Categoria: Filme

  • Gran Torino

    Gran Torino (EUA, 2008), de Clint EastwoodDaisy deita o focinho entre as patas. Seus olhos tristes se concentram no fim da escada, três degraus abaixo, seu pescoço sentindo a coleira. Na outra extremidade, a correia está amarrada no pé da cadeira de balanço ocupada por uma senhora idosa que senta-se todas as tardes na varanda para ver o movimento da rua.

    Walt Kowalski (Clint Eastwood), o dono de Daisy, se afasta lentamente e sequer volta os olhos. Dessa vez, Daisy não vai acompanhá-lo, como o faz rotineiramente, sentada no banco do carona, língua de fora, olhos extasiados ante todo aquele movimento das ruas. Walt entra na pick-up e arranca, deixando a cachorra com os olhos fixos no lance de escadas.  

    Esta bela sequência é ponto chave no conflito do filme, como resumo do perfil psicológico do velho Walt. Ele mora sozinho num bairro de Detroit tomado por imigrantes. Afastado da família, ranzinza com os filhos e netos, indesejável para os vizinhos devido ao preconceito que nutre por negros e imigrantes. É veterano da guerra da Coréia, carrega lembranças traumáticas deste passado, mas parece não se importar com isso. Tem armas em casa que não hesita em usar ao menor sinal de ameaça. Quando conhece um jovem asiático, também deslocado do mundo em que vive, Walt começa a rever seu comportamento. Mas as artimanhas do roteiro indicam um desfecho violento.

    Tudo indica que Walt Kowalski é um homem comum. É o velho solitário que sente a presença do fim após a morte da mulher. É incapaz de se relacionar com a família, seu afeto reprimido é direcionado para a cachorra Daisy, a quem alimenta e afaga com carinhos enternecedores. Gasta seu tempo em tarefas rotineiras. Corta cuidadosamente a grama do jardim. Trabalha na garagem com as inúmeras ferramentas colecionadas durante a vida. Senta-se na varanda no fim do dia para fumar e tomar cerveja. Entabula conversas superficiais com os colegas de bar. Lava e encera com paixão seu carro Gran Torino 72.    

    Basta olhar na minha rua, na sua, na nossa própria família, para nos depararmos com personagens assim. Experimente entrar no bar de um bairro de classe média, final de tarde: Kowalskis estão reunidos nas lembranças do passado. É claro, não andam armados. Mas é nesse ponto que reside o poder do cinema de um diretor apegado às tradições.

    O Walt Kowalski de Clint Eastwood é o legítimo personagem do cinema clássico. É o cidadão comum que enfrenta situações limites, muitas vezes por puro acaso, e se transforma. Um homem perseguido que luta para salvar sua própria vida e das pessoas a quem deve proteger. Não faz isso por heroísmo ou coragem, faz por necessidade.   

    Alfred Hitchcock, John Ford, Frank Capra são grandes nomes desse cinema. Criaram personagens comuns em inúmeros filmes que em determinados momentos, movidos pelas circunstâncias, se transformam em heróis, mártires, criminosos.

    Clint Eastwood é o último representante deste cinema. Um diretor que ainda busca no passado a beleza de um cinema que vai sendo vencido aos poucos. Vencido por personagens superficiais, pela tecnologia digital, por ação desprovida de sentido para seus atores, por coreografias insanas de morte e violência. Uma cena tão simples quanto o cão se despedindo de seu dono me faz pensar que Clint Eastwood é o diretor que ainda traz sentido para o cinema.

  • Othelo

    A tragédia de Othello já foi encenada inúmeras vezes no cinema. Othello, o mouro de Veneza, se casa com a bela Desdêmona. Iago nutre pelo mouro ódio incompreendido e passa a caluniar Desdêmona, acusando-a de infidelidade com o tenente Cássio.

    As palavras de Shakespeare se juntam às imagens de Orson Welles e o espectador sabe que o resultado é deslumbre. A câmera virtuosa de Welles, associada à espetacular fotografia em preto e branco, confere ao filme um resultado estético poucas vezes visto no cinema. A angústia, sofrimento, dúvida e remorso de Othelo se traduzem em ângulos de câmera oblíquos, rostos recortados na penumbra, sons de trovões, sombras de grades, janelas e outros símbolos que anunciam o purgatório do mouro.

    O início de mais uma obra-prima de Welles, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, já seduz os olhos: o funeral de Othello e Desdêmona, imagens difusas em ângulos inusitados comprovam, logo de cara, a genialidade narrativa, técnica e estética de Orson Welles. Sublime estampado frame a frame como a dizer que cinema é, apesar da complexa beleza do texto de Shakespeare, antes de tudo, imagem.

    Othello (The tragedy of Othello: the moor of Venice, EUA, 1952), de Orson Welles. Com Orson Welles, Michael MacLiammóir, Suzanne Cloutier.

  • Por um punhado de dólares

    A trilogia do diretor Sergio Leone com Clint Eastwood é composta de Por um punhado de dólares (1964). Por uns dólares a mais (1965) e Três homens em conflito (1966). 

    Em Por um punhado de dólares, Clint Eastwood interpreta Joe, pistoleiro que chega a uma cidade mexicana comandada por duas quadrilhas rivais. Terra sem lei, sem ordem, sem mocinhos, característica presente em todos os filmes de Leone deste período. O próprio Joe é um pistoleiro sem escrúpulos, muda de um lado para o outro em troca de dólares. É o herói sem caráter.

    Este olhar italiano sobre o oeste americano ajudou a reconfigurar o gênero faroeste . No oeste bravio, selvagem, armado até os dentes, todos matam por interesse. Alguns por um pedaço de terra, outros por cabeças de gado, um cavalo, uns míseros dólares ou por uma noite com uma bela mulher. São pistoleiros sem nome, sem passado, sem futuro, eternizados pela união de dois nomes que fazem parte da cultura cinematográfica: Sergio Leone e Clint Eastwood.

    Por um punhado de dólares (Per un pugno di dollari, Ale/Esp/Itália, 1964).

