Categoria: Filme

  • O quarto verde

    O quarto verde (La chambre verte, França, 1978), de François Truffaut. 

    A abertura concilia imagens da primeira guerra mundial com o rosto de Julien Davenne (François Truffaut) sobreposto. Corta para dez anos depois, Julien é um jornalista especializado em escrever obituários para o jornal local. Ele dedica sua vida a não deixar apagar a memória de sua esposa, falecida pouco depois da guerra, em um quarto verde, na casa onde mora. Com o tempo, o jornalista fica mais e mais obcecado por reverenciar os mortos: ele restaura uma velha capela no cemitério e constrói ali um grande altar aos mortos. 

    O quarto verde é o terceiro filme protagonizado pelo próprio cineastas. Os outros são O garoto selvagem (1970) e A noite americana (1973). O filme é inspirado em contos de Henry James, principalmente O altar dos mortos

    “A fotografia de Néstor Almendros é um espetáculo à parte. Utilizando-se da escuridão e de uma paleta de cores cinza-azul-preta que literalmente nos passa visualmente os sentimentos de Davenne, o diretor de fotografia e Truffaut conseguem enquadramentos antológicos, como a visão de Davenne, deformado, por trás de uma porta de vidro fosco e a fantástica sequência do que apenas posso classificar como um “casamento macabro” na capela/templo do protagonista.” – Ritter Fan (Plano Crítico)

  • A noiva estava de preto

    A noiva estava de preto (La mariée était en noir, França, 1968), de François Truffaut. 

    No início do filme, Julie (Jeanne Moreau) tenta pular da janela do edifício onde mora. A tentativa de suícidio é impedida pela mãe da jovem. Pouco depois, Julie deixa sua casa e, por meio de diversos disfarces, começa a eliminar os cinco homens que ela julga serem responsáveis pela morte do marido, na porta da igreja, logo após o casamento. 

    O fascínio de Truffaut por Alfred Hitchcock ganha contornos nesta clara homenagem. A noiva estava de preto é um thriller de suspense, com boas doses de bom humor, humor negro, claro, além de manter a irreverência comum à nouvelle-vague francesa. 

    O filme foi produzido logo depois da série de entrevistas que Truffaut realizou com Hitchcock, cujo resultado é um dos melhores livros sobre cinema já escritos: Hitchcock Truffaut. Entrevistas. Para completar, o cineasta francês usou como base para o filme o romance A noiva estava de preto, de Cornell Woolrich, mesmo autor de Janela indiscreta, que deu origem a uma das obras-primas de Hitchcock. 

    Elenco: Jeanne Moreau (Julie), Claude Rich (Bliss), MIchel Bouquet (Robert), Michael Sonsdale (Clement), Charles Denner (Fergus), Daniel Boulanger (Delvaux).

  • Dahomey

    Dahomey (França/Senegal, 2024), de Mati Diop, abre com plano fechado em miniaturas de Torres Eiffel piscando as luzes, dispostas em um tecido em alguma calçada de Paris – trabalho de rua de muitos africanos, oriundos talvez de ex-colônias da França no continente. Entra lettering sobre imagem do Rio Sena à noite: “9 de novembro de 2021. 26 tesouros reais do Reino de Daomé devem deixar Paris, retornando à sua terra de origem, a atual República do Benim. Estes artefatos estavam entre os milhares saqueados pelas tropas coloniais francesas durante a invasão de 1892. Para eles, 130 anos de cativeiro estão chegando ao fim.”

    O documentário acompanha a trajetória desses artefatos: o empacotamento no museu, o desembarque das peças na República do Benim, o esforço de colocá-las em um lugar que não representasse exatamente um museu, mas sim um local onde os habitantes pudessem transitar entre seus antigos símbolos roubados. Grande parte do documentário abre espaço para um debate entre pesquisadores, estudantes, membros de tribos, sobre o significado do retorno dos artefatos e, sobretudo, sobre a imposição cultural francesa – incluindo a substituição da língua nativa pelo francês – durante o período de colonização/escravidão. 

