Categoria: Filme

  • O comerciante das quatro estações

    Quando volta do serviço prestado à Legião Estrangeira, no Marrocos, em 1947, Hans Epp começa a trabalhar como feirante, junto com a esposa, Irmgard Epp. Para aumentar os rendimentos, ele percorre as ruas de bairros com um carrinho de frutas, anunciando para as janelas suas ameixas e peras. 

    Com este personagem singular, Fassbinder compõe a metáfora das quatro estações. Hans vê seus dias passarem de forma repetitiva, quase um espectador passivo de sua própria vida sem sentido. Ele é o protótipo do homem fracassado, cuja profissão é humilhante para sua família burguesa. Em casa, ele agride a esposa e despreza a filha única.  

    O comerciante das quatro estações surgiu após Fassbinder ficar fascinado pelo cinema de Douglas Sirk. As referências ao melodrama são claras durante a trama, com o protagonista entregando-se ao sofrimento sem possibilidades de redenção, caminhando de forma irreversível para um abrupto ato final, quando bebe atá a morte sob os olhares dos amigos. Fassbinder não poupa o espectador, filmando o ato de forma seca, quase como se fosse natural o auto sacrifício do personagem. Preste atenção no final pós morte, no comportamento indiferente, frio e desprezível da família de Hans, da esposa e de seu amante. 

    O comerciante das quatro estações (Handler der vier jahreszeiten, Alemanha, 1971), de Rainer Werner Fassbinder. Com Hans Hirschmüller, (Hans Epp) Irm Hermann (Irmgard Epp), Hanna Schygulla (Anna Epp). 

  • O caminho da tentação

    John Forbes vive uma tranquila vida de casado. É corretor de seguros de uma grande empresa, sua rotina se divide entre casa e trabalho, deixando transparecer o tédio que sente no dia-a-dia. Ele se vê envolvido em um caso de fraude à segurada, quando o responsável, Smiley, é preso. John Forbes precisa recuperar os bens que foram doados por Smiley à sua namorada, Mona Stevens.

    Esse encontro encaminha a trama para a tradicional entrada em cena da femme fatale, marca registrada dos filmes noir. No entanto, a grande vítima da narrativa acaba sendo Mona. John Forbes se apaixona por ela, os dois começam um perigoso caso extraconjugal, pois MacDonald, um investigador particular que trabalha para a corretora, também está apaixonado por Mona. Ele usa de todos os meios para conquistá-la, incluindo chantagem, armando uma complexa armadilha para Forbes no final do filme.  

    O final, triste e doloroso, revela como homens cruéis, MacDonald, e os pretensamente íntegros, Forbes, podem destruir a vida das mulheres com quem se relacionam. 

    O caminho da tentação (Pitfall, EUA, 1948), de André De Toth. Com Dick Powell (John Forbes), Lizabeth Scott (Mona Stevens), Raymond Burr (MacDonald). 

  • No silêncio da noite

    Nas primeiras sequências do filme, o roteirista Dix Steele está em um bar. Ele conhece uma jovem e a convida para sua casa. Os dois ficam juntos até o início da madrugada. Dix leva a jovem até o jardim, nesse momento Laurel Gray, sua vizinha do condomínio, passa por eles. Dix se despede da jovem e observa Laurel entrando em casa. Corta para a manhã seguinte. Dois policiais batem na porta do roteirista. A jovem com quem ele se encontrara na noite anterior foi assassinada na madrugada. Durante o depoimento na delegacia, Dix descobre que é o suspeito número 1 do crime. 

    No silêncio da noite é considerado a obra-prima do aclamado diretor Nicholas Ray. É um noir tenso e amargo, com interpretações primorosas de Gloria Grahame e Humphrey Bogart. É também um dos grandes filmes feitos sobre o próprio cinema, retratando a era de ouro de Hollywood, revelando como o sistema de estúdio forçava seus criativos a trabalhar com as regras impostas para que os filmes tivessem apelo comercial. Dix está trabalhando em uma adaptação literária, mas não pode escrever o filme que deseja artisticamente. 

    O grande destaque deste noir repleto de diálogos cortantes, prestem atenção nos depoimentos de Dix Steele e Laurel Gray na delegacia, é a complexidade psicológica que se instaura entre o casal de protagonistas.

