• Festa de família

    O cenário é uma mansão no campo, propriedade de Helge, que organiza uma festa para celebrar seu 60° aniversário. Os principais convidados são os três filhos do casal: Christian, Michael e Helene. Completam a celebração, familiares vindos de todas as partes da Dinamarca. Durante um almoço na imensa mesa, repleta dos convidados, o filho mais velho faz uma revelação bombástica que vai abalar as relações familiares. 

    Festa de família é o primeiro filme lançado sob o manifesto Dogma 95, liderado pelos cineastas dinamarqueses Thomas Vinterberg e Lars von Trier. O movimento, uma espécie de repúdio à manipulação, favorecida pelas tecnologias digitais,  determinava práticas como: filmagens em locações,  câmeras na mão, som direto, não utilização de efeitos especiais, ausência de trilha sonora a não ser que fizesse parte do ambiente. 

    “Filmado com as menores e mais leves câmeras de vídeo então disponíveis, Festa de família é a crônica de batalhas familiares amargas e violentas que se desenrolam em uma casa de campo na qual o aniversário de 60 anos do patriarca está sendo comemorado pouco tempo após a irmã gêmea do filho mais velho ter cometido suicídio. As formas extremas de comportamento agressivo que emergem desde o início e o estilo dos cortes rápidos e crus de Vinterberg disfarçam o fato de que este filme é, na verdade, uma peça bem escrita, desempenhada e dirigida de psicodrama em vez do experimento revolucionário que dizia ser. Mas a incrível força dramática originária do desvelamento gradual de segredos de família eventual e justificadamente acaba nos envolvendo.”

    Festa de família (Dinamarca, 1998), de Thomas Vinterberg. Com Ulrich Thomsen, Henning Moritzen, Thomas Bo Larsen, Paprika Steen, Birthe Neumann.

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • How do have sex

    Tara, Skye e Em,  três adolescentes de férias, chegam a uma badalada ilha grega em busca de diversão. O clima de euforia entre as amigas é contagiante, deixando claro desde o início o principal motivo da viagem, expresso  no título da película. 

    A narrativa acompanha esse rito de passagem, tratando com sensibilidade e um olhar amoral a procura das jovens, principalmente da protagonista Tara, cuja sensibilidade vai se confrontar com as indecisões da entrega. 

    How to have sex conquistou a categoria Un Certain Regard no Festival de Cannes, ajudando a revelar a jovem diretora Molly Manning. O que parece ser uma comédia de verão, leve e descontraída, envereda por questões perturbadoras, como o uso de álcool e drogas pela juventude e, principalmente, os limites da não-permissão, do abuso sob os efeitos químicos.

    A narrativa é movida a música, álcool, drogas e brincadeiras extremas sob a praia e sol escaldante da Grécia. A interpretação  de Mia McKenna Bruce é o ponto de destaque da trama: a princípio leve, passo a passo melancólica, até se transformar em um pesadelo psíquico. 

    How to have sex (Inglaterra, 2023), de Molly Manning. Com Mia McKenna Bruce (Tara), Lara Peake (Skye), Enva Lewis (Em), Samuel Bottomley (Paddy), Laura Ambler (Paige).

  • Folhas de outono

    Folhas de outono (Kuolleet lehdet, Finlândia, 2023), de Aki Kaurismaki.

     O gênero conhecido como comédia romântica ou drama romântico é impregnado dos clichês narrativos que permeiam os encontros entre personagens que, naturalmente, caminham para o romance e os obstáculos que se interpõem a viver esse amor. Folhas de outono respeita esses elementos, mas é uma agradável surpresa, pois esses encontros e desencontros são vividos de maneira natural e terna pelos protagonistas. 

    Ansa (Alma Poysti) trabalha como caixa em um supermercado até ser demitida por levar alimentos vencidos, que deveriam ser descartados, para casa. Holappa (Jussi Vatanen) trabalha na construção civil e também é demitido após ser apanhado bebendo em serviço. Duas pessoas e almas solitárias que lutam para sobreviver. O casal se encontra em Helsinque e o envolvimento passa por telefones perdidos, impossibilidade de contato físico e, o mais importante: o quase irremediável alcoolismo de Holappa. 

