• Duas mulheres

    Duas mulheres (Ők ketten, Hungria, 1977), de Márta Mészáros, acompanha a improvável amizade que se forma entre duas mulheres de diferentes gerações. Mari (Marina Vlady) é casada, tem dois filhos já adultos, e administra um albergue para mulheres. Juli (Lili Monori) tem uma filha ainda criança e sofre violência doméstica de seu marido alcoólatra. Ela se refugia no albergue, quebrando as regras, que não permite a entrada de crianças, mas se torna protegida de Mari.

    A amizade entre Mari e Juli passa por momentos ternos e agressivos, evoluindo para descobertas mútuas e solidariedade. Enquanto Juli tenta se desligar de sua relação abusiva, Mari se descobre em um casamento infeliz e sem perspectivas e passa a flertar com a infidelidade e o alcoolismo.  

    Márta Mészáros tece mais uma narrativa que revela a luta constante das mulheres húngaras em busca da libertação das amarras sociais. A filha de Julie é interpretada por Zsuzsa Czinkóczi que, nos anos 80, será a protagonista da aclamada trilogia autobiográfica de Márta Mészáros, composta por: Diário para meus filhos (1984), Diário para meus amores (1987) e Diário para meu pai e minha mãe (1990). 

  • Insônia

    Insônia (Insomnia, EUA, 2002), de Christopher Nolan. 

    Os detetivses Will Dormer (Al Pacino) e Hap Eckhart (Martin Donovan) chegam a uma cidade do Alaska para investigar o espancamento, seguido de assassinato, de uma jovem de 17 anos. São de Los Angeles e foram enviados para trabalhar no caso pois estão sob investigação da Corregedoria que pode resultar na destruição da reputação de Will. 

    Os dois primeiros filmes de Christopher Nolan, Seguinte (1998) e Amnésia (2000), foram realizados de forma independente. Os filmes repercutiram na crítica e despertaram o interesse dos estúdios. Em seu terceiro filme, Nolan contou com um grande orçamento para filmar em locações no Alaska e reunir dois atores de peso nos papeis principais: Al Pacino e Robin Williams. 

    Insônia é baseado no longa norueguês homônimo de 1997. A trama, com sequências de thriller dos gèneros suspense e policial, tem uma virada quando um tiroteio na neblina resulta em um assassinato acidental. É a entrada em cena do escritor Walter Finch (Robin Williams), assassino da adolescente. A partir daí, a trama envereda para um jogo entre policial e assassino, envolvendo chantagem, embates psicológicos e conflitos éticos.  

    Passo a passo, a mente turva de Will, pois ele passa dias sem dormir na cidade que nunca anoitece (o sol da meia noite) o enredam em uma perigosa trama envolvendo consciência profissional e necessidade de preservar a sua reputação.

  • Adoção

    Adoção (Örökbefogadás, Hungria, 1975), de Márta Mészáros.

    Kate (Katalin Berek) é uma operária que, aos 42 anos, sente desejo de ter um filho com seu amante casado, pai de dois filhos. Diante da recusa do amante, ela passa a considerar a ideia de adoção, principalmente depois que conhece Anna (Gyongyver Vigh), uma adolescente que vive em um orfanato. 

    Adoção é o primeiro filme dirigido por uma mulher a conquistar o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim. Márta Mészáros, cuja grande marca temática em sua obra é o feminismo, aborda com leveza o tema da maternidade. A relação entre Kate e Anna é fascinante, composta por ternura, às vezes uma certa agressividade verbal e recusa, mas sempre com esse olhar intimista das mulheres sobre si mesmas. 

    A ousadia do cinema da diretora húngara se mostra durante a trama. Anna leva seu namorado, também adolescente, para a casa de Kate, onde se trancam no quarto explorando a sensualidade e o erotismo. São dois adolescentes em belas cenas eróticas que, com certeza, não teriam espaço no cinema atual. 

  • La chimera

    La chimera (Itália, 2023), de Alice Rohrwacher.