    “Dix Steele (Bogart), um roteirista de pavio-curto, é suspeito de um assassanto especialmente cruel, porém sua vizinha de porta, Laurel Gray (Grahame), pode lhe servir de álibi. Isso leva a dupla a um caso passional que é minado quando Laurel se apavora com as tendências violentas de Dix e começa a se perguntar se ele não teria cometido de fato o assassinato. Depois de anos interpretando sujeitos durões, porém românticos, aqui Bogart mergulha mais fundo na sua própria persona, revelando um viés neurótico que poderia ter feito Sam Spade ou Rick Blaine personagens instáveis e absolutamente assustadores nas sequências em que Dix explode, aplicando surras em quem merece e em quem não merece.”

    O início do filme deixa claro para o espectador que Dix não é o assassino. No entanto, até mesmo esse espectador se vê em dúvida durante a narrativa. O crescente descontrole do personagem assusta a todos, principalmente a Laurel Gray. Os dois estão apaixonados, mas Dix se mostra cada vez mais violento, colocando na cabeça de Laurel, que depôs na delegacia sobre a sua inocência, a dúvida, o medo. 

    O filme tem uma sequência antológica, quando a mente criativa, talvez doentia, do Dix roteirista, acostumado a criar cenas de assassinato em seus filmes, se revela. Em frente a um dos policiais, seu amigo, e da mulher dele, Dix reencena como teria acontecido o assassinato dentro do carro, chegando a simular o estrangulamento no pescoço da esposa do policial. Puro terror psicológico. 

    No silêncio da noite (In a lonely place, EUA, 1950), de Nicholas Ray. Com Humphrey Bogart (Dix Steele), Gloria Grahame (Laurel Gray), Frank Lovejoy.

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • O bígamo

    O filme abre com o casal Harry Graham e Eve em uma entrevista para adoção de uma criança. Estão na faixa dos quarenta anos, são profissionais de sucesso e a adoção é o sonho da esposa. Harry reluta, mostra-se apreensivo, reticente, Edmund Gwenn, o entrevistador remarca a entrevista e, perspicaz como um detetive, passa a investigar Harry. A descoberta não tarda a acontecer. Harry viaja muito a trabalho e, certo dia, ao abrir a porta de sua outra residência, se depara com Edmund. O som de uma criança recém nascida ressoa ao fundo e Phyllis entra em cena. 

    O título já revela ao espectador o tema da trama, portanto, não é surpresa a descoberta. A partir desse momento, O bígamo se transforma em um profundo estudo de personagens. Em flash back, Harry conta como conheceu Phyllis e a engravidou. Narrativa paralela revela o crescente distanciamento que vive com a esposa original, motivado, em grande parte, pelos anos de casamento, pela dedicação à vida profissional, a rotina e o tempo que transformam inúmeros casais em apenas amigos. 

    O trunfo do filme é a dissecação dolorosa das escolhas de Harry, sua paixão por Phyllis, seu respeito pelo longo casamento, um remorso lento e diário que corrói sua integridade. Ida Lupino não escolhe julgar Harry, nem suas esposas, coloca em pauta a complexidade da alma humana, os erros inerentes à condição de existir, de se entregar a momentos ternos como a troca de um olhar em um parque. Espero que, nem mesmo o espectador, se sinta capaz de julgar nem um dos personagens. 

    O bígamo (The bigamist, EUA, 1953), de Ida Lupino. Com Joan Fontaine (Eva Graham), Ida Lupino (Phyllis Martin), Edmond O’Brien (Harry Graham), Edmund Gwenn (Sr. Jordan). 

  • Mãe solteira

    Sally, uma jovem e ingênua garçonete, se apaixona pelo pianista que toca onde ela trabalha. O caso resulta em uma gravidez, mas o pianista muda de cidade, em busca do seu sonho de ser compositor. A jovem vai à sua procura, mas é renegada e abandonada. Desesperada, sua decisão é se internar em uma instituição que cuida de jovens solteiras grávidas e buscam pais adotivos para as crianças. 

