Autor: Robertson B. Mayrink

  • Monsieur e Madame Adelman

    É o funeral do premiado escritor Victor Adelman. Os convidados lamentam e levantam suspeitas sobre a causa da morte. A viúva Sarah Adelman convida o biógrafo do escritor para uma conversa na biblioteca. Com frieza e sinceridade, Sarah rememora toda a vida em comum do casal, quando se conheceram, em 1971, até a morte do escritor.

    Os flashbacks são reconstituídos em capítulos, com títulos e data, como em uma narrativa literária. A história mescla romantismo, adultério, tragédias pessoais, conflitos entre o casal e com os filhos, tudo com bom humor. As situações e diálogos compõem um filme irresistível que se completa com a perfeita parceria em cena do casal (também na vida real).

    A estreia na direção do roteirista e diretor Nicolas Bedos é promissora e a associação com a literatura revela momentos surpreendentes (o final do filme), quando ficção e realidade podem ser uma coisa só. As imagens que nos encantam no cinema, as palavras que nos seduzem na literatura, escondem mistérios que não precisam ser revelados, mentiras que não precisam de confirmação. Como a boa literatura, como o bom cinema.

    Monsieur e Madame Adelman (MR & MME Adelman, Bélgica/França, 2017), de Nicolas Bedos. Com Nicolas Bedos (Victor Adelman), Doria Tillier (Sarah Adelman).

  • Comeback

    A periferia de Goiânia é o ambiente para Comeback, filme que flerta com o thriller de ação e com o faroeste, carregando na composição psicológica do protagonista. Amador, um matador aposentado, recebe a incumbência de treinar o neto de seu amigo Davi. A relação entre os dois passa pelos relatos de Amador, cujas façanhas estão registradas em um álbum de recortes de jornais, incluindo a famosa chacina em um bar nas imediações. Ao mesmo tempo, dois cineastas fazem pesquisa para um filme e colocam em dúvida as histórias relatadas pelo matador que, segundo um deles, “não tem cara de pistoleiro.”

    A melancolia está expressa nos diálogos entre Amador e seus antigos colegas de profissão, principalmente Davi, que espera a morte em um leito de hospital. Da mesma forma, o caminhar de Amador pelas ruelas à noite (interpretação primorosa de Nelson Xavier em seu último papel), percorrendo bares, tentando sobreviver à custa de instalação de máquinas caça-níqueis, revelam um homem amargurado, bem ao estilo dos pistoleiros decadentes retratados por John Ford e Howard Hawks nos anos 60. O final, que poderia ser a volta do título, é a constatação de que o passado está irremediavelmente impresso nas memórias do matador.

    Comeback (Brasil, 2016), de Érico Rassi. Com Nelson Xavier (Amador), Marcos de Andrade (Neto do Davi), Everaldo Pontes (Davi), Gê Martú (Tio), Sergio Sartorio (Cineasta 1), Eucir de Souza (Cineasta 2).

  • Ana e Vitória

    A dupla Anavitória integra um ritmo musical contemporâneo conhecido como “pop rural”. As duas jovens já conquistaram o Grammy Latino com apenas cinco anos de carreira. O filme Ana e Vitória parte de ideia do produtor das intérpretes para divulgação, se transformando em uma espécie de storytelling em longa-metragem. 

    Ana e Vitória interpretam elas mesmas no momento em que se conheceram. É mistura de documentário e ficção e grande parte da narrativa se passa em ambientes fechados: bares, casas de espetáculos, hotéis. Pontos fortes da narrativa são as músicas e a coragem em retratar as escolhas amorosas das jovens e seus parceiros/parceiras. Amizade, amor, sexo, tudo se confunde de maneira natural à medida que Ana e Vitória descobrem sua música e a si mesmas. 

    Ana e Vitória (Brasil, 2018), de Matheus Souza. Com Ana Caetano, Vitória Falcão, Thati Lopes, Érika Mader, Bruce Gomlevsky, Clarissa Muller.

