Autor: Robertson B. Mayrink

  • Druk – Mais uma rodada

    Martin é professor de história de uma escola de ensino médio na Dinamarca. Passa por momentos de desinteresse em suas aulas e é questionado por pais e alunos durante uma reunião. Em casa, enfrenta o desgaste do casamento com Anika. Sai com seus amigos professores Tommy, Nikolaj e Peter para uma noitada no bar. Quando Nikolaj apresenta aos amigos a tese de um pesquisador sobre os efeitos de determinada medida de álcool no organismo como motivador, os quatro amigos resolvem experimentar esse conceito.

    Druk – Mais uma rodada é uma fascinante inserção nos conflitos, amarguras, frustrações de pessoas na meia-idade, tanto em termos profissionais como pessoais. Do outro lado, os jovens da escola também enfrentam seus conflitos, principalmente a pressão a que são submetidos pela necessidade de médias altas para seguirem na vida estudantil. O álcool permeia esses universos como um elemento, assim como todas as drogas, de escapismo e motivador frente à vida. Mas se torna cada vez mais e mais perigoso.  

    Druk – Mais uma rodada (Druk, Dinamarca, 2020), de Thomas Vinterberg. Com Mads Mikkelsen (Martin), Thomas Bo Larsen (Tommy), Magnus Millang (Nikolaj), Lars Ranthe (Peter), Maria Bonnevie (Anika). 

  • Soul

    Soul segue o caminho de animações contemporâneas, tratando de tema adulto, de certa forma sombrio, com leveza para não afastar o público infanto/juvenil. Joe Gardner é professor de música do ensino médio, mas alimenta o sonho de se consagrar como músico de jazz. No mesmo dia em que recebe a notícia que vai ser efetivado como professor, consegue um teste para integrar, como pianista, a banda de uma famosa cantora. A mãe pressiona o jovem para aceitar o emprego, mas Joe resolve arriscar mais uma vez. No entanto, o destino interfere de forma trágica: quando caminha para sua noite de estreia, Joe encontra a morte ao cair em um bueiro. 

    Quando acorda na estrada que o levará ao céu, Joe não aceita seu destino e provoca diversas peripécias para voltar à terra. Seu encontro com 22, jovem alma em treinamento, provoca as risadas características das tramas de animações e muita reflexão. A luta por nossos sonhos, paixões, podem ter consequências, inclusive interferindo nos destinos de pessoas próximas que também precisam fazer suas escolhas. A animação digital dá o tom lúdico, multicolorido, a esses temas complexos, intensos, como o próprio jazz. 

    Soul (EUA, 2020), de Pete Docter e Kemp Powers. 

  • O delator

    O delator deu a John Ford seu primeiro Oscar de diretor (ganhou outros três, até hoje recordista na categoria). A influência expressionista delineia toda a fotografia do filme. Os cenários minimalistas, a neblina, as luzes dos lampiões das ruas, os closes angustiantes nos personagens, é quase um filme surrealista devido a impressão angustiante que demarca cada personagem, enclausurado nesta noite de violência, perseguições, delações e julgamentos entre amigos. 

    “Por isso, a adoção intensiva de sombras e nevoeiros não confirma somente a absorção por Hollywood de recursos formais do expressionismo alemão. Eles são também modos de dar a ver o lado avesso, a face oculta dos homens e das crenças, atmosferas que embaralham nossa percepção e nos impedem de delimitar onde termina o bem e começa o mal.” – Cássio Starling Carlos. 

    O delator (The informer, EUA, 1935), de John Ford. Com Victor McLaglen (Gypo Nolan), Margot Grahame (Katie Madden), Heather Angel (Mary McPhillip), Wallace Ford (Frankie McPhillip).

    Referência: Coleção Folha Grandes diretores no Cinema. John Ford. O delator. Cássio Starling Carlos, Inácio Araújo Silva Júnior e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2016. 

  • As cariocas

    O livro As cariocas, de Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto), contém seis histórias centradas no ambiente urbano do Rio de Janeiro, abordando o cotidiano de mulheres com o tradicional humor do autor. Para o filme de 1966, foram adaptadas três contos da obra: A noiva do catete, A desinibida do Grajaú e A grã-fina de Copacabana

    Os diretores mantiveram o tom ácido de Sérgio Porto, tratando com ousadia as peripécias de Paula, Júlia e Marlene. As três se envolvem em festas da alta sociedade, planejam golpes contra homens ricos, não se furtam a casos infiéis. A direção de fotografia da película segue princípios do cinema dos anos 60 no Brasil, tratando as locações reais com estética realista. É o retrato de personagens da classe média urbana do Rio de Janeiro, transitando pelas ruas, bares, praias e apartamentos da zona sul.  

