Sobre Robertson B. Mayrink

Publicitário, jornalista, especialista em língua portuguesa, mestre em cinema pela EBA/UFMG. Professor de cinema e de criação publicitária. Coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da PUC Minas. Coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da PUC Minas. Coordenador da especialização em Roteiro para Cinema e TV do IEC PUC Minas.

A história de um final. E que final

Em 1942, a Segunda Guerra Mundial estava em momentos decisivos. A entrada dos Estados Unidos na guerra representou o ponto de virada, um ano antes. Soldados e mais soldados americanos desembarcavam na Europa e na Ásia. Hollywood também fazia a sua parte, produtores, diretores e atores participavam do esforço de guerra, produzindo filmes sobre o conflito, na tentativa de mostrar para o mundo a heróica luta dos aliados contra o nazismo. Neste contexto, foi lançado o filme que se tornou um dos maiores clássicos de todos os tempos: Casablanca (EUA, 1942), de Michael Curtiz.

Casablanca é uma mistura de thriller de espionagem e romance. Rick Blaine (Humphrey Bogart) é dono do Rick ‘s Bar, em Casablanca, no Marrocos, colônia francesa na África. O bar é freqüentado por oficiais locais que seguem ordens do comando nazista (o filme se passa na época da ocupação da França pelos alemães) e por uma legião de refugiados de guerra. Certa noite, Ilsa Lund (Ingrid Bergman) e seu marido Victor Laszlo (Paul Henreid), importante líder da resistência francesa, entram no bar. Rick e Ilsa foram amantes em Paris, mas o romance terminou no momento da ocupação da França pela Alemanha. O encontro dos dois provoca lembranças, sentimentos e oferece ao público cenas e frases típicas do melodrama. Rick, bêbado, murmura para o copo, “De todos os bares do mundo, ela tinha que entrar no meu”Rick e Ilsa estão num bar, em Paris, quando os alemães invadem a cidade,  Ilsa desabafa, “O mundo desmorona e nós nos apaixonamos.”. Ela ouve estrondos ao longe e pergunta, abrigada no peito de Rick, “Foram tiros de canhão ou meu coração batendo?”.

Momentos que exemplificam o tom melodramático que fazia sucesso no cinema no início dos anos 40. Mas, ao contrário de diversos outros filmes do gênero, Casablanca nunca envelhece. Passa de geração para geração sempre com a aura e o glamour dos clássicos. É daqueles filmes em que tudo dá certo: uma história envolvente, uma música arrebatadora, o carisma do par de protagonistas centrais, a escolha acertada de diversos atores secundários, a direção precisa de Michael Curtiz e, principalmente, o final que deixou milhões de espectadores com o coração na mão. O filme representa a fase áurea de Hollywood que, mesmo em meio à tragédia da Segunda Guerra Mundial, conseguia produzir filmes que levavam esperança e humanidade ao espectador. O mundo desmoronava, mas era possível se apaixonar. 

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O interior da nave

Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, EUA, 1977), de Steven Spielberg, é um dos filmes de maior bilheteria da história do cinema. Com enredo otimista, o filme é repleto de belos efeitos visuais, principalmente a seqüência final, quando a nave-mãe aparece. A seqüência em que o filho de Gil é levado pelos alienígenas é outro momento alto do filme. Mãe e filho, sozinhos em casa, se deparam com objetos, brinquedos e eletrodomésticos que ganham vida dentro da casa. A criança está deslumbrada, a mãe, assustada, conceito que Spielberg desenvolveria com ternura em E.T: só o olhar da criança consegue se sensibilizar com os alienígenas.

Contatos imediatos inaugura no cinema a ideia de relançar filmes com cenas adicionais. Steven Spielberg comenta, na edição especial lançada em DVD, que tentou convencer a Columbia a “me deixar terminar o filme como eu queria. Mas eles tinham problemas financeiros em 1977 e precisavam do filme no natal. A empresa estava em jogo e eles contavam com aquele filme”. Spielberg terminou o filme, mas ficou insatisfeito com determinadas cenas.

O sucesso nas bilheterias motivou Spielberg a procurar a produtora, cerca de um ano e meio depois. “Pedi que me deixassem terminar o filme, remontar certas cenas e filmar mais algumas seqüências. Eles disseram: ‘Nós damos o dinheiro, um milhão e meio de dólares, mas mostre a nave-mãe por dentro’. Queriam um gancho para a campanha”. – explica o cineasta.

