• Imagem e palavra

    Imagem e palavra (Le livre d’imagem, França, 2018) estreou no Festival de Cannes e foi o propulsor para uma Palma de Ouro Especial, premiando a carreira de Jean-Luc Godard. O filme é uma colagem audiovisual, misturando trechos de filmes, programas de TV, reportagens jornalísticas e as famosas inserções de textos literários, citações filosóficas e comentários políticos que permeiam a obra do célebre diretor da nouvelle-vague francesa. 

    Godard classificou a película como “a história dos últimos cem anos”, dividindo a narrativa fragmentada em cinco partes. “Em Imagem e Palavra, Godard traça este cruzamento entre palavras, hoje multiplicadas, e, ao mesmo tempo, ausentes na fala. Dedica-se a refletir sobre as exaltações de nosso tempo em seis fôlegos – na realidade cinco segmentos ensaísticos, claramente indicados, e mais uma ficção final. Em declarações sobre a obra e no filme, Godard nos diz que os cinco segmentos equivalem aos cinco dedos da mão. Sua voz explica, logo na abertura, que ‘a verdadeira condição do homem é de pensar com suas mãos’, em citação tirada de Denis de Rougemont: ‘Existem os cinco dedos, os cinco sentidos, as cinco partes do mundo, sim, os cinco dedos da fada. Mas todos juntos, eles compõem a mão e a verdadeira condição do homem é pensar com suas mãos’.” –  Fernão Pessoa Ramos

  • Adeus à linguagem

    Adeus à linguagem (Adieu au langage, França, 2014), de Jean-Luc Godard.

    Godard foi mais uma vez reverenciado no Festival de Cannes com sua ousada incursão pelo cinema em terceira dimensão, mantendo sua tradicional experimentação narrativa e estética. A trama fragmentada acompanha de forma descontinuada a separação de um casal, que encontra um cachorro de rua, em espécie de recortes das memórias, entremeados por referências à literatura, cinema e filosofia.

    “Trata-se de um filme raro justamente por entrelaçar o engajamento cultural (o reconhecimento de uma certa linguagem) a uma experiência extraordinariamente física de sua existência. Vê-lo e ouvi-lo em condições ideais – projetado em 3D numa sala de cinema equipada com som surround cristalino o suficiente para preservar toda a expressividade das saturações – é abrir-se a uma relação que mexe diretamente com o corpo e com a percepção, efetivando-se tanto na atração quanto na opacidade. Não à toa, as câmeras usadas na filmagem e seus respectivos frame rates aparecem nos créditos finais junto a outros célebres citado, como Arnold Schoenberg e Samuel Beckett: a força de Adeus à linguagem reside na percepção de que o cinema se dá tanto na profundidade do que se mostra quanto na superfície do que é mostrado. Novamente, matéria e linguagem. ‘Em vez de sentirmos com os personagens, sentimos com o filme’, escreveu David Bordwell em sua meticulosa análise da obra, e esse sentimento se dá tanto pela engajamento intelectual (um filme de entretenimento, no sentido literal do termo, pois mantém o cérebro permanentemente empenhado com suas conexões) quanto pela explosão sensorial que provoca, produz e coloca em crise em sua própria pele.. Daí a saturação, que por vezes torna tanto a imagem quanto o som, reforçando o parentesco do cinema com a pintura, mas também com a arte sonora.” – Fábio Andrade.  

    Referência: Godard inteiro ou o mundo em pedaços. Eugênio Puppo e Mateus Araújo (organização). Catálogo produzido pela Fundação Clóvis Salgado para a retrospectiva Jean-Luc Godard, exibida na Sala Humberto Mauro.

  • Ficção americana

    Thelonious “Monk” Ellison (Jeffrey Wright) é professor universitário e autor de livros desprezados pela crítica e pelo público. Após uma crise no trabalho, ele vai visitar a família em Boston e se vê obrigado a cuidar da mãe que sofre de Alzheimer. Frequentando circuitos literários ele se defronta com autores que considera sem talento algum, mas cujos livros viram best-sellers por retratar a cruel vida dos afrodescendentes nos EUA, explorando o melodrama e a violência. 

    Ficção americana foi indicado ao Oscar de Melhor Filme e conquistou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado . A virada de roteiro promove uma forte crítica à indústria editorial americana e à sociedade que se deleita com histórias regadas a violência. Monk escreve um livro sensacionalista, com o pseudônimo de Stagg R. Leigh, uma espécie de piada, segundo ele mesmo, que nunca seria levada a sério. No entanto, o livro é comprado por uma editora e dispara na lista dos mais vendidos. 