    Mãe solteira é o primeiro filme dirigido pela consagrada Ida Lupino. Ela assumiu o filme durante as filmagens, substituindo Elmer Clifton, que sofreu um ataque cardíaco. Lupino tinha 31 anos e foi responsável pelo roteiro do filme, além de atuar como co-produtora.  

    Lupino impôs um olhar feminino ao drama de Sally, sofrendo com o abandono e as angústias quase insuportáveis da sua decisão de ceder o filho para adoção. Uma característica marcante de Mãe solteira, fruto da experiência da diretora como atriz no cinema clássico americano, é a narrativa visual, com momentos dramáticos transmitidos por planos longos e pela montagem com cortes secos e precisos.  

    Mãe solteira (Not wanted, EUA, 1949), de Ida Lupino e Elmer Clifton. Com Sally Forrest (Sally Kelton), Keefe Brasselle (Drew Baxter), Leo Penn (Steve Ryan).

  • Johnny Gunman

    Muito anos de O poderoso chefão (1972), Johnny Gunman traz a história de dois gângsteres que disputam o controle da máfia em Nova York. Vicious Allie e Johnny Gunman são amigos desde a infância. Ambos trabalham para o chefão Loy Caddy, que é preso por sonegação de impostos. Os dois amigos começam então uma disputa pelo controle exclusivo da máfia, ao invés de dividirem territórios. 

    A narrativa se passa ao longo de uma noite e traz os elementos característicos dos filmes noir: ambientação noturna nas ruas e em bares e apartamentos; diálogos rápidos e cortantes;  a femme fatale que instiga seu amante ao confronto; o belíssimo contraste de sombras e luzes e, claro, a violência latente em pontos certeiros da trama. Um filme de baixo orçamento, bem ao estilo dos filmes B americanos que foram consagrados pelas críticos da Cahiers do Cinema e se transformaram em cults. 

    Johnny Gunman (EUA, 1957), de Art Ford. Com Martin E. Brooks (Johnny G.), Johnny Seven (Allie), Carrie Radisson (Mimi), Nick Rossi (Lou Caddy). 

  • Human flow: não existe lar se não há para onde ir

    O premiado artista chinês Ai Weiwei  compôs um painel impactante e doloroso sobre a situação de refugiados espalhados pelo mundo. Durante um ano, o diretor e sua equipe filmaram o cotidiano de 40 campos de refugiados, em 23 países, entre eles: Líbano, Quênia, Bangladesh, a fronteira entre o México e os Estados Unidos.

    “Não é apenas um problema político, mas uma questão humanitária e moral”, afirmou o diretor. As imagens do documentário, com uma edição primorosa, retratam o lado humano dos refugiados: o cuidado que eles têm uns com os outros, a luta pela sobrevivência em situações muitas vezes precárias, o sofrimento pela indefinição das condições dos refugiados de apátridas.

    As imagens são acompanhadas de informações de estarrecer, por exemplo, só no Iraque, quatros milhões de pessoas já abandonaram suas casas desde os anos 80; 56 mil refugiados sírios, iraquianos e iranianos cruzam a Grécia toda semana. O documentário é muito mais do que uma denúncia, é uma potente declaração humanitária que deveria ecoar fundo nas nações que fecham os olhos diante dessa escravidão moderna. 

    Human flow: não existe lar se não há para onde ir (Human flow, Alemanha/EUA, 2017), de Ai Weiwei.

  • Foro íntimo

    O diretor Ricardo Mehedff inspirou-se em fatos reais para compor um retrato claustrofóbico da justiça brasileira. O Juiz Gustavo Ferreira está  trancafiado no Fórum de Belo Horizonte, protegido por agentes de segurança. Sua esposa e filho se mudaram para Buenos Aires. O juiz é o responsável por um caso judicial que envolve um senador da república. Por questões de segurança, a escolta policial do juiz não deixa que ele saia do Fórum e controla até mesmo os casos que ele vai analisar em seus dias de trabalho. 

    O suspense da trama se evidencia em detalhes como o apagar de luzes dos ambientes, passos que se escutam, o bater de portas, um cruzamento de olhares nos corredores do tribunal. O ponto forte do filme é a claustrofobia que transparece no juiz, sentenciado à reclusão, dormindo, comendo, vivendo em seu minúsculo gabinete. As opções estéticas e de linguagem durante a trama evidenciam o medo e o desespero do juiz ao se sentir como muitos daqueles que cumprem penas em prisões, após serem julgados por ele. 

