Categoria: Filme

  • Lar dos esquecidos

    O terror parece ser o gênero da segunda década do século XXI. Basta ver a quantidade de produções que são lançadas nos diversos streamings. Lar dos esquecidos, produção alemã disponível na Netflix, segue as normas do gênero, além de fazer referência explícita ao clássico A noite dos mortos vivos (1968), de George Romero. 

    A narrativa abre com um brutal assassinato: um idoso mata sua cuidadora, massacrando sua cabeça com um cilindro (referência à aterradora cena de Irreversivel). Corta para Ella dirigindo em uma estrada com seus dois filhos. O destino é a sua cidade natal, um povoado com poucos moradores, a maioria deixou a cidade. Restou aos idosos da cidade uma casa de repouso, onde foram praticamente abandonados pelos parentes. 

    Na noite do casamento da irmã de Ella, os idosos se revoltam, acometidos por uma espécie de vírus que os torna violentos e sanguinários. Segue-se um massacre na cidade, com os idosos sitiando a casa onde aconteceu a festa. É a noite dos mortos vivos, no caso, idosos abandonados, relegados a uma vida solitária e sem perspectivas em uma casa de repouso decrépita. Terror e crítica social se misturam em Lar dos esquecidos.  

    Lar dos esquecidos (Old people, Alemanha, 2022), de Andy Fetscher. Com Melika Foroutan (Ella), Louie Betton (Alex), Paul Fassnacht (Aike), Ott Emil Koch (Noah), Stephan Luca (Lukas), Anna Unterberger (Kim). 

  • A garota e a aranha

    O filme dos irmãos Zurcher faz parte da tradição do cinema intimista europeu, regido pela simplicidade técnica, mas com intensa força poética. Tudo se passa em uma casa, onde os moradores estão se preparando para uma mudança. Enquanto empacotam objetos, carregam caixas, tentam organizar o caos tradicional desses momentos, cada um se despede à sua maneira um do outro, do lugar, das lembranças. 

    Lisa transita pelos ambientes em silêncio quase profundo, tocando em objetos, em uma aranha, gestos sutis de quem deixa uma importante fase da vida para trás. O casal Mara e Markus se movimentam apressados pelos ambientes, pintam paredes. Astrid, a mãe, cuida com carinho de tecidos e comanda os funcionários encarregados da mudança, dos consertos. A narrativa revela, através destes gestos simples e cotidianos das personagens, os mistérios insondáveis da alma quando nos despedimos de pessoas e coisas queridas.  

    A garota e a aranha (Das mädchen und die spinne, Suiça, 2021), de Ramon Zurcher e Silvan Zurcher.  Com Henriette Confurius (Mara), Liliane Amuat (Lisa), Ursina Lardi (Astrid), Ivan Georgiev (Markus). 

  • A comuna

    Erik, professor de arquitetura, é casado há 15 anos com Anna, uma influente apresentadora da televisão norueguesa. Erik recebe uma enorme casa de herança e para conseguir manter os custos da residência, o casal convida vários amigos para morarem juntos, formando uma comunidade. As decisões cotidianas são resolvidas em reuniões à mesa, lideradas por Ole. A harmonia da comunidade ameaça ser rompida quando Erik se apaixona por Emma, uma aluna. Após uma separação amigável, Erik leva Emma para morar na comunidade. 

    Thomas Vinterberg (Festa de família), ambienta essa comunidade conflituosa, mas ao mesmo tempo regida pelas leis da amizade, nos anos 70. Os adultos às vezes explodem em crises histéricas, outras vezes se regalam à vinho e olhares cúmplices na mesa. A liberdade sexual está expressa no comportamento de Erik e Anna, no entanto, ela se mostra passo a passo despreparada para essa maturidade compreensiva. 