    Toscana, anos 1980. Arthur (Josh O”Connor), um arqueólogo inglês, volta para reencontrar seus amigos, após um período na prisão. A princípio ele recusa o grupo, mas retorna à sua atividade: descobrir e saquear túmulos etruscos, vendendo os objetos a contrabandistas. 

    La chimera faz parte da trilogia de Alice Rohrwacher sobre a relação do ser humano com a terra, com a cultura da Itália rural, com as tradições seculares. Os outros são As maravilhas (2014) e Lazzaro Felice (2018). 

    Arthur vive ligado ao passado, fascinado pelos objetos que descobre e preso a seu amor perdido, a jovem Beniamina, recém falecida. Seu dom de descobrir túmulos antigos é também uma espécie de relação entre a vida e a morte que vai selar o seu destino.

    A interpretação de Josh O’Connor, compondo um personagem sujo, triste e amargurado, é um dos destaques da película. Vale ainda a participação de Isabella Rossellini, como Fiora, a matrona italiana, que administra uma mansão em ruínas. 

  • A lenda da canarinha

    Campanha criada pela Wieden+Kennedy São Paulo e produzida pela Dirty Work. A animação usa a técnica de stop-motion, com referências da estética do cinema dos anos 80. O gênero terror é a grande inspiração da campanha.

    Assista ao filme em Ads of the World.

  • Libertação

    Libertação (Szabad lélegzet, Hungria, 1973), de Márta Mészáros.

    A narrativa acompanha o relacionamento amoroso de Jutka ( Erzsébet Kútvolgyi), jovem operária, com Andras (Gábor Nagy) , um universitário que faz parte da classe média emergente na Hungria. O conflito de classes é o tema do filme: Jutka finge ser também uma universitária para ser aceita pelos pais e no círculo social de seu namorado. 

    O tema é tratado com sensibilidade, a jornada de Jutka é a busca da aceitação de sua condição operária até se sentir segura para o confronto com os pais de Andras. As cenas sutis de sexo são de uma delicadeza fascinante, a câmera enquadra e, às vezes, passeia pelos corpos dos amantes, a fotografia em preto e branco, a granulação da película, refletindo a beleza dos jovens apaixonados. 

  • Não chorem, lindas

    Não chorem, lindas (Egy őszinte szerelem története, Hungria, 1970), de Márta Mészáros.

    Juli (Jaroslava Schallarová) é uma jovem operária de uma fábrica de tecidos em Budapeste. Ela está de casamento marcado com um colega de trabalho, jovem que flerta e beija outras mulheres junto com um grupo de amigos. A cidade está sediando um festival de música, misto de rock’n’roll e música folk húngara. A trilha sonora da apresentação das bandas pontua a jornada de Julie em busca de um último momento de liberdade, pois a juventude húngara também está imersa neste importante momento da contracultura na Europa. 

    É o terceiro longa-metragem da diretora Márta Mészáros, a obra segue sua marca de trabalhar com personagens que retratam a classe operária da Hungria, principalmente as mulheres que buscam seu espaço na sociedade, renegando a estrutura patriarcal. Julie se envolve com um dos integrantes de uma banda e se entrega ao relacionamento com rebeldia. A trilha sonora é o grande trunfo do filme. 

  • O realismo socialista

    El realismo socialista (Chile, 2023), de Raúl Ruiz e Valeria Sarmiento.

    Entre 1972 e 1973, o cineasta chileno Raúl Ruiz trabalhava nas filmagens de O realismo socialista, mas foi forçado a abandonar o projeto após o golpe militar que derrubou o governo socialista no país. Cinquenta anos depois, Valeria Sarmiento, esposa de Raúl, lançou a obra, após um processo de restauração que durou cerca de sete anos. 