    As cariocas (Brasil, 1966), de Fernando de Barros, Roberto Santos, Walter Hugo Khouri. Com Norma Bengell (Paula), Jacqueline Myrna (Júlia), Íris Bruzzi (Marlene), John Herbert (Cid), Walter Forster (Téo).

  • O crime do Monsieur Lange

    Jean Renoir faz uma fascinante incursão pelo cinema de gênero. No início do filme já sabemos que o escritor Amédée Lange cometeu um crime. A história é contada por sua namorada em uma pousada, durante a noite, para um grupo de homens. A intrincada trama traz revelações sobre troca de identidades, assédio sexual, corrupção, roubo de direitos autorais. Tudo centrado em uma editora de publicações populares, incluindo jornal e quadrinhos. Lange faz sucesso após publicar uma série de quadrinhos ambientada no Texas, intitulada Arizona Kid. No final, a dúvida que fica é se um assassinato pode ser justificável e o assassino pode escapar sem prestar contas à justiça. 

    O crime de Monsieur Lange (Le crime de Monsieur Lange, França, 1936), de Jean Renoir. Com René Lefèvre, Florelle, Jules Berry. 

  • Seja minha mulher

    Charlie Chaplin disse que se inspirou no comediante francês Max Linder para criar Carlitos. As semelhanças parecem confirmar isso, mas, claramente, o pupilo superou o mestre. 

    Em Seja minha mulher, Max Linder se vê às voltas com peripécias para conquistar Mary, pois a tia da amada não concorda com o casamento. As gags envolvem confusões típicas deste cinema mudo, motivadas por trocas de identidades e diversas incursões pelos espaços urbanos, incluindo uma ousada aventura em um bordel. No entanto, gags envoltas em discriminações de raça e gênero transformam parte do cinema de Max Linder como datado e passível de recriminações severas.

    Seja minha mulher (Be my wife, EUA, 1921), de Max Linder. Com Max Linder, Alta Allen, Caroline Rankin. 

  • A antiga e a moderna

    Buster Keaton se aventura pela paródia, revendo em forma de comédia o clássico Intolerância (1916), de D. W. Griffith. São três histórias contadas de forma paralela, em três eras da humanidade: a era primitiva, Roma antiga e os tempos modernos, marcados pelos automóveis e a velocidade do cotidiano da década de 20 nos Estados Unidos.

    Nas três histórias, Keaton tenta conquistar a mulher amada, mas tem sempre adversários, escolhidos pelas famílias das jovens pela suas posições privilegiadas na sociedade. Momentos das mais divertidas gags físicas dominam as histórias, com a marca característica do comediante: sua passividade interpretativa, a ingenuidade em seu rosto diante dos atos delirantes que provoca. Destaque para duas sequências na era contemporânea: no restaurante, quando inadvertidamente ele bebe além da conta; e no jogo de futebol americano, quando tenta fugir de seu adversário brutamonte. 

    A antiga e a moderna (Three ages, EUA, 1923), de Buster Keaton. Com Buster Keaton, Margaret Leahy, Wallace Beery. 

  • Rambo – Até o fim

    A abertura do filme é espetacular. Uma chuva torrencial nas montanhas coloca em risco um grupo de turistas. Os moradores tentam resgatar as pessoas, mas é um cavaleiro solitário que enfrenta os maiores perigos na tentativa de ajudar a todos. É John Rambo. 

    Após os resgates, o espectador descobre que o ex-combatente da guerra do Vietnã, que se transformou em herói sanguinário em quatro filmes anteriores, agora vive sua aposentadoria em um rancho, próximo à fronteira com o México. Junto com ele, moram Maria Beltran e a jovem Gabrielle, que nutre um carinho quase de filha com Rambo. 

    A virada acontece quando a jovem parte para o México em busca do pai biológico e é sequestrada por uma gangue que oferece prostitutas para a elite mexicana e americana. Quando John parte em busca de Gabrielle, se transforma no Rambo que conhecemos. 