Steven Spielberg concordou. Refez e incluiu as seguintes  cenas: o cargueiro Cotopaxi, achado no deserto; Roy Neary (Richard Dreyfuss) está sentado na banheira de sua casa, completamente vestido, deixando a água do chuveiro cair sobre ele; a sombra de uma espaçonave encobre a caminhonete de Roy.

Por fim, atendendo à exigência da Columbia, ele filmou cenas adicionais, mostrando Roy Neary no interior da espaçonave.

Com as cenas acrescentadas e o novo final, Contatos Imediatos abriu para o espectador a possibilidade de assistir, cerca de três anos depois, a um novo filme. No entanto, no depoimento que gravou para a edição lançada em DVD, Steven Spielberg reconhece o erro. “Eu cedi à Columbia e mostrei Richard Dreyfuss dentro da nave-mãe, o que eu nunca deveria ter feito. O interior devia ser um mistério.” A relação de desapontamento de Spielberg com o filme vai ainda mais longe.

“Contatos Imediatos do Terceiro Grau é uma odisséia idealista e meiga sobre um homem que larga tudo para perseguir seus sonhos ou obsessões. Em 1997, eu jamais faria o filme como o fiz em 1977, pois agora tenho uma família que eu nunca abandonaria. Nunca os expulsaria para fazer uma montanha na sala de estar, muito menos entraria numa nave para nunca mais voltar. Esse é só um privilégio da juventude. Esse é um filme que me data no qual posso olhar para trás e ver como eu era há 20 anos e me comparar com o que sou agora.”

Steven Spielberg ajudou a definir a política dos estúdios com relação à indústria do entretenimento. A partir dos anos 80, com a revolução da indústria caseira de cinema (VHS, DVD, Blu-ray, streaming…) relançar filmes com cenas adicionais, novos finais, cenas excluídas, making-off , virou lugar comum. Em casa, o espectador tem em mãos, muitas vezes, um novo filme. No entanto, nada substitui o fascínio da primeira sessão no cinema, aquela sensação do olhar deslumbrado em naves espaciais colorindo o céu e a imaginação dos amantes da sétima arte.

REFERÊNCIA

Extras do DVD. Columbia Pictures. 

A restauração de um clássico

A minha dissertação no mestrado de cinema tratou dos cortes impostos pelos produtores nos filmes. Escrevi sobre filmes que tiveram finais modificados após serem submetidos a sessões de pré-testes. Assunto inesgotável, basta ver em alguns bons extras de DVD. A indústria do DVD trouxe duas vantagens ao cinema: a restauração de filmes antigos, alguns praticamente deteriorados, e a inclusão de depoimentos, entrevistas, comentários – histórias que ajudam cinéfilos a conhecer mais sobre cinema.

Ludwig (Itália/Alemanha/França, 1972), de Luchino Visconti, sofreu com a prática imposta por produtores de cortar o filme objetivando aceitação comercial. Após a montagem final, Visconti entregou Ludwig aos produtores com cerca de 4h10 de duração. Uma história grandiosa, passando pelos 25 anos de reinado do Rei Ludwig da Baviera.

O Rei Ludwig ficou famoso pela excentricidade, alguns classificaram de loucura. O rei foi um mecenas das artes, financiou grandes obras do compositor alemão Richard Wagner, chegando a construir um teatro especialmente para o músico. Era um soberano solitário, em conflito com sua sexualidade, cena do filme mostra Ludwig (Helmut Berger) fascinado e perturbado ao ver um de seus serviçais nadando nu no lago. Pouco depois, ele demite o empregado sem explicações e pede a mão da princesa Sophie, da Áustria, em casamento (o noivado foi rompido mais tarde e o rei nunca se casou).

Ludwig se afastou progressivamente do governo de seu reino para se dedicar a obras suntuosas, construindo grandes castelos na Baviera, dos mais belos da Europa, imponentes projetos arquitetônicos. Devido a essas excentricidades, Ludwig ficou conhecido como o “rei dos contos de fadas”, ou “rei lunar”. Era adorado por seu povo.

Acabou afastado do reinado, acusado de não ter condições psicológicas de governar. Após longo processo investigativo, o  gabinete de governo de Ludwig atestou, com apoio dos médicos da corte: o rei está louco. O fato tem repercussões políticas mais abrangentes. É o período de consolidação do poder de Bismarck, primeiro-ministro da Prússia e comandante da unificação da Alemanha. Pouco depois de seu afastamento, Ludwig foi encontrado morto em um lago, junto com seu médico particular, em circunstâncias nunca esclarecidas. Tinha 40 anos de idade.

