Categoria: Nouvelle vague

  • O joelho de Claire

    É, talvez, o filme mais polêmico da antológica série Seis Contos Morais, de Éric Rohmer. Jerôme e Aurora, dois amigos de meia-idade, perto dos 40 anos, se reencontram às margens do belo Lago de Annecy. A adolescente Laura se apaixona por Jerôme e Aurora tenta convencer o amigo a se entregar à experiência (ela é escritora e assim teria inspiração para uma história). No entanto, Jerôme começa um jogo de sedução em torno da também adolescente Claire, após ficar completamente fascinado pela visão de seu joelho.  

    Os debates a respeito de sedução e infidelidade entre Jerôme e Aurora ditam os rumos da narrativa. “Por que me prenderia a uma mulher se outras ainda me enteressassem?”. Diz Jérôme, revelando seu estilo de vida, mesmo estando prestes a se casar com a filha de um embaixador. No entanto, é a sedutora presença de Claire quem domina a película. O fetiche de Jérôme em torno de seus joelhos é simbólico, apresenta um desejo arrebatador e proibido.

    O joelho de Claire (Le genou de Claire, França, 1970), de Éric Rohmer. Com Jan Claude Brialy (Jérôme), Aurora Cornu (Aurora), Béatrice Romand (Laura), Laurence de Monaghan (Claire). Michèle Montel (Madame Walter). 

  • A colecionadora

    Três prólogos apresentam os protagonistas. Haydée, uma jovem que vive seus amores de forma liberta, sem amarras, dormindo com os homens que a interessam, a colecionadora do título. Daniel, um pintor centrado em seu próprio mundo arrivista. Adrien, um comerciante de artes pretensioso, arrogante, espécie de bon vivant sem recursos que passa seus dias entre o ócio e a necessidade de ganhar dinheiro. 

    Os três se encontram durante as férias de verão em uma casa na Riviera francesa e passam seus dias entre conflitos e entregas amorosas. O primeiro filme a cores de Éric Rohmer (da série Contos Morais) é um retrato da vida dos jovens de St. Tropez, que vivem entre o sexo e o glamour, como se nada importasse a não ser debates banais e noites na cama.

    A colecionadora (La collectionneuse, França, 1967), de Éric Rohmer. Com Haydée Politoff (Haydée), Patrick Bauchau (Adrien), Daniel Pommereulle (Daniel), Seymour Hertzberg (Sam). 

  • Mouchette – A virgem possuída

    A adolescente Mouchette vive no campo. Seu dia é dividido entre cuidar da mãe, que tem uma doença terminal, e frequentar a escola, onde pratica atos delinquentes, como jogar torrões de terra nas colegas, escondida abaixo da estrada. Um dia, ao sair da escola, resolve ir para casa pelo bosque e é surpreendida por uma tempestade. Ela se abriga na cabana do caçador Arsène, que acabara de ter um confronto com o guarda florestal Mathieu que pode ter terminado em morte.

    A trágica narrativa de Robert Bresson evoca sentimentos inerentes à natureza humana das personagens: desejos ardentes, entrega aos vícios, provocações mútuas que levam a agressões. Mouchette participa e se entrega a estas experiências com ousadia e agressividade, quase ciente de seu destino trágico. A obra-prima de Robert Bresson é instigante e perturbadora.

    Mouchette, a virgem possuída (Mouchette, França, 1967), de Robert Bresson. Com Nadine Nortier (Mouchette), Jean-Claude Gilbert (Arsène), Jean Vimenet (Mathieu), Marie Cardinal |(Mãe de Mouchette). 