    O que se segue é um banho de sangue, com direito a uma sequência nos túneis que mais parecem labirintos, onde Rambo enfrenta sozinho a gangue de mexicanos. A película recria clichês dos velhos filmes de faroeste e até mesmo policiais, apresentando um Rambo que não tem direito a viver uma pacata vida em sociedade. O sofrimento da jovem Gabrielle é quase incompreensível aos olhos do espectador, mas desperta Rambo para seu lado também cruel, envolto em memórias traumáticas que voltam e o jogam nessa espiral de vingança e violência. O final em aberto deixa espaço para a possível volta do personagem, mas gosto de pensar que é mesmo o fim para Rambo, pois a franquia revela seu esgotamento.  

    Rambo – Até o fim (Rambo: last blood, EUA, 2019), de Adrian Grunberg. Com Sylvester Stallone (John Rambo), Yvette Monreal (Gabrielle), Adriana Barraza (Maria Beltran).

  • Aves de rapina – Arlequina e sua emancipação fantabulosa

    O filme foi um fracasso de bilheteria nos cinemas e recebeu avaliações ruins por parte da crítica. Coisas do público exigente e da crítica incapaz de se entregar à uma sessão de cinema buscando apenas entretenimento e escapismo. Aves de rapina – Arlequina… é puro entretenimento com muita ação, bom humor e empoderamento feminino. 

    Conhecida como a namorada do Coringa, Arlequina se julga imune em seus crimes. Ela já recebeu o fora do inimigo mais poderoso do Batman, mas esconde de todos que está solteira e, convenhamos, ninguém em sã consciência vai se arriscar a mexer com a namoradinha do Coringa. Como mentira tem pernas curtas, a realidade vem à tona e a própria Arlequina resolve se emancipar.

    Margot Robbie é um show à parte na pele de Arlequina, destilando veneno, sadismo, piedade, enfim, tudo misturado com toques de humor nonsense, cativando o espectador. O encontro com as Aves de Rapina dá o tom definitivo à trama que une mocinhas e bandidas, ou vice-versa, para estraçalhar os redutos machistas. Deleite-se e esqueça essa comparação inútil sobre a qualidade dos filmes da Marvel e da DC Comics. Afinal, todos adoramos esse universo de super heróis e super heroínas. 

    Aves de rapina – Arlequina e sua emancipação fantabulosa (Birds of prey – And the fantabulous emancipation of one Harley Quinn, EUA, 2020), de Cathy Yan. Com Margot Robbie (Alequina), Jurnee Smollett-Bell (Canário Negro), Mary Elizabeth Winstead (Caçadora), Ella Jay Basco (Cassandra Cain), Rosie Perez (Renee Montoya), Ewan McGregor (Máscara Negro), Chris Messina (Victor Zsasz).    

  • Caçada humana

    Lohman carrega a bíblia consigo, se recusa a matar e sofre com seu destino. Em uma espécie de road-movie à cavalo, em cada cidade que passa, fugindo de seus perseguidores, encontra ajuda, mas recebe conselhos que se repetem: ele precisa matar seus oponentes. É o lema que ressoou na conquista do oeste e ainda hoje ecoa entre americanos que não abrem mão de carregar suas armas.   

    Caçada humana (From hell to Texas, EUA, 1958), de Henry Hathaway. Com Don Murray, Chill Wills, Dennis Hopper. 

  • Música do passado

    Marina chegou perto do meu ouvido.

    – Feche os olhos. – ouvi passos se afastando,  ainda sentindo cheiro de cabelos molhados.

    Há quantos anos não ouço esse som. O clique do toca-discos acionado, o braço levantando automaticamente, o LP girando no prato, o primeiro contato da agulha com o vinil, os ruídos da agulha deslizando no vazio até se encontrar com a primeira faixa de música, os acordes se misturando com o chiado no fundo, as caixas de som reverberando. Há quantos anos não ouço essa música.

    O vento de junho denunciava um mês frio. Nessas noites, eu vestia calça e jaqueta  jeans tradicional sobre camiseta de malha, tênis da moda não muito caro, condizente com meu salário de datilógrafo (estamos nos lembrando de coisas que já não existem) e saía andando pela cidade a pé, entre um cinema e outro, entre uma pizzaria e outra, entre um bar e outro, entre coisas assim. Andar pela cidade em noites de inverno. Mãos nos bolsos, ombros caídos, a brisa fria no rosto, flertando com meninas acobertadas nas fachadas dos cinemas.