  • Inverno de sangue em Veneza

    Inverno de sangue em Veneza (Don’t look now, Inglaterra, 1973), de Nicolas Roeg, é classificado como dos melhores do terror de todos os tempos. O filme transcende esta simplificação, difícil avaliar se, inclusive, faz parte do gênero. Drama, suspense, terror, incursão psicológica, experimentação de linguagem, tudo se mistura na narrativa de forma arrebatadora.

    Na primeira sequência, a filha de John Baxter (Donald Sutherland) e Laura Baxter (Julie Christie) morre afogada em um pequeno lago no quintal da casa. A sequência é marcada por um jogo de cores, trabalhando o vermelho como elemento simbólico que domina as principais cenas de suspense. A montagem paralela, fragmentada, é aula de suspense psicológico, outra marca que se estende em vários momentos.

    Após a tragédia, John Baxter vai trabalhar na restauração de uma igreja em Veneza. Nas vielas sujas e escuras, ele vê, em relances, a imagem de uma garota com capa vermelha, a mesma que sua filha usava ao morrer. Laura, tentando se recuperar do trauma, se envolve com duas irmãs, uma delas com poderes mediúnicos. Laura é avisada que o casal deve deixar Veneza, pois corre perigo.

    As visões de John, bem como acontecimentos simples nas vielas e canais de Veneza, se sucedem como premonições. O final é inesquecível, não pelo clímax do suspense ou do terror, muito mais pela imediata regressão que a mente do espectador faz nas imagens fragmentadas que vivenciou ao longo do filme, despertando para a magia da narrativa cinematográfica nas mãos de mestres do roteiro, da direção, da direção de arte, da montagem.

  • Home – Nosso planeta, nossa casa

    Home – nosso planeta, nossa casa (Home, França, 2009), de Yann Arthus-Bertrand, começa com imagens que sugerem a formação da terra. Narração didática explica a formação dos oceanos, dos continentes, o surgimento da vida. A narrativa sucede lentamente, num tom quase professoral. Esta lentidão tem como propósito dizer dos bilhões de anos necessários à evolução da terra e das espécies. É a partir do domínio da espécie humana, do homo-sapiens, que o documentário ganha ritmo ágil e crítico.

    Yann Arthus-Bertrand produziu o documentário entremeando imagens captadas por satélites, que compõem grande parte do filme, com filmagens da natureza e do reino animal, captadas pela equipe de produção. Um giro por 54 países de todos os continentes.

    O objetivo do filme é mostrar o aceleramento da destruição do meio ambiente provocado pela intervenção do homem. A conclusão é assustadora. Foram necessários 4 bilhões de anos para a evolução da terra e da vida, nos últimos 50 anos o homem está destruindo a terra. Apenas 50 anos de intervenção foram necessários para atingirmos o alerta vermelho. Segundo o filme, temos muito pouco tempo para tentar reverter o quadro.

    O contraste das imagens com a narração impressiona. A câmera voa pelas terras de Israel e pelo estado do Colorado, nos EUA, enquanto a locução feminina informa que importantes rios mundiais, como o Jordão e o Colorado não deságuam mais no mar. Secam antes de chegar.

    Navio cruza o oceano no meio da infinidade de blocos de gelo. Há menos de 10 anos esse navio não conseguiria navegar por aquela região. Na Groenlândia, a câmera mostra bela corrente de água percorrendo o deserto de gelo até se perder na vala. Cientistas pensavam que essa água congelaria novamente ao atingir as profundezas do gelo. Engano. Ela está desaguando no oceano, efeito do aquecimento global, aumentando o nível dos oceanos. Cidades costeiras vão desaparecer até o final do século.

    O paradoxo é evidente durante todo o filme. A narração, sempre com dados alarmantes, quebra a beleza das imagens. O desenho arquitetônico de Dubai é mostrado do satélite, destacando a impressionante tecnologia aplicada para construir ilhas artificiais no mar. Prédios, hotéis, tudo aponta para o deslumbramento diante do poder do homem em transformar a natureza. “O sol brilha nesta cidade durante o ano inteiro, mas não se vê uma placa de captação de energia solar.”

    Questões importantes são levantadas com relação ao consumo sustentável. O petróleo está acabando. A água está sendo minada pela produção de grãos e rações destinados a alimentação dos animais que vão ser abatidos para alimentar o homem. Regiões pesqueiras nos oceanos estão vazias. Os recursos minerais vão se esgotar completamente nos próximos anos.

    O filme termina com nota de otimismo, relatando ações aplicadas em diversos países para proteger o meio ambiente. Destaque para a Costa Rica que acabou com o exército nacional e passou a aplicar o dinheiro outrora gasto na militarização em ações de preservação ambiental. Infelizmente, não é exemplo que vai ser seguido. A natureza do homem é destruir e nada mais lógico do que investir em ferramentas para acelerar esta destruição.

  • Os visitantes da noite

    O fantástico é a tônica deste poético filme de Marcel Carné, dos grandes nomes do cinema francês de todos os tempos. Na Idade Média, os menestréis Gilles e Dominique chegam ao castelo do Barão Hughes durante os preparativos do casamento de Anne, filha do Barão, com Renaud. Eles carregam uma maldição e representam o diabo, apesar de pequenos atos bondosos. O objetivo dos dois é iniciar um jogo de sedução. Dominique, com ar andrógino, seduz o Barão e Renaud, provoca um combate entre os dois. No entanto, Gilles e Anne se apaixonam e esta rebeldia provoca a visita do diabo em pessoa ao castelo.

    Os visitantes da noite é alegoria ao nazismo. A resistência de Gilles e Anne contra o totalitarismo do Diabo soa como grito de liberdade contra Hitler e os regimes fascistas que dominavam a Europa. É um filme de belas cenas, quase todas associadas ao amor do menestrel por Anne: a música que ele canta no início, o passeio dos amantes pelos jardins, o melancólico Gilles acorrentado, a poética cena final, quando o amor e a liberdade se unem de forma definitiva.

