crítico da cineasta à sociedade que privilegia o bem-estar do homem.  

    As duas faces da felicidade (Le bonheur, França, 1964), de Agnès Varda. Com Jean-Claude Drouot (François), Marie-France Boyer (Emilie), Claire Drouot (Thereze).

  • Torquato Neto – Todas as horas do fim 

    Natural de Teresina/Piauí, Torquato Neto (1944/1972) foi dos mais ativos e precoces integrantes do grupo cultural que inovou a música, as letras e o cinema entre os anos 60 e início da década de 70. Poeta, letrista, ator, cineasta, cronista cultural, Torquato transitou pela arte com intensidade trágica. 

    Os diretores do documentário se debruçam sobre a breve vida do artista (Torquato se matou aos 28 anos de idade) com sensibilidade. A narrativa usa poemas e textos do autor, lidos por Jesuíta Barbosa; fotografias de Torquato e cenas de suas participações em filmes de Ivan Cardoso; imagens de películas importantes do cinema novo e cinema marginal; depoimentos de artistas do calibre de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Augusto de Campos, Tom Zé, Jards Macalé, entre outros. Registros históricos apresentam Gal Costa e outros famosos interpretando belas canções compostas por Torquato Neto.  

    Torquato Neto – Todas as horas do fim é poesia do início ao fim. Poesia nas letras das canções, nas cartas, nas fotos do belo Torquato, nas imagens dos filmes, nos textos. Documentário para ouvir, ver e rever. 

    Torquato Neto – Todas as horas do fim (Brasil, 2018), de Eduardo Ades e Marcus Fernando.

  • As viúvas

    Quatro assaltantes, liderados por Harry (Liam Neeson), executam assalto, são perseguidos pela polícia e executados durante tiroteio em uma garagem. O dinheiro era destinado a um político que lidera a máfia em Chicago. O político ameaça Verônica (Viola Davis), mulher de Harry, caso não consiga reaver o dinheiro. Verônica reúne as outras viúvas do assalto fracassado para arquitetar um novo golpe e devolver o dinheiro. 

    O filme é adaptado de série inglesa dos anos 80. A ação dá o tom da narrativa, com fortes papéis femininos e virada de roteiro que revela intrincados jogos de poder nos processos eleitorais. Viola Davis domina a película, marcada pela crítica social e política. 

    As viúvas (Widows, Inglaterra, 2018), de Steve McQueen. Com Viola Davis, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki, Colin Farrell, Liam Neeson.

  • Temporada

    Uma das marcas da estética neorrealista é a câmera centrada no cotidiano de personagens em atitudes comuns do dia-a-dia. Algo como deixar o espectador contemplar o vagar do dia. Temporada parte deste princípio, seguindo a rotina de Juliana e seus colegas de trabalho na periferia de Contagem. Ela trabalha no combate a endemias, batendo à porta das casas para revirar entulhos à cata de pragas. As lentes acompanham a monotonia dos atos, em outros momentos centra o foco na tentativa de Juliana interagir e se divertir do jeito que é permitido nestes recantos da cidade. Nada de mais acontece na vida de Juliana: ela espera a chegada do marido, tenta novos relacionamentos e, no fim, pratica um ato transgressor. 

    Temporada ganhou o Grande Prêmio do Festival de Brasília por conta de dois nomes promissores no cinema nacional: o diretor André Novais e a atriz Grace Passó.

    Temporada (Brasil, 2018), de André Novais Oliveira. Com Grace Passó, Russo APR, Rejane Faria, Hélio Ricardo. 

  • Guerra fria

    Zula chega a uma casa no interior da Polônia para participar de concurso de canto. A casa abriga uma espécie de conservatório mantido pelo governo comunista, cuja intenção é montar grupos para difundir a música polonesa tradicional, reforçando os valores patrióticos. O maestro e compositor Wictor é responsável pela seleção e ensaios dos candidatos. 