    Volto ao início do filme, quando uma voz em off, sobre tela negra, reflete sobre o longo período de cativeiro, de exílio. Em outros momentos, essa voz volta à narrativa: é o lamento de um dos desterrados que viveu mais de um século na escuridão. 

    “Desde que me conheço por gente, nunca houve uma noite tão profunda e opaca. Aqui, essa é a única realidade possível. O início e o fim. Viajei por tanto tempo, na minha mente, mas esse lugar estranho era tão escuro que me perdi em meus sonhos, unindo-me a essas paredes. Isolado da terra onde nasci, como se estivesse morto. Há milhares de nós nesta noite. Todos temos as nossas cicatrizes. Desenraizados. Arrancados. Espólios do enorme saque. Hoje, é a mim que escolheram, como sua melhor e mais legítima vítima. Eles me chamaram de 26. Não 24. Não 25. Não 30. Só 26.”

  • Na idade da inocência

    Na idade da inocência (L’Argent de poche, França, 1976), de François Truffaut.

    O cineasta François Truffaut dizia que fazia filmes sobre dois temas: o amor e as crianças. Truffaut tinha vários projetos de filmes sobre crianças, “Filmes com crianças nunca se esgotam, tenho inúmeros projetos com crianças, mas não quero fazê-los em sequência, porque não quero me especializar nisso. Então faço filmes de crianças de vez em quando, mas não em sequência.” Como o diretor faleceu jovem, aos 52 anos de idade, muitos desses projetos não foram realizados. 

    Sobre  o filme deste post (sobre crianças) Truffaut disse: “Na idade da inocência, no começo era uma coletânea de crônicas. Escrevi duas ou três histórias, uma de 7 páginas, outra de 12, mas abandonei o formato e cheguei a um roteiro. Vi que podia fazer como em A noite americana, tudo podia se entrelaçar e formar um filme. Por isso preferi um filme a um livro.”

    Essas histórias são contadas no filme quase que episodicamente. A narrativa acompanha um grupo de crianças que estudam na mesma escola. Além dos conflitos inerentes ao ambiente escolar, Truffaut segue os personagens também em seu cotidiano em casa, no bairro, alguns praticando pequenos delitos, outros fazendo biscates para ganhar um trocado (o título original pode ser traduzido como dinheiro de bolso).

    O drama central, espécie de espinha dorsal da narrativa, é a amizade de dois garotos, Patrick e Julien. Patrick ajuda o pai deficiente em suas tarefas cotidianas, enquanto Julien mora em um barracão paupérrimo. Os dois veem o mundo com a inocência inerente à idade, mas com atitudes maduras na busca pela sobrevivência no dia-a-dia. Na idade da inocência é um filme delicado, sensível e doloroso, pois o cotidiano de um dos personagens é cruel – estamos falando, sim, de violência doméstica. 

    Elenco: Georges Desmouceaux, Philippe Goldman, Nicole Felix, François Truffaut. 

  • De crápula a heroi

    De crápula a heroi (General Della Rovere, Itália, 1959), de Roberto Rossellini. 

    No último ano do movimento neorrealista italiano, Roberto Rossellini retoma o tema que lançou o movimento e consagrou o diretor italiano internacionalmente. A trilogia da guerra de Rossellini, composta por Roma, cidade aberta (1945), Paisà (1946 e Alemanha ano zero (1948) revelou ao mundo a tragédia provocada pelo conflito, os três filmes foram realizados misturando cenas documentais – cidades destruídas, famintos pelas ruas, a luta da resistência – com inserções de histórias ficcionais.

    De crápula a heroi utiliza dos mesmos princípios. Rossellini usa cenas documentais da ocupação nazista na Itália para contar a história de Emanuele Barcone (Vittório De Sica). Viciado em jogatinas, Bardone se faz passar por pessoa influente no círculo nazista, estorquindo dinheiro de pais e mulheres que desejam saber notícias dos entes presos. Alguns já estão até mesmo mortos, mas Grimaldi lhes dá esperança de uma libertação próxima, dizendo que precisa de dinheiro para convencer as autoridades. 

