Categoria: Filme

  • As aventuras extraordinárias de Mister West no país dos bolcheviques

    O americano Mister West viaja à URSS para conhecer o “país dos bolcheviques”. Influenciado pela leitura de publicações americanas que retratam os soviéticos como “selvagens”, leva na viagem o Caubói Jeddy como guarda-costas. Os dois protagonizam uma série de peripécias, incluindo sequestro e tiroteios bem ao estilo western americano nas ruas de Moscou. 

    A comédia de Kuleshov, um dos principais teóricos da montagem revolucionária soviética, apresenta, a princípio, a confirmação da visão estereotipada dos americanos sobre a revolução socialista. Trupe de vagabundos sequestra Mister West e forjam situações satíricas da sociedade, visando ganhar o dinheiro do resgate. A virada no final apresenta “a verdadeira URSS”, referendando o ponto de vista de Kuleshov sobre a ideologia socialista, bem afeita aos tempos de Stalin no poder. 

    As aventuras extraordinárias de Mister West no país dos bolcheviques (Neobychainye Priklyucheniya Mistera Vest V Strane Bolshevikov, Rússia, 1924), de Lev Kuleshov. Com Porfir Podobel, Boris Barnet, Aleksandra Khokhlova.

  • Vou nadar até você

    A narrativa segue o estilo road-movie, a jornada de Ofélia por mar e terra revela detalhes do passado dos seus pais, através do encontro da jovem fotógrafa com amigos dos dois e flashbacks, imagens recortadas que afloram na tela. Outro tema que perpassa a narrativa é o universo dos artistas e seus conflitos, vaidades, com direito a revelação final que pode mudar o destino da protagonista. Destaque para as paisagens, amplificadas pela fotografia de encher os olhos. 

    Vou nadar até você (Brasil, 2017), de Klaus Mitteldorf. Com Bruna Marquezine, Ondina Clais, Peter Ketnath, Fernando Alves Pinto. 

  • Meio irmão

    Sandra (Nathália Molina) e Jorge (Diego Avelino) são irmãos de pais diferentes, mas não se relacionam. Os dois vivem problemas típicos da periferia da cidade, convivendo com a violência social enquanto lutam pela sobrevivência cotidiana. Os dois se aproximam quando a mãe de Sandra desaparece de casa, colocando a adolescente em problemas que vão desde idas à polícia, ameaças de credores que cobram dívidas deixadas pela mãe, falta do que comer em casa, além de conflitos na escola. 

    A diretora Eliane Costes debate questões que permeiam a vida da periferia, como pais ausentes, filhos que crescem em comunidades complexas, muitas vezes violentas com os jovens, principalmente quando suas escolhas não se adequam aos valores sociais dominantes. A câmera da diretora filma tudo quase como um registro documental, sem conclusões em questões narrativas, sem julgamentos. Apenas acompanha os jovens em sua difícil lida cotidiana. 

    Meio irmão (Brasil, 2018), de Eliane Coster. Com Nathália Molina (Sandra), Diego Avelino (Jorge), Francisco Gomes. 

  • Papicha

    A estreante diretora Mounia Meddour compõe dois mundos que se encontram: o do idealismo das jovens estudantes, liderada por Nedja, que se recusam a aceitar os dogmas impostos pelos grupos radicais, entre eles se esconder atrás dos austeros hijabs; e a violência das ruas, marcada por atos cruéis, como uma mulher que saca a arma debaixo do hijab e atira a sangue-frio. 

    Nedja representa a juventude rebelde, que ama o país em que vive e de dispõe a lutar contra as convenções. Sua luta é simbolizada por um desfile de moda que deseja realizar na escola. As vestimentas coloridas que prepara, usando elementos como a terra (simbolismo) traz vida às jovens, às mulheres, que segundo leis incompreensíveis devem se esconder debaixo das roupas, nas casas, servindo aos homens. 

    Papicha (Argélia, 2019) de Mounia Meddour. Com Lyna Khoudri (Nedjma), Shirine Boutella (Wassila), Hilda Amira Douaouda (Samira), Yasin Houcha (Mehdi). 

