O casal Tomas e Ebba passa férias em uma estação de esqui junto com seus dois filhos, as crianças Vera e Harry. Durante um almoço no restaurante do hotel, uma pequena avalanche provoca correria no restaurante. Passado o susto, a relação do casal entra em uma espiral de crise, provocada pela atitude de Tomas durante a avalanche.
O diretor Ruben Ostlund já conquistou por duas vezes a Palma de Ouro em Cannes com The square: a arte da discórdia (2017) e Triangle of sadness (2022). O apuro visual e os planos lentos, marca do diretor sueco, são o destaque de Força maior, uma profunda e, por vezes, divertida, discussão a respeito da masculinidade. Os longos silêncios durante as práticas de esqui nas montanhas, fotografadas em uma perturbadora claridade, reforçam a sensação de progressiva crise depressiva que acompanha Tomas e Vera.
Força maior (Turist, Suécia, 2014 ), de Ruben Ostlund. Com Johannes Bah Kuhnke (Tomas), Lisa Loven Kongsli (Ebba), Clara Wettergren (Vera), Vincent Wettergren (Harry), Kristofer Hivju (Matts), Fanni Metelius (Fanny).
No início dos anos 80, jovens cineastas franceses realizaram alguns filmes que foram classificados, pejorativamente a princípio, como Cinéma du Look. A expressão foi cunhada pelo crítico Raphael Bassan, analisando que os filmes priorizavam o estilo em detrimento do conteúdo. Os principais expoentes dessa espécie de movimento transitório foram Jean-Jacques Beineix (Diva), Luc Besson (Metrô) e Leo Carax (Garoto conhece garota).
Diva é o primeiro filme a apresentar as principais características do movimento. A trama acompanha o carteiro Jules, fascinado pela cantora lírica Cynthia Hawkins. Ela se recusa a gravar discos, mas Jules faz uma gravação clandestina durante um show que circula em versões piratas. Um assassinato de uma garota de programa nas ruas de Paris coloca Jules em confronto direto com uma gangue de tráfico de mulheres chefiada pelo comissário de polícia (antes de morrer, a vítima esconde uma fita cassete com revelações na moto do jovem carteiro).
O visual extravagante da película é responsável por ambientações deslumbrantes, como a garagem onde Jules mora e o reduto dos marginais Serge e Abba. A pop art está presente em grande parte da narrativa, acompanhando os personagens pelas ruas e metrôs da cidade. Preste atenção na ousada sequência de perseguição: um policial persegue Jules, primeiro pelas ruas da cidade, depois pelas estações do metrô, uma elaborada combinação de movimentos incluindo carro, moto e corridas a pé. Outro ponto de destaque da narrativa é a caricatural dupla de assassinos, sempre de óculos escuros e cigarros nas mãos, exalando um charme artificial.
Diva: paixão perigosa (Diva, França, 1981), de Jean-Jacques Beineix. Com Frédéric Andréi (Jules), Wihelmenia Fernandez (Cynthia Hawkins), Richard Bohringer (Serge), Thuy An Luu (Abba), Jacques Fabbri (Comissário Jean).
Durante a viagem em um navio de luxo, a ex-modelo Irene Vail chega ao limite no relacionamento com seu marido, Bruce Vail. Bruce, um milionário empreendedor da área de construção de navios, não aceita o fim do seu casamento e planeja uma armadilha para acusar sua esposa de adultério. A armadilha acontece no hotel onde Irene está hospedada, mas Paul, hóspede do quarto ao lado, intervém, evitando o flagrante. É o início do relacionamento amoroso entre Irene e Paul, um charmoso maitre de restaurantes parisienses.
A película traz a marca da narrativa visual do diretor Frank Borzage, herdada de seus filmes realizados durante o cinema mudo. Borzage é considerado um dos grandes realizadores de dramas românticos do cinema. Ele negava o realismo, utilizando requintados closes, efeitos de transições como fusões sobre fusões em momentos decisivos da trama, carregando a narrativa visual e sonora (trilhas) de fortes apelos emocionais. Adeus às armas (1932), seu maior sucesso comercial, é famoso pela cena final: um close agressivo no casal de protagonistas, interpretados por Gary Cooper e Helen Hays, no momento da morte da enfermeira.
