• De cierta manera

    De cierta manera (Cuba, 1977),  é o único filme da cubana Sara Gómez. Ela morreu durante a montagem do filme, aos 31 anos, vítima de uma crise de asma. A película, filmada em 1971, só foi lançada em 1977, após a participação na montagem de Gutiérrez Alea e Julio García Espinosa. 

    O início do filme, em narrativa invertida, transcorre durante um tribunal de trabalhadores que devem julgar um colega que se afastou do trabalho, supostamente para se encontrar com uma mulher. Essa sequência volta no final do filme. 

    Entre as sequências do tribunal, conhecemos Yolanda (Yolanda Cuéllar), uma professora idealista que se confronta com a miséria e as dificuldades de alunos “marginais” no Bairro de Miraflores, um dos mais pobres de Havana na época. Ela mantém um relacionamento com Mario (Mario Balmaseda), peça-chave do tribunal, um trabalhador que não encontra seu lugar nestes primeiros anos da revolução cubana. O sonho de Mario é tornar-se membro da sociedade abakua, organização religiosa influenciada pela maçonaria e pela religiosidade yorubá. Só homens podem fazer parte da sociedade, simbolizando o caráter machista de Mario que vai colidir com a politizada e libertária Yolanda.

    “O romance entre os dois é uma pequena metáfora da Cuba que se desmonta e precisa se reconstruir após a revolução. A todo tempo o caminhar da narrativa romântica do filme é interrompido pelos excertos documentais, que de início têm enfadonho caráter jornalístico, mas aos poucos vão se convertendo em digressões que dialogam e questionam a trama ficcional (e vice-versa). Uma das melhores sequências do filme, por exemplo, é a cena em que o casal discute enquanto caminha pela Calle 23, e encontra um amigo de Mario; o momento de tensão é interrompido por uma sequência que nos apresenta a peculiar história deste amigo.” – Beatriz Macruz – Site Mulher no cinema. 

  • Começo de primavera

    O jovem Shoji trabalha no escritório de uma grande empresa. Durante o horário de almoço, combina com os colegas uma caminhada pelo litoral em um domingo de verão. Durante a caminhada, ele e sua colega de trabalho Keiko, se afastam dos demais e começam uma relação mais íntima, convergindo para o romance, concretizado em uma ousada, para a época, sequência em uma pousada, quando os jovens estão conversando vestidos com roupões de banho. 

    Mais uma vez, as lentes de Ozu se voltam para a desestruturação familiar no Japão do pós-guerra. Shoji é casado, sua esposa se afasta à medida que percebe a traição. A vida cotidiana desses jovens assalariados, marcada pela monotonia tanto no trabalho como nas relações entre os casais, é retratada com a costumeira linguagem fria, sem melodrama, quase documental do mestre japonês. 

    Keiko é julgada e condenada por palavras pelo grupo de amigos, revelando a misoginia milenar da sociedade japonesa. Shoji, ao contrário, deve se acertar com sua mulher e deixar tudo para trás. É um triângulo amoroso complacente e resignado que deve aceitar o destino, melancólico, assim como o próprio Japão pós-guerra.  

    Começo de primavera (Soshun, Japão, 1956), de Yasujiro Ozu. Com Chikage Awashima (Masako Sugiyama), Ryô Ikebe (Shôji Sugiyama), Keiko Kishi (Chiyo Kaneko). 

  • Chocolate

    O primeiro filme da prestigiada Claire Denis é uma volta à infância, memórias da época em que viveu com seus pais em uma fazenda em Camarões. No início da película, a jovem Frances está caminhando por uma estrada litorânea. Um homem, acompanhado de seu pequeno filho, oferece carona a ela. Durante o trajeto, ela se depara com paisagens, moradores das cidades, as lembranças. 

    Em flashback, a narrativa retoma a infância da menina Frances na fazenda. Seu pai, Marc, vive ausente, pois é responsável pelo gerenciamento da região. Aimée, a mãe, vive reclusa em casa, entregue aos comandos da casa. O personagem motriz da trama é Protée, espécie de mordomo “faz tudo”, inclusive cuidar da menina, com quem desenvolve um relacionamento recíproco de ternura e compreensão.  

