• Basta
    estou cansado de ser responsável
    defendendo um salário miserável
    vocês sabem o que é frustração?
    então sentem-se atrás de uma mesa de escritório
    e batam máquina o dia inteiro
    enquanto martelam em sua cabeça
    que no sistema capitalista só existem duas opções
    explorar ou ser explorado.

    Chega
    cortem-me a carne
    mas levem também os meus deuses
    não estou mais a fim
    de ser respeitado apenas
    pelo relógio de ponto.

    Acabou
    já sem braços
    feito corpo a sangrar
    vou sair por aquela porta
    e quando eu atravessar a rua
    dirão com certeza
    “lá se vai um homem comum
    perdido, como todo mundo foi um dia”.

  • É apenas uma mensagem
    uma voz eletrônica, longe
    dos lábios que ardiam
    em tempos de loucura.

    Creio que o tempo
    vai aos poucos apagando
    a maravilhosa sensação
    do reencontro.

  • Onde andas?
    Ah, porque me deixaste
    triste assim
    já não suporto mais
    caminhar por ruas
    plenas de recordações
    contemplar a lua
    com olhos de saudade
    é como morrer aos poucos
    sonhando em te encontrar
    vezes sem conta.

  • Qualquer dia a gente se vê por aí
    em algum canto de rua
    sob a chuva de março
    quem sabe
    na manhã de frio repentino
    qualquer dia
    talvez na tarde sufocante
    não importa
    que seja um dia apenas
    pra gente se lembrar
    e se amar pela segunda vez.

  • Nós que nos amávamos tanto
    fomos vencidos pelo
    pronome definido
    que começa e termina toda frase
    forma inalterável de dizer
    Eu.

  • Cuidado com o que fazes
    pois em cada esquina, vigilante
    te espreita um impostor
    soturno, registra seus atos.

    Silêncio, resguarda seus sonhos
    alimenta-os apenas na dormência
    pois podem roubá-los
    ou simplesmente matá-los.

  • Seu perfume ficou em mim
    como uma marca, a lembrança
    do momento em que seu cheiro
    confundiu-se com o suor da tarde
    é o que resta
    buscar seu perfume
    em tardes indistintas da memória. 

  • Dê-nos uma longa e bela madrugada e seremos felizes
    dê-nos uma calça desbotada e uma camisa surrada
    para que possamos sentir nossos corpos
    dê-nos um solo e nós plantaremos
    dê-nos uma árvore e nós colheremos
    não nos dê amigos, deixe-nos conquistá-los
    dê-nos um coração mas não com sentimentos
    deixe que eles nasçam com os dias
    dê-nos um sonho e nós faremos dele outro sonho
    dê-nos asas mas não nos dê liberdade
    deixe-nos lutar por ela
    dê-nos um corpo mas não nos mostre o caminho
    deixe que nossos olhos o apontem
    dê-nos um sol nascendo e faremos dele uma esperança
    deixe-nos ter esperança para brilharmos como o sol
    dê-nos a noite e as estrelas seremos todos
    deixe-nos viver e amaremos como um só. 

  • Paixão
    se tivesse forma
    seria mar
    inquieta
    inconstante
    ruidosa.

    Se tivesse nome
    paixão rimaria
    com tarde insana
    de praias
    febril, excitante
    até se resignar serena
    saudosa.

    Assim a paixão engana
    um jogo de formas e nomes
    desordenada, envolvente
    perigosa
    mistura de desejos
    traidora
    nos joga na aventura
    sem hora
    do corpo e da alma. 

  • Cine Amazonas

    Foi meu primeiro gesto de liberdade. Andei cerca de cem metros da minha casa até o ponto. Peguei o ônibus, paguei o trocador com o dinheiro contado, sentei-me quieto na janela, diminuto no banco, os olhos na altura do começo do vidro. Esticava vez por outra o pescoço para ver o caminho, certeza de não me perder. Desci na Avenida Amazonas, andei menos de um quarteirão, as mãos nos bolsos da bermuda (um hábito que ficou, mãos nos bolsos) tocando o dinheiro, certeza de não perdê-lo, e entrei no Cine Amazonas. Comprei o ingresso, escolhi uma cadeira mais ao fundo, esperei o início do filme.

    Passou a ser meu programa de domingo, abençoado pela mãe “vai com Deus!, meu filho”. Ir ao Cine Amazonas, sozinho ou em turma de meninos, sessões vespertinas, filmes de censura livre que saíam de cartaz direto para as sessões da tarde da Rede Globo. Era só um programa de menino que descobria as desamarras da vida.

    Com o tempo descobri outros caminhos, outros cinemas. O Alvorada, Guarani, aprendi a andar pelo centro da cidade decorando as ruas do Metrópole, Acaiaca, Brasil, Royal, Jacques, Palladium.  Quando eu chegava em casa, minha mãe perguntava simplesmente “gostou do filme?”. Sabia que eu não tinha me desviado porque sabia que para mim era impossível não ir ao cinema.

    Em cada um desses cinemas, guardo lembranças de filmes. Os Dez mandamentos no Cine Guarani, Nasce uma estrela no Acaiaca, 2001 Uma odisséia no espaço no Pathé, King Kong (ou melhor, Jessica Lange), no Brasil, Guerra nas estrelas no Palladium.

    Do Cine Amazonas, ficaram dois filmes, duas músicas. O primeiro, do fim da infância. Judy Garland cantando Over the rainbow, sonhando em sair da pobreza para uma terra encantada, andando por uma estrada de tijolos amarelos ao lado de amigos, o espantalho sem cérebro, o homem de lata sem coração e o leão sem coragem. Destino, a fantasia do Mágico de Oz. Na verdade, um encontro com eles mesmos, na difícil encruzilhada do medo e desejo de cada um.