    O contraponto dos adultos é o menino Vilads – ele tem problemas cardíacos e diz a todo mundo que conhece: vou morrer quando fizer nove anos – e a adolescente Freja, filha do casal, que assiste a tudo entre o deslumbramento e a decepção. A grande e tocante sequência do filme é quando Vilads se deita nos ombros da mãe olhando com o olhar terno para Freja, que acaba de apresentar seu namorado à comunidade. 

    A comuna (Kollektivet, Dinamarca, 2016), de Thomas Vinterberg. Com Trine Dyrholm (Anna), Ulrich Thomsen (Erik), Helene Reingaard Neumann (Emma), Martha Sofie Wallstrom Hansen (Freja), Lars Ranthe (Ole), Fares Fares (Allon), Magnus Millang (Steffen), Anne Gry Henningsen (Ditte), Julie Agnete Yang (Mona), Sebastian Gronnegaard Milbrat (Vilads).

  • Merry-go-round

    O diretor Jacques Rivette se aventura por uma trama com ar de thriller policial. Elisabeth envia telegramas para o ex-namorado Ben, em Nova York, e para a irmã Léo em Roma. Os dois devem se juntar a ela em Paris para ajudá-la a vender as casas do pai, recém-falecido. No entanto, Elisabeth desaparece assim que Ben e Léo chegam em uma das casas. Os dois começam, então, uma estranha investigação sobre o paradeiro da jovem, passando por várias cidades e por outros relacionamentos também estranhos. 

    A aventura policial resvala para dramas emocionais, filmados em caráter quase experimental pelo diretor. Tudo se resolve de forma simplista, o que interessa à Rivette é acompanhar as relações que se criam ao longo da narrativa, também sem profundidade. Merry-go-round faz parte de um gênero de sucesso, principalmente a partir dos anos 70: o road-movie. No entanto, o filme foi um fracasso de público e crítica, tendo como único atrativo trazer nos papéis principais duas estrelas: Maria Schneider e Joe Dallesandro.

    Merry-go-round (França, 1981), de Jacques Rivette. Com Maria Schneider (Léo), Joe Dalessandro (Ben), Danièle Gégauff (Elisabeth), Sylvie Matton (Shirley). 

  • Iluminação

    O filme abre com o Professor Wladyslaw Tatarkiewicz discursando para o espectador sobre o conceito de iluminação, definido por Santo Agostinho. A seguir, uma série de cenas do jovem Franciszek Reitman passando por provas físicas e psicológicas, visando sua aprovação em uma conceituada universidade polonesa para estudar física. 

    A narrativa acompanha os conflitos psicológicos de Franciszek durante seus estudos e sua convivência social. É um embate entre a razão e a fé, entre o racionalismo e a emotividade. Tudo se transforma para o jovem estudante quando ele se apaixona, casa e tem um filho. 

    Ao acompanhar dez anos na vida de Franciszek, o diretor Krzysztof Zanussi tece uma profunda reflexão sobre a juventude polonesa do pós-guerra que busca sentido para a vida na sociedade regida pelo comunismo. Promessas que não se cumprem, amores que devem sobreviver ou não às dificuldades cotidianas, a busca pelo trabalho, pelos estudos, o essencial contraponto entre a fé e a razão, é a Polônia refletida em um cinema poderoso e poético. 

    Iluminação (Iluminacja, Polônia, 1973), de Krzysztof Zanussi. Com Stanislaw Latallo (Franciszek Retman), Monika Dzienisiewicz (Agnieszka), Małgorzata Pritulak (Małgorzata). 

  • Francis Ford Coppola – O apocalipse de um cineasta

    As filmagens de Apocalypse Now (1979) foram uma das mais conturbadas da história do cinema. Francis Ford Coppola, equipe e família, se embrenharam durante 238 dias nas selvas Filipinas, convivendo com tempestades, insetos em profusão, doenças que afetavam a equipe (o protagonista Martin Sheen, então com 36 anos, sofreu um ataque cardíaco sério e ficou afastado cinco semanas). Coppola conviveu com tudo isso, chegando a níveis insuportáveis de exaustão que resultaram em discussões homéricas com membros da equipe, além de incontáveis sinais de que desistiria do projeto. Eleanor Coppola, esposa do cineasta, registrou dia-a-dia o caos, através de filmagens, anotações em seu diário e gravações de suas conversas com Coppola.  