  • Retrato de uma jovem em chamas

    França, século XVIII. Marianne (Noémie Merlant) desembarca em uma ilha. Ela foi contratada para pintar o retrato da jovem Héloise ( Adèle Haenel) que vive reclusa na ilha com sua mãe. O quadro será enviado para o futuro marido de Héloise, que ainda não a conhece. O processo da pintura é longo, pois atrasar o término é, de certa forma, atrasar o casamento indesejado. 

    A narrativa acompanha de forma linear o relacionamento de Marianne e Héloise, a princípio dominado pelo silêncio. As duas caminham pela ilha, contemplando a natureza, se contemplando, deixando-se levar cada vez mais pela afetividade, pela atração de duas jovens solitárias que buscam, cada uma a sua forma, a beleza da arte. Beleza que se revela em imagens sensíveis de Marianne e Héloise, entregues àquele mundo só delas, como se cada momento fosse destinado a este encontro inevitável, enquanto esperam o destino já traçado: deixar a ilha e entrar no cruel mundo determinado pelas convenções sociais da família, dos homens. Atenção para a tocante cena final na ópera, momento em que a arte conversa com essas mulheres a quem não foi permitido se entregar as suas escolhas. 

    Retrato de uma jovem em chamas (Portrait de la femme fille en jeu ,França, 2019 ), de Céline Sciamma. Com Noémie Merlant, Adèle Haenel, Luàna Bajrami.

  • Ameaça profunda

    A premissa do filme fascina e aterroriza: o desconhecido que habita as profundezas do mar pode despertar pela cobiça dos homens. Empresa constrói uma torre de acesso a onze mil metros de profundidade, com fins aparentemente de pesquisas. Logo nas primeiros momentos da narrativa, a estação não aguenta a pressão e tem 70% de suas instalações destruídas. Grupo de seis sobreviventes tem que descer até o mais fundo do mar em busca de cápsulas de ejeção para a superfície. 

    Kristen Stewart é a estrela do filme. Nora, sua personagem, guia o grupo ao lado do capitão da estação. Seus cabelos curtos e descoloridos, seu físico esguio, sua personalidade frágil e ao mesmo tempo destemida, representa o estranho que tenta se adaptar a ambientes hostis, onde a luta pela sobrevivência é a única alternativa. 

    Ameaça profunda (Underwater, EUA, 2019), de William Ewbank. Com Krister Stewart, T. J. Miller, Jessica Henwick, Vicente Casel.

  • Judy: muito além do arco-íris

    Judy: muito além do arco-íris se concentra nos meses em que a cantora se apresentou em Londres, pouco antes de morrer. Sem casa para morar, é despejada inclusive de quartos de hotel por falta de pagamento. Ela perde a guarda de seus dois filhos pequenos para o ex-marido e aceita fazer a turnê musical por Londres para tentar se recuperar financeiramente.

    A narrativa alterna entre os problemas de Judy em Londres, suas apresentações oscilam entre o sucesso e o completo fiasco em algumas noites, quando se apresenta alcoolizada e agressiva, e seu passado como atriz. São esses flashbacks que trazem à tona a crueldade do sistema de estúdios, cujos produtores exploraram o talento infantil de Judy à custa da saúde da atriz, impondo à ela jornadas excessivas de trabalho, impedindo que exercesse atividades inerentes à infância/adolescência, como ir à escola, sair com amigos, ter relacionamentos não-autorizados pelo estúdio.

    Assim como outras importantes componentes do star-system da era de ouro de Hollywood, Judy Garland pagou caro por estar sob controle de homens cuja crueldade parecia não ter limites, tudo em função do negócio chamado cinema. Cada aparição de Louis B. Mayer, todo poderoso da MGM, revela que por trás das telas o mundo mágico de Hollywood era construído através de atitudes desumanas, que destruíam as estrelas que povoavam o imaginário dos espectadores. 