    O filme conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e concorreu à indicação ao Oscar de Melhor Filme estrangeiro pela Finlândia. O diretor Aki Kaurismaki narra a relação entre Ansa e Holappa por meio de um estilo minimalista, fotografia desbotada e luz suave, diálogos rápidos e cortantes. A solidão do casal nas ruas frias e úmidas de Helsinque é carregada de melancolia, porém com um leve bom humor, algo como a dizer: os dias passam assim. 

  • A voz humana

    A voz humana (The human voice, Espanha, 2020), de Pedro Almodóvar. Uma mulher (Tilda Swinton) está sozinha em seu apartamento, observando as malas de seu namorado que nunca retorna. Com ela, está o cão do homem, que não sabe que também foi abandonado. 

    O curta minimalista de Almodóvar  se passa dentro deste apartamento, ancorando a narrativa em um longo monólogo da mulher enquanto transita pelo ambiente vazio, de cores extravagantes (bem ao estilo Almodóvar). Tilda Swinton é o filme, sua interpretação da mulher obcecada, desesperada, vulnerável e sem destino, transforma o monólogo em uma intensa exposição da intimidade. 

    É o primeiro filme de Almodóvar falado em língua inglesa, baseado na peça de Jean Cocteau. Assim como em Estranha forma de vida, o diretor espanhol trabalha com as características principais dos filmes de curta-metragem: poucos personagens em cena, cenários minimalistas, tempo de narrativa concentrado, conflitos intimistas. A força dos dois filmes, acima de tudo, está na complexidade das relações humanas, da intimidade entre as pessoas.

  • Estranha forma de vida

    Estranha forma de vida (Espanha, 2023). Só mesmo o espanhol Pedro Almodóvar conseguiria homenagear o clássico filme de faroeste, respeitando os elementos narrativos e estéticos do gênero, mas subvertendo de forma ousada as relações entre dois ícones do velho oeste: o xerife e o pistoleiro. 

    Silva (Pedro Pascal) entra na cidade à procura de Jacke (Ethan Hawke), atual xerife. É um reencontro após 25 anos, os dois foram amigos e amantes na juventude. A paixão reacende, os dois passam a noite juntos, mas no dia seguinte a verdade sobre o reencontro vêm à tona: Jacke está na caça de um assassino – o jovem é filho de Silva. 

    Estranha forma de vida foi produzido pela grife de luxo Yves Saint Laurent, tornando o curta-metragem também uma estratégia de storytelling. Almodóvar, claro, teve liberdade para compor uma trama que oscila entre a paixão queer, a rusticidade e a violência do oeste americano. Ethan Hawke e Pedro Pascal estão perfeitos, assumindo com naturalidade e tristeza o belo caso de amor que vivem no filme. 

    No final, Pedro Almodóvar não desaponta o espectador amante dos faroestes: o duelo acontece, de forma brutal, porém terna. 

  • EO

    EO (Polônia, 2022), de Jerzy Skolimowski, acompanha a jornada de um burro cujo olhar triste enternece os espectadores. O veterano diretor polonês se inspirou abertamente no clássico A grande testemunha (1966), de Robert Bresson. 

    EO começa a trama como animal de um circo, amado e cuidado com carinho por sua jovem treinadora. Quando  o burro é confiscador por agentes da lei, devido à proibições sobre o uso de animais em circo, começa a sua peregrinação pelo interior da Polônia e pela Itália. Essa jornada é pontuada por gestos de carinho, tentativas de resgate, brutalidade, retratando as diversas facetas do relacionamento dos humanos com seus animais. EO é um burro de carga que deve suportar os sofrimentos físicos inerentes ao trabalho a que é destinado. 

    O destaque é a narrativa visual, quase desprovida de diálogos, com um trabalho sonoro, incluindo a trilha, marcante. O mundo passa diante dos olhos tristes de EO, testemunha silenciosa e sensível. De cortar o coração.

  • A idade da pedra

    A idade da pedra (França/Brasil, 2013), curta-metragem de Ana Vaz, foi filmado nos arredores de Brasília, focando em uma estrutura monumental, petrificado no meio da paisagem do cerrado. Em torno do monumento, trabalhadores da construção civil buscam o seu sustento sob o sol incremente. 

