Deixe tudo de lado e se entregue mais uma vez ao Abba. Na sequência, foram incluídas 20 canções, entre elas Waterloo, I have a dream, Dancing queen e Fernando. A história se passa agora em duas épocas.
Sophie (Amanda Seyfried) prepara a festa de inauguração do hotel na paradisíaca ilha grega escolhida como morada por Donna (Meryl Streep). Diversos convidados são esperados, entre eles seus três pais. Flashbacks contam a história de Donna, a partir de 1979, quando ela chega à ilha, revelando como ela conheceu Sam, Harry e Bill. Passado e presente, tudo é pretexto para a sucessão de canções do Abba. Tanto pretexto que Andy Garcia interpreta o misterioso Fernando, introspectivo gerente do hotel. A deixa para o melhor do filme, quando a avó de Sophie, nada mais nada menos do que Cher, chega à ilha. É spoiler, me desculpem, mas é Fernando.
Mamma mia! Lá vamos nós de novo (Mamma mia! Here we go again, EUA, 2018), de Ol Parker. Com Amanda Seyfried, Lilly James, Meryl Streep, Cher, Andry Garcia, Pierce Brosnan.
O filme segue a estrutura clássica de superação. No início, o policial Will Sawyer não consegue impedir um atentado contra reféns. A consequência é a morte de inocentes e de alguns de seus colegas. Corta para dez anos depois, ele perdeu parte da perna no atentado, está casado com a médica que o atendeu, tem dois filhos. Will está fora da polícia, agora trabalha como consultor de segurança. Precisa aprovar o projeto de mega tecnológico prédio em Hong Kong. Terroristas invadem o prédio onde estão sua mulher e filhos.
O melhor de Arranha céu – Coragem sem limite são as referências a Duro de matar (1988), filme que catapultou a carreira de Bruce Willis no cinema e a reconstituição da clássica sequência final de A dama de Shanghai (1948), de Orson Welles. De resto, é comum filme de ação com sequências espetaculares de efeitos visuais.
Arranha céu – Coragem sem limite (Skyscraper, EUA, 2018), de Rawson Marshall Thurber. Com Dwayne Johnson (Will Sawyer), Neve Campbell (Sarah Sawyer), Chin Han (Zhao Long Zhi), Roland Moller (Kores Botha).
Quando chego em casa à noite, Jimena me espera no portão. Ela ouve o barulho do carro de longe e começa a latir. Abro o portão da garagem e a encontro dando voltas no jardim, feliz, saudosa de afagos, chorando mansamente de ansiedade, pedindo atenção na noite.
Ela chegou onze anos atrás, da raça pastor-alemão, inquieta, andando pelos cantos da casa, reconhecendo o lugar, marcando espaço. Deitou-se, o focinho entre as patas, esperando o nome. Carlos Heitor Cony tinha uma setter chamada Mila, homenagem à rua onde o escritor Franz Kafka morou em Praga. Como minhas maiores viagens são através dos livros e filmes, minha homenagem foi para uma das lembranças visuais mais arrebatadoras da minha infância: Sophia Loren no filme El Cid (1961), de Anthony Mann.
Quando a mãe permitia, eu ficava assistindo a filmes de madrugada. Ainda sem vídeos e DVDs, minha única opção era a famosa Sessão Coruja da Rede Globo. Eram noites de sono perdidas para conhecer alguns clássicos do cinema, exibidos sempre depois da meia-noite. Em uma dessas madrugadas da década de 70, conheci a história do lendário herói espanhol Rodrigo de Bivar (Charlton Heston), apelidado El Cid pelos muçulmanos.
O filme El Cid é o típico representante do gênero épico que fez muito sucesso até a década de 60 no cinema americano. Fotografia em technicolor, cenas de batalhas grandiosas, astros hollywoodianos interpretando personagens mitológicos (o próprio Charlton Heston fizera, dois anos antes, Ben-Hur), uma bela história de amor como pano de fundo. Era a época dos grandes espetáculos, dos grandes filmes, do grande cinema.