    Guerra fria tem espetacular fotografia em preto e branco, acentuando o tom dramático do país envolto nas questões políticas que negam a liberdade individual. Wictor e Zula se apaixonam e percorrem o país em apresentações musicais. Zula se torna cantora de sucesso, mas Wictor acalenta o sonho de fugir da Polônia e seguir sua carreira em Paris. A bela e melancólica trilha sonora pontua a história marcada pela tentativa de permanência do amor confrontado com as escolhas de Zula e Wictor. A tristeza recorrente da incapacidade de adaptação dos expatriados é outra forte presença na película que concorreu ao Oscar de filme estrangeiro.

    Guerra fria (Zimna Wojna, Polônia, 2018), de Pawel Pawlikowski. Com Joanna Kulig (Zula), Tomasz Kot (Wictor). 

  • Assunto de família

    O filme venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2018. Uma pobre família japonesa, formada pelos pais e filhos, vive de pequenos furtos em supermercados e lojas de conveniência. Osama treina o filho na arte de roubar e, após uma investida, encontram uma garotinha chorando na varanda de uma casa. A garota é levada para casa e adotada pelo casal que, ingenuamente ou não, reluta em aceitar que praticaram sequestro. 

    Assunto de família traz a tona a realidade de famílias que vivem à margem de sociedades desenvolvidas, desempregados que se viram no dia-a-dia, crianças que crescem nas ruas, pais que se entregam aos seus problemas de relacionamentos e negligenciam filhos pequenos. A virada de roteiro revela um segredo assustador envolvendo o casal Osama. O final, visto pelo olhar das crianças, é de uma tristeza que faz pensar sobre os caminhos da sociedade.  

    Assunto de família (Manbiki Kazoru, Japão, 2018), de Hirokazu Kore-Eda. Com Kirin Kiki, Lilly Franky, Sakura Andô, Sósuke Ikematsu.

  • Cafarnaum

    Cafarnaum é de verter lágrimas em diversas cenas. Começa com Zain, garoto de 12 anos, preso por esfaquear um homem. Flashbacks narram a saga do garoto, morador de uma favela de Beirute. Ele tem relação protetora com a irmã mais nova e se revolta quando ela é oferecida a um comerciante para casamento. Ele foge de casa, empreende jornada miserável pelas ruas da cidade até ser abrigado por uma refugiada da Etiópia. 

    A câmera realista acompanha a luta de Zain por sobrevivência em meio ao caos da capital libanesa. A humanidade e coragem do garoto são motivadores, como a dizer que resta sempre esperança na miséria; que é preciso combater com toda vontade a crueldade dos adultos que exploram até a morte homens, mulheres e crianças. 

    Cafarnaum (Capharnaum, Líbano, 2018), de Nadine Labaki. Com Zain Al Raffea, Yordanos Shiferaw.

  • Podres de ricos

    O filme explora as tradicionais esquetes da comédia romântica: coloca casal apaixonado em rota de colisão com as convenções de distinção de classes. Nick Young mora nos Estados Unidos e pertence a uma das famílias mais ricas de Singapura. Sua namorada é a professora de Economia Rachel Chu. A mãe, imigrante, a criou sozinha, lutando para dar educação à filha. 

    Os namorados viajam para Singapura para a festa de casamento de um amigo de Nick. Rachel é apresentado aos milionários parentes e de imediato tem de enfrentar a resistência de Eleanor Young, mão de Nick. 

    Podres de ricos foi dos maiores sucessos de bilheteria no verão americano de 2018. A narrativa é recheado de sequências glamourosas ambientadas na extravagante cidade asiática. A arquitetura suntuosa de Singapura e o mar paradisíaco servem de cenário para engraçadas e a velha e boa trama de encontros e desencontros entre dois jovens apaixonados.  

    Podres de ricos (Crazy rich asians, EUA, 2018), de Jon M. Chu. Com Henry Golding (Nick Young), Constance Wu (Rachel Chu), Michelle Yeoh (Eleanor Yong).

  • Capitã Marvel

    Anos 90. Carol Danvers, guerreira Kree, participa heroicamente de batalha com os guerreiros de planeta vizinho. Nos sonhos, é assombrada por um possível passado na Terra como piloto de caças. Após a batalha, Carol volta à Terra, encontra o jovem Nick Fury e pessoas do seu passado. A jornada coloca Carol e Nick frente a frente com os Skrulls, alienígenas que podem assumir qualquer aparência. A virada de roteiro define quem são os verdadeiros inimigos da Capitã Marvel e dos habitantes da Terra. 

