• Outside noise

    Em Outside noise o cineasta independente Ted Fendt reflete, de certa fora,  sobre os isolamentos sociais provocados pela pandemia. Daniela (as personagens usam seus próprios nomes no filme) sofre de insônia. Vive sozinha em um apartamento em Viena, sua única diversão é caminhar sozinha pelos bairros e vielas da cidade. Recebe a visita de suas duas amigas Mia e Natascha, vindas de Berlim, e as três passam o tempo deitadas, lendo, conversando, no pequeno apartamento. Dias depois, as três embarcam para Berlim, onde continuam essa troca de relacionamentos movida ao cotidiano de jovens sem muito há fazer, apenas deixar o tempo passar. 

    Ted Fendt realizou esse filme curto, cerca de 60 minutos de duração, como uma câmera em 16 mm, raridade no cinema contemporâneo já completamente entregue à tecnologia digital. O foco está nas três personagens e em suas interações com os ambientes, cuja estética sonora e visual é minimalista: alguns ruídos ambientais, a luz fria nas cenas externas, imagens simples e bonitas dos ambientes fechados, quase como se tudo acompanhasse as amigas sem interferir, sem chamar a atenção. Uma bela e reflexiva obra sobre amizades simples e rotineiras. 

    Outside noise (Alemanha, 2021), de Ted Fendt. Com Daniela Zahlner, Mia Sellmann e Natascha Manthe.

  • Os filhos de Deus

    Os filhos de Deus (Los niños de Dios, Argentina, 2021), de Martín Farina.

    O título do filme é o mesmo de uma seita religiosa fundada na Califórnia em 1968, por David Berg. A seita também ficou conhecida como Família Internacional, Família Missionária Cristã e Família do Amor. A organização se esfacelou em 1978 quando vieram à tona casos relacionadas à prosituição, incesto e pedofilia dentro da comunidade. 

    O documentário de Martin Farina centra as lentes em dois irmãos, Francisco e Sol, agora adultos, que foram inseridos na seita na adolescência pela própria mãe. Uma cena sintomática do documentário mostra a mãe, Silvia Markus, admitindo, em prantos, o erro que cometeu quando levou os filhos para a seita. Evidência de um passado nebuloso, que volta para Francisco e Sol por meio de lembranças ora lúdicas, ora dolorosas, revelando o que insiste em ficar escondido. 

    Os filhos de Deus é mais um potente documentário lançado recentemente que denuncia, mas não julga, a cruel realidade dos bastidores de seitas religiosas movidas pelo fanatismo 

  • Os amores de uma loira

    Os amores de uma loira (Lásky jedné plavovlásky, Tchecoslováquia, 1965), de Milos Forman. A jovem Andula (Hana Brejchová) vive em uma pequena cidade da Tchecoslováquia, pouco resignada com a vida rotineira, monótona. A pequena cidade representa o clima de solidão e desesperança que impera entre os jovens da Tchecoslováquia durante o regime comunista. O espírito da Primavera de Praga já rondava pelos ares, quando a população, principalmente os jovens, saíram às ruas em protestos. 

    Durante uma festa, frequentada por um grupo de soldados em visita à cidade, as jovens buscam por relacionamentos (“Nós temos 16 meninas para cada rapaz aqui”, comenta um oficial). Todos os soldados são de meia-idade, à exceção de Milda (Vladimir Pucholt), o jovem pianista, que flerta com Andula durante a festa. No final da noite, os dois saem e dormem juntos, em uma linda sequência erótica. Na manhã seguinte, Milda deixa a cidade e Andula embarca em uma aventura, viajando sozinha em busca de seu amor. 

    Os amores de uma loira é um importante representante do novo cinema dos anos 60, capitaneado pela nouvelle vague francesa, que levou às telas muito da frustração, da insatisfação, da busca pela liberdade política, sexual e social dos jovens. Na Tchecoslováquia, o cinema de Milos Forman simbolizou nas telas esse clima, com filmes realizados antes de seu exílio para os EUA, entre eles Os amores de uma loira, Pedro, o negro e a obra-prima O baile dos bombeiros.

