Nu (Canadá, 2022), de Olivier Labonté LeMoyne. Com Étienne Galloy e Roxane Tremblay-Marcotte.
A premissa do curta de terror do diretor canadense segue o clichê básico do gênero: um casal de namorados, durante um passeio de carro, procura um lugar ermo, em uma floresta, para uma noite de sexo. Trafegam durante um longo tempo, sempre inquietos com o isolamento provocado pela densa floresta e pela escuridão. Quando encontram um local e o erotismo toma conta da tela, aparições momentâneas do lado de fora assombram o casal.
Uma das grandes características do cinema de gênero é não se rebelar contra as convenções. Nu segue a cartilha mas fascina (de uma maneira provocante) com o jogo erótico entre dois jovens que se entregam aos seus instintos. As consequências, bem, coloque dois jovens sozinhos em um bosque em um filme de terror.
Les patins (Canadá, 2023), de Halima Ouardiri. Com Sophie Cadieux (a mãe), Ines Feghouli (Mina), Mani Solymanlou (o pai).
A adolescente Mina sonha em ser patinadora artística. No dia em que se passa a narrativa, o pai de Mina a observa durante a aula de patinação. Na volta para casa, ele esquece de propósito os patins dentro do ônibus, deflagrando o conflito: ele acusa a jovem de ter perdido os patins, revelando seu caráter vingativo contra a ex-esposa, incentivadora da filha no esporte.
A diretora Halima Ouardiri, nascida em Genebra (filha de mãe suiça e pai marroquino) explora com sensibilidade o drama familiar. A troca de olhares entre o ex-casal, no final do filme – o do pai irônico, da mãe, rancoroso (enquanto MIna está quieta, envergonhada) – diz mais do que todas as palavras possíveis.
Não chore na mesa de jantar (No crying at the dinner table, Canadá, 2019), de Carol Nguyen. Com Thao Nguyen, Ngoc Nguyen, Michelle Nguyen.
O filme abre em plano fechado dos três membros da família de Carol Nguyen em uma pequena mesa de cozinha. A diretora explica a eles em off:, Mamãe, papai e Michelle (sua irmã). Na quinta-feira, cada um de vocês fez entrevistas individuais. Quando vocês concordarem em fazer este projeto, todos sabiam que todos ouviremos as entrevistas da nossa família. Mas hoje quero reproduzir as entrevistas para vocês. Então, vamos ouvir.”
A abertura revela o tom intimista, corajoso e desafiador do documentário. Em uma mesa de jantar, os três vão se defrontar com lembranças, revelações simples de uma família que provocam o emocional.
Neste ano de 2019, Carol Nguyen teve dois filmes incluídos na lista dos dez melhores curtas do Canadá: Nanitic e Não chore na mesa de jantar.
Delphine (Canadá, 2019), de Chloé Robichaud, é narrado por Nicole, já adulta. Ela lembra de suas experiências na infância quando estudou em uma escola particular em Ville Saint-Laurent: “A minha mãe me mandou para lá porque os primos também foram para lá. É reconfortante para pais imigrantes saber que os seus filhos frequentam escolas particulares com os primos. Foi lá que conheci Delphine.”
Delphine é uma criança libanesa que acabara de se mudar para o Canadá. Segundo Nicole, ela ainda não falava francês e dizia “sim” para tudo. As outras crianças da escola praticam bullying com Delphine, dizendo coisas como “você fede a cogumelo”, se divertindo quando ela diz “sim”.
O curta-metragem é um olhar cruel, sincero e sensível sobre o preconceito, o pesadelo que atitudes de bullying podem transformar a vida de uma criança. A sensibilidade de Nicole a coloca ao lado de Delphine, que se torna cada vez mais introspectiva. As atuações das estrelas infantis Daria Oliel-Sabbag (Delphine) e Ines Feghouli Bozon (Nicole) – que depois vão ser representadas por outras atrizes na adolescência – conferem à narrativa esse olhar doce, compreensível, que se transforma em colaboração mútua entre crianças e adolescentes.
Nathalie Doummar, roteirista, adaptou sua própria peça teatral Delphine de Ville Saint-Laurent. A película estreou no Festival de Cinema de Veneza e ganhou o prêmio de melhor curta-metragem do Festival Internacional de Cinema de Toronto. Entrou, ainda, para a lista anual dos dez melhores curtas do Canadá, país que, tradicionalmente, incentiva a produção de filmes neste formato.
