Sobre Robertson B. Mayrink

Publicitário, jornalista, especialista em língua portuguesa, mestre em cinema pela EBA/UFMG. Professor de cinema e de criação publicitária. Coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da PUC Minas. Coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da PUC Minas. Coordenador da especialização em Roteiro para Cinema e TV do IEC PUC Minas.

A guerra acabou

Diego é um dos líderes do Partido Comunista Espanhol, ele luta clandestinamente contra a ditadura de Franco. Diego está em Paris, mas precisa entrar na Espanha, em Barcelona, para tentar avisar um dos seus amigos de partido que a polícia franquista descobriu sua identidade. 

A guerra acabou é um poderoso manifesto político de Alain Resnais, um dos principais expoentes da nouvelle-vague francesa. A narrativa apresenta várias questões políticas e éticas, presentes nas escolhas que os revolucionários devem fazer entre a individualidade e a luta coletiva. Um dos momentos fortes do filme é quando Diego se confronta com um grupo da resistência, formado por jovens idealistas, que pretende usar explosivos em pontos da cidade. 

O estilo irreverente de Renoir está na estrutura, flashbacks e flashforwards interrompem a trama, breves inserts que confundem o espectador sobre o acontecido e o que está por vir. Para completar, o filme tem algumas das mais belas imagens de sexo, espécie de volta de Renoir aos fragmentos de corpos de Hiroshima mon amour (1960).

A guerra acabou (La guerre est finie, França, 1966), de Alain Resnais. Com Yves Montand (Diego), Dominique Rozan (Jude), Jean-François Remi (Juan), Marie Mergey (Madame Lopes), Paul Crauchet (Roberto), Ingrid Thulin (Marianne),

A grande testemunha

Na infância, Jacques e Marie ganham um burro de presente, que passam a chamar de Baltazar. Jacques é filho do proprietário das terras onde vive o pai de Marie, um professor do interior adepto a novas práticas de cultivo. Quando termina as férias de verão, Jacques volta para Paris, após trocar juras de amor eterno com a pequena Marie.  

A grande testemunha é um melancólico estudo sobre as transformações da personalidade, motivadas pela passagem do tempo, principalmente a ruptura entre a infância e adolescência. Muitos anos depois, a adolescente Marie se apaixona por Gérard, cruel líder de uma gangue de jovens. A relação entre os dois oscila entre entregas carinhosas e atitudes completamente abusivas por parte de Gérard.

É um filme triste, refletido de forma intensa no olhar puro de Baltazar, que tem também uma infância alegre ao lado das duas crianças e, na vida adulta, sofre inacreditáveis violências físicas e psicológicas devido à sua condição de burro de carga. 

“O penúltimo filme em preto-e-branco de Robert Bresson – que faz par com Mouchette, de 1967 – é um estudo sobre a santidade, um conto poderoso e tocante sobre perversidade e sofrimento, e um olhar impiedoso sobre a crueldade inata e os impulsos destrutivos do homem. Ao tratar o burrinho do título como símbolo de pureza, virtude e salvação e escolher uma estrutura episódica para sua obra, Bresson confere a A grande testemunha uma intensidade notável, que ainda é acentuada pelo estilo visual despojado.”

Toda essa pureza e sofrimento é marcada por uma sequência tocante: após ser açoitado pelo seu dono, Balthazar consegue fugir e se esconde na casa abandonada onde viveu seus dias felizes com as crianças. Seu grito lancinante ao percorrer os ambientes decrépitos e solitários da propriedade é de destruir o coração. 

A grande testemunha (Au hasard Balthazar, França, 1966), de Robert Bresson. Com Anne Wiazemsky (Marie), Walter Green (Jacques), François Lafange (Gérard), Jean-Claude Guilbert (Arnold). 

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

Cortejo de amigos

Foi a madrugada mais fria do ano. Perto de 15 graus, edredons e cobertores saíram dos armários. A cama ficou mais aconchegante pela manhã. Cai uma chuva fina, o tempo incerto entre o outono e o inverno.

Gosto de lentidão pela manhã. Tomar banho quente pensando em coisas por fazer, outras já feitas. Nos meus tempos de agência de propaganda, gastava água e conta de luz em busca de ideias debaixo do chuveiro – cantores de terceira, poetas e redatores publicitários são ameaça ecológica. É bom preparar o café, me sentar à mesa com a xícara fumegante, sem pressa, tomando goles folheando uma revista, o jornal do dia. Às vezes, essa lentidão da manhã fria traz lembranças.