    O outro filme, do início da adolescência. Katie está num bar e vê Hubbell, um soldado da marinha americana, dormindo na cadeira, bêbado. As lembranças de Katie tomam conta da tela, junto com os créditos do filme e a música The way we were. Hubbell corre pelo campus da universidade e Katie distribui panfletos políticos. Dois jovens, ela uma ativista ambiental e política, radical, não se rende a uma discussão. Ele, despretensioso e sedutor, se deixa levar pelas festas e garotas enquanto cresce o sonho de ser escritor.

    Anos mais tarde, depois da guerra, no bar, seus caminhos voltam a se cruzar. Vão se amar, se casam, têm uma filha. É um filme de quem sonha e luta pela liberdade individual. No final, eles estão separados por uma rua: Hubbell, saindo de um restaurante que o seu sucesso pode pagar; Katie do outro lado distribuindo panfletos políticos. The way we were, minha adolescente lembrança do Cine Amazonas, filme com um dos títulos mais bonitos em português: Nosso amor de ontem.

  • Amanhã estarei só
    num dia sóbrio
    sem amantes
    sem estrelas
    sem  o absinto
    de Oscar Wilde.

    Estarei só
    eu só queria amar
    mas os sonhos
    sempre morrem
    ao entorpecer

  • Duas irmãs tomam sol na praia
    uma tem o olhar longe
    para o namorado distante
    a outra procura pela praia
    vê jovens tem sede.

    Guarde por um momento
    esses olhos adolescentes
    num piscar serão lembranças
    do tempo que desejavam.

    Voltemos anos depois
    lá estão as duas irmãs
    aquela com seu marido ao lado
    na sombra cuida dos filhos
    e tem o mesmo olhar distante.

    A outra toma sol 
    o marido se levanta
    e os olhos da mulher
    olhos com sede adormecida
    se voltam para a quietude 
    do mar sem ondas. 

  • Os olhos de um poeta
    são olhos
    vida
    admiração
    beleza e orgulho
    rebeldia contida
    e constante amor incontido.

    Os olhos de um poeta
    são olhos
    choram
    temem
    adoram e cantam
    a lua
    o sol
    o mar e as estrelas.

    Seus olhos amam
    uma criança ou um cão
    um pobre e um velho
    que sofrem por viver.

    Os olhos de um poeta
    brilham
    de noite sob a lua
    no céu de mil estrelas.

    Os olhos de um poeta
    que olhos
    ardem
    cantam
    choram
    sofrem
    amam demais.

  • Parece que vou adormecer
    embalando a tristeza em seu colo
    parece mentira
    ando perdido em seus seios
    na verdade, estou de novo apaixonado.

    Por onde andam aqueles olhos
    que na adolescência das paixões
    penetravam na puberdade de nossa cama?

    O vento a trouxe de volta
    e agora ando sonâmbulo na noite
    por favor, não me torture
    me beija, me dispa, me ame
    ou então me faça esquecer.

    Já vai? adeus. Quando voltar
    me procura na ilusão
    verá doces lembranças
    de quando andávamos pelos sonhos
    procurando por estrelas
    em cada olhar apaixonado.

  • Seu vestido preto 
    anda desbotado
    gasto de tão desejado
    a alvura do que esconde
    que decote sutil
    envergonhou meu olhar
    e esse corte entre as pernas
    faz-me sonhar noite e dia
    com ele se rasgando inteiro.

    Agora que já me expôs tanto
    dispa-se desse receio tolo
    ajudo com o fecho se difícil
    prometo-me eterno a você
    peça, tudo faço 
    mas por favor
    tira logo esse vestido. 

  • O tiro saiu do eleitor
    e atingiu fundo a nação
    agora gente pega em armas
    alguns com dedos apontados nas ruas
    outros despejam cartuchos em favelas
    outro posa de metralhadora
    a maioria incrédulos assustados
    anda à desvio de balas perdidas
    e à noite sente tristeza
    por quem decidiu
    que a segurança de todos
    deve estar debaixo do travesseiro.

  • Apaixonados
    beijam à tôa
    param pela cidade
    em pontos 
    de namorados
    tempo ousado
    se conhecem 
    dentro dos carros.

    Casados
    beijam de boa noite
    flertam pela cidade
    com dias passados
    tempo usado
    se desconhecem 
    dentro do quarto.

    Amantes
    beijam roubados
    desafiam pela cidade
    o perigo e a maldade
    tempo louco
    descobrem 
    a vida sem planos. 

  • O que resta ainda para ler?
    Anais, Charles, Lawrence
    alguns próprios pensamentos
    que me assombram a noite
    enquanto assisto à vida
    espectador em chamas.

  • Posso discutir literatura,
    cinema, futebol
    como converso sobre futebol!
    são paixões e não se emendam
    vivem assim, à flor
    só não posso falar de poesia
    poesia é estado da alma
    e a alma, meu Deus,
    onde anda a minha alma?

  • Um livro de contos policiais
    coleção negra, clássicos noir
    algo assim como a
    mulher de cabelos negros.

    Sexta-feira, lua-cheia
    em algum canto, alguém morre
    em outros cantos, amantes
    bêbados, assassinos e prostitutas
    Los Angeles, San Francisco, Continental OP.

    Só conheço a vida de livros 
    na varanda, no canto, sozinho
    um conto, um gole de cerveja 
    onde anda a mulher noir?