  • O preço da traição

    Atom Egoyan exercita o neo noir, focando a narrativa na tradicional femme fatale. Chloe é uma jovem e irresistível garota de programa. Ela é contratada por Catherine, uma médica de sucesso de meia idade, para seduzir seu marido David, um professor de música. Catherine suspeita que Davi a trai durante suas viagens para congressos e concertos. Por meio de Chloe, a fidelidade de David será colocada à prova. 

    A enigmática trama envolve uma série de artimanhas perpetradas por Chlore, envolvendo o casal em uma rede de desconfianças. A virada do roteiro é previsível, mas coloca O preço da traição no patamar de uma ótima sessão de entretenimento, movida a thriller e erotismo em graus elevados.  

    O preço da traição (Chloe, EUA, 2009), de Atom Egoyan. Com Julianne Moore (Catherine),  Amanda Seyfried (Chloe), Liam Neeson (David), Max Thieriot (Michael).

  • O monstro

    O filme começa com uma ousada cena de cópula entre cavalos, observada por Mathurin, filho do proprietário das terras, integrante de uma decadente família aristocrática da França. Ele tem o braço engessado e é chamado para uma conversa com o pai. A mãe e sua jovem filha Romilda, integrantes de outra família, porém ricos, estão para chegar. O encontro das famílias tem o objetivo de fazer os acertos sobre um casamento de conveniência entre Mathurin e Romilda. 

    A cena de abertura é apenas o início de uma série de cenas que chocaram o mundo, capitaneadas pelo “maldito” diretor Walerian Borowcyk. A releitura de A bela e a fera oferece ao espectador cenas de ejaculação do pênis ereto da fera e sonhos quase pornográficos da bela Romilda que se vê assediada e possuída pelo monstro.

    Assim como O império dos sentidos, também dos anos 70, O monstro subverte o gênero pornô ao debater temas espinhosos, como a força do subconsciente quando imerge em desejos carnais incontroláveis. 

    O monstro (La bête, França/Hungria, 1975), de Walerian Borowczyk. Com Sirpa Lane (Romilda), Lisbeth Hummel (Lucy), Elisabeth Kaza (Virgínia), Pierre Benedetti (Mathurin). 

  • O império dos sentidos

    O império dos sentidos (I ai no korida, Japão, 1976), de Nagisa Oshima, é baseado em uma história real. Em 1936, a prostituta Sada Abe matou por asfixia seu amante Kichizo Ishida. Eles eram adeptos da “asfixia erótica”, estrangulamento intencional que, para os adeptos, aumenta o prazer do sexo em consequência da restrição de passagem do oxigenio. Naquela noite, Ishida tomou comprimidos para dormir e Sada, simulando a prática, estrangulou o amante até a morte. Após, ela cortou o pênis e os testículos dele, para guardar como recordação. 

    Nagisa Oshima adaptou essa história para o cinema em um filme que percorreu décadas escandalizando público, crítica e políticos (o filme foi censurado no Japão e em diversos outros países mundo afora, inclusive no Brasil da ditadura militar). Os motivos: cenas de sexo explícito praticadas pelos atores diante das câmeras. Penetração, sexo oral, sadomasoquismo, perversões, tudo isto está na tela. Atenção para a famosa cena do ovo cozido e um diálogo que choca até hoje: “Eu tenho que fazer xixi.” “Não precisa sair para isso, faça aqui mesmo.” “Aqui onde?” “Dentro de mim. Bem gostoso e quentinho.” A frase final é de Sada. 