    Bardone vai se confrontar com sua própria consciência, sua moralidade e seus princípios éticos quando é obrigado pelos nazistas a se passar por um importante líder militar italiano, General Della Rovere. Ele é infiltrado em uma prisão onde estão líderes da resistência. Sua tarefa é descobrir e delatar aos nazistas a identidade dos líderes.

    O filme traz uma interpretação primorosa de Vittorio De Sica, outro mestre do neorrealismo italiano e sagrou-se vencedor do Leão de Ouro em Veneza. Em seu filme testamento sobre o movimento, Roberto Rossellini compôs uma obra que debate as formas de sobrevivência em um mundo à beira da destruição. Bardone caminha passo a passo para o entendimento de seus atos e, quando encarna quase como uma fuga de si mesmo a identidade do General Della Rovere, heroi de guerra adorado pelos italianos, tenta se redimir através de um ato heroico, nobre. 

    Elenco: Vittorio De Sica, Hannes Messemer, Sandra Milo, Giovanna Rali, Vittorio Caprioli, Nando Angelini, Herbert Fischer.

  • Da eternidade

    Da eternidade (About endlessness, Suécia, 2019), de Roy Andersson. 

    A abertura do filme é puro cinema de poesia. Um casal abraçado flutua entre as nuvens. O homem enlaça a mulher por trás, como a protegê-la. Ela acaricia os braços dele. Corta para um casal sentado em um banco, olhando para a cidade. 

    O filme do subversivo diretor sueco é uma série de curtas, retratando momentos comuns do cotidiano: um pai amarra os cadarços da filha, adolescentes dançam em frente a um café, um exército marcha para um campo de prisioneiros, um homem conversa com a câmera na saída do metrô sobre um desafeto que nunca o cumprimenta. O tempo se confunde entre o passado e o presente, uma narradora enigmática diz sobre esses momentos: “Eu vi um homem que queria surpreender sua esposa com um bom jantar.”

    O cinema de Roy Andersson é assim, subversivo, deslumbrante, formado por imagens que parecem saídas dos sonhos. Assim como a poesia. 

  • Pérolas das profundezas

    A cineasta Vera Chytilová

    Pérolas das profundezas (Perlicky na dne, República Tcheca, 1965), de Jiri Menzel, Jan Nemec, Evald Schorm, Jaromil, Vera Chytilová. 

    Durante a New Wave Tcheca, cinco integrantes do movimento se uniram na realização de Pérolas das profundezas, filme composto por cinco curta-metragens. As narrativas seguem os estilos próprios de cada realizador, em comum, a crítica social e política demarcada na filmografia deste período no país, dominado pelo autoritário e repressor regime comunista.  Os cinco curtas são baseados em contos do escritor Bohumil Hrabal. 

    A morte do Sr. Baltazar, de Jiri Menzel. O curta de produção mais elaborada segue um casal em seu carro rumo a uma corrida de estrada. Enquanto o casal assiste à disputa, os personagens se cruzam: pilotos, moradores de beira de estrada, espectadores que se deleitam com possíveis acidentes, o que acontece com Balthazar. 

    Impostores, de Jan Nemec. Dois homens idosos dividem o mesmo quarto no hospital, ambos estão próximos da morte. Os dois fazem uma espécie de disputa de criação de personagens, inventando histórias fictícias sobre a vida de cada um. Um deles, afirma que foi um cantor de ópera, o outro, um jornalista de sucesso. Os diálogos determinam a convicção sobre a realidade da vida que inventaram. 

    Casa da Alegria, de Evald Schorm. A história de um artista que passa todo o tempo pintando as paredes de sua casa beira o surrealismo. Dois corretores de seguros visitam o pintor, que mora com a mãe, com intenção de vender apólices para eles. Os dois são guiados pelos cômodos. Admirados pela arte expostas em cada canto, se esquecem até mesmo do motivo da visita, enquanto o pintor e a mãe empreendem uma disputa verbal agressiva.