O roteiro de A história começou à noite apresenta uma particularidade: pouco antes do início das filmagens, a trama foi reescrita, pois Borzage resolveu que o final do filme seria durante o naufrágio de um navio de luxo, referência à tragédia do Titanic. Assim, o personagem de Colin Clive, no roteiro um milionário sem referências à origem de sua fortuna, foi recriado para um famoso construtor de navios.
Outra particularidade do filme diz respeito também ao ator Colin Clive. Ele sofria com uma doença fatal durante as filmagens. Duas semanas após o lançamento da obra, Clive cometeu suicídio, assim como seu personagem no final de A história começou à noite.
A história começou à noite (History is made at night, EUA, 1937), de Frank Borzage. Com Charles Boyer (Paul), Jean Arthur (Irene Vail), Leo Carillo (Cesare), Colin Clive (Bruce Vail).
O início do filme é uma bela homenagem ao trem de ferro, meio de transporte que revolucionou a história da humanidade. Jacques Lantier e Pecqueux, dois maquinistas, comandam o trem, trocando gestos, assobios e olhares que só eles entendem, enquanto manejam os equipamentos. A poesia visual se completa com imagens das rodas, dos trilhos, pontos de vistas subjetivos da máquina que segue imponente sua jornada.
A besta humana, baseado em romance de Emile Zola, é a história do maquinista Jacques Lantier, que sofre com impulsos psicológicos imprevisíveis e violentos. Lantier afirma, em determinado momento, que carrega a herança, espécie de praga, de anos e anos de consumo abusivo de álcool por seus familiares diretos.
Um caso de paixão coloca em prova essa tendência assassina do protagonista. A jovem e bela Severine é casada com Roubaud, chefe da estação. Roubaud descobre que sua mulher foi amante de Grandmorin, um velho e rico industrial da cidade de Le Havre (que tem um histórico de estupro de menores). A bordo de um trem para Paris, o chefe da estação, com ajuda de Severine, mata o industrial. Lantier, também a bordo desse trem, se torna a única testemunha do crime. No entanto, se apaixona por Severine e os dois vivem um tórrido romance.
O diretor Jean-Renoir, considerado por muitos precursor do neorrealismo italiano, trabalha em A besta humana com elementos que antecipam também o film noir americano: as cenas noturnas na estação de trem, com forte suspense psicológico, os protagonistas que transitam pelas noites em constantes conflitos e, principalmente, a femme fatale – a sedutora Severine que impulsiona os instintos cruéis de seus amantes.
A besta humana (La bête humaine, França, 1938), de Jean Renoir. Com Jean Gabin (Jacques Lantier), Julien Carette (Pecqueux), Simone Simon (Séverine), Fernand Ledoux (Roubaud), Jacques Berlioz (Grandmorin).
O filme tem uma sequência antológica, reverenciada pelo valor estético e simbólico. Dominique Francon, jovem da alta sociedade, está na mansão de seu pai no interior. Ela ouve sons estridentes que a incomodam pela manhã e se encaminha até a pedreira próxima da casa. Do alto, ela vislumbra Howard Roark, um arquiteto desempregado, tentando cortar a pedra com uma enorme furadeira. Ele está suado, olha para cima e vê, em um profundo contre-plongée, a figura charmosa, cabelos ao vento, roupas brancas, da bela Dominique. Outra cena famosa e polêmica da narrativa é o início das relações físicas, marcado pela violência, entre o casal de protagonistas, no quarto de Dominique.
Vontade indômita é baseado na obra literária A nascente, da escritora russo-americana Ayn Rand. O livro é um dos grandes best-sellers da literatura americana, trazendo um tema caro à formação da sociedade capitalista estadunidense: o direito ao individualismo, a centrar o comportamento e os atos, principalmente o trabalho, em favor próprio, não pensando na sociedade.
Howard Roark é um ambicioso arquiteto que não aceita interferências de espécie alguma em seus projetos. Perde grandes trabalhos por esta intransigência, vai a falência e, enquanto tenta se recuperar, trabalha na pedreira do pai de Dominique. O amor entre os protagonistas também se espelha na individualidade, os dois negam o relacionamento em favor de suas convicções.