  • Masculino-Feminino

    O filme abre com plano fechado em Paul lendo pausadamente um texto. Ele pega um cigarro e o joga na boca, gesto que se torna característico durante o filme. Abre o plano, na mesa ao lado, em um café, está Madeleine, folheando uma revista de moda. Paul trabalha em um instituto de pesquisa, mas tem interesse em ser jornalista, Madeleine aspira a carreira de cantora. A narrativa (ou não-narrativa) se desenvolve em 15 sequências nas quais os personagens dialogam, ou tecem monólogos, sobre questões que marcam a carreira do diretor: os conflitos bélicos – Vietnã e Argélia, filosofia, sociologia, consumismo, sexo…

    A inspiração de Jean-Luc Godard para a trama vem de dois contos de Guy de Maupassant, um deles sobre a depressão que assola o personagem quando descobre que sua mulher tem um caso com outra mulher. Como ponto de vista, Godard escolhe Paul, que despeja durante o filme frases e atos sexistas ou reflexões rasas sobre questões políticas, O filme levantou polêmicas e foi alvo de críticas ácidas de cineastas como Bergman e Truffaut. 

    Masculino-Feminino (Masculin Féminin: 15 faits precis, França, 1966), de Jean-Luc Godard. Com Jean-Pierre Léaud (Paul), Chantal Goya (Madeleine). 

  • Lola – A flor proibida

    O filme é dedicado a Max Ophuls, autor do clássico Lola Montés, claramente a inspiração para o primeiro filme do francês Jacques Demy. Roland Cassard é um jovem desencantado com seus dias, frustrado com o trabalho. Quando chega atrasado para um dia de trabalho é repreendido pelo chefe e declara, citando a frase de um romance que está lendo: “Não há dignidade possível, não existe vida real para um homem que trabalha doze horas por dia sem saber por que ele trabalha.” É despedido e, em suas andanças pela cidade, reencontra Cecile, paixão de infância, que agora trabalha como dançarina com o nome de Lola. 

    A narrativa é feita destes encontros, paixões do passado se contrapondo a outras que aflora – uma mulher de meia-idade, mãe de uma garota também chamada Cécile, se apaixona por Roland, enquanto Cecile se apaixona por um jovem marinheiro americano que por sua vez é amante de Lola. Tudo enquadrado pela câmera sensível, bela, que explora em cada frame a deliciosa vida cotidiana quando entregue aos flertes, aos amores possíveis ou não. 

    Lola – A flor proibida (Lola, França, 1961), de Jacques Demy. Com Anouk Aimée (Lola), Marc Michel (Roland Cassard), Jacques Harden (Michel), Alan Scott (Frankie), Elina Labourdette (Madame Desnoyers). 

  • Uma tão longa ausência

    Os consagrados diretores da nouvelle-vague francesa tiveram certa resistência em aceitar Uma tão longa ausência como parte do movimento. Para eles, o filme se assemelhava ao “cinema de qualidade” tão criticado por Truffaut, Godard e companhia ainda nos tempos de críticas da Cahiers du cinema

    O fato é que a obra de Henri Colpi, com roteiro de Marguerite Duras, conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Thérèse administra um café nos subúrbios de Paris. Vive um romance com Fernand, mas passa seus dias com um ar sombrio, triste, assombrada pelo passado – seu marido desapareceu durante a Segunda Guerra Mundial. Todos os dias pela manhã, um mendigo passa pelo seu café cantarolando músicas clássicas. Quando o vê de perto, Thèrèse acredita que ele é o seu marido. 

    Os temas da ausência e da memória permeiam toda a narrativa. Os horrores da guerra fizeram com que o mendigo perdesse sua memória. A tristeza expressa nos semblantes, olhares, gestos e diálogos de Thérèse e seu provável marido exigem do espectador aquela entrega contemplativa que atinge os sentimentos de forma inexplicável. Afinal, todos temos memórias que não gostaríamos de relembrar. 

    Uma tão longa ausência (Une aussi longue absence, França, 1961), de Henri Colpi. Com Alida Valli (Thérèse Langlois), Georges Wilson (O cantador), Charles Blavette (Fernand).

  • Entre amigas

    O estudo de Claude Chabrol sobre a juventude parisiense, entregue aos prazeres mundanos da noite, tem um final misterioso e perturbador. Quatro amigas trabalham em uma loja de eletrodomésticos, contando as horas para o final do expediente, quando saem em busca de diversão. Rita é noiva de um jovem da alta sociedade. Ginette esconde das amigas sua vida dupla na noite. Jane namora um militar mas se entrega a outros homens, como se vivesse cada noite ao extremo. Jacqueline, cujo olhar traduz sonhos, está sozinha e nutre fascínio por um motociclista que a segue pelas noites.