    Foro íntimo (Brasil, 2017), de Ricardo Mehedff. Com Gustavo Werneck (Juiz Gustavo Ferreira), Jefferson da Fonseca (Agente Fontes), Beatriz França (Bia), Léo Quintão (Promotor Donato).

  • Esse obscuro objeto do desejo

    O último filme de Luis Buñuel é uma perturbadora incursão pelos desejos carnais humanos. Mathieu, um francês rico de meia-idade, representante da rígida sociedade patriarcal e do conservadorismo masculino, se apaixona por sua camareira de 19 anos. Conchita toma as rédeas do relacionamento, manipulando o amante, praticando um subversivo jogo sexual em benefício de seus interesses. 

    O próprio Mathieu conta a história de seu relacionamento com Conchita, durante uma viagem de trem, a dois passageiros, que se sentem mais e mais intrigados pelo desfecho do caso amoroso, marcado por sexo, agressões e provocações mútuas. O filme inclui uma ousada experimentação de Luís Buñuel: Conchita é interpretada por duas atrizes, uma loira, a outra morena, dubladas pela mesma voz, confundindo o espectador. 

    “Foi provavelmente em seu último filme, Esse obscuro objeto do desejo, feito em 1977, que ele (Buñuel) conseguiu sua mais assombrosa façanha de prestidigitação. Enquanto escrevíamos o roteiro, consideramos a hipótese de dar o papel da jovem ardilosa (Conchita) a duas atrizes diferentes, alternadamente, sem aviso, sem comunicação e sem dar importância ao fato. Sentíamos que certas cenas se adaptavam melhor a uma mulher elegante e um tanto distante, enquanto outras pareciam ter sido escritas para uma atriz menos sofisticada, mais franca – e capaz de dançar o flamenco.” – Jean-Claude Carríére

    A estratégia narrativa faz com o que o espectador não perceba a alternância das atrizes, pois elas trocam de papéis até mesmo durante uma caminhada pelas ruas, a continuidade discursiva manipulando o espectador: em determinada cena, Mathieu e Conchita-loira estão entrando pela porta da casa, do lado de dentro a Conchita-morena assume a sequência. 

    Em outro momento, quando Conchita parece que vai se entregar a Mathieu, as duas atrizes alternam entre a entrada e a saída do banheiro, quando Conchita se prepara para o ato.  

    “Nessa sequência, percebe-se a função específica de cada uma das atrizes – divisão de personalidade de uma única mulher entre seu lado mais ardente e seu lado mais frio. Angela Molina interpreta, na maioria das vezes, os momentos mais ousados de Conchita – como no apartamento, quando se despe em frente a Mathieu, ou quando dança flamenco nua para os japoneses, ou faz amor com El Morenito. Carole Bouquet interpreta os momentos em que Conchita se faz de distante e o repudia – embora ambas Conchitas (loira ou morena) sejam igualmente cruéis e sádicas com Mathieu.” – Erika Savernini

    Esse obscuro objeto do desejo (Cet obscur objet du désir, França/Espanha, 1977), de Luis Buñuel. Com Fernando Rey (Mathieu Faber), Carole Bouquet (Conchita), Ângela Molina (Conchita).

     Referência: Índices de um cinema de poesia. Pier Paolo Pasolini, Luis Buñuel e Krzysztof Kieslowski. Erika Savernini. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004

  • Enter The Void: Viagem alucinante

    Gaspar Noé faz uma alucinante incursão pelo mundo metafísico, abordando a pós-morte e a encarnação. Oscar é um jovem traficante de drogas que vive em Tóquio, junto com sua irmã Linda, streaper de uma boate. Seus melhores amigos são Victor e Alex – que lhe apresenta um livro tibetano sobre experiências espirituais após a morte. 

    Oscar vai a um clube noturno, The Void, entregar drogas a Victor, mas é traído pelo amigo: a polícia o espera para prendê-lo em flagrante. Refugiando-se no banheiro, Oscar é alvejado pelos policiais. 