    “O filme de Oshima atinge um nível extraordinário de intimidade erótica e franqueza física. Pela primeira vez em um filme não destinado ao circuito pornográfico há planos frequentes de pênis ereto e cenas de felação. Mas Oshima também consegue nos convencer de que esta história de um amor louco, l’amour fou, é uma manifestação verdadeira da paixão, levada ao extremo mais radical. A elegância da mise-en-scène do diretor cria um contraponto comedido e distanciado ao frenesi sexual dos amantes. “


    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • O desprezo

    O desprezo (Le mépris, França/Itália, 1963), de Jean-Luc Godard. O filme abre com uma sequência icônica, das mais famosas relacionadas ao erotismo feminino. Camille (Brigitte Bardot) está nua, enquanto a câmera percorre seu corpo, ela pergunta ao marido, o roteirista Paul Javal (MIchel Piccoli), se ele gosta desta e daquela parte de seu corpo. 

    A trama segue a crise conjugal do casal. Eles estão na Itália, Paul tenta fechar um contrato para escrever a adaptação para o cinema do romance Odisseia, de Homero. O diretor será Fritz Lang, que interpreta a si mesmo, em participação especial. A crise do casal se expõe definitivamente quando Jerry Prokosch (Jack Palance), produtor do filme, entra em cena. Camille se entrega em um jogo de sedução e traição com o produtor que resultará em um desfecho trágico, após uma bela carta de despedida ao marido. 

    O desprezo é um filme sobre o cinema, bem ao estilo rebelde de Godard que anos depois romperia com a narrativa tradicional (após a criação do Grupo Dziga Vertov). 

    “Ainda mais porque se trata aqui de suscitar (e excitar) o dito cinema tradicional no momento mesmo da sua dissolução: os últimos suspiros das grandes produções, as ruínas do sistema de estúdio. Décadas mais tarde, em suas Histoire(s) du cinéma (1988-1998), Godard dirá que nada pode ser chamado de arte até o fim de sua época (e que a única coisa que sobrevive a uma época é justamente a arte criada por ela). De certa forma, pois, O desprezo realiza o ‘filme tradicional’ como arte justamente ao decretar a morte de sua época. Há assim, ao mesmo tempo, uma euforia juvenil (delírio da linguagem) e uma certa melancolia nessa realização.” – Felipe de Moraes. 

    Referência: Godard inteiro ou o mundo em pedaços. Eugênio Puppo e Mateus Araújo (organização). Catálogo produzido pela Fundação Clóvis Salgado para a retrospectiva Jean-Luc Godard, exibida na Sala Humberto Mauro.

  • O comerciante das quatro estações

    Quando volta do serviço prestado à Legião Estrangeira, no Marrocos, em 1947, Hans Epp começa a trabalhar como feirante, junto com a esposa, Irmgard Epp. Para aumentar os rendimentos, ele percorre as ruas de bairros com um carrinho de frutas, anunciando para as janelas suas ameixas e peras. 

    Com este personagem singular, Fassbinder compõe a metáfora das quatro estações. Hans vê seus dias passarem de forma repetitiva, quase um espectador passivo de sua própria vida sem sentido. Ele é o protótipo do homem fracassado, cuja profissão é humilhante para sua família burguesa. Em casa, ele agride a esposa e despreza a filha única.  

    O comerciante das quatro estações surgiu após Fassbinder ficar fascinado pelo cinema de Douglas Sirk. As referências ao melodrama são claras durante a trama, com o protagonista entregando-se ao sofrimento sem possibilidades de redenção, caminhando de forma irreversível para um abrupto ato final, quando bebe atá a morte sob os olhares dos amigos. Fassbinder não poupa o espectador, filmando o ato de forma seca, quase como se fosse natural o auto sacrifício do personagem. Preste atenção no final pós morte, no comportamento indiferente, frio e desprezível da família de Hans, da esposa e de seu amante. 

    O comerciante das quatro estações (Handler der vier jahreszeiten, Alemanha, 1971), de Rainer Werner Fassbinder. Com Hans Hirschmüller, (Hans Epp) Irm Hermann (Irmgard Epp), Hanna Schygulla (Anna Epp). 