    A relação colônia/colonizador está expressa nesse pequeno contexto familiar e em situações mais amplas. A relação entre Aimée e Protée é marcada pelo imperativo da patroa branca e a submissão (aparente) do empregado negro. No entanto, o conflito se revela no erotismo sugerido entre os dois, em alguns momentos, quase concretizado. 

    Ao mesmo tempo em que lida com questões políticas complexas, como agradar um grupo preconceituoso de turistas e investidores endinheirados, Marc se vê diante do inevitável conflito posto pela sua família (também simbólico no contexto geral): ficar e caminhar para a ruptura ou partir e deixar a África para os africanos. 

    Chocolate (Chocolat, França, 1988), de Claire Denis. Com Isaach De Bankolé (Protée), Giulia Boschi (Aimée Dalens), François Cluzet (Marc Dalens), Mireille Perrier (France Dalens). 

  • Alice nas cidades

    O jornalista Philip Winter percorre o interior dos EUA tirando fotos com sua polaroid. Ele está pesquisando para uma reportagem sobre as paisagens e cidades do oeste americano, mas não consegue concluir a matéria. Após conversar com o editor, resolve retornar para a Alemanha. No aeroporto, ajuda a jovem mãe Lisa van Damm a comprar as passagens. Impedidos de voar naquele dia, os três dormem no mesmo quarto de hotel: Philip, Lisa e a menina Alice.  

    Em Alice nas cidades, Wim Wenders explora um dos temas recorrentes em sua cinematografia: o road-movie, marcado por personagens solitários que perambulam sem destino. Philip é surpreendido no aeroporto com uma mensagem da mãe de Alice, que resolve não embarcar, confiando a filha ao jornalista. A partir de Amsterdã, os dois empreendem uma viagem de trem, depois de carro, procurando a casa da avó de Alice.

    Wim Wenders costuma dizer que não entende como os espectadores assistem a seus filmes, onde praticamente nada acontece. É fácil de responder: basta se deixar levar pela beleza poética das imagens, muitas vezes acompanhadas de longos silêncios, outras demarcadas por uma trilha sonora que atinge o íntimo.

    A viagem de Alice e Philipp, o enternecedor relacionamento que se desenvolve à medida que se deparam com a paisagem, as ruas e lanchonetes das cidades; o silêncio entre os dois parece dizer ao espectador: não tente encontrar, apenas caminhe.   

    Alice nas cidades (Alice in the cities, Alemanha, 1974), de Wim Wenders. Com Rudiger Vogler (Philip Winter), Yella Rottland (Alice), Lisa Kreuzer (Lisa van Damm). 

  • Flor do equinócio

    Wataru Hirayama é um bem sucedido homem de negócios. Na abertura do filme, em uma cerimônia de casamento, faz um discurso libertário ao elogiar a decisão da noiva em se casar com o jovem que ama, renegando a tradição japonesa do casamento arranjado. Da mesma forma, incentiva sua sobrinha a fazer suas próprias escolhas, não aceitando as imposições da mãe que tenta a todo custo “arrumar” um marido para ela.

    No entanto, Hirayama se confronta consigo mesmo quando descobre que sua filha Setsuko está prestes a se casar com um jovem que ela própria escolheu. Hirayama não permite o casamento, revelando sua personalidade contraditória, algo como duas faces.

    É o filme mais feminista de Ozu. O patriarca é confrontado pelas três mulheres de sua casa: Setsuko exige que o pai a deixe fazer suas próprias escolhas, é apoiada pela irmã caçula e pela mãe, que com pacata resiliência tenta vencer a recusa do marido. Em uma narrativa paralela, a filha de um amigo de Hirayama foge de casa para morar com seu namorado, pianista de uma boate. 

    Flor do equinócio é mais uma bela leitura do tema sagrado do mestre Ozu: as relações familiares, determinadas pelas tradições milenares do país, em conflito com a nova sociedade do pós-guerra. Deixar o passado e saudar o novo está simbolizado na sensível cena de um grupo de patriarcas bebendo à mesa enquanto ouve com melancolia uma antiga canção entoada por um deles. 