    Claude Chabrol traça um retrato da futilidade dessas procuras, muito bem representado em uma dupla de amigos que beiram o ridículo em seus comportamentos – a sequência de piscina provoca a mais pura repulsa a homens dessa estirpe. Outro ponto em destaque na trama é o constante assédio masculino às jovens, seja no trabalho ou nos bares pelas noites. O final surpreendente, seguido de uma misteriosa aparição, faz de Jacqueline uma das grandes personagens desta intrigante e misteriosa nouvelle-vague francesa.

    Entre amigas (Les bonnes femmes, França, 1960), de Claude Chabrol. Com Bernadette Lafont (Jane), Clotilde Joano (Jacqueline), Stéphane Audran (Ginette), Lucile Saint-Simon (Rita).

  • Adeus, Philippine

    Jean-Luc Godard declarou durante o Festival de Cannes de 1962: “Quem não assistiu Yveline Céry dançar cha-cha-cha para a câmera nunca mais poderá falar de cinema na Croisette.” Ele se referia a uma das muitas cenas lúdicas, irreverentes, descompromissadas que compõem o filme, um despretensioso retrato da juventude francesa, simbolizado na história de duas amigas e um jovem durante o verão. 

    MIchel trabalha como assistente técnico em uma televisão parisiense. Ele se torna amigo de Juliette e Liliane, duas jovens modelos que fazem trabalhos ocasionais em publicidade. As duas disputam o interesse de Michel, sem rivalidades, esperando que a escolha do jovem se torne natural. 

    Adeus, Philippine é uma pequena obra prima que merece ser vista como a narrativa se apresenta: tudo acontecendo de forma casual, assim como a vida de jovens que se entregam aos dias não esperando nada mais do que diversão, encontros, pequenos romances. O contraponto a tudo isso é a Guerra da Argélia, que paira ameaçadora sobre a juventude. A beleza e sensibilidade deste cinema da nouvelle-vague está muito bem representada na sequência de despedida das amigas de Michel: Juliette e Liliane correm pela amurada à beira-mar, acenando seus lenços para Michel, que está debruçado nas grades do navio que se afasta lentamente do porto. 

    Adeus, Philippine (Adieu Philippine, França, 1962), de Jacques Rozier. Com Jean-Claude Aimini (Michel), Daniel Descamps (Daniel), Stefania Sabatini (Juliette), Yveline Céry (Liliane).

  • A guerra acabou

    Diego é um dos líderes do Partido Comunista Espanhol, ele luta clandestinamente contra a ditadura de Franco. Diego está em Paris, mas precisa entrar na Espanha, em Barcelona, para tentar avisar um dos seus amigos de partido que a polícia franquista descobriu sua identidade. 

    A guerra acabou é um poderoso manifesto político de Alain Resnais, um dos principais expoentes da nouvelle-vague francesa. A narrativa apresenta várias questões políticas e éticas, presentes nas escolhas que os revolucionários devem fazer entre a individualidade e a luta coletiva. Um dos momentos fortes do filme é quando Diego se confronta com um grupo da resistência, formado por jovens idealistas, que pretende usar explosivos em pontos da cidade. 

    O estilo irreverente de Renoir está na estrutura, flashbacks e flashforwards interrompem a trama, breves inserts que confundem o espectador sobre o acontecido e o que está por vir. Para completar, o filme tem algumas das mais belas imagens de sexo, espécie de volta de Renoir aos fragmentos de corpos de Hiroshima mon amour (1960).

    A guerra acabou (La guerre est finie, França, 1966), de Alain Resnais. Com Yves Montand (Diego), Dominique Rozan (Jude), Jean-François Remi (Juan), Marie Mergey (Madame Lopes), Paul Crauchet (Roberto), Ingrid Thulin (Marianne),

  • A grande testemunha

    Na infância, Jacques e Marie ganham um burro de presente, que passam a chamar de Baltazar. Jacques é filho do proprietário das terras onde vive o pai de Marie, um professor do interior adepto a novas práticas de cultivo. Quando termina as férias de verão, Jacques volta para Paris, após trocar juras de amor eterno com a pequena Marie.  