  • O caminho da tentação

    John Forbes vive uma tranquila vida de casado. É corretor de seguros de uma grande empresa, sua rotina se divide entre casa e trabalho, deixando transparecer o tédio que sente no dia-a-dia. Ele se vê envolvido em um caso de fraude à segurada, quando o responsável, Smiley, é preso. John Forbes precisa recuperar os bens que foram doados por Smiley à sua namorada, Mona Stevens.

    Esse encontro encaminha a trama para a tradicional entrada em cena da femme fatale, marca registrada dos filmes noir. No entanto, a grande vítima da narrativa acaba sendo Mona. John Forbes se apaixona por ela, os dois começam um perigoso caso extraconjugal, pois MacDonald, um investigador particular que trabalha para a corretora, também está apaixonado por Mona. Ele usa de todos os meios para conquistá-la, incluindo chantagem, armando uma complexa armadilha para Forbes no final do filme.  

    O final, triste e doloroso, revela como homens cruéis, MacDonald, e os pretensamente íntegros, Forbes, podem destruir a vida das mulheres com quem se relacionam. 

    O caminho da tentação (Pitfall, EUA, 1948), de André De Toth. Com Dick Powell (John Forbes), Lizabeth Scott (Mona Stevens), Raymond Burr (MacDonald). 

  • O bígamo

    O filme abre com o casal Harry Graham e Eve em uma entrevista para adoção de uma criança. Estão na faixa dos quarenta anos, são profissionais de sucesso e a adoção é o sonho da esposa. Harry reluta, mostra-se apreensivo, reticente, Edmund Gwenn, o entrevistador remarca a entrevista e, perspicaz como um detetive, passa a investigar Harry. A descoberta não tarda a acontecer. Harry viaja muito a trabalho e, certo dia, ao abrir a porta de sua outra residência, se depara com Edmund. O som de uma criança recém nascida ressoa ao fundo e Phyllis entra em cena. 

    O título já revela ao espectador o tema da trama, portanto, não é surpresa a descoberta. A partir desse momento, O bígamo se transforma em um profundo estudo de personagens. Em flash back, Harry conta como conheceu Phyllis e a engravidou. Narrativa paralela revela o crescente distanciamento que vive com a esposa original, motivado, em grande parte, pelos anos de casamento, pela dedicação à vida profissional, a rotina e o tempo que transformam inúmeros casais em apenas amigos. 

    O trunfo do filme é a dissecação dolorosa das escolhas de Harry, sua paixão por Phyllis, seu respeito pelo longo casamento, um remorso lento e diário que corrói sua integridade. Ida Lupino não escolhe julgar Harry, nem suas esposas, coloca em pauta a complexidade da alma humana, os erros inerentes à condição de existir, de se entregar a momentos ternos como a troca de um olhar em um parque. Espero que, nem mesmo o espectador, se sinta capaz de julgar nem um dos personagens. 

    O bígamo (The bigamist, EUA, 1953), de Ida Lupino. Com Joan Fontaine (Eva Graham), Ida Lupino (Phyllis Martin), Edmond O’Brien (Harry Graham), Edmund Gwenn (Sr. Jordan). 

  • Mãe solteira

    Sally, uma jovem e ingênua garçonete, se apaixona pelo pianista que toca onde ela trabalha. O caso resulta em uma gravidez, mas o pianista muda de cidade, em busca do seu sonho de ser compositor. A jovem vai à sua procura, mas é renegada e abandonada. Desesperada, sua decisão é se internar em uma instituição que cuida de jovens solteiras grávidas e buscam pais adotivos para as crianças. 

    Mãe solteira é o primeiro filme dirigido pela consagrada Ida Lupino. Ela assumiu o filme durante as filmagens, substituindo Elmer Clifton, que sofreu um ataque cardíaco. Lupino tinha 31 anos e foi responsável pelo roteiro do filme, além de atuar como co-produtora.  