Época das grandes atrizes, daquelas que tomavam conta da tela e de quem estava fora dela. Basta o primeiro fotograma de Sophia Loren em El Cid para entender a beleza do filme. Ela é Jimena, uma nobre da corte espanhola, noiva de Rodrigo de Bivar, antes dele se transformar no herói que vai libertar a Espanha dos muçulmanos.
No auge da fama, a italiana Sophia Loren carregava vários adjetivos: esplendorosa, sedutora, radiante, para muitos representava a exuberância devastadora da mulher latina (basta um close em seus seios e lábios para entender o que estou dizendo).
Nunca mais esqueci Jimena e ficava ano a ano esperando as reprises de El Cid. Assisti a cada uma delas na TV, em vídeo, em DVD, sempre com o mesmo fascínio em cada cena de Sophia Loren. Revi o filme nestes dias, motivado por semanas cuidando de minha Jimena, devido a uma doença. Com todo o carinho que ela exige, necessita e merece.
Inácio é, aparentemente, o tranquilo dono de um restaurante em São Paulo. Uma noite, perto da hora de fechar, três homens invadem o estabelecimento em tentativa de assalto. O que se segue é das mais impressionantes incursões do cinema brasileiro pelo gênero slasher.
A diretora estreante Gabriela Amaral Almeida reúne personagens dentro do restaurante que representam a tensão de classe, de gênero e outras facetas escondidas da população brasileira. A explosão gradual de Inácio (preste atenção na brilhante cena de Murilo Benício em frente ao espelho e na incrível cena de sexo no chão do restaurante) resulta em sangue para todos os lados. Ninguém é poupado. O animal cordial demonstra a força do cinema brasileiro nas mãos das diretoras.
O animal cordial (Brasil, 2017), de Gabriela Amaral Almeida. Com Murilo Benicio, Luciana Paes, Irandhir Santos, Camila Morgado, Ernani Moraes.
Jovens no apartamento discutem ideias políticas sobre a revolução socialista. O cenário é composto por livros espalhados em estantes e mesas, quadros de giz nas paredes simulando salas de aulas, frases revolucionárias escritas nas paredes. Cada personagem interpreta diante da câmera, relembrando fatos pessoais, declamando textos filosóficos, perdidos entre o passado e a necessidade de agir pela revolução. O lema é o marxismo-leninismo.
Em A chinesa, Godard faz um tratado sobre ideias. Seu estilo de colagem está em toda a película. Fotos famosas pontuam os diálogos: líderes revolucionários, filósofos, guerrilheiros, assim como imagens de quadrinhos e outras referências pop. A irreverência do diretor também se faz presente na proposta de filmagem: em alguns momentos, os atores assumem estar ensaiando textos teatrais, em outros, dialogam com a câmera – Godard abre o plano e mostra dispositivos e equipes de filmagem. O cinema é homenageado através de citações de filmes. Em um monólogo, o personagem de Jean-Pierre Léaud reflete sobre Os irmãos Lumière e Georges Mèlies, O texto contrapõe a ideia de que os Lumière eram apenas documentaristas, defendendo que as imagens de seus filmes eram como pinturas.
A chinesa (Le chinese, França, 1967), de Jean-Luc Godard. Com Jean-Pierre Léaud, Anne Wiazemsky, Juliet Berto, Michel Seminiako.
O documentário começou como trabalho de conclusão do curso do diretor Renato Brandão quando estudava Cinema e Audiovisual na Escola de Comunicação e Artes da USP. As pesquisas abordaram o apogeu dos cinemas de rua em São Paulo, situados em torno das Avenidas Ipiranga e São João. As diversas salas na mesma região ficaram conhecidas como Cinelândia Paulista.