Duas crianças olham para o segundo andar. Elas sobem engatinhando, furtivamente, a escada e, em frente à porta aberta do quarto, olham intrigadas para o interior. Uma mulher de meia-idade está cuidando da avó das crianças. Ela sofre com um câncer terminal. A mulher, após jogar a urina contida em uma bolsa no vaso sanitário, explica às crianças que a bexiga da avó não funciona mais.
O curta-metragem dirigido pela vietnamita canadense Carol Nguyen é um reflexivo olhar das crianças sobre a finitude. O título é uma referência às formigas operárias que assumem a responsabilidade de cuidar da colônia, pois a morte da rainha significa a morte da colônia.
As duas crianças mantêm em segredo uma colônia de formigas escondidas em um pote. A esperada morte da matriarca da família remete à possibilidade de desestruturação da família. Nanitic é uma obra curta, densa em reflexões.
A bela garota (Lituânia, 1969), de Arūnas Žebriūnas.
A influência da nouvelle-vague francesa percorreu o mundo durante os anos 60, ajudando na realização de obras em países pouco conhecidos em relação à sua filmografia. Na Lituânia, o diretor Arunas Zebriunas compôs um filme curto e simples, recheado de reflexões sobre a infância.
Inga (Inga Mickyte), uma menina de nove anos, mora com a mãe solteira. Ela é reverenciada por seus amigos e amigas como “a bela”, é sempre incentivada a dançar e cantar na roda, destilando sua simpatia e carisma. Um novo garoto, Victor (Arvidas Saukas), se muda para o bairro e, diferente de todos, não vê beleza na garota, chamando Inga de feia e sardenta.
A jornada que se segue é a busca de Inga pela sua identidade, pelo autoconhecimento, percorrendo ruas e ambientes da cidade ao lado de Victor. A estética em preto e branco e a interpretação natural das crianças são o destaque desta obra reveladora do cinema lituano.
Golem (Polônia, 1979), de Piotr Szulkin, abre com uma narração, sustentada por imagens de explosões nucleares: “Em 1941, após a catástrofe nuclear, numa sociedade cuja existência estava seriamente ameaçada, surgiram rumores de pessoas produzidas artificialmente. Uma das fontes desses rumores talvez fosse uma lenda arcaica do homem feito de barro, trazido à vida ao colocarem um papel com uma fórmula mágica em sua boca. As crenças populares até hoje de que tais experimentos fizeram parte do programa de reconstrução da humanidade são só superstições.”
Corta para plano fechado de médicos em um processo cirúrgico, comentando sobre o ser que estão criando/modificando geneticamente. Pernat (Marek Walczewski), o experimento, foge aos padrões definidos: na sociedade, ele apresenta uma personalidade marcada pela compreensão e pela bondade. Monitorado, ele é considerado um espécie defeituoso e deve ser eliminado.
O primeiro filme do diretor polonês Piotr Szulkin apresenta um mundo distópico que teria sido criado por explosões nucleares durante a Segunda Guerra Mundial. A narrativa se passa em uma cidade escura e decrépita, prédios destruídos, becos sujos, apartamentos deformados, seguindo a estética expressionista/noir. O olhar gótico e pessimista do diretor sobre essa sociedade (a Polônia controlada pelo regime comunsta?) não deixa margem para esperanças.
Sybyl é uma terapeuta que planeja abandonar a carreira para seguir seu sonho de ser escritora. Ela dispensa grande parte dos seus pacientes, mas aceita cuidar de Margot, jovem atriz que está grávida de Anton – os dois são protagonistas em um filme que está sendo rodado em Stromboli, com direção de Mika. O conflito de Margot é sua dúvida em relação ao planejado aborto, pois a gravidez atrapalharia sua iniciante carreira de atriz.
A narrativa é marcadamente intimista, colocando os personagens em conflito com suas escolhas. Sibyll, frequentadora de um grupo de ex-alcoólatras, se envolve cada vez mais com Margot e com suas próprias experiências, acabando por usar tudo como referência para seu novo livro.
O ponto forte da narrativa acontece em Stromboli, quando realidade e ficção se entrelaçam no exercício da metalinguagem. Durante as filmagens do longa-metragem, terapeuta/escritora, ator, atriz e diretora se envolvem em um complexo jogo amoroso com consequências imprevisíveis.