    Lupino impôs um olhar feminino ao drama de Sally, sofrendo com o abandono e as angústias quase insuportáveis da sua decisão de ceder o filho para adoção. Uma característica marcante de Mãe solteira, fruto da experiência da diretora como atriz no cinema clássico americano, é a narrativa visual, com momentos dramáticos transmitidos por planos longos e pela montagem com cortes secos e precisos.  

    Mãe solteira (Not wanted, EUA, 1949), de Ida Lupino e Elmer Clifton. Com Sally Forrest (Sally Kelton), Keefe Brasselle (Drew Baxter), Leo Penn (Steve Ryan).

  • Johnny Gunman

    Muito anos de O poderoso chefão (1972), Johnny Gunman traz a história de dois gângsteres que disputam o controle da máfia em Nova York. Vicious Allie e Johnny Gunman são amigos desde a infância. Ambos trabalham para o chefão Loy Caddy, que é preso por sonegação de impostos. Os dois amigos começam então uma disputa pelo controle exclusivo da máfia, ao invés de dividirem territórios. 

    A narrativa se passa ao longo de uma noite e traz os elementos característicos dos filmes noir: ambientação noturna nas ruas e em bares e apartamentos; diálogos rápidos e cortantes;  a femme fatale que instiga seu amante ao confronto; o belíssimo contraste de sombras e luzes e, claro, a violência latente em pontos certeiros da trama. Um filme de baixo orçamento, bem ao estilo dos filmes B americanos que foram consagrados pelas críticos da Cahiers do Cinema e se transformaram em cults. 

    Johnny Gunman (EUA, 1957), de Art Ford. Com Martin E. Brooks (Johnny G.), Johnny Seven (Allie), Carrie Radisson (Mimi), Nick Rossi (Lou Caddy). 

  • Human flow: não existe lar se não há para onde ir

    O premiado artista chinês Ai Weiwei  compôs um painel impactante e doloroso sobre a situação de refugiados espalhados pelo mundo. Durante um ano, o diretor e sua equipe filmaram o cotidiano de 40 campos de refugiados, em 23 países, entre eles: Líbano, Quênia, Bangladesh, a fronteira entre o México e os Estados Unidos.

    “Não é apenas um problema político, mas uma questão humanitária e moral”, afirmou o diretor. As imagens do documentário, com uma edição primorosa, retratam o lado humano dos refugiados: o cuidado que eles têm uns com os outros, a luta pela sobrevivência em situações muitas vezes precárias, o sofrimento pela indefinição das condições dos refugiados de apátridas.

    As imagens são acompanhadas de informações de estarrecer, por exemplo, só no Iraque, quatros milhões de pessoas já abandonaram suas casas desde os anos 80; 56 mil refugiados sírios, iraquianos e iranianos cruzam a Grécia toda semana. O documentário é muito mais do que uma denúncia, é uma potente declaração humanitária que deveria ecoar fundo nas nações que fecham os olhos diante dessa escravidão moderna. 

    Human flow: não existe lar se não há para onde ir (Human flow, Alemanha/EUA, 2017), de Ai Weiwei.

  • Foro íntimo

    O diretor Ricardo Mehedff inspirou-se em fatos reais para compor um retrato claustrofóbico da justiça brasileira. O Juiz Gustavo Ferreira está  trancafiado no Fórum de Belo Horizonte, protegido por agentes de segurança. Sua esposa e filho se mudaram para Buenos Aires. O juiz é o responsável por um caso judicial que envolve um senador da república. Por questões de segurança, a escolta policial do juiz não deixa que ele saia do Fórum e controla até mesmo os casos que ele vai analisar em seus dias de trabalho. 

    O suspense da trama se evidencia em detalhes como o apagar de luzes dos ambientes, passos que se escutam, o bater de portas, um cruzamento de olhares nos corredores do tribunal. O ponto forte do filme é a claustrofobia que transparece no juiz, sentenciado à reclusão, dormindo, comendo, vivendo em seu minúsculo gabinete. As opções estéticas e de linguagem durante a trama evidenciam o medo e o desespero do juiz ao se sentir como muitos daqueles que cumprem penas em prisões, após serem julgados por ele. 