    A narrativa acompanha a luta ideológica e partidária de dois grupos ligados à esquerda: trabalhadores que querem ocupar e retomar a produção de uma fábrica e intelectuais que tentam controlar o movimento, buscando apoio para um amplo projeto de socialização no Chile. A discórdia evolui para embates físicos, em determinado momento o que parece ser um documentário se transforma em um filme com ações de violência e de tiroteio. 

    O realismo socialista em seu estilo doc/fic é um poderoso registro histórico de um dos momentos mais conturbados e violentos da história recente da América Latina, dominada por crueis regimes militares. 

    Elenco: Jaime Vadeli, Juan Carlos Moraga, Javier Maldonado, Marcial Edwards, Nemesio Antúnez. 

  • Chuveiro na sala

    Campanha criada pela agência Addict / Israel para a Pazkar, empresa especializada em produtos para impermeabilização de casas e telhados. As peças foram veiculadas durante o período das chuvas no país. O conceito visual traduz a ideia de que “”Se você não quer acabar tomando banho na sala, é melhor usar a Pazkar antes que seja tarde demais.”

    Fonte: Ads of the World

  • Além da chama

    Campanha criada pela Filadélfia / Belo Horizonte para conscientizar sobre o poder destruidor do fogo. O conceito visual  trabalha com o que se perde nas chamas. 

    Fonte: Ads of the World

  • Postergados

    Postergados (Brasil, 2016), de Carolina Markowicz. 

    Três pessoas são entrevistadas em diferentes locais: um médico corrupto que será responsável pela morte de um motorista; um homem já morto que foi induzido por sua esposa a tomar um remédio que provocou sua morte;  uma cartomante charlatã que descobre que pode fazer uma única pergunta antes da passagem para a vida após a morte. 

    A edição fragmentada, cuja montagem alternada confunde o espectador com as histórias dos personagens que transitam entre a vida, a morte e a pós-morte é o grande trunfo do filme. O curta foi filmado em Porto Alegre, com intérpretes uruguaios de renome nos papéis principais: César Bordon, Mirella Pascual e José Luis Arias.  

    O destaque é a história envolvendo a cartomante, que anuncia a Edna, uma cliente,  que ela vai morrer no dia 16 de junho. Durante a consulta, conversando sobre as possibilidades da morte, a cartomante diz a Edna: “Somos cadáveres postergados, como dizia Fernando Pessoa.” Atenção para o belo e sensível conjunto de imagens ao som de Gracias a La Vida.

  • Namoro à distância

    Namoro à distância (Brasil, 2017), de Carolina Markowicz. 

    No início da narrativa, voz em off discorre sobre algumas fobias comuns entre as pessoas, como medo de avião, e revela: “Não tenho medo de nada. Não odeio nada. Não tenho grandes ambições. O meu único desejo é poder, um dia, praticar atividade sexual com um extraterrestre.”

    O curta, de apenas cinco minutos de duração, acompanha o protagonista, que se muda para Varginha (claro), após se inscrever em um programa de disk sexo com Ets. Carolina Markowicz compõe um universo absurdo e surrealista, por meio de um estilo que transita entre animação, live-action e uma forte referência da estética noir.

    Namoro à distância consolida o talento da diretora com uma narrativa curta, potente e provocativa, abordando os inconfessáveis desejos humanos.

  • Edifício Tatuapé Mahal

    Edifício Tatuapé Mahal (Brasil, 2014), de Fernanda Salloum e Carolina Markowicz. 

    A premiada Carolina Markowicz estreou na direção com este curta de animação provocador, instigante, realizado em coautoria com Fernanda Salloum. O espectador está diante de uma maquete de um típico show room de lançamento imobiliário. O boneco argentino Javier trabalha como corretor neste empreendimento e sua jornada passa por conflitos com os clientes, com seus patrões e por seus relacionamentos amorosos. 

    A animação em stop-motion trata de temas como exploração do trabalhador. Em determinado momento, narração em off de Javier reclama de suas longas jornadas de trabalho, pois é exposto na maquete de sol a sol. Javier relata o sofrimento de um companheiro de trabalho que é obrigado a andar de bicicleta por tempo indefinido na área do prédio.Frustrado com sua realidade, Javier viaja pela Europa e, na Polônia, se entrega a experiências de um grupo de cirurgiões especializados em transformar bonecos de maquete.