    O ponto de vista em primeira pessoa é o trunfo da película. A cãmera segue o olhar de Oscar pelo submundo da Tóquio noturna, regada a sexo, bebidas e drogas, esteticamente marcada pelas infindáveis luzes estroboscópicas, o neon agressivo da cidade. 

    Após a morte, o espírito de Oscar vagueia pela cidade em longos planos gerais, a famosa câmera fantasma dos primórdios do cinema. O espírito espreita, entra na intimidade de seus entes queridos, sem julgamentos, apenas um observador atento à procura de seu destino. 

    Enter The Void: Viagem alucinante (França, 2009), de Gaspar Noé. Com Nathaniel Brown (Oscar), Paz de la Huerta (Linda), Cyril Roy (Alex), Olly Alexander (Victor), Masato Tanno (Mario). 

  • Clímax

    Lettering avisa, na abertura, que a trama é inspirada em fatos reais. Logo após, uma série de imagens em planos fechados apresentam ao público vinte personagens, dançarinos, que vão se reunir em um internato no meio da floresta gelada, para um ensaio de três dias. 

    Corta para o galpão onde acontecem os ensaios. Após um dos ensaios, acontece uma festa regada a bebidas e drogas. Passo a passo, os dançarinos se comportam de forma alucinada, agressiva, cada um revelando desejos e instintos incontroláveis. Aparentemente, alguém colocou um tipo de droga na bebida servida na festa. 

    O polêmico e ousado diretor Gaspar Noé usa desse ato comum, no Brasil conhecido como “Boa noite Cinderela”, para compor um retrato insano, agressivo, erótico, quase repulsivo, desse grupo de jovens enclausurados. A montagem do filme usa de tomadas longas, planos-sequências, travellings desordenados. 

    Em Clímax, Gaspar Noé não precisou recorrer a um dos seus elementos fílmicos favoritos: filmagem de cenas de sexo explícitas. A insanidade que toma conta dos dançarinos e a própria insanidade da linguagem bastam para provocar o espectador.  

    Climax (França, 2018), de Gaspar Noé.

  • A ilha de Bergman

    Tony é diretor de cinema e sua namorada Chris, roteirista. Eles desembarcam na Ilha Faro, onde Ingmar Bergman fez alguns de seus importantes filmes. A ilha é um ponto turístico associado a Bergman: casas e praias que serviram de locação, a casa de Bergman, uma associação que promove debates após a exibição de filmes do famoso cineasta sueco.

    A trama de A ilha de Bergman segue o processo criativo do casal de cineastas enquanto perambulam pela ilha. Tony é um diretor famoso, seguro de seu trabalho, Chris uma roteirista em crise que não consegue desenvolver seu novo projeto. 

    A virada da trama acontece quando Chris conta ao namorado a ideia de seu filme. A metalinguagem toma conta, um filme dentro do filme, como duas realidades paralelas na ilha, trazendo à tona revelações e dramas do passado da roteirista. A diretora Mia Hansen-Love aproveita do clima bucólico e intimista da ilha, como se o cinema de Bergman ainda pairasse ali, para compor duas histórias de amor ternas, sem melodrama, embaraçando realidade e ficção.  

    A ilha de Bergman (França, 2021), de Mia Hansen-Love. Com Vicky Krieps (Chris), Tim Roth (Tony), Mia Wasikowska (Amy), Anders Danielsen Lie (Joseph). 

  • Faya Dayi

    “Era uma vez, havia um velho emir chamado Azurkherlaini. Ele era um homem devoto. Um dia, ele foi tomado pelo medo. Ele começou a rezar: “Senhor, por que o medo agora? Sei que estou pronto para morrer.” Naquela noite, Deus falou com ele em um sonho. ‘Deve encontrar Maoul Hayat.’ ‘Maoul Hayat’, Ele disse, é a água da vida eterna.”

    Esse trecho do documentário de Jessica Beshir expõe o misticismo associado ao khat, uma folha estimulante, cultivada e comercializada pelos etíopes. As imagens poéticas transitam pelas inebriantes paisagens rurais do país, centros urbanos, feiras, onde os coletores e comerciantes se esmeram no trato com a planta. Os jovens dominam grande parte da narrativa, expondo seus sonhos e desejos de prosperidade, alguns de deixar o país, enquanto se entregam à inebriante atmosfera provocada pelas promessas das folhas nascidas da terra e das lendas.  