    Os visitantes da noite (Les visiteurs du soir, França, 1942), de Marcel Carné. Com Arletty (Dominique), Marie Déa (Anne), Alain Cuny (Gilles), Fernand Ledoux (Hughes), Jules Berry (O diabo), Marcel Herrand (Renaud).

  • Era uma vez no oeste

    O diretor italiano Sergio Leone (1929-1989) perguntou a Clint Eastwood se ele queria trabalhar em seu novo filme ao lado de Eli Wallach e Lee Van Cleef. Os três estrelaram o mega sucesso de Leone Três Homens em Conflito (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, Itália, 1966). Clint Eastwood perguntou, “seremos protagonistas novamente?”. Sergio Leone respondeu, “não, vocês vão morrer nos dez primeiros minutos do filme”.

    A ideia não vingou e três atores desconhecidos morreram no começo de Era Uma vez no Oeste (Once Upon a Time in the West, ITA/EUA, 1969). Outra proposta de Sergio Leone era para a primeira cena de Jill, ex-prostituta de New Orleans e personagem central da trama. Segundo Leone, “uma mulher chega de trem e a câmera está bem baixa na plataforma e você vê o trem passar e parar. Com a câmera bem baixa você vê a porta do vagão se abrir. Então você vê um vestido e a câmera está embaixo do vestido e tudo fica escuro. É uma mulher. E ainda não decidi se ela está usando calcinhas. Ela é Claudia Cardinale.”

    Não aconteceu. Claudia Cardinale disse que isso é lenda, que seria estúpido e ridículo. Era uma vez no oeste é um clássico, pontuado por cenas antológicas: a abertura na estação de trem, um surpreendente Henry Fonda assassinando uma família a tiros, o duelo final entre Charles Bronson e Henry Fonda. A primeira cena em que Claudia Cardinale aparece, fruto da genialidade do diretor.

    Imagem difusa misturada com fumaça. Plano fechado de frente no trem chegando na estação. Claudia Cardinale aparece na porta do trem, de vestido e chapéu – a mulher do leste – tem um sorriso nos lábios. Desce as escadas, anda pela plataforma à procura de alguém. Caminha pela plataforma ao lado de várias pessoas. A estação movimentada. Ela espera. Olha para o relógio na parede. Close em seu rosto. A música de Ennio Morricone começa a tocar. Ela desiste de esperar. Caminha até o hall de entrada da estação, Entra. A câmera não entra, segue mostrando a parede até parar na janela. A câmera parada na moldura da janela mostra Claudia Cardinalle atravessando a entrada, pedindo informações ao funcionário. A atriz sai pela porta do outro lado. Pelo vidro da porta vê-se a cidade ao fundo. A câmera sobe pela parede do cômodo, passa pelo telhado velho e desgastado. A inesquecível música de Ennio Morricone cresce, toma conta da cena. À medida que a câmera passa pelo telhado, em direção ao céu, vê-se a cidade em construção do outro lado da estação de trem: pessoas, cavalos, charretes, poeira, Claudia Cardinale caminhando pela rua. A visão do oeste bravio e desolado para uma mulher do leste. O oeste de Sergio Leone, uma lenda.

  • Guerra ao terror

    O cenário é Bagdá, ocupada pelos americanos. Pequeno robô sobre esteiras anda pela rua deserta, ao lado de um trilho, até chegar a um embrulho. Três soldados controlam o robô à distância e visualizam a potente bomba encontrada pelo dispositivo. Os soldados fazem parte do esquadrão antibombas do exército americano, sua função é localizar e desarmar os artefatos, incluindo terroristas suicidas.

    O robô não consegue terminar a tarefa e um dos soldados deve substituí-lo. Vestido com pesados trajes especiais, o sargento caminha lentamente pela rua. Os companheiros vigiam cada movimento suspeito que pode vir da janela, da rua lateral, de trás do carro, de dentro do açougue. A narrativa é seca, sem trilha sonora, se ouvem apenas os passos do soldado, sua respiração, os movimentos nervosos dos companheiros – suspense sem fim, ampliado pelos cortes bruscos e pela câmera tremida.

    É o tom de Guerra ao terror (The hurt locker, EUA, 2008), de Kathryn BigelowCada missão do esquadrão é uma longa, angustiante seqüência. A realidade do exército inseguro, pisando em território inimigo, é evidenciada através da narrativa fílmica. A lentidão das cenas. A ausência de trilha sonora. O terror estampado nos rostos dos soldados que não sabem de onde vai sair o próximo tiro. A câmera que às vezes perde o enquadramento e quando volta se defronta com o atirador solitário ou o homem-bomba. Um simples iraquiano segurando a câmera de vídeo em direção ao soldado assume ar do mais perigoso atirador de elite.

    O sargento William James (Jeremy Renner) é o especialista em desarmar as bombas e age como suicida. Na solidão do quartel, se entrega à sua impotência diante da guerra. JT Sanborn (Anthony Mackie) é o atirador de elite. Fica na retaguarda e seu aparente controle sucumbe nos momentos mais dramáticos, revelando o desespero naquela guerra inútil. Owen Eldridge (Brian Geraghty) é o inseguro soldado que completa a equipe. Nunca sabe quando atirar, não esconde o medo e passa por sessões de terapia para vencer seu próprio conflito.

    Distante dos filmes sobre missões heróicas que caracterizam o cinema de guerra americano, Guerra ao terror mostra que o único heroísmo para os soldados no Iraque ocupado é terminar mais um dia e contar o tempo para sair daquele inferno. Cada missão é um jogo de esconde-esconde nas ruas, nos prédios da cidade, no deserto. A diretora Kathryn Bigelow deixa o espectador entrar neste jogo de paciência, angústia e medo. Durante um ataque no deserto, Sanborn fica tempo interminável com o fuzil apontado para um iraquiano morto na janela, até ter certeza de que não há mais atiradores. O rosto sujo de areia, a garganta seca, os olhos fixos no alvo, o dedo preso no gatilho, é um soldado no limite.

    Kathryn Bigelow compôs, com seu olhar feminino, dos mais aterradores retratos da guerra do Iraque. James, Sanborn e Owen sabem que a destruição pode estar escondida no porta malas de um carro ou no corpo de uma criança. Para os soldados, o dia-a-dia deste tormento é o terror da guerra.