    “O Apocalipse de um cineasta” é amplamente considerado como um dos melhores filmes no subgênero vagamente conhecido como documentários de ‘making-of’, em grande parte graças ao acesso de seus criadores a materiais de fontes primárias que, normalmente, seriam extremamente difíceis de se obter. Entre as coisas a destacar (a descartar, do ponto de vista dos envolvidos): interrupções no local de filmagem provocadas pelas forças armadas filipinas; confissões cada vez mais pessimistas de insegurança e desânimo feitas pelo diretor à esposa; o ator Martin Sheen sofrendo um ataque cardíaco durante as filmagens, além de discussões acaloradas entre Coppola e dois dos principais membros do elenco, Dennis Hopper (aparentemente maconhado o tempo todo e incapaz de lembrar suas falas) e Marlon Brando (que apareceu no local das filmagens gordo e sem ter lido o romance de Conrad). Acrescente-se a isso a demissão do ator principal originalmente contratado, Harvey Keitel; um enorme tufão que destruiu diversos cenários; a eterna insatisfação de Coppola com a conclusão de seu filme. Considerando, ainda, o fato de que um projeto originalmente prevista para ter 16 semanas de filmagem acabou levando mais de três anos para ser finalizado, somos obrigados a concluir que os criadores de O apocalipse de um cineasta sabiam que tinham nas mãos um mina de ouro em forma de ‘making-of’.” 

    Francis Ford Coppola – O apocalipse de um cineasta (Hearts of darkness: a filmmaker ‘s apocalypse, EUA, 1991), de Fax Bahr e Eleanor Coppola. Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Aloners

    Jina (Gong Seung-Yeon), trabalha no centro de atendimento telefônico de uma empresa de cartão de crédito. Ela vive sozinha e evita qualquer tipo de relacionamento mais próximo, inclusive com seu pai. Considerada a melhor funcionária da empresa, sua chefe a incube de treinar uma nova atendende. Contra sua vontade, Jina aceita, mas não demonstra interesse nenhum na evolução da atendente. 

    Aloners reflete o título: o grande tema do filme é a solidão em uma sociedade marcada pelas relações eletrônicas, frias. Jina passa seus dias aceitando e reforçando seu comportamento solitário. No entanto, a visão misteriosa de um fantasma no corredor do prédio onde ela mora pode traçar novos rumos. 

    O grande momento do filme é um diálogo telefônico de um cliente que diz ter inventado uma máquina do tempo e precisa de um cartão de crédito que funcione em 2002. Questionado pela jovem atendente sobre porque ele deseja voltar a 2002, o cliente responde: por causa da Copa do Mundo Coreia/Japão, quando as pessoas se encontravam nas ruas, nos estádios, se abraçavam emocionadas. 

    Aloners (Coreia do Sul, 2021), de Hong Sung-Eun. 

  • O poder da inquisição – As excomungadas de São Valentin

    O historiador Mark Cousins disse que o cinema dos anos 70 trouxe aquilo que sempre quisemos ver nas telas. Está se referindo a nudez, sexo, violência. Sergio Grieco, diretor italiano do movimento conhecido por nunsploitation, faz parte desta galeria de realizadores que invadiram o cinema da época com filmes ousados, polêmicos, recheados de erotismo, sem se preocupar com o bom gosto. 

    As excomungadas de São Valentin narra uma história de amor baseada em Romeu e Julieta. Esteban, da nobre família Albornoz, é apaixonado por Lucita Fuentes, cujo pai, Alfonso Fuentes, não aceita esse namoro, pois as duas famílias são rivais eternas. Como punição, Lucita é enclausurada em um convento Para completar, Alfonso acusa falsamente Esteban de um homicídio, tornando-o foragido da justiça. Perseguido pelos guardas, Esteban, ferido, se refugia no convento onde Elisa está. 