O média-metragem Sete anos em maio (Brasil, 2019), de Affonso Uchoa, foi concebido para ser exibido em sessões duplas com outro média-metragem, Vaga Carne (Brasil, 2019), de Grace Passô. No entanto, o isolamento social decorrente da pandemia abortou o projeto e os dois filmes foram lançados separados no streaming.
O filme de Affonso Uchoa começa com uma encenação de um fato real: o trabalhador Rafael caminha à noite para casa e é abordado por policiais, interpretados por jovens que se vestem de forma caricatural e conversam em tom de brincadeira sobre os artefatos que carregam – armas. Segue-se uma sequência de agressões e tortura, pois Rafael fora confundido com um traficante. Os policiais exigem dinheiro de Rafael. Acuado, o jovem foge para São Paulo, onde vive parte dos sete anos em um processo de degradação social: torna-se viciado em crack, envereda para o tráfico, retorna a Belo Horizonte onde segue seu destino de vício e tráfico. Sua vida fora destroçada pela polícia.
Essa segunda parte da narrativa é revelada pelo próprio Rafael, em uma noite fria diante de uma fogueira. A princípio, o espectador pensa que ele conta sua história para a câmera, em um longo e bem construído plano sequência. Percebe-se que, na verdade, Rafael conversa com outro homem, que também fora vítima de agressão e extorsão policial.
O estilo contemporâneo de documentário/ficção é a marca de Sete anos em maio. O filme é curto e minimalista, explorando a dor de Rafael através de uma fotografia expressionista, planos fechados e longos. A encenação da realidade provoca no filme de Rafael Uchôa um encontro doloroso com as memórias de quem sofreu a violência, a tortura, vivendo sete anos no inferno.
Christopher Nolan sempre deixou evidente sua paixão pelo cinema noir, inclusive participando de documentários onde analisa os principais elementos estéticos e narrativos do gênero. Em Seguinte (Following, Inglaterra, 1998), o diretor se apropria dessas referências para compor uma narrativa instigante, de complexas camadas psicológicas.
Jeremy Theobald interpreta um jovem escritor que segue aleatoriamente pessoas pelas ruas da cidade, em busca de inspiração para um livro. Durante suas andanças, um ladrão o seduz e o escritor passa a segui-lo em seus crimes, geralmente invadindo domicílios e roubando pertences.
A trama se complica quando os dois invadem a casa de uma mulher loira (Lucy Russel) – a femme fatale do cinema noir. O escritor fica fascinado e começa um estranho relacionamento oscilando entre o voyeurismo e a sedução.
Seguinte foi realizado durante um ano, gravado nos finais de semana, pois Christopher Nolan trabalhava em tempo integral em Londres. O custo do filme foi de apenas seis mil dólares e despertou o interesse pelo trabalho do jovem diretor que, na sequência, realizou o aclamado Amnésia (2000). Dois filmes independentes que evidenciaram o talento de Christopher Nolan que se consagraria definitivamente com a trilogia do homem morcego.
Estranhos prazeres (EUA, 1995), de Kathryn Bigelow, é ambientado em uma Los Angeles distópica, com cenários sujos, cuja fotografia neo-noir privilegia a vida noturna de marginalizados em clubes, apartamentos, ruelas e becos da cidade – claramente inspirado em Blade Runner – O caçador de androides (1982).
O roteiro tem co-autoria de James Cameron, na época casado com a diretora. O ex-policial Lenny Nero (Ralph Fiennes) vende pequenos discos contendo experiências vividas por pessoas, incluindo práticas sexuais. O dispositivo permite ao usuário vivenciar as experiências dentro de sua própria mente, como projeções de realidade virtual. A virada acontece quando Lenny recebe um disco com a gravação de uma amiga sua, uma prostituta que registrou seu próprio assassinato.
O destaque da película é a estética cyberpunk que marcou importantes obras a partir dos anos 80, entre elas Blade Runner, Akira, Ghost in the Shell, Matrix e O Vingador do futuro. Kathryn Bigelow trabalha em seu ambiente de thriller psicológico, com sequências empolgantes e assustadoras, sustentadas por um elenco que se consagraria: Ralph Fiennes, Angela Basset e Juliette Lewis, principalmente.
