Categoria: Filme

  • A felicidade das coisas

    A felicidade das coisas (Brasil, 2021), de Thais Fujinaga, foi feito em parceria com a cultuada produtora Filmes de Plástico e foi escolhido como o melhor longa de estreia na Mostra de Cinema de São Paulo. Paula (Patricia Savay) está passando a temporada de férias com sua mãe e seus dois filhos (ela está grávida do terceiro filho) em uma cidade litorânea de São Paulo. Ela aproveita a estada para terminar a piscina da casa praiana, um sonho da família ou melhor, um sonho de Paula. 

    Esse pequeno e complexo desejo de muitas famílias de classe média e classe média baixa brasileiras é o mote que deflagra uma série de conflitos familiares. A piscina, claro, nunca fica pronta por questões econômicas, o pai ausente não cobre os cheques e atrasa o pagamento dos trabalhadores. 

    O grande conflito gira em torno das relações entre Paula e seus filhos, principalmente o adolescente Gustavo (Messias Góis) que está em sua fase rebelde, em busca de libertação das amarras, e se envolve com um grupo de adolescentes da cidade.  

    A felicidade das coisas traz muito das memórias afetivas da diretora Thaís Fujinaga. A locação é em Caraguatatuba, litoral norte de São Paulo, no Morro do Algodão (bairro formado por casas de praia e um clube de classe média alta), onde a diretora passou vários verões durante os anos 80 e 90. Segundo Thaís “Era uma dinâmica de certa segregação: quem se hospedava no clube não se relacionava com a cidade e muito menos com o bairro. Ao longo dos anos, fiquei circulando dentro e fora daquele lugar e veio daí minha primeira inspiração. Queria explorar esse espaço e a relação de ter ou não acesso a certas coisas.” – Mulher no Cinema

  • A estrada perdida

    A estrada perdida (Lost highway, EUA, 1997), de David Lynch, começa como um tradicional filme de suspense. Fred Madison (Bill Pullman é um saxofonista de jazz que vive em Los Angeles com sua esposa Renee (Patricia Arquette). O casal começa a receber fitas de vídeo com imagens do exterior e do interior da casa onde moram, uma demonstração clara de que estão sendo vigiados. A polícia é acionada, mas nada se descobre. Quando Fred imagina que sua esposa pode estar em um caso extraconjugal, relacionado às fitas, a narrativa envereda por um thriller violento e surrealista, bem ao estilo David Lynch, 

    A película pode ser dividida em duas histórias, ambas com as características do cinema noir, incluindo as femme fatalles, e trocas de idenditades surrealistas, algo como as narrativas distópicas cujos universos paralelos trocam de posições. 

    A frase de David Lynch “os sonhos não têm lógica, mas nós os entendemos” se adapta às complexas personalidade de Fred/Pete. Medos e desejos reprimidos, sonhos em múltiplas visualizações, mistérios insondáveis da natureza humana, a narrativa e a estética da trama desconexa exigem do espectador uma imersão sensorial em todos esses devaneios lynchianos. 

  • A empregada

    Hanyo, a empregada (1960) é um dos maiores sucessos comerciais e de crítica do cinema sul coreano. O remake A empregada (2010) de Im Sang-Soo preserva a história original, transpondo a trama para a atualidade. 

    Eun-yi é contratada como empregada doméstica por Hoon Goh, um rico empresário. Hae-ra, mulher do empresário, está grávida. Eun-yi começa uma relação fraterna e carinhosa com a filha do casal. No entanto, o empresário seduz Eun-yi e os dois começam um perigoso jogo erótico e sexual. A trama resvala para o thriller quando entra em cena a mãe de Hae-ra e as duas começam a ameaçar a empregada. 

    O filme é uma incursão tórrida e violenta no conflito de classes da Coreia, com um final estarrecedor. A interpretação de Jeon Do-yeon no papel da empregada é o ponto alto do filme. De possível vítima, ela entra de forma arriscada em um complexo jogo que envolve intrigas, traições, manipulações e vingança. Eun-yi passa por uma das grandes transformações de personagem do cinema contemporâneo. Ponto para o roteiro.