    O filme se passa inteiramente dentro do convento. Elisa é asseadiada por Josefa, sua colega de quarto lésbica (atenção para a cena em que Josefa se acaricia nua na cama de Elisa). Logo depois, Josefa é assassinada e mistérios começam a ser investigados, revelando o sadismo sexual da Madre Superiora. 

    A película é recheada de cenas de nudismo (seios das freiras aparecem em profusão), tortura praticada pela inquisição e uma sequência aterradora de amparedamento das freiras. Depois de tanto atrevimento, abusando do gosto duvidoso, Sergio Grieco brinda o espectador com uma virada na história de Romeu e Julieta. 

    O poder da inquisição – As excomungadas de São Valentin (Le scomunicate de San Valentino, Itália, 1974), de Sergio Grieco. Com Françoise Prévost (Madre Superiora), Jenny Tamburi (Lucieta Fuentes), Paolo Malco (Esteban Albornoz), Franco Ressel (Alfonse Fuentes), Gino Rocchetti (Joaquim), Bruna Beani (Josefa).

  • Fabian – O mundo está acabando

    A melancolia, angústia e desesperança da República de Weimar determina o contexto histórico do filme. Aos jovens, resta apenas aproveitar a boemia das noites de Berlim, enquanto tentam inutilmente estudar, trabalhar, sonhar com atividades artísticas. 

    Fabian é um jovem publicitário que trabalha para uma empresa de cigarros. Ele conhece e se apaixona por Cornelia, uma bela e ambiciosa atriz. Seu melhor amigo é Labude, filho de um rico industrial que vive em bordéis, bêbado, enquanto tenta concluir sua dissertação de mestrado sobre literatura. 

    Fabian perde seu emprego, é abandonado por Cornelia que se envolve com um produtor de filmes, Labude entra em uma jornada depressiva movida a álcool e prostitutas. Tudo caminha para essas incertezas sombrias que pairam sobre a Alemanha pré-nazismo, sobre a Europa, sobre a humanidade. Dois momentos trágicos simbolizam que não existe mesmo futuro para esses jovens sonhadores. 

    Fabian – O mundo está acabando (Fabian oder der gang vor die hunde, Alemanha, 2021), de Dominik Graf. Com Tom Schilling (Jacob Fabian), Albrecht Schuch (Labude), Saskia Rosendahl (Cornelia).

  • Expresso para Bordeaux

    Expresso para Bordeaux é o último filme do consagrado Jean-Pierre Melville, diretor que se destacou pelas suas ambições técnicas e narrativas, se aproximando do chamado “cinema de qualidade” francês. A narrativa acompanha um triângulo amoroso entre os amigos Edouard e Simon, ambos apaixonados por Cathy. É um filme policial com as características do cinema noir (Melville queria homenagear o gênero do cinema que mais amava, o americano). 

    Simon lidera uma quadrilha de assaltantes. A longa e silenciosa primeira sequência é o assalto ao banco em uma cidade próxima a Paris. É a marca de Melville, presente em quase toda a progressão narrativa da pelicula: grandes silêncios, planos longos, muitas vezes em plano sequência. O caminho dos dois amigos se cruzam tragicamente durante a investigação desse e de outros crimes, colocando, principalmente Edouard, diante de seus princípios. 

    O destaque da trama é a sequência do assalto ao trem, quando Simon e seus dois comparsas usam um helicóptero à noite. De novo, a marca de Melville: uma sequência longa e silenciosa, quase toda centrada em Simon, que desce do helicóptero para o teto do trem e depois para o interior. Expresso para Bordeaux é um clássico que exige do espectador aquilo que o cinema tem de potente: a necessidade da contemplação. 