    Poucos carros passavam em frente ao Cine Amazonas naquele domingo à noite. Pode se passar uma vida e vou me lembrar do glamour de tardes e noites na porta deste cinema, de olhares, de sensações de espera, “ela não vem” e quase na hora de começar a sessão a menina aparece do outro lado da rua. E ficamos nos olhando através dos carros que não a deixam atravessar.

    Eram quase dez horas da noite, eu andava impaciente pela entrada para afastar o frio e o medo de entrar atrasado.

    Carlos e Marina chegaram a tempo, calmos como sempre.

    – Cadê Juliana? – ele perguntou assim que me viu.

    – Ela não vem. Desistiu na última hora, a mãe encheu o saco, disse que isso não é hora de ir ao cinema. Você conhece. Vim sozinho, segurar um pouco de vela. – Marina sorriu daquele jeito que a tornava um encanto.

    Marco e Juliana, Carlos e Marina. Cresceram na mesma rua, brincaram de esconde-esconde, estudaram juntos na escola do bairro, assistiram aos pequenos e grandes filmes deste tempo. Naturalmente, tudo acabou em romance.

    Marina sentou-se entre mim e Carlos. Apagaram-se as luzes, ficou no ar o silêncio respeitoso de amantes do cinema. Silêncio interrompido pela canção de amor dos créditos iniciais.

    A mesma música que escuto agora, mais de vinte anos depois, recostado no sofá, as cenas do filme passando pela minha mente, as lembranças daquele momento se misturando ao cheiro dos cabelos molhados de Marina, tentando e quase conseguindo sentir as mesmas sensações daquela noite no cinema.

    No momento em que a canção do filme tomou conta da sala escura, Marina deixou seu braço roçar no meu, dividindo de propósito aquele estreito braço de cadeira de cinema que parece feito para provocar. Ela mexia o braço lentamente, sua pele na minha pele. Olhei de lado com temor, Marina estava com a cabeça deitada em Carlos, olhos fixos na tela. Ela passou os dedos suavemente pelo dorso da minha mão. Fechei a mão em seus dedos com certa violência, como uma recusa. Ou aceitação. A mão dela relaxou por alguns segundos, mas quando a música estava quase no clímax, Marina de súbito entrelaçou seus dedos entre os meus pelo tempo suficiente para me fazer esquecer.

    No final do filme, quase uma hora da madrugada de segunda-feira, me despedi sem graça do casal de namorados. Um aperto de mão em Carlos, dois beijos no rosto de Marina, bem perto dos lábios, bem perto.

    Vinte anos. Fazia tanto tempo que não via Marina, Carlos já se distanciara há muito. Tudo me vem agora com os cabelos molhados de Marina roçando em minha pele.

    – Você se lembra? – ela me perguntou com seus lábios quase tocando nos meus, a música daquele filme antigo já nas últimas faixas.

  • Sete anos de azar

    Após chegar bêbado em casa, o bem-sucedido Max acorda de manhã e se vê às voltas com uma confusão inusitada. Seu mordomo quebra o espelho do closet e na tentativa de disfarçar o ocorrido coloca outro empregado da casa, parecido com Max, do outro lado da moldura. É o ponto forte da comédia, as interações físicas entre Max e seu duplo frente a frente são responsáveis por cenas antológicas do cinema mudo. 

    O tema que provoca a série de gags é a superstição dos sete anos de azar para quem quebrar o espelho. Max está de casamento marcado, mas sucessivos desencontros e acidentes parecem comprovar a lenda urbana. 

    Sete anos de azar (Seven years bad luck, EUA/França, 1921), de Max Linder. Com Max Linder, Alta Allen, Ralph McCullough.

  • Pelas ruas de Paris

    Em uma boate, Anna conhece Greg. Os dois começam um relacionamento que se estende pelo tempo que não é demarcado para o espectador. Os conflitos do relacionamento se misturam à embates sociais e políticos, quando manifestantes tomam as ruas de Paris, assim como a jovem Anna que vive seus dilemas caminhando e correndo pela cidade. 

