Anos dourados (Golden eighties, França, 1986), de Chantal Akerman.
A experimentalista Chantal Akerman faz uma incursão pelo filme de gênero, sem abrir mão de suas ousadas críticas sociais e morais. A narrativa se passa em um shopping, com cenário estilizado, caricatural, cores exuberantes, assim com os personagens que desfilam figurinos, maquiagens e cabelos em estilos extravagantes, bem anos 80.
A trama principal, misto de musical, comédia e drama, segue um triângulo amoroso formado pelos jovens Pascale e Mado. Ele, filho dos proprietários de uma loja de roupas, ela, cabeleireira no irreverente salão de Lili, que integra o triângulo. Os personagens secundários também narram suas desventuras amorosas do passado e do presente, sempre com o tom de desilusão e solidão da consagrada diretora belga, (cujo filme Jeanne Dielman, hoje lidera a lista de melhor de todos os tempo da Revista Sight & Sound).
Eu, tu, ele, ela (Je, tu, il, elle, França, 1974), de Chantal Akerman.
O primeiro longa-metragem de Chantal Akerman é puro cinema experimental. A própria diretora interpreta Julie que, na primeira parte do filme, está sozinha em seu apartamento. Ela escreve longas cartas, consome doses elevadas de açúcar, anda nua pelo apartamento sem se preocupar em ser vista pelos transeuntes.
Na segunda parte, Julie vai para a estrada e pega carona com um caminheiros. Os dois vagueiam pelas estradas e lanchonetes, ela praticamente silenciosa, ele cada vez mais se enveredando pelas confidências, principalmente sexuais.
Na terceira parte, Julie chega ao apartamento de sua ex-namorada. A princípio, Julie é expulsa de casa pela namorada. Deposi, as duas se entregam a um ousado jogo erótico.
A película é um estudo vigoroso sobre o vazio existencial, sobre o tédio. Chantal Akerman destila ousadia em diversas cenas: a nudez pura de Julie no apartamento, a revelação do motorista que sente desejos pela filha, a entrega sem pudor entre as namoradas no apartamento. O experimento de Chantal Akerman é feito para a entrega contemplativa e reflexiva do espectador.
São apenas cinco personagens em cena, reclusos dentro de um pequeno apartamento. O pianista Stanley mora na pensão do casal Petey e Meg. Não sai de casa e demonstra um comportamento imprevisível, irascível, sujeito a rompantes de violência verbal. A chegada de dois estranhos que se hospedam na pensão pode provocar o trágico aniversário do título.
O filme é baseado na peça homônima de Harold Pinter que colaborou no roteiro. Os dois estranhos chegam à cidade à procura de Stanley, que precisa ser eliminado. O motivo nunca é revelado, há apenas uma alusão ao IRA (Exército Republicano Irlandês).
A direção de William Friedkin utiliza do ambiente claustrofóbico, com ângulos e planos exagerados para aumentar gradativamente a tensão entre os personagens. Os diálogos beiram o surreal, elevando o clima de incompreensão da trama. O final é ainda mais enigmático. Destaque para a atuação de Robert Shaw.
Trágico aniversário (The birthday party, EUA, 1968), de William Friedkin. Com Robert Shaw (Stanley Webber), Dandy Nichols (Meg), Moultrie Kelsall (Petey), Patrick Magee (McCann), Sydney Tafler (Goldberg).
Jogando as fichas fora (Blue chips, EUA, 1994), de William Friedkin.
Peter Belli (Nick Nolte) é treinador de um time de basquete universitário. Após uma série de derrotas, sua carreira entra em declínio e ele revê alguns de seus princípios de ética e honestidade para conseguir um elenco mais talentoso.
Jogando as fichas fora trata de forma ousada das artimanhas efetuadas por grupos para burlar as regras do esporte e lucrar no mercado de apostas (tema sempre atual). O elenco é composto por figuras reais do basquete, incluindo Shaquille O’Neal, o célebre treinador Bobby Knight e comentaristas esportivos. As cenas dos jogos são emocionantes, um admirável trabalho da equipe de cinegrafistas e da direção de fotografia.
Uma curiosidade: a sequência final termina em uma “enterrada” fantástica de Shaquille O’Neal. O cinematógrafo Tom Priestley Jr. conta que Bobby Knight fez de tudo para que seus jogadores impedissem essa jogada, pois não aceitava perder um jogo nem mesmo em uma trama cinematográfica.