    A ausência de narração é uma marca nos filmes de Ana Vaz. Em A idade da pedra, o som é responsável por pontuar de forma estridente, outras vezes suave, esta interação desprovida de harmonia entre o homem e a natureza. As imagens e sons levam o espectador a um estado contemplativo, motivando um olhar sensorial nesta intervenção cruel e suicida dos humanos sobre a natureza.

  • É noite na América

    É noite na América (Itália/França, 2022), o primeiro longa-metragem de Ana Vaz, lança um olhar assustador sobre a paisagem do distrito federal. Dominada pelo silêncio, a narrativa fragmentada traz imagens de animais vagando desorientados: jiboia, tamanduá, raposas, rondam as ruas e estradas da cidade. No zoológico, onde residem animais que deveriam estar na natureza, as espécies olham desoladas para os humanos. 

    O documentário é um libelo político e humanista, alertando para a ação do homem sobre a natureza, ação destruidora e desprovida de esperanças de que alguma coisa pode mudar. É noite na América é um profundo convite à reflexão sobre o presente e a possível ausência de futuro de nosso planeta. 

  • Duelo

    Duelo (França, 1976), de Jacques Rivette, é um dos filmes mais experimentais do aclamado diretor da nouvelle-vague francesa. A narrativa acompanha a batalha de dois seres místicos: A Rainha do Sol, Viva (Bulle Ogier) contra a Rainha da Noite, Leni (Juliet Berto). O centro da disputa é um diamante mágico, mas no caminho das duas se interpõe a jovem Lucie (Hermine Karagheuz) e seu irmão Pierre (Jean Babilée), que se torna objeto de desejo das rainhas. 

    O filme é um desfile extravagante de figurinos e cenários, transformando a clássica Paris em um virtuosismo de cores e cenas oníricas. A cidade ganha contornos esótericos como palco, quase sempre noturno, do duelo das rainhas. 

    O filme faz parte do ciclo criado por Jacques Rivette Scènes de la vie parallèle, projeto que seria composto por quatro filmes interconectados, cujas temáticas seriam místicas e míticas, espécie de narrativas paralelas ou realidades alternativas. No entanto, apenas Duelo foi concebido de acordo com a ideia original. 

  • Butterfly vision

    Butterfly vision (Ucrânia/Croácia, 2022), de Maksym Nakonechnyj. Lilya (Rita Burkovska) é especialista ucraniana em reconhecimento aéreo. Ela volta para casa depois de passar vários meses na prisão em Donbas, onde sofreu abusos e tortura. Traumatizada, Lilya passa um tempo em centros de reabilitação, seu passado sempre volta em forma de alucinações. 

    O diretor e roteirista ucraniano Maksym Nakonechnyj desnuda de forma contundente, cruel (atenção para a explosão no apartamento) as cicatrizes, os traumas, as consequência no corpo e na mente da Guerra da Ucrânia. Escolher uma protagonista feminina é um destaque da trama, pois as guerras modernas colocaram as mulheres na linha de frente dos combates. 

    O título “visão de borboleta” é uma alusão ao fenômeno psicológico conhecido como “visão de túnel”, uma metáfora sobre os traumas, em forma de alucinações, para pessoas que passaram por experiências extremas.  O estilo da narrativa é quase documental, com cenas impactantes das visões de Lilya, cuja interpretação naturalista, apesar de carregada de dor, evita o melodrama. 

  • Blue jeans

    Blue jeans (França, 1958), de Jacques Rozier. Com Rene Ferro (Rene), Francis De Peretti (Francis), Elizabeth Klar (Elisabeth), Laure Coretti (Laure). 

    O final dos anos 50 ficou demarcado na França por filmes que finalmente dialogaram com o público jovem que perambulava pelas ruas de Paris e pelas praias e campos: La Pointe Courte (1955), de Agnés Varda, Os primos (1959), de Claude Chabrol, Os incompreendidos (1959), de François Truffaut, Acossado (1959), de Jean-Luc Godard. Em todos esses filmes, o objetivo diário dos jovens é se divertir, alguns inocentemente, outros praticando pequenos delitos ou, no caso de Michel, um assassinato acidental. 