    Expresso para Bordeaux (Un flic, França, 1972), de Jean-Pierre Melville. Com Alain Delon (Comissário Edouard), Catherine Deneuve (Cathy). Richard Crenna (Simon), Riccardo Cucciolla (Paul Weber).

  • De volta ao pequeno apartamento

    Após o clássico Os sapatinhos vermelhos (1948), a dupla Powell e Pressburger se volta para uma história simples, mas potente devido ao contexto histórico. Durante a Segunda Guerra Mundial, Sammy Rice trabalha em um departamento de pesquisa de tecnologia na Inglaterra. Ele é especialista em desarmar bombas e recebe a incumbência de auxiliar o Capitão Stuart para descobrir os mecanismos de desarmamento de uma complexa bomba alemã, que se assemelha a uma garrafa térmica. A bomba estava sendo colocada em locais de circulação de civis, vitimando inclusive crianças. 

    A grande sequência do filme é a tensão lenta, angustiante, de Sammy tentando desarmar uma das bombas na praia. A narrativa também aborda os problemas pessoais do especialista. Ele é alcoólatra, vive em seu pequeno apartamento com Susan, que tem papel decisivo em sua vida. Susan ajuda o namorado a combater o vício e a insegurança diante de sua capacidade profissional. De volta ao pequeno apartamento reflete o nome: um filme simples, mas que retrata um momento de profundas angústias individuais e sociais, quando se destacam atos às vezes heróicos, outras vezes simples, na tentativa de preservar a humanidade. 

    De volta ao pequeno apartamento (The small back room, Inglaterra, 1949), de Michael Powell e Emeric Pressburger. Com David Farrar (Sammy Rice), Kathleen Byon (Sasan), Michael Gough (Dick Stuart), Milton Rosmer (Prof. Mair).

  • Contos de Hoffmann

    A ópera em technicolor de Powell e Pressburger é um deleite para o olhar e para os ouvidos. Em um bar, o poeta E. T. A. Hoffmann relembra e conta para seus amigos as três mulheres que fizeram parte de seus intensos relacionamentos amorosos. 

    Olivia é uma boneca mecânica, controlada por seu pai e um inescrupuloso construtor de brinquedos. Giuletta é uma cortesã veneziana, sedutora, espécie de femme fatale que seduz e manipula seus amantes. Antonia é uma aspirante a cantora, filha de um compositor famoso, ela tem sérios problemas de saúde e depende de um médico que a usa para experimentações.

    O prólogo e as três histórias são narradas inteiramente pelas músicas, com a fotografia e direção de arte características do technicolor: cores resplandecentes, exuberantes, de contrastes agressivos. Os cenários são de encher os olhos do espectador, representando simbolicamente as naturezas de cada uma dos amores de Hoffmann. Cinema, teatro, ópera, dança e música, Contos de Hoffmann é um filme que penetra em todos os sentidos. 

    Contos de Hoffmann (The tales of Hoffmann, Inglaterra, 1951), de Michael Powell e Emeric Pressburger. Com Moira Shearer, Robert Rounseville, Ludmilla Tcherina, Ann Ayars, Pamela Brown. 

  • As filhas do fogo

    Duas namoradas se encontram em Ushuaia, após um longo tempo afastadas. Em um bar, elas namoram livremente e são ofendidas por um homofóbico. Uma jovem as defende e começa uma briga generalizada no estabelecimento. Elas fogem e começam um relacionamento a três que se intensifica quando fazem uma viagem de van pela Terra do Fogo. No caminho, acolhem outras mulheres lésbicas que praticam o amor livre, sem restrições. 

    O road-movie pornô lésbico da diretora Albertina Carri é recheado de cenas ousadas, entremeadas pela narração da protagonista que está tentando estruturar um filme pornô. As divagações da jovem passam pela liberdade sexual, pela natureza do corpo feminino, pela incerteza sobre o que é pornográfico ou não.