    Edifício Tatuapé Mahal conquistou 20 prêmios em diversos festivais mundo afora. É mais um reconhecimento da potência dos filmes de animação produzidos no Brasil.

  • O órfão

    O órfão (Brasil, 2018), de Carolina Markowicz, ganhou o prêmio Queer Palm no Festival de Cannes. A narrativa acompanha a jornada do menino Jonathas (Kauan Alvarenga). Ele vive em um orfanato e um jovem casal se dispõe a adotá-lo. Durante o período de experiência, já na sua nova casa, Jonathas revela seu jeito afetivo e delicado, provocando conflitos com seus novos pais. Após um breve período, Jonathas é devolvido ao orfanato e volta a lidar com o sentimento de rejeição. 

    O órfão retrata com uma sensibilidade dolorosa as questões identitárias na infância, negadas pelo preconceito arraigado na estrutura familiar; mesmo um casal formado por jovens não consegue lidar com as sutis descobertas de Jonathas sobre sua sexualidade.

  • The protagonists

    The protagonists (Itália, 1999), de Luca Guadagnino.

    Em 1994, dois adolescentes chegam a Londres dispostos a cometer um assassinato. Eles andam pela cidade procurando um travesti, mas mudam de ideia e invadem o carro de Mohammed El-Sayed e o matam a facadas. O crime é rapidamente desvendado pela polícia e atinge repercussão na mídia, pois os jovens, de classe média alta, demonstram frieza pelo ato cometido sem nenhum motivo, a não ser experimentar o “prazer de matar”. 

    O primeiro filme de Luca Guadagnino mistura documentário e ficção na investigação e reconstituição do crime. Tilda Swinton, no papel de uma atriz/jornalista, lidera uma equipe de filmagem italiana que percorre os cenários da tragédia, o tribunal onde ocorreu o julgamento, entrevista especialistas, a esposa da vítima e pessoas próximas ao crime.  

    O diretor italiano compôs um suposto documentário encenando as cenas e não definindo se os entrevistados são atores ou as pessoas reais que vivenciaram o assassinato. Mesmo percorrendo diversos festivais, The protagonists passou despercebido pelo público e crítica (sequer foi exibido nos cinemas), mas depois da consagração de Luca Gudagnino passou a ser revisto como um filme experimental, já com as marcas do diretor.

  • Mimi – O metalúrgico

    Mimi – O metalúrgico (Mimi metallurgico, ferito nell’ onore, Itália, 1972), de Lina Wertmuller.

    Perto do final do filme, Mimi (Giancarlo Giannini) tenta justificar os atos que cometeu forçado pela máfia siciliana. Ele grita para Fiorenna: “Eles são todos primos.”

    Com esse filme, indicado ao prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes, Lina Wertmuller ganhou o reconhecimento internacional, demarcando seu estilo de críticas políticas e sociais, ancoradas em narrativas de um humor agressivo, feito para chocar a sociedade. 

    Mimi é um operário, recém-casado, que é ameaçado por integrantes da máfia ao se recusar a votar no candidato apoiado por eles. Perde o emprego e vai para Turim, onde conhece Fiorella (Mariangela Melato), uma ativista política. Os dois se apaixonam, passam a viver juntos, têm um filho, Mimi consegue emprego como metalúrgico e adere ao comunismo. No entanto, seu caminho se cruza novamente com os mafiosos e é obrigado a voltar para a Sicília, onde se defronta com sua esposa, que também tem um amante.

    A virada da narrativa após a volta para casa tece uma contundente crítica, com desfecho trágico, sobre as tradições italianas que insistem em colocar a família sob a custódia do patriarcado, do machismo exacerbado e agressivo. O protagonista, mesmo com ideais políticos avançados, capaz até mesmo de enfrentar a máfia, sucumbe diante de si  mesmo, incapaz de vencer sua vaidade masculina, colocando, como é típico, a honra do homem acima de tudo.