    A grande testemunha é um melancólico estudo sobre as transformações da personalidade, motivadas pela passagem do tempo, principalmente a ruptura entre a infância e adolescência. Muitos anos depois, a adolescente Marie se apaixona por Gérard, cruel líder de uma gangue de jovens. A relação entre os dois oscila entre entregas carinhosas e atitudes completamente abusivas por parte de Gérard.

    É um filme triste, refletido de forma intensa no olhar puro de Baltazar, que tem também uma infância alegre ao lado das duas crianças e, na vida adulta, sofre inacreditáveis violências físicas e psicológicas devido à sua condição de burro de carga. 

    “O penúltimo filme em preto-e-branco de Robert Bresson – que faz par com Mouchette, de 1967 – é um estudo sobre a santidade, um conto poderoso e tocante sobre perversidade e sofrimento, e um olhar impiedoso sobre a crueldade inata e os impulsos destrutivos do homem. Ao tratar o burrinho do título como símbolo de pureza, virtude e salvação e escolher uma estrutura episódica para sua obra, Bresson confere a A grande testemunha uma intensidade notável, que ainda é acentuada pelo estilo visual despojado.”

    Toda essa pureza e sofrimento é marcada por uma sequência tocante: após ser açoitado pelo seu dono, Balthazar consegue fugir e se esconde na casa abandonada onde viveu seus dias felizes com as crianças. Seu grito lancinante ao percorrer os ambientes decrépitos e solitários da propriedade é de destruir o coração. 

    A grande testemunha (Au hasard Balthazar, França, 1966), de Robert Bresson. Com Anne Wiazemsky (Marie), Walter Green (Jacques), François Lafange (Gérard), Jean-Claude Guilbert (Arnold). 

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Minha noite com ela

    Durante a celebração de uma missa católica, Jean-Louis fica fascinado com Françoise. Quando ela sai da igreja, ele tenta segui-la pelas ruas da cidade, mas a perde de vista. Pouco depois, ele reencontra seu amigo Vidal e os dois vão à casa de Maud, médica divorciada que vive de forma livre e despretensiosa com seus relacionamentos. 

    A trama de Éric Rohmer, que se aproxima de um possível triângulo amoroso, traz a marca do diretor: longos diálogos em ambientes fechados. Françoise e Maud passam a noite conversando sobre religião, filosofia, entre flertes e tentativas frustradas de um relacionamento amoroso. Quando, finalmente, o protagonista encontra seu objeto de desejo, a jovem e bela Françoise, outros triângulos amorosos se inserem de forma sutil na trama, revelando que as ruas, apartamentos, praias, enfim, a cidade, provoca acasos fascinantes e misteriosos. 

    Minha noite com ela (Ma nuit chez Maud, França, 1969), de Éric Rohmer. Com Jean-Louis Trintignant (Jean-Louis), Marie-Christine Barrault (Françoise), Françoise Fabian (Maud), Françoise, Antoine Vitez (Vidal). 

  • Made in U.S.A.

    Godard disse que “para fazer um filme, basta uma garota e uma arma.” A frase se aplica com perfeição à Made in U.S.A. A jornalista Paula Nelson chega à Atlantic City para encontrar seu namorado, quase futuro marido. Descobre que ele foi assassinado e passa a investigar o crime, se deparando com uma intrincada rede de espionagem envolvendo alguma coisa do passado de seu namorado. Paula percorre, com a tal arma, quartos de hotel, oficinas mecânicas, jardins das casas, encontrando nestes antros do cinema noir o submundo da política, da corrupção, de traições e conspirações. E sua arma dispara, dispara. 