No rádio toca O rancho da goiabada, de Aldir Blanc e João Bosco. Pela segunda vez, presto atenção quase religiosa nesta música. A primeira foi no final da década de 70, no enterro de Zé Carlos, amigo de infância.

Ele morreu afogado em Guarapari, antes de completar 20 anos. As lembranças dele são esparsas: moreno, pequeno bigode teimando em não crescer, cabelos curtos, gosto refinado por samba. Era daqueles que puxavam a canção em rodas de violão, de bem com a vida, a voz desafinada sobressaindo.

Nossa turma ia chegando aos poucos no começo da noite, saindo do trabalho, da escola.  O ponto era o bar da rua, mesas na calçada. As conversas, comuns: futebol, estudos, trabalho, política, até a bebida começar os efeitos e alguém aparecer com o violão. Zé Carlos sempre dava jeito de puxar a música do João Bosco e Aldir Blanc. Ele começava cantando baixinho, acompanhando o ritmo do violão, olhos baixos, bebericando a cerveja nos intervalos, esperando a hora para soltar a voz: “e a sobremesa é goiabada cascão, com muito queijo depois café, cigarro e um beijo de uma mulata chamada Leonor ou DAGMAR….” Pelo tom de voz, a alegria represada, quase um grito, fiquei com a impressão de alguma Dagmar na vida do amigo. Talvez mulher casada, sonho de muito adolescente.

No enterro de Zé Carlos, enquanto acompanhamos o caixão pelas alamedas do cemitério, uma voz tímida começou a cantar O rancho da goiabada. Os amigos foram aderindo até se transformar em coro alto, triste, ecoando no vazio do Cemitério da Colina.

A música e o cortejo ficaram gravados na minha memória. Indissociáveis. A primeira lembrança triste da adolescência, como uma despedida daqueles dias felizes.

Hoje, nessa manhã fria de outono, acho a música mais bonita. Aumento um pouco o rádio, presto atenção, guardo trechos da letra na bela interpretação do Quarteto em Cy. Acabo de tomar o café, me preparo para sair, penso no trabalho que tenho pela frente. Aos poucos esqueço a música, me concentro em coisas mais presentes. Como tantas e tantas lembranças, O rancho da goiabada está guardada em uma pequena rua de bairro.

Conversa de adultos

Gabriela saiu da piscina e sentou-se no chão, de frente para a mãe.

– Você está triste, mãe. – a mãe tirou os óculos escuros.

– Por que você diz isso?

– Dá para notar. Não precisa nem prestar muita atenção.

– Deve ser o dia. Domingo costuma ser monótono, sem nada para fazer, todo final de semana neste sítio. A mesma vista, as mesmas pessoas, tanta gente aqui sem ter o que fazer, com vontade de fazer coisas que não pode. Acho que estou um pouco cheia, só isso.  – ela surpreendeu-se de desabafar com a filha assim.

– Não estou falando só de hoje. Estou falando de todos os dias. – a mãe ficou alguns segundos sem saber, levantou-se, caminhou até perto da grade do deck. O sol começava a se aproximar da montanha, batendo quase de frente em seus olhos, derramando uma luz clara na paisagem verde, deixando árvores, matas e caminhos com uma cor estourada, quase indistinguível.  Debruçou-se na sacada e ouviu a voz de Gabriela, bem perto de seu ouvido. Voz baixa, tranqüila e segura, como se falasse de um segredo, mas sem medo de revelar segredos.

– Papai já sabe que você está apaixonada por outro homem?

– Enlouqueceu, menina.

– Deixa disso, mãe. Escutei você no telefone outro dia. – ela pensou em negar, um jeito de virar o jogo. Olhou por alguns segundos para a filha, ela permanecia tranquila, os olhos esperando. – E então. Papai já sabe?

– Não. Acho que ele não percebeu nada. Ele fica dia e noite no trabalho, eu também, a gente nem tem tempo para desconfiar dessas coisas. – não sentiu medo nem pesar por ter se revelado tão naturalmente para a filha, apenas surpresa consigo mesma. Pegou-a pela mão e levou-a de volta para as cadeiras ao lado da piscina. Por fim, sentou-se e afundou a cabeça entre os joelhos, como se desse conta do que acontecera. Sentiu a mão de Gabriela em seus cabelos. Levantou o rosto.  – Coisa feia, escutar conversa dos outros.