    No café do mundo, de Vera Chytilová. O filme é um deslumbrante exercício estético da consagrada diretora tcheca. Uma recepção de casamento acontece na cafeteria e os convidados se entregam ao idílio do momento. A sequência do casal correndo em câmera lenta na chuva e na escuridão é o destaque da narrativa: a fotografia em preto e branco, a chuva, a jovem ainda com seu vestido de noiva. Surrealismo e fantasia se misturam neste deslumbre cinematográfico. 

    Romance, de Jaromil Jires. Um jovem da classe operário conhece uma garota cigana que se prostitui. Após o encontro sexual, o jovem se apaixona e os dois começam um intenso relacionamento, aflorando os preconceitos sociais.

  • O-Bi, O-Ba – O fim da civilização

    O-Bi, O-Ba – O fim da civilização (O-Bi, O Ba. Koniec cywilizacji, Polônia, 1984), de Piotr Szulkin.

    O filme apocalíptico de Piotr Szulkin se passa em uma terra destruída pela explosões nucleares. Cerca de oitocentos sobreviventes vivem em um abrigo chamado de A Cúpula, que ameaça desmoronar a qualquer momento. Resta apenas uma esperança: a chegada da Arca para levar os sobreviventes para um lugar que possivelmente ainda é seguro. 

    A lenda da Arca é mantida por meio de um rigoroso sistema de doutrinação, cujos responsáveis, entre eles Soft (Jerzy Stuhr), controlam de forma até mesmo violenta. A fome, doenças, revoltas, sabotagens, frio extremo, fazem parte do cotidiano dos habitantes da Cúpula. Piotr Szulkin continua com seu olhar crítico e severo sobre a Polônia dominada pelos regimes autoritários, compondo um ambiente opressivo, com tons fortes dos estilos expressionistas e cyberpunk.

    O diretor polonês se consagrou com uma espécie de tetralogia futurista com claras alusões ao regime político de seu país: Golem (1979), A guerra dos mundos: próximo século (1981), O-Bi, O-Ba: o fim da civilização (1985) e Ga-ga: glória aos herois (1986).

  • Depois do amanhecer

    Depois do amanhecer (Après l’aurore, França, 2023), de Yohann Kouam. Com Mexianu Medenou, Chloé Lecerf, Rayan Bourouina. 

    A narrativa acompanha um dia na vida de três personagens que moram em um conjunto habitacional na periferia da cidade. Yves, um artista, acaba de chegar de Berlim, onde morou por alguns anos. Ele tenta se reconectar com a família e antigos amigos do bairro onde cresceu. Hamza, um adolescente surdo, faz parte de um grupo de marginais e se defronta com desafios que podem levá-lo à criminalidade. Déborah, uma treinadora de basquete, vive solitária até que conhece uma jovem com quem começa um relacionamento. 

    O filme é marcado por uma fotografia que destaca a noite e, simbolicamente, deixa a luz do início da manhã tomar conta desta periferia e seus personagens que transitam sem rumo, sem propósito definido, a não ser viver a cada dia depois do amanhecer.

  • Four unloved women, adrift on a purposeless sea, experience the ecstasy of dissection

    Four unloved women, adrift on a purposeless sea, experience the ecstasy of dissection (Candá, 2023), de David Cronenberg. 

    O curta tem pouco mais de quatro minutos intensos e provocativos. A câmera caminha rende a água do mar, vislumbrando corpos femininos deitados ao sol. Sobe pelas pernas bronzeadas até revelar figuras de cera com as barrigas abertas, órgãos expostos, vísceras se confundindo com a beleza das mulheres de David Cronenberg. 

    A trilha sonora envolvente acirra ainda mais a sensação mista de erotismo e horror. O diretor canandense faz uma espécie de releitura de seu próprio filme, Crimes do futuro (2023), buscando inspiração nas esculturas renascentistas do século XVIII. A narrativa visual deixa reflexões sobre a exposição de corpos no mundo contemporâneo. Reflexões perigosas. 

  • Sonhos como barcos de papel

    Sonhos como barcos de papel (Des rêves en bateaux papiers, Haïti, 2024), de Samuel Frantz Suffren. 