    A narrativa não é o ponto central da trama. A diretora Elisabeth Vogler pratica intensas experimentações visuais à medida que Anna se defronta com ela mesma, buscando sentido para seus dias, seu relacionamento. Mesmos dilemas que afetam os moradores de Paris que se encontram em meio a crises existenciais motivadas pelas incessantes crises que assolam o país, inclusive resultados de atos terroristas. Um acidente de avião é o marco simbólico, pois representa a ruptura entre vida e morte, acaso e destino, provocando ainda mais as pessoas que ao mesmo tempo que tentam interferir se encontram passivos diante do destino.  

    Pelas ruas de Paris (Paris est à nous, França, 2019), de Elisabeth Vogler. Com Noémie Schmidt (Anna), Grégoire Isvarine (Greg).

  • Tenet

    Agente da CIA, cujo nome não é pronunciado durante o filme, é recrutado para impedir que Andrei Sator (Kenneth Branagh) consiga ativar um complexo mecanismo que pode resultar na destruição da terra. Christopher Nolan volta aos intrincados enigmas do universo que tanto o fascinam. Andrei Sator consegue transitar entre o presente e o futuro, ativando o tempo reverso e assim antecipa acontecimentos. 

    O filme é recheado de ações que confundem o espectador, colocando personagens em tempos repetidos, porém invertidos. Os destaques ficam por conta das batalhas, principalmente as ambientadas no aeroporto, na estrada e no final espetacular, sequência que coloca combatentes lado a lado no tempo progressivo e reverso. 

    Tenet (EUA, 2020), de Christopher Nolan. Com John David Washington, Kenneth Branag, Robert Pattinson, Emma Thomas. 

  • Kin

    Em uma de suas andanças por prédios abandonados em busca de cobre para vender no mercado negro, o adolescente Eli (Myles Truitt) encontra, ao lado de dois corpos, uma arma futurista. Ele consegue acioná-la com o toque das mãos e guarda a arma como uma espécie de brinquedo. Eli é filho adotivo do rigoroso Hal (Dennis Quaid), as coisas mudam quando seu irmão Jimmy (Jack Reynor) sai da prisão. Após um assalto mal-sucedido, Jimmy leva Eli em uma viagem pelos Estados Unidos, fugindo da gangue a quem deve dinheiro.

    A película representa bem a mistura de gêneros cinematográficos, marca do cinema contemporâneo. Drama social que apresenta conflitos entre pais e filhos; a gangue liderada por Taylor (James Franco), essa cruel sociedade marginal; road-movie que se transforma em caça aos fugitivos, envolvendo a gangue, o FBI e dois misteriosos motoqueiros que tentam recuperar a arma e dão o tom de ficção científica à trama. 

    O ponto alto do filme é a violenta batalha final na delegacia de polícia, com direito a uma reviravolta que aponta claramente a continuação da trama. 

    Kin (EUA, 2018), de Jonathan Baker. Com Myles Truitt (Eli), Jack Reynor (Jimmy), Dennis Quaid (Hal), Zoe Kravitz, James Franco . 

  • Across the universe

    Assistir a um filme baseado em canções dos Beatles já vale apenas pela música, qualquer que seja o filme, e nem precisa ser beatlemaníaco, basta se enlevar com  as belas canções compostas por Lennon e McCartney que insuflam gerações há décadas. Across the universe vai além com a narrativa que mistura romance, ativismo político, conflitos raciais, discussões de gênero, tudo pontuado por interpretações belíssimas de I want you handLet it beHey JudeStrawberry fields forever e muito mais. 

    Jude é um jovem inglês, trabalhador de um estaleiro em Liverpool. Viaja aos EUA para conhecer o pai, que engravidou sua mãe durante a Segunda Grande Guerra. Na América, desenvolve forte amizade com o universitário Max, vai morar em um apartamento habitado por personagens da contracultura dos agitados anos 60: a jovem lésbica Prudence, a cantora de boates Sadie, o guitarrista negro Jo-Jo. Quando Jude conhece Lucy, irmã de Max, a paixão é arrebatadora e acompanha os clichês naturais do gênero: início de enternecer corações, com erotismo aflorando, conflitos pessoais que afastam os amantes até o apoteótico final, tudo com direito às inesquecíveis canções dos Beatles. Enfim, Across the universe vale a sessão fílmica, sonora, imagética, sensual…

    Across the universe (EUA, 2007), de Julie Taymor. Com Ewan Rachel Wood (Lucy), Jim Sturgess (Jude), Joe Anderson (Max), Dana Fuchs (Sadie), Martin|Luther McCoy (Jo-Jo), T.V. Carpio (Prudence). 