    É a incursão política de Godard no gênero que tanto ama: o filme noir. Reflexões sobre a direita e esquerda, referências visuais que unem a França e os Estados Unidos nestas intrincadas questões políticas dos anos 60, frases soltas sobre o próprio cinema que refletem também questões ideológicas, profusão de imagens em cores deslumbrantes que traduzem a forte cultura pop dos anos 60 e, por extensão, o mercado consumista propagado pela publicidade. Godard está mais irreverente do que nunca, cada morte parece uma alegoria estética, antecipando o cinema dos anos 80, o deslumbramento de assassinatos que viria em filmes como Blade Runner

    “O filme parece incluir Paula no duro diagnóstico sobre as engrenagens do submundo da política. Godard aproxima-se de Fuller, que desconfiava da política mas revelava as engrenagens do poder. Em Made in U.S.A, Paula tateia no escuro de uma democracia degradada pelo marketing de uma ideia de Europa em crise pelas lutas anticoloniais. No plano da linguagem, o filme é pródigo em estilizar cenas (como a morte do petit Donald) e fazer delas instantes de uma perturbadora poesia, verdade abrupta que interrompe o kitsch da mise-en-scène. No fim, em tom autocrítico, Paula assopra algo importante para a obra posterior de Godard: o fascismo – diz ela – é algo que se combate fora, mas especialmente dentro de nós mesmos. O cineasta desloca a crise para dimensão da subjetividade e da linguagem.” – Alfredo Manevy 

    Made in U.S.A (França, 1966), de Jean-Luc Godard. Com Anna Karina (Paula Nelson), Jean-Pierre Lêaud (Donald Siegel), 

    Referência: Godard inteiro ou o mundo em pedaços. Eugênio Puppo e Mateus Araújo (organização). Catálogo produzido pela Fundação Clóvis Salgado para a Retrospectiva Jean-Luc Godard, exibida na Sala Humberto Mauro.

  • Beijos roubados

    Beijos roubados é o terceiro filme de Truffaut com o personagem Antoine Doinel. O primeiro é o clássico Os incompreendidos (1959), o segundo, Antoine e Colette (1962), curta-metragem. Completam a saga: Domicílio conjugal (1970) e Amor em fuga (1979).

    Após ser desligado do exército, o jovem Antoine Doinel começa um périplo em busca de emprego. Trabalha como recepcionista de um pequeno hotel, mas é despedido quando ajuda um detetive particular a flagrar uma esposa que está no quarto do hotel em adultério. Doinel fica amigo do detetive e experimenta a carreira de investigador particular.

    O tom de humor está presente em todo o filme. O jovem pratica as atividades cotidianas com irreverência, quase desinteressado por tudo que faz. A impressão é que tudo é pretexto para novas experiências, principalmente no quesito paixões pelas mulheres que encontra pelo caminho. Enquanto tenta conquistar Christine, seu grande amor, não se furta a um caso apaixonado com a esposa de um de seus clientes. Entre uma trapalhada e outra, Doinel, ou François Truffaut, pois todos sabem a relação entre personagem/autor, vai se descobrindo. Filme essencial na obra do inigualável François Truffaut.

    Beijos roubados (Baisers volés, França, 1968), de François Truffaut. Com Jean-Pierre Léaud (Antoine Doinel), Claude Jade (Christine Darbon).

  • O assassino

    O assassino (L’Assassino, Itália/França, 1961). O antiquário Nello Poletti (Marcello Mastroianni) chega em casa à noite, liga para a noiva e entra na banheira. Recebe a visita de policiais que o intimam a ir à delegacia. Acusado de matar a amante, Nello passa por longo e torturante interrogatório, sem direito a advogado, confrontado com seus limites psicológicos. Flashbacks montam o passado de Nello entre os interrogatórios, um bom vivant que se aproveita de suas ricas namoradas.

    O assassino é o primeiro filme do aclamado Elio Petri. O diretor foi obrigado pela censura a fazer diversos cortes no filme, entre eles uma polêmica cena: quando os policiais chegam à casa de Nello, devem limpar os pés sujos de barro antes de entrar. O tom crítico de Elio Petri não poupa a polícia italiana, que usa métodos de investigação herdados do fascismo, incluindo tortura psicológica e ameaças. A burguesia italiana do pós-guerra também sofre nas mãos do diretor. “Mastroianni interpreta Nello Poletti, um dono de antiquário cujo sucesso implica certa liberdade de cometer falcatruas, uma despreocupação com escrúpulos morais típica de uma geração que não viveu a guerra e encontrou uma sociedade moldada pelo bem-estar.” – Cássio Starling Carlos.