    Edouard  mora em Porto Príncipe, Haiti, com a filha Zara. Ele tem uma barraca de sucos naturais e divide seu tempo entre o trabalho e o cuidado carinhoso da filha. Sua esposa emigrou cinco anos atrás para os Estados Unidos, de forma clandestina. Seu único contato com ela, desde então, é uma fita cassete com a narrativa da perigosa travessia. 

    Sonhos como barcos de papel faz parte da trilogia de curtas de Samuel Frantz Suffren, junto com Agwe (2022) e Coeur bleu (2025), inspirados no sonho de seu pai em migrar para os Estados Unidos. A narrativa é uma delicada história de solidão, dedicação, busca dos sonhos e luta para sobreviver em uma sociedade marcada pela desigualdade e pela miséria. 

    Elenco: Kenny Laguerre, Saraiva Ruth-Amma Suffren, Cloretti Jacinthe.

  • Terra abençoada

    Terra abençoada (Mot khu dat tot, Vietnã, 2019), de Pham Ngoc Lan. Com Hoàng Hà, Minh Chau, Thuy Anh, Huy Tien. 

    Uma mulher, junto com seu filho adolescente, visita um antigo cemitério, percorrendo-o em vão em busca do túmulo de seu marido. Um pedaço do cemitério foi demolido para dar lugar a um luxuoso campo de golfe, a outra parte está abandonada: os túmulos em estado de decomposição convivem com pântanos e areais. Um pastor também está no local, aproveitando o terreno para alimentar suas vacas. 

    A narrativa curta tece críticas sociais sobre a desigualdade social e sobre como o progresso interfere no meio ambiente e nas tradições sociais. Enquanto a mulher e o filho percorrem o terreno abandonado, do outro lado da colina, um homem joga golfe, acompanhado de sua amante bem mais jovem. O conflito entre as classes é demarcado pela forma como se relacionam com o meio-ambiente, com os recursos naturais, com o terreno que serve de moradia para os mortos e, ao mesmo tempo, como deleite para os homens endinheirados. 

  • O verão e todo o resto

    O verão e todo o resto (L’été et tout le reste, Holanda, 2018), de Sven Bresser. 

    Marc-Antoine (Marc Antoine Innocenti) e Mickael (Mickael Danguis Fasolo) trabalham em uma ilha que, durante o verão, fica repleta de turistas. Com o fim da temporada, a ilha fica vazia e os jovens planejam rumar para o continente em busca de outro tipo de trabalho. O conflito se anuncia quando Marc, contrariando seu amigo, revela que pretende ficar no local. 

    A narrativa debate a busca dos anseios da juventude. Michael não hesita em partir e enfrentar os desafios que se apresentam em uma nova sociedade, enquanto Marc hesita, prefere naquele momento continuar com sua rotina solitária. A sequência da aclamada festa na ilha, frequentada por Marc e meia dúzia de amigos, é o sintoma dessa relação conflituosa entre o esplendor das temporadas de verão e o vazio do dia-a-dia dessas cidades que vão se perdendo no tempo. 

  • Letícia, Monte Bonito, 04

    Letícia, Monte Bonito, 04 (Brasil, 2020), de Julia Regis.

    É uma tarde quente de verão em uma “venda” de beira de estrada no interior do Rio Grande do Sul. Laís (Eduarda Bento) está sentada no banco da entrada do sobrado, esperando o pai. Ela ouve música no andar de cima e, curiosa, entra pela casa. Letícia (Maria Galant) a surpreende, depois a convida para conhecer o quarto. 

    O curta de Julia Regis, vencedor do Prémio do Público no Mix Brasil, acompanha com lentidão o relacionamento entre as duas jovens. Elas se divertem em brincadeiras inocentes com bichos de pelúcia, ouvem CDs, dançam ao som de MPB, tentam se refrescar no ventilador. Passo a passo o flerte, leves toques e insinuações delineiam uma sensível e delicada descoberta. 

  • A garota do capim limão

    A garota do capim limão (Lemongrass girl, Tailândia, 2021), de Pom Bunsermvicha.

