Categoria: Filme

  • Nível cinco

    A batalha de Okinawa foi uma das mais sangrentas do final da Segunda Guerra Mundial, agravada devido ao suícidio coletivo praticado por grande parte da população japonesa da ilha. Chris Marker se debruça sobre esse triste episódio em filme que transita entre o documentário, a ficção, a tecnologia interativa e os jogos de videogame.

    Laura (Catherine Belkhodja), programadora de computador, é contratada para construir um jogo de computador tendo como tema a Batalha de Okinawa. Enquanto ela desenvolve a narrativa, uma profusão de imagens, simulando realidades interativas, invadem a tela. As entrevistas que a programadora promove, entram como depoimentos, entre eles do diretor Nagisa Oshima. 

    Um momento de Nível Cinco é mais aterrador do que qualquer cena real da batalha: um padre, já idoso, narra como ele e o irmão mataram a própria mãe, atendendo aos pedidos dos militares japoneses: sacrificar as crianças e os mais velhos e depois cometer suícidio.

    Uma das teorias difundidas é que as bombas de Hiroshima e Nagasaki não teriam acontecido se os militares em Okinawa tivessem aceitado os termos de rendição impostos pelos americanos. O saldo final de mortos da batalha gira em torno de 350 mil pessoas (cerca de 130 mil civis). Até quando cineastas como Chris Marker vão precisar alertar a humanidade sobre a estupidez desumana das guerras?

    Nìvel cinco (Level five, França, 1997), de Chris Marker.

  • Constans

    Após dar baixa em seu treinamento no exército, o jovem Witold consegue emprego como eletricista. No primeiro dia de trabalho, ele revela à Marius, seu chefe imediato, que tem pouca experiência na função. Marius responde que “basta ele ser honesto.” É o tema do mais famoso filme de Zanussi, ganhador do Prêmio do Júri no Festival de Cannes. 

    A honestidade de Witold passa a ser confrontada por seus próprios colegas de trabalho, incluindo Marius, que exigem que o jovem faça pequenas negociações escusas no ambiente de trabalho, proporcionando lucro extra aos trabalhadores.

    Em outro ambiente, um hospital, Witold também se depara com a corrupção. Sua mãe é internada devido a um câncer terminal e conseguir vaga em um quarto, assim como medicamentos, depende de “contribuições” para os funcionários do hospital. 

    Constans é o retrato frio e cruel do fim do sonho comunista na Polônia. Em determinado momento, Marius pergunta a Witold: “Qual o seu preço?”, afirmando que mais dia menos dia o jovem idealista também será corrompido. Witold resiste, sua moral e ética prevalecem, talvez um ingênuo como Cândido, que infelizmente só existam na literatura e no cinema.  

    Constans (Polônia, 1980), de Krzysztof Zanussi. Com Tadeusz Bradecki (Witold), Zofia Mrozowska (Mãe de Witold), Małgorzata Zajączkowska (Grażyna), Witold Pyrkosz (Marius)

  • Duas ou três coisas que eu sei dela

    Juliette (Marina Vlady) é dona-de-casa, moradora de um novo conjunto habitacional na periferia de Paris. Para satisfazer seus sonhos de consumo (seu marido é um acomodado mecânico de carros, cujo hobby é sintonizar estações de rádio distantes), Juliette se prostitui durante as tardes. 

    O filme é um dos marcos da passagem de Godard para um cinema abertamente experimental, deixando para trás o cinema de fluxo narrativo. Fragmentos de imagens icônicas, representativas da sociedade de consumo, se sucedem na tela quase como um break de intervalos comerciais. A famosa sequência do lava-jato coloca em evidência a estética publicitária, centrando o olhar do espectador no belo carro vermelho, enquanto as personagens transitam ao fundo, quase como coadjuvantes. 