  • Era uma vez em Tóquio

    Casal de idosos viaja a Tóquio para visitar os filhos. No entanto, a vida agitada da metrópole é pretexto para que os filhos não dediquem atenção aos pais. Somente Noriko, a nora, se dispõe a acompanhar os sogros. Esta história simples revela uma obra-prima do cinema.

    O cinema peculiar de Ozu trabalha com o minimalismo da linguagem. Os planos são estáticos. A câmera está sempre baixa e distante dos personagens, evitando destacar as emoções.  Imagens dos personagens se alternam com detalhes da paisagem e do ambiente urbano, num jogo narrativo calmo, induzindo à contemplação da vida que transcorre.

    “Ozu utiliza pillow shots como as pillow words da poesia japonesa, separando suas cenas com imagens breves, evocativas da vida cotidiana. Ele aprecia trens, nuvens, fumaça, roupas penduradas na corda, ruas desertas,  pequenos detalhes da arquitetura, estandartes inflados pelo vento (ele próprio pintou a maioria dos estandartes de seus filmes).” – Roger Ebert

    A simplicidade do cinema de Ozu ataca as relações familiares, marcadas pela ausência, pelas desculpas, pela displicência no trato com os idosos. Os filhos do casal Hirayama passam o tempo buscando pretextos a ponto de enviar os pais para um spa no litoral. Resignados, os velhos voltam para a cidade natal.

    “Será que alguém vai ver um filme para observar o estilo? Vai, sim. Um estilo refinado e elegante como o de Ozu coloca as pessoas no primeiro plano; focaliza as minúcias da vida diária. Seu estilo é o mais humanista de todos, ao remover toda a maquinaria de efeitos e montagens, preferindo nos tocar pelos sentimentos humanos e não pela mecânica da técnica narrativa.” – Roger Ebert

    Na parte final do filme, quando a família se reúne para o velório da mãe, acontece uma das grandes cenas do cinema. Kyoto, a filha caçula, está sentada no chão da casa. Ela não transparece a tristeza e pergunta impassível a Noriko: “A vida não é uma decepção?”. Noriko olha para a câmera, sua resposta é simples e direta: “Sim, ela é.”

    Era uma vez em Tóquio (Tokyo monogatari, Japão, 1953), de Yasujiro Ozu. Com Chishu Ryu (Shukishi Hirayama), Setsuko Hara (Noriko Hirayama), Chieko Higashiyama (Tomi Hirayama), Kyoto Kagawa (Kyoko).

    Referência: Grandes filmes. Roger Ebert. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006

  • Equus

    Sidney Lumet é dos diretores mais intrigantes e talentosos surgidos a partir dos anos 50 no cinema americano. O diretor aprendeu na TV ao vivo e levou para o cinema um estilo minimalista: poucos atores, cenários simples, movimentos de câmera contidos, decupagem clássica, com planos longos e efeitos de transição tradicionais. A maioria de seus filmes são adaptações de peças teatrais, reforçando seu apego ao texto e ao trabalho de interpretação de atores.

    Equus é dos mais polêmicos e difíceis filmes de Sidney Lumet. O filme começa com narração aparentemente sem sentido do Dr. Martin Dysart, discorrendo sobre questões psicológicas. O espectador acompanha em flashback os dilemas do Doutor durante o tratamento de Alan Strang, jovem psicótico acusado de furar os olhos de seis cavalos de raça na estrebaria na qual trabalhava. As sessões levam a um conflito entre médico e paciente, mentes se cruzam em pontos tortuosos. Repressão e sexo estão na base dos conflitos. A narrativa segue os meandros de mentes perturbadas por estas questões a ponto do  Dr. Dysart e de Alan Strang se confundirem. Richard Burton em uma de suas melhores interpretações. Sidney Lumet comprovando seu talento em filmes psicológicos, intimistas.

    Equus (Inglaterra, 1977), de Sidney Lumet. Com Richard Burton (Dr. Martin Dysart), Peter Firth (Alan Strang), Jenny Agutter (Jill Mason).

  • Infâmia

    Karen Wright e Martha Dobie, amigas dos tempos de faculdade, dirigem uma escola para meninas em uma cidade do interior. Karen está noiva do médico Joe Cardin, Martha vive às voltas com a tia Lily Mortar e a administração da casa. Certa noite, as duas amigas discutem e são observadas à distância por Mary, aluna dissimulada, que tenta a todo custo sair da tutela das professoras.

    Infâmia, baseado em peça teatral de Lillian Hellman (autora do roteiro) abre a discussão sobre os perigos de fatos e versões a partir do olhar infantil. Ao juntar olhares e fragmentos de diálogos, a menina Mary acusa as professoras de serem amantes. O resultado é a discriminação em cadeia, a sociedade destilando preconceitos diante da menor suspeita.

    O filme é das atrizes: Audrey Hepburn revela-se a cada close, um misto de ingenuidade e coragem à medida que os fatos se desenrolam. Sua caminhada altiva no final do filme diante das pessoas incriminatórias é dos grandes momentos do cinema clássico americano. A pungente declaração de amor de Shirley MacLaine é dos grandes momentos da atuação do cinema de todos os tempos.

    Infâmia (The children’s hour, EUA, 1961), de William Wyler. Com Audrey Hepburn (Karen Wright), Shirley MacLaine (Martha Dobie), James Garner (Dr. Joe Cardin), Miriam Hopkins (Lily Mortar), Fay Bainter (Amelia Tilford), Karen Balkin (Mary Tilford), Veronica Cartwright (Rosalie).

  • O sopro no coração

    Laurent Chevalier (Benoit Ferreux) tem 15 anos e está descobrindo tudo inerente a esta idade, principalmente a sexualidade. É levado a um bordel pelos irmãos mais velhos, tenta conquistar as jovens da sua idade na escola e em festas adolescentes. Quando descobre que está com doente, passa uma temporada com sua jovem e bela mãe (Léa Massari) em uma estação climática.