  • Los huesos

    Los huesos (Chile, 2021), de Cristóbal León e Joaquín Cociña. 

    No início do século XX, uma jovem invoca a ajuda de espíritos para trazer dois cadáveres de volta à vida. Os ressucitados são Diego Portales, um dos responsáveis pela constituição de 1833 que consolidou o Chile como uma república autoritária, privilegiando as altas classes sociais; e Jaime Guzmán, conselheiro político próximo do ditador Augusto Pinochet.  A narrativa mescla humor negro, com fortes críticas políticas e sociais sobre a história e a realidade atual do Chile. 

    Segundo os realizadores, a ideia do filme partiu como uma crítica às crises sociais chilenas, evoluindo para um filme de animação farsesco, colocando o Chile como um dos inventores da animação em stop motion.

    “Um dos pontos de partida foi que estávamos no meio de uma revolta social no Chile em 2019. Chamamos isso de “Estallido Social”, que significa explosão social. Herdamos o sistema político de uma ditadura. A diferença entre pobres e ricos é grande. É um sistema muito injusto. Então, esse foi o contexto em que começamos a pensar sobre esta produção. Pegamos duas figuras da história chilena, uma do século XIX e outra do século XX. Ambas eram defensoras da oligarquia. Queríamos nos livrar desses líderes de alguma forma e libertar o Chile dessa opressão. Não que estejamos nos levando tão a sério. Não é como se achássemos que nosso filme fosse mudar alguma coisa.” – Cristóbal León

    Joaquin Cocina comenta que o outro contexto era a história do cinema, principalmente o primeiro cinema, referenciado por Georges Méliès e os Irmãos Lumiére: “Precisamos criar uma mente criativa falsa por trás do filme que não seja a nossa. Isso nos dá mais liberdade e distanciamento. Também nos interessamos pelo cinema antigo. No início do século XX, havia uma criatividade incrível. Havia Georges Méliès, um mágico que fazia filmes de fantasia; depois, havia uma abordagem mais documental, dos irmãos Lumière. Duas correntes diferentes. Estamos tentando abordar projetos pensando naqueles primeiros anos. Com Los Huesos, a ideia é muito crua. Estamos fingindo que estamos criando o primeiro filme de animação. Achamos engraçado imaginar que o Chile foi o berço da animação. Depois, pensamos nos primeiros filmes de [Ladislas] Starewicz, feitos com cadáveres de animais e insetos. Achamos lindos. Então, imaginamos que estávamos animando cadáveres no início do século XXI. Achamos isso engraçado.”

    O resultado é um filme deslumbrante, com estética do cinema mudo, remetendo às primeiras experimentações na área da animação. “Nós animamos apenas na câmera. Não usamos nenhum software. Eu adoro aquela sala escura da câmera, onde você nunca sabe como vai ficar. Uma câmera de 16 mm é radical porque você não sabe o que está acontecendo. Gostamos de acidentes, de trazer erros para o processo. Eu gostava do mistério de não saber o que sairia da câmera. Também evitamos apressar os cortes. No cinema antigo, as cenas eram mais longas e muitas vezes se prolongavam.” – Acesse a entrevista completa dos realizadores em Cartoon Brew. 

  • Trailer of the film that will never exist: ‘phony wars’

    Trailer of the film that will never exist: ‘phony wars’ (França, 2023), de Jean-Luc Godard, começa com uma colagem de pinturas, frases poéticas desenhadas à mão, imagens de cinema, intituladas trailer de filmes de drones. Tudo fica em tela por intermináveis segundos, amparado pelo silêncio. O primeiro som é a narração em off da teórica de cinema Nicole Brenez: “É como uma imagem que vem de longe. São duas lado a lado. Ao lado dela, sou eu. Nunca a vi antes. Eu me reconheço. Mas não me lembro de nada. Deve estar acontecendo longe daqui. Ou mais tarde.” A abertura demarca o cinema experimentalista de Jean-Luc Godard, que nunca deixou de lado o curta-metragem como exercício de filmes abstratos, não estruturais, imagens e sons tomando conta da mente do espectador. 