    O intrigante final eleva a crítica também ao modelo comercial do cinema de Hollywood, colocando em discussão um tema comum no universo editorial e cinematográfico: a luta pela autoria, o conflito entre sucesso comercial e integridade artística. Com leveza e bom humor, Ficção americana é uma surpresa no cinema independente. 

    Ficção americana (American fiction, EUA, 2023), de Cord Jefferson. Com Jeffrey Wright, Tracee Ellis Ross, John Ortiz, Erika Alexander, Leslie Uggams, Sterling K. Brown. 

  • Ondas do destino

    Ondas do destino (Dinamarca, 1996), de Lars von Trier.

    Bess (Emily Watson) vive em uma pequena comunidade litorânea da Escócia, cuja sociedade segue preceitos religiosos rígidos e ortodoxos. Bess desperta de sua ingenuidade e inocência quando conhece Jan (Stellan Skarsgard), trabalhador de uma plataforma de petróleo no oceano. A paixão entre os dois encaminha um rápido casamento. No entanto, um acidente muda o destino dos protagonistas e Bess é motivada a uma espécie de jornada em busca de uma fé salvadora. 

    Ondas do destino faz parte do movimento Dogma 95, fundado por Lars von Trier e Peter Vinterberg. A abordagem realista é intensificada por um estilo visual quase documental, uso de câmera na mão e iluminação natural. A narrativa é dividida em sete capítulos, cada um introduzido por uma vinheta de canções dos anos 70. A relação entre Bess e Jan é o ponto forte da trama, movida a intensas relações sexuais, seja fisicamente ou completamente na imaginação. 

    Ondas do destino foi indicado a diversos prêmios, incluindo o Oscar de Melhor Atriz para Emily Watson. É um filme perturbador, com uma virada de roteiro final que provoca as crenças religiosas. 

  • Os idiotas

    Os idiotas (Dinamarca, 1998), de Lars von Trier.

    Em 1995, os cineastas dinamarqueses Lars von Trier e Thomas Vinterberg criaram o Dogma 95 através de um manifesto. O movimento surgiu como uma represália às tecnologias digitais que já dominavam parte da cinematografia dominante. O manifesto defendia um cinema puro, sem interferências da pós-produção.

    As principais regras do Dogma 95: filmagens em locação, uso de som direto, câmera na mão, somente filmes coloridos, proibição de truques ópticos e filtros, nenhuma ação superficial (assassinatos e usos de armas), a narrativa deve se passar no tempo presente – sem saltos temporais ou espaciais, filmes de gênero não são aceitáveis, o diretor não pode ser creditado e o formato utilizado deve ser 35 mm. Os dois filmes mais famosos do movimento, que durou cerca de 10 anos, são Festa de Família (1998), de Thomas Vinterberg e Os idiotas (1998), de Lars von Trier. 

    O diretor dinamarquês concebeu Os idiotas como parte da trilogia Golden Heart, composta também por Ondas do destino (1996) e Dançando no escuro (2000).  A trama é banal e provocativa: um grupo de jovens adultos formam uma comunidade que se dedica a uma prática chamada de “espalhamento”. Os jovens fingem ser deficientes mentais e provocam ações em lugares públicos que chegam ao limite da repulsa. O objetivo é desafiar as normas sociais, impondo a liberdade pessoal.  

    O filme foi recebido cercado de polêmicas que variavam entre os elogios pelas inovações técnicas narrativas e as críticas pelo uso apelativo de situações constrangedoras. Atenção para a sequência na casa de Karen (Bodil Jørgensen), durante um almoço em família, quando ela é desafiada a se portar como uma demente.

  • Elemento de um crime

    Elemento de um crime (The Element of Crime, Dinamarca, 1984), de Lars von Trier. 

    O primeiro filme de Lars von Trier apresenta uma Europa distópica, filmada em tons sépia queimados, evocando a temática do filme: fragmentos de memória que se confundem na mente do ex-policial Fisher (Michael Elphick) durante a investigação de uma série de crimes, cometidos por um serial killer que executa meninas que vendem bilhetes de loteria. 

    O estilo e fotografia noir do filme remetem ao clássico Blade Runner, um dos precursores do estilo neo-noir presente em vários filmes policiais e de ficção contemporâneos. Para investigar os crimes, Fisher se baseia nos métodos de seu mentor Osborne (Esmond Knight), publicados no livro Elementos de um crime.

