Poemas adolescentes

Ilustração com IA

por Robertson Mayrink

A freira debruçou-se sobre os meus ombros, olhou as letras no papel e me ordenou que repetisse a lição: a s d f g, a s d f g. Na nossa simplificação, não sabíamos nem mesmo o nome correto da escola. A chamávamos de Cursinho das Freiras. Ficava na Rua das Freiras, fácil de falar como a Rua de Baixo e a Rua de Cima.

Na década de 70, o trágico desmoronamento da construção da Gameleira soterrou e matou diversos operários na hora do almoço. A construção foi abandonada, ficaram as ruínas e um gigantesco terreno vazio, plano – onde hoje funciona o Expominas. Improvisamos ali um campo de futebol. Terra batida, pedras no lugar das traves, linhas imaginárias marcando as saídas do campo. Nas tardes de sábado, nossa turma se reunia depois do almoço, uns convidando os outros: “Vamos jogar bola no cemitério.” Tudo muito simples para mentes ainda desprovidas de dor e sofrimento.

Na adolescência, já sabendo da necessidade de trabalhar cedo, me matriculei no curso de datilografia das freiras. Passava uma hora por dia dedilhando as teclas, dedo a dedo, letra a letra, até decorar a sequência correta: a s d f g, ç l k j h. Por conta dessa persistência e do fascínio de ver as palavras se formando a tinta, virei exímio datilógrafo. Quando comecei a trabalhar de office-boy, contei nota a nota o primeiro salário, descontei o dinheiro da condução e gastei todo o resto na compra de uma máquina de escrever portátil, Olivetti Lettera 35, de metal, cinza, fita metade preta metade vermelha para os grifos.

Abandonei o cursinho e continuei em casa o treinamento diário. Saía do trabalho, ia para o colégio noturno e depois das aulas gastava meia hora na mesa da sala de jantar, batendo a máquina, como a mãe costumava dizer. Às vezes, o barulho acordava a mãe, ela levantava-se, me perguntava se eu tinha jantado e emendava, “O que você está fazendo?” “Escrevendo”, era a invariável resposta. Escrevendo trabalhos de escola, fui dos primeiros da classe a entregar trabalhos datilografados, impecavelmente corrigidos, escrevendo arremedos de contos, crônicas, qualquer coisa que se assemelhasse a um texto. Escrevendo poemas e mais poemas que me ajudaram na difícil arte de conquistar.

Era a época das discotecas, das festinhas de bairro, cada fim de semana em uma casa diferente. Meninos e meninas chegavam com LPs, compactos, cassetes, o som 3 em 1 no volume máximo. Todo mundo dançando feito John Travolta no filme Os embalos de sábado à noite. Eu não dançava. Ficava encostado na parede da sala. Meus olhos sempre encontravam os olhos de uma menina, mas até me decidir ela tinha sumido, sozinha ou com alguém mais despojado. Restava a máquina de escrever à noite, a mãe assustada pela hora daquele negócio batendo. 

Quando o tempo dava uma oportunidade ao flerte, bem lento no meu caso, ou seja, quando a menina se permitia a olhares furtivos durante dias – em alguns casos meses – eu descobri um jeito. Entregava um pedaço de papel dobrado dentro de um livro, no caderno da escola, ou pedia à minha irmã para se fazer de correio. Depois eu telefonava, convidando para um domingo à tarde no cinema. Sentados, nossos braços roçavam, dedos acariciavam o dorso da mão até se entrelaçar. O filme ficava esquecido na tela a cada beijo. 

Nessas noites a mãe ouvia a máquina de escrever batendo mais forte.

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