Alicia Vikander é das grandes atrizes do cinema contemporâneo, oscilando entre produções independentes e de entretenimento puro. Caso de Tomb Raider: a origem, baseado no reboot do jogo, lançado em 2013.
Lara Croft sofre com o desaparecimento do pai, renega a fortuna da família e vive seu cotidiano de labuta com problemas pessoais, financeiros. Quando descobre um mapa escondido na mansão da família, parte para uma misteriosa ilha, tentando resolver o mistério do desaparecimento do pai. A jovem inexperiente se defronta com exploradores cruéis, seres míticos, armadilhas mortais em um templo milenar.
O roteiro é previsível, assim como as cenas de ação. Resta Alicia Vikander em ótima performance como heroína sem superpoderes, movida por dilemas humanos, descobrindo seu destino como Lara Croft.
Tomb Raider: a origem (Tomb Raider, EUA, 2018), de Roar Uthaug. Com Alicia Vikander, Dominic West, Walton Goggins, Kristin Scott Thomas.
Na primeira sequência, o detetive Sal Friedland anda pelas ruas de uma cidade futurista. O ponto de vista da câmera é subjetivo, o espectador acompanha o olhar do personagem cruzando com pessoas. A novidade é que o olho é literalmente a câmera: registra tudo em um chip implantado na mente.
Anon parte de princípio fascinante: todas as pessoas têm câmeras implantadas, as imagens ficam gravadas, portanto, é simpls elucidar um assassinato, basta aos policiais acessar os registros da vítima e conferir se o criminoso foi visto. A virada acontece quando série de assassinatos acontece após um hacker conseguir inverter o ponto de vista no momento do crime, ou seja, a câmera registra pelo olhar do assassino. Anon, misteriosa mulher, cruza o caminho de Sal e coloca incertezas nos olhares de todos.
O diretor Andrew Niccol é responsável por outras narrativas ambientadas em futuros distópicos: Gattaca – Experiência genética (1997) e O preço do amanhã (2011). Anon é o mais puro entretenimento neste universo, trazendo como adicional a marca do diretor: questões éticas, filosóficas, existenciais neste futuro não tão distante.
Anon (EUA, 2018), de Andrew Niccol. Com Clive Owen, Amanda Seyfried, Colm Feore, Mark O’Brien.
A ousadia conceitual e estilística de David Lynch despontou logo no primeiro filme, Eraserhead (1977). Seguiram-se obras impactantes, com a marca surreal, beirando o escatológico: O homem elefante (1980), Duna (1984), Veludo azul (1986), Coração selvagem (1990), Cidade dos sonhos (2001), a revolucionária série Twin peaks – os últimos dias de Laura Palmer (1992).
O documentário David Lynch: a vida de um artista traça um retrato do lado menos conhecido do cineasta: suas incursões pela pintura. David Lynch conversa com a câmera em seu atelier nas colinas de Hollywood Hills, em Los Angeles, refletindo sobre seu processo criativo. Imagens de filmes caseiros reconstituem as origens de sua relação com a arte e depoimento instigante revela como as artes plásticas impulsionaram sua carreira de roteirista e diretor de cinema. Documentário imperdível para amantes do cinema, revelação das relações entre as pinceladas de Lynch e seu onírico mundo nas telas.
David Lynch: a vida de um artista (David Lynch: the art life, EUA/Dinamarca, 2016), de Jon Nguyen.
Voltar ao universo infantil, tema recorrente em produções contemporâneas, ganha conotações impactantes no mundo atual, dominado por adultos envoltos em dilemas existenciais, profissionais, adotando atitudes castradoras com os filhos, teimando em não deixá-los se entregar à fantasia. Christopher Robin – Um reencontro inesquecível, baseado na obra de A. A. Milne e E. H. Shepard, trata disso com melancolia e tristeza.