    “A prostituição de Juliette é uma caracterização geral da natureza dessa sociedade nascente: transformação de tudo e de todos em mercadoria. As rotas para a abstração – citações, monólogos, inserts, encontros e entrevistas – abertas pela narração no percurso da personagem exploram essa nova paisagem e situação humana.” – Leandro Saraiva. 

    Duas ou três coisas que eu sei dela (Deux ou trois choses que je sais d’elle, França, 1966), de Jean-Luc Godard.

    Referência: Godard inteiro ou o mundo em pedaços. Eugênio Puppo e Mateus Araújo (organização). Catálogo produzido pela Fundação Clóvis Salgado para a retrospectiva Jean-Luc Godard, exibida na Sala Humberto Mauro. 

  • Darling – A que amou demais

    Diana Scott começa a se projetar na carreira de modelo, se tornando cada vez mais ambiciosa. Ela conhece Robert, um culto apresentador de programa de entrevistas na televisão. Os dois são casados, se apaixonam e, após as separações, vivem uma tumultuada relação, marcada pelas infidelidades de Diana. 

    Darling é um marco cinematográfico da swinging London, termo usado para descrever a efervescência cultural e os modernos hábitos de costumes, incluindo a liberdade sexual, de Londres durante a década de 60. 

    O enigmático e charmoso Miles introduz Diana nos clubes e apartamentos fechados, espécie de reduto onde os libertinos podem se revelar, se despindo da face que preservam diante da conservadora sociedade inglesa. O subtítulo em português retrata com perfeição a personagem (Julie Christie conquistou o Oscar de Melhor Atriz): Diana se entrega às paixões como quem precisa simplesmente viver, enquanto luta consigo mesma, pois ela deseja apenas viver com Robert, seu grande amor. 

    Darling – A que amou demais (Darling, Inglaterra, 1965), de John Schlesinger. Com Julie Christie (Diana), Dick Bogarde (Robert). Laurence Harvey (Miles), Roland Curram (Malcolm), José Luis de Villalonga (Cesare). 

  • Kung-Fu Master!

    Agnès Varda envereda por um tema ousado, polêmico, diria até mesmo proibido. O amor de uma mulher de cerca de 40 anos por um adolescente. Durante uma festa em sua casa, promovida por sua filha Lucy, Mary-Jane fica encantada por Julien, colega de escola de Lucy. Ela decide que precisa vê-lo novamente e começa uma série de encontros com o garoto, a princípio, despretensiosos, mas que caminham cada vez mais e mais para a paixão mútua. A relação se concretiza durante uma viagem de férias em Londres, depois, Mary-Jane e Julius partem para uma estada em uma ilha na Inglaterra.

    Jane Birkin e Charlotte Gainsbourg, mãe e filha na vida real, transpõem essa condição para o filme. A relação entre as duas se anuncia cada vez mais conflituosa, à medida que o caso da mãe se revela. O garoto Julien é interpretado por Mathieu Demy, filho de Agnès Varda e Jacques Demy. 

    Apesar de controverso, Kung-Fu Master traz a sensibilidade característica da diretora francesa. Em um determinado momento, a mãe de Mary-Jane diz à filha que ela deve se entregar à paixão, apesar de tudo caminhar para a inevitável punição. 

    Kung-Fu Master! (Kung-Fu Master! Le petit amour, França, 1988), de Agnès Varda. Com Jane Birkin (Mary-Jane), Charlotte Gainsbourg (Lucy), Mathieu Demy (Julien), Lou Doillon (Lou).  

  • O ornitólogo

    Fernando está sozinho na selva, observando pássaros. Durante uma travessia de caiaque pelo rio, ele é surpreendido pela correnteza e se acidenta. Quando acorda, na margem, está perdido. 

    É o início de uma jornada espiritual, metafísica, durante a qual Fernando se defronta com pessoas estranhas e perigosas. Duas jovens chinesas, fanáticas religiosas, o amarram e ameaçam castrá-lo. Um jovem mudo, chamado Jesus, é pastor de cabras. Os dois vivem um momento amoroso que termina tragicamente. Um grupo de amazonas nuas se dispõe a guiar o ornitólogo para fora da floresta, mas ele recusa. 