  • Cena de cinema

    “Ele é igualzinho aquele ator de cinema.” A irmã deu um pulo da cama assim que Alice entrou aos gritos pela janela.” “Quem?”  “Aquele ator de cinema… do filme que assistimos na semana passada. Vem, vem ver.”

    As irmãs dormiam no quarto voltado para a rua, bastava abrir a janela e o movimento estava bem ali. Vez por outra elas se assustavam quando, deitadas na cama, a modorra quente da tarde, abas da janela de madeira abertas, um amigo assobiava, outra amiga pulava de repente no meio do quarto às risadas.

    Era assim a vida das meninas: debruçadas na janela, esperando um rosto novo, diferente dos rapazes que passavam três, quatro vezes por dia em frente a casa. No sábado à noite, davam voltas na pracinha da igreja, moças em sentido contrário aos rapazes, olhares se cruzando até enjoarem um do outro.

    Alice, mal completados 16 anos, era dois anos mais velha do que a irmã. Há algum tempo elas ludibriavam o horário das nove da noite, estipulado pelo pai, de entrar em casa e se recolherem. Pouco depois das dez, quando a noite encobria com o silêncio aquela casa austera, as meninas destrancavam a taramela da janela e pulavam de volta para a praça.

    Naquele sábado chovia como se o céu se desprendesse. Quando Alice entrou esbaforida, encharcando o chão do quarto, repetindo “igualzinho aquele ator de cinema”, a irmã pensou em chamar a mãe para detectar febre na filha. Dedos benignos de mãe, bastava um toque na testa e, pouco depois, compressas de água refrescavam.

    Alice juntou a irmã pelas mãos e, quase sem perceber, as duas estavam no passeio da rua, a chuva caindo pesada nos cabelos, nos ombros. “Corre, senão ele vai embora. Olha lá, olha lá…”

    Do outro lado da rua, debaixo da pequena marquise de uma das entradas da igreja, um rapaz se escondia da chuva. Apesar do cedo da hora para sábado à noite, a praça estava deserta. A irmã forçou a vista: o estranho vestia um sobretudo cinza, caindo até abaixo dos joelhos. Uma das mãos estava no bolso, a outra, pendente ao longo do corpo, deixava ver brasa entre os dedos. Ela acompanhou o estranho erguer o cigarro até os lábios. A luz fraca do poste impedia que as meninas vissem os traços do rosto. No breve instante em que o cigarro tocou os lábios e a brasa refletiu com um pouco mais de intensidade, o clarão de um relâmpago iluminou a noite, ajudando as meninas a vislumbrarem um rosto moço, moreno, o chapéu escuro encobrindo a cabeça.

    “É ou não é igualzinho… o moço que falou tanto coisa bonita no aeroporto.”

    Quando viu as irmãs, o estranho tirou lentamente o cigarro dos lábios, soltou uma longa baforada e arredou pé de debaixo da marquise, sentindo a água da chuva bater com força na aba do chapéu. Deixou o cigarro cair no chão e, agora com as duas mãos nos bolsos, atravessou lentamente a rua, provocando sobressaltos nos seios da adolescente Alice, como naquelas noites em frente à tela grande do cinema.

  • Histórias que nosso cinema (não) contava

    Um dos momentos de maior bilheteria do cinema brasileiro é a pornochanchada, gênero que marcou os anos 70 e início da década de 80. Fernanda Pessoa fez intensa pesquisa, assistindo e coletando material de filmes que iam além da ousadia sexual travestida de comédia.

    A montagem do documentário é um primor. Sem narração ou depoimentos, sequências dos filmes se sucedem, separadas por temas: tortura perpetrada pela ditadura, consumismo nestes anos do milagre econômico, exploração do corpo feminino, violência contra a mulher, machismo, preconceito racial, homossexualismo, corrupção política. Muitos filmes da pornochanchada foram censurados pelo regime militar. Outros conseguiram inserir em meio a narrativas despretensiosas questões determinantes para a formação da sociedade brasileira. Fernanda Pessoa resgata a pornochanchada como gênero e como resistência política.  