O menino Christopher Robin brinca no Bosque dos cem acres com seus amigos de pelúcia (recriados digitalmente), entre eles Tigrão, Leitão, Bisonho e o comilão preguiçoso Ursinho Pooh. O lema é não fazer nada. O menino é enviado pelos pais para um internato. Corta para Christopher Robin na meia idade, envolto com crise profissional: a fábrica de malas onde trabalha precisa cortar custos, a saída imediata é demissão de funcionários.
Christopher dedica todo seu tempo ao trabalho (deixou de lado há muito o lema e a lúdica infância ao lado de seus bichinhos), não tem tempo para a esposa e muito menos para a filha Madeline. Nesse turbilhão, o Ursinho Pooh aparece de novo em sua vida, arrastando Christopher para uma jornada em busca dos antigos amigos de pelúcia.
O fascínio do filme está em remeter adultos a essa jornada em busca da infância, não para ser novamente criança, mas para entender como os princípios que regem o universo lúdico, fantasioso, mágico de meninos e meninas são importantes para relações pessoais melhores. Ninguém tem dúvidas de que o mundo viveria em paz e harmonia se todos o vissem com o olhar das crianças.
Christopher Robin – Um reencontro inesquecível (Christopher Robin, EUA, 2018), de Marc Forster. Com Ewan McGregor (Christopher Robin), Hayley Atwell (Evelyn), Mark Gatts (Keith Winslow).
A narrativa começa com clássica cena que representa a ideologia do gênero faroeste: família de rancheiros é massacrada por tribo indígena. Rosalie Quaid sobrevive após ver o marido e seus três filhos serem assassinados pelos índios. Corta para o Capitão Joseph Blocker assistindo com tranquilidade seus oficiais espancando alguns índios. Quando chega ao quartel, o Capitão recebe uma missão: levar o chefe Falcão Amarelo e sua família para reserva indígena. No caminho, Joseph encontra Rosalie.
A jornada de militares, civis e índios pelo território selvagem representa os caminhos que a sociedade americana precisou empreender para sua formação. A jornada é marcada por confrontos violentos à mão armada, expondo a natureza preconceituosa, desumana e assassina dos caminhantes. Christian Bale compõe seu personagem com amargura, desilusão, depressão latente que se traduz em comportamentos ora carinhosos, ora violentos e assassinos.
Hostis (Hostilis, EUA, 2017), de Scott Cooper. Com Christian Bale (Capitão Joseph Blocker), Rosamund Pike (Rosalie Quaid). Wes Studi (Chefe Falcão Amarelo), Jesse Plemons (Sargento Kidder).
A sátira futebolística inspirada em Cristiano Ronaldo (dentro e fora das telas) consegue, através da trama beirando o absurdo, debater importantes questões do mundo contemporâneo, principalmente do continente europeu, assolado por questões de xenofobia e separatistas.
Diamantino é o craque da seleção portuguesa de futebol, espécie de Deus dos gramados, comparado pelo pai a Michelangelo. Em campo, as jogadas geniais do atleta acontecem quando ele tem visões de fofos cachorros gigantes (efeitos especiais a serviço do surrealismo). Na final da Copa do Mundo contra a Suécia, o craque perde pênalti aos 45 minutos do segundo tempo e cai em desgraça.
O infantilizado Diamantino, dominado pelas cruéis irmãs gêmeas, resolve dar guinada na vida quando se depara, de seu suntuoso iate, com bote de refugiados africanos. Adota um refugiado, na verdade uma agente especial que se disfarça para investigar possíveis transações financeiras ilegais do ídolo português.
A trama ganha toques nonsenses passo a passo, Diamantino se vê envolvido com casal de lésbicas investigadoras, seu corpo serve de protótipo para experiência envolvendo clonagens, ingenuamente participa de campanhas publicitárias a favor da separação de Portugal da Comunidade Européia. Tudo sobre o controle quase macabro das gêmeas. A película ganhou o prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes.
Diamantino (Portugal/Brasil, 2018), de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. Com Carloto Cotta (Diamantino Matamouros), Cleo Tavares (Aisha), Anabela Moreira (Sônia Matamouros), Margarida Moreira (Natasha Matamouros).