Gary Cooper e Patricia Neal viveram um fervoroso relacionamento amoroso durante as filmagens, ajudando a construir o mito sobre este melodrama com a marca visual do diretor King Vidor. Ayn Rand escreveu o roteiro e seguiu a ferro e fogo os princípios defendidos em seu livro. Ela escreveu o longo discurso final de Howard Roark, diante do tribunal. Vidor tentou cortar parte do texto, mas foi impedido pela escritora, que ameaçou processar o estúdio. O que se vê na tela é um Gary Cooper sem muita convicção (ele próprio declarou sua insatisfação quando viu a cena) durante a interpretação do discurso, o mais longo monólogo da história do cinema até aquele momento.
Vontade indômita (The fountainhead, EUA, 1949), de King Vidor. Com Gary Cooper (Howard Roark), Patricia Neal (Dominique Francon), Raymond Massey (Gail Wynand), Kent Smith (Peter Keating), Robert Douglas (Ellsworth Toohey).
Mary Tucker é uma jovem muito pobre que mora em uma propriedade rural junto com a mãe. Vende leite e ovos na estrada e aplica pequenos golpes, como fingir que não recebeu o pagamento, tentando ganhar um dinheiro a mais. Em uma dessas artimanhas, ela é flagrada por Tim, funcionário de uma empresa de telefones. Ele aplica umas palmadas em Mary, como lição para tentar ser honesta. É o início de um relacionamento amoroso que vai ser interrompido pelo início da Primeira Guerra Mundial e consequente alistamento de Tim, que vai lutar na Europa.
Estrela ditosa é considerado um dos grandes melodramas de todos os tempos, é um primor da narrativa visual, com fotografia primorosa das imagens campestres (reproduzidas em estúdio). Preste atenção na longa sequência na neve, quando Tim (que perdeu os movimentos das pernas em batalha) luta para chegar até a estação de trem pelos campos nevados, atrás de sua Mary. O final sugere um milagre surrealista, antecipando o final de A bela da tarde (1967), de Luis Buñuel.
Estrela ditosa (Lucky Star, EUA, 1929), de Frank Borzage. Com Janet Gaynor (Mary Tucker), Charles Farrell (Tim Osborn), Guinn “Big Boy” Williams (Martin Wren), Hedwiga Reicher (Sra. Tucker).
Vez por outra o espectador se depara com filmes que se destacam apenas pela forte atuação dos protagonistas. É o caso de Era uma vez um sonho, cujo destaque reside na interpretação de Glenn Close, indicada ao Oscar de Atriz Coadjuvante pelo papel de Mamaw, uma avó, fortemente maquiada, que assume os cuidados de seu neto, Vance.
A história, baseada em fatos reais, segue o ponto de vista de Vance, primeiro na infância, quando passava férias com os avós, depois como um jovem advogado, morando com a família em Ohio. O tema central são as conturbadas relações familiares, marcadas por sugestões de abusos domésticos, alcoolismo e profundas crises depressivas. Sem grandes destaques narrativos, a história segue os contornos do melodrama familiar, centrados na relação entre Vance e sua mãe, que luta contra a depressão e o alcoolismo.
Era uma vez um sonho (Hillbilly Elegy, EUA, 2020), de Ron Howard. Com Amy Adams (Bev), Glenn Close (Mamaw), Gabriel Basso (Vance), Haley Bennett (Lindsay), Bo Hopkins (Papaw).
A jovem Thelma estuda em uma universidade de Oslo. É a primeira vez que se afasta dos pais, que a criaram sob uma fervorosa doutrina religiosa. Thelma se sente atraída por Anja, as duas começam uma relação amorosa ao mesmo tempo em que Thelma começa a sofrer estranhas convulsões.
O suspense, com toques sobrenaturais, dita o tom da narrativa. Thelma esconde um trauma de sua infância, sugerido em uma impactante cena inicial. Durante as convulsões, estranhos acontecimentos afetam as pessoas com quem ela se relaciona. Desejos reprimidos podem estar no cerne dessas manifestações, passo a passo a relação entre Thelma e seus pais apontam que o desejo de libertação pode despertar certos demônios.
Thelma (Noruega, 2017), de Joachim Trier. Com Eili Harboe (Thelma), Kaya Wilkins (Anja), Henrik Rafaelsen (Trond), Ellen Dorrit Petersen (Unni).