    Durante o desenrolar da trama o espectador se perde nos meandros das mentes perturbadas dos três protagonistas que estão em uma espécie de disputa: Osborne, Kramer (Jerold Wells), o policial chefe da cidade, e Fisher. A Europa decadente, esfacelada, tomada por uma chuva intermitente é o cenário para criminosos sem escrúpulos.

  • Epidemia

    Renomados cineastas mais cedo ou mais tarde realizam filmes reflexivos sobre o processo de fazer cinema. Em Epidemia (Epdemic, Dinamarca, 1987) o diretor Lars von Trier interpreta Lars que, junto com Niels (|Niels Versel) escrevem um roteiro sobre uma possível epidemia. O roteiro deve ser terminado em cinco dias. Durante este tempo, os roteiristas percorrem possíveis locações e se defrontam com uma verdadeira epidemia que começa a assolar a Europa.

    Lars von Trier compôs a trilogia Europa, formada por Elementos de um crime (1984), Epidemia (1987) e Europa (1991). Nas três obras, destacam-se o olhar depressivo e amargurado diante de uma Europa devastada pela atividade cruel do próprio homem, provocando guerras, epidemias, condições climáticas adversas, contribuindo cada vez mais para uma sociedade injusta, desequilibrada em questões sociais, econômicas, políticas, cujos habitantes sofrem com as constantes crises psicológicas, de identidade, perdidos em países que parecem não mais existir. 

    A narrativa de Epidemia segue o tradicional estilo da metalinguagem, com ficção e realidade se alternando através de uma narrativa fragmentada, não-linear. A experiência dentro do cinema provoca a mistura de documentário e ficção, grande reflexão sobre a arte associada ao real. 

  • O grande chefe

    O grande chefe (Direktøren for det hele, Dinamarca, 2006), de Lars Von Trier. 

    Lars von Trier propõe uma narrativa leve e descontraída, sem o peso estético e dramático de seus principais filmes, em uma comédia que destila críticas ao neoliberalismo empresarial. Ravn (Peter Gantzler) é o fundador e chefe de uma empresa de TI, especializada em jogos digitais, que se esconde dos seis funcionários que tem, todos com participação na empresa. Ninguém sabe que Ravn é o chefe, para todos, ele é o braço direito do verdadeiro dono, que nunca deu as caras. Decidido a negociar a empresa, Ravn contrata o ator Kristoffer (Jens Albinus) para assumir as transações. 

    A trama apresenta uma comédia de mal-entendidos que caminha para o trágico: se a empresa for vendida, todos ficam sem seus empregos. As relações profissionais e pessoais tomam rumos imprevisíveis e o ator começa a gostar da situação, acreditando que está desempenhando o grande papel da sua vida.  

    O polêmico diretor dinamarques usou nas filmagens a inovadora técnica Automavision: através de uma ferramenta, a câmera escolhe aleatoriamente os enquadramentos, motivando a imprevisibilidade e consequente improvisação dos atores. Jens Albinus, um dos protagonistas do subversivo Os idiotas (1998) surpreende com sua atuação caricatural, protagonizando o grande momento do final do filme, quando pretensamente sua arte é reconhecida.

  • O diário de uma camareira

    O diário de uma camareira (França, 1964), de Luis Bunuel.

    Céléstine (Jeanne Moreau) chega ao campo para trabalhar como camareira da rica, porém decadente, família Monteil.  Ela ganha a confiança do patriarca da família, velho mulherengo com fetiche por botas, é assediada pelo filho e se envolve com Joseph (Georges Géret), o jardineiro da propriedade. Joseph vai ser o principal suspeito do estupro, seguido de assassinato de uma criança da região. 

    A virada acontece quando Célestine decide investigar o crime e se envolve de forma sedutora, usando sua sofisticação e beleza para se aproveitar da família cheia de “podres” para quem trabalha. O final é revelador do imenso desprezo que Luis Buñuel tratou a burguesia em grande parte de sua obra. 

    O diretor espanhol, contando com a colaboração do consagrado roteirista Jean-Claude Carriere, tentou ser fiel ao livro homônimo de Octave Mirbeau. O tema, a decadência da burguesia e os conflitos de classe, é um dos favoritos de Buñuel. Destaque para a fascinante atuação de Jeanne Moreau cuja transformação é trabalhada com sutileza, deixando à mostra uma ambição que se constrói à medida que ela conhece, e não julga, o deplorável estilo de vida da família Monteil. 