A tecnologia digital provocou reviravolta na história da animação brasileira. Os curtas-metragens invadem as telas favorecidos pelo Anima Mundi. As crianças finalmente conseguem assistir a animações de longa-metragem com mais regularidade (até os anos oitenta foi produzido apenas um longa de animação no Brasil). O estúdio de animação Start Anima já lançou O grilo feliz (2001), O grilo feliz e os insetos gigantes (2009) e Lino, delicioso imbricamento entre o mundo humano e animal.
Lino trabalha como animador de festas infantis, vestido de gato. No início da narrativa, relata em primeira pessoa sua inacreditável tendência ao azar. É o típico loser, sem esperança, sem perspectivas. Ele se envolve com um mago que o transforma em gato gigante. O sucesso é imediato, Lino passa de azarão a celebridade.
Selton Mello empresta sua voz ao gato. As trapalhadas de Lino envolvem tentativa de voltar ao corpo humano, toques de romance e trama policial. Diversão garantida.
O jovem paraibano Elias trabalha em uma confecção de roupas. A rotina de Elias se divide entre o trabalho e a aspiração de ser estilista e as noitadas com amigos, quando se entrega à busca por amantes.
O diretor Marcelo Caetano segue tendência do cinema brasileiro contemporâneo: câmera na mão próxima dos personagens, acompanhado com naturalidade momentos rotineiros no trabalho, a caminhada pelas ruas, documentário e ficção se alternando no estilo de captação e montagem. Marcelo Caetano diz que desconstruiu o roteiro, deixando a improvisação fluir, tanto no processo de filmagem quanto de interpretação dos atores. A simplicidade do final revela a força deste cinema/retrato da vida que flui diante das câmeras.
Corpo elétrico (Brasil, 2017), de Marcelo Caetano. Com Kelner Macêdo, Lucas Andrade, Welket Bungué, Ronaldo Serruya, Ana Flavia Cavalcanti, Linn da Quebrada.
Depois de Tim Maia (2013), o roteirista e diretor Mauro Lima traz às telas a história do pianista e maestro João Carlos Martins. Rodrigo Pandolfo e Alexandre Nero interpretem com densidade o músico, reconstituindo a complexidade da vida do homem que se entregou completamente à música.
A narrativa segue a cronologia básica de cinebiografias: da infância à maturidade, destacando pontos pessoais e profissionais da carreira de João Martins. O lado pessoal é pouco explorado, o forte do filme é a evolução do músico, primeiro como pianista, depois como maestro, caminho seguido quando João é diagnosticado com doença nas mãos. O destaque da película são as reconstituições das interpretações musicais, dos concertos, primor visual e sonoro que praticamente coloca o espectador dentro dos teatros.
João, o maestro (Brasil, 2016), de Mauro Lima. Com Alexandre Nero, Rodrigo Pandolfo, Caco Ciocler, Alinne Moraes, Fernanda Nobre.
Jesuíta Barbosa vive o lendário Pedro Malasartes, personagem do folclore que ganhou fama nas mãos de Mazzaropi. Na comédia de Paulo Morelli, Malasartes tem que fazer das suas trapaças para ludibriar um devedor – Próspero, irmão de sua namorada. No entanto, seu talento como trapaceiro aparece mesmo quando se defronta com a morte, que quer fazer de Malasartes seu substituto. A narrativa alterna ações de aventura e comédia em dois planos: o reino dos vivos e dos mortos.
Não espere muito do roteiro, é aventura despretensiosa com toques de comédia, Jesuíta Barbosa na pele do matuto desfila talento. O ponto forte do filme são os efeitos especiais, cerca de 50% das cenas foram geradas digitalmente, caminho que o cinema brasileiro trilha, investindo cada vez mais nos gêneros fantasia e sobrenatural.
Malasartes e o duelo com a morte (Brasil, 2017), de Paulo Morelli. Com Jesuíta Barbosa, Milhem Cortaz, Isis Valverde, Julio Andrade, Leandro Hassum.