    Flor do equinócio (Higanbana, Japão, 1958), de Yasujiro Ozu. Com Shin Saburi (Wataru Hirayama), Kinuyo Tanaka (Kyoko Hirayama), Ineko Arima (Setsuko Hirayama), Yoshiko Kuga (Fumiko Mikami).

  • Cão danado

    Em Cão danado, Kurosawa faz uma incursão pelo gênero policial, com referências ao cinema noir. Na abertura do filme, Murakami (Toshiro Mifune), jovem policial do departamento de homicídios, tem seu revólver roubado dentro de um ônibus lotado. Envergonhado, ele entrega seu distintivo ao chefe. O chefe recusa. Murakami então empreende uma busca desesperada pelo submundo de Tóquio em busca do revólver. 

    O tom noir é marcante, na fotografia em preto e branco, nas ruelas, becos, bares e prostíbulos que o policial passa a frequentar e, principalmente, na composição das personagens. Em sua busca obsessiva, Murakami se defronta com uma série de marginais do mercado negro, contrabandistas de armas no Japão do pós-guerra que vêem no crime a única alternativa de vida. O olhar de Murakami sobre esses marginais se torna cada vez mais e mais compassivo, mesmo quando vinga o atentado contra seu companheiro de investigação, o policial sente tristeza e resignação diante deste mundo sem esperanças. 

    Atenção para a longa sequência silenciosa do policial caminhando pelos bairros decrépitos do mercado negro, afundados no calor e na lama, apinhados de crianças, jovens, adultos e idosos que tentam sobreviver nas ruas. 

    Cão danado (Nora inu, Japão, 1949), de Akira Kurosawa. Com Toshiro Mifune, Takashi Shimura, Keiko Awaji.

  • Madadayo

    O último filme de Kurosawa pode ser visto como um olhar do diretor sobre a finitude de sua própria vida. Hyakken Uchida (Tatsuo Matsumura) é um professor que se aposenta no início da década de 40 para se dedicar à literatura. Ele aluga uma bela casa que logo é bombardeada, durante a segunda guerra mundial. Sem recursos, se muda para um casebre de um único ambiente, onde passa a viver com sua mulher. Seus ex-alunos o visitam com frequência, reverenciam o professor com paixão e entusiasmo. Anualmente, os ex-alunos promovem encontros, primeiro na casa do professor, depois em salões de festas, regados a bebidas, cantoria e dança. 

    Madadayo é um grito entoado pelo professor em cada encontro, cujo significado remete a “ainda não”, um manifesto contra a morte que se aproxima ano a ano. O filme entrelaça um tom de comédia e dramaticidade. O final sensível e terno, resgata a palavra Madadayo da infância do professor, quando a vida no Japão era um idílio de brincadeiras infantis, o contraste cruel com a velhice vivida durante e no pós-guerra. 

    Madadayo (Japão, 1993), de Akira Kurosawa. Com Tatsuo Matsumura, Hisashi Igawa, George Tokoro, Masayuki Yui. 

  • Please baby, please

    É ótimo encontrar filmes contemporâneos nos quais a estética noir ainda provoca forte influência. O grande trunfo de Please baby, please é o visual extravagante, pontuado por números musicais também estranhos e por fortes doses de violência e erotismo. 

    No início da trama, o casal formado por Suze e Arthur presencia uma gangue gótica assassinando um homem a pontapés no beco da cidade. Os dois passam a ser chantageados pela gangue, mas entre os riscos de violência e morte, desenvolvem um complexo fascínio: Suze fica cada vez mais obcecada pelo visual e estilo da gangue; Harry se entrega ao desejo por Teddy, um dos integrantes. 

    O roteiro não traz atrativos, muito menos surpresas. O destaque fica por conta da estética, da participação especial de Demi Moore e da interpretação caricata de Andrea Riseborough (indicada ao Oscar em 2022 por To Leslie).  

    Please baby, please (EUA, 2022), de Amanda Kramer. Com Andrea Riseborough (Suze), Harry Melling (Arthur), Demi Moore (Maureen), Karl Glusman (Teddy), Ryan Simpkins (Dickie), Cole Escola (Billy). 