    A empregada (Coreia do Sul, 2010), de Im Sang-Soo. Com Jeon Do-yeon (Eun-yi Li), Lee Jung-jae (Hoon Goh), Woo Seo (Hae-ra), Park Ji-young (Hae-ra ‘s mother).

  • A carruagem de ouro

    A carruagem de ouro (Le carrosse d’or, França, 1952), de Jean Renoir.

    Um grupo italiano de Commedia Dell’Arte chega a uma colônia espanhola na América do Sul, no século XVIII. O grupo é surpreendido pela rusticidade do local que não tem sequer um teatro para apresentações. Camilla (Anna Magnani), estrela do grupo, se revolta com as condições, mas vai ter que vencer sua frustração pelo amor à sua arte. 

    O filme é uma comédia satírica fortemente marcada pela estética, cores exuberantes, com claras referências às artes plásticas, e pela interseção entre o cinema e o teatro, entre a vida real e a ilusão provocada pelas encenações artísticas. 

    Anna Magnani é o destaque da trama com sua exuberância, seu espontâneo comportamento tanto em em meio à plebe rude quanto  em meio à realeza. Assediada pela paixão de três homens, o vice-rei, um toureiro famoso e um oficial espanhol, Camilla oscila entre suas paixões pessoais, incluindo sua ambição material (o título se refere a uma carruagem de ouro que ela ganha de presente do rei) e seu amor incondicional pela interpretação, pelo teatro. Não é difícil imaginar quem vencerá, em se tratando de um papel interpretado pela majestosa Anna Magnani.

  • A antena

    A antena (La antena, Argentina, 2007), de Esteban Sapir é uma viagem surrealista recheada de homenagens ao cinema, passando pela narrativa do cinema mudo e enveredando por ousadas experimentações estéticas com base no expressionismo alemão, no cinema noir e na animação. Tudo acontece em uma cidade sem voz, os habitantes se comunicam através de legendas visuais. Mr TV (Alejandro Urdapilleta) controla a cidade politicamente e economicamente, usando como estratégia uma televisão que está presente 24 horas na visão e mente de todos. Quando um menino que ainda mantém a capacidade de fala aparece na trama, tudo se encaminha para um thriller de suspense, com duas famílias correndo contra o tempo e contra os criminosos para difundir essa voz por meio de uma poderosa e mágica antena. 

    O cineasta Esteban Sapir critica de forma contundente o consumismo, o poder totalitário que se mantém por meio de poderosos grupos de mídia. O destaque é mesmo o visual deslumbrante, a fotografia em preto e branco pontuada por efeitos especiais que homenageiam as primeiras experimentações visuais que começaram com Georges Méliès. 

  • O desconhecido

    O desconhecido (The Stranger, EUA, 2022), de Thomas M. Wright causou impacto no Festival de Cannes em 2022, quando foi exibido na Mostra Um Certo Olhar. Baseada em uma história real, a trama acompanha um pool de agentes policiais na investigação de um suposto crime que aconteceu dez anos antes: um menino desapareceu perto de uma ponte e nunca foi encontrado. 

    A escritora Kate Kyriacou escreveu o livro  The Sting, contando a saga que se tornou uma das maiores operações policiais da história da Austrália. Henry Teague (Sean Harris) é o principal suspeito. Um grupo de agentes infiltrados partilha de sua jornada, o convencendo a entrar em uma organização criminosa que “apaga” o passado de seus membros. Henry cria uma relação de amizade e confiança com Mark Frame (Joel Edgerton). 

    A montagem não-linear encaminha a narrativa que tem como destaque a relação entre bandido e policial: Mark passo a passo se confronta com princípios éticos e profissionais, principalmente quando descobre o horror do crime. A interpretação de Sean Harris também merece destaque. Solitário, sombrio, o possível criminoso confunde o espectador e a polícia com sua personalidade misteriosa, frágil, talvez doentia. O típico serial killer? Um criminoso frio e dissimulado? Inocente de um crime na verdade nunca esclarecido?