O filme conta essa história com a beleza, a suntuosidade, a primorosa reconstituição de época, características do diretor Luchino Visconti. Ludwig é interpretado por Helmut Berger, companheiro do diretor na época. Romy Schneider volta ao papel que a consagrou no cinema, interpretando a Imperatriz Sissi, da Áustria. Está bela no papel de uma Sissi madura, sedutora, deprimida, consciente do papel que representa na história de conflitos de poder. Ela diz a Ludwig, “nós só seremos lembrados se formos assassinados.” Sissi foi assassinada por um fanático, em 1898, em Genebra.

Quando terminou a montagem de Ludwig, Luchino Visconti sofreu uma trombose. Os produtores, inconformados com as mais de quatro horas de duração do filme, aproveitaram o afastamento do diretor e promoveram uma série de cortes na película. Chegaram à montagem final com cerca de três horas de duração. Para tornar o filme mais “comercial”, cortaram mais de uma hora da história.

O filme foi lançado e críticos afirmaram que a história era incompreensível. Ludwig foi retumbante fracasso de público e crítica. Suso Cecchi D’Amico, grande amiga de Visconti, conta que o diretor, já perto da morte, a convidou para assistirem juntos a todos os filmes que fizera. Suso trabalhou em vários filmes de Visconti como roteirista. Segundo a roteirista, Luchino Visconti se recusou a assistir Ludwig.

A restauração

A história da restauração tem o toque dos apaixonados por cinema. Suso Cecchi leu anúncio em jornal informando que a produtora estava em processo de falência e iria leiloar Ludwig. A roteirista foi aos arquivos da Technicolor e descobriu os negativos cortados pelos produtores, já bem deteriorados. De posse dos negativos, Suso reuniu um grupo de colaboradores de Visconti, entre eles Enrico Medioli, também roteirista do filme, e os convenceu a participar do leilão, com o objetivo de comprar e  restaurar o filme. Visconti já havia morrido, em 1976.

Durante o leilão, o grupo descobriu que o valor era muito alto. Havia um milionário italiano presente, colecionador de filmes. O leiloeiro, ciente da intenção do grupo de amigos, interrompeu os lances, reuniu todos os participantes e propôs um acordo: eles comprariam o filme em conjunto e promoveriam a restauração. A proposta foi aceita pelos demais participantes.

Em 1978, o filme foi relançado com quase 4 horas de duração, cerca de 15 minutos a menos da versão de Visconti. Os roteiristas e o montador do filme participaram de todo o processo, respeitando as marcações originais do diretor. Como os atores de Ludwig são de várias nacionalidades, foi preciso dublar novamente o material anteriormente cortado.

O resultado da restauração é um filme magnífico. História que trata de sonhadores num mundo em transformação. O resultado é um filme de Luchino Visconti.

Referência: LUDWIG. Luchino Visconti, Itália/Alemanha/França, 1972. Versátil Home Video. Extras do DVD.

Os musicais, a crítica e o público jovem

Amigo me diz que não suporta ver pessoas cantando e dançando em cena quando deveriam conversar ou namorar. Especialistas apontam que esse é um dos motivos da decadência do musical: as características do gênero, cantar e dançar, não agradam o público de cinema moderno, principalmente plateias jovens.

Meu pai amava musicais. Fred Astaire era dos seus ídolos no cinema. Na infância, lembro-me de vê-lo em festas de família tentando imitar passos do mestre. Adolescente, tentei também reproduzir (vergonhosamente) números de John Travolta em Os embalos de sábado à noite (1977).

O escritor Ruy Castro, em Cantando e dançando à saída do cinema – artigo publicado no livro Um filme é para sempre. 60 artigos sobre cinemacomenta o gênero que foi o preferido do público na era de ouro de Hollywood.

“O mesmo se aplicava às canções que, de ‘repente’, os atores começavam a cantar. Só que não era de repente. Os musicais, e não apenas os da MGM, obedeciam a toda uma engenharia em que o roteiro era escrito em função das canções e das sequências de dança. O diálogo anterior a cada número era uma preparação para que a letra da canção se encaixasse com lógica e, como se dizia em Hollywood, fizesse a ação ‘avançar’ (donde qualquer canção ou dança que ‘atrasasse’ essa ação era impiedosamente cortada). Havia uma sabedoria no roteiro ao intercalar canções e danças românticas ou mais swingadas, com o astro em solo ou com a parceira ou em grupo. Nada era deixado ao acaso.”