  • A praga

    José Mojica Marins, o Zé do Caixão, filmou A praga em 1980, mas não terminou o filme. Era o início de uma década praticamente perdida para o cinema brasileiro, quando muitos cineastas, sem condições de financiamento, incerraram a carreira. 

    Em 2007, foram encontrados rolos de filmes super-8 com o material bruto de A praga. O material foi digitalizado, cenas adicionais foram gravadas, mas novamente tudo foi arquivado. Finalmente, em 2021 o filme passou pelo processo de restauração em alta resolução, com tratamento de som e imagem. 

    A narrativa é simples e provocativa: um fotógrafo é alvo de uma praga de uma senhora durante um final de semana, quando tenta tirar fotos dela em seu sítio. A bruxa passa a atormentar o fotógrafo de forma escabrosa, torturando-o com visões macabras que o fazem consumir carne crua por uma chaga aberta no ventre. 

    O próprio José Mojica Marins narra a história, pontuada por suas aparições também tenebrosas. A praga é o único filme inédito do cultuado mestre do terror brasileiro. 

    A praga (Brasil, 1980/2023), de José Mojica Marins. Com Felipe Von Reno, Wanda Kosmo, Sílvia Gless. 

  • Aos nossos filhos

    Vera coordena uma ONG que acolhe e encaminha para adoção crianças de uma comunidade carioca, inclusive crianças soropositivas. Sua filha Tânia e a namorada, Vanessa, tentam ter um filho através de inseminação artificial. O passado de Vera nas prisões da ditadura militar, quando foi torturada, vem à tona quando ela é entrevistada por Sérgio, um jovem que está escrevendo um livro sobre sua mãe, companheira de cela de Vera. 

    A trama desenvolve dois núcleos fortes: a relação conflituosa entre Tânia e Vera, angustiada e incerta diante do desgastante processo de inseminação; e as lembranças dolorosas de Vera no submundo dos porões militares. Destaque para a sequência do cemitério, quando Vera se vê finalmente diante de seu maior tormento, revelador da cruel e desumana prática de tortura no Brasil dos generais, que muitos ainda insistem em negar. Outros, também criminosos, prestam homenagens oficiais a torturadores. 

    Aos nossos filhos (Brasil, 2019), de Maria de Medeiros. Com Marieta Severo (Vera), Laura Castro (Tânia), Cláudio Lins (Sérgio), José de Abreu (Fernando), Marta Nobrega (Vanessa).  

  • Pérola

    Depois de O beijo no asfalto, O ator/diretor Murilo Benício se debruça mais uma vez sobre uma peça teatral em sua segunda direção cinematográfica. Pérola é baseado na obra de Mauro Rasi que transpôs para os palcos as memórias de suas relações familiares em Bauru, centradas na personalidade forte, divertida e briguenta de sua mãe. 

    O filme alterna momentos de pura comédia, retratando o cotidiano dessa família de classe média dos anos 70 aos 90, lideradas por Pérola, cujo sonho é ter uma piscina em sua casa. Entre caipirinhas, caipivodkas e diversos outros drinks, a família se diverte e briga. O olhar de Mauro em sua família é carregado de ternura e, muitas vezes, agressividade, pois suas escolhas profissionais no mundo da escrita são combatidas com veemência pela mãe. 

    O filme, claro, é de Drica Moraes. Mas uma vez a atriz destila talento em um papel carregado de irreverência, humor e melodrama. O final é enternecedor, nos faz lembrar com saudades dos bons momentos em família (sem o excesso de caipirinha, claro). 

    Pérola (Brasil, 2023), de Murilo Benício. Com Drica Moraes (Pérola), Leonardo Fernandes (Mauro), Cláudia Missura (Tia Norma), Rodolfo Vaz (Vado). 

  • Jaime

    Jaime (Bélgica, 2022), de Francisco Javier Rodriguez. 