  • Imagem e palavra

    Imagem e palavra (Le livre d’imagem, França, 2018) estreou no Festival de Cannes e foi o propulsor para uma Palma de Ouro Especial, premiando a carreira de Jean-Luc Godard. O filme é uma colagem audiovisual, misturando trechos de filmes, programas de TV, reportagens jornalísticas e as famosas inserções de textos literários, citações filosóficas e comentários políticos que permeiam a obra do célebre diretor da nouvelle-vague francesa. 

    Godard classificou a película como “a história dos últimos cem anos”, dividindo a narrativa fragmentada em cinco partes. “Em Imagem e Palavra, Godard traça este cruzamento entre palavras, hoje multiplicadas, e, ao mesmo tempo, ausentes na fala. Dedica-se a refletir sobre as exaltações de nosso tempo em seis fôlegos – na realidade cinco segmentos ensaísticos, claramente indicados, e mais uma ficção final. Em declarações sobre a obra e no filme, Godard nos diz que os cinco segmentos equivalem aos cinco dedos da mão. Sua voz explica, logo na abertura, que ‘a verdadeira condição do homem é de pensar com suas mãos’, em citação tirada de Denis de Rougemont: ‘Existem os cinco dedos, os cinco sentidos, as cinco partes do mundo, sim, os cinco dedos da fada. Mas todos juntos, eles compõem a mão e a verdadeira condição do homem é pensar com suas mãos’.” –  Fernão Pessoa Ramos

  • Adeus à linguagem

    Adeus à linguagem (Adieu au langage, França, 2014), de Jean-Luc Godard.

    Godard foi mais uma vez reverenciado no Festival de Cannes com sua ousada incursão pelo cinema em terceira dimensão, mantendo sua tradicional experimentação narrativa e estética. A trama fragmentada acompanha de forma descontinuada a separação de um casal, que encontra um cachorro de rua, em espécie de recortes das memórias, entremeados por referências à literatura, cinema e filosofia.

    “Trata-se de um filme raro justamente por entrelaçar o engajamento cultural (o reconhecimento de uma certa linguagem) a uma experiência extraordinariamente física de sua existência. Vê-lo e ouvi-lo em condições ideais – projetado em 3D numa sala de cinema equipada com som surround cristalino o suficiente para preservar toda a expressividade das saturações – é abrir-se a uma relação que mexe diretamente com o corpo e com a percepção, efetivando-se tanto na atração quanto na opacidade. Não à toa, as câmeras usadas na filmagem e seus respectivos frame rates aparecem nos créditos finais junto a outros célebres citado, como Arnold Schoenberg e Samuel Beckett: a força de Adeus à linguagem reside na percepção de que o cinema se dá tanto na profundidade do que se mostra quanto na superfície do que é mostrado. Novamente, matéria e linguagem. ‘Em vez de sentirmos com os personagens, sentimos com o filme’, escreveu David Bordwell em sua meticulosa análise da obra, e esse sentimento se dá tanto pela engajamento intelectual (um filme de entretenimento, no sentido literal do termo, pois mantém o cérebro permanentemente empenhado com suas conexões) quanto pela explosão sensorial que provoca, produz e coloca em crise em sua própria pele.. Daí a saturação, que por vezes torna tanto a imagem quanto o som, reforçando o parentesco do cinema com a pintura, mas também com a arte sonora.” – Fábio Andrade.  

    Referência: Godard inteiro ou o mundo em pedaços. Eugênio Puppo e Mateus Araújo (organização). Catálogo produzido pela Fundação Clóvis Salgado para a retrospectiva Jean-Luc Godard, exibida na Sala Humberto Mauro.

  • Ficção americana

    Thelonious “Monk” Ellison (Jeffrey Wright) é professor universitário e autor de livros desprezados pela crítica e pelo público. Após uma crise no trabalho, ele vai visitar a família em Boston e se vê obrigado a cuidar da mãe que sofre de Alzheimer. Frequentando circuitos literários ele se defronta com autores que considera sem talento algum, mas cujos livros viram best-sellers por retratar a cruel vida dos afrodescendentes nos EUA, explorando o melodrama e a violência. 