Nas manhãs de domingo, o pai deixava os filhos na porta do cinema. Estacionava o carro na Rua Padre Eustáquio. Os dois filhos maiores andavam na frente, ele seguia atrás de mãos dadas com a filha caçula. Comprava os ingressos, balas, pedia alguns cuidados, recomendava ao mais velho “olho nos seus irmãos”. Esperava os filhos passarem pela roleta, acenava e deixava os meninos com a alegria das matinês de domingo, no mundo mágico dos filmes de animação da Disney.
Walt Disney (1901-1966) começou trabalhando com desenhos de publicidade enquanto fazia mini filmes de animação. Criou alguns dos personagens animados mais divertidos, como Mickey Mouse, Pluto, Pateta, o Pato Donald. Ousado, irreverente, não media esforços em suas experiências. A partir de 1937, escreveu seu nome na história do cinema, criando uma série de animações em longa-metragem.
Branca de Neve e os sete anões (1937) e Pinóquio (1940) levaram o universo misterioso dos contos de fadas para as telas. Fantasia (1940) é o clássico da animação: ousadia estética, harmonia perfeita entre desenhos e a música erudita de Dukas, Beethoven, Stravinsky, Bach, Tchaikovsky, Schubert, entre outros.
A fase áurea da Disney continuou com Cinderela (1950), Alice no país das maravilhas (1951), A dama e o vagabundo (1955), A bela adormecida (1959).
Depois da morte de Walt Disney, em 1966, a Disney passou cerca de 20 anos em uma fase de decadência criativa, com filmes pouco expressivos. A pequena sereia, lançado em 1989, praticamente fez o estúdio renascer. A tecnologia digital comandou os projetos a partir daí e o estúdio mostrou ao mundo pelo menos mais dois clássicos: A bela e a fera (1991) e O rei leão (1994).
Falta um personagem nesta lista de favoritos. Um menino que se recusa a crescer, mora em uma terra habitada por crianças, índios, piratas e o adorável crocodilo que nada ao som de relógio na barriga. Para indicar o caminho desta terra, ele responde simplesmente, “segunda estrela à direita, direto até o amanhecer”. Peter Pan (1953) é mais do que uma animação da Disney. É todo o universo da Disney, feito de fantasia, sonhos e desejos de milhões de crianças que cresceram com os olhos e os corações nesse mundo.
Assisti a vários destes filmes de animação em felizes manhãs de domingo. Quando ainda existiam cinemas de bairro e matinês. Quando irmãos de mãos dadas se deixavam levar para a fantasia, na certeza de que no final os pais estariam esperando na porta do cinema.
A força do cinema de João Moreira Salles está nas reflexões, traduzidas em textos poéticos, que ele faz sobre as imagens. Em Santiago (2007), o documentarista volta à infância e à família através do retrato do fascinante mordomo. No intenso agora (2017) também parte de memórias: João Moreira Salles encontrou registros feitos por sua mãe de uma viagem à China na época da revolução cultural, na década de 1960.
O documentário é uma colagem de imagens. Entram sucessão de fotos da China de Mao-Tsé Tung, dos estudantes nas ruas de Paris em maio de 68, da Primavera de Praga na antiga Tchecoslováquia, das ruas do Brasil durante a ditadura militar.
O belo texto pontua de forma pessoal, às vezes apaixonada, outras vezes refletindo o desencanto pelos rumos tomados. Em diversos momentos o silêncio é mais forte do que tudo. Os documentários de João Moreira Salles são assim: apaixonados, pessoais; por isso mesmo profundamente reais.
No intenso agora (Brasil, 2017), de João Moreira Salles.
Cairo, 3 de julho de 2013. O Presidente Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, é deposto pelo exército do país, depois de manifestação contra o governo. Manifestantes a favor e contra o presidente deposto tomam as ruas da cidade em violentos confrontos.