    Histórias que nosso cinema (não) contava (Brasil, 2017), de Fernanda Pessoa. 

  • Yonlu

    YonluFerrugem e Torquato Neto – Todas as horas do fim compõem filmes do cinema contemporâneo brasileiro que colocam tema tabu em discussão: o suicídio entre jovens. Enquanto Ferrugem é puramente ficcional, Torquato Neto documenta a carreira do poeta/letrista que participou da tropicália. Yonlu parte de um caso real: em 2006, Vinícius Gageiro Marques, 16 anos, se matou em sua casa, em Porto Alegre. O jovem fazia parte de grupos virtuais de jovens que sofriam com a depressão. Ele filmou e transmitiu on-line seu ato final.

    O diretor Hique Montanari faz escolhas estéticas ousadas para recriar os problemas enfrentados pelo jovem. Vinícius era músico, poeta, artista promissor que depois da morte teve várias músicas gravadas. A narrativa usa as músicas para compor o perfil psicológico de Yonlu, provoca interações da animação e do grafismo em momentos de devaneio e coloca atores mascarados em cena com Yonlu para recriar fisicamente o mundo virtual do qual fazem parte os personagens. Um psicólogo, em entrevista a jornalista, explica didaticamente os problemas enfrentados por Vinícius e jovens no mesmo estado. O filme toca em tema polêmico com ousadia e sensibilidade.  

    Yonlu (Brasil, 2017), de Hique Montanari. Com Thalles Cabral, Nelson Diniz, Lorena Lorenzo, Leonardo Machado, Liane Venturella. 

  • A morte de Stalin

    A trama apresenta sucessão de situações cômicas, bem ao estilo comédia de erros, envolvendo os fatos reais que antecederam e sucederam à morte do ditador russo. Personagens reais se envolvem em tramas ficcionais, principalmente quando entra em cena uma pianista que seria a responsável pelo envenenamento de Stalin. O filme é baseado em revista em quadrinhos francesa e foi proibido pouco antes da estreia na Rússia (as associações com o atual momento soviético, comandado pelo longevo poder de Vladimir Putin são visíveis). Steve Buscemi, no papel de Nikita Kruschev, é o grande nome da película, comandando as intrigas para assumir o comando do partido comunista após a morte de Stalin. 

    A morte de Stalin (The death of Stalin, Inglaterra, 2018), de Armando Iannucci. Com Steve Buscemi, Jeffrey Tambor, Jason Isaacs, Svetlana Stalina.  

  • O valor de um homem

    O valor de um homem é um golpe preciso no sistema capitalista que condena cidadãos ao desemprego e à busca desesperada por condições de subsistência. Thierry tem 50 anos e está desempregado há cerca de dois anos. Passa os dias em entrevistas, ouvindo solenemente que não é adequado para os cargos que pretende. Em casa, junto com a mulher, cuida com carinho do filho deficiente. Até que consegue emprego como segurança de uma loja de departamentos.

    Desse ponto em diante, Thierry se confronta com seus princípios, pois tem que vigiar e delatar pessoas comuns que furtam objetos dentro da loja e seus próprios colegas de trabalho que burlam normas para conseguir um dinheiro a mais no final do mês. Os encontros entre os seguranças e os acusados na sala de interrogatório da empresa são exemplares da crueldade fria deste sistema que coloca cidadãos como bandidos, humilhados diante da câmera.

    O ator Vincent Lindon foi premiado no Festival de Cannes e com o César, Oscar do cinema francês. A linguagem despojada é outro grande trunfo, quase um documentário (a maioria dos atores são amadores). O filme é construído com uma câmera fria, planos fechados no tormento de Thierry e dos acusados,  cortes secos em sequência evidenciando um cinema feito de olhar direto e sofrido.

    O valor de um homem (La loi du marché, França, 2015), de Stéphane Brizé. Com Vincent Lindon, Karine de Mirbeck, Matthieu Schaller.