Depoimentos relembram os tempos áureos dos cines Broadway, Ópera, Regina, Saci, Avenida, Marrocos, Jussara, República, Ritz, entre outros. Participam do documentário personagens como Ignácio de Loyola Brandão, José Moreira, Inimá Santos, Paula Freire Santoro, Máximo Barro, Carlos Augusto Calil e o empreendedor do ramo de cinemas Francisco José Luccas Netto.
Como em outras metrópoles, as salas da Cinelândia Paulista deram lugar a cinemas eróticos, estacionamentos, igrejas, lojas de varejo. A resistência fica por conta do Marabá, única sala que permanece funcionando no circuito comercial.
Quando as luzes das marquises se apagam – A história da Cinelândia Paulista (Brasil, 2018), de Renato Brandão.
O jovem Simon abre o filme apresentando sua família, sua vida normal de classe média e avisa: eu tenho um segredo. A narrativa segue o cotidiano de Simon em casa, no Colégio com os amigos e sua correspondência via e-mail com Blue, que também esconde a homossexualidade. A virada acontece quando Martin, colega de escola, descobre a correspondência e chantageia Simon, ameaçando divulgar as cartas.
Com amor, Simon é singela e bela história de descoberta e revelação, com tocante sequência final no parque de diversões, metáfora da passagem da adolescência para a fase adulta.
Com amor, Simon (Love, Simon, EUA, 2018), de Greg Berlanti. Com Nick Robinson (Simon Spier), Josh Duhamel (Jack Spier), Jennifer Garner (Emily Spier), Katherine Langford (Leah Burke), Alexandra Shipp (Abby Suso), Logan Miller (Martins Addison), Jorge Lendeborg Jr. (Nick Eisner), Keiynan Lonsdale (Bram Greenfild), Talitha Bateman (Nora Spier).
Quando Charles Foster Kane soltou da mão a redoma de vidro e pronunciou a palavra “rosebud”, uma revolução se anunciou na história do cinema. As extravagâncias técnicas que o diretor Orson Welles e o diretor de fotografia Gregg Toland imprimiram em Cidadão Kane (Citizen Kane, EUA, 1941) assombraram o mundo cinematográfico. Em termos narrativos, camadas de flashbacks também inovaram na busca do jornalista pelo significado da palavra que Kane pronuncia antes de morrer. No entanto, a trama parte de recurso tão antigo quanto contar histórias: a volta à infância motivada por um objeto simbólico.
Corta para 2001. O fotógrafo Bobby Garfield está em seu estúdio, fotografando uma redoma de vidro. Toca a campainha, ele recebe encomenda pelo correio. Abre a caixa e se depara com uma surrada luva de beisebol. Junto, recorte de jornal informa sobre a morte de um herói militar. Pensamentos de Bobby anunciam: “O passado pode chegar derrubando a sua porta. E você nunca sabe para onde ele vai te levar. Você só pode esperar que seja um lugar para onde você queira ir.” Bobby pega a foto de uma menina, coloca na carteira e sai em busca de seu passado.
Segundo o roteirista Michel Chion, acessórios cenográficos podem ter papel revelador ou mesmo simbólico: “É o caso de objetos cuja posse é disputada e que representam o poder, a riqueza, o saber ou ainda a infelicidade, a lembrança, a infância (o trenó de Citizen Kane, que representa o objeto perdido).” Esses clichês narrativos são caros ao cinema clássico americano.
A viagem leva Bobby ao funeral do amigo de infância Sully, dono da luva. Durante a solenidade, outro recurso narrativo comum é usado: flashbacks revelam os meninos Bobby e Sully e a menina Carol brincando no bosque.
Lembranças de um verão é adaptação de texto de Stephen King, autor especialista no gênero literário que desperta emoções há tempos imemoriais. Um princípio de textos do autor é a volta à infância em um período determinado que demarca a passagem. Em toda boa narrativa de gênero como as do mestre Stephen King, o passado esconde mistérios.