    O filme de João Pedro Rodrigues é uma releitura do mito português de Santo Antônio. A jornada de Fernando é uma jornada de autodescoberta, transformação, se entrega à espiritualidade em uma comunhão entre homem e natureza. A obra exige a entrega contemplativa e espiritual que o cinema incentiva. 

    O ornitólogo (Portugal, 2016), de João Pedro Rodrigues. Com Paul Hamy (Fernando), João Pedro Rodrigues (Antonio), Xelo Cagiao (Jesus), Han Wen (Fei), Chan Suan (Ling).

  • O império da paixão

    Após o aclamado e polêmico O império dos sentidos, Nagisa Oshima fez essa obra centrada em um triângulo amoroso movido pela paixão, crime e culpa. É também uma história de fantasmas.

    Em uma vila japonesa do final do século XIX, a bela e desejada Seki é casada com Gisaburo, um condutor de riquixá. Toyo, um jovem rebelde e inconsequente, seduz Seki e os dois começam um tórrido relacionamento sexual (atenção para a cena em que Toyo pede que a amante raspe suas partes íntimas). 

     Não é spoiler: em histórias assim, o marido sempre é assassinado. Essa virada no roteiro provoca a ruína dos amantes, cada vez mais entregues à paixão e à culpa. Seki começa a ser assombrada pelo fantasma do marido que implora para que o tirem do poço onde seu cadáver foi jogado. A partir daí, o destino trágico dos amantes está traçado. Mais uma vez, o erotismo do cinema de Nagisa Oshima provoca o espectador com violência. 

    O império da paixão (Ai no borei I, Japão, 1978), de Nagisa Oshima. Com Kazuko Yoshiyuki (Seki), Tatsuya Fugi (Toyoji), Takahiro Tamura (Gisaburo).

  • O monastério

    O filme abre com uma sequência cruel: no altar de uma igreja, um padre está prestes a executar um bebê recém-nascido. Ele é impedido por policiais que entram na igreja e matam o padre. Corta para trinta anos depois. 

    Marek, um policial disfarçado de padre, chega a um monastério, famoso por seus casos de exorcismo. Marek precisa investigar o desaparecimento de jovens mulheres da região que, possivelmente, são as vítimas dos casos de exorcismo. 

    A sequência inicial aponta a possível ligação entre Marek e uma seita maligna, formada pelos padres do monastério. A narrativa é recheada de cenas brutais, até mesmo repulsivas (atenção para o alimento impingido ao falso padre). A virada de roteiro perto do final do filme provoca o tradicional banho de sangue dos filmes de terror contemporâneos. 

    O monastério  (Hellhole, Polônia, 2022), de Bartosz M. Kowalski. Com Piotr Zurawski (Marek), Olaf Lubaszenko (Padre Andrzej), Sebastian Stankiewicz (Padre Monk).

  • O estrangeiro

    O canto do cisne do aclamado diretor Satyajit Ray é um tratado filosófico e humanista sobre as relações familiares. O filme é adaptado de um conto escrito pelo próprio diretor. 

    Anita Bose é casada com Sudhindra, um próspero industrial indiano. O casal tem um filho adolescente, Satyaki. A trama abre com Anita lendo para seu marido e filho a carta que acabou de receber de seu tio Mitra, desaparecido há mais de vinte anos. O tio pede que a sobrinha o receba para uma visita de uma semana. No entanto, pairam dúvidas sobre a identidade deste tio desconhecido. 