  • Corações famintos

    A exemplo de Capitão Fantástico (2016), Corações famintos apresenta discussão sobre o direito dos pais criarem seus filhos de forma alternativa. No entanto, no filme do italiano Saverio Costanzo, a reflexão ganhar ar de suspense.

    Mina e Jude se conhecem no banheiro de um bar, quando ficam trancados juntos. Mina entra inadvertidamente no banheiro masculino logo após uma crise de diarreia de Jude. Ela quase não suporta o cheiro fétido, metáfora do que está por vir: a podridão que exala dos humanos após se empanturrarem com todos os tipos de alimentos.

    Os dois se apaixonam, casam e têm um filho. A partir daí, o relacionamento entra em uma espiral depressiva, movida pela decisão de Mina em criar o filho com alimentos naturais, sem carne, e sem contato com o mundo exterior. A mãe está obcecada por uma visão sobre o filho índigo e por um enigmático sonho de um caçador abatendo um cervo (Corações famintos é adaptação do romance Il bambino indaco, de Marco Franzoso).

    Os atores Adam Driver e Alba Rohrwacher ganharam os prêmios de melhor atuação no Festival de Veneza. Eles dominam o filme em um embate psicológico, por vezes físico. Seus personagens se demonstram despreparados para encarar o mundo a partir do momento em que uma vida completamente dependente se institui entre eles. Com final extremo, Corações famintos faz refletir sobre nossa posição diante dos filhos.

    Corações famintos (Hungry hearts, Itália, 2014), de Saverio Costanzo. Com Adam Driver (Jude), Alba Rohrwacher (Mina), Roberta Maxwell (Anne).

  • Minha vida de abobrinha

    A animação, Inspirada no romance de Gilles Paris “Autobiographie D’Une Courgette”, usa a fascinante técnica do stop-motion  de massinhas para contar uma história adulta ambientada no universo infantil. O garoto Ícaro (Abobrinha) sofre com os castigos impostos pela mãe alcoólatra. Um dia, escondido no sótão da casa para fugir de uma possível sova, provoca um acidente que resulta na morte da mãe.

    Abobrinha é encaminhado para um orfanato onde passa a conviver com outras crianças, todas abandonadas pelas famílias por diversos motivos: uso de drogas por parte dos pais, deportação de uma mãe africana e até um pai que mata a mãe de uma das internas e depois se mata.

    O mérito da animação é colocar isto de forma simples, tudo visto pelos olhos das crianças que desenvolvem uma união dentro do orfanato enquanto sofrem solitárias, cada uma à sua maneira. Minha vida de Abobrinha não apresenta as tradicionais viradas na trama, a curta história, cerca de uma hora de duração, é um retrato sensível destas crianças que, mesmo abandonadas, buscam o sentido alegre e infantil da vida.

    Minha vida de Abobrinha (Ma vie de Courgette, França/Suíça, 2016), de Claude Barras.

  • O insulto

    Um bairro da periferia do Líbano está passando por reformas, patrocinadas por um deputado. O libanês Tony, cristão ortodoxo, está molhando as plantas na sacada do seu apartamento. A água escorre pela calha e molha o mestre de obras Yasser, refugiado palestino. A equipe de Yasser tenta consertar a calha, mas Tony recusa de forma agressiva, pois sente-se ofendido por ter sido abordado em casa. Ele exige desculpas do palestino.

    O incidente banal, bate boca rotineiro, ganha dimensões impressionantes na trama do libanês Ziad Doueiri. A medida que a narrativa avança, o passado dos protagonistas aflora, primeiro na tentativa de reconciliação em frente à juíza, depois durante o julgamento midiático, colocando como opositores advogados também com assuntos pessoais a resolver.

    O cerne da questão coloca O insulto como dos grandes filmes (e roteiros) do cinema independente: a intolerância, o preconceito racial, a violência ameaçando explodir a cada palavra desferida. O trunfo do filme é colocar dois cidadãos que buscam apenas cuidar de suas casas, de suas famílias, de seu trabalho, como motivadores do conflito. Tudo poderia ser resolvido com uma conversa amigável, mas décadas de ódio racial impedem um simples aperto de mãos.