– Eu sei. Desculpa mãe, foi sem querer. É sério? vocês estão juntos há muito tempo? ouvi você dizer te amo.

– É. É sério. Acho que pela primeira vez na vida estou amando de verdade. Não que eu não tenha amado seu pai. É um amor diferente, com paixão. Como se, como se…. ah, não sei.

– E você quer ficar com ele.

– Quero. É a coisa que eu mais quero na vida.

– Porque você não conversa com o papai. Talvez ele entenda. – a mãe olhou com carinho a filha, os cabelos loiros, olhos azuis, “Deus, como ela cresceu”.

– Não posso. Nós temos você, eu não posso fazer isso com você.

– Pera aí, mãe. Eu não tenho nada a ver com isso. É uma história entre você, papai e o seu …. o seu….o seu namorado.

– Mas Gabriela, você não entende.

– Acho que quem não está entendendo é você. Daqui a pouco eu saio de casa, vou viver a minha vida e você vai ficar aqui. Você e o papai. Pelo jeito, infelizes.

– Não é tão simples ….

– Na verdade é simples. Você não ama o papai. Acho que o papai também não ama você mais. Ficam aí, apegados a essas coisas materiais, dizendo com orgulho de tudo que construíram juntos. Agora você está apaixonada, está tendo um caso. Se fosse um caso passageiro, vá lá. Mas não. Parece que não. Você acabou de dizer que quer ficar com ele mais do que tudo na vida. Está triste, deprimida, sofrendo. E diz que vai sacrificar a sua vida por mim. Eu não peço isto. Filho nenhum pede isto. Vocês é que decidem assim. Vivem dizendo, “vocês são a minha vida”, e tem aquela conversa fiada, aquela chantagem barata: “dediquei a minha vida por você, fiquei noites sem dormir, deixei de fazer tudo que queria”. Não vem com essa que eu não quero carregar este peso. Se você sacrificar alguma coisa é problema seu. Convenhamos, né mãe. Vocês complicam tanto a vida.

– Mas eu vou separar você e seu pai ….

– Ah, não vai. Mas não vai mesmo. Eu adoro o papai. Vou continuar convivendo com ele. Eu tenho amigos de pais separados, você sabe. Eles vivem do mesmo jeito. Ninguém morre, ninguém mata. Uns carregam lá os seus problemas, mas… os pais tão aí, cuidando da vida, dos filhos, trabalhando, vivendo. Acho que vai ser até legal ter duas casas, conhecer seu namorado, a namorada do papai. É a vida, mãe.

Um estremecimento tomou conta do corpo de Gabriela. Ela encolheu os braços. O sol acabara de se esconder atrás da montanha.

– Você vai se resfriar minha filha. Vem cá, deixa eu enxugar você. – ela pegou a toalha e envolveu-a toda, passando a toalha pelos cabelos molhados da filha. – Tem certeza que você vai ficar bem?

– Mãe, eu já estou crescidinha. Por falar nisto. Mês que vem é meu aniversário. Já comprou o meu presente?

– Não sei, o que você quer?

– Humm. Tava pensando numa mobilete.

– Mobilete?

– É. Aquela moto pequena que o Arthurzinho tem.

– Ah, não. É muito perigoso. Você ainda não tem idade.

– Mãe. Eu já vou fazer doze anos. Dá para deixar esse negócio de menininha de lado?

Velhos discos de vinil

Ângela levou o copo de vinho aos lábios sem tirar os olhos dos meus. Três horas depois, o corpo dela repousava no meu. Naquela tarde, uma chuva serena esfriara de vez o tempo em Maringá. A neblina encobrira a serra, da janela da casa se viam nuvens baixas passando como fumaça entre as araucárias da serra. Na pousada em frente, um ou outro casal aparecia na varanda por alguns minutos, como a maldizer o tempo que acaba com finais de semana românticos, casos eventuais, passeios aventureiros ou coisa parecida que a paisagem inspira. Aventuras na serra e amores selvagens não combinam com este frio impiedoso.

Há mais de dez minutos eu estava na janela, pensando no telefonema de poucos minutos atrás.