    Judy: muito além do arco-íris (Judy, EUA, 2019), de Robert Gould. Com Renée Zellweger (Judy Garland), Jessie Buckley (Rosalyn Wilder), Finn Wittrock (Mickey Deane), Rufus Swell (Sid Luft), Michael Gambon (Bernard Delfont).

  • Você nunca esteve realmente aqui

    O filme traz mais um personagem que vez por outra domina narrativas: assassino de aluguel atormentado pelo passado, no caso de Joe, ex-combatente imerso nas memórias cruéis da guerra. No entanto, Joe aluga seus implacáveis tiros por causa nobre: resgatar menores das mãos de pedófilos, executando-os. 

    A trama se complica quando Joe se vê envolvido numa intrincada rede de pedofília envolvendo políticos americanos. Ao resgatar a criança Nina dessa rede, a violência explode em sequências sanguinárias e dolorosas.

    Joaquin Phoenix ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes (também prêmio de melhor roteiro para Lynne Ramsay). Sua atuação visceral apresenta um personagem que caminha irreversivelmente para a tragédia pessoal, sufocado pela realidade, pelas memórias, pelo destino, como drogas que dominam seu corpo e sua mente. 

    Você nunca esteve realmente aqui (You were never really here, EUA, 2017), de Lynne Ramsay. Com Joaquin Phoenix (Joe),  Ekaterina Samsonov (Nina), Alex Manette (Albert voto). 

  • Vidas duplas

    Ganhei meu kindle de presente de aniversário anos atrás. Relutei no início em ligar o fascinante objeto, comprar meu primeiro e-book e aderir à leitura digital. Amo os livros físicos, admirar as capas, sentir o cheiro de páginas novas, sentar-me no confortável sofá e deitar os olhos nas letras impressas. Às vezes, pago caro por esse prazer, livros no Brasil alcançam preços fora da realidade. 

    O tema de Vidas duplas é a revolução digital no mercado editorial. Alain é editor de importante empresa que prepara a transição para o mercado digital, que exige investimentos em e-books, audio livros e outras propostas. Léonard é escritor e reluta em se render a esses tempos. Selena, mulher de Alain, também enfrenta sua crise profissional: interpreta uma especialista em crises em série policial de sucesso e está cansada do trabalho repetitivo. Crises de relacionamento e casos extraconjugais pontuam a trama. 

    O interesse da trama está nos conflitos dos personagens, revelados em diálogos reflexivos quando editor, escritores, blogueiros se encontram em bares e jantares e colocam em pauta as mudanças profissionais. “Meu blog tem cinco mil acessos diários, mas ninguém lê meus livros.” ‘Com um kindle, você pode carregar sua biblioteca inteira em uma viagem.” “Eu não quero carregar minha biblioteca inteira, prefiro levar um livro leve.” Outra importante questão desses tempos virtuais aparece quando a responsável pela transição digital da editora dá lições a Alain sobre o poder dos algoritmos também no universo da literatura. 

    Hoje ligo meu kindle e leio também com prazer, no mesmo sofá confortável, afinal, “as letras são maiores”, como diz um personagem de Vidas duplas

    Vidas duplas (Doubles vies, França, 2018), de Olivier Assayas. Com Juliette Binoche (Selena), Guillaume Canet (Alain), Vincent Macaigne Léonard), Nora Hamzawi (Valérie). 

  • Lili – Minha adorável espiã

    O musical de Black Edwards gira em torno do envolvimento de Lili e Larrabee, com toques de comédia, romance, cenas de batalhas aéreas, tudo pontuado por belas canções, a maioria na inesquecível voz de Julie Andrews. O roteiro não apresenta novidades ao gênero, melhor mesmo é se entregar às canções e ao belo final, quando Lili repete o número de abertura. Impossível não se emocionar ao ouvir a música, cuja belíssima letra simboliza os obscuros tempos de guerra:

    Penso sempre que este mundo velho e triste
    Está assobiando na escuridão
    Como uma criança que sai tarde da escola 
    E bravamente atravessa o parque ao voltar para casa
    Para criar coragem e manter a noite à distância
    Sem saber exatamente o caminho a tomar
    Cantando para afugentar as sombras

    Penso sempre que o meu pobre coração 
    Desistiu de vez até que eu vejo um novo rosto
    Ou vislumbro uma nova vizinhança
    Então, me leve para casa meu amor
    Diga que os sonhos se realizam de fato
    Assobiando, assobiando, aqui no escuro com você. 