Personagens centrais para a elucidação do mistério escondido em um verão da década de 50, quando Bobby acaba de completar 11 anos, entram em cena quando o flashback toma conta da narrativa. A mãe do garoto, o pai ausente e Ted Brautigan, inquilino que chega para morar no andar de cima da casa de Bobby.
Jacqueline Nacache indica que a forma mais segura de identificar o gênero consiste na análise do início do filme, quando elementos simbólicos e personagens são apresentados ao espectador. Não pretendo analisar passo a passo o filme. Concentro-me nos minutos iniciais para dizer do fascínio que sinto por narrativas que, de forma clássica, me permitem descobertas de mistérios envoltos aos personagens e me remetem a recantos insondáveis da memória.
Lembranças de um verão trabalha com temas fundamentais na formação de todos nós: atitudes lúdicas da infância, bullying, amizade, o primeiro beijo, pacto entre amigos, a incompreensão do universo dos pais, assédio, o fascínio por um adulto que pode determinar como vamos enxergar o mundo (no caso de Bobby, aprender com Teddy a olhar o futuro). A guerra fria também demarca a narrativa, “homens ordinários” perseguem Teddy e algo que ele tem para uso em fins políticos..
O filme acontece com a simplicidade visual e técnica das narrativas clássicas, pontuada por frases de efeito e trilha sonora encantadora. Ao final do filme, fica da simplicidade o que todos nós buscamos por mais complexo que seja: “Aquele foi o último verão da minha infância.”
Lembranças de um verão (Hearts in Atlantis, EUA, 2001), de Scott Hicks. Com Anthony Hopkins (Ted Brautigan), Anton Yelchin (Bobby Garfield), Hope Davis (Liz Garfield), Mika Boorem (Carol Gerber), David Morse (Bobby Garfield adulto).
Referências:
O roteiro de cinema. Michel Chion. São Paulo: Martins Fonte, 1989
O cinema clássico de Hollywood. Jacqueline Nacache. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2005
Em Sicário: terra de ninguém a trama colocou em debate os limites éticos na luta contra o crime organizado. Enquanto a policial vivida por Emily Blunt combate movida por princípios da lei e justiça, o personagem de Josh Brolin, Matt Grover, usa de atos escusos para atingir os objetivos. Já Alejandro, sicário interpretado por Benicio Del Toro, encontra motivações na mais violenta vingança.
A continuação coloca novamente Matt Graver e Alejandro em ação na fronteira do México. A missão de Alejandro é sequestrar a filha do líder de cartel de drogas mexicanos, colocar a culpa na gangue rival, explodindo uma guerra entre as facções. O plano dá errado, Alejandra se vê sozinho com a menina no deserto mexicano e Matt recebe ordens de eliminar o sicário.
A violência pontua a ação (com direito a impressionante execução perpetrada por adolescentes em uma arena), deixando espaço para a complexidade das relações entre Alejandro e Isabel, sequestrador e refém. O final abre as janelas para a conclusão da história em novo filme, possivelmente com novo sicário.
Sicário: dia do soldado (Sicario: day of the soldado, EUA/Itália, 2018), de Stefano Sollima. Com Benicio Del Toro (Alejandro), Josh Brolin (Matt Graver), Isabela Moner (Isabel Reyes).
O diretor Clint Eastwood fecha espécie de trilogia baseada em atos heroicos perpetrados por soldados e pessoas comuns, incluindo Sniper Americano e Sully: o herói do Hudson. A história na qual se baseia 15H17 – Trem para Paris aconteceu em 2015, quando um marroquino aterrorizou os passageiros de trem que ia de Amsterdã para Paris. Três amigos americanos à bordo impediram a tragédia e foram saudados como heróis por autoridades e pela população.