    Jaime é um homem de 31, 32 anos (ele alterna sua idade) que passou grande parte da vida em uma instituição psiquiátrica, após incendiar a própria casa. Ele despeja para a câmera, em uma conversa presumivelmente com um entrevistador, seus pensamentos e desejos confusos, versando sobre Deus, a mãe que o espancava quando criança, os cachorros, super poderes que possui…

    O premiado média-metragem de Francisco Javier Rodriguez é um retrato inquietante da mente do protagonista que transita indistintamente entre imaginação e realidade, entre falas e pensamentos que se concretizam para o espectador. Com um soberba atuação de Guy Dessent, o inesperado final confunde mais ainda o espectador, abrindo as brechas para as surpreendentes revelações da mente humana. 

  • Holy spider

    Holy spider (Dinamarca/Alemanha, 2022), de Ali Abbasi.

    O filme tem um dos finais mais perturbadores do cinema contemporâneo, de revirar a mente e acreditar de forma decisiva que o fanatismo religioso é um dos grandes males da humanidade. A jornalista Rahimi (Zar Amir Egrahimi) chega à cidade sagrada de Mexede, no Irã, para fazer uma reportagem sobre o “Assassino de Aranhas”, um homem que se julga justiceiro de Deus e mata prostitutas. 

    Não há mistério sobre a identidade do assassino, é Saeed (Mehdi Bajestani), um pai de família amoroso, ensina os preceitos religiosos aos filhos, trata a mulher com respeito e carinho. Baseado em fatos reais, a virada da narrativa acontece quando o assassino é preso, vai a julgamento e ganha apoio de centenas de fanáticos nas ruas da cidade. 

    Prepare-se para cenas fortes de assassinatos, o diretor Ali Abbasi não poupa o espectador neste filme denúncia contundente. Zar Amir Egrahimi ganhou o prêmio de Melhor Atriz em Cannes por sua atuação como a jornalista investigativa que arrisca a própria vida em busca da verdade e da justiça.

  • Um outro mundo

    Phillippe é um executivo de sucesso de uma fábrica em uma cidade da França – controlada por uma corporação multinacional. A crise que se anuncia exige de Philippe e seus comandados corte de custos na folha de pagamento, acarretando um planejamento de demissões. Os funcionários se mobilizam e exigem de Phillippe clareza nos boatos que circulam entre eles. 

    O diretor Stéphane Brizé retoma a parceria com Vincent Lindon, iniciada no ótimo filme O valor de um homem (2015). O tema de Um outro mundo também remete ao filme de 2015: as relações de trabalho afetadas pela crise econômica que provoca disputas pessoais e a negação de valores éticos e morais nos ambientes de trabalho. 

    Em uma cena sintomática, a líder dos operários cobra de Philippe sinceridade sobre o que está acontecendo na empresa. A resposta do executivo provoca o dilema ético que se estende pela narrativa, perpassando também pelas relações pessoais de Philippe com sua esposa e filho. 

    Um outro mundo (França, 2021), de Stéphane Brizé. Com Vincent Lindon (Phillippe), Sandrine Kiberlain (Anne), Anthony Bajon (Lucas), Marie Drucker (Claire).

  • Rapsódia em agosto

    Rapsódia em agosto (Hachigatsu no rapusodi, Japão, 1991), de Akira Kurosawa.

    No seu penúltimo filme, Kurosawa (com 81 anos) volta seu olhar para o passado atormentado do Japão contemporâneo. Em uma simples e bela casa nas montanhas, próxima a Nagasaki, a idosa Kane (Sachiko Murase) recebe seus quatro netos adolescentes para passarem juntos as férias de verão. Ela conta histórias para os netos sobre seus irmãos, sempre pontuadas por passagens assombrosas, sobre seu marido, sobre ela mesma, histórias com um ponto em comum: a explosão da bomba atômica em Nagasaki, que ela presenciou, no dia 9 de agosto de 1945.  

    Os netos visitam os monumentos erguidos em lembrança à tragédia, vão à escola onde o avô deles morreu vítima da explosão, remoem sentimentos contraditórios sobre os EUA, mas são apaziguados pela avó que diz: “a culpa é da guerra.” 