    Lili – Minha adorável espiã (Darling Lili, EUA, 1970), de Black Edwards. Com Julie Andrews, Rock Hudson, Jeremy Kemp

  • Um assunto de mulheres

    Segunda guerra mundial. Em pequena cidade do interior da França ocupada, Marie cuida de seus dois filhos pequenos enquanto seu marido está em combate. Ela é bem sucedida ao ajudar sua vizinha a fazer um aborto. Quando seu marido é dispensado devido a ferimentos, Marie tem que se virar para sustentar a família e passa a ganhar dinheiro com abortos e com aluguel de um quarto para a amiga prostituta receber seus clientes. 

    Isabelle Huppert foi premiada em festivais pelo desempenho como a jovem impetuosa e inconsequente que tenta não apenas sobreviver, mas ascender socialmente durante a guerra com atividades clandestinas. Não se vê como delinquente, é apenas seu modo de ganhar a vida e ajudar as mulheres. Em contrapartida, seu marido fecha os olhos para tudo, aceitando sem questionar o dinheiro de Marie. A crueldade e hipocrisia da guerra afloram no final, quando os homens decidem que Marie deve ser punida exemplarmente, enquanto eles mesmos enviam e executam crianças judias nos campos de concentração. 

    Um assunto de mulheres (Une affaire de femmes, França, 1988), de Claude Chabrol. Com Isabelle Huppert (Marie Latour), François Cluzet (Paul), Nils Tavernier (Lucien), Marie Brunel (Ginette).  

  • High life – Uma nova vida

    Grupo de criminosos, todos condenados à morte ou prisão perpétua, aceita participar de exploração espacial. O destino da nave é encontrar um buraco negro nos confins da galáxia. O filme é contado sob o ponto de vista de Monte (Robert Pattinson) que no início da trama está sozinho na nave com uma bebê. Narrativa em flash back elucida o destino dos outros tripulantes. 

    O olhar da diretora Claire Denis se volta para os instintos que dominam homens e mulheres enclausurados, cujo passado violento aflora e precisa ser controlado através do uso de drogas. Os tripulantes são manipulados pela inescrupulosa médica Dibbs (Juliette Binoche), cujo crime que cometeu, segundo ela mesma, é o único digno do nome. O final enigmático faz referência clara ao maior filme de ficção científica de todos os tempos: 2001 – Uma odisséia no espaço.  

    High life – Uma nova vida (High life, EUA, 2018), de Claire Denis. Com Robert Pattinson, Juliette Binoche, André Benjamin. Mia Goth, Agata Buzek. 

  • A despedida

    Billi (Awkwafina) está conversando com sua avó Nai Nai (Zhao Shuzhen) ao telefone. Ela mora em Nova York, a avó em Pequim, as duas têm uma íntima relação apesar da distância. Nessa ligação, Billie ouve sons estranhos, pois Nai Nai está em uma clínica esperando resultados de seu exame. O diagnóstico é câncer terminal no pulmão.

    A partir da notícia, que só Nai Nai não fica sabendo, a família se reúne uma última vez em Pequim para a despedida. O medo de todos é a jovem impetuosa Billi, que não consegue esconder suas emoções, revelar à avó o motivo da reunião. 

    O tom de comédia da narrativa discute temas importantes relacionados à família que se distancia. Billie mora com os pais em Nova York, tenta sem sucesso uma bolsa de estudos na Universidade. Ainda dependente dos pais, Billi se sente cobrada e sem rumo em um país estranho que roubou sua identidade: ela nem mesmo domina mais a língua chinesa. Seus tios e primo moram no Japão, também em busca de alternativas. O choque das culturas assimiladas é marca forte da narrativa, quando a família se reúne em volta da carinhosa e independente Nai Nai não sabem mais como lidar com a partida iminente. No final do filme, impossível não se entregar às imagens da China cosmopolita, moderna, vista pelos olhos de Billi de dentro do carro ao som da belíssima trilha sonora. 