Clint Eastwood escalou os próprios salvadores para interpretarem seus papéis no filme. A primeira parte da trama narra a relação de amizade entre os três no colégio, depois os caminhos separados que seguiram até o encontro em uma viagem pela Europa. Nesse ponto, embarcam no trem e protagonizam o combate contra o terrorista. O mérito do filme está em colocar atores não profissionais vivendo suas próprias odisseias, sem a exigência de interpretação. É quase uma reconstituição registrada pelas câmeras, sem grandes sequências de ação, pois dentro do trem quase tudo foi movido pelo acaso. Não é o melhor de Clint Eastwood, mas o diretor continua com seu olhar clássico para o cinema.
15H17 – Trem para Paris (The 15:17 to Paris, EUA, 2018), de Clint Eastwood. Com Anthony Sadler, Alek Skarlatos, Spencer Stone.
A narrativa segue os clichês do gênero: Dominika (Jennifer Lawrence), bailarina promissora, é recrutada por serviço secreto russo para se tornar agente especial, na verdade assassina profissional bem ao estilo Nikita. Em uma missão, Dominika conhece Nathaniel Nash (Joel Edgerton), agente da CIA. Os dois assumem relação movida a paixão, riscos, revelações e traições. Em meio aos clichês e sequências de assassinatos violentos, sobra a sensualidade de Jennifer Lawrence, em ousadas cenas de sexo e nudez. O final do filme reserva virada surpreendente.
Operação Red Sparrow (Red Sparrow, EUA, 2018), de Francis Lawrence. Com Jennifer Lawrence, Joel Edgerton, Charlotte Rampling, Matthias Schoenaerts.
Os quadrinhos da argentina Maitena foram adaptados primeiro para o teatro no Brasil, depois para as telas. A narrativa acompanha os conflitos cotidianos de quatro jovens mulheres. Keka está em crise no casamento e pede férias no trabalho para viajar com o marido e tentar salvar o casamento. Leandra está cansada das baladas e tira uma noite para cuidar dos filhos de sua irmã Sônia, que por sua vez aproveita para se esbaldar em uma boate sem o marido, com direito a experiências sexuais. A workaholic Marinatti precisa agarrar a oportunidade de um grande caso no escritório de advocacia em que trabalha para subir na carreira. Tudo dá errado quando conhece um pretendente na noite.
A comédia escrachada tem como ponto forte as protagonistas femininas. Estão no filme importantes debates por trás das situações hilárias, associados aos conflitos entre trabalho, família, relacionamentos. Alessandra Negrini domina a película.
Mulheres alteradas (Brasil, 2018), de Luís Pinheiro. Com Deborah Secco (Keika), Alessandra Negrini (Marinatti), Monica Iozzi (Sônia), Maria Casadevall (Leandra), Daniel Boaventura (Christian), Sergio Guizé (Dudu).
A narrativa abre com imagem de Ana deitada na pedra ao sol, em uma cachoeira. Corta para imagens de explosões de obras, preparando a cidade para as Olimpíadas do Rio de Janeiro 2016. Cortina de fumaça invade as ruas, Ana é envolta pela densa e sufocante onde de calor e sujeira.
As cenas de abertura determinam o tom do filme: o calor do Rio associado às obras das Olimpíadas provocam ondas de revoltas. Ana é advogada e defende causa popular dos moradores da Vila Autódromo, despejados por conta da construção da Vila Olímpica. Ela mora em prédio que também está em vias de abandono pelos moradores, pois hotel de luxo será construído no local. Manchas começam a aparecer na pele da advogada sem diagnóstico preciso pelos médicos.
Mormaço debate os problemas decorrentes do megaprojeto olímpico, colocando em pauta o agressivo plano de desocupação de moradores. A degradação da cidade e das pessoas é indicada através de metáforas visuais e narrativas. Atenção para a triste imagem dos desocupados arrastando seus pertences na calçada em frente ao Estádio Olímpico.
Mormaço (Brasil, 2018), de Marina Meliande. Com Mariana Provenzzano (Ana), Paulo Gracindo (Pedro), Analú Prestes (Rosa), Sandra Maria Teixeira (Domingas).