    Uma forte chuva ameaça paralisar as filmagens em um set montado na região campestre. O diretor do filme pede a May (Primrin Puarat), uma das jovens da equipe, para plantar uma muda específica de capim-limão. Segundo uma superstição da Tailândia, uma virgem pode impedir a chuva, desde que ela siga algumas condições, como plantar em céu aberto a muda de cabeça para baixo.

    Pom Busnsermivicha insere nesta narrativa simples críticas ao conservadorismo, ao sexismo ainda presente na sociedade tailandesa. É também um alerta sobre o domínio masculino no setor audiovisual, onde as mulheres são relegadas à funções de segundo plano. May, a produtora assistente, acata a ordem e se vê enredada em situações que vão desde a procura pela muda até encarar o desafio de seguir a tradição e plantá-la. 

  • A felicidade do motociclista não cabe em seu traje

    A felicidade do motociclista não cabe em seu traje (Al motociclista no le cabe la felicidad en el traje, México, 2021), de Gabriel Herrera Torres.

    O curta do diretor mexicano Gabriel Herrera Torres faz uma releitura da colonização espanhola na América. Um jovem motociclista (David Illescas) veste seu belo traje, de cores extravagantes, e se sente imponente e orgulhoso, dando voltas em círculo com sua moto. O cenário é a selva, com uma pequena barraca onde seus amigos veem deslumbrados a encenação. À medida que circula, o jovem, que se recusa a emprestar a moto aos amigos, se sente mais e mais bonito, com a certeza que só ele e sua potente motocicleta podem dominar a selva. 

  • A guerra dos mundos: próximo século

    O diretor polonês Piotr Szulkin dedicou A guerra dos mundos: próximo século (Wojna światów – Następne stulecie, Polônia, 1981) a H. G. Wells e Orson Welles. O motivo é uma homenagem à célebre narração que Orson Welles realizou em uma emissora de rádio em 1938 (30 de outubro, noite de Halloween) interpretando trechos do livro de Wells. O estilo de interpretação de Orson Welles provocou pânico em milhares de ouvintes que acreditaram que a terra estava sendo invadida pelos marcianos. 

    A narrativa de A guerra dos mundos: próximo século acontece na Polônia, véspera do ano novo. Um grupo de marcianos domina o país, necessitando de sangue dos terráqueos para viver. O protagonista Iron Ide (Roman Wilhelmi), um locutor de TV de programa sensacionalista, se vê envolvido em uma trama que envolve os marcianos e o poder do estado. As consequências envolvem censura, delação de colegas de trabalho, acirramento do controle do estado por meio do controle midiático, violência praticada pelos marcianos, sequestro e desaparecimento de pessoas. 

    O filme, claramente uma alegoria do poder do estado comunista na Polônia, segue a prática consagrada durante a guerra fria de inserir fortes questões ideológicas em filmes do gênero ficção científica. A fotografia noir acentura o estado de opressão e terrorismo que acompanha a narrativa, com um final que deixa em aberto essas obscuras tramas políticas. 

  • Algo diferente

    Algo diferente (República Tcheca, 1963) é o primeiro filme da premiada diretora Vèra Chytilová, lançado no movimento conhecido como Nouvelle Vague Tcheca. A narrativa, mescla de documentário e ficção, acompanha duas histórias paralelas.

    Vera (Vera Uzelacová) é uma dona de casa que vive uma vida comum, cuida do filho, tem um relacionamento estável com seu marido, mas um dia conhece um homem na rua e começa e mantém um caso extraconjugal. Mesmo fascinada, ela não aceita se separar do marido.

    A segunda narrativa, um documentário, acompanha o dia-a-dia de treinamento de Eva Bosakova, uma ginasta olímpica medalhista de ouro olímpica. É uma maratona de exercícios que destaca o sofrimento físico e psicológico da atleta, pressionada pelo treinador, Eva se entrega quase à exaustão e segue em frente, quase atingindo os limites do corpo. 

    Algo diferente foi sucesso de público e de crítica. Vera Chytilová anuncia de imediato o cinema feminista e contestador que vai marcar a sua carreira, principalmente em dois aclamados filmes: As pequenas margaridas (1966) e Fruto do paraíso (1970) – após esse fllme a cineasta foi banida durante oito anos pelo governo de seu país.