O autor escreve sobre o tempo em que grandes estúdios de cinema investiam fortunas em musicais. Sobre artistas que fizeram história no gênero. Vincente Minnelli, Stanley Donen, George Sidney, Esther Williams, Robert Wise, Gene Kelly, Fred Astaire, Gingers Rogers, Cyd Charisse, Judy Garland, Frank Sinatra, Elvis Presley, Bing Crosby. Diretores, atores, músicos que os jovens ainda não devem ter assistido com o deslumbramento inevitável. Ruy Castro espinafra a atual crítica cinematográfica.

“E por que, num musical, todo mundo dança ou canta ‘tão bem’? De novo envergonhado por ser obrigado a declarar o óbvio, repito: porque se trata de um filme musical. Nos filmes de ação, todo mundo em cena é mestre em tiro, caratê ou explosivos. Nos antigos westerns, todo mundo sabia andar a cavalo. Nos filmes de Spike Lee, todo mundo sabe dizer fuck e motherfucker. Cada gênero com a sua especialidade, qual é o problema? E, se esse ou aquele crítico não gosta de musicais e prefere os filmes de perseguições em velocidade, por que não se especializa neles, já que a crítica, com exceções, se tornou uma questão de gosto?”

O ataque de Ruy Castro chega ao público jovem.

“Aos ouvidos de muitos espectadores jovens, realmente parece estranho que um homem ou uma mulher se exprima cantando. Pelo tipo de discos que eles devem escutar, é compreensível. Pode-se imaginar alguém dizendo alguma coisa ao som de funk, rap, dance, house, techno ou qualquer outra pancadaria em voga?”

Acredito que um jovem com mínimo de sensibilidade vai ter a sensação de poder sair cantando e dançando em noite de chuva depois de assistir à famosa sequência de Gene Kelly em Cantando na Chuva (1952)Se o jovem estiver apaixonando, vai sair cantando e dançando de verdade pela rua, depois de beijar a namorada na porta de casa.

Referência: Um filme é para sempre. 60 artigos sobre cinema. Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Realismo e poesia no cinema italiano

As temáticas do neo-realismo italiano têm vertentes. A trilogia da guerra de Roberto Rossellini aproxima-se do documentário, mostrando a realidade do conflito,  já que o diretor utilizou cenas reais captadas durante a segunda guerra mundial: Roma, cidade aberta (1945), Paisà (1946) e Alemanha ano zero (1947). Outros diretores enveredaram pelo drama social. Ladrões de bicicleta (1948) e Umberto D (1952), de Vittorio De Sica são os exemplos mais concretos. Já Luchino Visconti, que deu origem a este movimento com Obsessão (1942), assumiu o melodrama em seus filmes da fase neo-realista.

Luchino Visconti – um diretor de outro mundo, de Claudio M. Valentinetti, tem uma estrutura interessante: cada capítulo analisa uma fase do diretor, envolvendo suas incursões pelo teatro, ópera e cinema. E termina sempre com depoimentos de Visconti. Em alguns trechos, Visconti fala sobre o neo-realismo:

“O neo-realismo, como experiência e como poética, vale ainda hoje. O importante é se pôr naquela mesma atitude em que nos púnhamos então, mas com relação, repito, aos casos e aos problemas habituais. Volta-se sempre aqui a falar de problemas. Parece uma banalidade, mas não o é, porque falar de problemas ainda apavora muitas pessoas. De qualquer maneira, essa é a única inspiração do neo-realismo. Na realidade eu falo mais de realismo do que de neo-realismo. Nós precisamos encarar com uma atitude moral os acontecimentos, a vida: com uma atitude, afinal, que nos permita ver com olhar límpido, crítico, a sociedade como ela é hoje, e contar fatos que dessa sociedade fazem parte. Neo-realismo foi uma palavra inventada naquele momento, porque saíamos daquele cinema que sabemos, e precisávamos de novidades. Mas enfrentamos o tema que nos era permitido enfrentar daquele ângulo visual que foi sempre típico de um artista realista. Nosso realismo foi principalmente uma reação ao naturalismo, ao ‘verismo’, que nos chegava da França, e que tínhamos parcialmente aceito. Agora nós, através de experiências humanas e experiências sociais, como a guerra, a Resistência, de um lado nos soltamos daquelas escórias, do outro nos encontramos quase involuntariamente olhando os fatos com aquela atitude moral que dizia, que nos permitiu fotografá-los com verdade absoluta. E verdade não quer dizer ‘verismo’.”