– Meu amor, não posso subir hoje. Dois médicos adoeceram ao mesmo tempo e me escalaram de última hora para o plantão desta noite. Você sabe… início de feriado, estes idiotas morrendo sem parar nas estradas…

Há cerca de dois meses, Cláudia e eu alugamos uma casa na serra para finais de semana. Todos os amigos alertaram da praticidade de ficar em pousadas, ao invés de pagar aluguel, além dos consertos que todas as casas necessitam.

– Vamos ter trabalho, tem certeza que a gente tem disposição para pegar a Dutra todo final de semana? –  Cláudia respondeu que seria como uma aventura, um desafio. Só não teve coragem de completar que talvez fosse a última tentativa para aquele casamento que insistia em sobreviver sem romantismo, o sexo se limitando aos domingos de manhã.

Ela prometera descansar um pouco após o plantão e subir logo depois do almoço.

– Juízo, heim!!! – alerta desnecessário para um homem que não entendia mais o significado de determinados olhares que trocava com uma ou outra mulher.

À tardinha, tomei a decisão sem sentido, com aquela chuva fina, de caminhar pelas ruas da vila. Desisti logo que desci do carro e o vento jogou a garoa fria no meu rosto. Estava em frente a um bar que sempre me atraíra. O proprietário decorara a fachada com discos de vinil, dentro, só tocavam velhos LPs, aquele som chiado tomando conta do ambiente.

Pedi um vinho. O bar estava vazio, com apenas três ou quatro casais mais velhos. Ouvi uma risada alta às minhas costas. Os casais à minha frente olharam em direção à mesa, reprovadores, revelando a imperdoável interrupção do ensimesmar. Despejei um pouco mais de vinho no copo, a vontade incontrolável de me virar e também acusar, dizer do absurdo de naquela noite fria, solitária e sem esperança, alguém rir daquela maneira.

Na segunda risada, ainda mais alta, me voltei em um impulso para a mesa imediatamente atrás da minha, onde três mulheres conversavam. Ângela sentiu de imediato a ferocidade do meu gesto e abaixou os olhos. Por poucos segundos. Passou os dedos pela borda do copo, os lábios se contraíram em um leve sorriso e voltou a levantar os olhos em direção aos meus. Ficamos assim um tempo. Ela se levantou, caminhou até a minha mesa e se sentou à minha frente, sem sequer pedir licença. Um gesto impulsivo, instinto natural de quem sabe que estes olhares não podem se transformar, na manhã seguinte, no arrependimento do que não aconteceu.

Ângela, de rosto anguloso, emoldurado por cabelos castanhos levemente cacheados que caíam até os ombros. Seus olhos amendoados deixavam a sensação de chuva mais evidente, seus dedos finos e longos envolviam o copo de vinho com delicadeza, com a suavidade de alguém que trabalha com carinho nas mãos, talvez uma paisagista, arquiteta, quem sabe artista plástica. Conversamos pouco, Ângela fez a proposta sem rodeios.

Não sei. Hoje, tantos anos depois, envelhecendo ao lado de Cláudia, minhas lembranças daquela noite são as lembranças do olhar. Ângela debruçada em meu peito após o amor, lembrança indelével, como as araucárias embranquecidas pelo inverno rigoroso da serra.

Tiros na noite

A mãe deixou a panela cair. O coração disparou, barulho de metal repicando no piso da cozinha sempre a irritava. Conseguiu prender a panela com o pé, parando aquele som que entrava fundo em seus ouvidos. Respirou fundo, abaixou-se lentamente, uma das mãos nas costas, pouco acima das nádegas, a outra recolhendo o utensílio barulhento. Jogou a panela na pia. Meu Deus! mais barulho. Viúva, morava sozinha, na sua rotina, uma cachorra poodle, conversa matinal com as vizinhas, caminhada pelo quarteirão, cochilo depois do almoço, a novela das seis… das sete. Até que a filha e a neta vieram morar junto. Ih, ela acordou! Foi ao quarto da neta, encostou o ouvido na porta. Abriu devagar, descalçou os chinelos, andou lentamente até perto da cama. Dormia. Juro que ouvi um choro. Esses barulhos, sei não, essas coisas da noite. Denise na rua até essa hora. Fechou a porta do quarto, caminhou até a sala. Conferiu se as janelas estavam fechadas, a porta. Foi quando a mãe ouviu o tiro.