    O insulto (L’Insulte, Líbano, 2017), de Ziad Doueiri. Com Adel Karam (Toni), Kamel El Basha (Yasser), Camille Salameh (Wajdi Wehbe), Diamand Abou Abboud (Nadine Wehbe), Rita Hayek (Sherine Hanna).

  • Baronesa

    A interseção entre documentário e ficção é tendência do cinema brasileiro. A diretora Juliana Antunes exercita o estilo em Baronesa, projeto que começou como um documentário quando ainda estudava Cinema e Audiovisual e enveredou para relatos ficcionais envolvendo personagens da periferia de Belo Horizonte. 

    Andreia mora no bairro Juliana, mas está construindo uma casa no vizinho Baronesa (Juliana Antunes relata que a ideia do filme começou da observação do transporte público de Belo Horizonte, pois diversos bairros trazem nomes femininos). Leid, amiga de Andreia, cuida dos filhos enquanto espera o marido sair da cadeia. As filmagens aconteceram em locações, com moradoras do próprio bairro que improvisaram situações e diálogos. A câmera assume posição íntima das personagens, registrando imagens do cotidiano e diálogos coloquiais sobre criação dos filhos, sexo, questões sociais. Em determinada sequência, tiros invadem o som ambiente, equipe de filmagem e personagens correm para dentro da casa. Neste momento das filmagens aconteceu um tiroteio no bairro, conflito de duas gangues do tráfico rivais. Está no filme. É a força de Baronesa: o registro do cotidiano de mulheres da periferia, envolvidas pelos dramas e tragédias da realidade. 

    Baronesa (Brasil, 2017), de Juliana Antunes. Com Andreia Pereira de Sousa, Leid Ferreira, Felipe Rangel Soares. 

  • Mamma mia! Lá vamos nós de novo

    Deixe tudo de lado e se entregue mais uma vez ao Abba. Na sequência, foram incluídas 20 canções, entre elas WaterlooI have a dream, Dancing queen e Fernando. A história se passa agora em duas épocas. 

    Sophie (Amanda Seyfried) prepara a festa de inauguração do hotel na paradisíaca ilha grega escolhida como morada por Donna (Meryl Streep). Diversos convidados são esperados, entre eles seus três pais. Flashbacks contam a história de Donna, a partir de 1979, quando ela chega à ilha, revelando como ela conheceu Sam, Harry e Bill. Passado e presente, tudo é pretexto para a sucessão de canções do Abba. Tanto pretexto que Andy Garcia interpreta o misterioso Fernando, introspectivo gerente do hotel. A deixa para o melhor do filme, quando a avó de Sophie, nada mais nada menos do que Cher, chega à ilha. É spoiler, me desculpem, mas é Fernando. 

    Mamma mia! Lá vamos nós de novo (Mamma mia! Here we go again, EUA, 2018), de Ol Parker. Com Amanda Seyfried, Lilly James, Meryl Streep, Cher, Andry Garcia, Pierce Brosnan.

  • Arranha céu – Coragem sem limites

    O filme segue a estrutura clássica de superação. No início, o policial Will Sawyer não consegue impedir um atentado contra reféns. A consequência é a morte de inocentes e de alguns de seus colegas. Corta para dez anos depois, ele perdeu parte da perna no atentado, está casado com a médica que o atendeu, tem dois filhos. Will está fora da polícia, agora trabalha como consultor de segurança. Precisa aprovar o projeto de mega tecnológico prédio em Hong Kong. Terroristas invadem o prédio onde estão sua mulher e filhos.

    O melhor de Arranha céu – Coragem sem limite são as referências a Duro de matar (1988), filme que catapultou a carreira de Bruce Willis no cinema e a reconstituição da clássica sequência final de A dama de Shanghai (1948), de Orson Welles. De resto, é comum filme de ação com sequências espetaculares de efeitos visuais.  