    Jacques Rozier não ficou tão famoso quanto seus contemporâneos que lançaram e consolidaram a nouvelle-vague francesa, mas dirigiu pelo menos um clássico deste período: Adieu Philippine (1963). No curta Blue jeans, aclamado por Godard, Francis e Rene, dois jovens de 17 anos, passam as férias de verão em Cannes e redondezas, andando de Vespa pelas praias, tentando desajeitadamente conquistar garotas. Até que conhecem duas meninas e os quatro passam alguns dias despretensiosamente em cafés, bares e praias. 

    Não há nada a fazer a não ser perambular entre carícias, beijos e romantismo, portanto, nada acontece no filme de Jacques Rozier. O espectador se entrega ao deleite puro de contemplar a beleza dos quatros jovens, emoldurados por uma beleza ainda mais estonteante. Os amigos não têm dinheiro sequer para abastecer as Vespas, mas pouco se preocupam, se preciso largam as motonetas para trás, Querem apenas viver as garotas e vice-versa, aproveitar o sol e os dias luminosos. 

    Não é difícil imaginar o impacto que esses primeiros filmes da nouvelle-vague francesa provocaram nos jovens que cresceram com os traumas da segunda guerra, que estavam sendo convocados para a Guerra da Argélia enquanto saíam para as ruas em protesto. Viver a cada dia, salve Blue Jeans. 

  • Aribada

    O curta Aribada (Colômbia, 2022), de Simon(e) Jaikiriuma Paetau e Natalia Escobar,  filmado na região cafeeira da Colômbia, encantou em festivais, incluindo o prestigiado Festival de Cannes, com suas imagens oníricas, provocativas na união do real, o mágico e o espiritual. 

    A narrativa acompanha Karmen, uma jovem indígena trans, que retorna a sua comunidade no meio da selva colombiana. Aribada, o monstro ressuscitado, conhece um grupo de mulheres trans indígenas do povo Emberá. O grupo se autodenomina Las Traviesas e as mulheres ganham a vida colhendo café.

    O curta, mescla de documentário e ficção, acompanha a dualidade da vida de Karmen, dividida entre o mundo urbano e sua herança indígena. É um reflexivo relato sobre a sexualidade e as questões de gênero dentro do povo indígena Emberá. As imagens induzem a contemplação, com frames que refletem a beleza da região e levam o espectador a se encantar com a leveza espiritual dos indígenas. Sensível, delicado, provocativo, Aribada é uma viagem entre a natureza e as emoções dos personagens. 

  • Antena da raça

    Antena da raça (Brasil, 2020), de Paloma Rocha e Luís Abramo.

    A filha de Glauber Rocha dirige, ao lado de Luís Abramo, esse contundente documentário sobre o maior cineasta do Brasil. A base é o programa Abertura, que Glauber realizou para a TV Tupi no final dos anos 70. O próprio diretor ia para as ruas com sua câmera entrevistar pessoas comuns com sua famosa verborragia repleta de críticas e ironias. 

    Trechos dos filmes de cineastas entremeiam cenas do programa em uma narrativa não linear, provocando associações entre o Brasil dos anos 60, 70 com a atualidade, principalmente em questões políticas. Entrevistados célebres, como o teatrólogo José Celso Martinez e Caetanos Veloso relembram momentos vividos com Glauber Rocha, destacando a rebeldia inerente do artista tanto na vida pessoal como em suas obras fílmicas.  

  • A menina santa

    A adolescente Amália participa de um grupo de jovens católicos. Helena, sua mãe, é proprietária de um hotel onde acontece um congresso médico. Dr. Jano, um dos congressistas, faz carícias na adolescente quando os dois estão espremidos em grupos de rua ou no próprio hotel. 

    O filme de Lucrecia Martel é um estudo sobre fé, misticismo e sexualidade. Amália se aproxima do médico, casado e pai de dois filhos, insinuando-se e aceitando os abusos, pois se sente investida de uma missão divina que pode curar o médico desses desejos. Ao mesmo tempo, Helena se sente atraída pelo Dr. Jano, com a trama resvalando para um intrigante triângulo amoroso repleto de desejo, culpa e condenação. 

    Grande parte da narrativa acontece nos ambientes fechados do hotel, com algumas cenas de rua. A câmera quase claustofócia de Lucrecia Martel percorre quartos, corredores, salões e a piscina, sempre cheios: médicos, funcionários, familiares, se cruzam e interagem em momentos divertidos, tensos, regados à comida e álcool, a sensação é de uma efervescência prestes a explodir. O som é outro ponto de destaque de A menina santa, formado por ruídos, sons que ultrapassam paredes, diálogos insinuantes e metafóricos. 