    O sopro no coração é, ao mesmo tempo, um filme carregado de ingenuidade cotidiana, representada pelas brincadeiras de Laurent, e ousado. As incursões livres dos jovens pelo sexo são significativas do cinema deste início dos anos 70; a mãe de Laurent também é fruto de seu tempo, mulher livre, emancipada, que se entrega aos prazeres sem culpa ou remorso. “O momento central do filme – que gerou problemas com o governo francês – é o ato incestuoso entre Laurent e sua mãe, filmado com grande sutileza e discrição por Malle. Audaciosamente, ele não o trata como uma fonte de culpa e trauma, mas como um evento amoroso e libertador, a ser recordado (como a mãe de Laurent lhe diz) ‘não com remorso, mas com carinho… como algo belo’”.

    O sopro no coração (Le souffle au coeur, França, 1971), de Louis Malle. Com Léa Massari, Benoit Ferreux, Daniel Gélin, Michael Lonsdale, Ave Ninchi, Gila von Weitershausen.

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Os sapatinhos vermelhos

    É dos mais deslumbrantes musicais de todos os tempos. Victoria Page (Moira Shearer), jovem aspirante a bailarina, cai nas graças do empresário Boris Lermontov (Anton Walbrook). Após performance antológica de Victoria em um musical baseado na história de Hans Christian Andersen, Bóris decide transformá-la na maior bailarina de todos os tempos, mas ela deve abdicar de sua vida pessoal e se dedicar integralmente à arte.

    Passo a passo, mestre e pupila desenvolvem relação de amor e ódio, encaminhando a narrativa para a tragédia anunciada pelo próprio balé que consagrou Victoria.  Os números musicais são repletos de experimentações pictóricas, coreografia, direção de arte e interpretações solos e coletivas dos dançarinos em perfeição estética raras vezes vistas no gênero.

    “A heroína é cercada por telas de fundo estranhas, dignas de contos de fadas, para o exuberante balé, porém, o desenhista de produção Hein Heckroth, o diretor de arte Arthur Lawson e o fotógrafo Jack Cardiff trabalham duro para tornar as cenas fora dos palcos aparentemente normais tão ricas e exóticas quanto os momentos de destaque no teatro. (…). Contando com cores brilhantes maravilhosas, uma seleção de músicas clássicas que fogem ao clichê e um viés sinistro que captura perfeitamente a ambiguidade do tradicional, ao contrário dos contos de fadas da Disney, esta é uma obra-prima exuberante.”

    Os sapatinhos vermelhos (The red shoes, Inglaterra, 1948), de Michael Power e Emeric Pressburger. Com Anton Walbrook, Marius Goring, Moira Shearer, Robert Helpmann.

    Fonte: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Núpcias reais

    Daqui a duzentos anos, Núpcias reais ainda vai ser lembrado por uma única sequência. Tom Bowen, após rasgar do cartaz a fotografia de Ann, está sozinho em seu quarto de hotel. Começa a ensaiar alguns passos de dança e, de repente, sobe dançando pelas paredes. Dança no teto, no chão do quarto, em todas as paredes, novamente no teto, mágica pura que só o cinema e os pés de Fred Astaire eram capazes.

    A história do filme é tênue, como muitos dos musicais protagonizados por Astaire. Os irmãos dançarinos Tom e Ellen Bowen chegam a Londres para uma série de apresentações no teatro, parte das festividades do casamento real. Amantes da independência, os irmãos passam a vida em casos furtivos, mas se apaixonam e vivem o conflito de se entregarem à vida de casados.

    Esta comédia romântica é motivo para boas canções interpretadas por Jane Powell, danças do par de protagonistas e números solos de Fred Astaire. O ator estipulava em contrato que todos os seus filmes deveriam ter apresentações solo. Outra característica é que Astaire exigia que a câmera ficasse estática. “Ou a câmara dança, ou eu danço”, dizia. É exatamente nestes números solos que Astaire fazia suas mágicas, dançando de forma improvável com objetos, adereços ou paredes.  

    “Ficam canceladas também as leis físicas: nos seus filmes, dança-se no teto e nas paredes, como em Núpcias reais (1951). Dança-se de patins num Central Park magicamente livre de perigos, como em Vamos dançar (1937). Dança-se com a própria sombra (não uma, mas três, enormes, refletidas em silhuetas no fundo do palco), como em Ritmo louco – em que Astaire as derrota em velocidade, porque elas não conseguem acompanhá-lo. E dança-se em câmara lenta, como em Desfile de Páscoa, numa inacreditável radiografia não de um corpo em movimento, mas do movimento desse corpo. Ou dança-se tendo como coadjuvante nove fredastaires em miniatura, como em Romance inacabado (1946) – mas ninguém pode reclamar de um excesso de Astaires. Dança-se com cabides, manequins de vitrine, aparelhos de ginástica e com o que mais houver à mão. E, para que Astaire faça de seu palco uma praia noturna, são suficientes, como em Ver, gostar e amar (1952), uma lua de spotlight e a areia tirada de um chapéu.”

    Referência: Saudades do século XX. Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

    Núpcias reais (Royal wedding, EUA, 1951), de Stanley Donen. Com Fred Astaire (Tom Bowen), Jane Powell (Ellen Bowen), Peter Lawford (John), Sarah Churchill (Ann).

  • Os primos

    959 é um ano importante na história do cinema francês e mundial. Três jovens diretores, saídos da prestigiada revista de crítica Cahiers du Cinéma, lançam filmes que praticamente inauguraram a nouvelle-vague francesa: Jean-Luc Godard (Acossado), François Truffaut (Os incompreendidos) e Claude Chabrol (Os primos).

    Os primos narra as incursões pelas noites parisienses de duas personalidades contrastantes: Paul é o bon-vivant, afeito às relações fugazes, anfitrião de festas em seu apartamento; Charles, o primo vindo do interior da França, é romântico, estudioso, enquanto tenta se situar em Paris, não esquece de escrever cartas para a mãe. Charles se apaixona por Florence, uma das mulheres de Paul, e este triângulo amoroso sela o destino dos primos.