Um golpe muito louco reconstitui o célebre assalto realizado em 1950 à companhia Brink’s de Boston, considerado na época o maior roubo da história dos EUA. O ítalo-americano Tony Pino (Peter Falk) reúne uma trupe de assaltantes de pequeno porte, meio atabalhoados, para executar o assalto. William Friedkin fez uma rigorosa retratação de época, incluindo estudos minuciosos para reproduzir o local do crime.
O tom da película é o humor, conferindo aos bandidos uma aura de criminosos desastrados que cai no gosto do público. O destaque da película é o elenco, liderado pela interpretação primorosa de Peter Falk.
Um golpe muito louco (The Brink’s job, EUA, 1978), de William Friedkin. Com Peter Falk, Peter Boyle, Warren Oates, Gena Rowlands, Allen Garfield, Paul Sorvino, Gerard Murphy, Kevin O’Connor.
Quando o strip-tease começou (The night they raided Minsky’s, EUA, 1968), de William Friedkin.
Em 1925, Rachel Schpitendavel (Britt Ekland), uma jovem criada em uma comunidade Amish, chega a Nova York, fugindo da dominação religiosa do pai. O sonho de Rachel é ser dançarina de palco. Ela logo encontra a trupe que se apresenta no teatro burlesco dirigido por Minsky (Elliot Gould). A trupe oferece a Rachel uma apresentação especial à meia-noite, que, na verdade, seria uma farsa para burlar a vigilância repressiva das ligas de decência da cidade. Durante a apresentação, a jovem acaba inventando, por acaso, o strip-tease.
No início da carreira, William Friedkin assume o tom libertário, provocador e irreverente da Nova Hollywood. Quando o strip-tease começou é uma junção de esquetes cômicas nonsenses, números musicais fragmentados, fotografia que oscila entre o preto e branco e as cores exuberantes. O início do filme é uma bela homenagem ao cinema mudo.
Em 2022, a respeitada Revista Sight & Sound atualizou a lista dos 100 melhores filmes da história (publicada de dez em dez anos). Jeanne Dielman (Jeanne Dielman, 23 Quai Du Commerce, 1080, Bruxelles, Bélgica/França, 1975), a obra prima de Chantal Akerman assumiu o topo da lista.
O filme tem mais de três horas de duração e acompanha três dias na vida da protagonista. Jeanne (Delphine Seyrig) mora com o filho adolescente e, para o sustento, recebe homens durante o dia em seu apartamento. Prepare-se para uma imersão na vida cotidiana: a câmera sempre estática, à distância e ligeiramente baixa (a lá Ozu) acompanha as tarefas da dona de casa na cozinha, na mesa de jantar, tomando banho, limpando o banheiro. Tudo em longos planos, quase sem cortes. É um filme silencioso e perturbador pela duração das cenas. No final, um ato inesperado encerra essa trama sem trama, um primor estético e de linguagem do cinema não-narrativo.
“Por mais difícil que seja o filme, traz recompensas consideráveis que estão, muitas vezes, inexoravelmente ligadas à sua duração. Por um lado, a tese feminista de Akerman é transmitida com urgência por conta de sua decisão de mostrar a vida de Jeanne em seus mínimos detalhes. Não basta para Akerman sugerir o tédio da existência abnegada de sua protagonista – em vez disso, ao apresentar explicitamente sua insípida rotina em tempo real, Akerman habilmente transmite o vazio sufocante que, no final das contas, é o que impulsiona Jeanne em direção a seu trágico ato final.”
Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
La amiga de mi amiga (Espanha, 2022), de Zaida Carmona, é uma representação do amor livre entre mulheres. Zaida, jovem roteirista, termina com sua namorada e volta para Barcelona. Curtindo uma espécie de ressaca, ela sai com grupos de amigas, conhece uma diretora de cinema em ascensão e acontece uma troca de casais.
É um filme leve e despretensioso ambientado em apartamentos, bares e cinemas de Barcelona. É também uma homenagem aos filmes de relacionamentos entre jovens, demarcada pelo fascínio de Zaida pelo cinema de Eric Rohmer. Ela frequenta as sessões de uma mostra de Rohmer que acontece na cidade. A trilha sonora, composta pela música eletropop é um dos destaques da película.