    A saga épica de Os Vingadores dá o tom da narrativa, com apresentações da origem da personagem até ela vestir a famosa roupa e se transformar na super heroína. O destaque do filme são, claro, as batalhas engrandecidas pelos efeitos digitais e o impressionante rejuvenescimento digital do ator Samuel L. Jackson. 

    Capitã Marvel (EUA, 2019), de Anna Boden e Ryan Fleck. Com Brie Larson (Capitã Marvel), Samuel L. Jackson (Nick Fury)

  • Redator x diretor: combate sem tréguas

    A denominação é expressiva: diretor de cinema. Quando o redator entra em reunião de pré-produção para discutir o roteiro do comercial, que em alguns casos mais parece uma sinopse, espera várias coisas do diretor de cinema: definição de planos e movimentos de câmera, soluções criativas de edição, boa direção de atores, determinar o tempo exato de cada cena para a história ser contada em tempo curtíssimo, criar os efeitos sonoros que o redator não consegue explicar direito no roteiro. Mas o diretor sempre tem ideias a acrescentar ao roteiro.

    As ideias podem ser bem-vindas e ajudar cenas que ficaram mal-resolvidas ou podem, no final das contas, transformar o comercial em um filme do diretor. Na propaganda brasileira, há uma história emblemática que ilustra essa difícil relação entre criação e diretor de cinema. Relação muitas vezes alimentada por egos.

    Em 1988, a W/GGK (a W/Brasil de Washington Olivetto) criou e produziu o famoso e premiado filme “Hitler” para a Folha de S. Paulo. Em linhas gerais, o roteiro original de Nizan Guanaes descrevia:

    “Uma mão invisível iria riscando os primeiros traços numa tela de vidro. O espectador não veria a mão, só o que ela desenhava. A um dado momento perceberia no desenho um rosto de homem, ainda não identificável. À medida que os traços ganhassem forma, uma voz em off diria frases como ‘este homem salvou seu país, deu emprego para milhões de seus compatriotas’, num rol de virtudes que só se encerraria quando o espectador percebesse de quem era o rosto do desenho: Adolf Hitler.”

    Gabriel Zellmeister, diretor de criação da agência, não gostou muito da mão invisível e pediu outra solução ao diretor do filme, Andrés Bukowinski. O diretor propôs trocar a mão invisível por outro recurso:

    “À medida que a locução avançasse, a câmera iria recuando vagarosamente e permitindo que o espectador percebesse que se tratasse de uma retícula, o minúsculo pontilhado de que se compõe uma foto de jornal. O recuo da câmera seria articulado com a leitura do texto, para coincidir o fim das ‘realizações’ com a identificação do rosto de Hitler.”

    Esta história está no livro sobre a W/Brasil, Na toca dos leões, escrito por Fernando Morais. Segundo o autor, “Nizan esperneou, disse que não, que a ideia original era dele e tinha que ser respeitada. Para ele, o papel de Bukowinski era dirigir um roteiro que estava pronto, e não criar outro. Foi preciso que Washington e Gabriel interviessem – para desolação de Nizan, a favor da versão de Bukowinski.”

    O filme demonstra que prevaleceu a ideia do diretor: um pequeno ponto preto aparece na TV, à medida que a câmera se afasta aparecem centenas de outros pontos pretos até formarem a imagem da fotografia de Hitler. Uma fotografia de jornal. Enquanto a câmera recua, o espectador ouve o famoso texto de Nizan Guanaes: “este homem pegou uma nação destruída. Recuperou sua economia e devolveu o orgulho ao seu povo…”

    A polêmica mostra que existem filosofias de trabalhos distintas entre profissionais de criação para escrever roteiros. Alguns redatores dão mais liberdade ao diretor de cinema para improvisar em cima do roteiro. Outros não. Quando montou sua própria agência, a DM9, Nizan Guanaes difundiu entre seus redatores: os roteiros devem conter todos os planos, movimentos de câmera, soluções visuais, devem ser decupados, cada cena contada em detalhes. O diretor não pode interferir no roteiro. Deve simplesmente filmá-lo.