O diretor Mohamed Diab narra este dia através de ousada experimentação linguística. Manifestantes de ambos os lados são presos dentro de um camburão da polícia e o motorista deve atravessar as zonas de confronto rumo à delegacia. A câmera não sai de dentro do camburão, filmando tudo neste minúsculo espaço repleto de personagens. A tensão cresce minuto a minuto e os manifestantes devem decidir entre o preconceito irascível e perigoso neste ambiente fechado, cujo calor insuportável acirra os ânimos, ou ceder à solidariedade para sobreviverem aos conflitos.
Clash (Eshtebak, Egito/França, 2016), de Mohamed Diab.
Aly Muritiba trabalhou como agente penitenciário no Paraná. A experiência serviu de inspiração para a Trilogia do cárcere, composta por dois curta-metragens, A fábrica (2011), Pátio (2013) e o longa A gente. O filme, misturando estilos do documentário e da ficção, foi realizado no presídio onde Aly Muritiba trabalhou, em São José dos Pinhais, na Grande Curitiba.
A narrativa segue o cotidiano de equipe de agentes penitenciários, liderados por Jefferson Walku. Conflitos rotineiros são retratados, como a tensão no trato com os presidiários, falta de condições de trabalho, superlotação das celas, ausência de estrutura para os trabalhadores e falta de condições dignas para os presos. O ponto de vista escolhido pelo diretor é dos agentes, os presos não aparecem, o espectador ouve apenas suas vozes ou os vê à distância. Quando a câmera sai da prisão, acompanha a rotina pessoal de Jefferson em família ou atuando como pastor em igreja evangélica. Aly Muritiba exercita o estlo doc/fic com potência narrativa, demonstrando a força dos novos realizadores do cinema brasileiro contemporâneo.
A gente (Brasil, 2013), de Aly Muritiba. Com Jefferson Walku, Tiago Simioni Andreatta, Manassas da Silva, Ivanney Montenegro.
O diretor e roteirista Guillaume Canet é casado com Marion Cotillard. Na ousada proposta de Rock’n roll: por trás da fama, os dois interpretam a si mesmos, provocando uma crítica feroz à necessidade de se manter como astros famosos no universo do audiovisual.
Durante gravação de sequência do filme no qual está trabalhando, o astro Guillaume Canet é chamado de velho por atriz mais nova. Incomodado com a acusação e temeroso de não conseguir mais bons papéis no cinema, o ator busca técnicas de rejuvenescimento corporal. Enquanto isso, Marion Cotillard está em casa treinando sotaque para seu novo filme.
As transformações físicas de Canet rendem cenas engraçadas, assim como as preparações de Marion Cottilard. O desgaste do relacionamento pontua a trama e o final do filme reserva uma virada que aponta para a angústia que domina grande parte de homens e mulheres, famosos e comuns: os dilemas do envelhecimento.
Rock’n roll: por trás da fama (Rock’n roll, França, 2016), de Guillaume Canet. Com Guillaume Canet, Marion Cotillard, Gilles Lelouche, Ben Foster.
A clássica história do caixeiro viajante dá origem a uma instigante narrativa. Tonico trabalha viajando pelo interior. Tem duas famílias em cidades vizinhas, duas filhas de 13 anos em cada família com o mesmo nome: Irene. Irene de Mirinha descobre o segredo do pai e começa a se relacionar com a outra Irene, sem que ela saiba.
A amizade entre as irmãs ganha o belo contorno das descobertas da adolescência. A época é indefinida mas ainda não existem os smartphones e os massacres das redes sociais. As duas Irenes vivem o cotidiano da vida do interior, em praças, coretos, cinema. O contraponto é o perigoso mundo adulto, Tonico vive no limite com suas mulheres, com as filhas. Uma virada de roteiro encaminha o filme para um final carregado de metáforas, quando as personalidades podem se confundir.
As duas irenes (Brasil, 2017), de Fabio Meira. Com Priscila Bittencourt (Irene de Mirinha), Isabela Torres (Isabela de Neuza), Marco Ricca (Tonico), Suzana Ribeiro (Mirinha), Inês Peixoto (Neusa), Teuda Bara (Madalena).