    As cenas de Poletti na delegacia, depois enclausurado na pequena cela com dois delatores são claustrofóbicas, levando o suspeito aos limites da confissão forçada. A censura a que o filme foi submetido é a confissão de policiais, militares, governantes que praticaram (e praticam) impunemente atos violentos nos porões isolados da lei.

    Referência: Coleção Folha Grandes Astros do Cinema. Vol. 10. Marcello Mastroianni. Cássio Starling Carlos. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2014.

  • Atirem no pianista

    kinopoisk.ru

    A nouvelle-vague francesa dava seus primeiros passos quando François Truffaut lançou o ousado Atirem no pianista, obra que pode ser considerada experimental. Truffaut disse que “queria romper com a narrativa e fazer um filme onde todas as cenas me agradassem. Filmei sem nenhum outro critério.”

    O resultado é um filme nonsense, narrando a história de Charlie, pianista de bar cujos irmãos são “mafiosos” (homenagem do diretor aos filmes B americanos do gênero). Charlie era um famoso pianista, mas uma tragédia com a esposa o jogou no submundo dos bares noturnos. As imagens se alternam como se tudo fosse brincadeira, com direito a idas e vindas no tempo, sequestros desastrados, perseguições malucas pelas ruas, tiroteios que mais parecem produzidos por revólveres de espoleta e dupla de mafiosos bem ao estilo O gordo e o magro

    “Por não ter disponíveis os recursos para produzir em estúdio, Truffaut e sua equipe filmarem nas ruas, com frequência inventando o roteiro conforme avançavam, e decidiram o desfecho com base em quem ainda estaria disponível para o confronto final. Essa abordagem alegre e caótica resultou em bruscas mudanças de tom, trechos de diálogos incongruentes e antecipou um pouco do que seria feito por Quentin Tarantino em Cães de aluguel (1992). Os bandidos são interpretados como se fossem personagens de histórias em quadrinhos e os irmãos do herói têm nomes que lembram os irmãos Marx: Chico, Momo e Fido. Truffaut se diverte ao brincar maliciosamente com todo tipo de jogo cinematográfico: quando um patife jura dizer a verdade, ‘pela vida da minha mãe’, temos um corte rápido para um velhinha sucumbindo a um ataque cardíaco.”

    Atirem no pianista (Tirez sur le pianiste, França, 1960), de François Truffaut. Com Charles Aznavour, Marie Dubois, Nicole Berger, Michele Mercier.

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • O ano passado em Marienbad

    O começo do filme já apresenta a proposta revolucionária do cinema de Resnais, colocando o espectador entre uma história tradicional de adultério e a mais completa imersão estética, sensorial, exigindo libertação dos cânones da narrativa convencional. A câmera-fantasma sobrevoa os corredores de um castelo, narração em off aponta pensamentos desconexos, reflexões, tentativas de resgate da memória que também flui livremente pelo espaço. A viagem da câmara termina no saguão, espectadores assistem a uma encenação teatral.

    A partir daí, três personagens, uma mulher e dois homens, se cruzam nos amplos salões, no quarto, na varanda do castelo (um hotel), no majestoso jardim.  Enquanto se relacionam, memórias tentam vir à tona. O homem força a mulher a se lembrar de quando se encontraram um ano atrás, enquanto o outro homem ameaça o casal (o marido, tentando impedir o devaneio dos amantes?). Apesar da aparente linha narrativa, nada faz sentido, as imagens iludem a todo momento, assim como o fazem memórias esparsas.

    Marienbad não é criação apenas de Resnais. Sua grandeza decorre de forma orgânica da poesia sonhadora do roteiro de Alain Robbe-Grillet (…). Outro ponto forte é a majestosa fotografia de Sacha Vierny para a tela panorâmica, que por si só é uma verdadeira façanha. Observando ainda mais profundamente, é preciso dar crédito às inferências dos críticos cinematográficos da Cahiers du Cinéma, aos desenvolvimentos na pintura modernista, às correntes existencialistas e bergsoniana da filosofia européia e outras revigorantes inovações teóricas / culturais / sociopolíticas desse período intensamente fértil da cultura francesa”. – 1001 filmes para ver antes de morrer.