    O filme reflete o estilo destes primeiros anos da nouvelle-vague, retratando a juventude irrequieta, dançando no limiar entre as noites descompromissadas da capital francesa, a intelectualidade e a consciência política. O impacto do final faz pensar neste cinema repleto de surpresas.

    Os primos (Le cousins, França, 1959), de Claude Chabrol. Com Gérard Blain (Charles), Jean-Claude Brialy (Paul), Juliette Mayniel (Florence), Claude Cerval (Clóvis).

  • Os pássaros

    Durmo pouco. Acordo diariamente por volta das cinco horas, mesmo indo deitar sempre depois da meia-noite. Meus estudos, do segundo grau em diante, foram em escolas noturnas, incluindo faculdades. Isso ajuda a entender esse comportamento do corpo, esse acostumar com poucas horas de sono. Eu chegava em casa sempre por volta de meia-noite e antes das seis da manhã já estava de pé para o trabalho.

    Mas as causas antecedem a esta labuta diária. Passei noites acordado na infância, assistindo às sessões da madrugada na TV. No início da noite, comerciais anunciavam: Os brutos também amam, El cid, Lawrence da Arábia, Vera Cruz, Planeta proibido, O planeta dos macacos, Psicose….As minhas primeiras lembranças dos clássicos hollywoodianos remontam a este hábito, sozinho na sala, TV em preto e branco, o fascínio vencendo o sono.

    Imagens que ficaram, como a sequência de Melanie Daniels (Tippi Hedren) presa na cabine telefônica durante o ataque dos pássaros a Bodega Day. De repente, um homem bate no vidro da cabine, o rosto ensangüentado, os olhos implorando por ajuda. Sempre associei o cinema de Hitchcock a esta cena, mais até do que à consagrada seqüência do chuveiro em Psicose. É a imagem que ficou, junto com tantas outras, nos olhos da criança insone.

    Completo minhas impressões com depoimento de Hitchcock sobre esta cena.

    “No início do filme, temos Rod Taylor na loja onde se vendem os pássaros. Ele agarra o canário que fugiu, guarda-o em sua gaiola e, rindo, diz a Tippi: ‘Recoloco você na sua gaiola dourada, Melanie Daniels’. Acrescentei essa frase à filmagem porque achei que elucidava a personagem da moça rica e mimada. Assim, mais tarde, durante o ataque das gaivotas no casarão, quando Melanie Daniels se refugia na cabine telefônica envidraçada, minha intenção é mostrar que ela é como um pássaro numa gaiola. Já não se trata de uma gaiola dourada, mas de uma gaiola de infelicidade, e isso marca também o início de sua prova de fogo. Assiste-se à reversão do velho conflito entre os homens e os pássaros, e dessa vez os pássaros estão do lado de fora e o humano está dentro da gaiola. Então, quando filmo isso, não espero que o público entenda totalmente.”

    Os pássaros (The birds, EUA, 1963), de Alfred Hitchcock. Com Rod Taylor, Tippi Hedren, Suzanne Pleshette, Jessica Tandy.

    Referência: Hitchcock/Truffaut. Entrevista. François Truffaut e Helen Scott. São Paulo: Companhia das Letras, 2004

  • No tempo das diligências

    A diligência corta território sob ameaça de ataque de uma nação indígena. À bordo, personagens distintos: um banqueiro corrupto, um perigoso jogador de cartas, um vendedor de uísque, um médico alcoólatra, uma dama casada com militar, uma prostituta e Ringo Kid, o pistoleiro.

    Esta plêiade de personagens representa o nascimento do faroeste psicológico. “Com efeito, no filme No tempo das diligências os estereótipos que representam os personagens transformaram-se em arquétipos, em padrões de comportamento e atitudes, em vectores que suportam um determinado ideal do universo humano que habita na fronteira.”

    À medida que o confronto entre os índios e a diligência se anuncia, os personagens evoluem ou se desintegram, representando a diversidade que formou a sociedade americana a partir da conquista do oeste. O médico deve vencer seu alcoolismo momentaneamente para trazer a vida; a jovem dama deve recuar em seu preconceito; o banqueiro insiste em sua sandice corrupta; o jogador não se despe de sua classe nem mesmo no último suspiro. E, acima de todos, o amor de Ringo e Dallas acontece como a dizer que o oeste é a conjunção das diferenças e das igualdades, do selvagem e do terno.

    Orson Welles assistiu a No tempo das diligências cerca de 30 vezes antes de dirigir o maior filme de todos os tempos: Cidadão Kane. Buscava inspiração na revolução cinematográfica anunciada por John Ford.

    “A este respeito vale a pena se deter um momento em quatro cenas que nos mostram a maturidade estilística de Ford. A primeira (…) é a que introduz de modo incisivo e chocante a John Wayne. O zum que realiza a câmera para passar do plano meio para o primeiro plano de Ringo Kid representa uma das apresentações de um personagem mais memoráveis num filme. Tanta é a rapidez do movimento que a câmera não consegue conservar o foco. A segunda cena (…) trata-se de um dos primeiros exemplos de escritura cinematográfica baseada na profundidade de campo como método narrativo anterior à própria montagem. Nela John Wayne observa primeiro à contraluz a silhueta recortada de Claire Trevor no final do corredor, e a seguir acende um cigarro com o candeeiro que leva Chris. Graças à iluminação do corredor e ao jogo da lente, desta vez perfeito, que permite manter focalizado o primeiro plano e o fundo ao mesmo tempo, esta cena representa, sem dúvida, um dos momentos artísticos mais belos do filme. A terceira cena que nos interessa é, evidentemente, a do ataque à diligência. (…) O diretor desafia as regras narrativas (filma tanto de um lado como do outro da diligência sem manter o eixo da filmagem, motivo pelo qual às vezes parece que a diligência vai da esquerda à direita e às vezes no sentido contrário) para reforçar a espetacularidade do momento, visto que para Ford o importante é intensidade do plano antes que a coerência do conjunto.”