    A narrativa é centrada neste núcleo de quatro personagens, tendo como cenário a casa da família Bose. Mitra se revela, pouco a pouco, um homem fascinante, de vasta cultura adquirida em suas viagens pelo mundo. O jovem Satyaki é o primeiro a acreditar que tem um tio-avô, não escondendo sua admiração pelo contador de histórias. Cabe a Mitra vencer, passo a passo, a resistência de sua sobrinha e, principalmente, do patriarca da família. 

    O grande trunfo da narrativa são os diálogos intimistas e filosóficos que se transformam, muitas vezes, em longos debates sobre religião e misticismo, sobre tribos indígenas, sobre a injusta sociedade de castas indianas. Mitra é um personagem cético em relação à humanidade. Ele busca sentido para a vida estudando as tribos primitivas de várias partes do mundo. O final é terno e encantador, aponta o desprendimento necessário para se entregar aos pequenos sentimentos entre família.   

    O estrangeiro (Agantuk, Índia, 1991), de Satyajit Ray. Com Utpal Dutt (Manomohan Mitra), Dipankar Dey (Sudhindra Bose), Mamata Shankar (Anita Bose), Bikram Bhattacharya (Satyaki Bose).

  • O amor dos leões

    Agnès Varda realizou este filme durante sua estada em Los Angeles, em 1969, centrando a narrativa em um triângulo amoroso, formado por Viva (a atriz de Andy Warhol, interpretando ela mesma), Jim e Jerry. Sexo a três, amor livre, viver os dias entre o mar, o sol e as piscinas, tudo indica o aclamado verão do amor que marcou a rebeldia juvenil dos anos 60. 

    Em meio a esta utopia, a diretora insere imagens dos astros e estrelas de Hollywood: fotos, cartazes, a famosa calçada da fama, citações, segundo Viva “a pressão aqui em Hollywood é tão grande, vinda de todas aquelas pessoas mortas.”

    Como pano de fundo, a própria Agnès Varda participa da trama, pois está tentando terminar um filme com a estrela Shirley Clarke, que passa por uma crise profissional e pessoal que resulta em uma overdose de remédios. 

    O amor dos leões é um retrato utópico e realista (os três protagonistas vivem em frente à TV acompanhando os impactos políticos do assassinato de Rober Kennedy) do final dos anos 60, quando parece que todo a rebeldia caminha para o erro.

    O amor dos leões (Lions love (…and lies), EUA, 1969), de Agnès Varda. Com Viva (Viva), James Rado (Jim), Gerome Ragni (Jerry), Shirley Clarke (Shirley). 

  • Muriel

    Hélène é viúva e, para sobreviver, vende antiguidades de seu apartamento. O fotógrafo Bernard, seu enteado, vive no apartamento, dividindo seu tempo entre o seu precário estúdio e com uma namorada imaginária, Muriel. A rotina dos dois, que anuncia uma atração secreta e mútua, é perturbada com a chegada de Alphonse, antigo namorado de Hélène, e sua sobrinha Françoise (que depois revela ser amante de Alphonse). 

    O cultuado Alains Resnais realizou Muriel logo após a obra-prima O ano passado em Marienbad. A trama de Muriel também envereda pelos meandros de memória, de passados traumáticos – Muriel é uma jovem que foi torturada por soldados franceses, com a participação de Bernard, durante a guerra da Argélia. Hélène e Alphonse buscam reviver um amor acabado através da lembranças de pequenos encontros, de planos que ficaram pelas ruas, pelas praias, de gestos abandonados no último instante. A edição fragmentada, feita de cortes súbitos, quase frames inseridos ao acaso, demarca o estilo de Resnais e da própria nouvelle-vague em seus primeiros filmes. 

    Muriel (França, 1963), de Alain Resnais. Com Delphine Seyrig (Hélène Aughain), Jean-Pierre Kérien (Alphonse Noyard), Nita Klein (Françoise), Jean-Baptiste Thíérrée (Bernard). 