    Faya Dayi (Etiópia, 2021), de Jessica Beshir.

  • El planeta

    O filme abre com uma divertida sequência: a jovem Leonor está em um restaurante com um homem, marcaram encontro por aplicativo, ela está em sua primeira experiência como pretensa garota de programa. Desiste e volta para sua rotina ao lado da mãe, que vive de aplicar fraudes e furtos em supermercados e lojas de grife.

    A narrativa reflete a crise econômica contemporânea, afetando os desejos consumistas da classe média.  Mãe e filha tentam ao mesmo tempo manter condições mínimas de subsistência: comer, pagar o aluguel, a conta de luz, sem abrir mão de seus gostos refinados: jantar em restaurantes caros, vestir casacos de pele, preservar a vida de aparências. A narrativa tem um tom bem-humorado e ácido, abordando questões sem solução no mundo capitalista consumista. 

    El planeta (Espanha, 2021), de Amalia Ulman. Amalia Ulman (Leonor), Ale Ulman (Maria). 

  • Coração de cristal

    O diretor Werner Herzog afirmou que hipnotizou os atores durante as filmagens, pois queria deles uma atuação sem vida, como se estivessem conformados, sem esperança, caminhando letárgicos para o fim que se anuncia durante todo o filme. Verdade ou não, Coração de cristal transparece essa sensação de finitude, reforçada pelo ritmo lento e contemplativo da narrativa. 

    A história se passa em uma aldeia da Bavária, século XVIII. Os moradores vivem às custas da fabricação do vidro-rubi, no entanto, o mestre vidraceiro morre e leva junto o segredo dessa quase alquimia. O dono da fábrica sacrifica tudo em busca de descobrir o segredo e, passo a passo, a degradação toma conta de todos.

    Hias, protagonista e espécie de profeta, contempla tudo do alto de uma montanha. A estética da película apresenta cenas deslumbrantes: o clima gelado da Bavária, a imensidão à frente de Hias em sua montanha, o processo de fabricação do vidro, essa arte milenar. Dizem que Herzog queria hipnotizar também o espectador durante as sessões. Desistiu da ideia e, creio, não seria preciso: a beleza etérea da película cuida disso.  

    Coração de cristal (Herz aus glas, Alemanha, 1976), de Werner Herzog. Com Josef Bierbichler (Hias), Stefan Güttler (Hüttenbesitzer), Clemens Scheitz (Adalbert). 

  • Calafrios

    O filme abre com um comercial de TV apresentando as maravilhas do Condomínio Starline, divulgado como uma ilha paradisíaca, prédio residencial de apartamentos com toda a infra-estrutura para que os moradores nem pensem em sair dali para nada, inclusive com modernas instalações de saúde. Corta para um casal conversando com o corretor, fascinados pelo empreendimento, dispostos a adquirir um apartamento já mobiliado. 

    Mas é um filme de David Cronenberg: a próxima sequência leva o espectador para dentro de um apartamento, onde um homem mais velho persegue uma jovem, a deita em uma mesa e, depois de matá-la, abre sua barriga em busca de suas vísceras. Pouco depois, o homem corta o próprio pescoço. 

    O tema do filme é um vírus criado em laboratório por um médico, o assassino, e implantado no corpo de uma garota de programa, a vítima. Como a garota atendia a homens e mulheres do condomínio, o vírus se espalha e a narrativa apresenta uma sucessão de cenas escabrosas, misto de violência e sexo. O Dr. Roger St Luc passa a investigar os acontecimentos, motivado pelos relatos de pacientes, e se confronta com a inevitável proliferação da doença que provoca desejos sexuais incontroláveis. David Cronenberg, claro, não poupa o espectador e muito menos a humanidade que se vê diante de seus desejos carnais mais perversos. Atenção para a sequência do elevador, as portas se fecham, quando se abrem, uma garotinha já contaminada se debruça, junto com a mãe, sobre o homem que as infectou.