    A despedida (The farewell, China, 2019), de Lulu Wang. Com Aukwafina, Zhao Shuzhen, Tzi Ma, Diana Lin, Hong Lu. 

  • A voz da lua

    É o último filme do grande Fellini. Sua despedida do cinema segue as marcas que deixou em uma das mais brilhantes filmografias da história do cinema: sonho, fantasia, surrealismo, atmosfera circense, personagens que transitam pelo mundo como se navegassem por outras dimensões.

    Ivo Salvini (Roberto Benigni) ouve vozes à noite, imaginando que um poço conversa com ele. Enquanto os outros personagens se entregam aos prazeres mundanos, como ver pela janela uma mulher se desnudando, Ivo vive entre o seu passado e as ilusões do presente, ou seja, no mundo da lua. Ele é guiado pela poesia, pelas imagens oníricas de um mundo que talvez só exista em sua mente e coração, se revela dessas pessoas únicas capazes de ouvir a voz da lua.  

    A voz da lua (La voce della luna, Itália, 1990), de Federico Fellini. Com Roberto Benigni, Paolo Villaggio, Nada Ottaviani. , 

  • Todas as mulheres do mundo

    O filme abre com Edu (Flávio Migliaccio) na praia, conversando com o espectador. O personagem divaga sobre a impossibilidade de amar, pois são muitas mulheres no mundo. O encontro de Edu com Paulo (Paulo José) em uma rua do Rio de Janeiro provoca virada na narrativa, pois os dois sentam-se em um bar e Paulo passa a contar sua história de paixão pela professora Maria Alice (Leila Diniz).

    A ideia do diretor Domingos de Oliveira era fazer dois filmes, um centrado em Edu e outro em Paulo. Acabou optando apenas pelas desventuras de Paulo tentando conquistar Maria Alice e renegar todas as suas outras mulheres. O filme tem inclusive dois momentos iniciais de créditos, em uma ousada abertura apresentando os protagonistas (é clara a influência da nouvelle-vague francesa nas estratégias narrativas ao longo do percurso). 

    “O filme segue um estilo narrativo que o Cinema Novo também prezava, evitando o plano e contraplano em favor de planos mais longos e com espaço para o improviso. Mas Todas as mulheres do mundo era um contraponto solar e descontraído (e necessário) à sisudez do movimento liderado por Glauber Rocha, que não tinha praticamente nenhum espaço para o humor ou romance. Como era de se esperar, o filme foi atacado na época como ‘alienado’”. – Renato Félix. 

    Domingos de Oliveira idealizou o filme como uma declaração de amor à Leila Diniz (seu primeiro trabalho no cinema) com quem fora casado recentemente. Cada frame parece destinado a evidenciar a beleza da atriz e a beleza do amor. Deve-se considerar que o ponto de vista narrativo é masculino, portanto sujeito às inconsequências da época, colocando Paulo como o conquistador dominante, a quem as mulheres se entregam. 

    “A idealização faz certo sentido, tendo em vista que acompanhamos a história pelo que Paulo nos conta. Quando ele não se aguenta e comete a inconfidência de contar a Edu como é Maria Alice na cama, somos obrigados a acreditar nele. Em seu próprio ponto de vista de aspirante a escritor, é natural se retratar como um exímio frasista e a amada como musa – o que vale também para o diretor-roteirista.” – Renato Félix. 

    No final, Paulo se redime. Indagado por Edu sobre a impossibilidade de amar uma mulher, Paulo afirma sua entrega à Maria Alice e ao maravilhoso fruto desse amor: a família.  