O caso dos Irmãos Naves (Brasil, 1967), de Luis Sérgio Person, é baseado em um caso verídico que aconteceu em 1937, durante o Estado Novo, ditadura implantada no Brasil por Getúlio Vargas. Em Araguari, interior de Minas Gerais, Benedito Pereira Caetano, um comerciante endividado, foge da cidade com 90 contos de réis. Joaquim Rosa (Raul Cortez) e Sebastião (Juca de Oliveira), os irmãos Naves, procuram a polícia para denunciar o desaparecimento do comerciante. Durante a precária investigação, eles são acusados de assassinar Benedito. Esse caso é considerado um dos maiores erros judiciais da história do Brasil. Após a prisão, os irmãos são torturados a mando do delegado da cidade (Anselmo Duarte) para que confessem o crime que não cometeram.
Dois anos antes, Luís Sérgio Person realizou São Paulo Sociedade Anônima, com uma narrativa e estilo mais próximos do Cinema Novo. Em O caso dos Irmãos Naves, o diretor adota um estilo clássico, pois queria fazer um filme denúncia que dialogasse com o grande público.
“Person mexeu com a arquitetura de seu filme, criando sequências poderosas e incrivelmente bem montadas e fotografadas, como aquela em que o espectador descobre ao longo de um depoimentos forçado que os irmãos já vinham sendo torturados. À medida em que o delegado obriga que a testemunha concorde com a versão que criou para a história, takes rápidos e sem trilha sonora ou áudio ambiente em que os Naves são espancados pela polícia invadem a cena para mostrar para o público o que acontece nos bastidores. Sem fazer juízo de valor, apenas fornecendo a informação, Person traz o espectador para a condição de testemunha da injustiça, permitindo que ele mesmo desenvolva seu sentimentos para com o caso.” – Chico Fireman.
O idiota(Hakuchi, Japão, 1951), de Akira Kurosawa, faz uma releitura do clássico livro de Fiódor Dostoiévski. A trama é adaptada para o Japão pós Segunda Guerra Mundial. Kameda (Masayuki Mori) lutou na guerra e sofre de epilepsia. Sua personalidade é marcada por uma ingenuidade extrema, ele é capaz de atos de bondade e não espera nada em troca de ninguém. Para a sociedade, é quase um idiota. Kameda desperta o interesse de duas mulheres: Taeko Nasu (Setsuko Hara) e Ayako (Yoshiko Kuga).
Kurosawa ousou ao ambientar a trama em um período carregado de cinismo, corrupção moral, caos social e profundas diferenças de classes. Nesse contexto, Kameda representa a bondade em uma sociedade composta por pessoas más. A linguagem cinematográfica de O idiota é demarca por planos lento e uma fotografia que expressa a melancolia, tristeza e desilusão da sociedade japonesa após a tragédia da guerra.
O sol brilha na imensidão (The sun shines bright, EUA, 1953), de John Ford.
O Juiz Priest (Charles Winninger) apareceu pela primeira vez no filme Judge Priest (1934), do próprio John Ford. O sol brilha na imensidão é uma espécie de continuação, fato raro no cinema clássico americano do período.
William Priest segue demonstrando sua dignidade, senso de justiça e humanismo. Ele é juiz de uma pequena cidade do Kentucky, sul dos Estados Unidos, região demarcada pelo racismo que atinge níveis de violência extrema. O Juiz Priest agora tem em mãos dois casos que evidenciam o preconceito da sociedade sulista. Uma prostituta retorna à cidade e é rejeitada por todos; após a sua morte, ela não pode nem mesmo ter um enterro digno. Um jovem negro é acusado injustamente de um crime e está prestes a ser linchado pela população.
Priest está disputando a reeleição para o cargo e sua corajosa atitude na defesa dos dois casos faz com que ele se indisponha com os eleitores. John Ford carrega sua narrativa com o idealismo e humanismo do Juiz, simbolizado em uma sequência emocionante: mesmo arriscando perder a eleição, Priest organiza e segue à frente do enterro da prostituta, encarando com altivez a sociedade.
Um crime por dia (Gideon’s day, EUA, 1958), é um raro filme policial de John Ford. A trama, adaptada do romance homônimo de John Creasey, acompanha um dia na vida do policial George Gideon (Jack Hawkin. O inspetor tenta desvendar com agilidade casos que incluem o roubo de uma joalheria, um assassinato e até mesmo corrupção interne em seu departamento de polícia. Enquanto isso lida com questões familiares.