  • Mulheres diabólicas

    Um dos diretores da primeira geração da nouvelle-vague francesa, Claude Chabrol sempre foi o mais apegado ao filme de gênero. Mulheres diabólicas é um thriller psicológico, regado a altas doses de violência. Sophie trabalha como empregada doméstica para Catherine em uma casa campestre. Ela desenvolve uma estranha amizade com Jeanne, funcionária dos correios local. Quando as duas começam a frequentar a casa, promovendo ruidosos e inconvenientes encontros, Catherine demite a empregada. 

    Isabelle Huppert é o destaque da trama, sua personagem se revela cada vez mais e mais perigosa, a princípio com ideias subversivas, em uma espécie de ajuste de contas entre classes. O violento final, com as duas amigas de cartucheiras em punho, é de revirar os sentidos do espectador. 

    Mulheres diabólicas (La cérémonie, França, 1995), de Claude Chabrol. Com Isabelle Huppert (Jeanne), Sandrine Bonnaire (Sophie) Jacqueline Bisset (Catherine), Jean-Pierre Cassel (Georges), Virginie Ledoyen (Melinda), Valentin Merlet (Gilles).  

  • Mommy

    A narrativa se passa em um futuro indefinido. No Canadá, o governo implantou um projeto de lei para serviços de saúde. O S18 permite que os filhos com deficiência possam ser deixados pelos pais em um hospital público, sem um processo legal. É o abandono permitido. 

    O adolescente Steve se enquadra nessa categoria: é psicótico, violento, sujeito a instabilidades emocionais imprevisíveis. Sua mãe, Diane, tenta cuidar dele em casa e, em determinado momento, conta com a ajuda de Kyla, sua nova vizinha. 

    Os três protagonistas sofrem com questões emocionais severas, cada um tentando compensar suas frustrações sentimentais, emocionais, cuidando uns dos outros. O diretor canadense Xavier Dolan conquistou seu primeiro prêmio em Cannes com Mommy, finalizado no dispositivo quadrado 1:1 e carregado com uma trilha sonora psicodélica e fascinante. O final pessimista, de uma tristeza imensa, reflete esses conturbados meandros das relações familiares. 

    Mommy (Canadá, 2014), de Xavier Dolan. Com Anne Dorval (Diane), Antoine Olivier Pilon (Steve), Suzanne Clément (Kyla). 

  • Como fera encurralada

    Prepare-se para uma das cenas mais tristes do cinema noir, quando Abel Davos, sua esposa e filhos, e o comparsa Raymond Naldi desembarcam, à noite, em uma praia da Espanha. 

    A primeira parte do filme é um road-movie acelerado. Abel e Raymond roubam dois guardas na saída de um banco, na Itália. A fuga acontece pelas estradas italianas, de carro e moto, depois de ônibus, por fim de barco. O destino é Paris. A virada de roteiro na praia provoca um rumo inesperado, principalmente para Abel.

    Na segunda parte, Abel se defronta com seus antigos amigos em Paris, em uma jornada de vingança. Como fera encurralada tem uma das mais extensas e variadas galerias de personagens noir. Abel, pivô da trama, é movido a amizade e lealdade aos amigos, apesar de seu caráter cruel (atenção para um assassinato a sangue frio). O jovem Erik Stark é romântico e delicado com as crianças, mal parece um bandido. O grupo de Paris tenta se desprender do passado, oscilando entre a lealdade e a traição. 

    O ator Lino Ventura, que ficou marcado pelos seus papéis de gangsters, traz a amargura e a tristeza estampada no rosto. Seu resignado gesto final traz a carga simbólica daqueles que não esperam a redenção através da punição, apenas se entregam ao destino. Um elegante, belo e triste filme noir. 