    Essa impressionante conjunção de referências demarca o cinema fértil da nouvelle-vague francesa, capitaneada por diretores do porte de Alain Resnais, Jean-Luc Godard, François Truffaut, Agnès Varda, Eric Rohmer, Claude Chabrol. O ano passado em Marienbad é a experimentação mais radical do período. Segundo o crítico José Lino Grunewald, dois filmes revolucionaram o cinema: Cidadão Kane e O ano passado em Marienbad.

    “O básico em O ano passado em Marienbad é o seccionamento do intermediário entre o signo cinematográfico e a apreensão do espectador: o suporte da estrutura lógico-analítico-discursiva da linguagem verbal. O conteúdo da fita é relativo. A sincronia do tempo e a diacronia do espaço formam um todo anti absoluto. Os travellings cortam e penetram, inaugurando um espaço que não é o tipicamente ficcional e, não existindo assim esse tempo clássico de ficção – o faz-de-conta -, também a sucessão das imagens e a sua duração isolada ganham uma projeção peculiar e adstrita à realidade do filme em si. Em paralelo, a faixa sonora – música, ruídos e vozes – estabelece, em seu transcorrer, outra esfera de operação dialética, auto-reabastecendo-se ao contato com as imagens motoras. São monólogos e diálogos descontínuos, com um fundo musical barroco-wagneriano e o predomínio do órgão, muito bem empregado.” –  José Lino Grunewald.

    O ano passado em Marienbad (L’Année dernière a Marienbad, França, 1961), de Alain Resnais. Com Delphine Seyrig, Giorgio Albertazzi, Sacha Pitorgg.

    Referências:

    1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (org.). Rio de Janeiro: Sextante, 2008

    Um filme é um filme. O cinema de vanguarda dos anos 60. José Lino Grunewald. Organização: Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 2001

  • Pele de asno

    “Ao contrário das produções da Disney, que adocicam os seculares contos de fadas, Demy guarda a essência do conto de Charles Perrault (1628-1703), publicado em 1694. No conto e no filme, o rei de um reino distante perde a mulher. No leito de morte, ela pede que ele se case com uma mulher ainda mais bonita que ela. Os olhos do monarca voltam-se então para a princesa, a única que rivaliza com a rainha em graça e beleza. A Princesa se sente balançada com os avanços sexuais do pai, mas, aconselhada por uma fada madrinha, traveste-se com uma pele de animal e foge para a floresta, onde fica vivendo como mendiga até ser encontrada por um príncipe do reino rival ao seu.” – Pedro Maciel Guimarães.

    O filme foi um dos maiores sucessos do cinema francês. Pele de asno (1970) trata da polêmica questão do incesto. O rei e a princesa não escondem a atração que sentem um pelo outro e, não fosse a intervenção da Fada Lilás, o incesto se concretizaria fisicamente. A intervenção da Fada também é motivada por questões sexuais, pois tem um antigo e mal resolvido caso com o rei.

    Catherine Deneuve afirma que nunca conseguiu se livrar da fama imposta pelo filme. A atriz está esplendorosa, assim como os figurinos, suntuosos vestidos que variam de acordo com seus desejos. A cenografia do filme é espetacular, pois foi rodado em famosos castelos da França. A direção de arte, entre azul, verde e vermelho, aproxima Pele de asno das concepções das artes plásticas e das ilustrações, redutos também dos contos de fadas.

    Pele de asno é um musical com o toque mágico de Jacques Demy, que já havia arrebatado a crítica com Os guarda-chuvas do amor (1964). “Com poucos e rudimentares efeitos especiais, o filme é uma fábula atemporal kitsch, que mistura modernismo com arcaísmo. Ao final, o helicóptero que sobrevoa o castelo trazendo o rei para as bodas deu o que falar. Alguns acusaram o final de inverossimilhança, mas Demy estava apenas ressaltando o lado fantástico da sua obra, onde cortes e costumes antigos convivem em harmonia com modernas máquinas.” – Pedro Maciel Guimarães.