    A maioria das agências de propaganda prefere trabalhar com roteiro simplificado, no qual se conta basicamente a história. Nesse caso, o diretor tem participação mais efetiva, pois é responsável pela escolha da linguagem de cinema.

    Posições diferentes, métodos de trabalho diferentes que levam criativos ao dilema quando se deparam com novas ideias em cima de seu roteiro: até que ponto o diretor pode interferir?

    Referência: Na toca dos leões. Fernando Morais. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2005

  • Os filmes do meu pai

    Lembro-me de minha mãe perguntando quando eu era criança, “quando você crescer, vai ser o que?” Eu respondia seco e direto, “escritor”. A mãe sorria. Lembro-me de meu pai perguntando, “o que você mais gosta de fazer?” Meus pensamentos conflitavam durante alguns segundos antes da resposta, “futebol e cinema”. O pai sorria.

    Quem acompanha com paciência esse blog intermitente percebe que aqui se juntou escrever com cinema. Escrever sobre cinema acabou se tornando um reencontro. Um reencontro com domingos de manhã, quando o pai me deixava na porta do Cine Progresso para uma sessão da Disney. Um reencontro com noites de sábado quando, já adulto e casado, eu passava na casa do pai e nossas conversas terminavam no cinema – geralmente depois de esgotar todos os comentários sobre o Atlético.

    – Pai, esse final de semana assisti a Viva Zapata!

    – Com Marlon Brando e Anthony Quinn.

    – E o diretor?

    – Elia Kazan. – respondia o pai, sorriso no rosto, orgulho de cinéfilo que lembra nomes de atores, atrizes, diretores, filmes com a exatidão de uma prece.

    Meu pai falava do Cine Brasil como um templo. Os fiéis de terno e gravata enfileirados na porta, esperando para ver deuses como Ava Gardner, Ingrid Bergman, James Stewart, John Wayne, Greta Garbo, Burt Lancaster, Humphrey Bogart, Marlon Brando, Montgomery Clift, Sofia Loren ….

    Meu pai amava Os brutos também amam e Casablanca. Meu pai amava o Atlético Mineiro. Meu pai nadava com a elegância de Johnny Weissmuller. Meu pai era um homem quieto e silencioso. Meu pai foi confundido há muitos e muitos anos com um ator de cinema americano, pois estava de chapéu e capote debaixo de uma marquise numa noite de chuva e foi assim que minha mãe se apaixonou. Meu pai sentava-se a meu lado todas as noites de segunda-feira na distante década de 70 para ver Jornada nas Estrelas. Meu pai amava filmes de faroeste, John Ford e Alfred Hitchcock. Meu pai adorava Frank Sinatra, Elvis Presley e Nat King Cole.

    Escrevo sobre meu pai agora no passado. Mas sei que tudo dele está em mim. Daqui a alguns dias, quando a dor se acomodar em algum lugar do coração, vou voltar a assistir os filmes que tanto amávamos. E com saudade vou sentir vontade de dizer.

    – Pai, vi Johnny Guitar. Com Joan Crawford, Sterling Hayden e Mercedes McCambridge. O diretor é Nicholas Ray.

  • Colette

    Keira Knightley encarna a escritora Colette que revolucionou a literatura erótica no final do século XX a partir da publicação do livro Claudine na escola. No entanto, o livro é assinado pelo marido, Willy, famoso editor da época. Com o sucesso do livro, Willy força Colette a escrever série baseada nas aventuras sexuais de Claudine. O estilo de vida do casal combina com as narrativas, os dois enveredam por jogos sexuais com diversos parceiros. 

    O filme aborda um problema comum nas conservadores sociedades da época: mulheres que abdicam da autoria de obras artísticas para viverem à sombra dos maridos. A libertação de Colette acontece enquanto ela se reconhece nas aventuras amorosas até que se apaixona por uma jovem que assume identidade masculina na aristocrática elite francesa. 

    Colette (Inglaterra, 2018), de Wash Westmoreland. Com Keira Knightley, Dominic West, Eleanor Tomlinson, Denise Gouch.