A estrutura narrativa do filme é o grande destaque. O início, através de uma montagem rápida, narra a relação entre dois amigos escritores, Erik e Philip, desenvolvendo uma história que poderia ter acontecido. O título Reprise entra e outra história, a verdadeira?, começa. A estratégia é sugerida no final.
Os dois são amigos desde a infância e dividem o sonho de ser escritores. Enviam manuscritos ao mesmo tempo para a editora. Philip tem seu projeto aprovado, mas o manuscrito de Erik é rejeitado.
Neste primeiro filme da Trilogia de Oslo, o diretor Joachim Trier trabalha com temas importantes para a juventude: sonhos e desilusões, insegurança, sérias crises depressivas – Philip, após o sucesso de seu primeiro livro, entra em uma espiral descendente, sofrendo com crises depressivas. A amizade afetuosa entre Erik e Philip aponta caminhos para vencer os desafios, por vezes incontornáveis, para esses jovens sonhadores.
Começar de novo (Reprise, Noruega, 2006), de Joachim Trier. Com Anders Danielsen Lie (Philip), Espen Klouman Hoiner (Erik), Viktoria Winge (Kari), Odd Magnus Williamson (Morten), Pal Stokka (Geir), Christian Rubeck (Lars), Henrik Elvestad (Henning), Henrik Mestad (Jan), Silje Hagen (Lilian).
No prólogo, intitulado Era uma vez, o cineasta Quentin Tarantino narra, com imagens de seu filme Era uma vez em Hollywood, um diálogo ao telefone entre o agente Marvin (Al Pacino) e o ator de Hollywood Rick (Leonardo DiCaprio). O agente tenta convencer Rick a se encontrar com Sergio Corbucci. Rick pergunta quem é Corbucci, ao que o agente responde: “O segundo maior diretor de faroeste espaguete do mundo todo.”
É o ponto de partida para o documentário sobre Sergio Corbucci, que era frequentemente confundido com seu grande amigo Sergio Leone. O tom do documentário são os longos depoimentos de Tarantino, admirador confesso, inclusive com homenagens em seus filmes, do diretor de Django (1966). Tarantino revela que cogitou, depois de filmar Bastardos Inglórios, escrever uma biografia de Corbucci intitulada O outro Sergio.
Tarantino explica o nascimento da carreira dessa geração que mudou o gênero western a partir do final dos anos 50: “Toda aquela turma de diretores do faroeste espaguete, Leone, Corbucci, Duccio Tessari, Franco Giraldi, todos eles eram amigos. Todos eram críticos que escreviam para revistas e jornais sobre filmes. E todos eles adoravam faroeste. Essa turma de caras começou a trabalhar como críticos e, aos poucos, eles viraram roteiristas. Por meio da escrita, viraram diretores de segunda unidade. E foi onde realmente aprenderam o ofício deles.”
O roteirista e diretor Ruggero Deodato também participa do documentário, comentando sobre sua participação em diversos filmes de Corbucci. Outro ponto de destaque é a participação de Franco Nero, intérprete do célebre Django.
Django & Django é um retrato fascinante desse diretor italiano tão apaixonado por cinema que resolveu renová-lo, participando de forma decisiva de uma espécie de movimento que foi visto pela crítica como paródia, como cinema menor. Visão que Tarantino, com certeza, não concorda:
“Para mim, o Leone criou a maior trilogia da história do cinema, a trilogia dos dólares. Cada filme é um épico maior do que o anterior. Cada um expressa mais os faroestes. Cada um expressa mais como artista, quem ele é e o que quer fazer. Cada um é uma recriação maior do faroeste sobre a ótica dele. O Corbucci é diferente. O Corbucci decidiu não fazer isso. Quando começou a fazer faroeste espaguete, ele não visou épicos. Ele optou pelo tipo de filme de caubói mais violento. Ele os queria dentro do gênero. Não são épicos. São filmes de caubói, filmes de vingança.”
A canção I’m calling you já vale o filme. Ela entra no espectador e fica, apenas fica. No entanto, o filme tem muito mais. É uma emocionante história de perda e renascimento pessoal, movida pela relações pessoais entre duas mulheres que começam com estranheza, beiram a agressividade, passam pela compreensão até se transformarem na mais sincera amizade.