Francis Ford Coppola tinha apenas 24 anos quando realizou Demência 13 (Dementia 13, EUA, 1963), seu primeiro filme como diretor. A obra é produzida por Roger Corman, grande mentor de Coppola em seus primeiros anos no cinema, como um filme B de baixo orçamento. A influência de Alfred Hitchcock, principalmente de Psicose (1961) é clara no roteiro e no estilo de direção.
A trama simples se torna complexa pelas nuances de thriller psicológico impostas pelo diretor. O marido de Louise, John Haloran, morre de infarto e ela se livra do cadáver, pois ficara sabendo que não estava no testamento de Lady Haloran, rica proprietária de um castelo na Irlanda. Louise esconde da família a morte do marido e chega ao castelo, disposta a convencer a sogra a mudar o testamento.
O castelo de estilo gótico é um grande personagem do filme, supõe-se que ele seja assombrado pelo fantasma da caçula da família, que morrera criança afogada no lago em frente. Com toda a família presente, um homem misterioso começa a praticar assassinatos com um macabro machado, sempre precedido da aparição da criança.
A narrativa curta, cerca de 75 minutos de filme, se resolve sem muitas surpresas. É uma obra referencial muito mais por lançar a carreira de um dos mais renomados diretores do cinema, autor de obras-primas como a trilogia O poderoso chefão, A conversação e Apocalypse now.
Elenco: William Campbell (William Haloran), Luana Anders (Louise Haloran), Bart Patton (Billy Haloran), Mary Mitchell (Kane), Patrick Magee (Justin Caleb), Eithne Dunne (Lady Haloran).
O diretor Pietro Germi, nome menos referenciado do aclamado cinema neorrealista italiano, faz uma incursão pelo gênero do faroeste (as influências de John Ford estão presentes na obra), ambientando a trama na Sicília do início do século XX. O juiz Guido Schiavi chega a uma pequena cidade controlada pelo Barão Vasto e pela máfia. Os mafiosos substituem a justiça, cobrando para proteger os nobres da cidade. O juiz, de apenas 26 anos, tem ideais humanistas e justos e tenta impor a lei, se defrontando de forma perigosa com os poderosos que controlam a região com violência, praticando assassinatos impiedosos.
O estilo neorrealista de Em nome da lei é demarcado por algumas características comuns ao movimento: a forte crítica social, retratando uma população miserável e faminta subjugada de forma violenta pelo barão e pela máfia; a narrativa linear, demarcada pela bela fotografia em preto e branco que destaca a aridez e a miséria da ilha; o sentimentalismo, quase melodramático do drama social, com direito a uma história de amor entre os protagonistas Guido e Teresa. O final, após um assassinato triste e doloroso, imprime uma certa esperança pela continuidade da luta por justiça social.
Escândalos noturnos (Tapage nocturne, França, 1979), de Catherine Breillat.
Solange (Dominique Laffin) é considerada uma das jovens cineastas francesas mais talentosas. Enquanto termina seu novo filme, ela se relaciona compulsivamente com diversos homens, inclusive seu marido, que a incentiva em seus casos e gosta de ouvir os detalhes das transas. As mais recentes paixões de Solange incluem um ator bissexual e Bruno (Bertrand Bonvoisin) , também diretor de cinema, por quem fica obcecada. O segundo filme de Catherine Breillat é uma ousada incursão pela sexualidade feminina, colocando Solange em uma posição libertária mas que sofre com a necessidade de buscar sempre paixões e interrogar os seus desejos.
Quando Luigi Zampa realizou Angelina, a deputada (L’onorevole Angelina, Itália, 1947), o neorrealismo italiano estava em sua melhor fase e comprova que trabalhar com atores não-profissionais não era uma marca do movimento. Anna Magnani interpreta Angelina, moradora de uma favela de Roma que passa a liderar as mulheres em uma cruzada contra a fome e a falta de habitação. Sua liderança ganha as manchetes dos jornais e incomoda os magnatas imobiliários quando os moradores da favela ocupam um prédio em construção.
A luta de classes e a miséria, incluindo crianças famintas, é o tema do filme. As moradoras da favela formam um partido e tentam convencer Angelina a se lançar deputada. A narrativa tem um forte teor feminista, as mulheres é que vão à luta, enquanto seus maridos são retratados como ociosos, com sugestões inclusive de violência doméstica.