    A menina santa (La Ninã Santa, Argentina, 2004), de Lucrecia Martel. Com Mercedes Morán (Helena), Carlos Belloso (Dr. Jano), Alejandro Urdapilleta (Freddy), Maria Alché (Amalia), Julieta Zylberberg (Josefina).

  • A felicidade das coisas

    A felicidade das coisas (Brasil, 2021), de Thais Fujinaga, foi feito em parceria com a cultuada produtora Filmes de Plástico e foi escolhido como o melhor longa de estreia na Mostra de Cinema de São Paulo. Paula (Patricia Savay) está passando a temporada de férias com sua mãe e seus dois filhos (ela está grávida do terceiro filho) em uma cidade litorânea de São Paulo. Ela aproveita a estada para terminar a piscina da casa praiana, um sonho da família ou melhor, um sonho de Paula. 

    Esse pequeno e complexo desejo de muitas famílias de classe média e classe média baixa brasileiras é o mote que deflagra uma série de conflitos familiares. A piscina, claro, nunca fica pronta por questões econômicas, o pai ausente não cobre os cheques e atrasa o pagamento dos trabalhadores. 

    O grande conflito gira em torno das relações entre Paula e seus filhos, principalmente o adolescente Gustavo (Messias Góis) que está em sua fase rebelde, em busca de libertação das amarras, e se envolve com um grupo de adolescentes da cidade.  

    A felicidade das coisas traz muito das memórias afetivas da diretora Thaís Fujinaga. A locação é em Caraguatatuba, litoral norte de São Paulo, no Morro do Algodão (bairro formado por casas de praia e um clube de classe média alta), onde a diretora passou vários verões durante os anos 80 e 90. Segundo Thaís “Era uma dinâmica de certa segregação: quem se hospedava no clube não se relacionava com a cidade e muito menos com o bairro. Ao longo dos anos, fiquei circulando dentro e fora daquele lugar e veio daí minha primeira inspiração. Queria explorar esse espaço e a relação de ter ou não acesso a certas coisas.” – Mulher no Cinema

  • A estrada perdida

    A estrada perdida (Lost highway, EUA, 1997), de David Lynch, começa como um tradicional filme de suspense. Fred Madison (Bill Pullman é um saxofonista de jazz que vive em Los Angeles com sua esposa Renee (Patricia Arquette). O casal começa a receber fitas de vídeo com imagens do exterior e do interior da casa onde moram, uma demonstração clara de que estão sendo vigiados. A polícia é acionada, mas nada se descobre. Quando Fred imagina que sua esposa pode estar em um caso extraconjugal, relacionado às fitas, a narrativa envereda por um thriller violento e surrealista, bem ao estilo David Lynch, 

    A película pode ser dividida em duas histórias, ambas com as características do cinema noir, incluindo as femme fatalles, e trocas de idenditades surrealistas, algo como as narrativas distópicas cujos universos paralelos trocam de posições. 

    A frase de David Lynch “os sonhos não têm lógica, mas nós os entendemos” se adapta às complexas personalidade de Fred/Pete. Medos e desejos reprimidos, sonhos em múltiplas visualizações, mistérios insondáveis da natureza humana, a narrativa e a estética da trama desconexa exigem do espectador uma imersão sensorial em todos esses devaneios lynchianos. 

  • A empregada

    Hanyo, a empregada (1960) é um dos maiores sucessos comerciais e de crítica do cinema sul coreano. O remake A empregada (2010) de Im Sang-Soo preserva a história original, transpondo a trama para a atualidade. 

    Eun-yi é contratada como empregada doméstica por Hoon Goh, um rico empresário. Hae-ra, mulher do empresário, está grávida. Eun-yi começa uma relação fraterna e carinhosa com a filha do casal. No entanto, o empresário seduz Eun-yi e os dois começam um perigoso jogo erótico e sexual. A trama resvala para o thriller quando entra em cena a mãe de Hae-ra e as duas começam a ameaçar a empregada. 

