Trinta anos esta noite

Trinta anos esta noite (Le feu follet, França, 1963), de Louis Malle, abre com super close no rosto de Lydia. Narrador: “Naquele momento, Alain fitava Lydia com insistência. Ele a sondava assim desde sua chegada, três dias antes. O que ele estava esperando? Lydia virou o rosto e, baixando as pálpebras, ficou absorta. Em que? Em si mesma? Era dela essa cólera satisfeita que lhe enchia o colo e o ventre? Essa sensação camuflada mas não tão nítida?” 

Outro close em Alain, tão fechado que quase estoura as linhas e sombras do rosto, olhando para Lydia. “A ele, a sensação escapou uma vez mais, fugidia. Como uma serpente entre pedras.”

A beleza das imagens do casal na cama, talvez nesta terceira noite de adultério, associada ao texto poético, determina o tom triste e melancólico da narrativa. O filme é adaptado do livro Le feu follet, de Pierre Drieu La Rochelle.

Alain Leroy (Maurice Ronet) é um escritor que, após enveredar pelo alcoolismo, está internado em uma clínica em Versalhes. Dorothy, sua esposa que mora nos EUA, envia o cheque mensalmente para o tratamento do marido.

Alain volta para a clínica e, no dia seguinte, desce para tomar café. Passa por um espelho onde está escrito à tinta: 23 de julho. O escritor volta para o quarto e percorre com o olhar fotos espalhadas, seus pertences, o tabuleiro de xadrez, um revólver. A longa sequência silenciosa, entrecortada por frases soltas pronunciadas por Alain, termina quando o médico entra e inicia uma conversa sobre o tratamento. Quando o médico sai, Alain pega o revólver: “A vida passa devagar demais em mim. Então, vou acelerá-la. Endireitá-la. Amanhã, me mato.” 

Trinta anos esta noite trata do polêmico tema do suicídio com uma sensiblidade raramente vista nas telas. A desilusão e a depressão do protagonista se manifestam nesse único dia quando ele decide se despedir de alguns amigos em Paris. A narrativa assume o formato episódico, a cada visita surgem novos personagens, situações, conflitos e reflexões. Quase todos sabem que Alain caminha para o ato final, mas se mostram sem reação. 

O filme conta com uma atuação marcante de Maurice Ronet que compõe seu personagem de forma melancólica e contida, nunca resvalando para o melodrama. Em sua andança no último dia, Alain não demonstra tristeza, apenas reafirma sua consciência diante do vazio existencial. Em uma conversa com o médico, ele diz: “é uma angústia perpétua.”

Elenco: Maurice Ronet, Léna Skerla, Yvonne Clech, Hubert Deschamps, Jean-Paulo Moulinet, Mona Dol, Pierre Moncorbier, René Dupuy, Bernard Tiphaine, Ursula Kubler, Jeanne Moreau.

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