O final do filme resvala para a esperança, sugerindo uma união entre um dos magnatas imobiliários e os membros da favela. No entanto, a sequência final, que em estrutura circular, recria o movimento da abertura derruba esse sentimento. No início, a câmera entra na casa de Angelina, percorrendo os cômodos onde dormem os cinco filhos até enquadrar Angelina e seu marido na cama, discutindo sobre as precariedades econômicas que levam à incerteza de alimentação da família no dia seguinte. No final, a câmera enquadra o casal discutindo o mesmo assunto do início e a câmera, em movimento contrário, percorre os ambientes até sair da casa.
A inocente face do terror (The other, EUA, 1972), de Robert Mulligan, compõe o painel de filmes de thriller psicológico com nuances de terror que dominou o cinema americano dos anos 70. Outra marca recorrente neste gênero é uma criança adorável como pivô de atos de assssinato e terror.
Em uma pequena cidade do interior, vivem os irmãos gêmeos idênticos, Niles e Holland. Niles é dócil e encantador, mas seu irmão apresenta uma personalidade agressiva, doentia, provocando uma série de mortes na fazenda onde vivem e nos arredores. Desde o início, é possível antecipar a reviravolta da trama, o que torna A inocente face do terror ainda mais assustador.
O roteiro foi escrito por Tom Tryon, adaptando seu próprio romance. O diretor trabalha com elipses nas principais sequências de morte, não poupando nem mesmo crianças dos atos brutais de Holland. Perto do final, acontece uma das cenas mais aterradoras do cinema, mesmo que não mostrada, invade a mente do espectador. O que se segue também é um ato brutal de punição e tentativa de dar fim ao horror. Mas, como é marca do gênero, a última imagem deixa o final em aberto.
Elenco: Uta Hagen (Ada), Diana Muldaur (Alexandra), Chris Udvarnoky (Niles Perry), Martin Udvarnoky (Holland Perry).
A semente do fruto sagrado (Irã, 2024), de Mohammad Rasoulof, é um contundente relato ficcional (combinando com cenas documentais) das manifestações que aconteceram no Irã em setembro de 2022. Durante os protestos, deflagrados pela morte de Mahsa Amini, jovem de 22 anos, após ser presa pela polícia moral do país por uso incorreto do véu, centenas de manifestantes foram mortos.
No filme, Iman é nomeado investigador do estado repressor iraniano. Entre outras funções, ele deve assinar as sentenças de morte dos presos. Em casa, Iman passa a lidar com os conflitos que sua profissão provoca até que a arma que ele carrega desaparece. As suspeitas são suas filhas adolescentes, Rezvan e Sana. Najmeh, esposa e mãe, tenta apaziguar e resolver o problema, se dividindo entre a fidelidade patriarcal ao marido e o amor pelas filhas,
A maior parte do filme se passa em Teerã, destacando o conflito nas ruas, as prisões e atos de violência contra os manifestantes. Na parte final, Iman leva a família para sua casa no interior, quando seu comportamento violento e irascível se manifesta contra as filhas e esposa, transformando a narrativa em um thriller de suspense.
O filme foi censurado no Irã e o diretor Mohammad Rasoulof sofreu punições. No entanto, conseguiu escapar para a Alemanha. A semente do fruto sagrado recebeu um prêmio especial do júri no Festival de Cannes e concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
O medo do medo (Angst vor der angst, Alemanha, 1975), de Rainer Werner Fassbinder, foi realizado para ser exibido na televisão alemã. Fassbinder usou como base as memórias da escritora Asta Scheib, que publicou um livro com relatos pessoais sobre a sua luta contra a depressão. Asta foi convidada por Fassbinder para participar dos sets de filmagem e percebeu que o diretor usou apenas a ideia do livro. Segundo Asta, Fassbinder usou muito de sua própria experiência com a doença para narrar o martírio da protagonista Margot.
Margot está grávida de seu segundo filho e começa a sentir sintomas de medo e insegurança. Quando a criança nasce, tudo se intensifica e ela começa a agir de forma estranha, cada vez mais dominada por sentimentos que não compreende. Fassbinder usa a técnica de ondular levemente os ambientes do apartamento em que ela mora para denotar o gradativo estado depressivo. Margot se torna dependente de remédios e, depois, do álcool.