O cenário é uma cidadezinha no meio do sertão nordestino. O tempo, futuro indefinido. Teresa está na boleia de um caminhão ao lado do motorista. Passam por caixões jogados na estrada, caídos de outro caminhão, por uma represa abandonada, chegam à Bacurau, onde acontece o funeral da velha Carmelita. Depois do enterro, dois motoqueiros chegam à cidade e partem em seguida. A partir daí, estranhos acontecimentos assolam os moradores: a cidade desaparece do mapa, drone em forma de disco voador sobrevoa a estrada, família de colonos é encontrada assassinada.
A sinopse demonstra as influências da película do premiado diretor Kleber Mendonça Filho (O som ao redor, Aquarius), dessa vez contando com a co direção de Juliano Dornelles: o clássico gênero faroeste americano aliado ao faroeste do sertão recheado de ideologias de Glauber Rocha, além de filmes de futuros distópicos ao estilo Mad Max. Quando entra em cena o grupo de caçadores humanos liderados por Michael, pode-se enxergar também referências ao Predador. Nesse ambiente caótico, acontecem confrontos violentos, colocando os pistoleiros Lunga e Michael em planos opostos. A leitura ideológica coloca também em planos opostos classes distintas, a elite voraz e sanguinária mirando a gente pobre do sertão. Resta aos oprimidos a mesma violência, todos de armas em punho, destino eterno da sociedade que vive sempre à beira da guerra civil.
Bacurau (Brasil, 2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Com Barbara Colen, Sônia Braga, Karine Telles, Udo Kier, Silvero Pereira.
O chef Augusto é dono de restaurante e se vê diante de diversos problemas. Um ex-funcionário monta um food truck na porta de seu estabelecimento, roubando a freguesia. Cristina é designada pelo banco credor de Augusto como auditora, assume a direção do restaurante exigindo diversas mudanças, inclusive no cardápio. Para completar, o chef perde o paladar.
Gosto se discute aproveita a ascensão da gastronomia para compor narrativa com toques de comédia romântica. O confronto entre Augusto e Cristina assume os clichês das brigas e flertes do gênero. Os diálogos entre Augusto e o Dr. Romualdo são o melhor do filme.
Gosto se discute (Brasil, 2017), de André Pellenz. Com Cássio Gabus Mendes (Augusto), Kéfera Buchmann (Cristina), Gabriel Godoy (Patrick), Paulo Miklos (Dr. Romualdo).
Casal formado por artista plástico (Rodrigo Bolzan) e dançarina (Raquel Karro) vai morar em um galpão com a intenção de fazer das instalações ao mesmo tempo moradia e espaço para intervenções artísticas. A narrativa mistura dramas cotidianos do casal, incertos ante a possibilidade de terem filhos, com experimentações artísticas. As intervenções artísticas de Rodrigo Bolzan compõe com potência o cenário do filme. No entanto, o fascínio fica por conta da dançarina. Raquel Karro interage com as experimentações do marido e com o grande espaço do ambiente em números de dança solitários e fascinantes.
Pendular (Brasil, 2017), de Júlia Murat. Com Raquel Karro, Rodrigo Bolzan, Valeria Barreta, Renato Linhares.
A relação entre cinema e televisão no Brasil dá o tom da segunda adaptação do clássico romance de Jorge Amado. Além dos atores globais, o diretor Pedro Vasconcelos também se criou na direção de novelas. A história é mais do que conhecida, principalmente depois da antológica adaptação protagonizada por Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça.
Agora, Juliana Paes destila erotismo no papel de Flor, mas Marcelo Faria rouba as cenas quando volta do além pelado para provocar a mulher. O ponto fraco é Leandro Hassum, pois Teodoro exige uma interpretação contida o que não combina com o ator. As ousadas cenas eróticas provocam o espectador que, mais uma vez, se entrega aos prazeres deste irreverente triângulo amoroso.
Dona Flor e seus dois maridos (Brasil, 2017), de Pedro Vasconcelos. Com Juliana Paes (Flor), Marcelo Faria (Vadinho), Leandro Hassum (Teodoro).