    Calafrios (Canadá, 1975), de David Cronenberg. Com Paul Hampton, Joe Silver, Lynn Lowry, Allan Kolman, Susan Petrie, Barbara Steele, Ronald Mlodzik, Barry Baldaro, Camil Ducharme, Hanka Poznanska, Wally Martin, Vlasta Vrana.

  • A casa lobo

    Sombras e pinturas que se formam nas paredes de uma casa. Porquinhos que viram crianças. Uma jovem que transita pelos meandros da escuridão, ouvindo a voz do lobo do lado de fora. Ecos de um passado aterrorizante, referências ao horror nazista e ao terror do regime de Pinochet. 

    A casa lobo, dos chilenos Cristóbal León e Joaquín Cociña, é essa adorável e assustadora animação, misturando técnicas de stop motion e jatos nas paredes. É a história de Maria, uma jovem que foge de uma colônia alemã e se refugia em uma casa abandonada. Seus companheiros são dois porquinhos e a ameaçadora voz do lobo. A releitura dos contos de fada ganha uma estética gótica, trazendo à vida os espectros mais sombrios de nossa imaginação. 

    A casa lobo (La casa lobo, Chile, 2018), de Cristóbal León e Joaquín Cociña.

  • Caçador de morte

    Caçador de morte é um dos influentes filmes de perseguição de carros que marcou o cinema dos anos 60/70, assim como Bullitt (1968) e Operação França (1971). Ryan O’Neal interpreta um exímio motorista, que aluga caro seu talento para assaltantes de bancos. Durante um assalto mal-sucedido, ele é visto pela personagem de Isabelle Adjani. O detetive (Bruce Dern) tenta convencê-la a depor e acusar o Driver, mas ela se recusa. 

    O filme foi um fracasso de público e crítica nos anos 70, mas acabou se transformando em cult, influenciando filmes modernos como Drive (2011) e em Ritmo de fuga (2017). A narrativa é marcada por um relacionamento intenso entre o casal de protagonistas e o tradicional jogo de gato e rato entre detetive e bandido. Claro, o destaque fica para as estonteantes perseguições de carro nas ruas da cidade. 

    Caçador de morte (The driver, EUA, 1978), de Walter Hill. Com Ryan O”Neal, Bruce Dern e Isabelle Adjani. 

  • Between two dawns

    Between two dawns, primeiro filme de Selman Nacar, parte de um acidente rotineiro e trágico: um trabalhador é gravemente ferido ao tentar consertar uma máquina na tecelagem onde trabalha, um negócio administrado pelos irmãos Kadir e Serpil. 

    Kadir, o irmão mais jovem, assume a tarefa de dar assistência ao ferido no hospital. Quando conhece a esposa do trabalhador, começa um forte dilema moral, o conflito entre os interesses da família e seus valores pessoais. A narrativa acontece em apenas dois dias, filmada nos ambientes urbanos, centrada na jornada de Kadir e em sua inerente transformação. A realista e cotidiana jornada do herói que pode acontecer com cada um de nós, basta um incidente ao sairmos de casa. 

    Between two dawns (Iki Safak Arasinda, Turquia, 2021), de Selman Nacar. Com Mucahit Kocak (Kadir), Nezaket Erden (Serpil), Unal Silver (İbrahim), Bedir Bedir (Halil), Burcu Gölgedar (Esma), Erdem Şenocak (Yasin).

  • Anjos rebeldes

    As adolescente Mary e Rachel se conhecem em um trem repleto de jovens a caminho de um colégio interno administrado por freiras. A amizade começa e segue no colégio marcada por atos rebeldes, principalmente contra a Madre Superiora, pois enxergam nela a mentora das rígidas convenções que cercam as internas. 

    A comédia de Ida Lupino traz um tema caro ao cinema: o rito de passagem da adolescência para a vida adulta. A bela amizade entre Mary e Rachel vai se confrontar com as escolhas inerentes ao amadurecimento, ao descobrimento de sentimentos ocultos, que se afloram em gestos simples, como se doar ao outro. Rosalind Russell cativa e comove como a rígida Madre Superiora que enternece a todos à medida que revela sua face doce e amorosa.

    Anjos rebeldes (The trouble with angels, EUA, 1966), de Ida Lupino. Com Rosalind Russell (Madre Superiora), Hayley Mills (Mary) , June Harding (Rachel).