    Contra todas as expectativas, a natureza pornô da narrativa, o filme fez sucesso nas salas comerciais do Brasil. Atenção para a sequência de duas amantes fazendo sexo dentro de uma igreja, enquanto outra jovem em posição de voyeur se masturba e para a longa sequência final, em plano fechado frontal, de uma das jovens se masturbando.

    As filhas do fogo (Las hijas del fuego, Argentina, 2018), de Albertina Carri. Com Disturbia Rocío, Mijal Katzowicz, Violeta Valiente, Rana Rzonscinsky, Canela M., Ivanna Colonna Olsen, Mar Morales, Carlos Morales Rios, Cristina Banegas e Érica Rivas. 

  • Chão

    O documentário de Camila Freitas acompanha integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra que lutam para terem direito ao território de uma antiga fábrica de cana-de-açúcar. Sem narração ou legendas explicativas, o filme destaca os ativistas em momentos de luta pacífica nas ruas, buscando conscientizar os moradores da região, e em momentos de descontração nos acampamentos. 

    O contraponto conservador é expresso em uma sequência nos tribunais, quando, diante de líderes do movimento, os juristas tentam justificar, usando complexos argumentos legais, a negação ao direito dos trabalhadores rurais. Belo em alguns momentos, visualmente encantador quando as lentes da diretora exploram todas as nuances das pessoas em sua luta cotidiana por direitos inegáveis (deveria ser assim), triste em outros, quando a realidade mostra sua face injusta, elitista e cruel.  

    Chão (Brasil, 2019), de Camila Freitas.

  • A religiosa

    O filme é uma ousada adaptação do romance de Denis Diderot, acompanhando a jornada de Suzanne, jovem que é forçada pelos pais a fazer os votos de freira e viver enclausurada no convento. Alguns textos, inseridos no início da narrativa, contextualizam a vida monástica no século XVIII. As famílias aristocráticas pagavam para confinar as filhas nos conventos até o casamento, as que não conseguiam o matrimônio viviam enclausuradas o resto da vida. As Madres Superioras eram indicadas devido ao título de nobreza, ou seja, as que pagavam mais eram as responsáveis pelas outras religiosas. Diderot baseou seu romance em pessoas reais, a protagonista Suzanne é inspirada na vida de Marguerite Delamare, cujo pai a enviou para um convento quando tinha três anos. Na vida adulta, ela apelou, tentando reverter seu votos, mas perdeu legalmente e viveu na clausura até a morte. 

    Jacques Rivette transforma esta história em uma triste e cruel jornada. Suzanne, que luta incessantemente para sair do convento, sofre torturas impingidas pela Madre Superiora e pelas outras freiras, que a acusam de estar possuída pelo demônio. Suzanne perde o julgamento e é obrigada a seguir com sua vida de freira, mas muda de convento, onde passa a sofrer com as investidas da Madre Superiora, que nutre por ela uma paixão avassaladora. 

    O que fica da história é a crueldade, o sadismo praticado atrás dos muros dos conventos, onde a lei praticamente não tinha jurisdição. A sociedade paternalista também soltava suas garras sádicas sobre as mulheres para continuar vivendo na repulsiva farsa da nobreza. Jacques Rivette não poupa ninguém em suas críticas, nem mesmo Suzanne, a tragédia a acompanha dia-a-dia em sua luta pela liberdade.  

    A religiosa (La religieuse, França, 1966), de Jacques Rivette. Com Anna Karina (Suzanne), Liselotte Pulver (Madame de Chelles), Micheline Presle (Madame de Moni), Francisco Rabal (Dom Morel). 

  • A tortura do medo

    O filme quase acabou com a carreira do influente Michael Powell (Sapatinhos vermelhos). A crítica e a sociedade não aceitaram o tema e o tratamento visual ousado: através do ponto de vista subjetivo, o espectador se vê diante do terror. 