    Arranha céu – Coragem sem limite (Skyscraper, EUA, 2018), de Rawson Marshall Thurber. Com Dwayne Johnson (Will Sawyer), Neve Campbell (Sarah Sawyer), Chin Han (Zhao Long Zhi), Roland Moller (Kores Botha).

  • Minha bela Jimena

    Quando chego em casa à noite, Jimena me espera no portão. Ela ouve o barulho do carro de longe e começa a latir. Abro o portão da garagem e a encontro dando voltas no jardim, feliz, saudosa de afagos, chorando mansamente de ansiedade, pedindo atenção na noite.

    Ela chegou onze anos atrás, da raça pastor-alemão, inquieta, andando pelos cantos da casa, reconhecendo o lugar, marcando espaço. Deitou-se, o focinho entre as patas, esperando o nome. Carlos Heitor Cony tinha uma setter chamada Mila, homenagem à rua onde o escritor Franz Kafka morou em Praga. Como minhas maiores viagens são através dos livros e filmes, minha homenagem foi para uma das lembranças visuais mais arrebatadoras da minha infância: Sophia Loren no filme El Cid (1961), de Anthony Mann.

    Quando a mãe permitia, eu ficava assistindo a filmes de madrugada. Ainda sem vídeos e DVDs, minha única opção era a famosa Sessão Coruja da Rede Globo. Eram noites de sono perdidas para conhecer alguns clássicos do cinema, exibidos sempre depois da meia-noite. Em uma dessas madrugadas da década de 70, conheci a história do lendário herói espanhol Rodrigo de Bivar (Charlton Heston), apelidado El Cid pelos muçulmanos.

    O filme El Cid é o típico representante do gênero épico que fez muito sucesso até a década de 60 no cinema americano. Fotografia em technicolor, cenas de batalhas grandiosas, astros hollywoodianos interpretando personagens mitológicos (o próprio Charlton Heston fizera, dois anos antes, Ben-Hur), uma bela história de amor como pano de fundo. Era a época dos grandes espetáculos, dos grandes filmes, do grande cinema.

    Época das grandes atrizes, daquelas que tomavam conta da tela e de quem estava fora dela. Basta o primeiro fotograma de Sophia Loren em El Cid para entender a beleza do filme. Ela é Jimena, uma nobre da corte espanhola, noiva de Rodrigo de Bivar, antes dele se transformar no herói que vai libertar a Espanha dos muçulmanos.

    No auge da fama, a italiana Sophia Loren carregava vários adjetivos: esplendorosa, sedutora, radiante, para muitos representava a exuberância devastadora da mulher latina (basta um close em seus seios e lábios para entender o que estou dizendo).

    Nunca mais esqueci Jimena e ficava ano a ano esperando as reprises de El Cid. Assisti a cada uma delas na TV, em vídeo, em DVD, sempre com o mesmo fascínio em cada cena de Sophia Loren. Revi o filme nestes dias, motivado por semanas cuidando de minha Jimena, devido a uma doença. Com todo o carinho que ela exige, necessita e merece.

  • O animal cordial

    Inácio é, aparentemente, o tranquilo dono de um restaurante em São Paulo. Uma noite, perto da hora de fechar, três homens invadem o estabelecimento em tentativa de assalto. O que se segue é das mais impressionantes incursões do cinema brasileiro pelo gênero slasher.

    A diretora estreante Gabriela Amaral Almeida reúne personagens dentro do restaurante que representam a tensão de classe, de gênero e outras facetas escondidas da população brasileira. A explosão gradual de Inácio (preste atenção na brilhante cena de Murilo Benício em frente ao espelho e na incrível cena de sexo no chão do restaurante) resulta em sangue para todos os lados. Ninguém é poupado. O animal cordial demonstra a força do cinema brasileiro nas mãos das diretoras.  

    O animal cordial (Brasil, 2017), de Gabriela Amaral Almeida. Com Murilo Benicio, Luciana Paes, Irandhir Santos, Camila Morgado, Ernani Moraes. 