    A premissa do filme/trailer é uma adaptação do romance Faux passports, de Charles Plisnier, publicado em 1937: “Eis um cenário (na verdade, uma simples adaptação cinematográfica de um velho romance) que diverge de nomes como Carné ou Palma, ao rejeitar as bilhões de imposições alfabética para libertar as incessantes metamorfoses e metáforas de uma linguagem necessária e verdadeira; retomando aos locais de filmagens passadas, mas levando em contas os tempos modernos. 

    Trailer of the film… foi lançado após a morte de Godard. O próprio diretor narra o seu processo de construção desse filme/colagem que se transmuta em cinema, artes plásticas, poesia, música, literatura, fotografia, filosofia, política e tudo mais que pautou a vida e o cinema de Jean-Luc Godard, o cineasta mais influente do cinema contemporâneo.

  • Amor e anarquia

    A italiana Lina Wertmuller, discípula de Fellini, foi a primeira mulher a ser indicada ao Oscar de Direção pelo filme Pasqualino Sete Belezas (1977).  O cinema anárquico da diretora demarca Amor e anarquia, cujo extenso título original resume a obra: Filme de amor e anarquia, ou: esta manhã às 10, na Via dei Fiori, no famoso bordel.

    Tunin (Giancarlo Giannini), um jovem ingênuo da região campestre, chega a esse bordel com uma ideia fixa: assassinar Benito Mussolini. A história é ambientada na Itália dos anos 30, o governo fascista caça e executa anarquistas, o que aconteceu com um grande amigo de Tunin. No bordel, seu contato com o grupo que planeja o assassinato é com a prostituta Salomê (Mariangela Melato). No entanto, Tunin se apaixona por Tripolina (Lina Polito), jovem prostituta que pode mudar o destino da trama. 

    O grande trunfo da película é a mistura de gêneros, uma das marcas do cinema dos anos 70. A curta odisseia de Tunin em Roma alterna momentos de drama, comédia, um belo e sensível romance, crítica política e social, cujo clímax é uma tragédia anunciada. O idílio amoroso de dois jovens ingênuos e sonhadores termina de forma brutal, nada surpreendente, afinal são os anos fascistas na Europa. 

  • A besta

    A besta (La bête, França, 2023), de Bertrand Bonello, é adaptação do conto A fera na selva, de Henry James, publicado em 1903. Em um futuro distópico as pessoas passam por um procedimento que as livram de suas emoções. Gabrielle (Léa Seydoux) faz entrevistas para se submeter ao procedimento. Narrativa paralela apresenta Gabrielle, musicista famosa, em uma festa aristocrática, onde se reencontra com um amigo, Louis (George MacKay). Uma terceira narrativa coloca Gabrielle cuidando de uma mansão enquanto o dono está viajando. Louis agora é um videomaker que grava a si mesmo, revelando suas frustrações por, aos 30 anos, ainda ser virgem e nunca ter beijado uma mulher. 

    Saltos temporais alternam as narrativas que podem ser vistas como as três vidas de Gabrielle, sempre marcadas pelos encontros com Louis e por uma ameaça: Gabrielle vive aterrorizada por uma besta, pois pensa que algo trágico acontecerá com ela. O diretor Bertrand Bonello busca influências em cineastas contemporâneos como Michel Gondry (Brilho eterno de uma mente sem lembranças) e David Lynch (Cidade dos sonhos) para seu filme, cuja estrutura se apoia em fragmentos de memórias. No futuro, um fato que não se desenvolve na narrativa, é citado: mais de 60% das pessoas estão desempregadas, pois a inteligência artificial dominou o mercado de trabalho. Isso sim é assustador.