    Lewis Mark é um cameraman assistente em um estúdio de cinema. Logo na primeira sequência, o espectador acompanha, pela lente de sua câmera cinematográfica, o assassinato de uma prostituta. Na abertura, Michael Powell apresenta um psicopata que filma seus assassinatos. Desejos sexuais, traumas de infância, a incontrolável ânsia de matar, cena a cena Mark revela sua mente atormentada, com uma surpresa nos momentos finais. Martin Scorsese declarou que A tortura do medo é “um dos grandes filmes sobre cinema.”

    “Talvez tenham sido as motivações ambíguas do personagem que afastaram as plateias, ou talvez o fato de que um diretor tão querido quanto Powell tivesse voltado seus olhos para um tema tão sinistro e surpreendente. Mas também poderia ter sido o fato de que está sutilmente implícito que o espectador, um colega voyeur, é de certa forma um cúmplice de Mark em seus feitos mortíferos, ao se sentir atraído por suas atrocidades perversas e por estar, de certa forma, permitindo que aconteçam.”

    A tortura do medo (Peping Tom, Inglaterra, 1960), de Michael Powell. Com Karlheinz Bohm (Mark Lewis), Anna Massey (Helen Stephens), Moira Shearer (Vivian), Maxine Audley (Mrs Stephens). 

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • A um passo da liberdade

    O filme começa com um mecânico debruçado sobre o motor do carro. Ele se volta para a câmera e diz: “Olá. Meu amigo Jacques Becker recriou uma história verdadeira em todos os seus detalhes. Minha história. Ela se passou em 1947, na prisão de La Santé.” 

    A um passo da liberdade é o último filme do diretor Jacque Becker. Ele esteve doente durante toda a produção e montagem do filme e faleceu antes da mixagem do som, aos 53 anos de idade. É baseado na história real de José Giovani, que também colaborou no roteiro. 

    Giovani e outros quatro detentos planejam uma fuga do presídio de La Santé quando são surpreendidos com a transferência de outro detento, Claude Gaspard, para a cela deles. Os quatro amigos precisam decidir se levam o plano adiante, incluindo Gaspard na tentativa de fuga. 

    Todos os atores do filme são amadores, um deles foi inclusive um dos detentos na vida real. É um filme de planos longos, evidenciando o cotidiano claustrofóbico dos cinco detentos cuja única opção é confiar uns nos outros enquanto dividem o lento processo de escavar paredes. Uma cena de quatro minutos de duração mostra os amigos batendo com um objeto na pedra quase intransponível, enfatizando a luta pela liberdade. 

    “Nosso envolvimento é intensificado, também, por compartilharmos, de forma desconfortável e jamais plena, do ponto de vista de Gaspard (Marc Michel), um prisioneiro que, transferido de outra cela, aparece de surpresa entre os fugitivos originais. Sua chegada força os demais a decidirem se devem desistir do plano ou confiar no estranho. Embora escolham a última opção, Gaspard jamais se integra plenamente ao grupo: ele não é excluído apenas por conta de sua educação e maneiras, mas também, de maneira sutil, pelo fato de que somos informados apenas dos detalhes do seu caso. A tensão que sua presença gera dá ao filme seu principal atrativo psicológico e, no impressionante desfecho, lhe permite atingir uma dimensão trágica.”

    Depois da morte de Becker, o produtor do filme cortou cerca de 30 minutos (jamais recuperados) da versão original. A um passo da liberdade consagrou-se, mesmo com esse crime perpetrado pelo produtor, como uma obra-prima. 

    A um passo da liberdade (Le trou, 1960, França, ), de Jacques Becker. Com Michel Constantin (Geo), Jean Keraudy (Roland), Philippe Leroy (Manu), Raymond Meunier (Monsenhor), Mark Michel (Gaspard).

     
    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Documenteur

    Agnès Varda tece uma narrativa híbrida, entre o documentário e a ficção. Emile, jovem recém divorciada, vive com seu filho Martin, que tem cerca de 10 anos, em Los Angeles. Ela é imigrante e passa seus dias entre o trabalho como datilógrafa, os cuidados com o filho e andanças pela cidade. 