  • Simão do deserto

    Simão do deserto (Simón del desierto, México, 1965) faria parte de um filme conjunto entre Luis Bunuel e outros cineastas. No entanto, só o diretor espanhol filmou sua parte, colocando o filme na categoria de curta ou média-metragem, com cerca de 45 minutos de duração. 

    Simão (Claudio Brook) é um fanático religioso que vive no topo de uma coluna no deserto e é adorado pelos habitantes da região (os representantes legais constroem, inclusive, uma coluna muito mais alta para abrigá-lo). Em alguns de seus intermináveis dias na coluna, Simão é assediado pelo próprio Diabo, interpretado por Silvia Pinal em diversas caracterizações. 

    A ousadia surrealista de Luis Buñuel confronta os valores religiosos, desnudando a hipocrisia que permeia as atitudes da igreja. Filmado em uma única locação, a coluna e seus arredores áridos, os pontos fortes da película são a relação entre Simão e o Diabo, que assume diferentes formas, entre elas uma jovem mulher que destila erotismo e uma sedutora adolescente.  

  • Terra sem pão

    Terra sem pão (Las Hurdes, Espanha, 1933) foi o terceiro filme de Luis Buñuel, um curta-metragem documental que retrata a vida miserável dos habitantes de Las Hurdes, aldeia localizada no norte da Espanha. Assim como outros documentários, como o clássico Nanook – O esquimó (1922), o diretor espanhol encenou, com a colaboração dos habitantes, grande parte das situações retratadas.

    O fato triste e totalmente reprovável dessa estratégia é que a equipe de filmagem provocou as mortes de dois animais – um burro foi lambuzado de mel para que as abelhas o picassem até a morte e um bode foi jogado de um penhasco. As cenas estão no filme. 

    O curta é uma experiência terrível de se assistir pois retrata a miséria total de homens, mulheres e crianças, muitos com doenças mentais devido à desnutrição (Buñuel filma essas crianças). Mesmo encenado, o retrato é verdadeiro, o documentário foi baseado no estudo etnográfico Las Hurdes: Étude de Géographie Humaine (1927), de Maurice Legendre. Terra sem pão foi banido da Espanha fascista e praticamente não foi exibido no resto do mundo, seguindo a sina do filme anterior de Luis Buñuel, A idade do ouro (1931), que também foi censurado. 

  • Playback

    Agustina Comedi monta Playback (Argentina, 2019) com imagens de arquivo, registros pessoais, entrevistas, para documentar a trajetória de um grupo de travestis e transformistas que atuaram na noite de Córdoba, entre 1980 e 1990. La Delpi funciona como um elo de ligação, pois é a única sobrevivente do grupo, muitos vitimados pela AIDS. 

    O documentário é um potente registro da Argentina ainda marcada pela repressora e violenta ditadura militar. A noite underground e queer de Córdoba reserva momentos alegres, rebeldes, uma intensa luta pela liberdade rodeada pelo terror imposto pela conservadora sociedade e pela epidemia da AIDS.

    A narrativa fragmentada, não-linear, ajuda o espectador a transitar pelas memórias das personagens, recheadas de sensibilidade, afeto e fraternidade. Playback é um curta-metragem sensível sobre um momento ao mesmo tempo vibrante e trágico da sociedade argentina.  

  • Amores na cidade

    A ideia partiu de Cesare Zavattini, grande roteirista do neorrealismo italiano: seis importantes diretores foram convidados a contar uma história relacionada a relacionamentos amorosos, passadas em Roma, seguindo o estilo do movimento. As tramas de Amores na cidade (L’amore in città, Itália, 1953) exploram temas diversos, por vezes trágicos, como a prostituição nas ruas da cidade (Antonioni), mulheres que recorreram à tentativa de suicídio devido a desiluções amorosas (Cesare Zavattini); os desafios de uma mãe solteira na conservadora sociedade italiana (Francesco Maselli). 

    Fellini recorre ao bom humor para contar uma triste história, centrada em um jornalista que faz uma reportagem investigativa em uma agência de casamentos. Dino Risi dirige o episódio mais leve e bem humorado: em um salão de baile, jovens tentam encontrar parceiros e parceiras, um retrato vibrante da noite romana que geralmente termina em desilusões. Alberto Lattuada segue um estilo documental, recheado de situações bem-humoradas ao mostrar uma sucessão de tentativas de homens de abordar belas mulheres nas ruas de Roma. 