As lembranças do diretor das filmagens de A terra treme (La terra trema, Itália, 1948) ajudam a entender a poética deste cinema, mesmo trabalhando com conceitos próximos da realidade. Revelam também um pouco da beleza do cinema de Luchino Visconti, certamente um dos maiores da sétima arte.

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Telas enfumaçadas

Minha mãe tinha uma história. Conheceu meu pai em uma noite de chuva. Ele estava debaixo da marquise, de chapéu, sobretudo e cigarro nos lábios. “Parecia um galã de cinema”, comenta a mãe. Ela se apaixonou por meu pai e começou a fumar.

Humphrey Bogart é talvez o ator mais associado ao cigarro na história do cinema. Bogart ficou famoso interpretando gangstêres, bandidos machões e românticos que nunca deixavam de lado o revólver e o cigarro.  Sua primeira cena em Casablanca (1943) é famosa: plano fechado na mão assinando uma espécie de promissória do Rick’s Café Américain, corta para a mão batendo o cigarro no cinzeiro, câmera acompanha a mão subindo com o cigarro até os lábios, close no rosto de Bogart aspirando e soltando a longa baforada. O ator difundiu até um hábito de acender cigarros no filme O Falcão Maltês (1941). Sobre a sua caracterização do detetive Sam Spade, o escritor Ruy Castro comenta:

“Deu a Spade tiques que ele não tinha, como o de passar a unha do polegar sobre a cicatriz do lábio superior ou de puxar o lóbulo da orelha direita, para a plateia entender que ele estava pensando – tiques de Humphrey Bogart. Deu a Spade seu jeito de andar (meio inclinado para o lado, com a mão esquerda no bolso e o braço direito em L, aderente ao corpo), de acender o cigarro (com as duas mãos em concha, protegendo a chama do fósforo)…”.

Do lado feminino, o ícone do cigarro é Rita Hayworth em Gilda (1946). Sua imagem de vestido longo preto e cigarro nas mãos, enfumaçada, correu o mundo e fez muita gente suspirar.

“De 1946 para cá, todas as vezes em que Gilda foi exibido em cinema ou TV, legiões de mulheres, ao fim do filme, juraram não descansar enquanto não se parecessem com Gilda. (…) E não se tratava apenas de imitar o seu jeito quase imoral de jogar o cabelo, de transformar inocentes saboneteiras numa tentação erótica ou de fumar como se cada lenta baforada contivesse um secreto significado.” – Ruy Castro.

Não é difícil imaginar a quantidade de dinheiro despendida pela indústria do tabaco para patrocinar personagens tão sedutores no cinema. Milhões de jovens no mundo inteiro deixavam-se levar por esse fascínio e acabavam com um cigarro nas mãos.

Meu pai era cinéfilo e começou a fumar ainda adolescente. Uma das imagens que guardo da minha infância é do pai sentado no sofá da sala diante da TV, soltando calmas baforadas. Uma noite, aos quarenta e poucos anos, tirou o toco de cigarro dos lábios, olhou fixamente para o pedaço de tabaco e disse: “É o último cigarro da minha vida”. Nunca mais colocou um cigarro na boca. Outro vício, o cinema, conservou a vida inteira.

Referências:

Saudades do século 20. Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 1994

Um filme é para sempre. 60 artigos sobre cinema. Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

A cinemateca de Henri Langlois

O conceito do cineclube foi criado e mantido por cinéfilos garimpando nestes subterrâneos clássicos, raridades, cults, filmes perdidos para depois conversar sobre cinema em bares e cafés. Deste hábito, nasceram gerações de grandes diretores, como os neo realistas italianos, os cinema-novistas brasileiros e os franceses da nouvelle-vague.

Esta reflexão me remete ao ótimo livro de François Truffaut, O prazer dos olhos.  Um capítulo é dedicado a Henri Langlois, fundador da Cinemateca Francesa e inspirador dos jovens críticos da Cahiers Du Cinéma e posteriores diretores consagrados da nouvelle-vague. Em 1968, Langlois é demitido da Cinemateca pelo General De Gaulle. Truffaut considera este fato um prenúncio do Maio de 68.