A princípio, há um toque de humor nos pequenos e diversos conflitos que permeiam a narrativa do filme. Começa com Luca rompendo com Anna em um café de Paris, pouco antes da cineasta se reunir com grupo de investidores em busca de dinheiro para seu novo filme. Corta para paradisíaca mansão à beira do mar na Côte d’Azur onde amigos se reúnem para as férias de verão.
Anna, proprietária da casa junto com a irmã Elena, tenta escrever o roteiro de seu filme, baseado na morte do irmão, enquanto sofre com a separação de Lucca. Os outros personagens entremeiam dramas, angústias, discutem sobre o passado. Todos são de classe média alta, estão na meia idade ou já na terceira idade. Do outro lado, os empregados da casa também desfilam seus dramas pessoais. O tom de humor se perde à medida que entram questões como crise entre casais, solidão, velhice, depressão, conflitos de classes, xenofobia, dilema de integrantes da esquerda francesa diante da ascensão da direita. Difícil esboçar sorrisos, mesmo quando os personagens se entregam às caricaturas de si mesmos, diante de tanta angústia.
A casa da veraneio (Les estivants, França, 2018), de Valeria Bruni Tedeschi. Com Valeria Bruni Tedeschi (Anna), Pierre Arditi (Jean), Valeria Golino (Elena), Noémie Lvovsky (Nathalie), Yolande Moreau (Jacqueline), Laurent Stocker (Stanislas), Riccardo Scamarcio (Luca), Bruno Raffaelli (Bruno), Stefano Cassetti (Marcello), Brandon Lavieville (François), Celia (Oumy Bruni Garrel).
No século XVIII uma espaçonave que reúne milhares de espécimes diferentes – a cidade dos mil planetas – navega pelo espaço. O jovem Major Valerian e a Sargento Laureline, em constante conflito amoroso, participam de missões em diversos planetas. Valerian é assombrados por estranhos sonhos que remetem a um povo desconhecido, na verdade a população de um planeta dizimado há trinta anos durante ataque militar.
O diretor Luc Besson (O quinto elemento e Asterix nos jogos olímpicos) é responsável pela produção mais cara da história do cinema francês, orçamento em torno de 210 milhões de dólares. A película comemora o cinquentenário da famosa série em quadrinhos francesa, centrada nas aventuras interestelares de Valerian.
Os efeitos visuais são o forte da narrativa que traz toques de Avatar: destrutivo regime militar não poupa populações que vivem em perfeita interação com o meio-ambiente. Tema sempre importante, pois é a realidade de nosso planeta.
Valerian e a cidade dos mil planetas (Valerian and the city of a thousand planets, França, 2017), de Luc Besson. Com Dane Dehaan (Major Valerian), Cara Delevingne (Sargento Laureline), Clive Owen (Comandante Arun).
Rosa (Maria Ribeiro) representa as angústias de grande parte das mulheres na contemporaneidade. Perto dos 40 anos, ela enfrenta problemas no casamento, frustrações no trabalho, convive com dilemas de relação com as filhas adolescentes, cuida dos pais idosos. A mãe sofre com doença terminal e faz revelação bombástica sobre a paternidade de Rosa, provocando reviravoltas nos caminhos da protagonista.
Como nossos pais é o retrato dos problemas que assolam famílias de classe média: conflitos entre gerações, desconfianças e infidelidades conjugais, frustrações profissionais, machismo, liberdades sexual, abandono dos pais. Rosa faz refletir sobre o papel da mulher em meio a tudo isto, afirmando o protagonismo feminino – Laís Bodanzky na direção, Maria Ribeiro como protagonista – na recente produção do cinema brasileiro.
Como nossos pais (Brasil, 2017), de Laís Bodanzky. Com Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena, Felipe Rocha, Jorge Mautner, Herson Capri.
O cinema brasileiro se debruçou com louvor sobre personagens que fizeram a história da nossa televisão, da nossa cultura pop. Hebe – A estrela do Brasil (2019), Chacrinha – O velho guerreiro (2018) e Bingo: o rei das manhãs (2017) recriam parte da biografia de ícones da telinha.