    Amores na cidade (L’amore in città, Itália, 1953), de MIchelangelo Antonioni, Federico Fellini, Alberto Lattuada, Dino Risi, Cesare Zavattini,  Francesco Maselli.

  • Sobre café e cigarros

    O consagrado diretor indie Jim Jarmusch filmou Sobre café e cigarros (Coffee and Cigarettes, EUA, 2003) ao longo de 15 anos. A série de 11 curtas-metragens independentes tem como coesão narrativa o simples acaso: encontros de artistas diversos, incluindo atores, músicos, rappers, em locais minimalistas, as conversas são acompanhadas por café e cigarros. 

    Os temas refletem muito da sociedade, das relações pessoais, compostos por diálogos bem humorados, reflexivos, tensos, mas sempre com o tom despretensioso de quem acaba de se encontrar para um bom bate papo regado a café e cigarros. Os destaques ficam por conta da participação engraçada de Bill Murray como um garçom que é reconhecido pela dupla de rappers RZA e GZA; do papel duplo desempenhado por Cate Blanchett, conversando com ela mesma; da conversa nonsense entre Roberto Benigni e Steven Wright. A fotografia em preto e branco, outra marca de Jim Jarmusch, é deslumbrante, reforça o tom minimalista.   

  • Sinais de identificação: nenhum

    Sinais de identificação: nenhum (Identification marks: none, Polônia, 1965), de Jerzy Skolimowski.

    O filme de estreia do diretor polonês Jerzy Skolimowski é exemplar como referência ao novo cinema dos anos 60 que dominou a cinematografia mundial, na Polônia, conhecido como Nova Onda Polonesa. Andrzej (interpretado pelo próprio Skolimowski) é um estudante em crise que vaga durante um dia (tempo da narrativa) pela cidade. Nesse curto espaço de tempo, ele termina seu relacionamento com a namorada, desiste dos estudos, decide entrar para o exército e encontra uma mulher que considera ser o amor de sua vida. 

    A narrativa segue o formato não-linear, fragmentado, filmado com uso de câmera portátil, inovando no aspecto intimista. A fragmentação e a montagem repercutem o momento confuso e ansioso pelo qual o protagonista passa nesse dia. Sinais de identificação…  lançou o diretor polonês como um nome promissor no mercado internacional, promessa que se concretizou com seus aclamados filmes posteriores. 

  • Stereo

    Stereo (Canadá, 1969), de David Cronenberg.

    Em um futuro indefinido, sete voluntários passam por procedimentos cirúrgicos que eliminam a capacidade da fala, mas incentivam a comunicação telepática. A trama acontece na Academia Canadense para Investigação Erótica, com cenário minimalista e fotografia em preto e branco. A Academia determina um dos temas favoritos de David Cronenberg: mutações do corpo humano que afloram a sexualidade. 

    A história praticamente não tem diálogos, ouvem-se apenas fragmentos de narrações em off, como se fossem extraídos da mente dos jovens durante suas experimentações. O estilo documental é outra marca do filme e funciona como uma espécie de imersão visual e psicológica nos procedimentos, nos experimentos, nas viagens surrealistas de David Cronenberg. 

  • Tempo de amar

    Tempo de amar (Sevmek Zamani, Turquia, 1965), de Metin Erksan.

    O pintor de paredes Halil (Musfik Kenter) trabalha em casas luxuosas Nas Ilhas dos Príncipes, próximo a Istambul. Durante um trabalho, ele se defronta com o retrato de uma bela mulher. A partir daí, todos os dias, ele invade a mansão e fica sentado durante horas diante do retrato. Até que Meral (Sema Ozcan), a mulher do quadro, chega para uma temporada na casa e o surpreende. O clima bucólico e chuvoso da ilha parece atingir diretamente o pintor, que se sente muito mais atraído pelo amor idealizado do retrato do que pela própria Meral. 

    Tempo de amar passou despercebido pela crítica da época, talvez por não se enquadrar no inovador cinema dos anos 60 que corria mundo. A história de amor entre Halil e Meral segue o tradicional conflito de classes, mas transcende o melodrama pela abordagem poética, recheada de simbolismos. A obra de Metin Erksan é aclamada hoje como uma das joias raras do cinema turco, reverenciado pelo seu estilo visual triste e encantador.

