A idade do ouro

A idade de ouro (L’age d’or, França, 1930), de Luis Buñuel. 

A mulher (Lya Lys) e o homem (Gaston Modot) abandonam a festa burguesa realizada em um castelo, onde inserções surrealistas interromperam a comilança da elite: um menino é assassinado a tiros pelo empregado em frente à casa; um carro de boi atravessa o salão principal; a cozinheira sai da cozinha em chamas e, aos gritos, desaba no chão. Nada disso afeta os participantes da festa que continuam a comer e beber, indiferentes. 

O homem e a mulher chegam ao jardim da mansão e começam um estranho jogo erótico. Os beijos não se completam, corpos caem desengonçados após tentativas de contato físico, o homem acaricia o rosto da mulher com a mão sem quatro dedos. 

O homem é avisado do telefonema do primeiro ministro e deixa o jardim. Acontece, então, uma das cenas mais controversas do cinema de todos os tempos. A mulher se ajoelha diante da grande estátua branca de um anjo e, em close, começa a lamber os dedos dos pés do monumento até colocar a boca por inteiro, chupando o dedo com um olhar lânguido e provocador. 

A idade do ouro é impulsionado pela noção surrealista de l’amour fou. Sua história se desenrola episodicamente. Ela começa com um documentário sobre escorpiões (na verdade, um filme de 1912 ao qual Buñuel acrescentou comentários científicos). Um grupo de bandidos famintos sai aos trancos de uma cabana enquanto quatro bispos fazem estranhos rituais na praia. Barcos trazem uma multidão de distintos cavalheiros evidentemente para honrar a memória do bispo, mas o cerimonial é interrompido pelos gritos de um homem e uma mulher fazendo sexo. O homem é preso e arrastado pelas ruas. As sequências seguintes se passam na casa da mulher e em uma elegante festa dentro de uma vila, onde eles voltam a se amar, mas são interrompidos de várias maneiras. Cenas de um frenesi surrealista conduzem à sequência final à medida que os libertinos de Sade abandonam suas orgias no Château de Sellini. Seu líder é claramente retratado como Jesus.”

Quando começou a ser exibido, na França, A idade do ouro provocou um dos maiores protestos contra o cinema até aquele momento. Integrantes da extrema direita chegaram a depredar os cinemas e destruir obras surrealistas expostas no saguão de uma das salas. Rapidamente, o governo tirou de circulação as cópias e proibiu qualquer tipo de exibição, pública ou privada. A censura se alastrou por vários países e o filme só voltou a ser exibido no início da década de 80. 

Luís Buñuel foi do céu ao inferno: a consagração com Um cão andaluz e a quase extinção de sua carreira após A idade do ouro. O diretor emigrou para os Estados Unidos onde, durante cerca de dez anos, não conseguiu mais filmar. Ganhava a vida trabalhando nas produtoras como dublador para os filmes americanos na língua espanhola. 

Buñuel nunca abandonou a subversão surrealista quando retomou a carreira, primeiro no México, depois em em seu retorno à França e à Espanha. Filme após filme, as narrativas teciam críticas severas às instituições sagradas que perpetuavam o moralismo, como a igreja, as elites e as famílias tradicionais.  

“Poucos cineastas perseguiram uma ideia constante e de maneira tão recorrente em seus filmes como Luis Buñuel (1900-1983). A grande questão do cinema de Buñuel era como lidar com a herança católica, fruto da educação religiosa que recebera dos jesuítas. A estratégia encontrada pelo diretor foi a do enfrentamento com os dogmas religiosos e preceitos morais herdados dos anos passados no seminário na comunidade autônoma de Aragão, no noroeste da Espanha. As histórias filmadas por Buñuel trazem de maneira recorrente homens e mulheres em conflito com o desejo e as imposições morais, num jogo de sufocamento e de repressão que fez da psicanálise uma das chaves de leitura mais ricas para se entender seus personagens e tramas.” – Pedro Maciel Guimarães. 

Referências: 

Coleção Folha Grandes Diretores do Cinema. Luis Buñuel. Um cão andaluz e A idade do ouro. Cássio Starling Carlos e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018

1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (org.). Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

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