Vladimir Brichta interpreta Arlindo Barreto, mais famoso intérprete do palhaço Bozo no programa que encantou as crianças na década de 80. Por contrato, Arlindo Barreto não podia revelar a identidade por trás do palhaço. A narrativa acompanha sua obsessão em busca da fama, tentando bater no ibope uma certa rainha dos baixinhos e provar a si mesmo e aos executivos seu talento. Na vida pessoal, são retratados seus dramas pessoais com o filho, que se sente abandonado, seu envolvimento com mulheres, álcool e drogas.
Os bastidores da criação de programas na crescente indústria televisiva da época, movida a números do ibope, revelam a cruel pressão a que são submetidos os artistas. Vladimir Brichta é destaque do filme, entregando um personagem engraçado, tenso, deprimente.
Bingo: o rei das manhãs (Brasil, 2017), de Daniel Rezende. Com Vladimir Brichta, Leandra Leal, Tainá Muller, Augusto Madeira, Ana Lúcia Torre.
Charlize Theron é o destaque da trama, protagonizando cenas de pancadaria nas quais bate e apanha à vontade (ela mesma gravou as cenas) e desfilando erotismo, com direito a ousada cena de sexo com Sofia Boutella.
Lorraine Broughton (Charlize Theron) é agente do MI6. Ela é enviada sob disfarce para Berlim para investigar o assassinato de um oficial e resgatar lista de agentes duplos. O ano é 1989, às vésperas da queda do muro de Berlim. Como toda boa trama de espionagem, a narrativa é carregada de ação, surpresas, traições, assassinatos inesperados, enfim, tudo a que o espectador almeja ao sentar na cadeira diante deste gênero. Atômica está um passo acima devido, claro, à atriz que já conquistou seu Oscar e lugar no olhar dos cinéfilos.
Atômica (Atomic blonde, EUA, 2017), de David Leitch. Com Charlize Theron, James McAvoy, John Goodman, Eddie Marsan, Sofia Boutella.
Davi é jovem estudante de cinema cujo voyeurismo se traduz no hábito de filmar pessoas às escondidas. Tem aparência angelical, gestos delicados, falas comedidas, mas se transforma ao cometer o primeiro assassinato: sua vizinha Mara, que reaparece a partir daí, provocando o instinto violento de Davi que comete outros crimes.
O primeiro longa do diretor Diego Freitas segue a tendência de lançamento de bons gêneros no cinema nacional, a exemplo de As boas maneiras e O animal cordial. O ponto forte da película é o apuro estético, com sequências estilísticas nas incursões do personagem pela noite paulistana.
O segredo de Davi (Brasil, 2018), de Diego Freitas. Com Nicolas Prattes (Davi), Neusa Maria Faro (Maria), André Hendges (Jônatas), Bianca Muller (Dóris).
O filme começa com casal no quarto em acirrada discussão. Abre plano e mostra Alyosha, garoto de 12 anos, encostado ao lado da porta, lágrimas descendo pelo rosto motivadas pela briga dos pais.
Sem amor é dos mais contundentes e provocativos retratos das relações familiares na sociedade contemporânea, dominada pela futilidade das aparências, das redes sociais, pela necessidade de ascensão social. Alyosha desaparece após presenciar a discussão. O que se segue é a busca empreendida pela polícia, pelos pais, pela mídia, para descobrir o paradeiros de Alyosha. Enquanto a polícia prova sua ineficiência, os pais continuam sua jornada combativa, cada um envolvido com seu mundo superficial, ambos, a seu modo, mais preocupados com as repercussões do caso em suas vidas pessoais e profissionais. Melancólico, deprimente, Sem amor leva à reflexão sobre o vazio de vidas movidas a aparências.
Sem amor (Neyubov, Rússia, 2017), de Andrey Zvyagintsev. Com Maryana Spivak, Aleksey Rozin, Matvey Novikov.