  • A chinesa

    Jovens no apartamento discutem ideias políticas sobre a revolução socialista. O cenário é composto por livros espalhados em estantes e mesas, quadros de giz nas paredes simulando salas de aulas, frases revolucionárias escritas nas paredes. Cada personagem interpreta diante da câmera, relembrando fatos pessoais, declamando textos filosóficos, perdidos entre o passado e a necessidade de agir pela revolução. O lema é o marxismo-leninismo.  

    Em A chinesa, Godard faz um tratado sobre ideias. Seu estilo de colagem está em toda a película. Fotos famosas pontuam os diálogos: líderes revolucionários, filósofos, guerrilheiros, assim como imagens de quadrinhos e outras referências pop. A irreverência do diretor também se faz presente na proposta de filmagem: em alguns momentos, os atores assumem estar ensaiando textos teatrais, em outros, dialogam com a câmera – Godard abre o plano e mostra dispositivos e equipes de filmagem. O cinema é homenageado através de citações de filmes. Em um monólogo, o personagem de Jean-Pierre Léaud reflete sobre Os irmãos Lumière e Georges Mèlies, O texto contrapõe a ideia de que os Lumière eram apenas documentaristas, defendendo que as imagens de seus filmes eram como pinturas. 

    A chinesa (Le chinese, França, 1967), de Jean-Luc Godard. Com Jean-Pierre Léaud, Anne Wiazemsky, Juliet Berto, Michel Seminiako.

  • Quando as luzes das marquises se apagam

    O documentário começou como trabalho de conclusão do curso do diretor Renato Brandão quando estudava Cinema e Audiovisual na Escola de Comunicação e Artes da USP. As pesquisas abordaram o apogeu dos cinemas de rua em São Paulo, situados em torno das Avenidas Ipiranga e São João. As diversas salas na mesma região ficaram conhecidas como Cinelândia Paulista. 

    Depoimentos relembram os tempos áureos dos cines Broadway, Ópera, Regina, Saci, Avenida, Marrocos, Jussara, República, Ritz, entre outros. Participam do documentário personagens como Ignácio de Loyola Brandão, José Moreira, Inimá Santos, Paula Freire Santoro, Máximo Barro, Carlos Augusto Calil e o empreendedor do ramo de cinemas Francisco José Luccas Netto.  

    Como em outras metrópoles, as salas da Cinelândia Paulista deram lugar a cinemas eróticos, estacionamentos, igrejas, lojas de varejo. A resistência fica por conta do Marabá, única sala que permanece funcionando no circuito comercial. 

    Quando as luzes das marquises se apagam – A história da Cinelândia Paulista (Brasil, 2018), de Renato Brandão. 

  • Com amor, Simon

    O jovem Simon abre o filme apresentando sua família, sua vida normal de classe média e avisa: eu tenho um segredo. A narrativa segue o cotidiano de Simon em casa, no Colégio com os amigos e sua correspondência via e-mail com Blue, que também esconde a homossexualidade. A virada acontece quando Martin, colega de escola, descobre a correspondência e chantageia Simon, ameaçando divulgar as cartas. 

    Com amor, Simon é singela e bela história de descoberta e revelação, com tocante sequência final no parque de diversões, metáfora da passagem da adolescência para a fase adulta. 

    Com amor, Simon (Love, Simon, EUA, 2018), de Greg Berlanti. Com Nick Robinson (Simon Spier), Josh Duhamel (Jack Spier), Jennifer Garner (Emily Spier), Katherine Langford (Leah Burke), Alexandra Shipp (Abby Suso), Logan Miller (Martins Addison), Jorge Lendeborg Jr. (Nick Eisner), Keiynan Lonsdale (Bram Greenfild), Talitha Bateman (Nora Spier). 