    O filme é uma incursão tórrida e violenta no conflito de classes da Coreia, com um final estarrecedor. A interpretação de Jeon Do-yeon no papel da empregada é o ponto alto do filme. De possível vítima, ela entra de forma arriscada em um complexo jogo que envolve intrigas, traições, manipulações e vingança. Eun-yi passa por uma das grandes transformações de personagem do cinema contemporâneo. Ponto para o roteiro.

    A empregada (Coreia do Sul, 2010), de Im Sang-Soo. Com Jeon Do-yeon (Eun-yi Li), Lee Jung-jae (Hoon Goh), Woo Seo (Hae-ra), Park Ji-young (Hae-ra ‘s mother).

  • A carruagem de ouro

    A carruagem de ouro (Le carrosse d’or, França, 1952), de Jean Renoir.

    Um grupo italiano de Commedia Dell’Arte chega a uma colônia espanhola na América do Sul, no século XVIII. O grupo é surpreendido pela rusticidade do local que não tem sequer um teatro para apresentações. Camilla (Anna Magnani), estrela do grupo, se revolta com as condições, mas vai ter que vencer sua frustração pelo amor à sua arte. 

    O filme é uma comédia satírica fortemente marcada pela estética, cores exuberantes, com claras referências às artes plásticas, e pela interseção entre o cinema e o teatro, entre a vida real e a ilusão provocada pelas encenações artísticas. 

    Anna Magnani é o destaque da trama com sua exuberância, seu espontâneo comportamento tanto em em meio à plebe rude quanto  em meio à realeza. Assediada pela paixão de três homens, o vice-rei, um toureiro famoso e um oficial espanhol, Camilla oscila entre suas paixões pessoais, incluindo sua ambição material (o título se refere a uma carruagem de ouro que ela ganha de presente do rei) e seu amor incondicional pela interpretação, pelo teatro. Não é difícil imaginar quem vencerá, em se tratando de um papel interpretado pela majestosa Anna Magnani.

  • A antena

    A antena (La antena, Argentina, 2007), de Esteban Sapir é uma viagem surrealista recheada de homenagens ao cinema, passando pela narrativa do cinema mudo e enveredando por ousadas experimentações estéticas com base no expressionismo alemão, no cinema noir e na animação. Tudo acontece em uma cidade sem voz, os habitantes se comunicam através de legendas visuais. Mr TV (Alejandro Urdapilleta) controla a cidade politicamente e economicamente, usando como estratégia uma televisão que está presente 24 horas na visão e mente de todos. Quando um menino que ainda mantém a capacidade de fala aparece na trama, tudo se encaminha para um thriller de suspense, com duas famílias correndo contra o tempo e contra os criminosos para difundir essa voz por meio de uma poderosa e mágica antena. 

    O cineasta Esteban Sapir critica de forma contundente o consumismo, o poder totalitário que se mantém por meio de poderosos grupos de mídia. O destaque é mesmo o visual deslumbrante, a fotografia em preto e branco pontuada por efeitos especiais que homenageiam as primeiras experimentações visuais que começaram com Georges Méliès. 

  • O desconhecido

    O desconhecido (The Stranger, EUA, 2022), de Thomas M. Wright causou impacto no Festival de Cannes em 2022, quando foi exibido na Mostra Um Certo Olhar. Baseada em uma história real, a trama acompanha um pool de agentes policiais na investigação de um suposto crime que aconteceu dez anos antes: um menino desapareceu perto de uma ponte e nunca foi encontrado. 

    A escritora Kate Kyriacou escreveu o livro  The Sting, contando a saga que se tornou uma das maiores operações policiais da história da Austrália. Henry Teague (Sean Harris) é o principal suspeito. Um grupo de agentes infiltrados partilha de sua jornada, o convencendo a entrar em uma organização criminosa que “apaga” o passado de seus membros. Henry cria uma relação de amizade e confiança com Mark Frame (Joel Edgerton). 

    A montagem não-linear encaminha a narrativa que tem como destaque a relação entre bandido e policial: Mark passo a passo se confronta com princípios éticos e profissionais, principalmente quando descobre o horror do crime. A interpretação de Sean Harris também merece destaque. Solitário, sombrio, o possível criminoso confunde o espectador e a polícia com sua personalidade misteriosa, frágil, talvez doentia. O típico serial killer? Um criminoso frio e dissimulado? Inocente de um crime na verdade nunca esclarecido?