    Todas as mulheres do mundo (Brasil, 1967), de Domingos de Oliveira. Com Leila Diniz, Paulo José, Joana Fomm, Ivan de Albuquerque, Irma Alvarez, Flávio Migliaccio.

    Referência: 100 melhores filmes brasileiros. Paulo Henrique Silva (organizador). Belo Horizonte: Letramento, 2016

  • Vision

    Jeanne (Juliette Binoche), ensaísta e jornalista francesa, viaja a uma floresta do Japão. Seu objetivo é encontrar Vision, erva medicinal rara que floresce a cada 997 anos, espalhando esporos capazes de curar a angústia espiritual da humanidade. Durante a viagem, ela conhece Tomo (Masatoshi Nagase), solitário caçador que mora na floresta. 

    O filme é uma viagem imagética pela misteriosa floresta, a narrativa oscilando entre o presente e memórias dos personagens que caminham para o encontro com vision. Quando um terceiro e misterioso personagem entra em cena, Jeanne se entrega cada vez mais às memórias, à sua própria angústia. A direção de fotografia emoldura cada frame da bela floresta, como se fossem visões da beleza desse mundo místico, que exige de nós a contemplação e a entrega espiritual, sem buscar explicações.  

    Vision (Japão, 2019), de Naomi Kawase. Com Juliette Binoche, Masatoshi Nagase, Mirai Noriyama.

  • Três verões

    O primeiro verão acontece em 2016 (ano do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff), em pleno funcionamento da Operação Lava Jato. O cenário é uma luxuosa casa à beira-mar em Angra dos Reis. O empresário Edgar e sua mulher Marta recebem familiares e convidados para as festas de final de ano. Madalena, caseira do local, organiza tudo com dedicação e bom-humor. 

    Os dois verões seguintes se passam no mesmo local, com reviravoltas que refletem a realidade brasileira da elite envolta em esquemas de corrupção e os trabalhadores da luxuosa mansão tentando sobreviver. Madalena é envolvida inconsequentemente pelas investigações da polícia, enquanto alimenta sonhos utópicos de simplesmente ter um quiosque de quitutes na beira da estrada.

    Regina Casé, como sempre, conduz a narrativa com talento. Madalena busca alternativas para cuidar de todos os empregados da casa e de Seu Lira, pai de Otávio.  Destaque para a revelação de Madalena em frente à câmara, expondo com profunda tristeza a realidade de cidades como Angra dos Reis, dividida em ilhas paradisíacas, mansões e iates luxuosas, e os morros que abrigam a pobreza, onde moradores saem de casa sem saber o que vão encontrar na volta. 

    Três verões (Brasil, 2019), de Sandra Kogut. Com Regina Casé (Madalena), Otávio Muller (Otávio), Gisele Fróes (Marta), Rogério Fróes (Seu Lira). 

  • A odisseia dos tontos

    No início do filme, Fermin (Ricardo Darín) está com sua esposa e o amigo anarquista em frente à um galpão abandonado, localizado em pequena província de Buenos Aires. Fala sobre seu projeto: comprar o galpão e construir uma cooperativa que beneficie todos os moradores da cidade. Seu amigo pergunta se aquele é um bom momento, Firmin diz que é o melhor momento. Lettering indica: Argentina, 2001. 

    É o ano de uma das maiores crises financeiras da história da Argentina, quando o governo apelou para o confisco do dinheiros dos cidadãos. Firmin parte em uma jornada pela cidade, arrecadando dinheiro entre os moradores interessados que raspam suas economias para investir no projeto. A primeira reviravolta acontece quando tudo o dinheiro é depositado em uma conta bancária, na véspera do confisco. 

    Baseado no livro La noche de la usina, de Eduardo Sacheri, a trama provoca algumas reviravoltas, principalmente quando o grupo dos tontos descobre que foi ludibriado pelo gerente do banco e um inescrupuloso advogado. Buscando justiça, os tontos, liderados por Firmin, partem em uma série de atos para recuperar o dinheiro. Drama e humor mesclam a narrativa, pontuada pela crítica aos planos de governos (a exemplo do Brasil de Collor) que favoreceram a elite que, claro, são informadas antes das ações, e jogam as classes menos favorecidas no poço sem fundo. Ricardo Darín é a grande estrela do filme. 