Inteiramente filmado em Londres, Um crime por dia é uma trama policial leve, sem grandes reviravoltas. Ford explora o lado humano do policial, sem enveredar por aspectos dramáticos, ao contrário, tratando tudo com bom humor, principalmente na relação amorosa na qual a sua filha se envolve durante esse atribulado dia. São 24 horas na vida do inspetor que, claro, podemos também classificar de uma pessoa comum, trabalhadora e apegada à família.
Peregrinação (Pilgrimage, EUA, 1933), de John Ford. Com Henrietta Crosman (Henrietta Crosman), Marion Nixon (Mary Saunders), Heather Angel (Suzanne), Norman Foster (Jim Jessop).
A viúva Hannah Jessop é uma mãe opressora e autoritária com Jim seu único filho. Ela não aceita o namoro do filho com Mary, uma jovem de classe social mais baixa e, para impedir o casamento, alista Jim para lutar na Primeira Guerra Mundial.
Esse filme menos conhecido do aclamado diretor John Ford é um relato sensível sobre a perda, luto e sentimento de culpa. Quando recebe a notícia da morte de seu filho nos campos de batalha, Hannah Jessop empreende uma jornada de redenção. A peregrinação do título acontece quando ela aceita participar de um programa do governo americano que leva as mães para a Europa para visitar os túmulos dos filhos mortos durante o conflito.
O destaque do filme é a atuação de Henrietta Crosman. A atriz contribui de forma decisiva neste melodrama, um gênero que John Ford investiu pouco em sua longa carreira.
Legião invencível (She wore a yellow ribbon, EUA, 1949), de John Ford, é o segundo faroeste da Trilogia da Cavalaria, que se completa com Forte Apache (1948) e Rio Grande (1950). O Capitão Nathan Brittles (John Wayne) está a dias de se aposentar quando recebe uma perigosa missão: escoltar a mulher e a sobrinha do comandante do forte em território controlado pelos índios.
A trama é um tributo de Ford ao exército americano, ressaltando a nobreza do Capitão, os laços emocionais que se criam entre os soldados, com a camaradagem aflorando a cada sequência. O tom de melancolia e saudosismo permeia a trajetória de Nathan – as cenas mais sensíveis do filme acontecem quando o Capitão coloca seu banquinho ao lado do túmulo de sua esposa e conversa com ela.
A película foi realizada, como de costume nos filmes de Ford, no Monument Valley, com bela fotografia (vencedora do Oscar daquele ano) em Technicolor de Winton C. Hoch. John Wayne, eterno colaborador de Ford, tem uma de suas atuações mais sensíveis e contidas, emanando sentimentos ternos para seus comandados, para as mulheres que escolta, para o velho índio a quem respeita.
O homem que nunca pecou (The whole town ‘s talking, EUA, 1935), de John Ford. Com Edward G. Robinson, Jean Arthur, Arthur Hobi.
O ponto de destaque deste drama policial de John Ford, resvalando para o humor negro, é o ator Edward G. Robinson, figura tarimbada do gênero noir. Ele interpreta dois personagens: Arthur Ferguson Jones, um pacato (quase O idiota de tão ingênuo, nobre e honesto) funcionário de escritório, é confundido com Killer Mannion, um notório e cruel gangster que acaba de fugir da prisão. A incrível semelhança entre os dois coloca Arthur na mira da polícia, acarretando sua prisão e uma série de reportagens na imprensa.
Essa trama simples, de fácil resolução pela polícia, tem uma reviravolta: Mannion se aproveita da semelhança e assume a identidade do funcionário para continuar praticando seus crimes.
O talento de Robinson no papel duplo se revela a cada momento. Sua face, seu olhar, seu comportamento mudam de forma assustadora. Quando ele é Arthur, a ingenuidade está expressa em olhares, falas e gestos tímidos, o medo dominando . Quando Mannion entra em cena, seu olhar é o próprio terror, por si só uma ameaça à sociedade. A virada final, quando os duplos assumem a identidade um do outro traz um tom de psicanálise à trama, com toques de humor e críticas à sociedade que rotula as pessoas.