    A quarta cena a que se referem os autores da coletânea “Os clássicos do cinema” é a elipse final. No momento do duelo entre Ringo Kid e os três pistoleiros à noite, na cidade, a câmera corta abruptamente para o rosto de Dallas que espera em uma rua paralela. John Ford subverte a lógica narrativa, não deixando o espectador presenciar o esperado duelo. O som dos tiros com a câmera fixa no rosto de Dallas, seguido do silêncio, joga o espectador na direção mais importante: a relação que se criou entre o pistoleiro e a prostituta.

    A angústia expressa no rosto de Dallas é a mesma angústia do espectador que aprendeu a amar o faroeste. Privado da clássica cena do duelo, só resta a ele prender a respiração e esperar, por alguns segundos, o pistoleiro, este personagem eterno, emergir das sombras.

    No tempo das diligências (Stagecoach, EUA, 1939), de John Ford. Com John Wayne (Ringo Kid), Claire Trevor (Dallas), Thomas Mitchell (Doc Boone), John Carradine (Hatfield), Andy Devine (Buck), Donald Mead (Samuel Peacock), Louise Platt (Lucy Mallory), George Bancroft (Wilcox).

    Referência: Os clássicos do cinema. Juan D. Castillo (editor). Volume 1. Barcelona: Altaya, 1997.

  • Os inconfidentes

    A partir dos anos 70, parte do cinema brasileiro foi gerido pela intervenção do Estado, seja através de financiamento, com a criação da Embrafilme, seja através da censura. Proliferam dois tipos de produção: a pornochanchada, cinema praticado com baixos recursos na Boca do Lixo paulista, e filmes com temáticas históricas.

    Os inconfidentes se enquadra no segundo eixo, com um diferencial: é dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, dos principais articuladores do Cinema Novo, portanto, rebelde por natureza. Com roteiro do próprio diretor e de Eduardo Escorel, os diálogos foram criados a partir de material dos autos da devassa e versos de Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Cecília Meireles. O filme é ousado na proposta ideológica e na concepção de linguagem cinematográfica.

    A narrativa é centrada nos intelectuais que participaram da idealização do levante. É quase teatro filmado, com os atores declamando versos entre eles e, por vezes, se voltando para a câmera em conversa com o espectador. A montagem fragmentada, com idas e vindas temporais, demonstra a capacidade de Joaquim Pedro de Andrade em inovar, mesmo em um filme marcado pela narrativa histórica. Nas palavras de Fernão Ramos, discordar parece ser a marca dos integrantes do Cinema Novo que buscaram alternativas às propostas cinematográficas estipuladas pelos militares na ditadura.

    “O diálogo dos cinemanovistas com estas proposições foi imediato. OS INCONFIDENTES (direção de Joaquim Pedro de Andrade, 1972), faz absoluta questão de discordar. Subversão temporal, diálogos literários retirados dos autos da devassa da Inconfidência e da poesia de Cecília Meireles estão presentes numa narrativa centrada não em Tiradentes mas nos intelectuais do movimento. Uma obra sofisticada, colocando em cena a discussão histórica, mas extrapolando para um questionamento do papel dos intelectuais e também da própria linguagem cinematográfica. O Cinema Novo respondia pesado ao oficialismo histórico do movimento, radicalizava e patinava junto ao público. OS INCONFIDENTES é um filme ousado e amargo, indicador de uma época difícil, em que mudanças eram inevitáveis, arrastando em sua esteira os que se opunham a uma incipiente, mas potencialmente forte, expansão cinematográfica. Estado e mercado pareciam prestes a emparedar a vitalidade cinema-novista.”

    Referência: História do Cinema Brasileiro. Fernão Ramos (organizador). São Paulo: Círculo do Livro, 1987.

    Os inconfidentes (Brasil, 1972), de Joaquim Pedro de Andrade. Com José Wilker (Tiradentes), Luiz Linhares (Tomás Antônio Gonzaga), Paulo César Pereio (Bueno da Silveira, Fernando Torres (Cláudio Manoel da Costa), Carlos Kroeber (Alvarenga Peixoto), Nelson Dantas (Luís Vieira da Silva), Carlos Gregório (José Álvares Maciel), Fábio Sabag (Visconde de Barbacena), Wilson Grey (Joaquim Silvério dos Reis), Tereza Medina (Bárbara Heliodora).

  • Os embalos de sábado à noite

    Lembro-me de jovens levantando no meio da sessão do filme para pentear os cabelos para trás, ajeitando-os com as mãos. Lembro-me de casais reproduzindo os passos – meticulosamente ensaiados em casa, em frente ao espelho – nas festas adolescentes. Lembro-me de gente se espremendo nas portas das discotecas e depois soltando braços e pernas sob as luzes estroboscópicas nas pistas de dança como se nada mais importasse. “Os embalos de sábado à noite era o filme favorito de Gene Siskel, que o assistiu pelo menos 17 vezes. Todos nós temos filmes assim, títulos que transcendem as categorias de bom ou ruim e penetram direto em nossos corações.” – Roger Ebert. 

    Devo estar perto desta marca ao assistir novamente ao filme. Poderia buscar mil explicações para o fascínio por um filme com muitos defeitos, que parece envelhecido e ingênuo. Um filme com cena de homofobia e diálogos racistas (o diretor se justifica dizendo que no Brooklyn todo mundo era assim e a cena do concurso de dança redime o personagem principal do preconceito). Um filme com músicas que morreram com a época, cujos discos foram, inclusive, queimados por radicais aos gritos de “eu odeio a música disco”. É preciso pensar um pouco antes de assumir com coragem que você um dia gostou dos Bee Gees. Mais ainda, que um dia você usou camisa de poliéster, calça boca de sino e sapato de três andares.

    É onde está a magia de Os embalos de sábado à noite. Para entender ou gostar da década de 70 é preciso tê-la vivido. Na época, turmas de adolescentes andavam à noite pelo bairro em busca de aventuras que poderiam resultar em confrontos. Nas festas regadas a disco, sedução estava associada a passos de dança eróticos que oscilavam entre o grotesco e o sensual. Tony Manero era a representação textual dessa geração.