    Kurosawa recebeu críticas à época do lançamento do filme em Cannes, principalmente nos EUA, motivadas pelo pedido de desculpas do americano Clark (Richard Gere) em visita à sua tia Kane em Nagasaki. A força do filme está na relação entre netos e avô, nas lembranças, na ternura que nasce mesmo após tragédias tão inacreditáveis na história da humanidade.

    O belo final, a corrida trôpega dos netos na chuva, perseguindo a avó que acredita estar revivendo o dia da bomba, filmada em câmera lenta na chuva, é quase um testamento do cinema contemplativo e reflexivo de Akira Kurosawa. 

  • O escândalo

    O único filme de tribunal de Kurosawa foi supostamente motivado por uma “fofoca” publicada na imprensa marrom japonesa: a tentativa fracassada de Kurosawa de conquistar uma atriz do cinema nipônico. 

    Em O escândalo, o pintor Ichirô Aoye está retratando uma montanha no campo. Três peregrinos acompanham seu trabalho, logo depois, a famosa cantora Miyako Saijo chega ao local. O pintor tem um estilo de vida livre, anda pelas cidades e pelos campos em uma potente moto. Como vão para o mesmo local, Ichiro oferece carona à cantora. Na pousada, os dois são fotografados por dois paparazzis na sacada do quarto, quando contemplam um bosque. Dias depois, a foto é publicada em uma revista sensacionalista, junto com uma reportagem que “inventa” um affair entre os artistas. 

    A virada do roteiro acontece com a entrada em cena de Hiruta, um advogado fracassado e corrupto, contratado por Ichirô para processar a revista. A partir daí, o ator Takashi Shimura assume o filme, compondo um personagem fraco, entregue à bebida, ao vício em jogos e a um pungente sofrimento com a doença terminal da filha, uma adolescente terna e esperançosa diante da bondade das pessoas. 

    A redenção do advogado é tratada por Kurosawa sem melodrama, em uma cena rápida no final do filme, seguida do corte seco e um final quase abrupto, deixando em aberto o destino dos personagens. 

    O escândalo (Shubun, Japão, 1950), de Akira Kurosawa. Com Toshiro Mifune (Ichirô Aoye), Shirley Yamaguchi (Miyako Saijo), Yoko Katsuragi (Masako Hiruta), Noriko Sengoku (Sumie), Eitarô Ozawa (Hori), Takashi Shimura (Hiruta). 

  • Alcarràs

    O filme da diretora espanhola Carla Simón foi o grande vencedor do Festival de Berlim, conquistando o Urso de Ouro. A narrativa acompanha, de forma quase documental, uma família de agricultores em uma pequena vila catalã. A Família Solé cultiva a terra onde moram sem nunca terem adquirido o registro da propriedade, pois ganharam de presente do proprietário como reconhecimento: o patriarca da Família Solé, ainda vivo, salvou a vida do proprietário durante a Guerra Civil Espanhola. No entanto, os herdeiros originais não querem mais honrar o acordo e tentam expulsar os colonos, pois a terra vai receber modernos painéis de energia solar. 

    O coletivismo dos agricultores é marcante, pontuando durante a narrativa o eterno conflito entre agricultores e atravessadores. O grande tema de Alcarràs é a desagregação familiar, dividida entre aceitar o trabalho assalariado na empresa de energia solar ou lutar pela independência e continuar cultivando a terra. O conflito entre geração, pai e filho, é responsável pelos momentos mais tensos e ternos do filme.

    Alcarràs (Espanha, 2022), de Carla Simón. Com Josep Abad (Rogelio), Jordi Pujol Dolcet (Quimet), Anna Otín (Dolores), Albert Bosch (Roger), Xenia Roset (Mariona).

  • A mais bela

    Um dos primeiros filmes de Kurosawa, A mais bela foi feito como uma espécie de encomenda da produtora, como parte do esforço de guerra japonês. A trama se passa inteiramente em uma fábrica de instrumentos óticos destinados a artilharias de guerra. O ritmo de produção deve ser acelerado para suprir as necessidades do conflito e cotas de produção são estipuladas. As trabalhadoras devem cumprir a metade da cota destinada aos homens.  Lideradas pela supervisoras Mizushima e  Watanabe, as mulheres exigem um aumento de cota. 