Homem morto (Dead man, EUA, 1995), de Jim Jarmusch
Após uma quase interminável viagem de trem, o “almofadinha do leste” William Blake (Johnny Depp) chega a Machine, no Oeste americano, para assumir um cargo de contador. Como demorou muito para chegar, o cargo já havia sido preenchido e, sem dinheiro, Blake passa a noite com uma prostituta. De manhã, o noivo dela aparece no quarto e, após um tiroteio, a prostituta e o noivo morrem.
O que Blake não sabe é que seu destino está selado: o homem que matou no quarto é filho do empresário que o contrataria, um violento e sádico homem do Oeste. Em sua fuga, Blake encontra Ninguém, um índio culto que viveu na Inglaterra, que se torna seu único aliado.
“ Este filme de Jim Jarmusch é um ensaio sobre a contemplação, que seduz através da cinematografia em preto-e-branco de Robby Muller (influenciado por Ansel Adams), do violão primorosamente simples de Neil Young e da interpretação delicadamente poética de Depp. (…). Muito da narrativa e violência em Homem morto é monótona e indiferente, em especial o comportamento obstinado, quase catatônio de Cole Wilson (Henriksen), que não chega a ser um matador a sangue-frio, mas um que não tem sangue algum. O silêncio que impregna o grande vazio do Oeste, a bétula prateada deslizando enquanto William cavalga pela floresta, a objetividade de Ninguém à medida que pratica rituais não muito compreensíveis para um homem não muito consciente convergem para uma evocação quase ininteligível de pessoa, lugar e momento. Quando, ao final, Ninguém empurra William para dentro de um grande lago, a canoa-espírito desliza para o outro mundo, uma visão que relembra o rei Arthur, morto, sendo levado para Avalon.”
Homem morto (Dead man, EUA, 1995), de Jim Jarmusch. Com Johnny Depp, Gary Farmer, Lance Henriksen, Michael Wincott, Iggy Pop, Gabriel Byrne, Robert Mitchum.
Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
Trem mistério (Mystery train, EUA, 1989), de Jim Jarmusch, é composto por três histórias que se entrelaçam em um hotel decadente, em Memphis. Na primeira, um jovem casal japonês chega à cidade e visita Graceland. Eles são fanáticos por rock e querem conhecer tudo sobre o legado musical de Elvis Presley.
A segunda história acompanha Luísa, uma viúva italiana que, após despachar o caixão do marido para a Itália, se vê sem rumo na cidade. Ela também se hospeda no hotel, dividindo o quarto com uma moradora local. Durante a noite, a italiana é visitada pelo fantasma de Elvis Presley.
Nesse mesmo hotel, uma gangue de jovens se esconde após praticar um assalto. Johnny, conhecido como Elvis, está em depressão, motivada pelo abandono da namorada. A terceira história é recheada de violência e humor, bem ao estilo Jim Jarmusch.
As três histórias se passam na mesma noite e os hóspedes são recebidos por uma dupla surreal de porteiros. Trem mistério é uma grande homenagem, recheada de nostalgia, à cultura pop dos EUA, representada por Elvis Presley e por Memphis que carregam, assim como o hotel e seus hóspedes, uma certa decadência.
Uma noite sobre a terra (Night on earth, EUA, 1992), de Jim Jarmusch, desenvolve a narrativa em formato episódico. São cinco histórias que acontecem dentro de táxis, em cinco cidades: Los Angeles, Nova York, Paris, Roma e Helsinque.
Os gêneros das histórias variam entre drama e comédia, principalmente. Em Los Angeles, Winona Ryder vive uma motorista cool, irreverente em seu jeito de vestir, se comportar e falar. O choque acontece quando sua passageira, uma executiva de um estúdio de cinema, se interessa pela jovem motorista e a convida para fazer um teste para um filme.
Esse episódio determina o tom dos demais: narrativas baseadas em extensos diálogos dentro dos veículos, às vezes beirando o absurdo, como no ótimo capítulo passado em Roma. Roberto Benigni transporta um padre em seu carro e quase de forma surreal começa a contar ao padre suas experiências sexuais.
As outras três narrativa mesclam ações de solidariedade a um imigrante perdido em Nova York em sua primeira viagem como motorista, questões filosóficas e raciais debatidas entre um motorista negro e a passageira cega (Paris) e uma tragédia pessoal, recheada de aspectos melancólicos e sombrios. Em Helsinque, o motorista conta sua trágica história para um grupo de passageiros bêbados.