A alemã Marianne está de férias com seu marido nos EUA. Eles se desentendem e ele a abandona em uma estrada deserta e árida. Ela caminha por um longo tempo até encontrar o Bagdad Café, restaurante e pousada de beira de estrada. É recebida pela proprietária Brenda, se hospeda e vai ficando por ali.
Os tipos que moram e trabalham no Bagdad Café compõem um painel de personagens excêntricos, exóticos, que passam os dias entre desentendimentos e reconciliações. A transformação de Marianne começa quando ela decide organizar o local, ajudando Brenda primeiro na limpeza, depois no atendimento aos clientes, oferecendo divertidas apresentações de mágica. O que fica, no final, além da música, é essa simplicidade da vida que pode e deve ser sentida dia-a-dia através das ternas relações entre as pessoas.
Bagdad Café (Out of Rosenheim, Alemanha, 1987), de Percy Adlon. Com Marianne Sagebrecht (Jasmin), CCH Pounder (Brenda), Jack Palance (Rudi Cox), Christine Kaufmann (Debby), Monica Calhoun (Phyllis), Darron Flagg (Salomo), George Aguilar (Cahuenga), G. Smokey Campbell (Sal).
O novo cinema dos anos 60 se espalhou mundo afora renovando até mesmo cinematografias pouco difundidas. Na Turquia, o diretor Lutfi Omer Akad revisitou o gênero western, criando uma narrativa que mescla os clichês do gênero com o estilo neorrealista rico em conflitos sociais.
Hidir é o líder de uma aldeia próxima à fronteira com a Síria. Ele atua como contrabandista, cruzando a fronteira, trazendo mercadorias e ovelhas para os poderosos chefes da cidade. É uma jornada arriscada, pois a divisa entre a Turquia e a Síria é recheada de minas terrestres. O comandante da policia tenta convencer Hidir a abandonar o contrabando, liderando a aldeia para aceitar a construção de uma escola para as crianças e no trabalho agrário. No entanto, os chefes locais forçam violentamente Hidir a continuar no contrabando.
A progressão da trama levanta um aspecto decisivo para a renovação do cinema de gênero nos anos 60: o poder corrupto e opressor, representado por Ali Cello, dono das terras, não permite que os “pistoleiros” abandonem seu passado violento – representado por Hidir e seus comparsas. A única alternativa é o confronto mortal entre os dois lados. A polícia assiste a tudo com impotência, enquanto a esperança reside na jovem professora da escola e em Yusuf, filho de Hidir, que acompanha a trágica luta de seu herói.
A lei da fronteira (Hudutlarin kanunu, Turquia, 1966), de Lutfi Omer Akad.Com Yilmaz Guney (Hidir), Ayse Ogretmen (Pervin Par), Erol Tas (Ali Cello), Tuncer Necmioglu (Aziz), Muharrem Gurses (Duran Aga), Aydemir Akbas (Abuzer).
A despedida de Daniel Craig do agente secreto é emocionante. O final deixa no ar a certeza de que nossos heróis são assim, como nós. Essa foi, inclusive, a base da renovação da franquia 007 desde Casino Royale (2006): Bond sofre de diversos males físicos e sentimentais, um herói mais próximo, afeito aos conflitos internos e externos (lembrem-se das cenas de tortuna) que acometem as pessoas comuns.
No time to die começa com uma impactante sequência em uma casa de campo no inverno gélido, quando são apresentados Madeleine, ainda criança, e Safin, o vilão. Corta anos depois para cenas idílicas de Bond curtindo suas férias em Materna, sul da Itália, junto com Madeleine, sua namorada. São cenas idílicas, sensuais, nas belas praias, nas vielas históricas, nos quartos de hotéis, assim como em todo filme de 007. Um atentado contra a vida de James Bond dá fim ao romance, instaurando a dúvida entre o casal.
São dois prólogos recheados de cenas de romance, sexo, ação, perseguições de carros, mortes assustadoras. Cinco anos depois, Bond está aposentado, seu codinome 007 é usado agora por uma agente secreta. No entanto, Lyutsifer Safin, o vilão da primeira sequência, ressurge e se apodera de uma poderosa arma química que pode dar fim à humanidade.