“Foi preciso que o governo de De Gaulle se voltasse contra Henri Langlois e tentasse tirá-lo da Cinemateca por ele criada para que se erguesse o vento da desobediência e para que as ruas de Paris fossem tomadas pelos protestos. Com o recuo do tempo, parece claro que as manifestações em favor de Langlois foram para os acontecimentos de Maio de 68 assim como o trailer é para o filme em cartaz: um anúncio da programação seguinte.”

Segundo Truffaut, “os filhos da Cinemateca” foram os primeiros a sair às ruas em protesto. A seguir, as tropas foram “engrossadas por rostos desconhecidos, os dos estudantes maoístas ou anarquistas, alguns dos quais iam ficar famosos.”

Hoje parece utopia imaginar a criação de um “Comitê de Defesa da Cinemateca”, formado por centenas de jovens cinéfilos que protestam nas ruas por “devoção a uma causa”: o cinema. A absurda oferta de filmes em vários formatos, do cinema à internet, praticamente inviabilizou a manutenção destes centros, assim como jogou pás de terra nas reuniões em escolas para assistir e discutir cinema. Na universidade, é comum ouvir de alunos quando convidados à uma sessão: “Professor, assisto ao filme em casa.”

Entre filmes que vi em sessões de cineclube, me lembro com carinho de alguns curtas de Charlie Chaplin, cópias em 16mm do professor de cinema da faculdade onde eu estudava, nos anos 80. Não sei o destino do professor, mas os filmes de Chaplin estão nas nuvens virtuais, lugar onde, com certeza, você não vai encontrar a paixão, o entusiasmo, as ideias arrebatadoras daquele velho professor após uma sessão de Carlitos.

Referência: O prazer dos olhos. François Truffaut. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005

Os roteiristas de Cidadão Kane

Em 1971, a crítica de cinema Pauline Kael escreveu ensaio sobre a concepção do roteiro do filme Cidadão Kane (Citizen Kane, EUA, 1941), acirrando uma polêmica: a verdadeira autoria do roteiro do filme. A ficha técnica credita o roteiro a Herman J. Mankiewicz e Orson Welles, nessa ordem. A direção, todos sabem, é de Orson Welles.

Pauline Kael defende que o argumento e o roteiro são de autoria de Herman J. Mankiewicz. Orson Welles teria apenas sugerido, por telefone ou carta, pequenas mudanças. “Orson Welles não estava por perto quando Cidadão Kane foi escrito, no início de 1940”.

A secretária de Mankiewicz que acompanhou o trabalho do autor do “primeiro ao último parágrafo… diz que Welles não escreveu (nem ditou) uma linha do roteiro de Cidadão Kane”. Era comum, nessa época, produtores e diretores assinarem argumentos e roteiros, juntamente com o escritor do filme. Isso se devia às constantes alterações que sugeriam, à liberdade que o diretor sempre teve de improvisar durante as filmagens e à prática do produtor de determinar cortes ou refilmagens de sequências inteiras. Acabavam se sentindo também donos da ideia.

Mankiewicz tentou impedir que Orson Welles fosse creditado como roteirista do filme. Acionou a justiça, mas o máximo que conseguiu foi que seu nome aparecesse primeiro nos créditos. A relação piorou na noite de entrega do Oscar. O filme foi indicado em 8 categorias, incluindo diretor e ator, mas conquistou apenas o prêmio de roteiro. Segundo a análise de Pauline Kael, Welles ganhou um prêmio pelo roteiro que não escrevera.

“Os membros do Mercury não ficaram surpresos com o fato de Welles assumir crédito pelo roteiro; tinham experiência com essa fraqueza dele. Bem no início de sua vida como prodígio, ele parece ter caído na armadilha que já colheu muitos homens menores – acreditar em sua própria publicidade, acreditar que era mesmo o criador completo, produtor-diretor-escritor-ator. Como podia fazer todas essas coisas, imaginava que as fazia”. – Pauline Kael.

Orson Welles ficou furioso com Pauline Kael. Escreveu uma longa carta, publicada em jornais e revistas, defendendo sua participação no roteiro do clássico.

Em 1971, ano de publicação do ensaio, Pauline Kael estava consagrada como uma das maiores críticas. Foi uma boa briga, pois Orson Welles também já gravara seu nome na história do cinema.