Roberto, o ex-marido, contou à polícia que naquela noite ele e Denise tinham finalmente feito as pazes. Comeram pizza se lembrando de velhos tempos. Ele não bebera. Nunca bebo quando estou dirigindo. Na saída, chamei Denise para um motel. É tarde, me leve para casa. A nossa? Não. A casa da mamãe, Dani pode acordar, a mãe não tem mais idade para levantar de noite. No carro, ela deitou o rosto em meu ombro, apertou a minha mão. Foi o que disse.

Paramos no portão da casa da sogra. Uma hora da manhã, a rua deserta. A luz do poste estava queimada. Denise me abraçou, beijou minha boca, assim, beijo mesmo, com saudade, com… Isso entra no depoimento? Ouvi uma batida no vidro do carro, na janela do lado de Denise. Um rapaz com revólver. Apontou a arma. Ele bateu de novo, pensei que fosse quebrar o vidro. Fez sinal para abaixar a janela. Obedeci,  você sabe, a arma na nossa cara. Ele me mandou descer. Eu não sabia o que fazer, fiz gesto de abrir a porta, Denise gritou assustada, fez um movimento descontrolado em minha direção. Foi quando escutei o tiro.

Denise casara-se cedo, aos dezenove. Levava vida de dona-de-casa: filha, casa, marido bem de vida. Com o tempo, perdeu o encanto, o desejo. Quando soube das noitadas do marido, não se importou. Deixou o tempo passar, a filha crescendo. Um dia, como acontece com poucas mulheres que vivem para o lar, acordou. Mudou-se para a casa da mãe, arrumou emprego. Entusiasmou-se. Roberto não. Passou a persegui-la, exigindo a volta. Ele  freqüentava a casa para ver a filha. Ficava até mais tarde, a mãe ressabiada, esse volta não volta, minha liberdade foi embora, nessa idade tomando conta de menina.

O advogado entrou com os papéis. Agora não tem volta. Roberto: tem. Ou você não fica com nada, não põe a mão em um centavo meu. E tem mais, se te pego com outro, é tiro. Denise não levou a sério, conversa fiada, pensou.

Na noite em que voltavam para casa – ideia dele sair para conversar, só comer uma pizza e conversar – Roberto tinha semblante calmo, feliz. Na saída da pizzaria, tentou beijá-la. Ela recusou. Vamos para um motel. Ela recusou. No caminho de casa, pensava na filha, fazia planos, os olhos vendo as ruas, as luzes da cidade. Na porta da casa da mãe, ele parou o carro debaixo do poste. Denise observou a luz queimada, a rua na penumbra. Sem lua, sem luz, o farol do carro apagado.

Assustou-se com barulho no vidro. Um rapaz com arma na mão. Antes dele bater de novo, o vidro desceu lentamente. Ela olhou assustada para Roberto. Ele já estava com a perna para fora do carro. Roberto afastou-se lentamente do carro. Foi quando Denise escutou o tiro.

O covarde

O carro do roteirista Amitabh Roy estraga em uma pequena cidade do interior da Índia. Sem condições de seguir viagem, Bimal Gupta, um rico plantador de chá da região, oferece hospedagem a Roy. Quando chegam em casa, já à noite, Roy se surpreende ao encontrar Karuma, esposa de Bimal, sua paixão dos tempos da faculdade.

O diretor indiano Satyajit Ray tece uma narrativa marcada pelo silêncio entre os apaixonados, que relembram sua paixão através de olhares, gestos, tentativas de diálogos que não se realizam. Flashbacks reconstituem o relacionamento e o motivo da separação, motivada pelo receio – expresso no título do filme – de Roy em assumir um relacionamento mais sério. A narrativa curta, com apenas três personagens em cena, expressa um dos belos versos da música brasileira: “é desconcertante rever o grande amor.”  – Chico Buarque e Tom Jobim. 

O covarde (Kapurush, Índia, 1965), de Satyajit Ray. Com Soumitra Chatterjee (Amitabha Roy), Madhabi Mukherjee (Karuna Gupta), Haradhan Banerjee (Bimal Gupta).

As praias de Agnês

O documentário pode ser visto como uma espécie de testamento fílmico de Agnès Varda. A narrativa começa com a montagem de um cenário em uma das praias frequentadas pela fotógrafa/cineasta na infância. Encenações na praia se fundem a trechos de seus filmes, amparados por uma sensível e sincera narração em primeira pessoa. 