  • Casamento ou luxo

    Charles Chaplin busca uma espécie de alternativa em sua carreira ao dirigir Casamento ou luxo (1923), um drama ambientado em Paris. O diretor tomou o cuidado de alertar o público, inserindo uma cartela nos créditos: “Para evitar qualquer mal-entendido, gostaria de precisar que não apareço neste filme.”

    A trama acompanha Marie, jovem da província enamorada de um pobre artista. O acaso impede que os dois embarquem para Paris. Sozinha na cidade, Marie se torna amante de um playboy rico, bem ao estilo de um bon vivant da aristocracia parisiense. 

    Com forte apelo melodramático, o filme foi um fracasso de público e crítica, deixando Chaplin ressentido. “Meu filme Casamento ou Luxo não teve sucesso na América porque o final não dava margem à esperança e, ainda, porque descrevia a vida tal como ela é. Ao público, ao contrário, agrada que o protagonista escape da morte inevitável, que a mulher volte finalmente para ele, para uma vida feliz. No entanto, Casamento ou Luxo é quase uma tragédia. A tragédia me agrada, e agrada porque sobre sua base há sempre qualquer coisa de belo. E, para mim, o belo é o que há de mais precioso na arte e na vida. É conveniente ocupar-se da comédia quando ali se encontra esse motivo de beleza, mas isso é tão raro.” – Charles Chaplin. 

    Casamento ou luxo (A woman of Paris, EUA, 1923), de Charles Chaplin. Com Edna Purviance (Marie St. Clair), Carl Miller (Jean Millet), Adolphe Menjou (Pierre Revel). 

    Referência: Coleção Folha Charles Chaplin. Casamento ou Luxo. Um filme dirigido por Charles Chaplin. Cássio Starling e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2012.

  • Europa

    O americano Leopold Kessler chega a Frankfurt logo após o término de Segunda Guerra para trabalhar como condutor de uma grande empresa ferroviária. A Zentropa está nos planos dos americanos para reconstruírem o sistema de transporte alemão. No entanto, os trens são atacados por um grupo de nazistas, conhecidos como Lobisomens. 

    Europa fecha a trilogia de Lars von Trier de tramas ambientadas no continente, os outros são Elemento de um crime (1984) e Epidemia (1987). Kessler é um jovem idealista que sonha em ajudar na reconstrução da Alemanha. Ele se envolve com a bela e sedutora Katharina, filha do dono da Zentropa, que o envolve num perigoso jogo entre os americanos e os simpatizantes nazistas. 

    A enigmática narração em off guia Kessler e, consequentemente, o espectador na trama. A narração é quase um transe hipnótico, misteriosa e envolvente.  A claustrofobia das cenas noturnas durante as viagens dos trens remetem a uma Europa sem rumo, reforçada pela exuberante fotografia em preto e branco, que em alguns momentos se mescla com cores (atenção para a montagem da sequência do casamento) claramente com referências do cinema noir. O filme conquistou três prêmios no Festival de Cannes, incluindo o Prêmio do Júri, e colocou Lars von Trier no foco internacional. 

    Europa (Dinamarca, 1991), de Lars von Trier. Com Jean-Marc Barr (Leopold Kessler), Barbara Sukowa (Katharina Hartmann), Udo Kier (Lawrence Hartmann), Jorgen Reenberg (Marx Hartmann).

  • Crimes do futuro (1970)

    Crimes do futuro (Crimes of the future, Canadá, 1970), de David Cronenberg. 

    A narrativa se passa em um futuro indefinido, distópico, como se determina em tantas obras de ficção contemporâneas. Adrian Tripod, narrador do filme, é um dermatologista que vive à sombra de seu mentor desaparecido, Antoine Rouge. Rouge ficou famoso por experimentos dermatológicos em mulheres, mas uma catástrofe química resultou na morte de todas as mulheres adultas. 

    Em questões narrativas e estéticas, a película é uma experimentação minimalista, com imagens fragmentadas e diálogos pontuais. Os ambientes claros, longos, vazios, provocam a imaginação do espectador, bem ao estllo do provocativo diretor canandense. 

    Com apenas 60 minutos de duração, Crimes do futuro antecipa muito da obra de Cronenberg, tratando de temas recorrentes em sua filmografia: a mutação física e repulsiva do corpo humano, associada às perversões sexuais. Basta citar Videodrome – A síndrome do vídeo (1983), A mosca (1986), Crash – Estranhos prazeres (1996) e a refilmagem Crimes do futuro (2022).