O medo do medo é um estudo sensível e perturbador dessa doença que atinge milhões de pessoas e age de forma invisível e, quando se manifesta, é rotulada de forma degradante até mesmo pelos familiares. A sequência do adultério de Margot, motivada pela dependência de remédios, é triste, pois aponta a crueldade de pessoas ao redor que se aproveitam ao invés de ajudar.
Elenco: Margit Carstensen (Margot), Ulrich Faulhaber (Kurt), Brigitte Mira (mãe de Kurt), Ir Herman (Lores), Armin Meier (Karl), Adrian Hoven (Dr. Merck).
Precauções diante de uma prostituta santa (Warnung vor einer heiligen nutte, Alemanha, 1970), de Rainer Werner Fassbinder, faz parte da antologia de filmes que refletem sobre o próprio cinema. A lista de classicos inclui Crepúsculo dos deuses (1950, Billy Wilder), Assim estava escrito (1952, Vincente Minnelli), No silêncio da noite (1950, Nicholas Ray), Cantando na chuva (!953, Gene Kelly e Stanley Donen) O desprezo (1963, Jean-Luc Godard), Oito e meio (1963, Federico Fellini), A noite americana (1973, François Truffaut).
Na obra de Fassbinder, uma equipe de profissionais do cinema está reunida em um palacete na Espanha durante os preparativos de um filme intitulado Pátria e Muerte. Atores e atrizes, produtores, diretor de fotografia, continuístas, técnicos e o diretor que se recusa a fazer o filme. O tédio e a insegurança da espera, dos preparativos, são permeados por tensões sexuais e amorosas, conflitos profissionais, desilusão diante da arte, frustração com o próprio trabalho, não-reconhecimento do talento, desespero diante da falta de dinheiro para o prosseguimento da produção, enfim, um set de cinema? Ou um set de cinema de Fassbinder?
Fassbinder interpreta Sascha, o produtor executivo que deve contornar os problemas e tentar dosar o insano, irascível e agressivo Jeff Castel, diretor do filme. Jeff trabalha aos gritos aleatórios com a equipe chegando, inclusive, a agressões físicas. Nos intervalos, ele se relaciona sexualmente com homens e mulheres da equipe.
Essa prostituta santa, o cinema, espalha o terror e o desejo, exaspera os sentimentos de toda a equipe, incentiva o confronto, quase destroi emocionalmente um ou outro. Mas ninguém consegue deixar o set, ninguém resiste ao processo quase apocalíptico de fazer cinema.
Elenco: Lou Castel (Jeff Regisseur), Eddie Constantine (Eddie), Marquard Bohm (Rickey), Hanna Schygulla (Hanna), Rainer Werner Fassbinder (Sascha), Margarethe von Trotta (Babs), Ulli Lommel (Korbinian).
O homem de palha (The wicker man, Inglaterra, 1973), de Robin Hardy, é o típico representante do novo cinema que floresceu a partir dos anos 60. A narrativa faz uma revisão dos gêneros clássicos do cinema, misturando terror, thriller psicológico, investigação policial, tudo embalado por números musicais e muito, muito erotismo.
O Sargento Howie chega a uma pequena ilha escocesa para investigar o desaparecimento de uma adolescente. Os habitantes seguem normas morais, religiosas e sociais que assustam Howie, um cristão conservador. O comportamento libertino dos moradores é incentivado pelo líder e proprietário da ilha, o misterioso Lord Summerisle.
Em uma incursão noturna, o policial vê uma orgia na praia, incluindo jovens em pleno ato sexual e uma jovem nua em cima da lápide de uma cova. A narrativa caminha para um ritual pagão com o objetivo de preservar a colheita da ilha. O final revela uma surpresa, envolvendo o terror do sacrifício pagão.
Atenção para a cena de sedução no quarto da estalagem. A jovem filha do proprietário, canta e dança nua, se esfregando na cama, nas paredes, emitindo sons eróticos. No quarto ao lado, o ortodoxo Howie se debate com sua imaginação e seus desejos de abrir a porta e invadir o quarto onde a jovem performa. Rebeldia pura.
Elenco: Edward Woodward (Sargento Howie), Christopher Lee (Lord Summerisle), Diane Cilento (Miss Rose), Britt Ekland (Willow).