    A odisseia dos tontos (La odisea de los giles, Argentina, 2019), de Sebastián Borensztein. Com Ricardo Darín, Luis Brandoni, Verónica Llinás,Andrés Parra, Carlos Belloso, Chino Darín, Daniel Aráoz.

  • Salve-se quem puder (a vida) 

    Com sugestões autobiográficas, Salve-se quem puder apresenta Paul Godard, diretor de cinema às voltas com a realização de um filme e o relacionamento com sua namorada, Denise, que resolve se mudar para o campo. Entre os dois, surge a prostituta Isabelle, que teve Paul como antigo cliente. A narrativa é dividida em três partes, cada uma centrada em um personagem: O imaginárioO medo e O comércio.

    O tom anárquico, criticamente sem escrúpulos sobre a sociedade, está presente em imagens perturbadoras. Em uma sequência, Isabelle atende a um empresário em seu escritório que a faz participar de orgia comandada por ele como quem dirige seus trabalhadores na linha de montagem. O cinema também não escapa ao olhar mordaz de Godard, a reflexão se interpõe durante a narrativa, abordando a indústria e os próprios caminhos do cineasta. 

    “Salve-se quem puder é um filme sobre escolhas, mas também sobre a dificuldade de ser livre por meio delas (‘Ninguém no mundo é independente. Apenas os bancos são independentes. Mas os bancos são assassinos’). É, ao mesmo tempo, um filme sobre o isolamento e sobre a necessidade do outro, num mundo tomado pela lógica absurda do capitalismo. À sua maneira contemplativa e quase naturalista, a fotografia de W. Lubtchansky e R. Berta constrói o retrato melancólico desse novo mundo. O espectador pode sentir assim a emoção contraditória desse pessimismo, dessa falta de perspectiva em torno das coisas, que reina à espera de que algo novo comece, ou de que um resto de beleza apareça.” – João Dumans

    Salve-se quem puder (a vida) (Sauve qui peut (La vie), França, 1979), de Jean-Luc Godard. Com Jacques Dutronc (Paul Godard), Isabelle Huppert (Isabelle), Nathalie Baye (Denise Rimbaud).

    Referência: Godard inteiro ou o mundo em pedaços. Eugênio Puppo e Mateus Araújo (organização). Catálogo da mostra sobre Godard – Cine Humberto Mauro: Belo Horizonte, realizada em 2015/2016. 

  • Sangue em Sonora

    Matteo chega em Ojo Prieto, cidade fronteiriça com o México, montado em um belo cavalo da raça appaloosa. Vai a igreja se confessar, pedindo perdão pelos inúmeros assassinatos que cometeu, a maioria durante a guerra. A bela mexicana Trini também está na igreja e, na saída, diz ao seu namorado Chuy Medina que foi assediada por Mateo. Ela usa o pretexto para fugir no cavalo de Matteo. 

    Esses encontros e provocações dentro e fora da igreja são o plot da narrativa, abrindo o conflito entre Matteo e o bandoleiro Chuy Medina, chefe de uma gangue em Sonora, no México. Sangue em Sonora se enquadra nos filmes de faroeste que provocaram revisões no gênero a partir do anos 50. Matteo quer se livrar de seu passado de marginal, jovem inconsequente que saiu pelo oeste em busca de fortuna. O appaloosa do título é seu trunfo para voltar para o seio da família que o criou e dar início a uma pacata vida de rancheiro. No entanto, ele deve partir novamente para acertar as contas com Medina, que se posiciona como espécie de justiceiro contra os americanos, a quem acusa de terem roubado tudo dos mexicanos. Marlon Brando, claro, por si só já vale o filme.   

    Sangue em Sonora (The appaloosa, EUA, 1966), de Sidney J.Furie. Com Marlon Brando (Mateo), John Saxon (Chuy Medina), Anjanette Comer (Trini).