    Pele de asno (Peau d’âne, França, 1970), de Jacques Demy. Com Catherine Deneuve (Princesa Pele de Asno), Jean Marais (O Rei), Jacques Perrin (O Príncipe), Delphine Seyrig (A fada Lilás).

    Referência: Coleção Folha Grandes Astros do Cinema. Catherine Deneuve (em) Pele de asno. Cassio Starling Carlos. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2014.

  • Os primos

    959 é um ano importante na história do cinema francês e mundial. Três jovens diretores, saídos da prestigiada revista de crítica Cahiers du Cinéma, lançam filmes que praticamente inauguraram a nouvelle-vague francesa: Jean-Luc Godard (Acossado), François Truffaut (Os incompreendidos) e Claude Chabrol (Os primos).

    Os primos narra as incursões pelas noites parisienses de duas personalidades contrastantes: Paul é o bon-vivant, afeito às relações fugazes, anfitrião de festas em seu apartamento; Charles, o primo vindo do interior da França, é romântico, estudioso, enquanto tenta se situar em Paris, não esquece de escrever cartas para a mãe. Charles se apaixona por Florence, uma das mulheres de Paul, e este triângulo amoroso sela o destino dos primos.

    O filme reflete o estilo destes primeiros anos da nouvelle-vague, retratando a juventude irrequieta, dançando no limiar entre as noites descompromissadas da capital francesa, a intelectualidade e a consciência política. O impacto do final faz pensar neste cinema repleto de surpresas.

    Os primos (Le cousins, França, 1959), de Claude Chabrol. Com Gérard Blain (Charles), Jean-Claude Brialy (Paul), Juliette Mayniel (Florence), Claude Cerval (Clóvis).

  • Os amantes

    Jeanne sai de casa em uma noite de calor. Encontra seu hóspede Bernard. O branco da bela casa, rodeada de jardins e riachos, se destaca na fotografia enevoada. Jeanne e Bernard começam um jogo de sedução enquanto caminham pela noite, as imagens entre o onírico e o erotismo. Terminam a noite no quarto da jovem rebelde.

    Os amantes provocou polêmica quando foi lançado, asperamente criticado por setores conservadores da França, incluindo a igreja católica. Jeanne é casada com Henry Tournier, proprietário de um jornal no interior do país. Preocupado apenas com seu trabalho, ele faz vistas grossas aos casos de sua mulher. Jeanne faz viagens constantes para Paris para encontrar Raoul Flores, aristocrata praticante de polo. Ela se hospeda na casa de Maggy que acoberta e instiga os casos da amiga.

    Os personagens transitam pela vida despretensiosos, voltados para o prazer. A jovem e bela Jeanne é o destaque: monólogos interiores revelam para o espectador seus anseios, conflitos, como se buscasse sentido para a vida através das atitudes. Os amantes é de uma beleza enigmática, assim como a própria Jeanne Moreau.  

    Os amantes (Les amants, França, 1958), de Louis Malle. Com Jeanne Moreau (Jeanne Tournier), Jean-Marc Bory (Bernard), Alain Cuny (Henry Tournier), Judith Magre (Maggy), José Luis de Vilallonga (Raoul Flores).

  • As duas faces da felicidade

    François e Thereze estão em um bosque com seus dois filhos pequenos. Momento de idílio na vida do casal feliz, a esplendorosa fotografia evidenciando a beleza do campo, dos personagens em sua juventude feliz. Em viagem ao interior a trabalho, François se apaixona por Emilie e passa a viver em duplicidade, declarando amor incondicional às duas mulheres.

    Agnès Varda compõe um filme esteticamente fascinante, com a fotografia elevando o tom de felicidade que se anuncia para os integrantes do triângulo amoroso. O estilo nouvelle-vague está presente em cortes abruptos, cenas quase subliminares inseridas entre os acontecimentos. A virada da trama determina o olhar crítico da cineasta à sociedade que privilegia o bem-estar do homem.  

    As duas faces da felicidade (Le bonheur, França, 1964), de Agnès Varda. Com Jean-Claude Drouot (François), Marie-France Boyer (Emilie), Claire Drouot (Thereze).