  • Lembranças de um verão

    Quando Charles Foster Kane soltou da mão a redoma de vidro e pronunciou a palavra “rosebud”, uma revolução se anunciou na história do cinema. As extravagâncias técnicas que o diretor Orson Welles e o diretor de fotografia Gregg Toland imprimiram em Cidadão Kane (Citizen Kane, EUA, 1941) assombraram o mundo cinematográfico. Em termos narrativos, camadas de flashbacks também inovaram na busca do jornalista pelo significado da palavra que Kane pronuncia antes de morrer. No entanto, a trama parte de recurso tão antigo quanto contar histórias: a volta à infância motivada por um objeto simbólico. 

    Corta para 2001. O fotógrafo Bobby Garfield está em seu estúdio, fotografando uma redoma de vidro. Toca a campainha, ele recebe encomenda pelo correio. Abre a caixa e se depara com uma surrada luva de beisebol. Junto, recorte de jornal informa sobre a morte de um herói militar. Pensamentos de Bobby anunciam: “O passado pode chegar derrubando a sua porta. E você nunca sabe para onde ele vai te levar. Você só pode esperar que seja um lugar para onde você queira ir.” Bobby pega a foto de uma menina, coloca na carteira e sai em busca de seu passado. 

    Segundo o roteirista Michel Chion, acessórios cenográficos podem ter papel revelador ou mesmo simbólico: “É o caso de objetos cuja posse é disputada e que representam o poder, a riqueza, o saber ou ainda a infelicidade, a lembrança, a infância (o trenó de Citizen Kane, que representa o objeto perdido).” Esses clichês narrativos são caros ao cinema clássico americano.  

    A viagem leva Bobby ao funeral do amigo de infância Sully, dono da luva. Durante a solenidade, outro recurso narrativo comum é usado: flashbacks revelam os meninos Bobby e Sully e a menina Carol brincando no bosque.  

    Lembranças de um verão é adaptação de texto de Stephen King, autor especialista no gênero literário que desperta emoções há tempos imemoriais. Um princípio de textos do autor é a volta à infância em um período determinado que demarca a passagem. Em toda boa narrativa de gênero como as do mestre Stephen King, o passado esconde mistérios. 

    Personagens centrais para a elucidação do mistério escondido em um verão da década de 50, quando Bobby acaba de completar 11 anos, entram em cena quando o flashback toma conta da narrativa. A mãe do garoto, o pai ausente e Ted Brautigan, inquilino que chega para morar no andar de cima da casa de Bobby. 

    Jacqueline Nacache indica que a forma mais segura de identificar o gênero consiste na análise do início do filme, quando elementos simbólicos e personagens são apresentados ao espectador. Não pretendo analisar passo a passo o filme. Concentro-me nos minutos iniciais para dizer do fascínio que sinto por narrativas que, de forma clássica, me permitem descobertas de mistérios envoltos aos personagens e me remetem a recantos insondáveis da memória. 

    Lembranças de um verão trabalha com temas fundamentais na formação de todos nós: atitudes lúdicas da infância, bullying, amizade, o primeiro beijo, pacto entre amigos, a incompreensão do universo dos pais, assédio, o fascínio por um adulto que pode determinar como vamos enxergar o mundo (no caso de Bobby, aprender com Teddy a olhar o futuro). A guerra fria também demarca a narrativa, “homens ordinários” perseguem Teddy e algo que ele tem para uso em fins políticos.. 

    O filme acontece com a simplicidade visual e técnica das narrativas clássicas, pontuada por frases de efeito e trilha sonora encantadora. Ao final do filme, fica da simplicidade o que todos nós buscamos por mais complexo que seja: “Aquele foi o último verão da minha infância.” 

    Lembranças de um verão (Hearts in Atlantis, EUA, 2001), de Scott Hicks. Com Anthony Hopkins (Ted Brautigan), Anton Yelchin (Bobby Garfield), Hope Davis (Liz Garfield), Mika Boorem (Carol Gerber), David Morse (Bobby Garfield adulto).  

    Referências:

    O roteiro de cinema. Michel Chion. São Paulo: Martins Fonte, 1989

    O cinema clássico de Hollywood. Jacqueline Nacache. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2005