É impossível separar a concepção e estrutura narrativa de Cidadão Kane, definidas no roteiro, com as revoluções criativas e tecnológicas da direção e montagem. O filme é uma conjunção de talentos, incluindo a música, os efeitos sonoros, a fotografia revolucionária de Gregg Toland.

Quase ao final de seu ensaio, Pauline Kael disserta sobre o trabalho do diretor de cinema.

“O diretor deve estar no comando não porque seja a única inteligência criativa, mas porque só assim pode liberar e utilizar os talentos de seus colaboradores, que definham (como eles próprios) nas produções do tipo fabril. A melhor interpretação a dar quando um diretor diz que um filme é totalmente seu não é que tenha feito tudo sozinho, mas que não sofreu interferências, que fez as opções e decisões últimas, que a coisa toda não é uma concessão infeliz pela qual ninguém é responsável; não que ele foi o único criador, mas quase o contrário – que teve liberdade de usar as melhores idéias apresentadas.”

Referência: Criando Kane e outros ensaios. Pauline Kael. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.

O curioso caso de Benjamin Button

O curioso caso de Benjamin Button no título é destas estratégias de marketing envolvendo cinema e literatura. O livro foi lançado originalmente em 1920, como Seis contos da era do jazz e outras histórias. Mais apropriado à beleza da literatura de F. Scott Fitzgerald. 

Impossível escolher uma ou outra história como mais importante, por isso Benjamin Button na titulação soa como oportunismo de marketing. Além do mais, o filme conserva apenas a ideia do conto, um bebê que nasce velho e rejuvenesce ano a ano. No livro, a essência da história é o relacionamento entre pai e filho, entre gerações que não se aceitam à medida que o tempo corrompe os sentimentos mais ternos. Benjamin é rejeitado pelo pai, renega a esposa que envelhece enquanto ele fica cada vez mais viril e bonito, é abandonado depois pelo próprio filho.

“Para aumentar ainda mais o abismo existente entre ambos, Benjamin verificou que, à medida que o novo século seguia seu curso, sua sede de divertimentos se tornava cada vez mais forte. Não havia festa de espécie alguma em Baltimore sem que ele comparecesse, dançando com as mais belas dentre as mulheres jovens casadas, conversando com as mais populares dentre as debutantes, a achar encantadora sua companhia, enquanto a esposa, matrona de mau agouro, permanecia sentada entre as damas de companhia, ora a demonstrar altiva desaprovação, ora a segui-lo com os olhos severos, perplexos e recriminadores.”

Na visão didática de Linda Seger:

“Livros e filmes constituem formas diferentes de expressão. Um livro utiliza palavras para contar uma história, descrever personagens e construir idéias. O filme usa para isso imagem e ação. Portanto, são duas mídias essencialmente diferentes, que em geral oferecem resistência uma a outra tanto quanto cooperam entre si.”

O filme de David Fincher utiliza das desculpas tradicionais e ingênuas para transformar a narrativa de Scott Fitzgerald em uma história de fácil apelo para o grande público. Sai o complexo retrato da natureza humana enquanto envelhece, entra em cena uma impensada história de amor entre Benjamin (Brad Pitt) e Caroline (Julia Ormond). No conto, o pai de Benjamin convive com o filho, vendo-o rejuvenescer ano a ano. No filme, Benjamim é abandonado na rua e adotado por uma família amorosa e compreensiva, cheia de carinhos para a estranha criatura.

“Ler um livro e assistir a um filme são experiências bem diferentes. E é exatamente esta diferença que causa dificuldades para a transformação do livro em filme.” – Linda Seger.

Todo este didatismo insinua a impossibilidade de comparações. Bobagem. O conto é infinitamente superior ao filme, assim como a literatura de F. Scott Fitzgerald está anos-luz à frente do cinema de David Fincher.

REFERÊNCIA

A arte da adaptação. Linda Seger. Como transformar fatos e ficção em filme. São Paulo: Bossa Nova, 2007

Evolução do filme publicitário

O Clube de Criação de São Paulo foi fundado com um objetivo, segundo seus sócios-fundadores: criar identidade para a propaganda brasileira. Até a década de 70, a propaganda brasileira era basicamente um repertório de referências. Primeiro foram os poetas, escritores, jornalistas, músicos, gente das letras, que levaram para a criação publicitária referências artísticas. Eram famosos os comerciais baseados em músicas, versos, estrofes, recheados de textos pretensamente literários. Até que surgiu a geração de publicitários influenciados pela propaganda americana e inglesa, os grandes mercados criativos mundiais. Através do intercâmbio, eles buscavam referências em anuários, filmes publicitários, no cinema. Mas faltava a tão propalada identidade brasileira na propaganda que, a bem da verdade, na década de 70 não fazia falta em nenhum setor da vida cultural brasileira. Eram os tempos do regime militar, da censura, tempos em que ninguém tinha o direito de se expressar sem pedir licença. A propaganda, inclusive.