  • As herdeiras

    As herdeiras (Orokseg, Hungria, 1980), de Márta Mészáros.

    Budapeste, 1936. Szilvia (Lili Monori) é uma mulher rica que se vê pressionada pelo pai, empresário, a ter um filho. É a condição para ela herdar a fortuna da família. No entanto, Szilvia é estéril e oferece dinheiro a Irene (Isabelle Huppert), jovem judia, a conceber um filho com seu marido. 

    O triângulo amoroso que se forma a partir deste acordo deflagra os conflitos da narrativa que beira a tragédia quando explode a Segunda Guerra Mundial e começam as perseguições aos judeus. Isabelle Huppert, em um de seus primeiros papeis no cinema, domina a trama. Sua personagem luta pelo seu amor e por seus filhos, mas não se esconde dos nazistas, encarando com altivez o seu destino. O cinema feminista de Márta Mészáros lança um olhar cruel sobre a divisão de classes e a conivência da burguesia europeia com os crimes cometidos pelos nazistas e seus aliados.

    Elenco: Isabelle Huppert (Irène), Lili Monori (Szilvia), Jan Nowicki (Ákos), Zita Perczel (Teréz), Sándor Szabó (Komáromi). 

  • Sangue selvagem

    Sangue selvagem ((Wise blood, EUA, 1979), de John Huston. 

    Hazel Motes (Brad Dourif) chega a sua cidade natal após ser dispensado do exército devido a ferimentos sofridos na Guerra do Vietnã. Ninguém sabe exatamente que ferimentos são esses, pois ele “tem vergonha de dizer onde foi atingido.” Hazel Motes, após diversos conflitos com os moradores da cidade, parte em peregrinação, adotando uma vida sem crenças, até que chega a uma cidade sulista e decide criar a Igreja Sem Cristo, pregando nas ruas, sem aceitar qualquer tipo de ajuda financeira. 

    Os irmãos roteiristas e produtores Benedict e Michael Fitzgerald adaptaram o primeiro romance de Flannery O’Connor, Wise Blood, publicado em 1953. A jornada espiritual de Hazel Motes é marcada por imolações, auto sacrifício e atitudes violentas contra os desafetos religiosos – atenção para a sequência de extrema violência na estrada. 

    Sangue selvagem é um raro filme de John Huston, um dos grandes do sistema de estúdio de Hollywood, feito de maneira independente, de baixo orçamento e contando com uma equipe pequena e colaborativa em todos os aspectos. Grande parte foi filmada nas ruas de Macon, na Geórgia, contando com atores não-profissionais, que muitas vezes nem sabiam que estavam sendo filmados – como na divertida cena do gorila. O xerife, que tem participação relevante na narrativa, é o próprio xerife da cidade, assim como a prostituta que acolhe Hazel. “Ela era uma prostituta, era prostituta na cidade.” , comenta o roteirista e produtor Benedict Fitzgerald, que analisa a escolha de John Huston para dirigir o filme.

    “Queríamos fazer isso e éramos ambiciosos, queríamos fazer algo que sabíamos que era importante. Ver se encontrávamos alguém importante que se interessasse pela história e reconheceria seu valor. E tivemos sorte de termos pensado em John Huston. Estávamos considerando outros, mas eles ficariam tão impressionados pela natureza alegórica da história, ou pelo que consideravam grotescos ou pela alegoria em si, que não seria uma história contada do jeito que boas histórias são contadas, muito direta. John nunca fez nada além disso. Ele gostava de contar a história como ela era. Do jeito que é. E o fato dele achar que era uma comédia, que o exagero religioso ou o coração religioso era um ponto forte, foi um mal-entendido, nós nunca tentamos forçar o diretor. Ele foi em frente e fez. E lembro que no último dia ele colocou as mãos nos meus ombros e disse: acho que fui enganado.”

    Elenco: Brad Dourif (Hazel Motes), John Huston (Grandfather), Dan Shor (Enoch Emory), Harry Dean Stanton (Asa Hawks), Amy Wright (Sabbath Lily), Mary Nell Santacroce (Landlady).