    Foro íntimo (Brasil, 2017), de Ricardo Mehedff. Com Gustavo Werneck (Juiz Gustavo Ferreira), Jefferson da Fonseca (Agente Fontes), Beatriz França (Bia), Léo Quintão (Promotor Donato).

  • Enter The Void: Viagem alucinante

    Gaspar Noé faz uma alucinante incursão pelo mundo metafísico, abordando a pós-morte e a encarnação. Oscar é um jovem traficante de drogas que vive em Tóquio, junto com sua irmã Linda, streaper de uma boate. Seus melhores amigos são Victor e Alex – que lhe apresenta um livro tibetano sobre experiências espirituais após a morte. 

    Oscar vai a um clube noturno, The Void, entregar drogas a Victor, mas é traído pelo amigo: a polícia o espera para prendê-lo em flagrante. Refugiando-se no banheiro, Oscar é alvejado pelos policiais. 

    O ponto de vista em primeira pessoa é o trunfo da película. A cãmera segue o olhar de Oscar pelo submundo da Tóquio noturna, regada a sexo, bebidas e drogas, esteticamente marcada pelas infindáveis luzes estroboscópicas, o neon agressivo da cidade. 

    Após a morte, o espírito de Oscar vagueia pela cidade em longos planos gerais, a famosa câmera fantasma dos primórdios do cinema. O espírito espreita, entra na intimidade de seus entes queridos, sem julgamentos, apenas um observador atento à procura de seu destino. 

    Enter The Void: Viagem alucinante (França, 2009), de Gaspar Noé. Com Nathaniel Brown (Oscar), Paz de la Huerta (Linda), Cyril Roy (Alex), Olly Alexander (Victor), Masato Tanno (Mario). 

  • Clímax

    Lettering avisa, na abertura, que a trama é inspirada em fatos reais. Logo após, uma série de imagens em planos fechados apresentam ao público vinte personagens, dançarinos, que vão se reunir em um internato no meio da floresta gelada, para um ensaio de três dias. 

    Corta para o galpão onde acontecem os ensaios. Após um dos ensaios, acontece uma festa regada a bebidas e drogas. Passo a passo, os dançarinos se comportam de forma alucinada, agressiva, cada um revelando desejos e instintos incontroláveis. Aparentemente, alguém colocou um tipo de droga na bebida servida na festa. 

    O polêmico e ousado diretor Gaspar Noé usa desse ato comum, no Brasil conhecido como “Boa noite Cinderela”, para compor um retrato insano, agressivo, erótico, quase repulsivo, desse grupo de jovens enclausurados. A montagem do filme usa de tomadas longas, planos-sequências, travellings desordenados. 

    Em Clímax, Gaspar Noé não precisou recorrer a um dos seus elementos fílmicos favoritos: filmagem de cenas de sexo explícitas. A insanidade que toma conta dos dançarinos e a própria insanidade da linguagem bastam para provocar o espectador.  

    Climax (França, 2018), de Gaspar Noé.

  • A ilha de Bergman

    Tony é diretor de cinema e sua namorada Chris, roteirista. Eles desembarcam na Ilha Faro, onde Ingmar Bergman fez alguns de seus importantes filmes. A ilha é um ponto turístico associado a Bergman: casas e praias que serviram de locação, a casa de Bergman, uma associação que promove debates após a exibição de filmes do famoso cineasta sueco.

    A trama de A ilha de Bergman segue o processo criativo do casal de cineastas enquanto perambulam pela ilha. Tony é um diretor famoso, seguro de seu trabalho, Chris uma roteirista em crise que não consegue desenvolver seu novo projeto. 