Foi por essa busca que os publicitários da geração de Washington Olivetto lutaram ao fundar o Clube de Criação de São Paulo. A ideia era reunir, em anuário, as propagandas mais criativas da propaganda brasileira. Criatividade aí contava originalidade, ou seja, nada de referências, de cópias, era hora da criatividade brasileira na propaganda tomar seu lugar de direito.

Nos primeiros anos do anuário, uma série de tipos bem brasileiros começou a aparecer nos intervalos dos programas de televisão. Gente que falava muito e de um jeito bem coloquial. O caipira sentado na porta de sua casa ou em uma cerca de fazenda, a madame na cozinha de sua casa, um casal de velhinhos na hora de dormir, um casal de classe média discutindo a separação, funcionários em reuniões de trabalho. O brasileiro típico começa a se ver retratado em comerciais de TV, na maioria das vezes explorando o lado lúdico, bem-humorado ou bastante estereotipado. O estilo dos filmes não mudava muito: na maioria das produções os atores interpretavam em frente às câmeras. A prática economizava em cenários e locações para investir em bons atores, bons textos, bons diálogos. Características que vão se manter na propaganda brasileira permanentemente.

Essa tendência encontrou sua forma definitiva em um personagem antológico, criado pela dupla Washington Olivetto e Francesc Petiti, da DPZ: o garoto Bombril, interpretado por Carlos Moreno. Foram centenas de comerciais sempre na mesma linha criativa. O ator interpretando em cenário limpo, com alguns poucos produtos à frente, abordando temas do momento em paródias ou citações. Até o final da década de 80, a propaganda brasileira de TV segue nessa linha, sem muitas variações.

Em 1989, o mesmo Washington Olivetto é responsável por comercial marcante, quase um divisor, em estilo criativo: a campanha Primeiro Sutiã da Valisère. Filme totalmente imagético, sem textos ou diálogos, o conceito traduzido em imagens, gestos, expressões, música, encontros. A linguagem visual do cinema na propaganda de TV brasileira. É claro que outros filmes já haviam sinalizado para essa tendência durante a década de 80., mas o filme da Valisère marca pela ideia, pela originalidade associada a uma produção, direção e elenco impecáveis.

Do mesmo período, destaca-se o filme Hitler, de Nizan Guanaes, criado para a Folha de São Paulo. É o exemplo incontestável do uso da linguagem publicitária: imagem e texto em harmonia, revelando conceitos que dependem da participação plena do espectador inteligente e perspicaz.

Primeiro Sutiã e Hitler, dois dos filmes mais premiados da propaganda brasileira, que entra nos anos 90 buscando nova identidade. A tendência permanece no uso de tipos e linguajar bem brasileiro. No Brasil se fala muito, se expressa muito, se gesticula muito. Tudo é oral. Dificilmente os redatores e diretores de arte abandonam essa linha. O processo de identificação com o espectador é muito mais simples quando se fala a linguagem que ele entende.

Ao mesmo tempo, os filmes visuais vão ganhando espaço. É tempo de mostrar a beleza da natureza, das pessoas, do clima, tudo elevado em produções bem cuidadas. A referência é o estilo Rede Globo de fazer TV: imagens limpas, esteticamente sedutoras, personagens bonitos, quase eróticos.

A partir dessa tendência, a propaganda brasileira de TV passa a concorrer em maior escala em festivais internacionais de propaganda. Com o filme Formiguinhas, da Philco, criado por Fábio Fernandes, o Brasil disputa pela primeira vez o Grand Prix de Cannes, prêmio mais concorrido do mais badalado festival de criação publicitária do mundo.

Discute-se agora o futuro da propaganda de televisão, não só no Brasil, mas no mundo. A TV Digital, YouTube, Internet, dispositivos móveis, são os caminhos. Mas como diria o personagem Pathol, no final do filme Irma La Douce, de Billy Wilder, isso é uma outra história.