É a senha para a volta de Bond à ação, em uma narrativa repleta de reviravoltas, sequências mirabolantes de suspense e ação, um amor do passado que volta com surpresas, coadjuvantes que se destacam em momentos decisivos da trama, mulheres empoderadas em ações espetaculares quando resolvem sozinhas os problemas (diante de um Bond atônito); enfim, o velho e o novo 007 oferecem ao espectador tudo que ele tem direito quando se senta diante de um Bond, James Bond. O final apoteótico deixa uma dúvida que se dissipa rapidamente: James Bond will return!?.
007 – Sem tempo para morrer (No time to die, EUA, 2021), de Cary Joji Fukunaga. Com Daniel Craig (James Bond), Ana de Armas (Paloma), Rami Malek (Lyutsifer Safin), Léa Seydoux (Madeleine). Lashana Lynch (Nomi), Ralph Fiennes (M), Ben Whishaw (Q), Naomie Harris (Moneypenny).
O filme começa com uma imagem fotográfica do aeroporto de Paris, aviões estacionados na pista. Créditos anunciam “un photo-roman de Chris Marker”.Narração em off determina os rumos da narrativa: “Esta é a história de um homem marcado por uma imagem da infância. A cena que o afligiu por sua violência e cujo sentido ele só compreenderia muito mais tarde teve lugar na grande plataforma de Orly alguns anos antes do começo da Terceira Guerra Mundial.”
Estamos diante de um dos filmes de ficção científica mais surpreendentes e ousados do cinema. Toda a história é contada a partir de fotografias em preto e branco que se sucedem, espécie de experimentação foto novelística de Chris Marker. Muito tempo após a Terceira Guerra Mundial, os humanos vivem em porões e outros ambientes subterrâneos, pois o ar exterior está contaminado pela radioatividade. Um homem é convencido a viajar no tempo, primeiro ao passado, depois ao futuro, em uma tentativa de resgate das memórias da humanidade. Ele foi escolhido por ter fortes imagens mentais, memórias afetivas, que preservariam sua identidade nestas viagens no tempo. O escolhido é a criança que frequentava o aeroporto de Orly aos domingos com os pais e que seria marcado por uma imagem desta infância, a de uma bela mulher na plataforma, seguida da morte de um homem.
A pista influenciou uma série de filmes modernos sobre viagem no tempo com a intenção de reconstruir a história, destacando-se o Exterminador do futuro (1984). O final elíptico e surpreendente também antecede diversos finais de narrativas semelhantes. Para muitos, A pista é o melhor curta-metragem da história do cinema. A beleza etérea das fotografias que se sucedem justifica essa escolha, associada a uma narração poética, reflexiva, sobre o tempo, sobre as memórias, sobre o amor: “Em Orly, aos domingos, os pais levam seus filhos para verem os aviões prestes a partir. Deste domingo, a criança cuja história contamos, reveria por muito tempo o sol fixo, o cenário armado na extremidade da plataforma, e um rosto de mulher. Nada distingue as memórias de outros momentos. Só mais tarde é que se fazem reconhecer, por cicatrizes.”
A pista (La jetée, França, 1962), de Chris Marker. Com Étienne Becker, Jean Négroni, Hélène Chatelain, Davos Hanich, Jacques Ledoux.
O documentário foi realizado durante as filmagens de O sacrifício (1986), na Suécia. É um retrato fascinante do processo de criação e realização de um dos diretores mais autorais, intimistas, do cinema. As cenas mostram Tarkovski envolvido em todas as etapas da produção: discutindo aspectos da direção de arte, do cenário, conversando com os atores, às vezes, simulando ele mesmo cenas para expressar seu desejo na interpretação.
As sequências das filmagens são intercaladas com depoimentos de Larissa Tarkovskaja, esposa do diretor, que lê trechos do diário do marido, de conversas do diretor em palestras que proferiu, de suas reflexões sobre o cinema e a vida, deixando claro que nos filmes do cineasta russo não existe separação entre a arte e sua vida.