    Como fera encurralada (Classe tous risques, França, 1960), de Claude Sautet. Com Lino Ventura (Abel Davos), Sandra Milo (Liliane), Jean-Paul Belmondo (Erik Stark), Michel Ardan (Riton), Simone France (Thérèse Davos), Stan Krol (Raymond Naldi),

  • O soldado que não existiu

    Em 1943, os aliados planejavam a libertação da Itália, ocupada pelos nazistas. O desembarque das tropas deveria acontecer pela Sicília, fortemente defendida pelos alemães. Para minar a resistência, os aliados plantaram informações falsas que invadiriam a Grécia. Assim nasceu a famosa Operação Mincemeat, criada por um pequeno grupo de estrategistas formado por civis e militares: o cadáver de um oficial inglês jogado na costa da Espanha com informações sigilosas sobre o desembarque na Grécia. 

    A operação é considerada um dos maiores estratagemas de dissimulação da história das guerras. É a base narrativa de O soldado que não existiu. O filme começa pela montagem invertida, no dia do desembarque da Sicília, com narração em off do escritor Ian Fleming, que participou da operação, discorrendo sobre verdades e mentiras, realidade e ficção em tempos de guerra.

    O recuo no tempo, seis meses antes, narra passo a passo o estratagema. Romance, bom-humor, drama e suspense se entrelaçam na história. Em um momento, um oficial diz, se dirigindo a Ian Fleming: “estamos cercados pelos nazistas e pelos escritores.” 

    O filme não tem surpresas, todo mundo que se interessa pelo tema sabe que os alemães não ofereceram resistência ao desembarque na Sicília. O trunfo do roteiro são mesmo as combinações de gêneros, centrando na estratégia, sem necessidade das tradicionais sequências de guerra. 

    O soldado que não existiu (Operation Mincemeat, EUA, 2021), de John Madden. Com Colin Firth (Ewen Montagu), Matthew Macfadyen (Charles Cholmonde), Kelly Macdonald (Jean Leslie), Johnny Flynn (Ian Fleming). 

  • Código desconhecido

    O primeiro filme de Michael Haneke na França explora as narrativas cruzadas. É manhã em uma avenida movimentada de Paris. O jovem Jean caminha com Anne pela calçada, discutindo sobre ele ficar ou não na cidade. Eles se despedem, Jean assiste por alguns segundos a um grupo de músicos de rua e joga um pedaço de papel amassado no colo de uma pedinte. Amadou, um jovem negro, vê o ato e aborda Jean, exigindo que ele peça desculpas. 

    A partir deste encontro, o filme assume a estrutura fragmentada, sem coerência narrativa. Os fragmentos exploram momentos do cotidiano das pessoas envolvidas, principalmente Anne, uma atriz, seu namorado Georges, um fotógrafo de guerra, Amadou, um negro imigrante, e Irina, a pedinte também imigrante. 

    A temática do filme é a grande distinção social, exacerbada pelo racismo e pela xenofobia, que se evidencia em situações cotidianas da cidade: nas ruas, em cafés, nos metrôs (atenção para a longa sequência de abordagem de um jovem marginal a Anne). Juliette Binoche domina, como sempre, mais um filme.

    Código desconhecido (Code inconnu: récit incomplet de divers voyages, França, 2000), de Michael Haneke. Com Juliette Binoche (Anne), Thierry Neuvic (Georges), Josef Bierbichler (O fazendeiro), Alexandre Hamidi (Jean), Ona Lu Yenke (Amadou), Grenguta Hariton (Irina), 

  • Planeta fantástico

    A obra cult de René Laloux usa a fascinante animação de recortes, criada por Roland Topor , e uma fascinante trilha sonora de jazz psicodélico. A narrativa se passa no planeta Ygam, habitado pelos gigantes Draags, cuja pele tem coloração azul. Os Draags vivem em processo de meditação constante, mas, apesar deste avanço psicológico, têm seu lado cruel: eles escravizam humanos, adotando-os como animais de estimação. No entanto, humanos “selvagens”, que vivem escondidos, planejam uma rebelião. 