  • O supersticioso

    O filme abre com o Dr. Ulrich Metz informando que vai estender suas experiências psiquiátricas, usando um humano pela primeira vez como cobaia. O escolhido é o jovem Daniel Brown, cuja mente é dominada pelas mais impressionantes superstições que orientam seu dia-a-dia. A ideia do cruel psiquiatra é levar Brown ao suicidio. Esse é o ponto polêmico e contestável da obra de Victor Fleming (E o vento levou e O mágico de Oz): colocar o suicídio no gênero comédia quase ao estilo pastelão, Daniel Brown protagoniza série de esquetes à medida que é manipulado pelo médico. 

    Os encontros e desencontros típicos do gênero levam Daniel Brown e sua pretendente, também supersticiosa, ao apoteótico clímax durante o rompimento de uma represa, ousada representação realista da tragédia que representa o estilo de produção do sistema de estúdios de Hollywood já no cinema mudo. 

    O supersticioso (When the clouds roll by, EUA, 1919), de Victor Fleming. Com Douglas Fairbanks, Albert Macquarrie, Kathleen Clifford.

  • As aventuras extraordinárias de Mister West no país dos bolcheviques

    O americano Mister West viaja à URSS para conhecer o “país dos bolcheviques”. Influenciado pela leitura de publicações americanas que retratam os soviéticos como “selvagens”, leva na viagem o Caubói Jeddy como guarda-costas. Os dois protagonizam uma série de peripécias, incluindo sequestro e tiroteios bem ao estilo western americano nas ruas de Moscou. 

    A comédia de Kuleshov, um dos principais teóricos da montagem revolucionária soviética, apresenta, a princípio, a confirmação da visão estereotipada dos americanos sobre a revolução socialista. Trupe de vagabundos sequestra Mister West e forjam situações satíricas da sociedade, visando ganhar o dinheiro do resgate. A virada no final apresenta “a verdadeira URSS”, referendando o ponto de vista de Kuleshov sobre a ideologia socialista, bem afeita aos tempos de Stalin no poder. 

    As aventuras extraordinárias de Mister West no país dos bolcheviques (Neobychainye Priklyucheniya Mistera Vest V Strane Bolshevikov, Rússia, 1924), de Lev Kuleshov. Com Porfir Podobel, Boris Barnet, Aleksandra Khokhlova.

  • Vou nadar até você

    A narrativa segue o estilo road-movie, a jornada de Ofélia por mar e terra revela detalhes do passado dos seus pais, através do encontro da jovem fotógrafa com amigos dos dois e flashbacks, imagens recortadas que afloram na tela. Outro tema que perpassa a narrativa é o universo dos artistas e seus conflitos, vaidades, com direito a revelação final que pode mudar o destino da protagonista. Destaque para as paisagens, amplificadas pela fotografia de encher os olhos. 

    Vou nadar até você (Brasil, 2017), de Klaus Mitteldorf. Com Bruna Marquezine, Ondina Clais, Peter Ketnath, Fernando Alves Pinto. 

  • Meio irmão

    Sandra (Nathália Molina) e Jorge (Diego Avelino) são irmãos de pais diferentes, mas não se relacionam. Os dois vivem problemas típicos da periferia da cidade, convivendo com a violência social enquanto lutam pela sobrevivência cotidiana. Os dois se aproximam quando a mãe de Sandra desaparece de casa, colocando a adolescente em problemas que vão desde idas à polícia, ameaças de credores que cobram dívidas deixadas pela mãe, falta do que comer em casa, além de conflitos na escola. 

    A diretora Eliane Costes debate questões que permeiam a vida da periferia, como pais ausentes, filhos que crescem em comunidades complexas, muitas vezes violentas com os jovens, principalmente quando suas escolhas não se adequam aos valores sociais dominantes. A câmera da diretora filma tudo quase como um registro documental, sem conclusões em questões narrativas, sem julgamentos. Apenas acompanha os jovens em sua difícil lida cotidiana. 

    Meio irmão (Brasil, 2018), de Eliane Coster. Com Nathália Molina (Sandra), Diego Avelino (Jorge), Francisco Gomes.