    O filme representa uma visão feminista no japão durante a guerra, representada pela pequena rebelião das jovens trabalhadoras que não aceitam diferenças de cotas tão grandes entre elas e os homens. No entanto, resvala frequentemente para o ufanismo dos filmes do gênero, com as mulheres tentando se afirmar também como guerreiras, incluindo o sacrifício em jornadas extenuantes de trabalho.  O ponto forte da narrativa é a solidariedade, o carinho, o afeto que marcam o trabalho em equipe das operárias. 

    A mais bela (Ichiban utsukushiku, Japão, 1944), de Akira Kurosawa. Com Takahashi Shimura, Soji Kiyokawa, Ichiro Sugai, Takako Irie. 

  • Sexual drive

    Sexual drive (Japão, 2021), de Kota Yoshida.O filme é composto por três episódios ligados por dois temas comuns: a comida e um estranho personagem, Kurita (Tateto Serizawa), que serve como catalisador dos desejos eróticos dos personagens. 

    No primeiro episódio, o jovem Enatsu está sozinho em casa, sua esposa é enfermeira. Chamado à porta, ele recebe a visita de Turita, um estranho e maltrapilho deficiente físico. Turita revela ser amante da mulher do jovem. Natto, prato preferido da mulher, guia a história contada pelo homem, com altas voltagens de erotismo. 

    No segundo episódio, Akano é uma jovem que sofre com a síndrome do pânico. Quando ela finalmente resolve sair sozinha de carro, para comprar os ingredientes para preparar Mapo, atropela um homem e o coloca em seu carro. Turita revela a ela ser o homem que a assediava na escola e segue-se um diálogo de puro exercício sexual, incluindo sadomasoquismo, que aumenta gradativamente o pânico da jovem motorista. 

    Por fim, o último episódio não traz a presença física de Turita, Sua perversa e insinuante voz é ouvida pelo telefone por Ikeyama, em um restaurante que serve lámen. Casado, Ikeyama mantém um caso com Momoka, também casada. Cada vez mais perturbado, Ikeyama explode em reações de desespero e agressividade no silencioso balcão do restaurante, todos estão absortos em seus lámens. 

    O grande trunfo de Sexual drive é não mostrar nem uma única cena de sexo. Tudo fica por conta da imaginação, tanto dos personagens a quem Turita provoca com seus relatos ousados e perversos, quanto dos espectadores. Anseio por comida e sexo, duas necessidades naturais do ser humano que se transformam em desejos obsessivos e perturbadores.   

  • Por que deu a louca no Sr. R.?

    Por que deu a louca no Sr. R.? (Warum läuft Herr R. Amok, Alemanha, 1970), de Rainer Werner Fassbinder e Michael Fengler. 

    O Sr. R (Kurt Raab) vive uma vida de aparência com sua esposa, a Sr. R (Lilith Ungerer). São de classe média, têm um filho, passam os dias apáticos em seu relacionamento: bebendo, fumando, recebendo amigos em casa, fazem tudo juntos, mas sem a menor intimidade ou sinal de sentimentos, são como dois estranhos que resolveram viver juntos. No trabalho, Ele é um solitário metódico, retraído, temeroso de atos mais atrevidos. Ele é um observador distante da vida. 

    Tudo muda quando, em uma festa da empresa, bêbado, ele faz um discurso ofensivo a vários de seus colegas. A loucura do título que passo a passo caminha para um trágico ato final em família. 

    Fassbinder dirigiu a película em parceria com Michael Fengler. Os planos longos aplicados a uma narrativa por vezes monótona evidencia a placidez do casal, simbolizando a rotina sem atrativos da classe média alemã, um dos temas favoritos de Fassbinder. Entre a casa e o trabalho, a vida do Sr. R. caminha sem motivações, talvez uma promoção que nunca acontece. O surpreendente gesto final, inesperado e violento, poderia ser visto como um gesto de liberdade, de tentativa de finalmente se fazer notar por todos ao seu redor, mas nada mais é do que a perigosa explosão do subconsciente de pessoas que vivem em um mundo apático. l