    Planeta fantástico segue uma tendência narrativa comum a partir do final dos anos 60, iniciada com o clássico Planeta dos macacos: os humanos é que são tratados como animais, como escravos. Logo na primeira sequência da animação, a crítica severa dá o tom da narrativa: um grupo de crianças Draags mata, como uma brincadeira, uma humana que foge com seu bebê nos braços. Esse menino, narrador da história, será o líder da rebelião.  

    Planeta Fantástico (La Planète Sauvage, França, 1973), de René Laloux.

  • Comizi D’Amore

    Pasolini busca opiniões sobre sexo em uma das suas raras experiências pela narrativa documental. De microfone em punho, o diretor aborda grupos de crianças, jovens, trabalhadores, mulheres, prostitutas, em várias cidades do país, da Sicília à Milão. 

    Os temas variam sobre o sexo como solução para o matrimônio, sobre a polêmica legalização do divórcio na Itália católica, sobre prostitução e homossexualismo. Na parte final do documentário, Pasolini abre espaço para um debate que ganhou as ruas de Nápoles: a Lei Merlin, que proibiu o funcionamento de bordéis e, segundo os moradores, principalmente os homens, incentivou a prostituição nas ruas o que aumentou a incidência de doenças venéreas. 

    Entre os depoimentos, intelectuais do porte de Alberto Moravia e Cesare Musatti dialogam com o diretor sobre o sexo na vida cotidiana das pessoas. Pasolini, ateu e homossexual, é ferino em suas perguntas, não poupando nem mesmo as crianças de pensar e comentar sobre o assunto. Em vários momentos, a edição recorre ao corte do som, com a inscrição “autocensura”. Na ficção ou no documentário, Pier Paolo Pasolini não deixa pedra sobre pedra em suas abordagens sobre tabus.  

    Comizi D’Amore (Itália, 1964), de Pier Paolo Pasolini.

  • Nós

    O documentário da feminista Alice Diop, filha de pais senegaleses, é dedicado ao escritor François Maspero: “O seu livro Les Passagers du Roissy Express me incitou a ver e amar o que havia diante dos meus olhos.”

    Na primeira sequência, o ver e ouvir é representado por um casal e seu filho, em um bosque, observando de binóculos cervos selvagens. A partir daí, a diretora segue o cotidiano de personagens que usam o trem RER B, que atravessa Paris, conectando subúrbios ao centro da cidade.

    Compõem o filme um mecânico africano, uma cuidadora de idosos, um escritor e a própria Alice Diop que interage com os retratados. No final, uma simbólica trupe de “nobres”, vestidos a caráter para uma caça aos animais, confirma a disparidade social sugerida durante a narrativa, que dá voz aos moradores da periferia.  

    Nós (Nous, França, 2021), de Alice Diop.

  • Nuestros cuerpos son sus campos de batalla

    A diretora francesa Isabelle Solas centra sua câmera na trajetória política, combativa, de Claudia e Violeta, duas mulheres trans. Elas reúnem e lideram grupos de ativistas que buscam conscientizar a conservadora sociedade argentina dos direitos transfeministas. 

    A narrativa traz depoimentos de Claudia, Violeta e outras mulheres, momentos de reivindicações nas ruas, cenas cotidianas de casa e trabalho, além da cobertura do julgamento de um homem acusado do assassinato de Diana Sacayán, uma mulher trans. 

    Isabelle Solas planejou o documentário a partir do encontro com mulheres do Colectivo Otrans. “Queria dissecar como o desejo pode ser político, esta fonte individual e coletiva que torna possível pensar o mundo de forma diferente. Estes corpos que se movem neste território conturbado e violento que é hoje a Argentina; e que são em si mesmos um ato de resistência.” – declara a diretora.

    O título do documentário foi inspirado no cartaz da artista Bárbara Kruger, criado em apoio à luta pelo aborto: Your body is battleground.

    Nuestros cuerpos son sus campos de batalla (Argentina, 2021), de Isabelle Solas.