Parte da história do cinema francês, pouco antes e a partir da nouvelle-vague francesa, está registrado em As praias de Agnès. Os relatos e os filmes se imbricam com a vida pessoal de Varda, em momentos de emocionar, como no momento em que ela vê fotos de amigos mortos e, principalmente, ao comentar seu relacionamento com o também cineasta Jacques Demy. A rua onde ela viveu, em Paris, serve como cenário para a simulação de uma praia em plena capital francesa, com areia, sombrinhas, mesas de trabalho como se fosse uma produtora de cinema ao ar livre. Em um trecho, a cineasta tenta definir cinema: “O que é o cinema? É luz que chega de algum lado e que é retida pelas imagens mais ou menos escuras ou coloridas.” Filme a filme, memória a memória, Agnès Varda revela toda a sua paixão por essas imagens escuras ou coloridas e pela vida.  

As praias de Agnès (Le plages D’Agnès, França, 2008), de Agnès Varda.

Pororoca

Para entender a força da linguagem cinematográfica em determinadas narrativas, basta se entregar ao longo plano sequência no parque, quando a filha do casal Tudor e Cristina desaparece. É uma espera angustiante para o espectador, acompanhar sem cortes uma bela manhã ensolarada no parque, onde crianças se divertem, pais relaxam com livros e conversas banais, sorvetes aliviam o calor das crianças e dos adultos. Angustiante, pois o espectador sabe o que vai acontecer com a pequena e doce Maria. 

A partir do desaparecimento da criança, a narrativa se concentra na luta diária dos pais para encontrar a filha. Ao mesmo tempo, o casal tem que enfrentar a degradação do relacionamento, motivada principalmente pelo sentimento de culpa.  Pororoca é um filme difícil de assistir, repleto de sequências que fazem o espectador entrar na tristeza e desespero do casal. A reviravolta na sequência final, claramente uma citação à Taxi Driver, de Martin Scorsese, é impactante, pode-se dizer aterradora ao expor os limites da insanidade. 

Pororoca (Romênia, 2017), de Constantin Popescu. Com Bogdan Dumitrache (Tudor Iunesco), Iulia Lumânare (Cristina), Constantin Dogioiu (Pricop). 

O evangelho segundo São Mateus

Pier Paolo Pasolini era declaradamente ateu. No entanto, isso não foi empecilho para que o diretor realizasse sua leitura da bíblia para reconstituir o martírio de Jesus Cristo.  “Não é difícil prever que este meu relato pode provocar reações interesseiras, ambíguas ou escandalizadas. Seja qual for a reação que receba, quero deixar claro que a história da Paixão que eu evoco indiretamente é para mim a maior que jamais houve, e os textos que a registram, os mais sublimes já escritos.” – Pier Paolo Pasolini. 

Pasolini retrata um Cristo vivendo em uma região desértica e miserável, cujos monólogos, diálogos e sermões são extraídos diretamente do texto do Evangelho. O filme se aproxima de uma das maiores influências do cinema do diretor: o neorrealismo italiano. O filme é gravado em locações, com um grupo de atores que faziam parte do círculo intelectual de Pasolini. O resultado é uma narrativa próxima à realidade vivida por Cristo e seus seguidores. “O Cristo de Pasolini, foge dos parâmetros de iconografia católica tradicional: barba curta e rala, rosto cheio, sobrancelhas unidas. Do mesmo modo, os atores que vivem os apóstolos poderiam ter saído de qualquer praça de Roma.” – Pedro Maciel Guimarães

Esse olhar realista, próximo do que poderia ter sido a vida naqueles tempos, coloca Jesus Cristo no lugar de um revolucionário que angariou seguidores em busca de justiça social e fraternidade entre os irmãos. Com a poesia bela e emocionante dos textos bíblicos sob o olhar também belo e poético de Pasolini. 

O evangelho segundo São Mateus (Il vangelo secondo Matteo, Itália, 1964), de Pier Paolo Pasolini. Com Enrique Irazoqui (Jesus Cristo), Margherita Caruso (Maria Jovem), Susanna Pasolini (Maria Adulta), Marcello Morante (José), Mario Socrate (João Batista), Otello Sestili (Judas). 

Referência: O evangelho segundo São Mateus – um filme inspirado na vida de Jesus Cristo. Cássio Starling Carlos, Pedro Maciel Guimarães, Reinaldo José Lopes. São Paulo: Folha de S. Paulo 2016. Coleção Folha Grandes Biografias no Cinema.