    Ficção americana foi indicado ao Oscar de Melhor Filme e conquistou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado . A virada de roteiro promove uma forte crítica à indústria editorial americana e à sociedade que se deleita com histórias regadas a violência. Monk escreve um livro sensacionalista, com o pseudônimo de Stagg R. Leigh, uma espécie de piada, segundo ele mesmo, que nunca seria levada a sério. No entanto, o livro é comprado por uma editora e dispara na lista dos mais vendidos. 

    O intrigante final eleva a crítica também ao modelo comercial do cinema de Hollywood, colocando em discussão um tema comum no universo editorial e cinematográfico: a luta pela autoria, o conflito entre sucesso comercial e integridade artística. Com leveza e bom humor, Ficção americana é uma surpresa no cinema independente. 

    Ficção americana (American fiction, EUA, 2023), de Cord Jefferson. Com Jeffrey Wright, Tracee Ellis Ross, John Ortiz, Erika Alexander, Leslie Uggams, Sterling K. Brown. 

  • Ondas do destino

    Ondas do destino (Dinamarca, 1996), de Lars von Trier.

    Bess (Emily Watson) vive em uma pequena comunidade litorânea da Escócia, cuja sociedade segue preceitos religiosos rígidos e ortodoxos. Bess desperta de sua ingenuidade e inocência quando conhece Jan (Stellan Skarsgard), trabalhador de uma plataforma de petróleo no oceano. A paixão entre os dois encaminha um rápido casamento. No entanto, um acidente muda o destino dos protagonistas e Bess é motivada a uma espécie de jornada em busca de uma fé salvadora. 

    Ondas do destino faz parte do movimento Dogma 95, fundado por Lars von Trier e Peter Vinterberg. A abordagem realista é intensificada por um estilo visual quase documental, uso de câmera na mão e iluminação natural. A narrativa é dividida em sete capítulos, cada um introduzido por uma vinheta de canções dos anos 70. A relação entre Bess e Jan é o ponto forte da trama, movida a intensas relações sexuais, seja fisicamente ou completamente na imaginação. 

    Ondas do destino foi indicado a diversos prêmios, incluindo o Oscar de Melhor Atriz para Emily Watson. É um filme perturbador, com uma virada de roteiro final que provoca as crenças religiosas. 

  • Os idiotas

    Os idiotas (Dinamarca, 1998), de Lars von Trier.

    Em 1995, os cineastas dinamarqueses Lars von Trier e Thomas Vinterberg criaram o Dogma 95 através de um manifesto. O movimento surgiu como uma represália às tecnologias digitais que já dominavam parte da cinematografia dominante. O manifesto defendia um cinema puro, sem interferências da pós-produção.

    As principais regras do Dogma 95: filmagens em locação, uso de som direto, câmera na mão, somente filmes coloridos, proibição de truques ópticos e filtros, nenhuma ação superficial (assassinatos e usos de armas), a narrativa deve se passar no tempo presente – sem saltos temporais ou espaciais, filmes de gênero não são aceitáveis, o diretor não pode ser creditado e o formato utilizado deve ser 35 mm. Os dois filmes mais famosos do movimento, que durou cerca de 10 anos, são Festa de Família (1998), de Thomas Vinterberg e Os idiotas (1998), de Lars von Trier. 

    O diretor dinamarquês concebeu Os idiotas como parte da trilogia Golden Heart, composta também por Ondas do destino (1996) e Dançando no escuro (2000).  A trama é banal e provocativa: um grupo de jovens adultos formam uma comunidade que se dedica a uma prática chamada de “espalhamento”. Os jovens fingem ser deficientes mentais e provocam ações em lugares públicos que chegam ao limite da repulsa. O objetivo é desafiar as normas sociais, impondo a liberdade pessoal.  

    O filme foi recebido cercado de polêmicas que variavam entre os elogios pelas inovações técnicas narrativas e as críticas pelo uso apelativo de situações constrangedoras. Atenção para a sequência na casa de Karen (Bodil Jørgensen), durante um almoço em família, quando ela é desafiada a se portar como uma demente.

  • Elemento de um crime

    Elemento de um crime (The Element of Crime, Dinamarca, 1984), de Lars von Trier. 