“Você pergunta que relacionamento ele tinha com a casa dele. A casa era muito importante para ele. E, como pôde ver, ele colocou nossa casa em cada um de seus filmes. O interior, a sensação, a alma de nossa casa. Não exatamente como uma fotografia. Afinal de contas, isto é arte. Ele usou outras formas e outros personagens além de nós. Mesmo assim, sua vida e sua casa estão presentes em cada filme. Sentimos muita falta de nossa casa durante os cinco anos que ficamos no ocidente. Esta foi nossa primeira casa e ele a adorava e trabalhava muito bem lá. Ele costumava desenhar sempre a casa. Ele escreveu. Estou descansando aqui há três dias, mas sinto que recuperei um ano inteiro. Agora, posso trabalhar. Mas onde há trabalho a ser feito? Em ‘O sacrifício’ ele contou a história de como encontramos a casa. Foi exatamente como o homem contou ao seu filho que, na verdade, é nosso filho mais novo, Andryushka.” – Larissa Tarkovskaja
Um dos grandes destaques do documentário é o conflito que aconteceu após as filmagens da sequência final, o incêndio da casa do protagonista. Preparativos meticulosos foram necessários, pois a casa/cenário foi realmente incendiada para ser gravada em um longo plano-sequência. No entanto, a câmera travou por alguns segundos durante a filmagem. Tarkovski não admitiu editar a sequência, ameaçando, inclusive, que o filme não seria lançado caso não fosse possível repetir a filmagem. A equipe conseguiu financiamento para reconstruir a casa e o diretor de fotografia Sven Nykvist resolveu usar duas câmeras, em dois trilhos, um mais elevado do que outro, como segurança. Tudo deu certo, as imagens mostram a equipe exultante e um Tarkovski pleno de emoções indefiníveis após a palavra “corta”.
O final, emocionante, mostra Tarkovski durante o processo de tratamento do câncer que o mataria, poucos meses após as conclusões de O sacrifício, já acamado, discutindo com a equipe aspectos de pós-produção do filme, como o tratamento de cor. Com certeza, Dirigido por Tarkovski é um dos melhores documentários sobre o cinema já realizados.
Dirigido por Andrei Tarkovski (Regi: Andrei Tarkovski, Suécia, 1988), de Michal Leszczylowski.
O banqueiro suíço Yvan de Viel chega na Argentina, em 1980. Os argentinos ainda comemoram a conquista da copa do mundo de futebol de 1978. Mas Yvan vai transitar, durante a narrativa, por lugares mais discretos, onde não se vislumbram ecos das ruas das cidades: campos de golfes, hipódromos, mansões, os redutos dos milionários que fazem transações escusas com banqueiros suíços.
Azor é o filme de estreia do cineasta Andreas Fontana. Sua câmera retrata esse mundo glamouroso e fascinante da elite corrupta e corruptora, distante da sociedade reprimida pelo regime militar, pelas atrocidades praticadas nos porões da ditadura, pela luta diária de pessoas em busca da liberdade. O protagonista transita por esses redutos tentando provar a si mesmo que é capaz de penetrar e também se aproveitar, afinal, o mundo das altas finanças é dominado pelas raposas.
Azor (Suíça, 2021), de Andreas Fontana. Com Fabrizio Rongione (Yvan de Viel), Stéphanie Cléau (Inés de Wiel), Carmen Iriondo (Viuda Lacrosteguy), Juan Trench (Augusto), Juan Pablo Geretto (Dekerman).
O filme começa com o afogamento de Xingxing, uma criança, em um reservatório, nos anos 80. Ele não sabia nadar, mas foi incentivado pelo seu amigo Hao a entrar na água. Essa tragédia demarca a história de duas famílias, os pais das crianças, ao longo de três décadas.
A narrativa traz fortes conotações políticas, acompanhando a evolução da China na visão dessas duas famílias e seu pequeno grupo de amigos. A política do filho único é o tema central, mas o desenrolar da trama aponta ainda a abertura econômica, que provocou desemprego principalmente entre os operários (os pais de Xingxing), a modernização das cidades e o consequente enriquecimento de uma camada da população (os pais de Hao).
A montagem invertida é um dos grandes destaques de So long, my son. Presente e passado se intercalam, sem respeitar a cronologia dos acontecimentos. Os cortes secos, sem demarcação das passagens de tempo, exigem do espectador atenção especial para entender a história. Jingchun Wang e Mei Yong, os pais da criança afogada, conquistaram os prêmios de melhor ator e atriz no Festival de Berlim.