    A diretora francesa, única mulher integrante da prestigiada nouvelle-vague francesa, parece ter uma câmera acoplada ao seu corpo. Por onde passa, a diretora produz um filme. Documenteur foi realizada durante sua breve estadia em Los Angeles no início da década de 80. Documentário ou ficção, não importa. É o retrato de uma jovem mulher, Emile, em busca de se integrar a um país que finge abrir as portas para todos os sonhadores, sonhos que se desfazem na luta cotidiana. Atenção para a bela imagem de Emile sentada nua na cama. É uma pura imagem de Agnès Varda. 

    Documenteur (França, 1981), de Agnès Varda. Com Sabine Mamour (Emile Cooper) e Mathieu Demy (Martin Cooper).

  • A teia de chocolate

    Os filmes de Claude Chabrol flertam sempre com o thriller psicológico através de tramas que surpreendem pela complexidade dos personagens. Em A teia de chocolate, a esposa do pianista André morre em um acidente de carro. Ele volta a se casar com sua primeira esposa, Mika, especialista em chocolates. A rotina do casal muda de forma avassaladora quando a jovem Jeanne entra em cena, trazendo à tona um mistério do passado de André, envolvendo uma possível troca de bebês na maternidade. 

    A narrativa não fornece grandes surpresas, os enigmas do passado, envolvendo também a morte da primeira esposa de André, se tornam previsíveis à medida que a narrativa avança. O destaque da película é Isabelle Huppert/Mika que, através de seus chocolates, seduz, inebria e se revela cada vez mais e mais perigosa. 

    A teia de chocolate (Merci pour le chocolat, França, 2000), de Claude Chabrol. Com Isabelle Huppert (Mika), Jacques Dutronc (André Polonski), Anna Mouglalis (Jeanne), Rodolphe Pauly (Guillaume Polonski). 

  • A noite americana

    François Truffaut sempre afirmou como o cinema americano foi importante em sua formação de cineasta. Ele disse que assistiu mais de 1.500 filmes estadunidenses, escreveu críticas poderosas a respeito do cinema clássico e publicou um dos livros mais importantes sobre cinema da história: Hitchcock/Truffaut – Entrevistas

    A noite americana é sua grande homenagem ao cinema que amava e por extensão ao cinema do mundo inteiro. É um filme sobre o processo de fazer filmes, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. 

    O próprio Truffaut interpreta Ferrand, um diretor de cinema durante a realização de um filme de gênero. Sua estrela é a bela Julie Baker que faz par romântico com Alexandre. Durante as filmagens, as relações entre a equipe apresentam as nuances típicas das relações de trabalho: conflitos, agressividades, afetuosidade, relações amorosas, sexuais… Cabe a Ferrand apaziguar tudo isto, pois tudo que ele deseja é terminar seu filme. 

    “Truffaut realça a transitoriedade, a fragilidade e a irrealidade da vida em uma locação de filmagem – deixando até mesmo, em uma cena hilária e surpreendente, que um intruso solte o verbo para criticar essa gente de cinema por sua imoralidade desenfreada. A noite americana expõe de forma carinhosa muitas ilusões do processo de filmagem – como podemos constatar quando o sentido de seu título é revelado – mas mantém a nossa admiração diante da magia dos filmes. Como ocorre em outras obras de Truffaut, as cenas de montagem rápida – dedicadas ao frenesi da sala de edição, ou a complicada cena filmada com neve artificial – exprimem afeto profundo e apreço pelas coisas práticas de seu ofício.”

    A noite americana (La nuit américaine, França, 1973), de François Truffaut. Com François Truffaut (Ferrand), Jacqueline Bisset (Julie Baker), Jean-Pierre Léaud (Alphonse), Valentina Cortese (Séverine). Jean-Pierre Aumont (Alexandre).  

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.