    A virada da trama acontece quando Chris conta ao namorado a ideia de seu filme. A metalinguagem toma conta, um filme dentro do filme, como duas realidades paralelas na ilha, trazendo à tona revelações e dramas do passado da roteirista. A diretora Mia Hansen-Love aproveita do clima bucólico e intimista da ilha, como se o cinema de Bergman ainda pairasse ali, para compor duas histórias de amor ternas, sem melodrama, embaraçando realidade e ficção.  

    A ilha de Bergman (França, 2021), de Mia Hansen-Love. Com Vicky Krieps (Chris), Tim Roth (Tony), Mia Wasikowska (Amy), Anders Danielsen Lie (Joseph). 

  • Faya Dayi

    “Era uma vez, havia um velho emir chamado Azurkherlaini. Ele era um homem devoto. Um dia, ele foi tomado pelo medo. Ele começou a rezar: “Senhor, por que o medo agora? Sei que estou pronto para morrer.” Naquela noite, Deus falou com ele em um sonho. ‘Deve encontrar Maoul Hayat.’ ‘Maoul Hayat’, Ele disse, é a água da vida eterna.”

    Esse trecho do documentário de Jessica Beshir expõe o misticismo associado ao khat, uma folha estimulante, cultivada e comercializada pelos etíopes. As imagens poéticas transitam pelas inebriantes paisagens rurais do país, centros urbanos, feiras, onde os coletores e comerciantes se esmeram no trato com a planta. Os jovens dominam grande parte da narrativa, expondo seus sonhos e desejos de prosperidade, alguns de deixar o país, enquanto se entregam à inebriante atmosfera provocada pelas promessas das folhas nascidas da terra e das lendas.  

    Faya Dayi (Etiópia, 2021), de Jessica Beshir.

  • El planeta

    O filme abre com uma divertida sequência: a jovem Leonor está em um restaurante com um homem, marcaram encontro por aplicativo, ela está em sua primeira experiência como pretensa garota de programa. Desiste e volta para sua rotina ao lado da mãe, que vive de aplicar fraudes e furtos em supermercados e lojas de grife.

    A narrativa reflete a crise econômica contemporânea, afetando os desejos consumistas da classe média.  Mãe e filha tentam ao mesmo tempo manter condições mínimas de subsistência: comer, pagar o aluguel, a conta de luz, sem abrir mão de seus gostos refinados: jantar em restaurantes caros, vestir casacos de pele, preservar a vida de aparências. A narrativa tem um tom bem-humorado e ácido, abordando questões sem solução no mundo capitalista consumista. 

    El planeta (Espanha, 2021), de Amalia Ulman. Amalia Ulman (Leonor), Ale Ulman (Maria). 

  • Coração de cristal

    O diretor Werner Herzog afirmou que hipnotizou os atores durante as filmagens, pois queria deles uma atuação sem vida, como se estivessem conformados, sem esperança, caminhando letárgicos para o fim que se anuncia durante todo o filme. Verdade ou não, Coração de cristal transparece essa sensação de finitude, reforçada pelo ritmo lento e contemplativo da narrativa. 

    A história se passa em uma aldeia da Bavária, século XVIII. Os moradores vivem às custas da fabricação do vidro-rubi, no entanto, o mestre vidraceiro morre e leva junto o segredo dessa quase alquimia. O dono da fábrica sacrifica tudo em busca de descobrir o segredo e, passo a passo, a degradação toma conta de todos.

    Hias, protagonista e espécie de profeta, contempla tudo do alto de uma montanha. A estética da película apresenta cenas deslumbrantes: o clima gelado da Bavária, a imensidão à frente de Hias em sua montanha, o processo de fabricação do vidro, essa arte milenar. Dizem que Herzog queria hipnotizar também o espectador durante as sessões. Desistiu da ideia e, creio, não seria preciso: a beleza etérea da película cuida disso.  

    Coração de cristal (Herz aus glas, Alemanha, 1976), de Werner Herzog. Com Josef Bierbichler (Hias), Stefan Güttler (Hüttenbesitzer), Clemens Scheitz (Adalbert).