Estranhos no paraíso (Stranger than paradise, EUA, 1984), de Jim Jarmusch, tem um lugar na lembrança de todo cinéfilo que aprendeu a amar os road-movies a partir dos anos 70. A narrativa acompanha a jornada de três jovens, os húngaros Willie (John Lurie) e Eva (Eszter Balint) e o americano Eddie (Richard Edson). Os três embarcam em uma jornada rumo à Califórnia, meio sem rumo e sem dinheiro, bem ao estilo underground da geração perdida dos anos 80.
A história é contada em três capítulos: A Chegada de Eva, Cleveland e Paraíso. O tom de passividade e quase alienação dos jovens é pontuado pela bela fotografia em preto e branco, planos longos, resultando em um ritmo lento, diálogos mínimos entre os três viajantes e trilha sonora composta por música húngara e rock and roll. É o olhar melancólico, porém com um leve bom humor, de Jarmusch sobre o american way of life.
Uma curiosidade genial sobre o filme está no depoimento de Wim Wenders, outro gênio do road-movie, sobre como o acaso fez com que ele ajudasse Jim Jarmusch a realizar Estranhos no paraíso.
“Tem um filme que preciso mencionar: Estranhos no Paraíso. Jim Jarmusch era um assistente muito quieto no filme que eu fiz com Nicholas Ray, Um Filme para Nick. Jim tinha uma banda de rock, uma ótima banda, por sinal, mas queria fazer cinema. Ele era muito modesto, quieto, não falava muito. Um dia, no final das gravações, ele veio ao meu escritório, em Nova York. Abriu a geladeira, sem imaginar que não havia uma garrafa de Coca-Cola ali dentro, e sim restos de filme. Particularmente duas grandes caixas de negativos em preto-e-branco, 35 milímetros, que restaram das gravações de O Estado das Coisas. Eu não tinha usado aqueles negativos, o que é estranho, porque sempre uso meus filmes até o último metro. Mas aqui estavam quatro caixas intocadas de sobras de filme. Comecei a perceber que Jim vinha todo dia, sempre abria a geladeira e ficava olhando fixamente para aquelas caixas. Ele não dizia nada, até que um dia finalmente me diz: “o que você vai fazer com estes negativos?” Eu lhe disse: “não tenho um projeto em preto-e-branco agora, então não vou fazer nada por enquanto”. Jim volta para a geladeira, abre a porta, mais uma vez olha fixamente para os filmes e me diz: “você pode dá-los pra mim?”. Disse-lhe: “claro, melhor fazer algo com eles antes que envelheçam aí”. Então ele vai e faz Estranhos no Paraíso. Ele filmou em 1984, e eu só vi o filme uns dois anos depois. Jim ganhou, com este filme, a Câmera de Ouro no Festival de Cannes [para diretores estreantes]. Eu… hum, não deveria dizer isso, mas ganhei a Palma de Ouro com Paris, Texas, e naquela noite nós dois éramos os homens mais felizes deste planeta. Nós jogamos pinball a noite toda, ficamos terrivelmente bêbados, e estávamos tão felizes um pelo outro. Quero dizer, eu estava orgulhoso de ter ganhado a Palma de Ouro, mas o fato de Jim ter ganhado a Câmera de Ouro era algo muito melhor. Jim sentia o mesmo. Ainda o vejo olhando para aquela geladeira. Às vezes, é o que basta.” – Palavras de Cinema
Férias permanentes (EUA, 1980), primeiro longa-metragem de Jim Jarmusch acompanha o jovem Allie (Christopher Parker) em suas andanças por uma Manhattan quase distópica, formada por ruas e prédios vazios, o lixo se aglomerando pelas ruas e um ar decrépito pairando sobre tudo. O filme custou apenas 12 mil dólares e representou uma espécie de divisor de águas para o cinema indie americano, consagrando o diretor.
Parker não estuda, não trabalha, vive deambulando sem rumo, é o típico representante de uma cidade caótica, que entre os anos 70 e 80 atingiu níveis estratosféricos de violência urbana. Jim Jarmusch compôs a deprimente trilha sonora de Férias permanentes, cuja sensação de melancolia e introspecção está presente também na fotografia fria e no estilo de câmera quase documental.