    O primeiro filme de Lars von Trier apresenta uma Europa distópica, filmada em tons sépia queimados, evocando a temática do filme: fragmentos de memória que se confundem na mente do ex-policial Fisher (Michael Elphick) durante a investigação de uma série de crimes, cometidos por um serial killer que executa meninas que vendem bilhetes de loteria. 

    O estilo e fotografia noir do filme remetem ao clássico Blade Runner, um dos precursores do estilo neo-noir presente em vários filmes policiais e de ficção contemporâneos. Para investigar os crimes, Fisher se baseia nos métodos de seu mentor Osborne (Esmond Knight), publicados no livro Elementos de um crime.

    Durante o desenrolar da trama o espectador se perde nos meandros das mentes perturbadas dos três protagonistas que estão em uma espécie de disputa: Osborne, Kramer (Jerold Wells), o policial chefe da cidade, e Fisher. A Europa decadente, esfacelada, tomada por uma chuva intermitente é o cenário para criminosos sem escrúpulos.

  • Epidemia

    Renomados cineastas mais cedo ou mais tarde realizam filmes reflexivos sobre o processo de fazer cinema. Em Epidemia (Epdemic, Dinamarca, 1987) o diretor Lars von Trier interpreta Lars que, junto com Niels (|Niels Versel) escrevem um roteiro sobre uma possível epidemia. O roteiro deve ser terminado em cinco dias. Durante este tempo, os roteiristas percorrem possíveis locações e se defrontam com uma verdadeira epidemia que começa a assolar a Europa.

    Lars von Trier compôs a trilogia Europa, formada por Elementos de um crime (1984), Epidemia (1987) e Europa (1991). Nas três obras, destacam-se o olhar depressivo e amargurado diante de uma Europa devastada pela atividade cruel do próprio homem, provocando guerras, epidemias, condições climáticas adversas, contribuindo cada vez mais para uma sociedade injusta, desequilibrada em questões sociais, econômicas, políticas, cujos habitantes sofrem com as constantes crises psicológicas, de identidade, perdidos em países que parecem não mais existir. 

    A narrativa de Epidemia segue o tradicional estilo da metalinguagem, com ficção e realidade se alternando através de uma narrativa fragmentada, não-linear. A experiência dentro do cinema provoca a mistura de documentário e ficção, grande reflexão sobre a arte associada ao real. 

  • O segredo das joias

    Com O segredo das jóias (1950\) John Huston praticamente definiu o subgênero de filmes de assalto, influenciando diversos clássicos na sequência: Rififi (1955), O grande golpe (1956), Os eternos desconhecidos (1958), Onze homens e um segredo (1960).  

    A trama, roteiro e direção de John Huston, adaptada de romance de W. R. Burnett, tem como princípio a preparação de um grande assalto a uma joalheria, planejado pelo notório “Doc”, que acaba de sair da cadeia. Ele reúne seus comparsas, cada um com uma especialidade: Ciavelli, Gus, Emmerich (financiador do plano) e Dix, protagonista da história, um ladrão de segunda categoria amargurado que transita pela noite em busca de dinheiro para pagar suas dívidas. 

    O roubo na joalheria é um primor narrativo e estético, planejado em cada detalhe, mas sujeito aos incidentes, que acontece quando um guarda noturno desconfia e entra pela porta de escape. A partir daí, cada um dos personagens vive um drama e são vencidos, afinal, por suas próprias ambições e fraquezas humanas. 

    “O filme se divide no planejamento e na captação dos recursos humanos e financeiros para o golpe, no golpe em si e, finalmente, na derrocada de seus componentes, vítimas de seus próprios vícios e fraquezas. ‘De uma forma ou de outra, todos nós trabalhamos em função de nossos vícios’, diz Doc, a certa altura, ele mesmo condenado por sua fixação por ninfetas. Da mesma forma, além da ganância, a fraqueza da personagem de Calhern é sua ‘sobrinha’ (uma iniciante e já insinuante Marilyn Monroe), enquanto o ‘caipira’ Hayden sonha com seu Rosebud, um potro indomado reminiscente de sua infância no interior do Kentucky.” – Carlos Quintão. 