    “De certo modo, Tony Manero representou o gênero de adolescência que Gene não teve… As imagens mais duradouras do filme são as alegres cenas em que Tony se pavoneia pela rua, veste-se para sair à noite, domina a pista da discoteca em um solo de dança… O filme tem muita tristeza e dor, mas depois de alguns anos só nos lembramos de Travolta dançando na pista, vestido naquele clássico terno branco de discoteca e a trilha sonora dos Bee Gees.” – Roger Ebert. 

    John Travolta interpreta um personagem confuso, doce e inseguro. Um jovem de 19 anos cujo mundo se resume à pista de discoteca, a noitadas com amigos que o admiram e obedecem e a “trepadas” em bancos traseiros de carros. Quando acorda de manhã, se defronta com seu mundo verdadeiro. A família em conflito permanente. O emprego de bairro sem perspectivas. A impossibilidade de se relacionar amorosamente com a amiga. Stephanie (Karen Lynn Gorney) joga em sua cara: “Você vive com seus pais, sai com seus amigos e nos sábados à noite queima tudo na Odisséia 2001. Você é um clichê. Não é ninguém, não vai dar em nada.” 

    “No fundo, grande parte do filme gira em torno da luta de Tony Manero para encontrar um lugar onde ele possa desenvolver seu potencial. Ele tem medo e todo mundo diz isso a ele. O irmão lhe diz isso e os amigos também. Tudo parece dizer  ‘caia fora daqui. Vá tentar a vida em outro lugar.’ Mas ele tem medo. Dá para ver em seus olhos. No entanto, no fim do filme ele dá o grande passo.” – John Badham.

    A ponte do Brooklyn concentra as cenas mais fortes, ponto de encontro entre violência, sexo e morte. É o fim da ilusão desta geração que entendia muito pouco do que fazia, do que sentia. Motivado pela tragédia, Tony Manero atravessa a ponte, perambula pela cidade de metrô durante toda a noite até bater à porta de Stephanie, em Manhattan. Ele quer deixar tudo para trás: “Talvez, agora que eu pretendo ficar na cidade possamos nos ver. Sei o que está pensando, mas não é isso. Eu não quero comer você. Quero que sejamos amigos. Disse uma vez que poderíamos nos ajudar.”

    “Todos nós possuímos uma forte lembrança da pessoa que éramos no momento em que formulamos uma visão de nossa vida. Tony Manero se situa precisamente nesse momento. Comete erros, se atrapalha, diz coisas erradas, mas, quando faz o que ama, se sente em especial estado de graça. O que Tony sente e faz transcende a fraqueza do filme: estamos certos ao relembrar a arrogância e a beleza de sua dança… Alguns filmes parecem máquinas do tempo: nos levam de volta ao passado.” – Roger Ebert. 

    Os embalos de sábado á noite (Saturday night fever, EUA, 1977), de John Badham. Com John Travolta, Karen Lynn Gorney.

    Referência:

    Grandes filmes. Roger Ebert. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

    Extras do DVD.

  • Napoleão

    O ano, 1927. O filme, Napoleão (Napoleon, França), de Abel Gance. Das mais ousadas e revolucionárias obras do cinema mudo. Na primeira meia-hora de projeção, a tela se divide em nove pequenas seções, ações paralelas acontecem simultaneamente aos olhos do espectador. Na sequência final, Abel Gance divide a tela em três ações paralelas, às vezes a mesma ação vista sob três ângulos diferentes. Personagens transitam de um quadro a outro em alguns momentos, como se passassem em frente a um jogo de espelhos. No clímax, o espectador vê o close de Napoleão imponente no centro, ao lado, as cenas de batalha, como a contemplar o esplendor de suas conquistas.

    Esta inovação exigiu o desenvolvimento de um procedimento tecnológico conhecido como tríptico. “O filme tornou-se famoso na história do cinema pela utilização, nos momentos finais, do tríptico (três telas exibindo, simultaneamente, imagens filmadas com três câmeras). Gance queria aumentar o tamanho da projeção e achava que, com uma câmera virada para a direita, uma para a frente e uma para a esquerda, conseguiria seu intento.” –  Heitor Capuzzo

    As inovações estéticas de Abel Gance não param por aí. O diretor faz intervenções gráficas em cenas, brincando com setas em movimento, letterings sobrepostos a imagens, fusões de frases e imagens, prenunciando um estilo que se afirmaria a partir dos recursos eletrônicos de edição. Fusões sobre fusões marcam a narrativa, chegando a três, quatro camadas de imagens. Quando Napoleão entra no congresso vazio, pouco antes de partir para a campanha da Itália, é assombrado pelos fantasmas da revolução. Mitos como Danton, Saint-Just, Marat, aparecem em imagens sobrepostas e as cadeiras do congresso vão gradativamente sendo tomadas, fusões e mais fusões, por diversos personagens mortos durante o “terror”.

    Em uma sequência ousada, Abel Gance deixa o espectador vislumbrar seios e nádegas das dançarinas em uma festa, ritmando o movimento das mulheres com cortes alternados cada vez mais acelerados, acentuando os corpos das mulheres com sugestivo jogo de luzes.

    Napoleão é mítico na história do cinema. Abel Gance terminou a montagem final com nove horas de duração. Este épico monumental sofreu com a tirania dos produtores: o filme foi completamente mutilado, cortes e mais cortes tentando chegar a uma metragem considerada comerciável. Muito se perdeu do filme original neste processo (a versão restaurada em DVD tem cerca de quatro horas de duração).

    O filme é inovador tecnicamente. Câmeras em trenós movidas por controle remoto ou acopladas ao dorso de cavalos, penduradas em pêndulos; lentes envolvidas em espuma para conseguir tons inusitados; o impressionante tríptico. Tudo para contar a história deste homem fascinante, ousado e revolucionário como o próprio filme de Abel Gance.

    Referência: Evolução das imagens em movimento. Heitor Capuzzo (coord.) Belo Horizonte: Escola de Belas Artes / UFMG, 1998. (pesquisa).