So long, my son (Di Jiu Tianchang, China, 2019), de Wang Xiaoshuai . Com Jingchun Wang (Yaojun), Mei Yong (Liun), Qi Xi (Moli), Jiang Du (Hao), Liya Ali (Haiyan).
Neste curta documental, Eric Rohmer acompanha as andanças de Nadja, jovem estudante de ascendência iugoslava, pelas ruas de Paris. Ela está na cidade para desenvolver sua tese sobre Marcel Proust e suas caminhadas são pontuadas por narração em primeira pessoa, quando ela reflete sobre a cidade, as pessoas.
É claro, Paris é a grande personagem do curta. A câmera passeia ao lado de Nadja por lugares icônicos: a Sorbonne, Quartier Latin, Montparnasse, Belleville, os cafés e parques, além de redutos famosos da cinefilia. É a câmera de Éric Rohmer como um flâneur pela cidade que esteve presente em diversos filmes ao longo de sua carreira, sempre refletida com o charme, a beleza e a sensibilidade próprias do olhar do cineasta.
Nadja em Paris (Nadja à Paris, França, 1964), de Eric Rohmer.
O primeiro longa-metragem dirigido por Eric Rohmer apresenta uma das marcas de seu estilo: personagens que se movem incessantemente pelas ruas das cidades, principalmente Paris.
Pierre acorda, atende o telefone e descobre que herdou um bom dinheiro da sua tia, que acabara de falecer. Liga para os amigos, pede dinheiro emprestado e dá uma grande festa em seu apartamento. Dias depois, descobre que a tia, na verdade o deserdara. Sem emprego, endividado, abandonado pelos amigos a quem sempre recorreu, Pierre vaga de hotel em hotel, sem bagagem, pois precisa abandonar os quartos sempre que cobrado. Quando não consegue mais hospedagem, empreende uma caminhada durante dias pelas ruas de Paris até cair na completa mendicância.
A narrativa é marcada pela bela fotografia em preto e branco; pelos longos silêncios de Pierre enquanto caminha; pela futilidade da boemia das noites parisienses; pela frustração de artistas como o próprio Pierre, um músico, e por outro sem-teto (Jean Le Poulain), um ator que encena trechos caricatos pelas ruas em troca de moedas.
O final, quase milagroso, aponta a redenção de Pierre, mas deixa no ar o grande vazio destes personagens que vivem à margem em cidades como Paris, aparentemente bela e glamourosa.
O signo do leão (Le signe du lion, França, 1959), de Eric Rohmer. Com Jess Hahn (Pierre Wesselrin), Van Doude (Jean-François Santeuil), Michèle Girardon (Dominique),
David Lyn classifica El Topo como um de seus filmes favoritos. Nada a estranhar, pois o surrealismo e a escatologia são presenças marcantes nas obras de Lyn e Jodorowsky.
A narrativa é dividida em duas partes. Na primeira, o pistoleiro El Topo, que cavalga sempre em companhia de um menino nu, busca os assassinos responsáveis por um massacre em um povoado. É o típico western que irrompeu os anos 70 com cenas violentas e sanguinárias. O encontro do pistoleiro com os assassinos, liderados por um coronel, é um banho de sangue.
Na segunda parte, El Topo deixa o menino para trás e cavalga em companhia de Mara, amante do Coronel. Completamente apaixonado, atende a um pedido de Mara: matar os quatro mestres do deserto, guerreiros invencíveis. É a virada da narrativa para o misticismo, para o simbolismo religioso, para inserções metafóricas sobre o sentido da vida e da morte. O sangue continua a jorrar, agora pontuado por cenas caricatas e diálogos nonsenses.
El Topo foi praticamente banido dos cinemas mexicanos e dividiu críticas mundo afora. Alejandro Jodorowsky sempre buscou recursos para filmar a continuação da saga do mítico pistoleiro, mas parece que, aos olhos do mundo, um El Topo é suficientemente repulsivo.
El Topo (México, 1979), de Alejandro Jodorowsky. Com Alejandro Jodorowsky (El Topo), Mara Lorenzio (Mara), Brontis Jodorowsky (O menino), Pablo Leder (Monge 1), Giuliano Girini Sasseroli (Monje 2), Christian Merkel (Monje 3), Aldo Grumelli (Monje 4).