    A escapada de Hayden, ao lado de sua namorada Doll, dirigindo ferido em alta velocidade pela estrada, é um desses grandes momentos de desejo e frustração do cinema. A caminhada final de Hayden em direção à casa que foi de seu pai, em direção aos cavalos é dolorosa, sem esperanças, carregada dos sonhos que o cinema clássico americano tornou impossível em alguns belos finais de filmes. 

    O segredo das joias (The asphalt jungle, EUA, 1950), de John Huston. Com Sterling Hayden (Dix Handley), Sam Jaffe (Doc Erwin Riedenschneider), James Whitmore (Gus Minissi), Jean Hagen (Doll Conovan), Marilyn Monroe (Angela Phinlay).

    Referência: Livreto encartado no bluray da Versátil Home-Vídeo, curadoria de Fernando Brito.

  • O grande chefe

    O grande chefe (Direktøren for det hele, Dinamarca, 2006), de Lars Von Trier. 

    Lars von Trier propõe uma narrativa leve e descontraída, sem o peso estético e dramático de seus principais filmes, em uma comédia que destila críticas ao neoliberalismo empresarial. Ravn (Peter Gantzler) é o fundador e chefe de uma empresa de TI, especializada em jogos digitais, que se esconde dos seis funcionários que tem, todos com participação na empresa. Ninguém sabe que Ravn é o chefe, para todos, ele é o braço direito do verdadeiro dono, que nunca deu as caras. Decidido a negociar a empresa, Ravn contrata o ator Kristoffer (Jens Albinus) para assumir as transações. 

    A trama apresenta uma comédia de mal-entendidos que caminha para o trágico: se a empresa for vendida, todos ficam sem seus empregos. As relações profissionais e pessoais tomam rumos imprevisíveis e o ator começa a gostar da situação, acreditando que está desempenhando o grande papel da sua vida.  

    O polêmico diretor dinamarques usou nas filmagens a inovadora técnica Automavision: através de uma ferramenta, a câmera escolhe aleatoriamente os enquadramentos, motivando a imprevisibilidade e consequente improvisação dos atores. Jens Albinus, um dos protagonistas do subversivo Os idiotas (1998) surpreende com sua atuação caricatural, protagonizando o grande momento do final do filme, quando pretensamente sua arte é reconhecida.

  • O diário de uma camareira

    O diário de uma camareira (França, 1964), de Luis Bunuel.

    Céléstine (Jeanne Moreau) chega ao campo para trabalhar como camareira da rica, porém decadente, família Monteil.  Ela ganha a confiança do patriarca da família, velho mulherengo com fetiche por botas, é assediada pelo filho e se envolve com Joseph (Georges Géret), o jardineiro da propriedade. Joseph vai ser o principal suspeito do estupro, seguido de assassinato de uma criança da região. 

    A virada acontece quando Célestine decide investigar o crime e se envolve de forma sedutora, usando sua sofisticação e beleza para se aproveitar da família cheia de “podres” para quem trabalha. O final é revelador do imenso desprezo que Luis Buñuel tratou a burguesia em grande parte de sua obra. 

    O diretor espanhol, contando com a colaboração do consagrado roteirista Jean-Claude Carriere, tentou ser fiel ao livro homônimo de Octave Mirbeau. O tema, a decadência da burguesia e os conflitos de classe, é um dos favoritos de Buñuel. Destaque para a fascinante atuação de Jeanne Moreau cuja transformação é trabalhada com sutileza, deixando à mostra uma ambição que se constrói à medida que ela conhece, e não julga, o deplorável estilo de vida da família Monteil. 

  • Simão do deserto

    Simão do deserto (Simón del desierto, México, 1965) faria parte de um filme conjunto entre Luis Bunuel e outros cineastas. No entanto, só o diretor espanhol filmou sua parte, colocando o filme na categoria de curta ou média-metragem, com cerca de 45 minutos de duração. 

    Simão (Claudio Brook) é um fanático religioso que vive no topo de uma coluna no deserto e é adorado pelos habitantes da região (os representantes legais constroem, inclusive, uma coluna muito mais alta para abrigá-lo). Em alguns de seus intermináveis dias na coluna, Simão é assediado pelo próprio Diabo, interpretado por Silvia Pinal em diversas caracterizações. 

    A ousadia surrealista de Luis Buñuel confronta os valores religiosos, desnudando a hipocrisia que permeia as atitudes da igreja. Filmado em uma única locação, a coluna e seus arredores áridos, os pontos fortes da película são a relação entre Simão e o Diabo, que assume diferentes formas, entre elas uma jovem mulher que destila erotismo e uma sedutora adolescente.  

  • Terra sem pão

    Terra sem pão (Las Hurdes, Espanha, 1933) foi o terceiro filme de Luis Buñuel, um curta-metragem documental que retrata a vida miserável dos habitantes de Las Hurdes, aldeia localizada no norte da Espanha. Assim como outros documentários, como o clássico Nanook – O esquimó (1922), o diretor espanhol encenou, com a colaboração dos habitantes, grande parte das situações retratadas.

    O fato triste e totalmente reprovável dessa estratégia é que a equipe de filmagem provocou as mortes de dois animais – um burro foi lambuzado de mel para que as abelhas o picassem até a morte e um bode foi jogado de um penhasco. As cenas estão no filme. 

    O curta é uma experiência terrível de se assistir pois retrata a miséria total de homens, mulheres e crianças, muitos com doenças mentais devido à desnutrição (Buñuel filma essas crianças). Mesmo encenado, o retrato é verdadeiro, o documentário foi baseado no estudo etnográfico Las Hurdes: Étude de Géographie Humaine (1927), de Maurice Legendre. Terra sem pão foi banido da Espanha fascista e praticamente não foi exibido no resto do mundo, seguindo a sina do filme anterior de Luis Buñuel, A idade do ouro (1931), que também foi censurado. 

  • Playback

    Agustina Comedi monta Playback (Argentina, 2019) com imagens de arquivo, registros pessoais, entrevistas, para documentar a trajetória de um grupo de travestis e transformistas que atuaram na noite de Córdoba, entre 1980 e 1990. La Delpi funciona como um elo de ligação, pois é a única sobrevivente do grupo, muitos vitimados pela AIDS. 

    O documentário é um potente registro da Argentina ainda marcada pela repressora e violenta ditadura militar. A noite underground e queer de Córdoba reserva momentos alegres, rebeldes, uma intensa luta pela liberdade rodeada pelo terror imposto pela conservadora sociedade e pela epidemia da AIDS.

    A narrativa fragmentada, não-linear, ajuda o espectador a transitar pelas memórias das personagens, recheadas de sensibilidade, afeto e fraternidade. Playback é um curta-metragem sensível sobre um momento ao mesmo tempo vibrante e trágico da sociedade argentina.  

  • Amores na cidade

    A ideia partiu de Cesare Zavattini, grande roteirista do neorrealismo italiano: seis importantes diretores foram convidados a contar uma história relacionada a relacionamentos amorosos, passadas em Roma, seguindo o estilo do movimento. As tramas de Amores na cidade (L’amore in città, Itália, 1953) exploram temas diversos, por vezes trágicos, como a prostituição nas ruas da cidade (Antonioni), mulheres que recorreram à tentativa de suicídio devido a desiluções amorosas (Cesare Zavattini); os desafios de uma mãe solteira na conservadora sociedade italiana (Francesco Maselli). 

    Fellini recorre ao bom humor para contar uma triste história, centrada em um jornalista que faz uma reportagem investigativa em uma agência de casamentos. Dino Risi dirige o episódio mais leve e bem humorado: em um salão de baile, jovens tentam encontrar parceiros e parceiras, um retrato vibrante da noite romana que geralmente termina em desilusões. Alberto Lattuada segue um estilo documental, recheado de situações bem-humoradas ao mostrar uma sucessão de tentativas de homens de abordar belas mulheres nas ruas de Roma. 

    Amores na cidade (L’amore in città, Itália, 1953), de MIchelangelo Antonioni, Federico Fellini, Alberto Lattuada, Dino Risi, Cesare Zavattini,  Francesco Maselli.